A ECONOMIA DO CONCELHO

 

A economia do Concelho assenta de forma evidente em dois vectores. Por um lado o aproveitamento dos valiosos recursos do amplo espaço, que vão das lenhas e madeiras, aos recursos minerais, aos logradouros comuns como área de pastoreio e ao aproveitamento agrícola da pouco área arável. Construíram-se socalcos encosta acima que se transformaram em campos de cana, cereais, batatas e feijão. Foram estas as principais riquezas arrancadas à terra e que contribuíram para a magra economia dos vicentinos.

 

 

A FLORESTA E AS MADEIRAS

Se mais não progrediu esta terra foi porque a possibilidade de comunicação com o exterior, nomeadamente com a vertente sul, não era fácil. A orografia do terreno impossibilitou um maior desenvolvimento dos transportes terrestres, enquanto a braveza do mar delimitou o uso a apenas a algumas épocas do ano.

A maior riqueza do espaço, que em 1744 assumiu a condição de concelho, foi, sem dúvida, as madeiras e a cultura da vinha. A existência de uma importante e densa floresta foi imprescindível para o desenvolvimento da cultura da cana-de-açúcar nos três primeiros séculos de ocupação da ilha. Daí se extraíam as madeiras para a construção dos engenhos e as lenhas que serviam de combustível à laboração do açúcar. O vinho sobressai como a mais destacada das riquezas do norte da ilha, demarcando-se como uma importante zona viti-vinicola da Madeira até a actualidade.

A orografia da vertente norte e em especial da área circunscrita ao concelho de S. Vicente não configura grandes possibilidades agrícolas. A preparação do solo para o cultivo foi uma tarefa árdua. Por isso, no início da ocupação da ilha a área ficou abandonada a si própria e só ganhou importância no segundo momento pela necessidade das madeiras e lenhas para os engenhos e a pressão do movimento demográfico que motivou a uma maior dispersão dos núcleos populacionais.

É de salientar que em várias freguesias do concelho surgem localidades com o nome de Fajã do Eixo. A designação de Achada ou Caminho da Madeira é também comum. A abundância de madeira de pau-branco com que se faziam os eixos dos engenhos e carros de bois. Certamente que os eixos autorizados pela a câmara do Funchal em 1720 para exportação aos Açores, deveriam ser daqui.

As espécies existentes - aderno, pau-branco, teixo, vinhático, til e cedro (...) - eram de grande utilidade, provocando o desenvolvimento de uma importante indústria de serração. Esta riqueza das madeiras está documentada na toponímia do concelho. Assim, temos a Fajã dos Vinháticos, Espigão do Louro, Achada do Louro, Loural, Achada das Faias, Sítio das Faias e Lombo das Faias, Rocha do Folhadal, Ribeiro dos Folhadais.

A transformação dos troncos em tabuado era feita pelas serras de água. Este era um engenho mecânico movido a água, com vantagens sobre o sistema manual no sentido de que era muito mais rápido e necessitava apenas de um só homem. As serras de água situavam-se junto às origens das levadas de modo a permitirem o melhor aproveitamento das águas para regadio ou uso múltiplo como força dos engenhos de açúcar e moinhos de água. Caso contrário sujeitavam-se no Verão à disponibilidade da água, agora desviada para o regadio. Em Ponta Delgada António Correia Henriques tinha que parar a serra no período de regadio.

As serras de água surgiram junto dos cursos de água e das áreas onde existiam madeiras suficientes para a laboração ou então de fácil acesso. A toponímia testemunha ainda hoje o local onde funcionaram algumas. Em Boaventura temos o Lombo da Serra de Água, enquanto em S. Vicente o Lugar da Serra de Baixo e a Cova da Serra Velha. Gaspar Frutuoso, em finais do século XVI, refere uma no Faial e duas em Ponta Delgada. Todavia, pelo incremento que a partir da centúria teve a indústria o número de serras de água deveria ser mais elevado, nomeadamente na capitania de Machico, onde se incluía o espaço actual do município de S. Vicente.

No início da ocupação da ilha a autorização para a construção dos engenhos era dada pelo capitão de Machico, depois a prerrogativa passou para a alçada da Câmara. Cada serra de água estava sujeita ao pagamento de um direito anual de uma dúzia ou dúzia e meia de tábuas. Em 1775 Manuel de França Andrade teve licença do senado da Câmara para construir no sítio do Farrobo da Vila uma com a obrigação de pagar uma dúzia de tabuado ou 2000 reis em dinheiro cada ano. A esta licença havia necessidade de outras para o corte da madeira, concedidas pelo município. A partir das autorizações conhecidas pode-se afirmar que nos anos que decorrem de 1737 a 1743 tivemos um desusado movimento de cortes, maioritariamente para tabuado, onde sobressai o til. A partir dos ancoradouros da costa saíam grandes quantidades, que levaram as autoridades a intervir, deste modo em 1905 este era marcado pelo guarda florestal do concelho.

Os recursos florestais foram por muito tempo uma das principais riquezas do concelho. A tradição do Norte como reserva florestal da ilha, dando lenhas e madeiras para a vertente Sul, necessária para a construção, laboração dos engenhos e combustível doméstico manteve-se como uma realidade insofismável e um factor de aproximação. A isto somam-se os gancheiros, varas e tanchões para os trabalhos agrícolas.

O corte de árvores e ou aproveitamento de madeira seca fazia-se mediante autorização do município, estando o requerente sujeito à autorização da Câmara, dada após uma consulta ao meirinho ou guarda florestal. Um exemplo apenas evidencia a forma de actuação. Em 1880Sebastião Figueira Dantas requereu o corte de madeira. O meirinho informou favoravelmente e procedeu-se à entrega do alvará mediante o pagamento de 300 réis por cada pau. Ainda, era obrigado a levantar a madeira num prazo de três meses. No caso de não proceder a serragem e ao levantamento no prazo estabelecido sujeitava-se à pena de apreensão da madeira. Estas autorizações eram extensivas também em terrenos propriedade do requerente. Apenas o diferenciava daqueles que o procediam nas serras do concelho a isenção do pagamento da taxa. Senão vejamos: em 1928 Paulo Vieira Betencourt, Manuel Fernandes e João Gomes dos Canhas pagaram por cada carro de lenha de uveira cortada abaixo dos Estanquinhos, 25$00, enquanto em 1932 Manuel Francisco Gomes, José Firmino de Gouveia, Ermelinda Hilária Gomes, são autorizados a cortar 2000 varas de pinho e conduzir ao Funchal, não pagando taxa "por ser propriedade sua" ou então quando era para um melhoramento público, como sucedeu em 1938 com dois tis solicitados pelo Padre Vigário Teodoro Ponte Lira, para as obras da igreja. Este era por vezes o estratagema usado para furtar-se ao pagamento da taxa. Assim, em 1896 Francisco Lúcio Fernandes do Seixal solicita autorização para serrar 3 paus de til e vinhático em propriedades suas. A "Câmara attendendo a que nada tem com a propriedade alheia, mas desconfiando que o requerente a que o requerente a quer illudir pretendendo obter licença para fazer cortes de madeiras em terrenos communs..." deliberou indeferir o requerimento por não provar os paus estarem em terreno seu.

De acordo com despacho de 1946 toda a lenha cortada em serras e logradouros, destinada à exportação para fora do concelho, estava sujeita a uma taxa de 20$00 por tonelada. A taxa variava conforme a qualidade das madeiras. Assim, em 1950 por cada til cortado nas serras o requerente sujeitava-se a pagar 250$00 por árvore. É a época de construção da levada do Norte, que conduziu ao desbaste de algumas árvores para traçar o seu risco. Todas as lenhas e madeiras derrubadas pela execução da obra são requeridas por Agostinho de Abreu Paulino da Serra de Água. O despacho da vereação obriga a um depósito de mil escudos, e nega o aproveitamento dos tis. O levantamento das mesmas deveria ocorrer com conhecimento da Câmara. A par disso denota-se outro empenho da Câmara em fruir da riqueza, ao proceder à arrematação das lenhas e madeiras das árvores encontradas secas nas serras. A informação era dada pelos meirinhos ou guardas florestais e muitas vezes, os potenciais interessados no aproveitamento. Notificada a situação a Câmara mandava proceder à arrematação sendo dada a quem cobri-se com o lanço mais elevado.

