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Centro Estudos História Atlântico
OS OUTROS ENTRUDOS: A ILHA TERCEIRA
A partir do carnaval brasileiro definiu-se um modelo de folia para esta quadra que conquistou a Europa, onde ele vem buscar as suas origens. O carnaval brasileiro assume-se como uma expressäo crioula das folias europeias e africanas, moldadas, no dia à dia, das senzalas dos engenhos de açúcar. Depois a conjuntura recente transplantou-o para as ruas do Rio de Janeiro, moldando-o ao sabor das novas exigências. O carnaval primitivo, de sabor africano ficou esquecido nas senzalas ou nas ruas da vetusta Olinda. Nas ilhas do lado de cá, sempre abertas a esta nova realidade, chegaram alguns resquícios desta tradiçäo, sendo exemplo disso a ilha Terceira, uma das principais pontes de ligaçäo do Velho com o Novo Mundo. Desde o século dezassete que está testemunhada a presença de umas danças populares, que tiveram particular incidência na época do Carnaval, ficando conhecidas como danças do entrudo. A sua estrutura denota uma clara origem: as danças dramáticas de cariz vicentino-judenga, dança das espadas, mouriscadas...- e a sua expressäo brasileira através do Bumba-meu-boi e fandango. A partir do século XIX as danças do entrudo ganha na Terceira uma popularidade nunca antes conseguida: desde a Vinha Brava até à Vila Nova a populaçäo aderiu massivamente a esta manifestaçäo, criando-se vários grupos. A dança, conhecida como do entrudo, compöe-se de um enredo sobre um determinado tema, cuja expressäo cénica é feita em três partes: saudaçäo, enredo e despedida.Tudo isto é coordenado por um "mestre" ou puxador, que se diferencia dos demais elementos do grupo.pela sumptuosidade do traje, uso de espada e apito. Estas danças mantiveram-se na ilha Terceira até a actualidade, mantendo a sua estrutura funcional e variando apenas o enredo, que se adapta sempre às circunstâncias da conjuntura. E é precisamente neste último aspecto que encontrámos em Vila Nova um poeta popular--Francisco Luis de Melo, conhecido como Chico Roico-- que compôs diversas danças, representadas nos esntrudos das décadas de vinte e trinta. Dos inúmeros textos que escreveu a maioria perdeu-se, mas alguns foram recolhidos por Carlos Enes. Destes mereceram a nossa atençäo duas danças:"Dança dos Deportados"(1932) e "Dança dos Pretos"(1933). A primeira é um dos poucos testemunhos populares da revolta de 1931, que começou na Madeira e alastrou aos deportados do Forte de S. JoÄo Baptista da ilha Terceira. O coro, repetido pelo grupo no enredo,é muito significativo da opçäo do poeta: Viva a República/ e abaixo a ditadura/soldados e deportados/ a dançarem com loucura. A última testemunha bem na temática e na linguagem a influência brasileira. Note-se ainda o empenho do poeta em transcrever o linguajar dos negros, preocupaçäo que encontramos já em algumas das peças de Gil Vicente. O que demonstra mais uma vez a filiaçäo destas com as peças vicentinas. Daqui resultou a ligaçäo deste tipo de tradiçäo ludica à populaçäo negra que começou a ser disseminada pelos vários espaços de ocupaçäo europeia no Atlântico por inicitiva dos portuguêses. De acordo com a opiniäo de Luis Fagundes existe uma tradiçäo lúdica da civilizaçäo do açúcar, que acompanhou a espansäo desta cultura no Atlântico. As danças de carácter dramáticop, onde se mistura o enredo das peças vicentinas com o ritmo e colorido das danças africanas, säo, em certa medida, a mais lídima expressäo disso. Em S. Tomé perdurou o Tciloli numa adaptaçäo da peça de Baltasar Dias, O imperador Carlos Magno". Na Terceira foram as danças do entrudo. No último caso näo foi a cultura do açúcar que conduziu à presença dessa tradiçäo mas sim as ligaçöes preferenciais que a ilha manteve com algumas áreas produtoras, como foi o caso do Brasil. Deste modo as danças do entrudo terceirenses teriam adquirido o actual aspecto por influência directa do Bumba-Meu-boi e fandango. Danças que materializam a mais perfeita junçäo das tradiçöes ludicas europeias e africanas. Inexplicavelmente na Madeira näo persistiram quaisquer tradiçöes deste tipo e a única aproximaçäo possível é com a dança das espadas, executada nas festas da Ribeira Brava. E do entrudo madeirense persistiram apenas as tradiçöes europeias do arremsso de objectos, as larajandas, já descritas por Gaspar Frutuoso. Esta situçäo torna-se imcompreensível se tivermos em consideraçäo que os dois ingredientes fundamentais(os escravos e o açúcar) tiveram na ilha grande impacto nos séculos XV e XVI. Mas esta é outra História que oportunamente daremos novos dados para a reflexäo do leitor.
Última alteração: 96/02/07
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