alberto vieira: S. VICENTE- UM SÉCULO DE VIDA MUNICIPAL
O QUOTIDIANO
À mesa das sessões concelhias chegam também assuntos que fazem o dia à dia mais rotineiro dos munícipes. Por um lado é a necessidade de intervenção da vereação no sentido de padronizar comportamentos, de solidificar usos e costumes, a que se associam as insistentes reclamações ou denúncias de alguns dos residentes. Nesta dupla intervenção e participação faz-se o quotidiano do concelho de que são testemunho as actas da vereação e a memória oral.
Reconstituir essa realidade, através dos poucos testemunhos que chegaram até nós através das vereações é o objectivo desta digressão pelo quotidiano de ontem no concelho de S. Vicente. A tarefa não é fácil, uma vez que nem tudo aquilo que define o dia à dia de uma vila opu concelho não passa obrigatoriamente pelas sessões da câmara. Aí só tem lugar o imprevisto, o desvio e, quando a vereação pretende ter uma activa intervenção nisso, os aspectos mais prementes que se podem submeter à intervenção institucional. Mesmo assim, à falta de memórias escritas daqueles que viveram e compuseram tais ambientes, esta continuará a ser uma das fontes possíveis do seu rastreio. Aqui, para as épocas mais recentes, o testemunho oral, compilado através das mediáticas técnicas da História Oral, prestam um inestimável serviço. Por agora deixamos de parte esta forma, esperando voltar a ela noutra oportunidade.
NASCER, SOBREVIVER E MORRER
No último quartel do século XIX é evidente um decréscimo da população, mais acentuado no período de 1878-90. Note-se que este foi um momento muito crítico para a ilha em que se fizeram sentir os reflexos do ataque da filoxera aos vinhedos e num concelho como o de S. Vicente em que era a cultura dominante da economia local o efeito foi imediato.
Os dados sobre a população do concelho são escassos, pois tão pouco as actas das vereações serão o meio mais indicado. Todavia, por diversas razões à necessidade de apelar a esse valor, quer na distribuição dos recrutas, do dinheiro para o reparo dos caminhos e da criação de novos postos escolares. A dar razão ao que dizemos somos confrontados na vereação de 27 de Julho de 1876 com alguns dados significativos sobre a população do concelho:
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| S.VICENTE |
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| PONTA DELGADA |
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| BOAVENTURA |
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Eis, ainda alguns dados avulsos que conseguimos reunir e que poderão elucidar sobre a evolução demográfica de S. Vicente em finais do século XIX:
| ANO | Nascimentos | casamentos | óbitos | emigrantes |
| 1886 | 331 | 74 | 166 | 288 |
| 1887 | 344 | 54 | 110 | 107 |
| 1888 | 358 | 57 | 221 | 434 |
| 1889 | 302 | 71 | 237 | 154 |
| 1890 | 368 | 93 | 222 | 171 |
Para o ano de 1898 é também possível definir a divisão da população nas três freguesias do concelho era de 8270 assim distribuída:
A emigração acontece na encosta Norte a exemplo da Sul e tem os mesmos destinos.. Assim, em finais do século XIX, um dos momentos desusados do fenómeno o principal destino era o Brasil, com particular incidência para as cidades de Rio de Janeiro e Santos. Apenas para o período de 1888 a 1893 é possível reconstituir esse movimento através do único livro de registo de saídas para o Brasil, disponível no Arquivo Municipal.
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DESTINO |
1888 | 1889 | 1890 | 1891 | 1892 | 1893 |
| S. Paulo |
43 |
17 |
20 |
17 |
11 |
7 |
| Rio de Janeiro |
14 |
13 |
10 |
4 |
1 |
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| Santos |
1 |
3 |
16 |
6 |
15 |
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| BRASIL |
30 |
3 |
2 |
8 |
12 |
1 |
| TOTAL |
88 |
36 |
32 |
55 |
29 |
24 |
A distribuição por freguesias é a seguinte:
| FREGUESIA | 1888 | 1889 | 1890 | 1891 | 1892 | 1892 | 1893 | TOTAL |
| S. Vicente |
42 |
21 |
25 |
38 |
1 |
1 |
2 |
130 |
| Ponta Delgada |
16 |
11 |
8 |
23 |
58 |
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| Boaventura |
7 |
5 |
4 |
1 |
17 |
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| TOTAL |
65 |
26 |
29 |
49 |
10 |
25 |
Um dos factos mais salientes é a emigração massiva de casais. Assim temos referência à saída de oitenta no período de 1888 a 1893.
No presente século a evolução da população do concelho define-se por um crescimento acentuado até à década de sessenta, altura em que o movimento sofre o impacto do fenómeno emigratório, é evidente a partir de 1955.
.................S. Vicente .....Ponta Delgada ...Boaventura ....Total
É, na verdade, a partir de finais da década de quarenta o fenómeno emigratório ganha importância no concelho. As sequelas económicas da 2ª grande guerra mundial fizeram-se sentir no norte da ilha de modo que quando se abriram as portas da emigração na América, nomeadamente no Brasil, Venezuela e Curaçau. Para este último destino o recrutamento contou com o apoio do Governo Civil. Esta política manteve-se para todos os destinos carentes de mão-de-obra, como o Brasil e Venezuela, em que os consulados no Funchal actuavam como angariadores de potenciais emigrantes. No caso do Brasil apenas contavam as profissões recomendadas, havendo tolerância no de saber ler e escrever. A situação num concelho como S. Vicente pautado pelo analfabetismo terá sido muito saudado por muitos dos residentes.
Na luta contra o tempo de busca de um destino para suprir as dificuldades sentidas na ilha. A esperança do "El Dourado" causou uma desusada movimentação de interessados em partir em busca de melhor destino. Os boatos tendenciosos procuram constar esta esperança ao afirmarem restrições a este movimento. O Governo Civil, um dos principais incentivadores da política prontifica-se a negá-lo. Nos finais da década de cinquenta o principal destino era a Venezuela, tendo mesmo o cônsul ido ao concelho no seu automóvel a cativar os possíveis interessados. A década seguinte é demarcada por um novo destino, a União Sul Africana, que também atraiu muitos vicentinos
As colónias portuguesas em África foram também um destino que cativou muitos dos vicentinos. Desde a década de quarenta que se emigrava para Angola mas foi nos anos sessenta que o governo promoveu a saída de famílias para Colonato, como o do Limpopo.
Horácio Bento de Gouveia traça-nos em "O torna-viagem" o drama e aventura dos emigrantes do concelho. O cenário é a Achada do castanheiro em Boaventura, mas pode muito bem ser transferido a qualquer sítio do concelho.
O acto de morrer, por muito entregue à igreja, passou a contar com a intervenção do município. A lei que determinou a criação dos cemitérios públicos e acaba com a prática dos enterramentos no subsolo do adro e igreja é de 1835. Tardou muito tempo até que todas as paróquias fossem servidas. A resistência da igreja e das populações levaram a que se fossem adiando esta solução. No concelho primeiro lançavam-se os cemitérios da Vila e só em 1869 o de Ponta Delgada e passados três anos o de Boaventura. O último em 1875 acusava já a exiguidade do espaço levando à construção de um novo em 1876.
O serviço de transporte dos doentes e enterramento era assegurado pelo município. Na verdade o cemitério era património municipal, estando por isso sob a alçada da vereação que atribuía o terreno aos interessados para as campas e superintendia a acção do coveiro. Em 1888 tinha um soldo estabelecido de acordo com o serviço prestado. Assim aos pobres não cobrava nada sendo os demais sujeitos a uma taxa de enterramento de acordo como ele ocorria. Um morto com mais de 10 anos que fosse enterrado com caixão pagava 1$600 rs, sendo sem caixão baixava para metade. No caso dos menores de 10 anos os valores eram respectivamente, $600 e $200 réis. Daqui resulta que nem todos tinham meios para serem enterrados num caixão de madeira, sendo apenas envolvidos num lençol. Deste modo a Câmara viu-se obrigada a dispor de dois caixões em cada freguesia para transporte dos defuntos de casa até aos cemitério. Os de Boaventura custaram 197$80 réis no ano de 1923.