As madeiras que mais atiçavam a cobiça de todos eram de til e vinhático. São inúmeros os pedidos para o corte ou o anúncio da existência de árvores secas. Assim, as lenhas e as madeiras doutras espécies arbóreas quando arrematadas ficavam desertas. O mesmo não sucedia com estas. Note-se que mesmo as madeiras resultantes do incêndio de 1872 na serra dos Caimbros e Fajã da Madeira teve pronta resposta quando foi posta em praça, sendo arrematada por valor muito superior à base de licitação. Por outro lado os requerimentos solicitando o aproveitamento das espécies raras da floresta local eram bem ponderados na decisão final, sendo muitas vezes indeferidos.

Estas eram também as madeiras mais cobiçadas na exportação para fora do concelho, nomeadamente para o Funchal. E aqui de novo há uma intervenção do município no sentido de regularizar o movimento de exportação. Em 1888 Vicente José Alexandre dos Lameiros solicitou autorização para conduzir ao Funchal 100 peças de til, 100 de vinhático e 30 de pau branco. A Câmara através do Administrador do Concelho passou a necessária guia que abria as portas à saída para fora do concelho. As referidas madeiras deveriam ser marcadas para evitar qualquer fraude. Todos os que não respeitassem as medidas sujeitavam-se à repreensão das madeiras, como sucedeu em 1899 com Manuel Nunes do Laranjal que pretendia levar para fora do concelho madeira de til e vinhático, não obstante ser oriunda da sua propriedade.

Facto particular sucedeu em 1930 em que a Câmara solicitou o apoio da Junta Geral para combater à pratica que se havia generalizado do corte da casca de faia para uso nos curtumes. Com assiduidade vinham homens do Sul às serras do Paul e do Lanço buscar casca " estragando o arvoredo".

Os fios de cargas eram preciosos auxiliares no transporte das lenhas e madeiras, contribuindo por isso mesmo, para acelerar o processo de desarborização das serras. Mesmo assim continuaram a existir, pagando os promotores uma taxa anual.

Outro recurso possível era o fabrico de carvão usado nas forjas locais ou exportado para o Funchal. A realização passava também por autorização camarária. Em finais do século o estado das serras era tal que a Câmara se viu forçada a interditar tal pratica. Assim, em 1898 Vicente José Alexandre do Cascalho e César Gonçalves Jardim do Lanço não são autorizados a fabricar o carvão que pretendiam levar ao Funchal. Entretanto em 1899 o regente florestal do distrito apela à Câmara para proibir o fabrico de carvão nos meses de Julho a Setembro, para impedir os constantes incêndios que provocavam. A população e a Câmara estavam já conscientes do perigo, como se pode constatar dum requerimento de alguns moradores a solicitar medidas face ao vandalismo dos carvoeiros.

A consciência ecológica não é uma realidade só dos nossos dias e, por isso mesmo, não podemos acusar os nossos antepassados. A floresta era um bem comum, que servia de pasto, para aproveitamento das lenhas e madeiras. A preservação da importante reserva florestal concelhia é uma realidade de hoje e de ontem. A Vereação intervém sempre na defesa, quer através de posturas, quer de medidas pontuais. Em postura de 1899 estabeleceu-se medidas de defesa das nascentes e das madeiras proibindo o corte uma vez que eram defesas: aderno, barbusano, cedro, til, vinhático, pau branco, teixo, louro, nogueira, amoreira. A área florestal era e é vasta, não sendo fácil a fiscalização. Assim, em Boaventura a reserva de til e vinhático estava a saque pelo que a vereação solicitou medidas por parte do Governo Civil. Na mesma sintonia estava a população pois em 1871 alguns moradores de Ponta Delgada denunciam Lusitano de França Andrade por ter cortado paus de vinháticos a pouca distância de uma nascente de águas.

A corroborar o estado calamitoso das serras temos uma reclamação do juiz eleito de Ponta Delgada, João Vicente de Andrade, que referiu estarem as serras destruídas pelo machado. A tudo isto acresce a destruição das faieiras para tirar-lhe a casca. Esta ideia é corroborada pelo vereador Fidélio J. Canha que alude "um considerável estrago no arvoredo em lenhas, cortando louros, vinháticos, tis e outras árvores proibidas". Em face disto a Câmara deliberou em 1886 que, por "as serras do concelho se acham em parte destruídas pelos cortes a machado, resolver que se não authorizasse mais cortes sem que a mesma câmara reunida fosse vesitar os sítios indicados nos requerimentos..." Em informe do vereador José de Sousa Brazão evidencia a situação nas serras da Ribeira do Arvoredo, Caldeira, Lombo das Cruzes e Picos dos Lanços da Serra da Lombada das Vacas. Em face de tudo isto a Câmara decidiu nomear dois guardas florestais: João Augusto de Macedo, da Ginjas, e Manuel de Freitas da Silva, da Vila. Estes, para além da ronda obrigatória pelas serras, informavam a Câmara aquando do pedido para cortes na Serra.

As medidas em questão não eram suficientes para travar o surto de desflorestação pelo que o município se viu forçado a uma medida drástica de proibição total de qualquer corte de madeiras na serra. A mesma é secundada em 1898 pelo regente florestal do distrito que recomenda o cerco aos infractores, no que a Câmara comenta "não poupar esforços para obstar ao desaparecimento de árvores das serras". No ano imediato são os munícipes a pedir o reforço das medidas no sentido de pôr termo ao vandalismo causado pelos carvoeiros e serradores nas matas e arvoredos do concelho o que levou a Câmara a nomear dois zeladores, moradores no Loural: Manuel da Silva de Gouveia Brazão e Vicente José de Sousa. Por vezes eram os guardas florestais que se furtavam às suas funções, como sucedeu com Manuel de Freitas da Silva que, por não exercer a vigilância a que estava obrigado foi demitido. Certamente que a ineficácia do ofício levou a Câmara a propor em 1907 a extinção no que mereceu parecer desfavorável da comissão distrital.

Todo este empenho não levou por bom caminho as florestas do concelho. O retrato traçado em 1926 era negro. As serras apresentavam-se como um lamentável esqueleto, "porque havendo desde há anos na respectiva legislação florestal, ainda que antiquada, determinações que deveriam ter sido cumpridos; não haviam tão maldosamente, sido devastados; e, assim, executada a lei, imponha-se inacção o vandalismo desempenhado em nossos arvoredos: beneficiando-se nossos terrenos; nossa agricultura; caracterizando o encanto do nosso património florestal".

Outro contratempo com que se debatia a preservação da floresta eram os incêndios. Para os combater proibiu-se as queimadas e interditou-se o fabrico de carvão na época estival. A par disso toda e qualquer queimada em terrenos agrícolas deveria ser autorizada em vereação. Assim sucede com José de Agrela Júnior da Boaventura, a que a Câmara endossa "a responsabilidade por qualquer prejuízo".

Muitos foram os incêndios que devastaram as serras do concelho, mas à vereação só chegaram notícia dos de 1872, 1895, 1919 e 1935. A missão de apagar o fogo estava acometida aos munícipes sob a coordenação dos guardas da serra e apenas em casos extremos se socorria dos militares, como sucedeu em Ponta Delgada em 1919. A ideia de uma corporação de bombeiros é muito recente, sendo resultado de uma recomendação do Director Geral de Administração Pública. Todavia em 1968 a questão ainda continua em estudo de que resultou um informe onde se referia a falta de posses financeiras da Câmara para por si só montar um serviço de incêndios.

 

A cultura e indústria dos vimes teve um notável incremento a partir da segunda metade do século XIX. A Camacha, foi o primeiro e mais importante centro produtor e transformador. A Boaventura seguiu-lhe o exemplo e assumiu a segunda posição. O lugar dispunha de óptimas condições para tal: inúmeros regatos, nascentes, enfim abundância de água tão necessária aos vimeiros.

O vime, depois de descascado era exportado em bruto ou então em obra para os Estados Unidos da América, Venezuela, África do Sul. A partir da década de sessenta do nosso século aumentou a concorrência de novos mercados, como a Jugoslávia, Hungria, Hong-Kong e Japão. As duas décadas seguintes foram marcadas pela dificuldade no seu escoamento, que levaram ao abandono da maior parte dos vimeiros. Em Boaventura, tal como na Camacha ainda persiste a tradição do trabalhar o vime. Na década de setenta temos notícia da prosperidade do sector através do pedido apresentado ao município para ocupação da via pública com a secagem dos vimes. Em 1971 foram feitos treze pedidos na maioria para Boaventura, pois apenas temos dois para S. Vicente e um para Ponta Delgada. Aliás, o Feiticeiro do Norte realça de forma evidente a actividade na freguesia de Boaventura:

Boaventura tem água

que rega muito vimeiro,

muita moganga e feijão,

que rende muito dinheiro

 

 

 

A CAL UM RECURSO ESCASSO MAS SEMPRE PRESENTE

Em termos geológicos a freguesia de S. Vicente apresenta uma particularidade em relação às demais, isto é, uma intercalação calcária marinha, que só tem caso parecido nas Ilhas de Santa Maria e Porto Santo. A exploração da pedreira calcária remonta a meados do século XVII. A pedreira fora adquirida pelo vigário de S. Vicente, Francisco Pestana, que depois a doou à Confraria do Santíssimo Sacramento. Foi ele quem iniciou a exploração, construindo nas imediações do filão um forno. No último quartel do século XVIII estão documentados dois fornos: um no cabo da Ribeira do Mato, propriedade de Manuel Pestana de Andrade e outro na Vila, nas proximidades da Igreja, pertença da Confraria do Santíssimo Sacramento.

