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Centro Estudos História Atlântico
CANAVIAIS E AÇÚCAR DA MADEIRA
O açúcar é de todos os produtos que acompanharam a diáspora europeia aquele que moldou, com maior relevo, a mundividência quotidiana das novas sociedades e economias atlânticas que, em muitos casos, se afirmaram como resultado dele. Começou por ser uma aportaçäo árabe, mas foi no mundo cristão que ele conquistou as grandes áreas. A cana sacarina, pelas especificidades do seu cultivo, especialização e morosidade do processo de transformação, implicou uma vivência particular, assente num particular complexo sócio-cultural da vida e convivência humana. Gilberto Freire foi o primeiro a chamar a atenção dos estudiosos para esta realidade, quando definiu as bases daquilo a que designou de Sociologia do Açúcar: a publicação em 1933 de "Casa-Grande & Sanzala" foi o prelúdio de um novo domínio temático para a Sociologia e a História do Açúcar. Neste contexto a Madeira manteve uma posição relevante, por ter sido a primeira área do espaço atlântico a receber a nova cultura. E, por isso mesmo, foi aqui que se definiram os primeiros contornos desta realidade, que teve plena afirmação nas Antilhas e Brasil. Foi na Madeira que a cana-de-açúcar iniciou a diáspora atlântica. Aqui tornaram-se evidentes os primeiros contornos da estrutura social (a escravatura), técnica (engenho de água) e urbana(trilogia rural) que materializaram a civilização do açúcar. Por tudo isto torna-se imprescindível uma análise da situação madeirense, caso estejamos interessados em definir, exaustivamente, a civilização do açúcar no mundo atlântico. FALSAS VERDADES
O grande erro da Historiografia foi ter encarado a economia açucareira da Madeira ou das Canárias como um retrato em miniatura do que sucedeu mais tarde do outro lado do Atlântico. O confronto das duas realidades, coisa que ainda ninguém se atreveu a fazer, comprova que a situação näo existe, parecendo-nos mera ficção algumas das incursões no tema. O facto de ambos os arquipélagos terem sido meios de ligação da nova cultura económica do atlântico ocidental, näo quer dizer que houve uma transplantação total e igual dos produtos e ambiência sócio-económica envolvente para os novos espaços. Na verdade as condições ambientais, os obreiros da transformação eram outros como diversa foi a realidade que o produto gerou. Tudo isto deverá resultar das ciladas do método de análise do processo histórico de forma retrospectiva, onde, por vezes, o facto surge-nos como a imagem e consequência. Tal como o provaram os estudos recentes sobre a situação da economia açucareira do Mediterrâneo Atlântico, a conjuntura deste espaço é diversa da americana, seja ela insular ou continental. Também não se poderá colocar ao mesmo nível o caso de São Tomé que, embora situado no sector oriental do oceano, aproxima-se mais da realidade antilhana do que dos arquipélagos da Madeira e das Canárias. O mosaico de culturas surge de forma transparente nos testemunhos de alguns visitantes dos rincöes madeirense e canário. De acordo com esta ideia, de que a civilização do açúcar teve apenas uma única forma de expressão no Atlântico Ocidental e Oriental, partiu-se para afirmações aventureiras na análise da economia e sociedade que lhe serviram de base. Ao açúcar associou a Historiografia, desde muito cedo, a escravatura, fazendo jus à afirmação de Antonil, no século dezoito, de que "os escravos são as mäos e os pés do senhor de engenho". Aqui também a relação não nos surge täo transparente como à primeira vista pode parecer. Sucede que a escravatura da Madeira, como já tivemos oportunidade de o afirmar noutros trabalhos, näo assumiu uma posição similar à de Cabo Verde, São Tomé, Brasil ou Antilhas, não obstante o surto evidente de produção açucareira. Aqui, ao invés daquilo que aí tem lugar nesses espaços, o escravo não dominou as relações sociais de produção: ele existiu, sob a condição de operário especializado ou não, mas nunca numa posição dominante. Por fim acresce que esta hipervalorização do açúcar na História da Madeira levou alguns aventureiros e progenitores de teorias de vanguarda a estabelecer também uma forma peculiar de urbanização do Funchal, de acordo com a presença do açúcar. Deste modo ao Funchal do século XVI chamam-lhe, sem saberem e explicarem porquê, "cidade do açúcar", quando na realidade, a expressão urbanística da cana-de-açúcar é manifestada pela ruralidade.