O serviço dos coveiros no cemitério deu azo a frequentes queixas dos moradores e a permanente insatisfação da Câmara com serviços prestados pelo coveiro. Sucederam-se várias recomendações e regulamentos que estabeleciam a forma de funcionamento. O último regulamento é de 1942 e estabelece a obrigatoriedade de existência de um coveiro em cada cemitério e o modo que deve reger a sua actividade. A par disso a Câmara terá três livros de registo de óbitos, um para cada cemitério. Enquanto o de S. Vicente ficará na Câmara os demais estarão a cargo dos regedores de cada freguesia.
A ARTE DE BEM VIVER CURAR E APOIAR
As condições de vida no norte da ilha não eram diferentes das do resto da ilha. A evolução acompanhou o demais, sendo pautada por um significativo progresso. Uma das medidas mais importantes a ter em conta na época prendia-se com a prevenção. As condições sanitárias das habitações e acima de tudo dos aglomerados como a Vila não eram as melhores. No último caso a época invernosa tornava as ruas da Vila num palco de imundice, sendo constante o apelo à limpeza das regadeiras e ao calcetamento. Incluso junto ao adro da igreja estava um pardieiro que, para além de albergar todo o lixo local, era esconderijo de malfeitores que assaltavam de noite os transeuntes. A solução foi expropriar o terreno, ficando para momento oportuno os sanitários, o que só veio a ocorrer em 1964 pelo valor de 95.188$00. As ruas da Vila eram limpas com assiduidade por Maria Cândida que em 1897 recebia 36$640 reis para executar tal tarefa.
As melhorias significativas nas condições de vida dos munícipes são apenas visíveis a partir da década de trinta. A cobertura de palha cede lugar ao barro e adiciona-se nas proximidades um novo compartimento, que depois passará a fazer parte dos planos da casa. Note-se que, quer na construção da retrete, quer do palheiro para gado o médico municipal deveria informar da conveniência e localização.
De acordo com um edital de 1935 todos aqueles que tivessem casa para construir deveria solicitar a referida licença e pagar uma taxa de 30$00, pois caso contrário sujeitavam-se á pena demolição. O mesmo sucedia com as reparações, sujeitando-se o arguido à pena de 500$00 réis e à sua demolição. Foi o que sucedeu em 1966 com a comissão fabriqueira da Igreja da Boaventura que procedeu ao arranjo do adro sem ter licença camarária.
A preocupação do asseio incluía também a preservação dos edifícios. Deste modo em 1937 todos os proprietários de prédios na Vila são intimados a caiar e pintar as fachadas sob pena de 150$00. A medida repete-se em 1946 e 1952, abrangendo também os prédios confinantes com as estradas nacionais e municipais . Já nos anos sessenta são as recomendações no sentido de cor a usar na pintura, que deveriam constar do pedido.
O período que decorre entre meados do século dezanove e as primeiras décadas do nosso século foram marcadas por inúmeras epidemias que alastraram a toda a ilha. Em 1856 a colera morbus levou à morte de 307 vicentinos. Passados vinte anos foi a vez da varíola que voltou de novo a vitimar muitos madeirenses. Em S. Vicente refere-se a 1 de Junho que a epidemia matou várias pessoas, o que leva a Câmara a reclamar apoio, pois "não temos um só facultativo a quem se recaira". A 15 de Julho estava em exercício um facultativo no concelho, António Fernandes Telles da Silva, que atestou o estado precário de saúde de Manuel José de Sousa, incapacitado para continuar a ser o tesoureiro da arca dos órfãos. A epidemia de varíola manteve-se activa por muito tempo, sentindo-se os reflexos em S. Vicente e Boaventura no ano de 1876, sendo o serviço redobrado. Deste modo o Governo Civil contribuiu com 90$200 réis, atingindo em Novembro mais de cinquenta mil reis, que englobavam as referentes aos medicamentos, farmácia e uso da rede.
À varíola, que pouco atingiu o concelho, sucedeu a "influenza", que por um período limitado causou inúmeras dificuldades. Deste modo em 23 de Abril o administrador do concelho clama por providências e meios ao facultativo, pois a "epedemia se acha já grassando em grande escala nos differentes sítios desta freguezia". O facultativo, Afonso Henriques de Freitas ignorou a situação, sendo por isso mesmo despedido pela vereação em 17 de Maio, sendo substituído a 31 de Outubro por Manuel Sardinha que residia na Ribeira Brava e que prestava serviço na Ponta do Sol. A vereação pontassolense não queria facilitar a saída mas as insistências do administrador do concelho junto do Governador, reclamando um médico capaz de attender á grande quantidade de doentes que se acham atacados de moléstia", conduziu foi bem atendido e o concelho foi servido temporariamente de vários médicos. Em Janeiro e Fevereiro o Concelho tinha dois facultativos: Manuel Joaquim Ferreira, de Santa Cruz Manuel Sardinha e o farmacêutico Tomás Loureiro Machado.
A 27 de Fevereiro a doença estava extinta procedendo a vereação ao pagamento das despesas. Ao facultativo Manuel Joaquim Ferreira e ao farmacêutico Tomás Ribeiro Machado por vinte e oito dias de trabalho intenso receberam, respectivamente, 280$000 e 84$00, enquanto Manuel Sardinha por apenas sete dias teve direito a 42$000 rs. Também as despesas com estadia e deslocação em rede no concelho corriam por conta da Câmara.
A varíola está de volta á ilha em 1907, mas sem atingir de forma significativa a corte do norte. As medidas profiláticas sucedem-se atempadamente por recomendação do Delegado de Saúde. Atente-se, por exemplo, às condições de sanidade das ruas da vila, com o tirar de regadeiras para a sua limpeza, tudo isto devido às "epidemias que ameação esta população". No Funchal criou-se um lazareto hospital que contou também com o contributo da vereação vicentina.
A constância destas epidemias condicionou a intervenção do município no apoio à assistência médica. Em 1876 era apenas um facultativo que o assegurava em todo o concelho. Para deslocar-se nas três freguesias a casa dos doentes dispunha de um serviço de rede com dois homens. Era comprovada a sua insuficiência ao ser assegurado apenas por um médico. Em 24 de Outubro de 1877 o procurador do concelho insiste na criação de mais um lugar de facultativo. Todavia isso demorou a acontecer, servindo-se a Câmara do auxílio de médicos de Santa Cruz ou Porto Moniz. Em 1895 o médico cirurgião do Porto Moniz, João Leite Monteiro ofereceu-se para de 15 em 15 dias permanecer 24 horas no concelho e atender os doentes. Como não havia facultativo no concelho a Câmara acedeu, pagando-lhe 10$000 réis mensalmente. Em Setembro abriu-se concurso para o lugar de facultativo que foi preenchido a 21 do mesmo mês pelo Dr. Gregório Joaquim Dinis, que será até à sua morte em 1931 o médico do concelho.