O filão calcário foi de grande importância no decurso dos séculos XVIII e XIX. As necessidades de cal para a construção, evidenciada com o delineamento, a partir de meados do século XVI, de uma linha de defesa, composta por diversas fortalezas e uma cortina de muralha, tornaram necessária a valorização das pedreiras do arquipélago, que apenas existiam no Porto Santo e S. Vicente. A falta de lenhas impediu o seu desenvolvimento no Porto Santo. S. Vicente, ao invés, dispunha da matéria-prima, necessária à laboração da cal—a pedreira e as lenhas—e, por isso mesmo, a industria teve grande incremento a partir de meados do século XVII. O seu desenvolvimento nas centúrias seguintes é atestado pela existência de três fornos de cal.

A sua presença e valor económico permaneceu até à presente centúria, pois em 1903 temos um novo forno no sítio do Barrinho, propriedade de João Pedro Faria. Note-se que em 1888 Manuel da Costa Lira apontava a necessidade de traçar uma estrada desde a pedreira ao mar para facilitar o escoamento da cal. Isto demonstra o valor do recurso no comércio com o sul, nomeadamente o Funchal, onde a cal tinha maior procura. A par disso em 1888 aponta-se como um meio possível a explorar na economia nortenha da ilha. Nos anos sessenta foi ainda o retorno à exploração do calcário, pois um parecer do Laboratório Minerológico e Geológico da Faculdade de Ciências de Lisboa informava que as amostras analisadas eram de óptima qualidade, sendo de grande interesse económico para o concelho a exploração, o que na realidade veio a acontecer.

 

 

O GADO E O PASTOREIO

 

O concelho dispõe de um vasto espaço maioritariamente coberto de floresta. Deste modo a área agrícola é reduzida sendo complementada, em termos de recursos, pela utilização complementar da outra em termos do aproveitamento das madeiras e lenhas ou do pastoreio.

A criação de gado na "serra" foi, por muito tempo, um recurso importante para as gentes do concelho. A economia familiar tinha na criação de gado um suplemento importante. Aqui, há a considerar aquele que era lançado na Serra - ovino e caprino - e o que era de estábulo - vacum - para o melhor aproveitamento dos recursos. O primeiro era regulamentado por uma licença do município. E, de acordo com estes, para o período de 1868 a 1889, sabe-se da existência de mais de uma centena de criadores, maioritariamente dos lugares vizinhos da Serra, isto é, Lanço, Ginjas, Vargem, Fajã dos Vinháticos, Ribeira do Passo, Achada do Til, Pouso, Lameiros, Lombo, Loural, Cascalho.

Os terrenos baldios, pertença do município, eram entregues ao pastoreio de gado caprino e ovino mediante autorização camarária, que só os permitia em espaços delimitados por um bardo. O interessado solicitava à Câmara, mediante requerimento, a referida autorização que era dada em Vereação. A Câmara ao passar a licença recomendava o usufruto apenas do baldio comum, não podendo "comprehender dentro da tapada terrenos proprietários". Temos notícia de dois pedidos:

1887 Abril 16 : Manuel Francisco, Poiso, tapada

1887 Novembro 12 : João José Nunes, João de Oliveira e Vicente de Sousa - bardo na Serra de Baixo (Achada do Til).

 

A partir de 1913 com a lei das pastagens publicada no Diário do Governo de 23 de Julho, o usufruto dos pastos está sujeito ao pagamento de uma taxa, atribuída de acordo com a extensão do bardo. A primeira situação nestas condições surge em 1918 com o pedido de Ernesto Firmino da Silva Branco morador no Lanço, que solicitou licença para fazer um bardo no sitio do Pardão. A Câmara autoriza-o mediante o pagamento de uma taxa e aconselha ao mesmo que o corte das árvores para o tapume fosse feito "de forma que não prejudique a serra nem as águas".

A taxa era variável, sendo o espaço concedido sob a forma de arrendamento por um prazo determinado. Assim, em 1923 Victor Dória Brazão e António de Sousa ao renovarem a licença são sujeitos à taxa de 10 escudos. No mesmo ano é concedido a José Mendes Miguel e João Mendes Júnior um baldio no Pedregal (Boaventura) por 19 anos com a taxa de 20$00. Até 1942 sucedem-se inúmeras autorizações:

ANO

REQUERENTES

DESCRIÇÃO

SÍTIO

TAXA

1887

Manuel Franco

Tapada

Poiso

 
 

João José Nunes, João de Oliveira, Vicente de Sousa

bardo no sítio das Gamelas

Achada do Til

 
 

Manuel Francisco

Tapada

Poiso

 
 

João José Nunes

bardo das Gamelas

Achada do Til

 

1918

Ernesto Firmino da Silva Branco

bardo no Pardão

Lanço

 
 

José Maria Dinis

serra d Espigão

Feiteiras

 

1921

António Augusto Faria

bardo para cabras

Fajã da Areia

 

1923

João Isidoro Aluizio de Freitas

bardo de cabras

Ponta Delgada

 
 

Victor Doria Brazão, António de Sousa Andrade

bardo sítio do chiqueiro

Loural

10$00

 

José Mendes Miguel e José Mendes Júnior

Pedregal por 19 anos

Falca

20$00

1937

João Nunes de Freitas

serra por 9 anos

Fajã Vinháticos

51$00

 

João Januário Oliveira

Serra

Lameiros

61$00

 

Manuel Pedro dos Santos, Manuel Tomé de Freitas

Bardo

Boaventura

60$00

1938

António Joaquim Barcelos

 

Lanço

75$00

 

Manuel Andrade

 

Ribeira Grande

51$00

 

António de Freitas

Lombada Vacas

151$00

 

Manuel Doria Brazão

Achada Grande

 

105$00

 

Horácio Brazão Machado

Lamaceiros

S. Vicente

75$00

 

Alexandrino dos Santos

 

1ª Lombada

25$00

 

João de Freitas

Espigão

S. Vicente

26$00

 

Manuel Vieira Garces

 

Ribeira Grande

21$00

1939

Manuel Vicente

serra Achada do Poço

Falca

650$00

 

Em todos está subjacente as recomendações, que são referidas ocasionalmente, isto é, "zelar e manter o arvoredo em bom estado e deixando livre todas as servidões, tendo única e exclusivamente o direito de criar gado". A partir de 1942, com o novo código foi definido um novo regulamento para as pastagens. Deste modo o gado lanígero estava sujeito a uma taxa anual por cabeça que não poderia ultrapassar os $50. Aqui estamos perante um bardo comum no Paul de Serra, logradouro também de Ponta Sol, Ribeira Brava e Calheta.

O usufruto dos pastos comuns, através da criação de ovelhas e cabras surge apenas como beneficio de alguns. Mais importante era o sector do gado estabulado, bovino ou porcino. Neste caso existe uma perfeita articulação com a economia familiar e a forma de exploração agrícola. A importância do gado bovino no concelho é testemunhada pelas inúmeras doações e legados onde é frequente a sua presença. Também a toponímia o regista: Lombada das Vacas, Achada das Vacas.

Maior interesse despertava o gado vacum pela dupla utilidade do estrume para fertilizar a terra e do leite para consumo doméstico ou venda. Neste último caso foi um importante suplemento da economia familiar. A venda do leite às cooperativas é uma tradição que se manteve até à actualidade. Por outro lado, tivemos a Cooperativa de Lacticínios do Norte com instalações no Sítio do Livramento, servindo-se de uma Central Eléctrica, para o efeito no Sítio do Cabouco. Com a fábrica iniciou-se a produção industrial de manteiga que há muito já se fazia ao nível caseiro. Note-se que em 1670 Afonso Gonçalves e a sogra Quitéria Aguiar pagavam de foro a Leonardo de Ornelas Travassos 2 canadas de manteiga.

