
Natal de CristoE: a festa por excelência da população madeirense. Não há outra que se lhe avantaje nem fale tanto à sua crença e sentimento. «Em parte alguma do mundo, talvez, celebrem e gozem tanto a Festa, e sintam por ela tanto entusiasmo e alegria como na Madeira. São dias de vivo regozijo, de contentamento interior, religioso e místico» A Festa, como genericamente se chama na Madeira à comemoração do nascimento de Jesus, tirando esta denominação da noite de festa, do Norte de Portugal, é a preocupação do ano inteiro para toda a gente. Vive-se, trabalha-se e entesoura-se para a Festa Precede esta solenidade um novenário conhecido pelo de Missas do Parto, celebradas ante-manhã com loas ao Menino, que dão lugar às primeiras demonstrações de júbilo e entusiasmo pela aproximação daquela quadra festiva. Os templos regurgitam de fiéis que afrontam a chuva, o vento e o frio das rigorosas manhãs de Dezembro e se encaminham para a igreja com toques e descantes. O rajão, a gaita e outros instrumentos de uso regional cadenciam o passo dos ranchos, e as castanholas estalam desconcertantes aquecendo as mãos do garotio. O povo torna-se expansivo e alegre; uma feição sentimental de comunicativa familiaridade estreita vizinhos e amigos; adormecem todos os 6dios, e renascem como motivos de vida a esperança e a saudade. S a única quadra do ano em que a alma popular vibra expontânea e dá largas a uma expansão natural. Começam os preparativos domésticos que tornam atarefada toda a população. Aumenta a vida e o movimento dos campos e da cidade numa actividade febril. Entre parentes e amigos, padrinhos e afilhados permutam-se presentes e lembranças de frutos, animais, taçalhos de carne de porco, bebidas, objectos de utilidade ou luxo. Recheia-se a despensa e a frasqueira para a oitava do Natal, e não há família, ainda a mais pobre, cuja mesa nestes dias não tenha a seu modo e condição alegria e fartura. Entram na cabeça da ementa: queijo, licor, genebra, anonas, bananas e bolos de mel; para os pobres uns litros de vinho e de aguardente. A matança dum porco é para ricos e remediados uma exigência da Festa, por ser tradicional e indispensável o prato de carne de vinho-e-alhos na refeição do almoço. A fornada de pão para oito dias aquece e alumia a casa contentando netos e afilhados com brindeiros ou merendeiras. Depois desta fornada, é tradição Jardim do Mar, todas as famílias servirem-se do único forno existente na freguesia para cozerem a carne do seu Natal. A 24 de Dezembro, à tarde, desocupa o forno da cozedura do pão, voltam a meter dentro do mesmo, enquanto daquelas fornadas, panelas com a carne da sua Festa. No dia 25 de ma atravessa a freguesia um numeroso rancho de raparigas transportando cada à cabeça a panela do seu jantar natalício e aturdindo os ares com alegria entusiásticas expansões musicais.
Durante a noite da véspera de Natal, a população das ilhas formiga Funchal para a compra de fruta e hortaliças, flores, verduras, figurantes de barro e outros enfeitos para os presépios. O mercado não comporta os abastecimento desta quadra, e uma multidão de vendedores ambulantes improvisa em feira várias artérias da cidade. Na antevéspera daquele dia, outrora, cada vendedor escolhia o local preferido perante um fiscal do Município, e assinalava-o com o chapéu, casaco, botas ou qualquer peça de vestuário do seu uso, ficando abandonados na via pública, mas respeitados por todos os transeuntes, enquanto não fornecia de produtos esse restrito mercado. O movimento de carros e peões entre o Funchal e as povoações rurais é extraordinário e constante, de dia e de noite. Vive-se três dias de inusitada vida em que o povo da Madeira aparece com uma psicologia nova. A Festa modifica-lhe temporariamente o carácter concentrado e mazombo dando vibração à alma; o júbilo brota-lhe expontâneo sem o estímulo da bebida de que se socorre nas demais festas e romarias.