Em menos de um ano de exercício já o médico solicitava à Câmara licença para se ausentar por doença de modo "a procurar socorros médicos e lenitivo aos seus padecimentos onde a sciencia melhor o entender". Mas a vereação desconfiada dos seus propósitos, referindo ser sua intenção arranjar trabalho noutro lugar. Mesmo assim acedeu face ao oferecimento do médico cirurgião, Júlio César de Gouveia para o substituir na sua ausência que durou até 13 de Fevereiro de 1897. Entretanto as populações de Boaventura e Ponta Delgada, servidas quinzenalmente pelo médico do Porto Moniz, João Leite Monteiro, reclamam pelo mau serviço. As ausências são muitas e causam grandes transtornos aos moradores, por isso reclamam para que seja assinalado um dia "afim de que as pessoas doentes que o esperam para consulta não saiam enganados de suas casas com grave risco de saúde e vidas e esperá-lo". Em 8 de Maio de 1898 os moradores de Ponta Delgada e Boaventura representam à Câmara a necessidade de ser criado mais um local de facultativo, sendo contra o aumento do vencimento do que já existia. A Câmara aceita a reclamação dos moradores, representados em Vereação por José Marques Andrade. Todavia não foi de ânimo leve que isso aconteceu, pois dois vereadores eram contrários a isso alegando que o requerimento não deveria merecer crédito, uma vez que parte substancial das 106 assinaturas eram de crianças das escolas de Ponta Delgada, Boaventura. Deste modo ficou expresso em acta de vereação esta desavença: "a Câmara obrigara os seus munícipes a fazerem valer os seus direitos onde chegarem as suas forças e mostrara em ocasião oportuna o seu desagrado de uma forma bem manifesta". Só em 1901 foi feito concurso para novo facultativo sendo provido no lugar o médico Daniel Brazão Machado, que foi substituído em 1904 por João Maria S. Correia Macedo.
O século vinte inaugura-se com melhorias na prestação médica. São dois os facultativos ao serviço do concelho e outros mais que se prestam a auxiliar quando necessário. Em 1901 são referidos quatro facultativos. Mais tarde, em 1930 o Dr. Fernando Mendes Esmeraldo estabelece consultório na Ribeira do Passo, Lombo, Fajã do Amo, Poiso, Terra Chã, Vila, Fajã da Areia e Cardais. Não aufere qualquer remuneração do concelho, apenas exigindo o pagamento dos medicamentos receitados aos pobres. Passados dois anos assume o lugar de Daniel Brazão Machado que havia solicitado a escusa de facultativo municipal. O lugar em Ponta Delgada foi preenchido em 1941 por Manuel de Conceição Escórcio.
As infraestruturas concelhias de apoio à saúde foram sempre precárias. Em momentos de epidemia, como 1856, improvisavam-se hospitais. A par disso, por muito tempo, não existiu farmácia, sendo os medicamentos solicitados ao Funchal, com inevitáveis inconvenientes de custos e de perda de tempo. Para atalhar a isto houve uma preocupação por parte do município em favorecer o aparecimento de novos meios de apoio. Sabe-se que em 1949 já existia a Farmácia do Norte e que o ajudante de farmácia, Alberto Amâncio de Freitas abriu uma nova na Vila. Por outro lado nos anos cinquenta o governador civil solicita o "imediato interesse em que se poderia instalar neste concelho um pequeno estabelecimento hospitalar para atender os casos em que a gravidade da doença ou condições especiais de tratamento não exigissem uma hospitalização longa ou especializações médicas".
A aposta em infraestruturas de apoio seguia a bom ritmo. Em 1945 o Ministério da Saúde instalou em Boaventura um centro de sanidade rural e entre 1948 e 1968 foram criados os dispensários de S. Vicente(no Poiso), Ponta Delgada (nos Enxurros) e Boaventura (no Centro). Esta política de apoio à criança tem reflexos evidentes na taxa de mortalidade infantil que era então muito elevada. Note-se que em 1946 esta representava 19%, sendo em 1963 de apenas 2%.
A Câmara assumiu o compromisso de pagar todas as despesas com os doentes pobres, que incluíam os medicamentos, o transporte ao hospital da misericórdia no Funchal, e a diária do período de internamento. Para que isso acontecesse o doente deveria ser acompanhado de um atestado de pobreza passado pela Câmara. Em 1940 a Câmara pagou a António Francisco dos Reis, 15$00 pelo transporte de doentes nestas condições e aos doutores Fernando Mendes Esmeraldo de Gouveia e António de Silva Branco Camacho, respectivamente, 555$00 e 168$50 por despesas com medicamentos aos pobres. A situação não esteva isenta de problemas e aproveitamentos dos demais habitantes. Note-se que em 1911 José Maria de Conceição Carvalho solicitara ao município um atestado de pobreza, mas a resposta foi taxativa: "é filho dum dos primeiros proprietários desta freguezia que se apresenta sempre trajando decentemente, trajando em rede apresentando-se como pessoa rica e abastada".
A Vereação sentia-se obrigada a apoiar as famílias pobres, através de subsídios fixos ou eventuais. Assim em 1876 Maria de Sousa do Lanço recebeu por nove meses um subsídio de 1$000 réis por "achar-se gravemente doente". Em 1940 foi Vicente de Ponte do Cascalho que recebeu 100$00 por um incêndio ter ardido a casa onde morava e recheio "ficando assim reduzido à extrema miséria". Noutras circunstâncias as famílias pobres eram acudidas com milho ou então géneros alimentícios de mercearia.
Às crianças reservava o município dedicados apoios. Primeiro com o apoio e acolhimento indispensáveis à sobrevivência das crianças expostas. Depois no apoio às mães solteiras ou aquelas que não tinham posses para alimentação dos filhos recém-nascidos. As crianças expostas surgem ao lugar deste período nas mais diversas circunstâncias. Em 1869 Maria Isabel notifica a Câmara do encontro de uma criança à porta de Vicente Pereira Rita, "dentro de uma cesta de verga branca, trazendo dois vestidos, um de chita e outro de caçada e arres, três camisas de pano de algudão coarado - cinco paninhos velhos - três paninhos de cabeça". A criança foi baptizada no dia 21 com o nome de Teresa sendo depois entregue a Maria César, que ficou como a ama. A 31 de março apareceu outra criança nas mesmas circunstâncias sendo apresentada por Maria Lúcia de Jesus.
Ao município, mediante verba concedida pelo governo civil, estava acometido o encargo de assegurar a sobrevivência destas crianças. Os casos não são muitos, pois desde 1868 até 1905, temos apenas conhecimento de seis casos. Em termos administrativos estas crianças, que após baptizadas eram entregues a uma ama, eram conhecidas pelo número de registo no livro de expostos.
Antero era o exposto nº 45 e estava entregue aos cuidados de Maria Quitéria. Em 1895 tinha já sete anos e a ama clama pela continuidade do subsídio camarário uma vez que era pobre e "o mesmo exposto ser de fraca construcção e se não poder ocupar nos serviços de lavoura", de que viviam. Entretanto António Nunes, de Terra Chã, seu padrinho comprometia-se "a criálo com todo o coidado e carinho", sendo aprovado pela Vereação que o obriga a apresentar todas vezes "afim de que esta conheça do bom ou mau tratamento que a criança estava tendo". Em 1900 tinha este exposto já 12 anos de idade mas manifestava-se incapaz para trabalhar de soldada, por ser doente e raquítico o que obrigaria a Câmara a recomendar a entrega ao asilo no Funchal.
O mesmo não sucedia com António, o número 46, que por completar sete anos poderia ser posto de soldada, por "ter robustez suficiente para comessar a ganhar seu sustento", deste modo foi posto nesta circunstância na casa do Dr. Gregório Dinis com 5$000 rs ano. comida, vestuário e calçado, mas este não se agradou da mudança aceitando o convívio de ama com a mesma condição. Outro exposto, por nome Mario e registado com o número 42, estava ao serviço do padre Manuel José de Sousa, mas acabou por ausentar-se de casa sem receber o soldo em dívida, que ficou nos cofres da Caixa Geral de Depósitos à guarda da Câmara.