De acordo com o arrolamento do gado da ilha em 1893 o concelho apresentava 1300 ha de pasto distribuído da seguinte forma:

 

Gado estabulado

gado manadio

 

S. Vicente

Ponta Delgada

Boaventura

S. Vicente

Ponta Delgada

Boaventura

bovino

3903

634

1508

122

   

ovino

100

93

 

1417

305

161

caprino

53

15

 

1667

715

450

porcino

9292

2674

4060

884

   

 

De acordo com o arrolamento do gado em 1955 é possível entender-se a dimensão e evolução:

 

1940

1955

1963

Asinino

2

   

Bovino

1353

2209

1483

Ovino

 

269

334

Caprino

602

185

 

Suíno

 

804

2601

Galináceos

 

12 768

 

Patos

 

59

 

Perus

 

34

 

Pombos

 

173

 

Coelhos

 

286

 

 

O gado suíno apresenta apenas importância na economia familiar. Todavia sente-se os ecos da sua presença nos livros de vereação, uma vez que por diversas vezes foi solicitada autorização para construir chiqueiros junto das casas de habitação. A intervenção do município, através das recomendações do delegado de saúde, incidem sobre as necessárias medidas profilácticas. As preocupações com a higiene e sanidade não são apenas dos nossos dias.

Era do porco que se extraía parte substancial do sustento da casa. A festa da matança do porco era um ritual obrigatório que acompanhava as vivências do Natal. Fora disso tempos conhecimento em 1943 da montagem por Amandio Cristóvão Góis de uma fabrica de chouriço e banha no Terreiro em Ponta Delgada.

O gado bovino alia-se à faina agrícola, sendo um elemento indispensável pela possibilidade de uso do estrume nas culturas. Entretanto o gado alimenta-se das ervas dos regatos, que crescem nas bermas dos poios, ou da folha da cana e vinha. Havia gado de engorda para fornecer os açougues locais e gado leiteiro. Do primeiro é referido em 1889 como importante para economia local o que levou a Câmara a apoiá-lo retirando o imposto sobre a cana verde.

Quanto ao gado leiteiro é de realçar o empenho da Câmara na promoção, ao apostar no apuramento e melhoria da raça através da aquisição de um touro de boa qualidade para procriação. O objectivo era claro "...animando os lavradores a criarem gados que compensam as despezas da criação abundando os mercados e auxiliando o desenvolvimento da indústria e fabrico de manteiga". A estratégia segue de perto os planos distritais definidos com a exposição zoológica do Funchal do ano imediato. Aliado a isso estão também as medidas controladoras da circulação dos novilhos. Assim em 1923 estava proibida a saída do concelho daqueles com menos de 3 meses, enquanto em 1926 a saída de vitelos fêmeas estava proibida, sujeitando-se os infractores, apanhados pelos cabos de polícia, à pena de 50$00 por cada cabeça. Enquadra-se neste plano a realização em Agosto de 1963 por iniciativa do Dr. Alcino Drumond, médico veterinário e por muito tempo o responsável da Secção do Fundo de Previdência Pecuária da Junta de Lacticínios da Madeira, da primeira feira de gado do concelho, que foi um grande sucesso.

Ligado ao gado bovino estava o aproveitamento do leite, única e exclusivamente no fabrico de manteiga. No concelho existia a Cooperativa de Lacticínios do Norte que aproveitava o leite dos seus associados para fabrico de manteiga. Ao sítio do Livramento estava uma fábrica, movida a energia duma central hidro-eléctrica no sítio do Cabouco. O leite era desnatado nos diversos postos existentes na freguesia sendo depois as natas conduzidas à fábrica por homens.

A criação dos postos de desnatação era solicitada pelos proprietários dos diversos sítios em requerimento dirigido à Câmara. Desde 4 de Abril de 1933 que estavam sujeitos a uma taxa, que foi anulada em 1942.

ANO

LOCAL

PROPRIETÁRIO

1930.Outubro.13

Miradouro, Lanço, Poiso

Abílio António Vieira

Dezembro.08

1ª Lombada (Ponta Delgada)

Manuel Joaquim de Goes

1933.Junho.23

Lamaceiros

Augusto Ribeiro Andrade

Junho.30

Achadinha(Boaventura)

João de Almeida

Julho.14

Achada

João de Almeida

Julho.28

Cascalho

João de Andrade

1955.Agosto.01

Falca de Baixo

Manuel Vicente

1963.Fevereiro.28

Pé do Passo

João de Sousa Júnior

 

Para os anos de 1938 e 1939 temos o rastreio completo dos postos de desnatação em toda a ilha. A situação para o concelho de S. Vicente é a seguinte:

Freguesia

Sítio

Litros de leite recebido

 

1938

1939

S.VICENTE

Feiteiras de Baixo

 

23433,30

   

56630,50

31521,50

 

Lanço

 

22525,50

   

60471,30

39985,80

 

Lombo

 

13543,40

 

Fajã do Amo

 

18423,30

   

48230,60

33427,30

 

Vargem

 

26603,50

 

Loural

 

21100,30

 

Rª Grande

 

26228,00

   

46925,90

25282,60

 

Ginjas

 

64105,40

   

118019,40

55258,60

 

Rª Passo

41418,30

27446,30

 

Vargem de Baixo

48456,60

37210,80

 

Ribeira Grande

46925,90

25282,60

 

Pé do Passo

53221,20

46729,10

 

Laranjal Corrida

31881,00

38372,90

 

Achada do Til

39056,60

37,855,50

 

Loural

50595,70

37855,50

 

Lameiros

78656,90

82792,90

 

Fajã Vinháticos

73958,20

82792,90

 

TOTAL

816473,50

841296,00

PONTA DELGADA

Feiteiras

33646,00

32137,40

 

3ª Lombada

40745,70

42949,30

 

1ª Lombada

27687,60

42590,20

   

40683,50

25781,90

 

2ª Lombada

28503,90

30867,30

 

TOTAL

171266,70

174326,10

BOAVENTURA

Pomar

53670,70

29679,30

     

23222,30

 

Lombadinha

38293,60

44927,40

 

Achada Castanheiro

63359,90

36839,40

     

27090,60

 

Fajã Penedo

66708,60

64933,80

 

Serra d’Agua

28762,30

26938,50

 

Lamaceiros

67341,20

68019,80

 

Lombo Urzal

31146,40

25736,30

 

Falca de Cima-Poço

101840,65

100923,80

 

Serrão

60780,00

61082,80

 

Silveira

46283,50

53341,50

 

TOTAL

558186,85

562735,50

 

Daqui resulta que o concelho finalizou a década de trinta com um aumento de dez postos de desnatação, cifrando-se o total em 39, o que deverá ser resultado do aumento do gado leiteiro. Aliás, os dados apontam para um crescimento evidente nas décadas seguintes. Tenha-se em conta que o ano de 1940 foi marcado por um forte vento de leste que destruiu culturas e ervas, sendo por isso mesmo de estrema dificuldade para a criação leiteira, que não se reflectiu em S. Vicente:

FREGUESIA

1938

1939

1940

1952

S.VICENTE

816473,50

841296,00

896943,00

1018845,70

PONTA DELGADA

171266,70

174326,10

198082,10

197891,00

BOAVENTURA

538186,85

562735,50

611735,80

664514,50

 

A evidência da importância na economia familiar está no dinheiro distribuído mensalmente aos lavradores.

Mês

S. Vicente

Ponta Delgada

Boaventura

TOTAL

Nº postos

23

5

12

40

Janeiro

28099$47

6255§48

19663§21

54438$44

Fevereiro

29775$64

6710$74

19952$06

56430$44

Março

30057$34

6462$22

20270$92

56790$16

Abril

28895$52

5899$12

2397$49

55192$16

Maio

28633$42

5899$12

20397$49

55009$39

Junho

25813$72

4974$82

16888$69

47677$23

Julho

26200$36

4996$36

16229$24

47425$96

Agosto

27464$36

5767$85

17168$32

50400$53

Setembro

29002$34

6772$71

16356$72

54131$77

Outubro

31905$77

7794$88

20766$01

60.235$06

Novembro

33425$15

8520&95

24288$96

66235$06

Dezembro

34745$62

8560$04

27069$19

70374$85

Total

354018$74

78497$56

241644$39

674160$69

Proprietários

1110

275

590

1975

Média recebida por proprietário

31$89

28$54

40$95

341$34

Para o ano de 1943 é notificada a existência de 15 postos de desnatação no concelho, que transformaram 950.000 litros de leite em nata para o fabrico de manteiga. Na década de sessenta é evidente um decréscimo no gado leiteiro do concelho, que continuou nos decénios seguintes.

