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Luzes Festa 1
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        Da Festa ao Fim do Ano

         

        Para o madeirense a época mais festiva é sem dúvida a que abrange o Natal e Fim de Ano. Deste modo o Natal é apenas designado de AFesta @, isto é, como que a querer dizer que o grande momento festivo acontece sempre em Dezembro. Deste modo na ilha as festividades religiosas do nascimento de Cristo aliam-se às profanas que marcam a mudança do ano. Neste último caso a tradição local alia-se à alheia, expressa na presença habitual de milhares de turistas.

        Em qualquer dos casos o espectáculo, as tradições que o envolvem, inebriam-nos num misto de luz e cor. As iluminações públicas, o fogo de artifício são as evidências deste folguedo que assume sempre um carácter colectivo de catarse para residentes e forasteiros.

        Esta folia que no nosso século foi apropriada pelas festas da cidade acontecem pela congregação do turismo com a vivência local. Para o madeirense a grande evidencia foi sempre o Natal, mas paulatinamente o fim-de-ano foi-se impondo deixando de ser só para os turistas. A tradição do fogo de artifício aliado às diversas manifestações que assinalavam o momento com o cortejo, contribuíram para esta mudança de atitude.

        A afirmação plena desta manifestação festiva deverá ser dos anos trinta, uma vez que em 1932 foi criada uma Comissão das festas da cidade que tinha por missão coordenar todas as suas actividades de diversão. A partir daqui os festejos, apoiados pelos comerciantes da cidade, ganharam uma nova dimensão. A manifestação espontânea de populares e hotéis no lançamento do fogo de artifício, que já em 1911 era usual, passa a estar subordinada a esta estrutura que paulatinamente a transformou no maior cartaz turístico da cidade. Por outro lado os festejos passaram a contar com um momento solene no dia 30 ou 31 que constava sempre da recita ou concerto no teatro e de um cortejo folclórico regional pelas ruas da cidade.

        O colorido da luz ganha cada vez mais adeptos e em 1938 houve mesmo uma Amarcha luminosa@. Estava aberto o caminho para a plena afirmação das lâmpadas que passam a abrilhantar os espaços públicos, a iluminar as árvores e a definir o contorno dos edifícios públicos e igrejas. Mais tarde o avanço tecnológico permitiu a estilização figurativa que atinge no presente o clímax.

        Os festejos do fim do ano, que estão agora sob a alçada da Secretaria Regional do Turismo e Cultura, são o corolário das múltiplas vivências do passado em que o madeirense se mistura com o forasteiro. Deste modo o historial do fogo de artifício do fim do ano, das iluminações e as tradições natalícias locais não são fenómenos isolados e enquadram-se no fenómeno turístico que marcou a vida da ilha a partir do século XVIII.

         

        O NATAL MADEIRENSE

         

         

        O TURISMO E OS INGLESES

         

        A vivência do réveillon deve estar associada à presença inglesa na ilha. A eles associa-se o colorido do fogo de artifício a partir do século XVIII, não obstante esta manifestação estar já associada aos grandes momentos festivos da vida dos madeirenses.

        O Funchal do século dezoito era um dos paradeiros habituais de doentes da tísica pulmonar, cientistas e funcionários da Coroa britânica em trânsito de e para as Colónias. Durante a curta estância na ilha alojavam-se em casas de compatrícios ou de famílias madeirenses proprietárias de quintas, que disponibilizavam quartos. Estes forasteiros, na sua maioria britânicos, no seu meio recreavam as tradições de origem, ocupando parte do seu tempo em saraus dançantes nos diversos casinos, clubes e casas particulares. A passagem do ano era um dos momentos mais celebrados e, embora sejam raras as notícias sobre a forma da sua realização sabemos que existiram desde o século XVIII.