Nem todas as crianças que nasciam no seio de famílias constituídas, tinha assegurada a sua sobrevivência. O estado de miséria condicionava a sobrevivência que só poderia ser assegurada mediante um apoio do município para a lactação. Este subsídio poderia ir até dois anos contemplava os filhos de mães solteiras ou outras que devido ao estado de pobreza ou "por ter secado do leite" não estavam em condições de garantir a sobrevivência. Este subsídio era atribuído, caso a caso mediante requerimento dos interessados à vereação. O valor era por norma distribuído mensalmente podendo oscilar entre os $800 e os 1$000 réis. Para o período de 1877 a 1928 temos conhecimento de 40 crianças nestas condições. São múltiplas as circunstâncias que legitimam este apoio. Em 1871 Francisco, filho de Maria de Jesus das Ginjas, teve direito a 1$000 réis, "por esta ser pobre miserável e não poder alimentar aquelle seu filho". Para João Mendes do Poiso, o imprevisto de dois gémeos implicava a sua súplica, pois não tinha " meios para os poder sustentar". Noutros casos a Vereação determinava retirar a criança do poder da mãe, como sucedeu com João filho de Jesuína Pestana das Feiteiras, "por não se achar em circunstâncias de o receber".
A Vereação estava responsável pela gerência deste apoio podendo retirá-lo a quem não oferecesse as condições merecidas. Assim Joaquina de Jesus, não obstante ser pobre e solteira, não teve o apoio que solicitou para o seu filho Leonel, uma vez "que se acha ella em estado de poder trabalhar. Para Manuel da Costa Júnior o voltar atrás no subsídio já concedido resulta de o mesmo "não ser tão pobre como antes lhe disseram".
DAR DE BEBER
O abastecimento de água é uma realidade de finais do século XIX. Até então o consumo fazia-se a partir das ribeiras e muitas levadas que circundavam as áreas agrícolas e tinham passagem obrigatória nos núcleos povoados.
Em 1882 havia apenas uma fonte em todo o concelho, estando sediada na Vila, mas que devido às invernias de Dezembro deixou de deitar água pelo que se decidiu avançar no ano imediato com a construção de um chafariz no Largo da Igreja por 120$00. Nos núcleos de maior povoamento, como as Feiteiras, deparam-se dificuldades no uso de água das levadas. Deste modo a Câmara decidiu construir um marco fontanário nas Feiteiras para evitar o uso de "águas menos puras de uma levada não só para beber como para uso doméstico. Que nesta levada lavam os habitantes daquelles sítios não só roupas como outros objectos que damnificam as águas podendo dar causa ou origem a graves molestias". Tardou a construção uma vez que em 1899 reclamavam os moradores pelo chafariz para fornecimento de água de uso doméstico. Na verdade a obra só se concretizou neste ano, sendo os trabalhos interrompidos em Dezembro devido ao mau tempo pelo que a conclusão ficou aprazada para 31 de Junho de 1900.
O projecto da autoria do Eng. Adriano A. Trigo foi apresentado em Julho à vereação e contemplava duas fases para a conclusão, sendo a arrematação do 1º traço até ao Livramento feita em 5 de Outubro por Francisco Marques do Lombo dos Aguiares por 592$000. O segundo troço entre o Livramento e as Feiteiras foi só arrematado a 11 de Maio do ano imediato ao mesmo pedreiro pelo valor de 506$900.
Um dos grandes arautos deste serviço foi o médico Gregório Joaquim Dinis, subdelegado de saúde do concelho. É ele quem, em 1902, reclama a extensão do abastecimento de água potável aos sítios do Saramago e Passo. Ao mesmo tempo actua como olheiro do serviço, participando o roubo clandestino de água dos marcos fontanários por alguns moradores vizinhos. Em 1909 o mesmo delegado de saúde reclama a reparação dos fontanários das Feiteiras e Livramento e alega a má qualidade da água. A Câmara riposta, dizendo que a água que abastece os fontanários não é da ribeira mas de nascente e que o próprio reclamante serve-se dela em casa. Mais acusa o mesmo de ser responsável pela falta de águas nos referidos fontanários e disponibiliza-se para avançar com análises à água da nascente que servia há mais de 7 anos. É o mesmo delegado de saúde quem reclama em 1913 medidas drásticas no abastecimento à Vila, com o encerramento dos marcos fontanários, "a bem da saúde pública".
As freguesias de Ponta Delgada e Boaventura continuavam ainda sem o serviço. Deste modo em 1903 reclama a canalização de água potável e a construção de marcos fontanários nos sítios do Ferreiro e Entrosa, na proximidade do adro da Igreja, a ser canalizada no Sítio da Fonte. Entretanto o Governador Civil em 1905 recomendava alguns cuidados em termos de saúde pública. A Vereação informa do seu empenho nisso, através da construção de marcos fontanários, para os quais faltam recursos financeiros, reclamando à Junta Geral um subsídio de 600$00 para dois marcos fontanários na Boaventura e Fajã do Penedo e 1000$00 à Junta Agrícola para outro no Sítio da Igreja. Este último foi construído pela Junta Geral mas não estava cumprindo bem o serviço, pois a água ficava "turva e aleitada" devido às regas, pelo que "não pode considerar-se potável e própria para o abastecimento, mas sim perigosa para a saúde pública e insalubre". A situação não deverá ser alheia a deliberação da Junta em proceder à entrega dos fontanários que lhe pertenciam.
O abastecimento de água a Boaventura não ficara solucionado e a partir da reclamação dos moradores parece que foi de pouco efeito o serviço prestado pela junta. Note-se que os moradores dos sítios da Igreja, Pastel e Serrão reclamavam da falta de água potável, sendo obrigados a abastecerem-se de águas insalubres e perigosas para a saúde ou procurá-las a grandes distâncias. A Câmara decide avançar com a referida canalização de água potável, contando que a oferta do projecto e das nascentes, cedidos por um grupo de moradores. O plano tem como objectivo a construção de fontanários nos sítios do Pastel, Igreja, Serrão, Fajã do Penedo, Terceira Lombada e Falca. Em 1931 estavam concluídos avançando-se com outros para a Falca e Fajã dos Vinháticos.
Nos anos trinta o plano de construção de fontanários ficou reservado à freguesia de S. Vicente. Assim, em 1931 foram os fontanários da Fajã do Amo, Barros e Ginjas. Seguem-se nos anos imediatos no Pé do Passo, Laranjal, Lanço, Ginjas- Caminho da Madeira, Achada do Til e Rosário. O abastecimento de água à Ginjas tornou-se problemático, pois a nascente mais próxima situava-se no Curral dos Burros, sendo oferecida por João Encarnação Gouveia. Mas os moradores do Lanço, servidos por uma levada que vinha beber à nascente, reclamam os seus direitos só autorizando o aproveitamento para o fontanário, caso lhes fosse concedida parte da servidão da levada que pertence aos das Ginjas. O impasse deverá ter perdurado, pois em 1947 o delegado de saúde refere que os fontanários em causa continuavam a ser alimentados com água das levadas. Em Ponta Delgada e Boaventura a rede alargava-se a todos os sítios com novos fontanários nos Enxurros, Lombada e Achada Grande, Fajã Grande e Travessa em Boaventura.
Se o abastecimento público através dos marcos fontanários pode ser considerado uma realidade do século XIX, o mesmo não sucederá com o domiciliário que data dos anos quarenta do nosso século. Até então o recurso era os fontanários, as levadas, ou a possibilidade, apenas para alguns, de aproveitamento dos sobejos das águas dos marcos fontanários. Este era apenas um privilégio daqueles que viviam próximo dos fontanários. Assim, em 1923 António Gonçalves está autorizado a aproveitar os sobejos da fonte da Vila, com a obrigação de conduzir água para a praça, açougue e matadouro. A par disso os senhorios do terreno onde se encontravam as nascentes e as ofereciam para o serviço público tinham direito aos sobejos. Assim, em 1931 o Padre Plácido António Andrade oferece a água para o fontanário da Fajã do Amo, ficando com direito a dois meias penas. Idêntico foi o procedimento de Ernesto F. Branco do Lanço, então presidente da Câmara, que ofereceu o terreno e água para a construção do marco fontanário junto da casa de residência. Outros, como José Maria Banhos de Castro Rodrigues do Serrão (Boaventura) providenciavam o seu próprio abastecimento caseiro.
