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A ÁGUA-LEVADA COM AMOR E ÓDIO


ALBERTO VIEIRA


"A linfa corria, assim, quilómetros, para ir irrigar canaviais e vinhas, hortejos e pomares da terra baixa que nem por estar à beira do oceano tinha menos sede. Nas levadas, que se contavam por centenas, residia toda a economia da Madeira,(...). Algumas tinham origem remota: as suas águas cantavam brandamente há muitos séculos já, dia e noite, noite e dia, por entre a folhagem murmurosa e o silêncio dos grandes abismos" Ferreira de Castro, Eternidade,1933


Impressões como esta abundam nos testemunhos lavrados por inúmeros visitantes, escritores ou não, que tiveram oportunidade de passear pelas levadas e desfrutar das suas infindáveis belezas. Também o madeirense sentiu esta realidade e deixou-a lavrada em poemas e romances. Horácio Bento de Gouveia é uma referência obrigatória, aliás escolheu a água para titular um dos livros: Águas Mansas. Para o autor as águas que corriam nas levadas, para regar as culturas e accionar os moinhos e engenhos, haviam sido amansadas pelo homem, sendo a levada o grilhão.

Este não será concerteza o momento ideal para falar da água e da sua importância na nossa História e quotidiano. Estámos no Outono e ela pouco corre nas levadas a regar as terras, mas ao contrário é abundante nas ribeiras e regatos, tudo isto fruto das primeiras chuvas. Com isto fica esquecida a sua ausência nas torneiras, o racionamento nas levadas e, por consequência, fazem-nos ignorar quão importante é para a vida. O motivo para esta exposição extemporânea prende-se com duas situações: a leitura das actas do colóquio realizado em Murcia em Abril de 1987(e publicado em 1990), que teve como tema "Agua y modo de produccion"; os comentários de alguém das Canárias que ficou deslumbrado com as ribeiras correntes e os regatos que engalanam toda a costa norte da ilha.

Na verdade, nessas ilhas vizinhas é imemorial o culto pela água(recorde-se que o ritual religioso dos aborígenes fazia dela um elemento essencial). Tudo isto resulta da sua ausência que a colocou, desde os primórdios da ocupação europeia, num bem precioso e uma das chaves da economia do arquipélago. Perante isto se confrontado com o nosso desperdício linfático é algo insólito. Esta admiração reforça a importância vital da água, mas também, nos conduz à dimensão que a mesma assumiu na História. Desde tempos imemoriais a água foi o motor da História: saciou a sede aos sedentos que acolhem aos oásis, serviu para aproximar os homens, para substitui-lo em algumas tarefas e dar vida e riqueza aos campos. Por tudo isto a água assume uma função vitalizadora da economia.

Para o historiador marxista, Pierre Vilar, o incentivador do encontro de Murcia, ela é um "modo de produção", no sentido de que é ponto de partida para o processo económico. Desta relação dominante da água chegou-se à teorização, daquilo que hoje ninguém aceita: o modo de produção asiático. Isto é, os grandes empreendimentos hidraulicos são resultado de teocracias despóticas. O despotismo egípcio e oriental é assim uma necessidade premente da subjugação à água.

A água parece comandar todo o processo sócio-económico. Assim, no entender dos cronistas, o insucesso da ocupação do Porto Santo não foi apenas fruto da praga dos coelhos, pois prende-se mais com a ausência de água para alimentar as culturas de regadio e fazer accionar os engenhos. Ao invés, na Madeira a água foi sempre abundante. A orografia do terreno actuava a favor e contra o curso de água. Por um lado obrigava o íncola a redobrado esforço na sua condução aos socalcos: levar a água ao seu destino é um processo com plicado. Por outro os declives permitem um melhor aproveitamento da sua força motriz.

Com isto, entre nós, apenas um curso de água era capaz de mover as pedras de um moinho, os eixos do engenho e a engrenagem de uma serra de água. Nesta harmonização das actividades está o segredo do progresso económico da Madeira nos séculos Xv e XVI. E cedo a coroa o entendeu mantendo-a como património comunal. Diferente foi o que sucedeu nas Canárias onde a pouca água disponível foi cobiçada e dominada pelos privados, tornando-se no "petróleo" dos canários.