        Já no decurso do século XIX a assiduidade da presença dos forasteiros ingleses é cada vez mais evidente e levou à criação das primeiras unidades hoteleiras. Todavia, nesta época não eram as festas do fim do ano que chamavam a atenção dos turistas. Aliás, parece que nos inícios da segunda metade do século a crise do vinho havia provocado a debandada de muitos ingleses, apagando-se certamente o colorido dos saraus e dos foguetes da noite de fim de ano e terá sido o banqueiro João José Rodrigues Leitão, natural de Ponte de Barca, quem decidiu reaver a tradição inglesa. Particulares, hotéis e comerciantes de fogo aliam-se para fazer reviver esta manifestação. E a tradição não mais se perder por força dos populares, hotéis e casinos que teimaram em animar a passagem do ano. Assim sucedia em princípios do século, sendo de salientar a iniciativa do Reid=s Hotel em animar este momento para os seus turistas com o tão proclamado fogo que desde 1922 passou a ser lançado do ilhéu.

         Note-se que o descobrimento do Atlântico aconteceu em dois momentos. O primeiro, que decorre até ao século XV conduziu à revelação de novos espaços agrícolas, mercados, rotas e portos comerciais. Já no segundo, a partir do século XVIII, o europeu partiu à procura do quadro natural do mundo Atlântico e do desfrute das belezas e clima com a definição de ilhas e espaços litorais como health resorts e hotéis. Na verdade, o homem do século dezoito perdeu o medo do mundo circundante e fez dele o motivo de experiência, deleite e estudo. Estes dois momentos marcaram uma atitude distinta do europeu e tiveram reflexos evidentes na produção literária que envolve o processo. A par disso a opção dos viajantes, que dão forma ao Grand Tour europeu da época moderna, é diferente daqueles que primeiro sulcaram o oceano à procura de ilhas e portos de abrigo. Da primeira já temos conhecimento quase suficiente, enquanto a segunda ainda se mantêm no quase total esquecimento. Contribuir para a alteração deste estado de coisas chamando a atenção dos investigadores para este inovador domínio é o objectivo que nos persegue agora.

         No século XVIII as ilhas assumiram um novo papel no mundo europeu. Assim de espaços económicos passam também a contribuir para alívio e cura de doenças. O mundo rural perde importância em favor da área em torno do Funchal, que se transforma num hospital para a cura da tísica pulmonar ou de quarentena na passagem do calor tórrido das colónias para os dias frios e nebulosos da vetusta cidade de Londres. O debate das potencialidades terapêuticas da climatologia propiciou um grupo numeroso de estudos e gerou uma escala frequente de estudiosos. As estâncias de cura surgiram primeiro na bacia mediterrânica europeia e depois expandiram-se no século XVIII até à Madeira e só na centúria seguinte chegaram às Canárias. As intermináveis filas de aristocratas, escritores, cientistas que desembarcavam no calhau e iam encosta fora à procura do ar benfazejo das ilhas foi um retrato comum da Madeira no século XIX.

         Dos visitantes da ilha merecem especial atenção três grupos distintos: invalids (=doentes), viajantes, turistas e cientistas. Enquanto os primeiros fugiam ao inverno europeu e encontravam na temperatura amena o alívio das maleitas, os demais vinham atraídos pelo gosto de aventura, de novas emoções, da procura do pitoresco e do conhecimento e descobrimento dos infindáveis segredos do mundo natural. O viajante diferencia-se do turista pelo aparato e intenções que o perseguem. Ele é um andarilho que percorre todos os recantos na ânsia de descobrir os aspectos mais pitorescos. Na bagagem constava sempre um caderno de notas e um lápis. Através da escrita e desenho ele regista as impressões do que vê. Daqui resultou uma prolixa literatura de viagens, que se tornou numa fonte fundamental para o conhecimento da sociedade oitocentista das ilhas.