 

Proprietários

Vacas leiteiras

Total Gado bovino

1940

1975

1725

2555

1960

1483

11105

3281

 

 

 

A AGRICULTURA

O sistema de propriedade torna-se importante na definição das relações sociais que se estabeleceram em torno da agricultura. A origem fundamenta-se no sistema sesmarial que regeu a distribuição de terras a partir do século XV. A excessiva concentração das dadas de terra num pequeno grupo de sesmeiros levou ao aparecimento de formas características de propriedade. Primeiro foram as terras arroteadas vinculadas a que se associava o pagamento de um foro. Depois a necessidade de tornar agricultáveis as terras, de acordo com o contrato sesmarial.

Em Ponta Delgada e Boaventura foi bastante evidente, a partir do século XVII, o domínio do contrato de colonia a materializar as relações sociais em torno da terra. E, por isso mesmo, tem "A Canga" de Horácio Bento de Gouveia um dos melhores retratos. Os mais destacados proprietários vêem-se na necessidade de ceder parcelas não arroteadas a quem estivesse interessado em as tornar aráveis fazendo as queimadas e erguendo paredes. Este último trabalho garantia-lhe uma forma de propriedade, isto é, a das benfeitorias aí realizadas. Daqui resultou dois tipos de proprietários: o proprietário da terra e o das benfeitorias.

Os laços sociais que vinculavam o colono e o senhorio à terra regiam-se por normas específicas não exaradas nas ordens régias. O vínculo queria-se o mais duradouro possível e a própria estrutura do contrato, ao estabelecer uma forma de propriedade do colono, permitiu a sua quase perpetuação. A situação chegou até aos nossos dias e só o Decreto Legislativo Regional nº 13/77M veio a por termo a este contrato. Antes disso, já em Ponta Delgada nas Lombadas, se avançara em princípios do século com um pioneiro programa de extinção dos contratos de colonia aí existentes, propiciando ao colono a posse da terra e das benfeitorias, já herdadas dos parentes.

A importância agrícola da vertente Norte assentou, no princípio, nas culturas de subsistência, que asseguravam as necessidades dos colonos aí instalados e um suplemento escoado para a vertente Sul. Era a principal actividade que ocupava e de sobrevivência dos naturais do concelho, produzindo-se para o consumo e elevado excedente que exportava às freguesias vizinhas ou ao Funchal.

A rede de transportes, por mar e terra, era exígua e não contribuía em nada para a valorização da economia do Norte. São insistentes as reclamações do município para a melhoria do serviço do vapor costeiro que, por ser um "vaporzinho costeiro", não tinha capacidade de lotação para transporte dos produtos, como o gado e pipas de vinho e aguardente. Somente nos anos trinta e quarenta, com o delineamento da rede viária, ficou solucionada de uma vez por todas a dificuldade. O vapor costeiro cedeu o lugar ao automóvel.

Um dos aspectos essenciais para o avanço da área agrícola prendia-se com o alargamento da rede de irrigação. O concelho era rico em água, que corre o ano inteiro nas ribeiras, mas devido à orografia não chegava com facilidade a todas as terras que era necessário irrigar. Não obstante, a abundância os vicentinos faziam valer os seus direitos. Deste modo em 1875 levantou-se grande alvoroço entre os populares face ao requerimento de Roque Caetano e Araújo que pretendia tirar água do sítio dos Estanquinhos, mas a Câmara que diz ser "uma corporação que reprezente o povo do seu concelho", indeferiu o pedido uma vez que é aí a origem da Ribeira do Lanço "que pertence a vários proprietários desta freguezia".

Os moradores dos diversos locais servidos pelas ribeiras e levadas tinham muita força junto da Vereação e juntavam-se em comissões para reivindicar os direitos de servidão. Assim sucedeu com a água da Ribeira da Vargem e da levada do Folhadal que provocou maior apoio e atenção na conservação. A Câmara havia precavido antes isso ao prover anualmente um olheiro das águas de servidão pública. Temos apenas noticia de um em 1891 que tinha ao seu cuidado a água das levadas das Feiteiras e Ginjas recebendo de soldo de 10 000 réis anuais.

As reclamações dos moradores são legitimas e resultam do facto da levada ser um meio essencial ao dia a dia. Servia a irrigação dos terrenos, movimentava os moinhos e também o serviço doméstico. Em 1927 informa o Dr. Gregório Dinis que uma quebrada destruiu no sítio do Saramago a levada velha das Feiteiras, privando os seus moradores há dois meses. "Esta levada além da irrigação que faz nestes sítios, tem a missão de servir para limpeza e egiene dos referidos sítios das Feiteiras e Saramago". Ainda não se havia lançado a rede pública de fontanários e de abastecimento de água e por isso mesmo a levada era merecedora de toda a atenção.

A partir de 1944 é lançado um plano regional de aproveitamento hidráulico com a dupla finalidade de irrigação e produção de energia hidroeléctrica. A comissão de engenheiros foi recebida pela Vereação que lhe fez sentir a necessidade das levadas da Ribeira do Moinho (Boaventura) e Ribeira Grande(S. Vicente) .

As culturas de grande rendimento económico foram sem dúvida a vinha e a cana sacarina. A vinha exigia-se com inúmeros cuidados, pois as condições climáticas locais aconselhavam a construção de latadas e a protecção com bardos de urze. Nas actas da Vereação sucedem-se os inúmeros pedidos para o corte de tanchões e de urze.

Em 1863 temos notícia de 12 lagares de vinho em todo o concelho, sendo sete em S. Vicente, três em Ponta Delgada e dois em Boaventura. Daqui se conclui do uso comum desta estrutura, tal como nos elucida Horácio Bento de Gouveia no pertinente retrato do norte lavrado em "A Canga".

O vinho era feito nas adegas do concelho e só depois conduzido para o Funchal. Todavia em 1909 a agência de vapores Blandy não providenciou o despacho da cascadura, o que levou a Vereação a interceder junto do governador. O vinho depois de ter estagiado três meses na pipa era posto à venda ou conduzido ao Funchal. Neste último caso deveria ser acompanhado de uma nova guia, pois caso contrário não poderia ser despachado na Alfândega do Funchal. Foi isso que aconteceu em 1927 com Francisco Sardinha que ao embarcar no navio Zarco o vinho o vogal da comissão de viticultura não quis assinar. Ao vinho que ficava no concelho era vendido nas tabernas, correndo sobe de uma taxa, ou então poderia ser feito pelo próprio viticultor, mediante autorização da Câmara.

A casta em maior evidência nas zonas ribeirinhas do concelho, desde finais do século dezanove era o jaquet. Ele conseguiu suplantar todas as europeias e afirmar-se como o predilecto dos nortenhos. A capacidade de resistência à filoxera e a abundância dos luzidios cachos fascinaram os nortenhos. Deste modo a pretensão para acabar com isto levou a alguma apreensão no norte da ilha. Em 23 de Junho de 1928 a Vereação faz-se porta-voz das reclamações dos agricultores protestando em ofício dirigido ao Ministro da Agricultura, "contra o pedido das forças vivas reunidas na cidade do Funchal, em que pedem imediata substituição da vinha de jaquet na região da Madeira, por outras castas". Aliás, nos anos sessenta ele teve no Dr. Alcino Drumond um dos seus mais destacados defensores.

Os dados referentes à produção são escassos e apenas podemos assinalar dois momentos que mesmo assim são elucidativos. No quinquénio de 1935 a 1939 temos os seguintes valores em litros:

Concelhos

Tinta

Verdelho

Moscatel

Malvasia Babosa

Izabela

Herbemont

Jacquez

Total

S. Vicente

49.239

365

558

162

33

2.205

968.168

997.073

Total da ilha

2.634.740

43.401

6.495

698.173

647.045

736.846

3.494.887

8.669.780

 

As castas americanas correspondem a 97% da produção do concelho, sendo dominadas pelo Jaquet, o que levou a que se considerasse S. Vicente como o concelho do Jaquet. Já em 1943 a situação está em decrescendo uma vez que o valor destas castas se situa agora em 84%, para voltar a subir na década de sessenta. Em 1966 os 313 viticultores do concelho produziam um total de 1.039.853 litros de vinho, sendo 30.618 litros de castas boas e o restante de vinho jaquet.

Os anos cinquenta e sessenta foram os anos de ouro do jaquet, tal como provam os dados de produção

ANO

LITROS

1951

848.931

1952

974.964

1953

1.277.351

1954

1.217.498

1960

1.170.157

1966

1.039.853

 

O vinho jaquet manteve-se por muito tempo como o vinho de marca do concelho tendo no Dr. Alcino Drumond, um dos principais promotores. Ganhou fama o vinho saído das adegas que delicia aqueles que tiveram a oportunidade de conviver com ele e partilhar a sua degustação. Hoje o jaquet perdeu a fama e a ilha de norte a sul procura reconciliar-se com as castas tradicionais.