Os italianos foram os primeiros a aperceber-se da importância da cultura e produto daí resultante, sendo os motores da sua expansão na cristandade ocidental. De acordo com a tradição as iniciais socas de cana que foram trazidas para a Madeira teriam vindo da Sicília, acompanhadas dos operários especializados, não obstante estar testemunha a presença desta cultura no reino, em Coimbra e no Algarve. Os mercadores italianos, nomeadamente genoveses, seguiram-lhe o rasto, e quando a cultura se tornou importante na economia local e começaram a surgir dificuldades com o comércio do açúcar oriental. Na ilha começou a delinear-se um mercado substituto desse que, entretanto, caíra em poder dos muçulmanas. A conjuntura mediterrânica, definida pelas dificuldades do comércio oriental e da situação das regiões produtoras da costa mediterrânica, favoreceu o rápido incremento da cultura da cana de açúcar na ilha da Madeira e demais espaço atlântico. A primeira metade do século dezasseis é definida como o momento de apogeu da produção açucareira insular e pelo avolumar das dificuldades que entravaram a promoção em algumas áreas como a Madeira onde o cultivo era oneroso e os níveis de produtividade desciam em flecha. Nesta época as ilhas de Gran Canária, La Palma, Tenerife e S. Tomé estavam melhor posicionadas para produzir açúcar a preços mais competitivos. A situação ganhou forma na década de vinte do século dezasseis e avançou à medida que os novos mercados produtores de açúcar atingiam o máximo de produção. A crise do comércio do açúcar madeirense, a partir da década de setenta do século XVI, madeirense não se explica apenas pela concorrência do açúcar das Canárias, Brasil, Antilhas e S. Tomé mas, acima de tudo, pela conjugação de vários factores de ordem interna: a carência de adubagem, a desafeição do solo à cultura e as alterações climáticas. A concorrência do açúcar das restantes áreas produtoras do Atlântico, bem como a peste (em 1526) e a falta de mão-de-obra contribuíram para o agravar da situação de crise do açúcar madeirense. A tradição historiográfica tem defendido erradamente a ideia de que os canaviais sucumbiram, na primeira metade do século XVI, com a concorrência das produções de outras ilhas e, nomeadamente, do Brasil. Mas, o açúcar não desapareceu dos nossos poios e quotidiano. Ele casou com o madeirense e acompanhou-o na ilha e fora dela. A par disso há uma tradição da indústria açucareira, assente na laboração do açúcar por meio das conservas ou casquinha, nas tecnologias, que persistiu, quase até à actualidade. E hoje de novo a cultura parece querer regressar aos nossos campos. A conjuntura do século dezassete foi favorável ao retorno da cultura. Algumas terras de vinha ou searas cederam lugar às socas de cana. Mas estas pouco ultrapassaram, num primeiro momento, a valoração da área agrícola circum-vizinha do Funchal. A ocupaçäo holandesa do nordeste brasileiro fez com que a cultura fosse reabilitada como forma de responder à sua solicitação na Europa e pela necessidade resultante das indústrias de conserva e casquinha. Esta foi no entanto uma recuperação passageira uma vez que na década seguinte o reaparecimento do açúcar brasileiro no porto do Funchal trouxe de volta a anterior situação. O açúcar madeirense estava, mais uma vez, irremediavelmente perdido, mercê da concorrência do brasileiro. Ainda em 1658 procurou-se apoiar o seu cultivo ao reduzir-se os direitos sobre a produção para um oitavo, mas a crise era inevitável. A conjuntura económica de finais do século dezanove trouxe a cultura de regresso à Madeira, como o intuito de reabilitar a economia que se encontrava profundamente debilitada com a crise do comércio e produção do