A construção dos lavadoiros municipais enquadram-se na política de salubridade do concelho. Deste modo evitava-se o uso das levadas, que eram logradouro comum no serviço de água. É neste sentido que o município decidiu construir em 1938 três lavadoiros, sendo dois nas Feiteiras e o outro na Terra Chã.
Aos demais vicentinos não servidos pela rede pública de fontanários restava o recurso da fonte ou então a disponibilidade de uma bilha e um copo para serviço de água como dispunha a secretaria da Câmara. O simples gesto de abrir a torneira em casa é uma realidade apenas dos anos quarenta do nosso século. Desde 1947, à medida que o plano de canalização de água ao domicilio avança, sucedem-se os inúmeros pedidos de ligação por parte dos moradores abrangidos. O plano de abastecimento de água potável a S. Vicente e Ponta Delgada foi traçado em 1947 para ser levado a cabo a partir do ano imediato. Todavia o de Ponta Delgada só foi adjudicado em 1950 a João Gomes Chamusca por 245.299$00. Quanto ao abastecimento de água a S. Vicente (aos sítios da Vila, Vargem, Loural, Saramago, Feiteiras, Passo e Poiso) a Câmara foi forçada a solicitar autorização ao governo para contrair um empréstimo de 388.000$00 junto da Caixa Geral de Depósitos. A obra foi adjudicada em 1951 por Fernando pelo valor de 706.000$00. A rede aos poucos foi-se alargando. Em 1951 foi a Fajã dos Vinháticos, adjudicada a António Francisco dos Reis por 64.900$00 e em 1959 a 1ª fase de Boaventura ao mesmo empreiteiro no valor de 43.858$00.
Nos anos sessenta aposta-se na remodelação da rede existente e na sua expansão. No caso de S. Vicente a rede foi alargada à Fajã do Amo, Ginjas, Fajã da Areia e Cabo do Amo, enquanto em Boaventura contemplou a Achada do Castanheiro, Cabo da Ribeira.
PLANO DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA -FONTANÁRIOS
| ANO | FREGUESIA | SÍTIO | PREÇO | EMPREITEIRO |
| 1897 | S. Vicente | Feiteiras |
506.900 |
Francisco Marques |
| S. Vicente | Livramento |
592.000 |
Francisco Marques | |
| 1914 | Boaventura | Fajã do Penedo |
600$00 |
|
| Boaventura | Igreja |
1000$00 |
||
| 1923 | S. Vicente | Fajã da Areia |
400$00 |
|
| 1930 | Boaventura | Pastel | pelo povo | |
| Boaventura | Igreja | pelo povo | ||
| Boaventura | Serrão | pelo povo | ||
| Boaventura | Fajã do penedo | pelo povo | ||
| Boaventura | Falca | Administração directa | ||
| Boaventura | 3ª Lombada | Administração directa | ||
| 1931 | S. Vicente | Fajã do Amo | pelo povo | |
| S. Vicente | Lombo | pelo povo | ||
| Barros | ||||
| Boaventura | Fajã dos Vinháticos | Administração directa | ||
| 1932 | S. Vicente | Pé do Passo | Administração directa | |
| 1934 | S. Vicente | Laranjal | Administração directa | |
| S. Vicente | Lanço | |||
| 1935 | S. Vicente | Ginjas | ||
| 1935 | Ponta Delgada | 2ª Lombada | ||
| 1936 | S. Vicente | Ginjas(Caminho Madeira) | ||
| 1947 | S. Vicente | Ginjas |
360$00 |
Mestre José Rodrigues |
| 1942 | S. Vicente | Poiso |
145$00 |
pelo povo |
| 1944 | S. Vicente | Achada do Til | ||
| Ponta Delgada | Enxurros(2) | |||
| 1946 | S. Vicente | Poiso | ||
| S. Vicente | Vargem | |||
| 1947 | S. Vicente | Passo | ||
| S. Vicente | Saramago | |||
| S. Vicente | Feiteiras (matadouro) | |||
| S. Vicente | Achada do Til | |||
| S. Vicente | Serrado | |||
| S. Vicente | Rosário | |||
| 1948 | Ponta Delgada | Lombada |
24.600$00 |
|
| Boaventura | Achada Grande | |||
| Boaventura | Achada | |||
| Boaventura | Travessa | |||
| 1951 | S. Vicente | Chão dos Louros |
145$00 |
PLANO DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA AO DOMICÍLIO
| ANO | FREGUESIA | SÍTIO | PREÇO | EMPREITEIRO | ||
| 1950 | Ponta Delgada | Ponta Delgada |
245.299$00 |
João Gomes Chamusca | ||
| 1951 | S. Vicente |
Vargem , Loural, Saramago, Feiteiras Passo Fajã dos Vinháticos |
706.000$00 64.900$00 |
Fernando Teodósio Ferreira António Francisco dos Reis | ||
| 1959 | Boaventura | 1ª fase |
43.858$00 |
António Francisco dos Reis | ||
| 1968 | S. Vicente | Fajã do Amo e Ginjas |
255.800$00 |
António Francisco dos Reis | ||
| 1970 | S. Vicente | Fajã de Areia |
1.040.000$00 |
António Francisco dos Reis | ||
| 1972 | Boaventura | 2ª fase-Achada Castanheiro, Cabo Ribeira, Igreja |
3.150.000$00 |
Cipriano da Cruz | ||
DO ESCURO SE FEZ LUZ
Foi a 28 de Maio de 1956 que se inaugurou na freguesia de S. Vicente a primeira fase do projecto de electrificação do concelho. Não era a primeira vez que os vicentinos tomavam contacto com este benéfico usufruto. O petróleo e a cera haviam já dado lugar em algumas casas pela invenção da electricidade.
A mais antiga referência á iluminação pública é de 1896. Em Março deste ano a Câmara instalou 8 candeeiros e respectivo ferro nas ruas da Vila que custaram á Câmara 90$730. Os vidros e os ferros para os candeeiros vieram do Funchal para a Ribeira Brava, sendo daí transportados ás costas por Pedro Gonçalves da Costa que recebeu pelo serviço 6$000. No ano imediato o serviço alargou-se até à Terra Chã, seguindo-se depois em 1904 às freguesias de Ponta Delgada e Boaventura. A Câmara adquiriu 15 candeeiros no valor de 50$000, sendo 10 para Ponta Delgada e os restantes para Boaventura. Ponta Delgada teve direito a mais oito para serviço da estrada que ligava ao porto. Em 1906 a Câmara torna a investir 40$000 na iluminação de Ponta Delgada baseada no facto de que seria de "grande utilidade pública por occasião dos arraes que alli se realisam onde concorre grande número de romeiros de rodas as freguezias da ilha, evitando assim muitos escandalos e desordens". Em 1910 instalou-se um novo candeeiro na Vila e no ano imediato a comissão municipal do Funchal oferece oito candeeiros que deixou de utilizar na iluminação pública da cidade. Ainda em 1913 adquiriram-se mais dois candeeiros para a Vila, mas as condições de iluminação continuavam a ser insuficientes pelo que em 1931 a Câmara decidiu comprar um "petromax" de 1200 velas com o seu aparelho para montagem na beira da Terra Chã para iluminar a Vila.
Montado o serviço de iluminação a petróleo era necessário pô-lo a funcionar e assegurar a sua manutenção. Neste sentido foi posto a concurso o serviço, mas como na primeira oferta ninguém apareceu a Câmara decidiu faze-lo por conta própria, mandando comprar o petróleo ao Funchal, por ser mais barato, e contratando uma pessoa de confiança para fazer a limpeza dos candeeiros, acendendo-os e apagando-os a horas competentes. No primeiro ano o serviço na Vila era prestado por Manuel Pereira que recebeu pelo serviço no primeiro trimestre 3$200, sendo já em 1904 encarregado de acender os ditos candeeiros Prefiro Pereira que auferia um salário de 12$000rs. A partir de 1908 o encargo passou para António Faria que o manteve até 1916 altura em que foi posta a praça a iluminação das três freguesias do concelho, com o valor global de 140$00, dividido da seguinte forma:
Já em 1914 as despesas de iluminação do concelho foram 170$00, assim distribuídas:
O recurso e benefício da energia eléctrica surgiu muito cedo na Madeira, pois data de 1897. Todavia, tardou muito tempo o seu alargamento a toda a ilha. Foi necessário chegarmos aos anos quarenta para que se avançasse com o plano, através da Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira, criada em 1943 mas que entrou em pleno exercício de funções no ano imediato.