A quem desconhece a virtude doméstica desta Festa parecerá, talvez, que o povo se prepara para uma ágape pagã, mas o espirito religioso que ele adapta ao seu lar, colocando-o sob a égide do Menino Jesus, e o esplendor litúrgico de que o reveste com revivescências poéticas, rústicas e pastoris da Idade-Média dir-lhe-ão que o nosso Natal não é mais do que festa de família em companhia de Deus. A abundância como que provoca alguns excessos, mas tudo se faz de portas a dentro sem escândalo nem ofensa para ninguém, porque dia de Natal é dia de alegria e de indulgência. E porque o Deus Menino entronizado dentro de casa preside a todos os actos da família, tributam-se-lhe loas e orações em Comum.
A Consoada desta noite, tão genuinamente portuguesa, abundante, alegre, acolhedora, afectiva, cheia de lembranças e perdão para inimigos e ausentes, trazida para a Madeira pelos primitivos senhores e colonos, não enraizou nos nossos costumes muito embora o Capitão Donatário do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, segundo do nome, a realizasse em seu solar, nas principais festas do ano. Antes da Missa do Galo e da hora de Consoada arma-se o presépio ou lapinha, nome por que vulgarmente se designa a lapa de Belém onde é figurado o nascimento de Jesus. É um património doméstico entre as tradições do Natal, que ocupa lugar primacial no seio das famílias cristãs, e liga tradições religiosas à vida e natureza locais. Criação muito embora da Idade-Média, resistiu a todas as inovações progressos, por falar à alma simples e ingénua do povo, e compor-se da rusticidade e bucolismo do seu meio. Esta adorável criação de S. Francisco de Assis, introduziram-na em Portugal as freiras do Salvador, de Lisboa, no ano de 1391, e foi trazida para a Madeira pelos colonos e povoadores continentais. Destes a deveríamos ter recebido, figurado em presépio ou lapa, como é tradição sempre representada no Continente português, e dessa denominação derivaria a de lapinha de que se dá na Madeira, desde há séculos, a todas as evoluções do presépio do Menino Jesus.
Este Menino é uma imagem que existe em todas as casas da cidade e dos campos, destinada ao presépio. Sobre uma mesa, «com túnica de seda espiguilhada a ouro (ou brocado), no seu gesto de bênção e a sopesar o mundo», um resplendor de prata na cabeça e na boca um sorriso de divina bondade, se entroniza Jesus no cimo duma escadinha ou no topo duma rochinha miniaturais, feita esta de arrumação de tufos ou de rizomas de carriços, cobertos de tela acinzentada, e no sopé uma gruta para a representação figurada do seu Nascimento. A típica composição do presépio é a história da natureza, da vida social e da psicologia de cada época que passa, deixando de ano para ano, entre as suas incongruências profanas e religiosas. Lembranças que ficam e servem muitas vezes de documentário a uma ou outra geração. A orografia acidentada da ilha é ali representada com a ingenuidade da arte popular: montes e vales revestidos de árvores de papel, atravessados por caminhos ásperos e tortuosas, serpenteando-os arroios e cachoeiras de algodão a dar-lhes movimento e frescura. Casas de cartão e colmo coroam as elevações e espreitam à beira das rochas. Seguindo os caminhos e torcicolando as encostas sobem pastores minúsculos de barro, em tamanhos diferentes, vestidos de cores garridas, figurantes de todos os costumes, cenas da vida, indumentária regional e folias populares com oferendas para o Deus Infante. Um galo canta aos pés do Menino, a vaca e a jumentinha fazem guarda à manjedoura de Belém, e para lá se encaminham os Reis Magos montados em ajaezados dromedários e guiados por uma estrela rutilante. Na planície, por entre mares e lagos de fragmentos de espelho, com frotas de papel, peixes e aves aquáticas de celulóide, saem procissões, marcha a tropa, bandas de musica dão concerto, passeiam figuras de ontem e de hoje; faz-se alusão aos principais actos da vida social, e arremedo a figuras populares. Não faltam engenhosos mecanismos para movimentação de figurantes grotescos e fazer girar a água em canais e repuchos. Até a decência e a religião são por vezes beliscadas por figuras e atitudes que só por ignorância ou simplicidade se justificam e toleram. A mistura com pastores e demais figurantes, germina o trigo, o milho, a lentilha e o tremoço em pires e tijelinhas de barro ou porcelana. As cabrinhas ( Davallia canariensis L. ) debruam e refrescam toda a mesa. Fiadas de laranjas, peros, ouriços e castanhas entremeiam as figuras, ladeando a lapinha canas de açúcar verdejantes. E inseparável desta ornamentação o brindeiro ou merendeira, minúsculo pão que o povo guarda, depois de desarmada a lapinha, com a superstição dum sacramental ou pão-bento para remédio de certas doenças, como a pneumonia, fazendo ingeri-lo o doente aos pedacinhos. Sendo este pão, quando usado, já bolorento, parece que o povo viu nele, desde há ,séculos, o precursor da penicilina. Serpentinas de fios de prata e de ouro sobem e descem por entre um docel de alegra-campo (Semele-Ruscus androgynus L.) e esparto (Aspargus umbellatus Lk.) delineando no espaço caminho a anjos de asas abertas sobre essa terra miniatural qual Belém cosmopolita.