         O turista ao invés é pouco andarilho, preferindo a bonomia das quintas, e egoísta guardando para si todas as impressões da viagem. Deste modo o testemunho da sua presença é documentado apenas pelos registos de entrada dos vapores na alfândega, das noticias dos jornais diárias e dos "títulos de residência", pois o mais transformou-se em pó.

         A presença de viajantes e "invalids" na ilha conduziu obrigatoriamente à criação de infraestruturas de apoio. Se num primeiro se socorriam da hospitalidade dos insulares, num segundo momento a cada vez mais maior afluência de forasteiros obrigou à montagem de uma estrutura hoteleira de apoio. Aos primeiros as portas eram franqueadas por carta de recomendação. A isto juntou-se a publicidade através da literatura de viagens e guias. Os guias forneciam as informações indispensáveis para a instalação no Funchal e viagem no interior, acompanhados de breves apontamentos  sobre a História, costumes, fauna e flora.

          A Madeira firmou-se, partir da segunda metade do século dezoito, como estância para o turismo terapêutico, mercê das então consideradas qualidades profiláticas do clima na cura da tuberculose, o que cativou a atenção de novos forasteiros. Aliás, a ilha foi considerada por alguns como a primeira e principal estância de cura e convalescença da Europa. Note-se que no período de 1834 a 1852 a média anual de Invalid's oscilava entre os 300 e 400, na sua maioria ingleses. Em 1859 construiu-se o primeiro sanatório. O último investimento neste campo foi dos alemães que em 1903 através do principie Frederik Charles de Hohenlohe Oehringen constituiu a Companhia dos Sanatórios da Madeira. Da sua polémica iniciativa resultou apenas o imóvel do actual Hospital dos Marmeleiros.

         Não temos dados seguros quanto ao desenvolvimento da hotelaria nas ilhas, pois os dados disponíveis são avulsos. Os Hotéis são referenciados em meados do século XIX mas desde os inícios do século XV que estas cidades portuárias de activo movimento de forasteiro deveriam possuir estalagens. A documentação oficial faz eco desta realidade como se poderá provar pelas posturas e actas da vereação dos municípios servidos de portos. No caso da Madeira assinala-se em 1850 a existência de dois hotéis (the London Hotel e Yate's Hotel Family) a que se juntaram outros dez em 1889. Em princípios do século XX a capacidade hoteleira havia aumentado, sendo doze os hotéis em funcionamento que poderiam hospedar cerca de oitocentos visitantes. A preocupação destes visitantes em conhecer o interior da ilha, nomeadamente a encosta norte levou ao lançamento de uma rede de estalagens que tem a sua expressão visível em S. Vicente, Rabaçal, Boaventura, Seixal, Santana e Santa Cruz.

         A ilha dispõe ainda hoje de uma unidade hoteleira de luxo que remonta a esta época. O Reid's Hotel foi construído em 1891 pela família Reid e teve o nome de New Reid's Hotel, para se diferenciar dos outros (The Royal Edimburgh Hotel, Hotel Santa Clara, Miles Hotel, Hotel Monte e German Hotel ) que já explorava. William Reid fixou-se no Funchal em 1844 dedicando-se de parceria com W. Wilkinson a montar um serviço de apoio aos inúmeros visitantes que chegavam à ilha para um período de repouso ou na busca desesperada das qualidades terapêuticas que o clima da cidade propiciava. Os seus filhos, William e Alfred, deram continuidade à obra. Tenha-se ainda em conta um conjunto de melhoramentos que tiveram lugar no Funchal para usufruto dos forasteiros. Assim, desde 1848 com José Silvestre Ribeiro temos o delinear de um moderno sistema viário, a que se juntaram novos meios de locomoção: em 1891 o Comboio do Monte, em 1896 o Carro Americano e finalmente o automóvel em 1904.

