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Centro Estudos História Atlântico
MOTRIL- O ÚLTIMO REDUTO DO AÇÚCAR NO MEDITERRÂNEO
No extenso vale, definido pelo rio Gadalfeo, são visíveis os verdejantes canaviais a contornar a altaneira vila árabe de Almunecar e a cidade portuária de Motril. Quem entra pela cidade pelo Oeste depara-se pela frente com um conjunto de novas construções que convivem com as vetustas habitações, em que se insere um complexo açucareiro,agora feito casa de Cultura. No século dezasseis ele, dominava uma vasta área de canaviais, hoje não resiste ao avanço da cidade. Uma torre sineira domina uma imponente fachada que esconde o recinto de um engenho de açúcar do século XVI. Ultrapassa-se a pesada porta de madeira e diante de nós depare-se um pátio de sabor mourisco, que dá acesso a um espaço escavacado, onde há bem pouco tempo os arqueólogos puseram a descoberto o pouco que resta do engenho: as cantarias da moenda e o sulco da prensa aí estão, aguardando pelo projecto de museu do açúcar, já em marcha. Tudo isto foi possível graças ao empenho de muitos e à coordenação científica do Prof.Antonio Malpica nas excavações arqueológicas que aí se realizaram. De futuro neste espaço, esventrado pelos arqueólogos, erguer-se-á um espaço museológico, memória viva do labor dos engenhos seiscentistas da costa mediterrânica. Ali bem próximo, nos arredores da cidade, jazem - adormecidos alguns engenhos da era industrial. Uns ainda laboram, fabricando alcool, aguardente e açúcar, outros permanecem adormecidos. São amplos espaços enchidos com pesada maquinaria de ferro, agora imobilizada sob uma capa de poeira e teias de aranha, que aguardam uma saída feliz com o projecto que se pretende de um museu industrial. É intenção dos pro motores culturais da Casa de La Palma, entidade organizadora dos seminários sobre a História da cana de açúcar, alorizar um destes recantos em termos museológicos. Por outro lado são evidentes os testemunhos de uma promissora era açucareira, - agora, também, em fase de declíneo e a ceder espaço aos frutos sub-tropicais. Os poucos engenhos laboram agora com dificuldade e apenas um fabrica açúcar, dedicando-se os demais ao alcóol e aguardente, sendo esta última para o fabrico de rum. A exemplo da Madeira são cada vez menos evidentes os canaviais na definição da verdejante paisagem e só a aposta em uso especializados dos seus derivados permite que a cultura e a industria subsistam: em Motril o rum, na Madeira a aguardente para a poncha, ou o mel para o afamado bolo. Todavia é diferente o relacionamento do homem com esta realidade. Na Madeira ela quase passa despercebida, em Motril é uma constante na animação cultural da cidade. Foi esta situação que conduziu a que em 1989 fosse dado o primeiro passo para a criação de um centro internacional de documentação sobre o açúcar e de um forum de debate sobre os problemas e a história deste produto. Nesse ano tiveram início os seminários sobre a História do açúcar, que se realizam -anualmente no fim do Veräo. A cada encontro é definido um tema: em 1989 discutiu-se os problemas do açúcar na época dos descobrimentos, em 1990 falou-se da sua migração mediterrânico no sentido este/oeste e no presente ano foi a vez dos problemas relacionados com a produção na época prè-industrial, e, para o próximo ano, prepara-se já outro encontro sobre a "cultura do açúcar", em que se discutirá a incidência deste produto no quotidiano das gentes, acompanhado de um mostra gastronómica, das diversas regiões produtoras. A partir de agora está aberta uma via de diálogo entre esta instituição, promotora de tão profícuos encontros na cidade de Motril, e o Centro de Estudos de História do - Atlântico, que certamente propiciará um rico intercâmbio ao nível científico, capaz de conduzir a uma maior valorização daquilo que resta da economia açucareira na nossa ilha. O reabilitar do antigo projecto do museu do açúcar através de um antigo engenho poderá ser uma realidade, se acaso houver interesse e apoios para isso. Agora não nos faltam incentivos e apoios científicos, nem, tão pouco, vestígios materiais que o enriqueçam. A exemplar iniciativa em marcha na cidade de Motril deverá motivar-nos a isso, de modo a que näo seja votada ao esquecimento a pioneira intervenção da Madeira na divulgação da cana sacarina no Mundo Atlântico. A plena afirmação da Madeira no plano cultural do Novo Mundo Altântico, agora que estámos em maré de comemorações, deverá passar, necessariamente, por aqui. A Madeira foi pioneira neste campo mas só ficará assim imortalizada se souber honrar esta tradição.
Última alteração: 96/02/07
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