A verdade histórica e o senso estético da arte do barro não acrescentam valor a estas figurinhas de fabrico local e popular, mas a expressão e a forma que as animam dão-lhes vida e graça singulares. «Se toleramos ao Génio notas tão incongruentes, de todo o ponto inverosímeis, não havemos de perdoar à lapinha madeirense, obra do povo inculto e de inocentes crianças, os seus erros de tempo e desvios de lugar, sua falta de unidade em acção e proporções, toda a ingenuidade de meios que é o seu mais alto encantouma vez que ela, tão nossa, docemente retém, como nenhuma outra forma intrusa, a piedosa alma do povo sobre a Virgem e Jesus, e desperta sã ternura e alegria nos olhos dos nossos filhos, deste modo iniciados no fundo da fé cristã?» (1). Mal estudado e mal compreendido, o presépio nem sempre tem recebido do sentimento religioso e estético o apreço condigno ao valor que representa. Não é, geralmente, para muitos, mais do que um simples e rotineiro simbolismo do Natal. Vive-se junto dele, em volta dos sentimentos e emoções que desperta, mas nem sempre se compreende nem se vive com ele e com a sua expressão real e verdadeira. E:, todavia, a psicologia do seu motivo cristão, o sentimento que todos os anos o ressuscita e anima, a arte ingénua com que a alma popular cria e trabalha os seus figurantes de barro, os veste, os distribui, os agrupa e movimenta nesse minúsculo cenário; o espírito religioso da vida doméstica enquanto existe armado o presépio dentro do lar; o espirito de indulgência, de paz, de alegria e de união entre parentes e vizinhos, entre sítios e povoações, que dele se desprende, são elementos apreciáveis de estudo e de ensinamento para a História, para a Arte e para a Religião.
Um dos barristas mais populares, no último século, foi Fernando Perry. Outros houve, em tempos mais afastados, que da modelação rudimentar do barro tiraram arte e nome, deixando obras de valor dispersas como relíquias por mãos alheias, e de que ainda existem numerosos exemplares.
Dos presépios antigos existentes na Madeira alguns honram brilhantemente a arte de barro do século XVIII. Temo-los das três categorias em que os críticos os costumam dividir: Presépio simples, formado exclusivamente pela adoração da Sagrada Família, anjos e os dois animais da tradição evangélica; presépio com a adoração dos Magos e dos Pastores, acompanhados dos Reis Magos e suas comitivas, ricos, luxuosos e imponentes como potentados orientais, e os pastores carregados de oferendas, tributos de submissão e piedade; presépio misto, de figuração bíblica alusiva a cenas da vida de Jesus, e representação de episódios, usos e costumes da época do seu autor. Conservam-se em casas particulares, encerrados dentro de nichos onde foram primitivamente armados, sendo alguns desdobráveis em trípticos. Provêm geralmente de conventos e são obras notáveis de artistas anónimos cuja concepção e modelagem os colocam a par das mais apreciadas no género, ajudando a valorizar o nosso patrim6nio artístico. Com os de barro aparecem presépios de outras matérias-primas, devendo salientar-se um de âmago de figueira, de princípios do século XIX, a que falta o Menino Jesus, pertencente a Júlio de França, e outro de cortiça, mais moderno, executado pelo solicitador José Ferreira, ambos muito curiosos e artísticos. Destes, o primeiro é verdadeiramente admirável pelas figuras miniaturais de pássaros, pastores e vários espécimes de flora e pelo documentário fiel da indumentária da época, usada por todas as classes sociais. A tradição deste presépio dá-o como tendo sido feito por um frade do Convento de S. Francisco do Funchal e oferecido ao Convento de Santa Clara. Entre os modernos barristas de arte intuitiva distingue-se Roberto Cunha pela minuciosidade e perfeição de suas esculturas miniaturais.