        A partir de finais do século XIX o turismo, tal como hoje o entendemos, dava os primeiros passos. E foi como corolário disso que se estabeleceram as primeiras infra-estruturas hoteleiras e que o turismo passou a ser uma actividade organizada e com uma função relevante na economia. Deste momento ainda persiste na ilha da Madeira uma unidade hoteleira: Hotel Reids. E mais uma vez o inglês é o protagonista principal. Este momento de afluência de estrangeiros coincide ainda com a época de euforia da Ciência nas Academias e Universidades europeias. Desde finais do século XVII as expedições científicas tornaram-se comuns e a Madeira (Funchal) ou Tenerife (Santa Cruz de Tenerife e Puerto de La Cruz) foram portos de escala, para ingleses, franceses e alemãs.

         

         

        O FIM DO ANO

         

        A 31 de Dezembro celebra-se a passagem do ano de acordo com o nosso calendário gregoriano. E tal como os rituais pagãos de passagem nós continuamos a celebra-los do mesmo modo. O fogo, a luz são elementos fundamentais e apresentam um poder de purificador e de estigmatização do mal.

        Entre nós não temos dados seguros sobre a data exacta em que se começou a comemorar a passagem de ano, mas certamente deve ser uma manifestação muito remota que se foi adaptando às exigências dos tempos e às aportações dos forasteiros. O Padre Fernando Augusto da Silva refere-nos estes festejos em 1923, explicando que era costume não muito antigo. Todavia dados avulsos apontam que esta é uma vivência muito antiga.

        Aos poucos esta festividade espontânea foi criando a sua estrutura organizativa e aquilo que era o capricho de alguns transformou-se nas festas da cidade. Para isso foi necessária uma comissão que desde 1932 teve a seu cargo a organização dos principais actos. A folia que assinalava a passagem do ano tinha por palco os salões e hotéis, nomeadamente Reids e Savoy, mas iniciativa desta "Comissão de Festas da Cidade" saiu para a rua. Esta abertura dos festejos do fim do ano sucedeu em 1932 com um cortejo luminoso. Entretanto em 1936 foi criada a Delegação de Turismo da Madeira que terá a seu cargo também a manutenção destes festejos. Na verdade a Madeira era então uma estância privilegiada de turismo invernal e a aposta nestes festejos contribuirá para reforço dos aliciantes oferecidos aos visitantes.

        Pompa e circunstância dominaram as passagens do ano da década de trinta até que a II Guerra Mundial, a partir de 1939, veio apagar a alegria esfuziante do madeirense. O Natal de 1939 e os que se seguiram foram de luto. As dificuldades no campo e na cidade eram evidentes. Os hotéis fecharam por falta de turistas pelo que ninguém se lembrava de evocar a passagem do ano, estando todos de olhos postos no que se passava no centro da Europa. Deste modo até 1946 não se celebrou oficialmente a passagem do ano. Apenas em 1945 já acabado o pesadelo da guerra tivemos os primeiros festejos com fogo de artifício. O retomar das festas da cidade sucedeu apenas em 1946. Mesmo assim estas eram quase só reservadas aos madeirenses uma vez que os hotéis permaneciam encerrados e os turistas teimavam em não aparecer. O Reid=s Hotel só abriu as portas em 8 de Dezembro de 1949. Todavia no ano anterior a Casa da Madeira em Lisboa havia trazido ao Funchal um grupo de 600 excursionistas para assistir aos festejos do fim-do-ano.

        Durante muito tempo os festejos do fim-do-ano resumiram-se ao fogo de artifício, aos saraus dançantes e desfiles etnográficos. O colorido das lâmpadas é uma novidade já entrados no século XX.  Note-se que a luz eléctrica chegou ao Funchal em 1897 por mão dos ingleses. Em 1949 terminada a concessão aos ingleses a câmara cria os serviços municipalizados de electricidade que não são capazes de assegurar um adequado serviço. Deste modo em 1952 tal missão passa para a alçada da Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira, um serviço público com a função de proceder à produção, transporte e distribuição de energia eléctrica em toda a ilha.

