
«Antigamente o presépio das Mercês, com suas alamedas e ingénuos pastores modelados por barristas indigenas, a alapinha» do Bertholdo, que ocupava uma vasta quadra engalanada a festões de alegra-campo (semele andrógina), esparto e amarelidas flores de «bigónia venusta», e onde se admirava as maquinarias pacientemente ideadas, repuxos espadanantes em meio de rendilhadas avencas, eram locais onde mais amiúde se aglutinava a multidão dos curiosos. A «rocha», vértebras artisticamente formadas de socas de cana-da-roca, com seus outeiros, sinuosidades de lombas e vales ferazes, tudo pinturilado a rôxo-terra e faiscante de pó de mica, apresentava um interessantíssimo aspecto. Aqui, desciam zagalas e pegureiros com as suas oblátas de frutos lampos, anhos recentemente desmamados, gavelas de trigo anafil, um galo tinto de azeviche, e de experimentados esporões. Além, avistavam-se louçanias de padeiras com seu fôrno portátil, vendedeiras de guelros e taínhas em frigideiras de barro, tanoeiros com o chaço e o malho, calafates arqueando a querona e o capiteu dos galeões, sapateiros em rítmicas zumbaias, puxando o fio e trescalando a ceról.
Remeiros de galés e marujos dos nossos dias entrecruzavam-se num inconsciente anacronismo, frades adiposos tinham atitudes inquietantes para a tonsura, irmãos de ópas vermelhas alinhavam-se, pnuito graves, num cortejo religioso. Uma filarmónica, enriquecida de custosos metais e oboés, fechava o préstito, salientando-se pela fulgência de seus alamares um intrépido gaiteiro, afogueadas cores de natureza pletórica, bochecas infladas pelo sopro (. .). No Mar, sôbre uma Placa de vidro polido. Ancoravam naves de mercadorias fenícias e triremes da Hélade transatlânticos que hebdomadariamente se fazem rumo a Cape-Town, faluas, barcos com sua rija quilha de folhados, uma fragata em que se divisavam os gageiros no cesto-da-gávea, velame afortunadamente desferido ao vento galerno.
Toda este amálgama era porém sobrelevado pela humaníssima cena do Nascimento de Jesus. A vaca de mirada fiel, a jumentinha, cordeira e cabra com sua esquila tintinabulante, formavam humilde séquito à Sagrada Família. E enquanto a Virgem e o Senhor San José se enlevavam no sorriso auroral do Menino, o galo sobre o saliente beiral da arribana soltava um estridente cu-cu-ru-cu.
Anjos emergiam de nuvens de algodão em rama, jograis alados e trombeteiros celestes anunciavam a Boa-Nova, cantando em uníssono: Glória in excelsis. E arroubados pela inefável doçura dos coros angélicos, os pastores e os remeiros, pretorianos e hussardos, os Magos e os mesteirais, homens de todos os tempos e de todas as hierarquias, confluiam, em direitura à cabana de Belém, na ânsia de inteirar-se do Prodígio.
Era assim a «lapinha» do Berthôldo».
(...) como o Bom Jesus, onde ainda se lobrigam, actualmente, vilões e viloas modelados em barro escuro por imaginários da ilha, a «lapinha» do sineiro da Sé, com suas sanefas acaireladas de oiro, camélias soerguerdo-se de areia fina e opulentando as jarras de louça, «ouriços» em meio de saiões vivazes e~ umas anonas temporãs; adrêde colocadas em desafio ao pecado da gula.
Vários destes presépios, por deliberação de seus detentores, deixa ram de ser armados, ou foram subdivididos por herdeiros e legatários em mesquinhas parcelas»
[sobre a lapinha do Caseiro, Francisco de Freitas, refere:] « ( . ) povoada de grupas alegóricos, pastores pacientemente talhados em cedro, numerosas figuras plenas de um acentuado movimento, embora por vezes microcéfalas, e que se nos antolham confinadas nos domínios da teratologia»
( Jayme Câmara, De Sam Lourenço. Prosas do Estio e do Outono, 1932) .