Não menos admirável de arte popular é a Lapinha do Caseiro, denominação vulgar do avantajado presépio de cortiça. e madeira talhado por Francisco Ferreira, antigo colono, no Monte, das freiras de Santa Clara, do Funchal, e o caseiro de maior confiança e honorabilidade das propriedades rústicas e urbanas do convento daquela Congregação. Artista nato, dedicou a vida inteira à escultura religiosa, cortando cortiça e madeira com apreciável golpe e inspiração. O seu presépio, que ainda se conserva patente ao público, ao Caminho do Monte, no sitio da Quinta do Salvador, tornou-se centro de numerosas romagens, todos os anos pelo Natal. Não s6 a execução dos pastores como a representação e movimento de toda a vida de Cristo, em figuras individuais e agrupadas, encarecem o valor da obra e o talento privilegiado do artista. São de igual relevo artístico, embora por vezes ingénuo e rudimentar, mas sempre de incontestável intuição estética, outros passos do Antigo e Novo Testamento, descritos a rigor bíblico, em cortiça ou madeira, assim como a figuração de motivos da vida social e doméstica, contemporânea do escultor, monumentos, pessoas e actividades regionais. Esculpiu também muitas imagens que saíram fora desta e se acham à veneração dos fiéis até no estrangeiro.
O nosso presépio não foi sempre a Rochinha. Durante mais dum século se entronizou o Menino Jesus em escadinhas ou pirâmides aos degraus o que ainda é costume generalizado entre camponeses.. De há menos de cinquenta anos para cá é que se generalizou o gosto pelo presépio de rochinha, aparecendo também mais modernamente a substituição daqueles simbolismos cristãos, principalmente na cidade, pela Arvore do Natal, influência de residentes estrangeiros, que o povo não aceita por ser crente e português. E uma criação do espírito liberal, inestética, inexpressiva e até anti-religiosa, sem tradição, sem vida nem aplicação aos nossos costumes. No presépio vive-se a espiritualidade educativa da vida de Cristo, da sua virtude, do seu amor, da sua bondade, da sua omnipotência; na Árvore do Natal, apenas a nossa pr6pria vida cheia de sentimentos mesquinhos, de interesse, de egoísmo, de luta, de ambições. Nem em simbolismo nem em verdade se pode conciliar com a liturgia do nascimento de Cristo a Árvore de Natal: é uma representação puramente profana que briga com o sentimento nacional tradicionalmente cristão.
Parece-nos todavia que, antes de introduzido o presépio em Portugal, se usava outro simbolismo, afim da Árvore, para assinalar o nascimento de Cristo. No Regimento dos Sacristãos-Mores da Ordem de Cister de Alcobaça encontra-se esta determinação: «Nota de como has de poer o ramo de natal, scilicet: Em véspera de natal, buscarás hum grande Ramo do loureiro verde, e colherás muitas laranjas vermelhas e poer lhas has metidas pelos ramos que dele procedem spacificadamente segundo já viste. E em cada hua laranja, peras hua candeia. E pendoraras o dicto Ramo per hua corda na polee que ha de estar acerca da lâmpada do altar moor»
Terminados os arranjos do presépio, dirige-se o povo para a Missa do Galo à meia-noite, instituída no século II pelo Papa Telésforo. A folia com que até ao século XVIII se assistia a esta missa, deixou lembranças radicadas na Madeira. E, por isso, a noite mais alegre do ano. O frio nem a chuva afastam os fiéis de igreja, e o mau tempo é sempre esquecido com a esperança de que, à meia-noite em memória do nascimento de Cristo, rondará ao Norte, ficando bom. O templo sagrado é uma apoteose de lumes e de frémitos de alegria, rejuvenescendo os corações.