S.Vicente foi um concelho pioneiro na utilização do serviço, pois desde muito cedo tivemos algumas iniciativas particulares. A primeira tentativa data de 1917, altura em que Benjamim Teixeira de Aguiar e João Francisco de Andrade solicitaram à Câmara a cedência da água da levada velha das Feiteiras para montagem de uma turbina hidráulica para o fornecimento de energia eléctrica. A este junta-se o do Dr. Gregório Dinis, facultativo do concelho, que por esta altura deveria ter montado uma central hidroeléctrica no sítio do Pé de Corrida, com material importado directamente de Alemanha. A Central produzia energia para iluminação das ruas do sítio das Feiteiras a casa do proprietário e alguns vizinhos e serragem de Carlos França, que funcionava no sítio do Teatro, e outra do próprio dono junto da casa de habitação.
Em Novembro de 1931 a Vereação vicentina manifestava-se interessada numa instalação de energia eléctrica para iluminação da Vila. Na mira deveria estar a central do Dr. Gregório Dinis, que faleceu em 20 de Dezembro do ano. Tanto assim era que em Dezembro de 1932 a Câmara decide negociar com a família e o Banco Nacional Ultramarino a compra. A 5 de Março de 1933 a Vereação, mediante proposta do presidente, João Nunes de Freitas, decidiu adquirir a central hidroeléctrica do sítio da Corrida e a rede, solicitando para o efeito o apoio financeiro da Junta Geral, onde se salientava "a necessidade e vantagens de aproveitar uma tal oportunidade de realização de um tão grande benefício público". Para a compra a câmara necessitava de 100.000$00, mas a Junta Geral só avançou com um décimo pelo que o processo se foi atrasando. Entretanto a central havia já sido tomada pelo Banco Nacional Ultramarino por hipoteca, decorrendo as negociações da venda com esta entidade. A câmara em 1937 ofereceu apenas 40.000$00 o que não satisfez os responsáveis do banco e levou ao desmantelamento e venda para a Ponta de Sol.
Ainda, na freguesia de S. Vicente a tradição popular e alguns vestígios evidentes testemunham a existência de outras quatro pequenas centrais para usufruto privado: Cooperativa dos Lacticínios do Norte no Passassol, Manuel Filipe de Andrade no Passo, Manuel Francisco Faria na Vargem e José Martinho de Freitas nos Lameiros. Em Vereação apenas está documentada outra iniciativa mas em Boaventura para fornecimento de energia eléctrica à Igreja paroquial. Sabemos da existência pelo simples facto de a estrada municipal entre S. Cristóvão e a Achada do Castanheiro ter atravessado a conduta de água. Isto obrigou a um desvio que reverteu numa quebra de rendimento na produção de energia, pelo que o pároco solicitou uma indemnização.
A partir dos anos cinquenta chegou finalmente a energia eléctrica ao concelho e lançou-se a rede pública de abastecimento que foi inaugurada na freguesia de S. Vicente em 28 de Maio de 1956, sendo o primeiro resultado do contrato assinado em 12 de Novembro de 1955 entre o presidente da Câmara e a Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos de Madeira. Concluídos os quatros postos de transformação avançou-se para as freguesias de Ponta Delgada e Boaventura. Na primeira a montagem da rede ficou pronta em Outubro de 1957, enquanto em Boaventura só ocorreu em Dezembro de 1959. Esta última obra adjudicada a António Francisco dos Reis foi inaugurada pelo Governador Civil com pompa e circunstância, tendo-se queimado fogo no valor de 1 530$00. As despesas com a iluminação pública eram da responsabilidade da Câmara, sendo os custos referentes ao mês de Dezembro de 1959 assim distribuídos:
ARTE DE SABER LER ESCREVER E CONTAR
O ensino foi também um dos sectores privilegiados de intervenção do município, mas mesmo assim não foi capaz de os atacar com a força desejada. O principal problema prende-se desde o início com a falta de edifícios escolares. Deste modo havia necessidade de recorrer a edifícios de habitação sem quaisquer condições para esta função e situados, a maior parte das vezes, em locais pouco adequados. Acresce ainda que a separação das crianças por sexo e a proibição de mistura no recinto da escola aumentar as dificuldades de escola das instalações mais adequadas.
As instalações, sua conservação e mobília, o pagamento do salário dos professores e casa eram da competência da Câmara. Deste modo em 1877 o comissário de estudo refere que o concurso para a nova escola régia da freguesia depende do facto de a Câmara dar a mobília e casa. Apenas num lapso de tempo a responsabilidade ficou endossada às Juntas de Paróquia, de acordo com portaria de 6 de Dezembro de 1880. Nova lei fez retornar tal encargo às Câmaras. De acordo com isto os moradores de Boaventura reclamavam em 1888 uma escola de ensino elementar do sexo masculino, oferecendo a casa e mobília. Por falta de pessoa habilitada a Câmara proveu interinamente o Padre António Alves Camacho, única pessoa habilitada para tal, no que foi confirmado pela junta escolar com ordenado de 100$000 ao ano Em 1928 é a professora diplomada Ida Freitas Nascimento a propor à Câmara a criação da escola móvel nas Ginjas, oferecendo para o efeito casa e mobília, com a condição de ser nomeada professora.
Em 1902 insiste-se na precaridade das instalações escolares, e da necessidade de construção de edifícios para a escola e residência dos professores em Ponta Delgada. O edifício onde funcionava a escola do sexo masculino e feminino não oferecia condições pois tinha o "inconveniente mistura de sexos" devida a ter apenas uma entrada. A solução estava no desdobramento das escolas, acabando com as mistas. Esta e outras situações resultantes da falta de casas de aluguer levaram a Vereação a insistir na necessidade de construção de edifícios escolares. Assim em 1915 a Vereação insiste junto do Ministro da Instrução Pública na necessidade de dois novos edifícios para escola mista na Vila e Feiteiras. Em 1944 a Câmara baseada na elevada renda avaliada em 35.000$00 que pagava com as escolas decide contrair um empréstimo junto da Caixa Geral de Depósitos no valor de 400.000$00 para executar as obras de construção das escolas primárias do concelho integradas no plano dos centenários de 1943. Em 1947 a Junta Geral assumiu a responsabilidade, propondo a Câmara a construção dos seguintes edifícios: em S. Vicente nas Feiteiras e Poiso; em Boaventura na Fajã do Penedo e Ponta Delgada nas Terças. Passados dez anos avançou-se com novos edifícios na Falca, Terceira Lombada e Lameiros. Nos anos sessenta a quarta fase do plano dos centenários contempla novas escolas: Boaventura: Lombo do Urzal, Igreja, Fajã Grande; Ponta Delgada: Lombada; S. Vicente: Lanço. Todavia os projectos que estão em curso são os de Terceira Lombada, Serrado, Achada do Castanheiro e Igreja em Boaventura, Ribeira Grande em S. Vicente.
