O NATAL DE HA TRINTA ANOS

 

Diz-se que é festa de todos e, em especial, da família: nada, portanto, mais favorável à ideia de colectividade. Contudo, na Madeira, o sentimento que ela gera é perfeitamente individualista. Cada pessoa tem o «seu» Natal, isto é, sente-o à sua maneira; e, comungando embora com os mais nessa euforia ecuménica, guarda no íntimo, para si apenas, recordações particulares, anseios próprios, -saudades intransmissíveis, um mundo de coisas imponderáveis e inexplicáveis.

Em que difere dos outros este Natal isolado no meio do Atlântico? Por ser mais florido, mais tépido? Por ser aquecido por um sol que transluz entre nuvens, e embalado por um mar cor de pérola, que se move sem pressa, como um desdobrar lento de sucessivas folhas de estanho? Por ter festoes de giestas e grinaldas verdes de alegra-campos, e frutos da flora tropical, e presépios de conjuntos anacrónicos? Por causa daquele silencio de chumbo, soturno e opressivo, abafado e elástico, entrecortado aqui e além pelo rebentar dos petardos? Pela circunstancia rara de toda a gente ficar de portas adentro, no dia principal, a gozar a sua festa num egoísmo quase feroz que parece excluir toda a ideia de comunicação com os estranhos ?

Quando eu nasci ainda havia freiras entre os muros arruinados de Santa Clara e das

-Mercês, em cujas cercas, à tarde, se abriam as longas campânulas das alturas para espalhar na atmosfera esse perfume insidioso, denso, perturbante, que ao mesmo tempo envenena e delicia. Elas, as monjas velhas, é verdade que já não tinham este nome: intitulavam-se recolhidas e estavam para ali abandonadas como as pedras dos claustros. Quem diria pertencerem à mesma congregação que no princípio do século anterior festejara o Natal com uma ceia em que se consumiram vinte e três galinhas para um total de trinta bocas, e se gastaram cento e noventa libras de açúcar no confeito da argolinha ? Todavia, dali emanavam ainda as melhores espécies de bolo de mel, os segredos do farte e da raspadeira, do cuscuz para o desfeito, dos sonhos pelo Entrudo da Quaresma, da talhada de amêndoa em Quarta-feira de Cinzas, do manjar preto, do arroz doce em Domingo de Ramos. Extintos os conventos, laicizaram-se as receitas da copa regional. As donas de casa rivalizaram, nesse ponto, com as franciscanas. Mais uma razão para que a quadra festiva decorresse entre penates—e que as ruas, finda a labuta do mercado, tombassem numa sonolência de três dias, sob um sossego morno e extenuante.

«Se o Natal se estendesse a todos os meses, o mundo seria muito diverso», escreveu algures Charles Dickens, a quem o advento do Menino Jesus inspirou tão belas páginas de prosa. Diverso, sem dúvida, mas também fastidioso. Penso, pelo contrário—e sejam quais forem as razões pelas quais se ambiciona, com tamanho afã, esse regresso ao ciclo natalício—que o seu maior encanto reside precisamente no caso de ser só uma vez em cada ano. Ai de nós, se não esperássemos por qualquer coisa, certa ou incerta! Aguardar o Natal constituía para as crianças do meu tempo a mais bela expectativa da sua vida. Quando ele chegava não direi que se produzisse o desengano, mas uma tal ou qual saciedade insatisfeita, por mais paradoxal que isto pareça.

Das vésperas as festas, diz o rifão. Esta, de que falo, principia com tão complicados e minuciosos preparativos que chega a parecer, no fim de contas, pretexto para reformas domésticas em vez de glorificação duma data célebre. Nas casas, a limpeza a que se procede não exclui a própria caiação das paredes; nos diversos arranjos que se seguem está implícita a substituição das cortinas das janelas e até a modernização dos estofos da mobília. Depois, passando das salas e dos quartos para a despensa e cozinha, vêm em primeiro lugar a amassadura dos bolos de mel e a preparação dos licores, cm especial de tangerina e amêndoa. Aquela constitui uma das mais fortes tradições insulanas, e dir-se-ia inventada por um espírito faceto que porfiasse em misturar os ingredientes mais antagónicos, desde as especiarias— canela, pimenta, noz moscada, cravinho _ ao açúcar, à farinha, à manteiga, à banha de porco Há, na sua confecção, como que um ritual: depois de amassado, o bolo de mel, com uma cruz desenhada a toda a sua altura e largura, fica a levedar durante três dias dentro de um alguidar, antes de ser cozido. E, por mais estranho que isto se afigure, ninguém, ao comê-lo, terá dúvida em confessar que lhe parece muito bom.

Se alguma diferença existe entre estes preparativos do Natal ilhéu e os que se faziam para o enterro dum faraó do Egipto, ela repousa apenas no facto de o sono dum Tutacamão ou dum Ramezes durar uma eternidade, em lugar das setenta e duas horas que se precisam para o recolhimento do português da Madeira nas suas festas consagradas ao nascimento de Cristo. Fora disso, há os mesmos cuidados escrupulosos nos pormenores da limpeza e decoração do interior, a mesmas exigências quanto às provisões de boca, o mesmo zelo no vedar de todas as fendas por onde possa, acaso, transmitir-se qualquer comércio com a vida externa.