Em muitas partes da ilha, principalmente no Norte, observa-se uma representação tradicional, misto de religioso e profano, que transforma a igreja da aldeia num verdadeiro teatro de pastoreias ao sabor bucólico da Idade-Média. É a de pensar o Menino, seguida da entrada de pastores que o vão adorar. O auto de pensar o Menino não é já hoje uma sombra do que foi primitivamente, tendo sido proibido pelo bispo D. Manuel Agostinho Barreto para restrição de abusos A meia-noite simulava-se o nascimento do Salvador, representando a cena com um realismo impróprio do lugar sagrado: aludia-se com cânticos apropriados s todas as circunstâncias desse acto, inclusive à de lavar o Menino que era feita ao vivo, e mostravam-se, uma a uma, as suas faixas e demais pecas de vestuário. Esta cerimónia consta actualmente apenas de patentear ao público o Deus Infante o que, nalguns lugares, é feito por uma criança vestida de anjo, que entoa uma melodia privativa desse acto. Segue-se a entrada dos pastores em que tomam parte numerosos fiéis de ambos os sexos, aos grupos ou isolados, como embaixadores dos sítios, cumpridores de votos ou de simples actos individuais de devoção. Cada pastor por sua vez, sendo portador duma oferenda entra no templo por entre alas de povo, cantando ao som de instrumentos regionais, e ajoelha junto da imagem do Menino Jesus com a oferta à cabeça, às costas ou nas mãos, entoando loas de inspiração espontânea e gosto popular. De mistura com versos de repassado sentimento e verdadeira fé cristã, aparecem redondilhas cheias de ironia, de chiste; epigramas com alusão a pessoas e a factos; narrativas de vida local, de infortúnios e de desgraças; votos, preces, acções de graças. O povo, interessado ao vivo neste espectáculo, não sem guardar o respeito e a compostura devidos ao lugar sagrado, ora ri, ora chora como o espectador da Idade-Média, assistente de representações bíblicas, ingénuo ou místico, sincero e comovido. Nas freguesias do Norte é onde se conserva mais tipicamente esta cerimónia que está sendo introduzida nas do Sul. O clero procura reprimir abusos, estando pouco a pouco a modificar o carácter e a excessiva liberdade destas tradições. R o que se faz nas províncias da metr6pole portuguesa reconstituindo a tradição multissecular da Embaixada ou Estrada de Pastores na noite de Natal, autos tão vulgares na Península Ibérica desde o século XIII. «Por essas Províncias além, escreveu o folclorista Luís Chaves, restam ainda pastoreias, coros e cantos de pastorzinhos, cortejos e desfiles de figuras pastoris que têm o seu período próprio no Natal... A simplicidade e a ternura com que a Embaixada realiza a sua função teatral de anunciar o nascimento do Menino para bem da humanidade que o esperava, são admiráveis». E este teatro religioso sempre «existiu frequentemente em estreita simbiose com as representações profanas e mesmo burlescas. Os membros de Sínodos portugueses, bispos, abades, curas de almas e monges atestam a sua existência como se falassem duma coisa sabida de toda a gente. Seria maravilha que Portugal se isolasse a tal ponto da Europa de então» Não tinha melhor diversão o povo, e mais educativo e morigerador seria esse Teatro Sagrado que a teatralidade dos arraiais modernos acompanhados de irreverências de rádio do alto dos campanários. E porque nem tudo é de reprovar e banir da tradição popular, expressão da alma portuguesa e do seu sentimento cristão, é que o 6rgão da Igreja em Portugal, Novidades, de 19 de Dezembro de 1943, publicou em suplemento o texto integral da Embaixada de Terras de Miranda, recolhido pelo Pároco de Duas Igrejas, António Mourinho, que o reconstituiu no seu antigo esquema literário, coral, mímico e religioso, «alijadas as ocasiões e restos de escandaleira», como obra-prima dos muitos autos que restam e se representam ainda nas Províncias de Portugal. g uma representação pastoril de passos idênticos aos dos autos de Natal madeirense, tão mal compreendidos e apreciados no nosso tempo, essa religiosa, devota e encantadora figuração clássica de pastores, pastoras, anjos e estrelas, diálogos, coros e cortejos, os homens e a natureza com sua alma e seus dons aos pés do Deus nado em homenagens de palavras e oferendas. Longe de se combater por excessos e abusos uma tradição de tão expressivo sentido religioso, riqueza folcl6rica e benefício eclesiástico, como pé-de-altar, antes seria de melhor senso corrigir sua literatura e encenação, liberdades e deslizes, integrando-a quanto possível no tema fundamental e litúrgico, por isso que o povo se une por esses autos ao mistério da Incarnação, ao seu Pastor e à Igreja.