        O consumo e a exigência da energia eléctrica aumenta de acordo com o incremento do turismo e obrigam a elevados investimentos. As décadas de cinquenta e sessenta marcadas crise da energia foram fatais.

         

        O PODER SIMBÓLICO DA LUZ E COR

         

             O fogo é um elemento importante do ritual religioso e na Antiguidade ele dominava muitos dos ritos ditos pagãos. A ele associa-se o poder benfazejo de purificação e afastamento do mal. Para os cristãos ele confunde-se com a luz e metamorfoseia-se na imagem de Cristo. As festas que assinalavam a mudança dos solstícios de Inverno e Verão eram marcadas pela presença do fogo, através de fogueiras ou de luzes, no caso utilizavam-se as luzernas de óleo ou azeite. Os rituais perduraram, pois apenas mudaram aos instrumentos para alimentar o fogo e a luz. Assim juntaram-se mais tarde as velas e, com o advento da energia eléctrica, as lâmpadas coloridas. Alguns resquícios desta tradição perduram ainda hoje nas célebres fogueiras da noite de Natal.

         O Natal do mundo Cristão é uma recuperação dos antigos cultos agrários que celebravam a 25 de Dezembro o nascimento do sol, o início do solstício de Inverno. Deste modo até ao dia 31 de Dezembro, quer gregos quer romanos, festejavam o retorno do Novo Sol. O aspecto mais significativo desta celebração estava nas fogueiras que se ateavam por todo o lado. Elas tinham a função de fortalecer os raios solares para que o seu poder benfazejo se mantivesse até ao solstício do Verão. A importância desta manifestação levou a que o Cristianismo no tempo do papa Libério (352-366) recuperasse esta tradição estabelecendo o 25 de Dezembro como o dia do nascimento de Cristo, identificando-o com o Sol da vida.

         As iluminações da árvore de Natal prendem-se também com este ritual, pois apresentam a mesma simbólica das velas de Natal. A sua chama é o símbolo de purificação, iluminação e fertilidade. Para o cristianismo a chama da vela tem um valor simbólico muito forte, é personificação de Cristo, no sentido de que este é a luz do mundo. As velas colocavam-se na janela acendidas para guiar o espírito de Cristo no escuridão da noite. Os incêndios foram o grande problema que só foi contornado a partir da década de oitenta do século XIX com o aparecimento da luz eléctrica

         No Natal a luz hoje irradia sob a forma de sol ou em construções estilizadas de estrelas. Também as estas está ligado um poder simbólico e culto religioso, pois de acordo com a tradição antiga elas exorcizam o demónio e as forças do mal. Na simbólica cristã não são menos importantes. Senão vejamos. Foi uma estrela que guiou os reis magos e a estrela de quatro pontas é conhecida como a estrela de David, o símbolo do judaísmo.

         Os milhares de lâmpadas que anual se acendem em Dezembro para embelezar o anfiteatro do Funchal, bem como outras que por todo o mundo dão brilho ao momento natalício, não estão longe desta secular tradição. Todavia, hoje os objectos são distintos. As fogueiras e velas foram substituídas pelo garrido das hodiernas lâmpadas. Os efeitos de luz e cor perderam este poder mitológico e firmaram-se mais pelo impacto visual e como elementos indispensáveis de criação da ambiência natalícia.

        As iluminações de fim de ano acontecem neste intervalo de tempo e evoluem de acordo com a capacidade criativa do homem e disponibilidades técnicas. Dos inúmeros testemunhos literários que temos dominam as descrições do fogo de artifício. Sucede assim em Isabela de França (1853-54) e Ferreira de Castro (1932-33). Somente em Luís Forjaz Trigueiros, em testemunho do réveillon de 1936 se dá conta das iluminações: Ao oceano é um formigueiro de pequenas luzes imóveis, da Pontinha ao Reid's, milhares de lâmpadas coloridas, debruam o litoral da ilha, até onde a vista se perde.