O padeiro forneceu o pão destinado ao consumo que deva fazer-se no dia 25 e nos seguintes, que têm o nome de oitavas. A carne de porco está de há muito nas salgadeiras, coberta de vinho, vinagre, malagueta c folhas de louro. As hortaliças são constantemente refrescadas, a fim de não perderem o viço. Distribuiu-se a fruta pelos sítios mais arejados. Tudo está a postos. Desgraçado daquele que se esqueceu de adquirir com antecedência algumas dessas pequeninas coisas indispensáveis ao manejo culinário, um dente de alho, pimenta, sal fino ou grosso. Infeliz de

quem, sendo fumador, não teve a previdência de se munir de alguns maços de cigarros, ou de quem; sendo atreito a enxaquecas, não soube precaver-se com um tubo de aspirinas.

Fechou-se tudo, após a missa do galo. O silencio pesa. O céu é cor de cinza. O ar está

imóvel. Nenhum pássaro se atreve a riscar o espaço, não adeja nenhuma borboleta, a água não cai nas fontes, o mar não se mexe, o Sol descansa num leito de nuvens opalescentes, os lagartos dormem nas brechas dos muros, os ralos não cantam, as flores sustem a custo o seu aroma. Só, de quando em quando, um estampido seco, uma bomba de clorato que rebentou no chão ou um morteiro que se ergueu na atmosfera pasmada.

No interior das casas, como nas capelas das igrejas, o presépio está armado e é mais ou menos igual ao dos anos anteriores: reforçam-no apenas alguns nossos pastores de barro policromo ou uma ou outra inovação do progresso: automóveis que se dirigem para Belém, ao lado de camelos, locomotivas que projectam, pelas chaminés, fumo compacto de algodão branco, belos c complicados transatlânticos ingleses que sulcam oceanos de areia ou de serradura, mesmo aos pés de S. José e da Virgem Maria. O Menino Jesus tem um ar do século XVI veste comprida túnica de seda orlada de rendas e, erguendo a mãozita gordalhufa, toca com o dedo num cacho de bananas de loiça, que está na rocha, e que, a despenhar-se, poderia esmagar a um tempo todos os três Reis Magos. Das escarpas fluem águas de vidrilho, entre fetos e avencas naturais, e nos promontórios mais inacessíveis equilibram-se, por milagre. casas de papel com muitos andares c janelas de- venezianas, e igrejas de altos campanários amarelos ou vermelhos. Por toda a parte, nos recôncavos da lapa, sobem e descem pastores e pastoras, em cujos ombros se ostentam cabazes com laranjas, anonas, maçãs, galinhas, patos e perus. Há peixes fora de água, indiferentes à circunstância de se encontrarem num elemento que não é o seu, e animais de climas antagónicos, reunidos com tanta naturalidade como se estivessem na própria arca de Noé. Em baixo, sobre a mesa, rodeando a toalha de linho, corre uma fila de searas dentro de xícaras—trigo, lentilha, centeio, milho, alpista; estão verdes e pujantes, mas as raízes, sem terra para se expandirem, já se entrelaçaram de tal modo que formam como que um bloco duro e redondo.

Cada pessoa tem o seu Natal, disse eu ha pouco. Neste momento, em volta de mim, agita-se a multidão numa pressa febril. O frio e intenso, caem flocos de neve de vez em quando. As árvores ostentam a copa branca, e delas escorrem fios de água. Há muitos dias que não se vê o Sol, as ruas estão brilhantes da humidade. Todos se refugiam nos teatros e nos restaurantes, em procura de convivência, de ruído, de movimento. Ouvem-se, pelas portas entreabertas, as orquestras que atordoam com o seu entusiasmo profissional; vêem-se pinheiros dentro de vasos de madeira, dos quais pendem inúmeros brinquedos e de onde se elevam no ar, presas a cordéis, bolas coloridas cheias de gás. Dança-se com frenesi. Estalam as rolhas das garrafas de champanhe. Os automóveis atravessavam as ruas, buzinando de contínuo, cruzando-se com os eléctricos e aumentando o estridor e a confusão desta noite festiva. No átrio dum hotel de luxo, ornamentado a primor, passa um velho de - barbas brancas e capuz encarnado; segura no braço um cesto repleto de brinquedos, que ele vai distribuindo no meio de risos, de aplausos, de guinchos, de serpentinas que esvoaçam, de tambores que rufam. Distinguem-se figuras de adultos entre a revoada dos pequenos. Há uns que enfiam na cabeça barretes de papel, verdes, amarelos, azuis, vermelhos, roxos, doirados; outros que pulam ao compasso da música; pares que dançam, criados que servem bebidas, mulheres que fumam, crianças que deliram de alegria ..

Detenho-me à porta, indeciso. E digo de mim para mim: Para que todo esse rumor, toda essa vertigem? Para que vos afadigais dessa maneira, incitando-me em vão? 0 meu Natal não é esse.

 

(Cabral do Nascimento. Lugares selectos de autores portugueses que escreveram sobre o arquipélago da Madeira, Funchal, 1949, pp.268-277)