Os presentes constam de produtos da terra, animais vivos, fruta, ovos, géneros alimentícios e dinheiro destinados ao pároco. Um dos presentes mais característicos desta noite costumava ser o vulgar pão de açúcar em forma de cone troncado, a que já aludimos na Manutenção do Clero. As freguesias onde se conservou por mais tempo essa histórica lembrança foram o Estreito da Calheta, Fajã da Ovelha e Porto do Moniz. Há pouco mais de trinta anos começou o povo a substituí-la por formatos idênticos de cartão, cheios de trigo.
O Auto de Natal, no Porto Santo, cujo restabelecimento, depois muitos anos de interrupção, se deve ao p e César Teixeira da Fonte, movimenta extraordinariamente toda a noite a ilha inteira. Compartilham desta cena bucólica os núcleos de população em romagens de pastores que se dirigem à Igreja com suas oferendas, tocando, cantando e bailando com mais vida e entusiasmo que na Madeira. As cerimónias de Pensar o Menino e presenteá-lo com dádivas e promessas, agradecimentos e invocações, prolongam-se pela noite dentro até as 2 e 3 horas da madrugada. Sai depois o povo da igreja e reúne-se do Município onde os ranchos folclóricos de pastores se exibem em bailados em cantares até romper a manhã, fazendo-se ao lusco-fusco a debandada de volta com a mesma alegria e folgares da vinda. Na primeira oitava, de tarde, começam as romagens às Lapinhas de todos os sítios, e nas casas destas e nas demais por toda a ilha, deita-se o baile da Meia Volta até o Dia de Reis, diversão honesta, típica e tradicional.
A Missa do Galo nestas ilhas tem lugar depois deste auto. Ao regressar o povo a casa, como reminiscência certamente da consoada portuguesa, inicia a função doméstica do Natal, comendo e bebendo do que tem de melhor para aquele dia e suas oitavas. Ao amanhecer do dia seguinte, cheira a fritadas de carne de vinho-e-alhos por toda a parte, e não se sente vida, por assim dizer, nas povoações. O povo guarda de portas a dentro o Natal no convívio isolado da família, porque não é costume sair de casa por tradição. Instrumentos, foguetes e bombas são as únicas vozes que saem fora dos casais. O turismo, porém, vem quebrando de ano para ano, na cidade, este costume levando muita gente a animar um pouco as ruas, na maior parte desertas, a abrir estabelecimentos e a frequentar à noite os cinemas. A hora das refeições, todos de pé e mãos postas invocam os parentes mortos e ausentes, havendo lágrimas e orações em comum.