vinho. Todavia a situação, que se manteve até à actualidade, näo atribuiu ao produto a mesma pujança económica de outrora. Esta ultima fase, que terminou em 1976, foi marcada por grandes inovações ao nível da força de trabalho e da tecnologia. A abolição da escravatura implicou uma revolução tecnológica nas técnicas de cultivo e laboração do açúcar. A máquina a vapor chegou ao engenho e com ela inúmeras inovações que tornaram mais fácil e lucrativa a safra. Esta conquista de inovação tecnológica era custosa e só foi conseguida à custa de medidas proteccionistas. Sucedeu assim em todo o lado. Entre nós isto ficou conhecido como a questão Hinton. A família Hinton segurada na influência das autoridades diplomáticas britânicas e da intervenção pessoal junto da coroa e, depois, das hostes republicanas, conseguiu atingir os seus objectivos. Tudo começou com as medidas fornecedoras da entrada de melaço estabelecidas pela lei de 1895, associado ao decreto de 1903, um regulamento anexo a este decreto determinava a forma de matrícula das fábricas. Entretanto, caia a monarquia e sucedeu a República, que parecia querer fazer ouvidos moucos às regalias conquistadas no anterior regime. Mas de novo as influências moveram-se a família Hinton conseguiu pelo decreto de 11 de Março de 1911 assegurar o monopólio do fabrico do açúcar e regalias na importação de açúcar das colónias. Os anos seguintes foram de plena afirmação deste monopólio e de luta sem tréguas às fábricas de aguardente. Note-se que o consumo excessivo da aguardente era o inimigo número um da saúde pública, sendo a Madeira, por essa situação, definida como a ilha da aguardente. Depois foi o que se viu até que em 1985 agonizou em definitivo o império do açúcar do Hinton, construído com pés de barro, sustentado pelos favores políticos, vegetando à custa da exploração dos lavradores de cana. A CULTURA SEGUNDO GIULIO LANDI: UM TESTEMUNHO DE 1530
te as canas e estendem-se por ordem nos sulcos. Depois, cobertas de terra, vão-nas regando amiudadas vezes, de modo que a terra sobre os sulcos não se torne seca mas se mantenha sempre húmida. Daí que, pela força do sol, cada nó produz a sua cana que cresce a pouco e pouco cerca de quatro braças e sucedia assim porque o terreno aplicado então ao cultivo, tinha mais força de produção (...). Assim amadurecem ao fim de dois anos e, quando maduras, cortam- -nas na Primavera, rente ao pé. Os pés, germinando de novo, produzem outras canas para o ano seguinte, as quais não crescem tão altas, mas com cerca de menos uma braça e, ao fim de um ano, ficam maduras. Cortadas estas segundas, arrancam totalmente as plantas para depois, no devido tempo, reporem outras canas como se disse. Quando maduras, chegam muitas vezes a ser danificadas pelos ratos. Por isso os escravos empregam muita diligência em apanhar e matar estes ratos (...). Os lugares onde com enorme actividade e habilidade se fabrica o açúcar estão em grandes herdades, e o processo é o seguinte: primeiramente, depois que as canas cortadas foram levadas para os lugares acima referidos, põem-nas debaixo de uma mó movida a água, a qual, trituram- do e esmagando as canas, extrai-lhe todo o suco. Aqui há cinco vasos postos por ordem, para cada um dos quais o suco saído das canas passa um certo tempo em ebulição, depois, passando para os outros casos, com fogo brando, dão-lhe com habilidade a cozedura, de modo que chegue a espessura tal que, posto depois em formas de barro, possa endurecer. A espuma que se forma ao cozer o açúcar, deita-se em barri- cas, excepto a que sai da primeira cozedura, porque esta se deita fora; mas a outra, que se conserva, é muito semelhan- te ao mel". OS ENGENHOS FRUTO DA INVENÇÃO MADEIRENSE ?