O final do século XIX marca o regresso dos canaviais à ilha, alastrando a área de cultivo ao Norte da ilha. A vinha teve de competir com esta nova cultura, que por certo se apresentava mais rentável A promoção é encarada por todos como um meio para ultrapassar a crise económica que fizera perigar o principal factor económico que era a vinha. A presença da cana e engenhos no concelho estão documentados desde a década de cinquenta. O primeiro engenho surgiu em Ponta Delgada em 1858, a que seguiu em S. Vicente em 1860 e no ano imediato tivemos outro para a primeira freguesia.

Em 1863 são referidos apenas três engenhos sendo dois em Ponta Delgada e um em S. Vicente. O último situava-se no sítio do Passo e foram fundado em 1860 por Catanho António de Freitas e António Fernandes Telles, era movido a água, sendo de três cilindros. Nos quatro meses de actividade moía 13320 Kg de cana e 77435 Kg de sorgo. Em Ponta Delgada surgem os do sítio da Fonte e do Açougue. O primeiro foi fundado em 1858 pelo Conde de Carvalhal, a cargo de um administrador, produz 98 hectolitros de aguardente. O segundo em 1861 por Candido Lusitano de França com 25 hectolitros a partir de 29400 Kg de sorgo.

As autoridades assistem como os principais incentivadores da cultura. Em 1888 o município intervém no processo de promoção da cana sacarina, comprando acções no valor de 350$000 réis de uma fábrica de destilação que se pretendia fazer. Passados onze anos Francisco Afonso de Abreu Cardoso foi autorizada a reparar a fábrica de moer cana e destilar aguardente da Ribeira do Porco em Boaventura. O mesmo sucede em 1900 com Daniel Brazão Machado para um na Quinta em S. Vicente e passados dois anos com João Fidélio Canha para outro na Pedra Funda em Ponta Delgada.

De acordo com o levantamento industrial feito em 1907 por Victorino José dos Santos o concelho estava servido de 5 engenhos (três em S. Vicente, um em P. Delgada e outro em Boaventura), sendo apenas misto de vapor e água em Ponta Delgada, que moíam 1095000 Kg de cana, o que representava 2,4% da produção da ilha.

Em vereação apenas temos notícia em 1908 do de Augusto Joaquim de Abreu, do sítio do Açougue (Ponta Delgada) que pretende iniciar a laboração de aguardente na fábrica à Pedra Funda pelo que solicitava a aferição das medidas e respectiva licença.

A 11 de Março de 1911 o Governo Central decidiu expropriar as fábricas de aguardente, o que levantou uma onda de protesto. Em 17 de Abril a Vereação vê-se aflita para conter a fúria popular e reclama ao Governador Civil providências para a abertura das fábricas de aguardente do concelho: "o povo se acha alterado, ameaçando as authoridades e a commissão municipal". Todavia nos anos vinte a situação não havia melhorado pois o rateio de 500.000 litros de aguardente por engenho levaria a que muita cana ficasse por colher. Por outro lado a proibição de circulação de aguardente do Norte no Sul era também uma medida nefasta.

A cana do norte só poderia ser transformada em aguardente, não havendo engenho para fazer açúcar, daqui resultaria que "a maior parte da cana teria de ser arrancada" levando à ruína a região norte da ilha. O município, sempre ao lado dos interesses dos munícipes, não podia estar de acordo com as medidas, reclamando a revogação do decreto sacarino. A situação levou ao encerramento em 1939 de seis fábricas em todo o concelho. Em "Águas Mansas" Horácio Bento de Gouveia fixou o retrato da decadência na freguesia de Ponta Delgada. Anote-se no mesmo ano o pedido de abertura de uma nova por António Norberto de Ornelas em Ponta Delgada.

Horácio Bento de Gouveia descreve de forma perspicaz a situação de crise da cana na freguesia de Ponta Delgada: "O engenho de Custódio Filipe, reconstruído por mestre do Sul, fazia rebentar de inveja Luís da Feiteira. Nova roda de castanho e novos baldes, novos cilindros, novo alambique, dependência para escritório privativo de gerente, a fábrica apresentava um aspecto completamente diverso do velho casarão que fora pertença de antigos fidalgos da freguesia(…).

O engenho da Fonte estava um cangalho. As paredes sem cal, todo o rosto para o lado da rua esburacado, os armazéns da garapa a abarrotarem de ponchos com os arcos comidos de ferrugem. O proprietário, Luís da Feiteira, desde que lera no Diário Popular que o governo ia mandar expropriar os engenhos do Norte, desinteressou-se da conservação do edifício. Agora, o eixo da roda da água que movimenta a engrenagem dos cilindros, de tanto girar, tinha as extremidades por um fio".

Noutro romance, Águas Mansas(1971), o trama tem por palco os engenhos da freguesia, donde se presente a luta contra uma política de monopólio do governo e a competição desenfreada entre os dois engenhos do centro da freguesia.

A situação está patente nos valores da produção de cana, como se poderá ver com os seguintes dados:

Ano

PRODUÇÃO em Kgs

1937

165000

1938

111000

1942

47502

1943

14517

1966

6491996

 

Os números da década de sessenta são fruto de uma campanha de apoio à cultura que levou ao alargamento da área de cultivo também na encosta norte. Na verdade a cana continuava a ser para muitos agricultores uma esperança e meio da valorizar o labor diário, que persistirá até 1976.

O ciclo da riqueza agrícola culmina com o feijão. A produção dava para as necessidades locais e exportação dentro da ilha, sendo por muito tempo um factor das exportações do concelho. Em 1950 havia sido elevada e faltavam exportadores pelo que o vereador António Jordão Andrade de Oliveira reclamou a necessidade de solicitar ao Governador a exportação de vinte toneladas, "para que o agricultor não desanime, diminuindo as plantações deste produto, o que vem prejudicar muito a economia deste concelho".

Os cereais continuaram a ter um peso fundamental na subsistência das populações do Norte. As terras de sequeiro estavam-lhe reservadas e por todo o lado o amarelo dos trigais coloria a paisagem na época estival. A faina da ceifa, a animação da eira definiam um momento vital da vida agrícola

A entrada do cereal no circuito alimentar só poderia ser feita mediante a existência de meios à transformação. Para isso socorria-se da força motriz da água, com os moinhos de água, ou do próprio homem, com os moinhos de mão. Em 1863 o concelho dispunha de dezoito moinhos de água, sendo onze em S. Vicente, um em Ponta Delgada e seis em Boaventura. Estes laboravam oito meses no ano para moer 2484 hectolitros de trigo e milho.

O mais antigo moinho que aparece referenciado em vereação surge em 1901 em Ponta Delgada por iniciativa de João António Rego. Depois em 1940 tivemos outros dois no sítio do Passo em S. Vicente, propriedade respectivamente de José de Abreu Júnior e Alcino Ébio de Freitas. Em 1960 António Francisco dos Reis instalou uma moagem eléctrica nas Feiteiras. Da farinha fazia-se o pão em forno caseiro ou então nas padarias que sabemos da sua existência na década de quarenta. Em 1947 sabemos existirem três padarias, sendo uma nas Feiteiras (S. Vicente) e duas em Boaventura. Somente em 1960 S. Vicente voltou a ter nova padaria nas Feiteiras. No Passo, Alcino Ébio de Freitas tinha construído um pequeno complexo industrial composta de um moinho e de uma fábrica de fazer massa.

 

AS CRISES DE SUBSISTÊNCIA

S. Vicente era um concelho rico em termos agrícolas mas não poderia considerar-se auto suficiente. Em muitos aspectos dependia do exterior, estando por isso sujeito à conjuntura económica insular e internacional. O ano de 1888 o mês de Janeiro foi de verdadeira catástrofe. As culturas da cana e da vinha haviam sido perdidas pelo que se decidiu anular a contribuição predial. A crise era geral: não havia géneros alimentícios, nem trabalho, pelo que a Câmara decidiu dar andamento a alguns reparos nos caminhos a seu cargo. Na Fajã de Areia, face à catástrofe de 17 de Maio houve necessidade de atender a 200 famílias, tendo o Governador concedido um subsídio de 300$00.De acordo com a vereação tornava-se necessário atender aos mais necessitados, pois os mais abastados abasteciam-se directamente no Funchal.

