III SIMPOSIO DA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL

DE HISTÓRIA E CIVILIZAÇÃO DA VINHA E DO VINHO

 

Funchal (Madeira), do 5 a 8 de Outubro de 2003

A fama do Vinho Madeira é muito antiga, pois desde tempos muito recuados tornou‑se na bebida preferida do militar, expedicionista, aventureiro, em terras da América ou Ásia. Escolhido pela oligarquia colonial, o vinho manteve‑se durante muito tempo cativo do mercado londrino, europeu e colonial.

O ilhéu desde o último quartel do século XVI fez mudar os canaviais por vinhedos, os quais alastraram a todas as terras cultivadas, devorando a floresta a sul e a norte. Nesta autêntica “febre vitícola” o madeirense esqueceu que devia semear cereais e plantar árvores de fruto. O vinho era a única fonte de sustento pois com ele adquiria‑se o alimento necessário, trazido pelas embarcações americanas, ou a indumentária e manufacturas europeias, nomeadamente inglesas, tudo trocado por pipas de vinho.

Viveu a Madeira, desde o século XVII a princípios do XIX, embalada pela opulência derivada do comércio do vinho e, com tão avultados proventos, o madeirense adquiriu o luxo exuberante do meio aristocrático londrino. O íncola habituou‑se à vida cortes europeia, copiou os hábitos ingleses e, nas quintas rodeadas de sumptuosos vinhedos e jardins, rivalizava‑o no mais ínfimo pormenor.

A presença da vinha na Madeira, que surge com os primeiros colonos, era uma inevitabilidade do mundo cris tão. O ritual religioso fez do pão e do vinho os dois elementos substanciais da sua prática, fazendo‑os símbolos da essência da vida humana e de Cristo. Por isso o vinho e o pão avançaram conjuntamente com a Cristandade, levados por monges e bispos. Tal realidade veio revolucionar os hábitos alimentares do Ocidente cristão, a partir do séc. VII, estabelecendo o comer pão e beber vinho como o símbolo do sustento humano.

Em meados do século XV, com o processo de ocupação e aproveitamento da ilha, é dada como certa a introdução de cepas vindas do reino e mais tarde as célebres do Mediterrâneo. João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo, que receberam o domínio das capitanias do arquipélago, sob a direcção do monarca e do Infante D. Henrique, procederam ao desbravamento e ocupação do solo com diversas culturas trazidas do reino ‑ o trigo, a vinha e a cana.

Num lapso de tempo a paisagem da ilha transformou‑se: das escarpas brotaram as culturas e o denso arvoredo foi cortado para construir habitações, erguer latadas. Nas planuras ribeirinhas do oceano, onde havia local para varar um barco surgiu o Homem na fúria constante contra a natureza a traçar socalcos que fez decorar de dourados trigais e de verdejantes canaviais e vinhas. No Funchal do funcho fez resplandecer os campos de trigo entremeados, aqui e acolá, por canaviais e vinhedos. Em Câmara de Lobos, depois de afugentados os lobos-marinhos, subiu encosta acima de picareta na mão traçando o rendilhado dos socalcos donde fez plantar a videira em vistosas latadas.

Foi desta forma que a vinha conquistou o solo ilhéu em todas as direcções, tornando‑se o vinho um produto importante na actividade agrícola do ilhéu. Já em 1455 Cadamosto ficara deslumbrado com o que viu na área vitícola do Funchal; «...tem vinhos, mesmo muitíssimo bons, se considerar que a ilha habitada há pouco tempo. São em tanta quantidade, que chegam para os da ilha e se exportam muitos deles

O vinho na Madeira do séc. XV apresentava‑se já com um produto competitivo do trigo e do açúcar, com grande peso na economia local, sendo desde o início um potencial produto do mercado externo da ilha. Os testemunhos abonatórios da importância no comércio externo são múltiplos. Shakespeare não se faz rogado na insistente alusão nalgumas das suas peças de teatro que o imortalizaram.

 

Os trigais e canaviais deram lugar às latadas e balseiras e a vinha tornou‑se na cultura exclusiva do colono madeirense, à qual dá todo o engenho e arte. Tudo isto projectou o vinho para o primeiro lugar na actividade económica da ilha, mantendo‑se por mais de três séculos. O ilhéu, desde o último quartel do séc. XVI, apostou em exclusivo na cultura da vinha, tirando dela o necessário para o seu sustento diário e, igualmente, para manter uma vida de luxo, sumptuosos palácios e igrejas.

Se em 1547 Hans Standen refere que a economia da ilha se define pelo binómio vinho/açúcar, já em 1578 Duarte Lopes colocava o vinho em primeiro lugar nas exportações e em 1669 o cônsul francês afirmava que o vinho era o principal negócio da ilha. Toda a documentação dos sécs. XVIII/XIX é unânime em considerar o vinho como a principal e total riqueza da ilha, a única moeda de troca. A Madeira não tinha com que acenar aos navios que por aí passavam, ou a demandavam, senão o copo de vinho. Tudo isto fez aumentar a dependência da economia madeirense.

Contra esta política exclusivista imposta pelo mercantilismo inglês se manifestaram, quer o governador e capitão general Sá Pereira, em regimento de agricultura para o Porto Santo, quer o corregedor e desembargador António Rodrigues Veloso em 1782 nas instruções que deixou na Câmara da Calheta, quando aí esteve em alçada. Mas foi tudo em vão, ninguém foi capaz de frenar a “febre vitícola”, nem de convencer o viticultor a abandonar a vinha, num momento em que o vinho da ilha tinha grande procura no mercado internacional. E, mesmo assim, poucos eram os anos em que a colheita era suficiente para satisfazer a grande procura. Por isso, socorria‑se aos vinhos inferiores do norte e, até mesmo, ao vinho dos Açores e Canárias para poder saciar‑se o sedento colonialista europeu.