Näo conhecemos qualquer dado que permita esclarecer os aspectos técnicos deste engenho. Apenas se sabe que em 1530 eram uma "mó movida a água", semelhante ao sistema usado no fabrico de azeite. Uma das questões que mais tem gerado polémica prende-se com a evolução da tecnologia do fabrico do açúcar, concretamente a passagem do trapiche ao engenho de cilindros. O primitivo Trapettum era usado já na Roma antiga para triturar azeitonas e sumagre, sendo, segundo Plínio, inventado por Aristreu, Deus dos Pastores. Mas este tornou-se um meio pouco eficaz nas grandes plantações, tendo-lhe sucedido o engenho de eixo e cilindros. É aqui que as opiniões divergem. Existe uma versão que aponta esta evolução como uma descoberta mediterrânica. A Historiografia castelhana encara isso como um invento de Gonzalo de Veloza, vizinho da ilha de La Palma(considerado por muitos como madeirense), que teria apresentado o seu invento em 1515 na ilha de S. Domingos. Outros há que apontam ser este resultado do invento do madeirense Diogo de Teive, patenteado em 1452. Outros apontam para a sua origem chinesa. O engenho de três eixos surge mais tarde no Brasil sendo considerado também uma invenção portuguesa, inegavelmente ligada aos madeirenses aí radicados. A palavra trapiche entrou depois no vocabulário do açúcar a designar todos os tipos de engenhos de cilindros usados para moer cana. Nos arredores do Funchal existe uma localidade com este nome, o que prova ter existido aí um engenho deste tipo.
AS CONSERVAS E DOÇARIA
O exemplo da fama alcançada pela arte da confeitaria temo-la na embaixada enviada por Simão Gonçalves da Câmara ao Papa. Segundo Gaspar Frutuoso compunha-se de "muitos mimos e brincos da ilha de conservas, e o sacro palácio todo feito de assucar, e os cardeais todos feitos de alfenim, dornados a partes, o que lhes dava muita graça, e feitos de estatura de hum homem". Um dos factores de promoção desta indústria ao nível das conservas, foi a importância assumida pelo Funchal como porto de escala de abastecimento para a navegação atlântica. Muitas embarcações aportavam aí com o intuito de se fornecerem de conservas de citrinos para a sua dieta de bordo. Mas, sem dúvida, o consumidor preferencial das conservas e doçaria madeirense era a Casa Real portuguesa. D. Manuel foi o seu consumidor preferencial e aquele que divulgou as suas qualidades na Europa. Assim ficaram como o seu principal presente, dentro e fora do reino, sendo o seu exemplo seguido por Vasco da Gama, que também ofertou o xeque de Moçambique com conservas da ilha. AÇÚCAR E ARTE
Uma das formas de ostentação da grande aristocracia fundiária, com todos os interesses na produção de açúcar, foi sem dúvida a pratica da compra de obras de arte para embelezar as capelas anexas às suas amplas vivendas, nas igrejas ou apenas para uma simples doação à igreja paroquial. A Flandres nesta época notabilizara-se, não apenas pelos panos, mas também pelas pinturas e esculturas. As oficinas trabalhavam incessantemente para dar vazão à procura das suas obras, que então se trocavam por açúcar, pastel, ou outro qualquer produto, ä consoante as encomendas proviessem da Madeira e Canárias ou ä Açores. Ao contrario do que se pretende afirmar a pratica de troca de açúcar por pintura e escultura flamengas não foi só apanágio dos madeirenses. Também os nossos vizinhos de Canárias, nomeadamente em La Palma, Gran Canária, Tenerife, ilhas onde o açúcar adquiriu grande pujança.O mesmo se poderá dizer no Brasil, com especial destaque para S. Paulo e Paraíba.
Última alteração: 96/02/07
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