A fome será um apanágio da primeira metade do século. Em 1918 houve necessidade de importar 1200 toneladas de milho de África "para enganar a fome da população". A distribuição dos produtos no concelho fazia-se através de uma comissão de abastecimento estabelecida de acordo com o decreto de 15 de Janeiro de 1921. Nos anos quarenta a guerra veio de novo causar idêntica situação de rotura sendo necessária a intervenção das autoridades administrativas. A distribuição de farinha era feita de forma racionada às padarias, enquanto o proprietário da fábrica de massas do Passo estava obrigado a distribuir 460 Kg para a venda a retalho.

 

 

AS INDUSTRIAS ARTESANAIS

As indústrias tradicionais não adquirem grande importância no concelho mesmo assim é de assinalar em 1863 a existência de 13 teares, sendo cinco em S. Vicente, dois em Ponta Delgada e seis em Boaventura. Os teares laboravam durante o ano 4680 metros de pano de linho, 98 de estopa e 237 de linho e lã. Note-se que a produção de lã no concelho era de 478 kgs, vendendo-se a 310 réis ao kg.

Nesta época o bordado não era ainda uma actividade importante, pois temos apenas registadas quatro bordadeiras, que recebiam ao ano cerca de 380$000 réis. Foi no século XX que esta actividade adquiriu importância, cifrando-se em 1952 esse valor em 47252 contos que eram distribuídos por 2465 famílias. Mais uma vez Horácio Bento de Gouveia, em "lágrimas correndo mundo" traça-nos o retrato da bordadeira do concelho.

Ainda no concelho assinala-se desde 1850, que se mantinha em 1863, uma fábrica de curtumes, fundada por Joaquim da Silva Ganança no Sítio do Lombo dos Cabos em Boaventura, que curtia anualmente cerca de 100 couros.

O mapa das actividades sócio-profissionais do concelho para 1863 é também elucidativo da forma como um concelho fechado como o de S. Vicente procurava assegurar a sua auto-suficiência:

OFÍCIO

S.VICENTE

PONTA DELGADA

BOAVENTURA

TOTAL

Alfaiates

 

1

 

1

Bordadeiras

   

4

4

Carpinteiros

5

 

2

7

Costureiras

3

2

2

7

Ferreiros

4

2

9

15

Gramadeiras

30

8

21

59

Lavradores

40

6

19

65

Marceneiros

   

1

1

Parteiras

6

2

1

9

Pedreiros

6

1

5

12

Pescadores

8

7

 

15

Sapateiros

10

4

6

20

Tanoeiros

 

1

 

1

Tecedeiras

5

2

6

13

Trabalhadores

400

130

340

870

 

 

 

 

O COMERCIO

As produções locais alimentavam a economia e subsistência caseira, sendo os excedentes exportados para a cidade, freguesias e concelhos limítrofes. Primeiro pelos vapores de Ponta Delgada e depois pelo automóvel fazia-se chegar ao burgo o feijão, as batatas, o vinho, as madeiras e lenhas.

Alguns dos estrangeiros que visitaram a encosta Norte referem a riqueza florestal, mas também agrícola. O povo humilde vive do trabalho da terra desconhecendo o uso do dinheiro no sistema de trocas que se mantêm assente no sistema tradicional. Ao Domingo havia um mercado na vila, após a missa, para troca de produtos.

Mais uma vez Horácio Bento de Gouveia pressente a mudança que ocorreu na economia do concelho quando o automóvel substituiu o vapor pelo automóvel: "Se nos reportarmos à ilha que habitámos, podemos assinalar dois períodos no tocante aos mantimentos de que sempre viveu o ilhéu: o anterior à construção das estradas que ligam o Norte com o Sul, e o que lhe sucedeu e vem até à actualidade. O primeiro caracteriza-se pelo meio de transporte marítimo, o qual era incerto no comunicarem os barcos com os portos, sem consequência do estado do mar do Norte(…) faltando a mercadoria nas vendas e não sendo possível remeter para a cidade o feijão e semilha. Desta sorte a produção dos campos rara saía das freguesias, mesmo porque ainda não se tinha desenvolvido a psicologia do comerciante. O que a terra dava, na terra ficava. A jornada pedestre limitava-se à cesta, ao pequeno saco ou ao barreleiro de pequena dimensão. O segundo período distingue-se pela abertura da estrada à camioneta. Cessam as carreiras dos naviozinhos de cabotagem(…).Po outra parte, torna-se viável a qualquer levar para a cidade ou mandar à cidade em dia previsto, com mau tempo ou bom tempo, tudo que não excedesse a força do "carro". E agora, a partir do segundo quartel do século, transforma-se a vida económica das freguesias. Intensifica-se a cultura das fazendas com intuito comercial".

Durante o século XIX as madeiras são a mais evidente exportação do concelho. São inúmeros os pedidos de licença de corte para esse fim. A Câmara para disciplinar o movimento estabeleceu a abrigatoriedade de marcar as madeiras saídas do concelho. Em 1898 encontravam-se no Calhau algumas madeiras prontas para serem levadas ao Funchal que eram de contrabando, uma vez que ostentavam a marca CMSV, quando a usada era CSV.

Os valores da estiva estabelecidos em KG para o ano de 1943 evidenciam a realidade:

PARA O FUNCHAL

DO FUNCHAL

Lenha

68700

Milho em grão

6870

Madeira

75913

farinha

9900

Vimes

7085

Massas

5239

Batata e semilha

2245

Açúcar

6599

Feijão

17905

Sal

86760

canas

13898

Sabão

4562

carga diversa

33268

Pipas vazias

12530

vinho

93660

Adubo

10910

Enxofre

9090

   

Cimento

44800

   

Diversos

24942

TOTAL

232674

TOTAL

554878

 

 

O transporte marítimo continua ainda a ser importante para o concelho nas relações com a cidade. Os produtos dominantes do trafico continuam a ser os tradicionais: as lenhas, madeiras e vinho que se trocam por produtos importados.

A mudança ocorreu com a chegada do automóvel. A alteração sentiu-se a vários níveis no Norte. Foi o momento de despertar da encosta, até então abandonada, para as realidades urbanas do Sul e o progresso que com isso adveio para os lugares e as gentes. Na definição da economia do concelho através da circulação dos produtos deve ater-se às duas realidades.

A intervenção do município quanto à actividade comercial tem incidência quase sempre na realidade local. O Açougue que serve de venda à carne, a praça para venda do pouco peixe e as vendas e tabernas que contribuíam para a distribuição e venda dos produtos importados da cidade ou do vinho da produção local.

 

 

A PRAÇA E O AÇOUGUE

O corte e venda de carne era um dos campos de assídua interferência da Vereação, estando estabelecida pela necessidade de assegurar o normal abastecimento. A Câmara constrói os açougues e nomeia os magarefes para o abate e corte da carne. O concelho dispunha de 3 açougues, um para cada freguesia. A situação data de 1867, pois que só neste ano a Boaventura teve açougue próprio em telheiro cedido para o efeito por Manuel António de França Carvalho. Em S. Vicente, desde 1891, estavam em funcionamento dois açougues: Feiteiras e Vila. O último funcionava numa casa arrendada, sendo o gado abatido em plena via pública no Largo do Pelourinho. Contra este uso reclama o procurador do concelho solicitando um local apropriado para o abate. A Câmara deliberou e adquiriu um terreno para aí construir um novo açougue.

Por postura de 1896a Câmara proibiu o abate de gado nas ruas e lugares da vila, ao mesmo tempo que se interditava a venda de carne fora dos açougues. Para além da definição dos locais de abate e venda a Câmara foi alertada pelo delegado de saúde para a necessidade de fiscalização da carne pois vendia-se dela incapaz "por suspeita de moléstia perniciosa para a saúde pública". Aqui insiste-se na necessidade de uma normativa que obrigasse os magarefes a não abater as rezes sem antes serem examinadas pelo facultativo. Assim aconteceu a 14 de Junho ao estabelecer-se a obrigação, ficando o médico incumbido da fiscalização prévia do gado e, após a abertura, ao exame das vísceras.

Tardou a construção de um açougue na Vila, mantendo-se a funcionar em condições precárias em prédios alugados. Assim em 1905 reclama-se uma casa para o instalar, "visto que a actual é imprópria e prejudicial à conservação da carne por ter pouca ventilação", sendo mudada para uma loja na Rua Direita. A Câmara foi obrigada a optar por um novo. Em 1915 a Vila passou a dispor de um novo matadouro e praça de peixe, tendo como fiscal para sua guarda Manuel Pestana do Poiso.