Desde o século XV que o ilhéu traçou a rota no mercado internacional, acompanhando o colonialista nas suas expedições e fixação na Ásia e América. O comerciante inglês, aqui implantado desde o séc. XVII, soube tirar partido do produto fazendo‑o chegar em quantidades volumosas às mãos dos seus compatriotas que se haviam espalhado pelos quatro cantos do mundo colonial europeu.

O movimento do comércio do vinho da Madeira ao longo dos sécs. XVIII e XIX imbrica‑se de modo directo no traçado das rotas marítimas coloniais que tinham passagem obrigatória na ilha. A estas fundamentais juntavam‑se outras subsidiárias, quase todas sob controlo inglês: são as rotas da Inglaterra colonial que fazem do Funchal porto de refresco e carga de vinho no seu rumo aos mercados das Índias Ocidentais e Orientais, donde

regressavam, via Açores, com o recheio colonial; são os navios portugueses da rota das Índias, ou do Brasil que escalam a ilha onde recebem o vinho que conduzem às praças lusas; são, ainda, os navios ingleses que se dirigem à Madeira com manufacturas e fazem o retorno tocando Gibraltar, Lisboa, Porto; e, finalmente, os norte-americanos que trazem as farinhas para madeirense e regressam carregados de vinho.

Por todas estas razões o vinho conquistou, desde o séc. XVI, o mercado colonial em África, Ásia e América afirmando‑se até meados do séc. XIX como a bebida por excelência do colonialista e das tropas coloniais em acção. Regressado o colonialista à sua terra de origem, depois do surto do movimento independentista, trouxe na bagagem o vinho da ilha e fê‑lo apreciar pelos seus patrícios.

O momento de apogeu da exportação para estes mercados situa‑se entre finais do séc. XVIII e princípios do séc. XIX, altura em que a saída atingiu a média de 20.000 pipas. Durante este período mais de 2/3 do vinho exportado destinava‑se ao mercado colonial americano, de que se destacam as Antilhas, as plantações do sul da América do Norte e N. York. A primeira metade do séc. XIX é pautada por uma acentuada alteração na geografia do mercado consumidor do vinho da Madeira. É o período de afirmação dum novo mercado para cobrir as exigências de novos e velhos apreciadores. A Inglaterra, Rússia tomaram o lugar do mercado colonial a partir de 1831.

A juntar a esta mudança temos a concorrência do vinho de França, Espanha e Cabo. Mais uma vez o curso da História atraiçoou‑nos. O fim das guerras europeias, em princípios do séc. XIX, abriu as comportas do vinho europeu ao potencial mercado colonial asiático e americano. A retirada do colonialista das áreas colonizadas fez perder o gosto pelo vinho da ilha. Os primeiros sintomas disto surgem a partir de 1814, agravando‑se de ano para ano. As colheitas de 1819 a 1821 mantiveram‑se estagnadas nos armazéns, por isso em 1820 vinte mil pipas aguardavam comprador. O retrato verdadeiro da situação encontra na voz desesperada do homem da época: «Estão as casas ricas de vinho, pobres de sustento e de alimento».

Por tudo isto a recordação do período que decorre dos anos de 1840 a 1860 faz‑se com muita dor e lágrimas. Foi a época de maior sofrimento do íncola. A única solução possível foi a emigração madeirense, mercê da solicitação e aliciamento de ingleses e seus acólitos, que fez com que a força de trabalho do ilhéu chegasse a longínquas paragens a substituir os escravos, agora feitos libertos. Entre 1840/50 o madeirense perdeu o amor à sua terra e foi ao encontro dum novo paraíso fugaz, criado pelo inglês nas Antilhas.

Hoje, passados mais de quinhentos anos sobre a introdução da vinha na Madeira, todos nós mantemos bem vivo um imenso rol de recordações dos tempos áureos de apreciação e comércio do vinho. Mas, infelizmente, a imagem passou já à História. À euforia da grande procura sucedeu‑se a crise dos mercados, agravada, ademais, pela presença das doenças que atacaram a vinha (oídio e filoxera). Com isto perdeu‑se a ligação ancestral com as tradicionais castas europeias mas, em contrapartida, conquistou‑se as variedades americanas. Também estas dificuldades conduziram à debandada dos agentes comerciais que lhe traçaram o mercado, perdendo‑se, no meio da desgraça, a maior parte da documentação particular. Por isso, ao historiador que pretende rastrear este inolvidável percurso deparam‑se inúmeras dificuldades na revelação.

O Vinho Madeira, celebrado por poetas e apreciado por monarcas, príncipes, generais, exploradores e expedicionistas, há alguns anos a esta parte vem perdendo o mercado e os potenciais apreciadores. Isto resulta da situação criada, entre finais do séc. XVIII e princípios do séc. XIX, em que a grande procura fez nascer da água e do fogo quantidades apreciáveis de vinho velho. Depois foi o fastio em 1814. Mais tarde a natureza fez acabar com as cepas de boa qualidade, fazendo‑as substituir pelo produtor directo que se tem mantido lado a lado com as castas europeias numa promiscuidade escandalosa. O futuro anuncia o retorno ao passado com o retorno das castas tradicionais. Resta esperar pela indispensável reconciliação da hodierna microvinificação com a tradicional

Alberto Vieira. 2003.

 


 

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