No primeiro dia da oitava visitam-se os parentes, reunindo os pais seus filhos casados e netos à mesma mesa em festa de família; os afilhados vão tomar a bênção aos padrinhos, cortesia de boa educação antiga e cristã que serve hoje de pretexto para lembrar o brinde de Natal. Estas recepções são feitas em geral junto da lapinha. O vinho não falta à discrição, e o bolo-de-mel, partido à mão segundo o estilo, coagulando pratos e bandejas, roda por todos os visitantes até se esgotar. Obedecem a esta regra de etiqueta todas as visitas, durante o tempo da Natividade. Animados pelo vinho e com a ajuda duma viola e dum rajão passam horas seguidas a cantar louvores ao Menino ou trovam ao desafio em transportes de alegria, ferindo frequentemente a nota sentimental e religiosa. Todos os dias, antes de se deitar, a família ajoelha e reza diante do presépio agradecendo a Deus o bem-estar, a paz e a comunhão doméstica do seu Natal. Enquanto dura este período litúrgico, desde a Missa do Galo até a festividade dos Reis, congrega-se de dia e de noite o povo na permuta de visitas a famílias e lapinhas. No Porto Santo, a dança regional da meia-volta aquece e anima extraordinariamente estas reuniões. Em S. Martinho, no Seixal e noutras localidades aparecem em público grupos de mascarados, relembrando uma antiga usança da col6nia inglesa na Madeira.
Outra tradição, que se extinguiu com o advento da República, prolongava as festas da Natividade até o Carnaval: era a que fazia sair o popular Menino Jesus das Mercês de visita a famílias abastadas da cidade com o fim de recolher esmolas para o seu Convento. Passava o Menino uma noite em cada casa, e era tão disputada a sua visita que não chegava o tempo para satisfazer todos os devotos. Durante a noite da dormida em casa alheia, havia magna reunião de parentes e amigos, honrarias de carácter religioso e profano e pedit6rio de obrigação. Este Menino, de cerca de 50 cm, formoso e amimado como um dos mais cobiçados pimpolhos, extinto o convento, não sofreu mais ultrajes piedosos. No Recolhimento do Bom Jesus em cujo templo se conserva a imagem do Menino Jesus das Mercês, observava-se também, desde remotas eras, uma prática piedosa e original em honra de Jesus Infante, que se conservou até há poucos anos. No primeiro Domingo depois da festa dos Reis Magos, era o Menino roubado ao grupo da Sagrada Família e conduzido processionalmente dum coro para outro onde permanecia até o segundo Domingo depois dos Reis. Neste diaDomingo da Achadaera escondido e as recolhidas procuravam-no em procissão por todas as celas, cantando loas plangentes até o encontrarem. Descoberta a imagem, os cânticos mudavam de tema e de tom tornando-se alegres e laudat6rios. Relembrava esta cerim6nia o descaminho de Jesus em Jerusalém. Mais um Menino de festejada fama «havia no Convento de Santa Clara (mandado edificar em 1492 pelo 2.o Donatário João Gonçalves)... obra-prima de escultura em madeira, muito prendado de jóias que lhe desciam do pescoço até às fivelinhas das sandálias, pesado de ouro, fios de pérolas e abotoaduras ricas, oferendas de fidalgos e morgados que lhe recomendavam as filhas irrequietas, postas a recato na sombra da clausura» Era o Menino-Perdido que se escondia pela cidade, pondo em reboliço meia população. Passada a festa dos Reis Magos, saia o Menino secretamente do convento a esconderijo numa casa fidalga do Funchal. A abadessa, única depositária do segredo, guardava sigilo do esconderijo, e as demais freiras convidavam as pessoas de suas relações e amizade a descobrirem o paradeiro do cobiçado Infante, com pensando o trabalho com um generoso presente a quem o retivesse sob sua guarda. Um ano foi ele ter à fortaleza de S. Tiago. Viu-se tão honrado com esta visita o comandante da praça que não se conteve dentro dos limites da costumada e conveniente discrição; mandou aperrar a artilharia de defesa da cidade e salvou 101 tiros em honra de Deus. Como se temiam ao tempo assaltos de piratas alarmou-se toda a população, acorreram a tomar os postos as milícias e a demais gente fugiu espavorida. O condestável respondeu em conselho de guerra, mas foi resolvido como bom cristão, sendo apenas condenado na despesa da pó1vora
queimada ao Estado. O menino Jesus, apesar de denunciado tão estrondosamente, não desfez as pregas do seu eterno sorriso perante o desapontamento das freiras.
(Eduardo C. N. Pereira, Ilhas de Zargo, vol. II, Funchal, 1968, pp.505-515