A situação dos demais açougues não era melhor. O das Feiteiras foi encerrado em 1909 pelo delegado de saúde devido ao estado de conservação, apostando a Câmara na reparação com uma verba de 49$000. Depois optou-se pela construção de um novo vendendo-se o actual edifício em hasta pública, para que a receita fosse usada na construção do novo edifício. Em 8 de Agosto de 1932 a vereação decidiu-se o encerramento, mas apenas passados dez anos se iniciou a construção do outro, que foi adjudicado a 7 de Agosto de 1943 a Cândido Homem de Gouveia por 35.900$00. E só em Maio de 1944 as Feiteiras passou a dispor de novo açougue. Para Boaventura o novo açougue só ocorreu em 1957. Finalmente em 1968 avançou-se com um estudo para a construção de um talho e praça de venda de peixe na Vargem.

Para além da necessária definição dos espaços para abate, corte e venda de carne, a Câmara definiu um conjunto de regras reguladoras da actividade e assume o encargo de nomear os funcionários para o seu exercício e fiscalização. Em 1868 existiam 3 cortadores de carne, sendo um para os açougues de Boaventura e Ponta Delgada e dois para a freguesia de S. Vicente. Eles estavam sob a alçada de um director em S. Vicente e Boaventura e de um fiscal em Ponta Delgada, que deveriam fiscalizar a actividade dos cortadores de carne. Em 1873 o regedor de Ponta Delgada reclamava junto da vereação a falta de higiene no açougue, acusando o responsável de não obrigar os cortadores de carne "para os varrer e lavar todas as semanas".

O exercício da actividade gerou alguns atritos entre a vereação e os cortadores de carne. Assim em 1868 o vereador João Joaquim de Canha, como director do açougue de Boaventura impediu o cortador de vender a carne a mais de 120 rs ao Kg. Ainda o mesmo cortador é admoestado em 1872 por vender carne fora do açougue, acabando demitido. Aliás, toda a infracção ao estipulado nas regras de funcionamento levava à demissão. Senão vejamos. Em 1892 Manuel Francisco marchante das Feiteiras, porque não dava conta aos donos do dinheiro do gado que lhe era confiado para venda foi demitido. Ainda, neste mesmo açougue o magarefe José Gomes Medeiros segue o mesmo caminho por deixá-lo abandonado e sem carne.

Durante os primeiros anos do nosso século não pressentimos qualquer anomalia no funcionamento dos açougues que chegasse à vereação. Parece ser um momento de penúria de gado para abate, pois em 1924 a Vereação recomenda que sempre que quando fosse abatido gado num dos açougues da freguesia de S. Vicente deveria dar-se metade ao outro. Caricata foi a situação vivida no mesmo ano em Boaventura onde Manuel António Caldeira, entrou no açougue onde insultou e expulsou o magarefe, Afonso de França, assumindo a sua posição.

A definição de um regulamento para os matadouros e talhos municipais é já de 1965 e marca o início de uma nova forma de administração dos açougues. A partir de 1966 o abate e abastecimento de carne aos açougues era feito por arrendamento em hasta pública. A renda tinha como base de licitação os 3.600$00 e deveria ser paga trimestralmente. Na primeira licitação ficou em aberto o de Boaventura sendo os demais concedidos da seguinte forma:

Vila- José de Oliveira e Freitas - 5.450$00

Feiteiras - 6.005$00

Ponta Delgada - Manuel José - 3.700$00

 

O peixe parece nunca ter adquirido grande importância na alimentação do concelho. Em 1892 a venda fazia-se sem quaisquer condições pelas ruas da Vila, no que foi limitado pela vereação que estabelece para local de venda a praia junto ao porto da Vila, onde a Câmara pretendia concretizar uma praça. Tal objectivo foi concretizado em 1896. O projecto foi apresentado no ano anterior, mas só em 18 de Maio foi adjudicada a obra a Carlos João de Sousa pelo valor de 400$000 que a deu por concluída em 19 de Setembro. Em 1897 dava-se por concluída a praça, sendo baptizada de Mercado Mouzinho da Silveira como forma de "perpetuar neste concelho o nome dum illustre heroe que tanto se tem destinguido nas campanhas de Africa, causando admiração ao mundo, e assegurando o domínio português nas vastas regiões onde tem combatido..."

Já em finais do século passado era corrente os pescadores socorrerem-se de bombas para matar o peixe, o que acarretava inúmeros prejuízos para os cobradores dos impostos que recaiam sobre o pescado. Assim o evidencia uma queixa do cobrador deste imposto em Porto Moniz em 1896, quando a freguesia estava sob alçada do concelho de S. Vicente.

 

 

 

AS VENDAS E MERCEARIAS

O abastecimento local fazia-se a partir das mercearias e tabernas. Aí vendia-se em simultâneo bebidas, nomeadamente o vinho da produção local, géneros alimentícios e artefactos locais ou de importação. As vendas ou mercearias são espaços privilegiados do mundo rural. Quase todas são definidas por dois espaços: a mercearia e a taberna. A última é um local importante de convívio. É o ponto de encontro dos homens após uma jorna de trabalho.

Dentro da economia rural estes espaços assumem um papel fundamental no sentido de que distribuem os produtos de fora, mas também os locais que muitas vezes recebem por troca directa. Quem não se recorda do tempo em que ovo da galinha servia de moeda de troca ?

A criação deste espaço obedece às possíveis solicitações da procura estando em razão directa dos agregados populacionais do concelho. Elas derramam-se por todos os sítios, surgindo uma maior concentração dos espaços de maior circulação de munícipes. O facto de a única paróquia da freguesia de S. Vicente se situar por muito na Vila, fez valorizar este espaço e aumentar a densidade de estabelecimentos no percurso que conduz os transeuntes a ela. Senão vejamos. A Vila surge ainda em 1965 com cinco a que se associam outras três do Poiso. No mesmo ano a freguesia de S. Vicente apresenta-se com quarenta e dois estabelecimentos registado, Ponta Delgada com treze e Boaventura com vinte e dois.

A abertura de um estabelecimento obrigava ao requerimento da licença que só poderia ocorrer depois da necessária autorização camarária e do pagamento de uma taxa. Ao infractor era atribuída uma pesada multa. Foi isso que sucedeu em 1886 a Caetano Rodrigues de Gouveia, das Ginjas, que tinha aberto uma taberna no miradouro sem que para tal estivesse habilitado com a licença camarária.

Acrescem ainda outros requisitos que foram regulamentados ao longo do tempo. Assim, em 1931 a localização deveria estar a mais de 500 metros de distância das escolas. E antes havia-se estabelecido padrões de higiene e sanidade no funcionamento. De acordo com regulamento de 1946 todos os estabelecimentos comerciais foram obrigados, num prazo de noventa dias, a ter água canalizada e pia, caso se situassem a mais de 100 metros da canalização pública a obrigação revestia-se na presença de um reservatório de barro com capacidade para 50 litros. Por outro lado os géneros alimentícios deveriam ser guardados em prateleiras envidraçadas ou caixas fechadas. Depois foi a proibição a partir do dia 1 de Junho de vender no mesmo compartimento os géneros alimentícios, tintas, óleos, guanos, sulfato de cobre e substâncias tóxicas ou nocivas à saúde. Aquele que infringisse a medida sujeitava-se a uma multa de 200$00. Disto foi feito um edital a 25 de Maio que obrigava os proprietários de mercearia a procederem aos adequados melhoramentos. Assim, na realidade sucedeu surgindo entre Junho e Agosto deste ano 53 pedidos para a realização de obras nos estabelecimentos.

Concluídas as melhorias o proprietário deveria solicitar uma vistoria à Câmara, o que o habilitava após isso a abrir as portas. A correria ao mercado de materiais de construção levou a que se esgotassem os stocks. Deste modo em 28 de Setembro Cândido Homem de Gouveia, das Feiteiras, solicitou o adiamento na instalação da pia por falta no mercado. Mesmo assim o despacho da Câmara é incisivo: "deve manter encerrado o estabelecimento enquanto decorrem as obras, visto que não cumpriu, como devia as instruções fornecidas pela Câmara em edital de 25 de Maio findo".

O comércio de alguns produtos mais importantes, como o vinho, aguardente e carne, tinha um regulamento especial, onde se estabelecia a forma de lançamento e controle dos impostos municipais que sobre eles incidiam. O primeiro é de 1870, seguindo-se outros em 1880 e 1881. Aqui estava determinado a forma de circulação do produto e a sua venda. No caso da aguardente deverá ter 21 graus bartier e cada vendeiro só poderá ter um depósito de 15 litros.

A partir do século XX a avaliação do imposto para venda fazia-se através de avença. A cobrança acontecia no mês de Maio e todos os