        Também os tradicionais arraiais vivem do colorido das iluminações e fogo de artifício. Desta tarefa ocupavam-se em princípios do século presente alguns empresários, sendo de destacar Honorato Rodrigues, Manuel Andrade e António Lino Barreto. Nestes eram tradicional às 11 horas do sábado da festa uma exibição de fogo preso, tradição que hoje se perdeu. Temos informações que os arraiais madeirenses eram abrilhantados com efeitos decorativos, lâmpadas multicolores e fogo de artifício. Nas iluminações são referidos os balões venezianos, lanternas e vidros coloridos de copos. Com estes últimos faziam-se desenhos nas fachadas das igrejas, o que atribuía um desusado brilho ao ambiente que deslumbrava os romeiros.

        Tenha-se em atenção que o fogo de artifício desde a Antiguidade que está envolvido em determinados rituais e em momentos festivos de diversa ordem. Mas o fogo de artifício moderno parece que começou em Florença a partir do século XIV. A Itália, aliás, foi pioneiro no desenvolvimento do fogo preso que teve um grande incremento a partir do século XVII. Diz-se que o primeiro espectáculo de fogo de artifício ocorreu em 1575 no castelo de Kenilworth em honra da rainha Elisabete. Este tipo de celebração tornou-se muito popular em Inglaterra e certamente a comunidade britânica na ilha contribuiu para que a mesma tradição fosse reforçada nas diversas manifestações festivas, nomeadamente na passagem do ano.

        Era também tradição na Madeira celebrar todos os momentos festivos de carácter religioso e político com iluminações e fogos de artifício. Deste modo o nascimento de um príncipe, a coroação de um rei, a proclamação da independência nacional em 1640 ou os festejos em honra de São Tiago Menor obedecia a este ritual de três dias de festa. Até ao advento da energia eléctrica as iluminações consistiam em velas ou candeias de azeite colocadas em lanternas na parte exterior das janelas dos edifícios públicos.

        A mais antiga referência a este tipo de comemoração sucede em 1640 com a celebração da restauração da monarquia. No século XVIII sucederam-se outras manifestações sendo de referir em 1761 com os festejos em honra do nascimento do príncipe D. José que consistiram em 3 dias de luminárias públicas e fogo de artifício. Já em 1777 foram os inimigos de João António de Sá Pereira que celebraram de forma efusiva a sua saída com iluminações e fogos artificiais.

        Sabemos por ordem de 1825 que a estas iluminações públicas estavam sujeitos os tribunais e demais repartições públicas. A falta de interesse deverá ter motivado esta recomendação isto numa época em que havia muito por comemorar. Já em 1821 a nova constituição fora celebrada com iluminações, seguindo-se em 1874 por altura da inauguração das comunicações telegráficas.

        O novo século abre com a visita do Rei D. Carlos que é recebido de forma efusiva no cais e ruas da cidade. De acordo com os testemunhos da época as iluminações da entrada da cidade e da Praça da Constituição foram o principal motivo de atenção dos visitantes

        Em 1922 tivemos festejos duplos para celebrar o descobrimento da Madeira e a chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. No primeiro caso foi fogo preso no ilhéu e iluminações desenhando o contorno do ilhéu e Pontinha, sendo notada a ausência de luminárias nos edifícios públicos. Já no segundo momento tivemos quatro dias de festa com iluminações das ruas e casas comerciais.

         A década de trinta assinala a afirmação das gambiarras e o colorido da luz ganha uma posição de relevo nos festejos do fim do ano. A luz eléctrica começa a expandir-se no meio urbano. A cidade perdeu o ar sombrio e os festejos de Natal e fim de ano ganham mais vida, afirmando-se como um cartaz turístico. O colorido da luz e do fogo são o emblema dos festejos de fim de ano, aquele que é considerado o principal cartaz turístico da região.