Em 1942 o concelho de S. Vicente tinha 24 escolas em funcionamento sendo o plano de criação de 38, o que é indicativo de uma aposta preferencial do município no ensino. Todavia a frequência escolar era ainda baixa uma vez que de 1503 crianças em idade escolar, apenas 883(isto é 59%) frequentavam a escola:
| M | F | total | |
| alunos matriculados | 509 | 374 | 883 |
| crianças em idade escolar | 749 | 754 | 1503 |
| Total | 1258 | 1128 | ---- |
O recenseamento das crianças em idade escolar era feito pelas Juntas de Paróquia nos primeiros quinze dias de Fevereiro. A matrícula tinha lugar entre os dias 1 e 15 de Outubro, após um mês de férias. Em 1882 o período escolar consistia de 5 horas diárias divididas pela manhã e tarde: 9h às 11h30m e 12h às 14h30m. Todavia em 1918 o professor da escola da vila solicitou que o horário de abertura fosse atrasado de uma hora "em virtude de muitas crianças morarem distante da escola".
O número de alunos suplantou sempre o desejável, nunca se conseguindo acompanhar o ritmo de crescimento populacional. Assim em 1878 a escola da Vila apresentava-se com 39 alunas, mas o número subiu para 70 em 1894 não havendo nas salas disponíveis lotação para mais de metade. Deste modo a Câmara reclama em 1890 uma nova escola mista para as Feiteiras, uma vez "que as escolas actuaes não são suficientes para o progresso e desenvolvimento da instrução pública". A situação conduziu a insistentes reclamações da Câmara para a construção de novas escolas na Vargem, Loural, Lameiros, Laranjal, Ginjas e Poiso em S. Vicente, Primeira Lombada em Ponta Delgada, Fajã do Penedo e Falca em Boaventura. As crianças em idade escolar no concelho eram em 1928 de 1209 sendo 282 em Boaventura, 213 em Ponta Delgada e 714 em S. Vicente. Note-se que em 1927 o professor oficial de escola das Feiteiras referia ser a escola muito frequentada por mais de 50 alunos e que apenas dispunha de 30 lugares. Em 1932 a frequência de alunos à escola da Vila era superior a 60 alunos, tendo-se procedido ao desdobramento da escola mista. Nos anos cinquenta já não se proclama o elevado número de alunos. Muitos, por imposição familiar deixam de frequentar a escola, por isso a Direcção Escolar impôs multas aos pais dos faltosos no valor de 50$00.
O empenho na alfabetização dos jovens era uma das grandes apostas da câmara que considerava como um passo fundamental para o progresso do concelho. Deste modo em 1923 criou um prémio escolar para os melhores alunos e o necessário apoio para aqueles que não tendo posses pretendessem estudar.
O serviço de assistência social às crianças só foi implementado na década de sessenta. Desde 1962 que a Câmara assumiu o encargo da cantina escolar, sendo então criadas três, uma para cada freguesia. Em Novembro o Director do Distrito escolar reclamava um subsídio para a cantina escolar de 197 crianças "cujas famílias vivem em precárias condições económicas", sendo concedido 10.000$00. Note-se que já em 1902 o professor da escola de S. Vicente reclamara perante a Câmara apoio para fato e calçado das crianças pobres que frequentavam a escola.
O problema do analfabetismo entre os adultos era grave, situando-se em 1944 em mais de 84% da população. Ademais é insistente esta denúncia da realidade sócio-cultural do Norte. Assim em 1903 o professor de S. Vicente oferece-se para o ensino gratuito nocturno "para poder diminuir a onda de analfabetos que nos envergonha perante as nações cultas". Em 1902 no pedido de uma escola móvel para o sítio da Vargem vêm de novo a denúncia a justificar a criação: "visto a grande quantidade de analfabetos de ambos os sexos que ha em todas as idades...". Na década de cinquenta apostou-se de novo na alfabetização de adultos, criando-se postos a partir de 16 de Março de 1953 nas escolas femininas da Fajã do Penedo, Falca, Serrado, Vargem e Vila, e masculinas da Fajã do Penedo, Lameiros, Vargem e Vila.
A realidade era também alvo de reclamação popular, o que denota a inexistência de absentismo mas sim a falta de condições político-governamentais para acabar com o problema. Em 1898 face à inexistência de uma escola do sexo masculino a vereação reconhece os "clamores dos pais que desejam educar seus filhos". Para o combater existiam as escolas nocturnas de educação popular, conhecidas desde muito cedo. Sabe-se apenas que o referido curso nocturno funcionou em Boaventura, mediante uma despesa feita na compra de um candeeiro de iluminação. Entretanto o professor de S. Vicente movido do objectivo de "diminuir a onda de analfabetos que nos envergonha perante as nações cultas" decidiu criar um curso nocturno, regendo de forma gratuita, sendo a única despesa da Câmara de apenas 40$000 nas instalações.
Uma vez que as escolas oficiais não eram suficientes, muitos pais socorriam-se de escolas particulares, quando as havia. Em 1890 a professora Emília de França Doria era detentora de uma destas escolas de ensino primário nas Feiteiras, frequentada por 30 crianças. A Câmara decidiu por isso mesmo atribuir-lhe um subsídio anual de 90$000. A primeira experiência conhecida de ensino secundário em S. Vicente, ocorreu em 1916, altura em que o professor oficial do sexo masculino solicitou à Câmara autorização para ensinar na escola fora da hora do expediente o 1ª ano do liceu. O vencimento que auferia era reduzido, não obstante ter direito a casa paga.
| ANO VENCIMENTO ANUAL |
| 1878 10$000 rs |
| 1884 120$000 rs |
| 1889 175$000 rs |
Finalmente em 1964 por proposta do Presidente da Câmara pretendia-se criar um colégio ou instituto de ensino secundário que beneficiava também os concelhos de Porto Moniz e Santana. Deste modo com base no nº 3 do artigo 48 do Código Administrativo a Vereação decidiu propor o Instituto ou Colégio Secundário Municipal, solicitando-se apoio à Fundação Calouste Gulbenkian o referido colégio foi instalado no edifício que até 1965 serviu de escola primária.
Em 1906 o Professor da freguesia de S. Vicente viu-se forçado a cultivar o terreno adjacente à escola, plantando algumas parreiras, no que não teve sorte, uma vez terminado o arrendamento camarário o senhorio cortou-as.
O custeamento da residência fazia-se mediante a disponibilidade de casa ou então de uma quantia em dinheiro, ficando este com o encargo de buscá-la. A última situação poderia reverter em desfavor do beneficiário. Assim sucedeu em 1893 com Francisco Augusto da Silva que ao solicitar 24$000 ano para as despesas de aluguer da casa de residência só recebeu da Câmara 18$000. A isto acrescem as gratificações resultantes do serviço de exames, que em 1882 era de 1400 réis por aluno, e as referentes à participação em sessões de conferências pedagógicas no Funchal. A Câmara concedia-lhe ajudas de custo no valor de 1000 réis diários, incluídos os dias de ida e regresso. Esta participação, a ausência por qualquer motivo só poderia acontecer mediante prévia autorização da Câmara pois, caso contrário, o professor arriscava-se a perder o vencimento. Foi isso que aconteceu a Faustino Veríssimo Ornelas que em 1884 foi multado em 8 000 rs por se ter ausentado 10 dias úteis. Em face disto acabou por pedir a exoneração sendo substituído por Daniel Maria de França.
As despesas com o ensino contemplavam assim o arrendamento da casa para a escola e residência do professor, o material didáctico e a mobília, os vencimentos e ajudas de custo dos professores. De acordo com portaria de 6 de Dezembro de 1880 estas passaram para as Juntas de Paróquia, regressando às Câmaras com nova lei de 1897. Em 1900 o orçamento camarário para a instrução primária contemplava 1 513$685 réis subindo passado dez anos para 2 114$800 e atingindo o dobro em 1911. Parte significativa deste valor era gasto no aluguer de casas. Para 1929 a despesa com aluguer anual de casas distribuía-se da seguinte forma:
| FREGUESIA | LOCAL | DESCRIÇÃO | RENDA |
| Boaventura | Igreja | Escola |
70$00 |
| Beira | Escola e residência |
120$00 |
|
| Ponta Delgada | Pico | Escola |
40$00 |
| Terreiro | Escola e residência |
120$00 |
|
| S. Vicente | Feiteiras | Escola e residência |
360$00 |
Em 1944 era de 35 000$00 o pagamento feito pela Câmara aos senhorios proprietários de edifícios onde funcionavam as diversas escolas, o que tornava urgente uma política de construção de edifícios escolares.