Entre nós, num primeiro momento, havia água em abundância para todos, mas, depois, com a rápida ocupação do solo o precioso liquido era escasso. A condução das águas por levadas, sendo os seus incentivadores particulares ou a comunidade de colonos, servidos pela mesma. A presença do capitão e da coroa surgem apenas para assegurar a distribuição equitativa da água, consoante os hectares cultivados. Esta situação repercute-se, inevitavelmente, na estrutura fundiária, que sai valorizada com a presença dela.

Esta realidade chegou até nós e muitos ainda retêm na memória o ritual da distribuição da água pelo levadeiro, o burburinho dos heréus, noite e dia, à espera da água para vivificar as suas culturas. Sim, porque todos os recantos eram cultivados e com o chegar do Verão havia que dar de beber às culturas que medravam verdejantes.

As levadas são logradouro comum e todos os heréus deveriam contribuir para a sua limpeza mo início do Verão e retribuir o levadeiro pela medida das horas de água. No passado recente, tudo começava com o regão à saida da missa de domingo. Hoje esta realidade pertence à História, pois a maioria dos poios jazem abandonados, muitas das levadas passaram para o controlo governamental e outras deixaram de espartilhar a liberdade da água, deixando-a correr livremente nas ribeiras. Não mais a rega nocturna e as dificuldades no regadio, pois os poços de retenção fizeram aumentar a oferta do precioso liquido.

As levadas são um dos mais imorredoiros vestígios das lutas e canseiras do íncola. Mas, até hoje não vimos nenhum estudo sério e capaz de nos elucidar esse protagonismo e que fique como homenagem a todos aqueles que se bateram para abrir estas veias que dão vida ao rincão madeirense. Também, porque fazemos perder-se os poucos vestígios dos engenhos de açúcar e a única serra de água? E esta parece ser uma necessidade, mais urgente neste virar de século em que a Ecologia parece tornar-se na nossa primeira e única obsessão.

As levadas são o exemplo mais perfeito da capacidade empreendedora do madeirense: capaz de esventrar o solo basáltico para desviar o curso das ribeiras ou do rio Nilo, como o pretendeu Afonso de Albuquerque. Na verdade, foi muito propalado o engenho dos madeirenses no traçar das levadas que o acompanharam na sua diáspora com o açúcar, chegando mesmo até Cuba.

Hoje, todavia aquelas que se mantêm vivas são fruto da nova geração em que o estado se substitui ao cidadão. São os planos de aproveitamento hidroelétrico do Estado Novo. Tudo começou em 1813, mas só em 1952 a Madeira teve o seu plano de aproveitamento hidraulico definido, que veio a propiciar um maior aproveitamento de áreas de regadio e um novo uso com a produção de energia hidroeléctrica.

Desde 1939 que se prentendia avançar com este plano como forma para promover a agricultura e suprir as carências alimentares. Deste modo a política do Estado Novo para a água chegou à Madeira em 1943 com a criação da Comissão Administrativa dos Aproveitamentos hidráulicos da Madeira. As obras lançadas a partir de 1949 tiveram o condão de ocupar muitos braços livres, que aguardavam a oportunidade da emigração. Com uma só iniciativa encontrava-se a solução para três problemas: falta de água para o regadio, energia hidroeléctrica e a emigração. Com isto ganharam-se algumas guerras na luta contra a madrasta natureza.

Hoje, passados mais de 400 anos, está vencida a batalha de domar a água. Ao presente e ao futuro restam alguns desafios para resolver a assimetria entre a abundância e ausência ou escassez, que é o mesmo que quem diz entre o norte e o sul.

Olhando, retrospectivamente, esta luta titânica dos nossos avós para domar a água, podemos afirmar que Fernand Braudel tinha razão quando identificava a cultura de sequeiro com a liberdade e a de regadio com a escravatura. Na verdade, assim aconteceu, pois o Homem para dispor da água de regadio amordaçou-se e a si próprio. Os escravos traçaram as levadas e os heréus envolveram-se numa subjugação total à agua, alimentando querelas onde a água cede lugar ao sangue, como sucedeu em 1963 na Ponta de Sol. Por isso, podemos afirmar que as levadas madeirenses foram também alimentadas com suor e sangue...!

Última alteração: 96/02/07


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