O encontro de um edifício para arrendamento era já um problema e quando se exigia dela algumas condições de uso e de localização então as hipóteses poderiam considerar-se nulas. Em 1902 procurava-se um edifício para escola nas Feiteiras por ser um local central e acessível a todas as crianças de freguesia. A escolha recaiu numa casa de José Júlio Drumond Junior, que não oferecia todas as condições para a finalidade pretendida. Mesmo assim fez o contrato de arrendamento por nove anos no valor de 190$000 réis, mediante a imposição de alguns melhoramentos, como sejam duas sentinas. No contrato em questão o proprietário ficava obrigado à manutenção do edifício, que consistia no retalhar e arranjar o soalho, sendo a reposição dos vidros partidos das janelas por conta da Câmara.
Na década de sessenta deu-se um passo decisivo no avanço do ensino em S. Vicente com a criação de uma escola secundária, que contribuiu para que muitos jovens do Norte da ilha conseguissem avançar nos estudos e chegar até à universidade. Assim em 1964 a Câmara , sob proposta do presidente decidiu criar um instituto ou colégio secundário municipal, solicitando-se apoio à Fundação Calouste Gulbenkian.
Ligado ao ensino está a disponibilidades de livros e por sua vez de bibliotecas que os tornem acessíveis aos leitores interessados. A primeira referência que temos à existência de uma biblioteca no concelho data de 1896 altura em que a câmara adquiriu os livros "Portugal em Africa" e fez a assinatura do "Jornal de Engenharia e Architectura" para a Biblioteca Popular. Todavia em 1934 o presidente insiste na falta de uma biblioteca pública no concelho, mas passados dois anos quando Ministério do Interior recomenda uma circular de 24 de Março da Direcção Geral de Administração Política e Civil em que se apontava a necessidade de melhorar as bibliotecas existentes e caso não fosse caso disso de instalar uma, pois "que embora modesta é sempre de grande cultura" os vereadores limitaram-se a tomar conhecimento. Somente em 1966 foi instalada uma Biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian no rés do chão da casa do Dr. José Maria Gonçalves Vieira.
A ARTE DE BEM RECEBER
O Norte nunca teve o mesmo número e assiduidade de visitantes que ocorriam à vertente sul. Todavia alguns atreviam-se a rumar à descoberta do norte, seguindo os sinuosos caminhos que o ligam ao Funchal. Desde meados do século XIX são frequentes as visitas de estrangeiros que aceitam o sacrifício.
A circulação a pé entre o Norte e o Sul fazia-se por íngremes caminhos e para isso era necessário estabelecer casas de abrigo para socorrer os viajantes. O percurso entre o Sul e o Norte pelo Paúl da Serra estava servido de uma casa nos Estanquinhos, o estado de ruína em 1895 obrigava ao imediato reparo, "para que aquella casa preste aos transeuntes que fazem viagens por aquella serra o abrigo que lhes é indispensável...".
A casa era pertença das Câmaras de S. Vicente, Calheta e Ponta do Sol, sendo por isso mesmo a despesa paga por todos. Aí permanecia um guarda, em 1897, João Gonçalves, que zelava pela missão de apoio aos visitantes necessitados de ajuda. O estado de ruína e quase abandono continuará até ao nosso século, altura em que Daniel Maria de França Brazão da Vargem solicitou à Câmara o direito de exploração por 9 anos, a partir de 1 de Janeiro de 1906. O mesmo depois de referir que estes "abrigos, tão úteis e precisos às pessoas que transitam por aquellas paragens" prontifica-se a proceder às necessárias reparações e à sua exploração. À Câmara competiria pagar ao guarda um salário de 6.000 rs. A Câmara depois de ouvidas as congéneres aceitou o contrato; o dito auferia por isso mesmo um vencimento de 48 000 rs ao ano. Todavia, não melhorou o serviço da casa dos Estanquinhos. Primeiro, a da Calheta reclama que o guarda "tem por muitos e muitos dias abandonado o seu lugar" e o concessionário servia-se de todos os subterfúgios para furtar-se a despesas.
Terminado o prazo de concessão foi-lhe renovado de novo, sendo o ordenado aumentado de 72$000 para 84$000. Em Fevereiro de 1919 o concessionário alega que devido ao seu estado de saúde não pode continuar com a casa a partir de então, passando-se tal concessão para Manuel Maria da Silva. Mesmo assim não melhorou a condição da casa, uma vez que em 1920 estava muito danificada e o seu concessionário não cumpria com as clausulas do contrato que o obrigavam ao reparo. Deste modo a Câmara suspendeu o pagamento mensal da verba de manutenção. A partir desta data desaparecem as notícias sobre a casa. A funcionalidade perdeu-se com a presença do automóvel e a abertura de estradas que reduziram as distâncias e conduziram para segundo plano os caminhos rurais.
A iniciativa particular também é assinalada na prestação do serviço. Os estrangeiros que nos visitaram são testemunho disso. Na década de cinquenta era possível encontrar acomodação: em S. Vicente na casa de Manuel Joaquim da Costa Andrade e no Hotel do Sr. Dinis, enquanto em Ponta Delgada era a casa de José de Abreu. Em Boaventura é assinalado apenas a venda de Manuel Carvalho. A esta junta-se em 1896Manuel Pereira da Silva, morador no Lombo do Urzal refere que " presta em casa, que é a última próxima da serra, auxilio aos transeuntes que por ali passam, fornecendo-lhes comida e bebida...", por isso mesmo pede a isenção no pagamento dos impostos sobre as bebidas que vende pois, caso contrário, acabará com a venda. A Câmara sabendo da utilidade do serviço despachou de modo passível o pedido.
Em 1912 Carlos José de Sousa Júnior solicitou à Câmara um subsídio para "fundar e estabelecer um hotel na Villa com funcionamento regular". A decisão da Câmara é favorável "com as condições de alujar os officiaes da Junta de Inspecção debaixo do mesmo subsídio". Deste modo deveria alojar os oficiais e sargentos do destacamento militar, para além de se comprometer em "receber e tratar convenientemente os hospedes". Todavia a Junta Geral anula tal deliberação, que não tinha qualquer enquadramento legal. A pensão apresenta três classes de serviços diários aos clientes:
Note-se que nesta altura era reduzido ou quase nulo o apoio concedido aos visitantes. Assim para além da casa do Caramujo apenas se situa na vila a Casa Gonçalves junto da igreja, ficando o serviço de apoio aos transeuntes em Ponta Delgada e Boaventura dependente da disponibilidade dos párocos.
Em 1947 eram duas as pensões existentes na Vila e continuou assim por muito mais tempo. Todavia era cada vez mais evidente a valorização da encosta norte em termos de turismo. O Chão dos Louros, um dos ex-libris do concelho, foi declarado como espaço de lazer desde 1937 altura em que se mandou roçar o mato. Na década de sessenta tornou-se num importante polo de atracção e diversão. Em 1964 João Fernandes de Castro, de Santo António, manifestou interesse à Câmara de aí colocar um pré-fabricado para explorar por 20 anos como restaurante bar e residência. Já em 1969 é a extensão do arraial de Ponta Delgada a este local, com os pedidos de Manuel de Gouveia Brazão e Agostinho Gonçalves para aí instalarem, nos dias 6 e 8 de Setembro, barracas de bebidas. Nesta altura já existia a casa da Encumeada que foi obra de António Francisco dos Reis e Agostinho Abreu Paulino, de Serra de Água, autorizada pela Câmara em 1969.
A construção da piscina de Ponta Delgada enquadra-se dentro deste espírito. A realização foi sugerida à câmara por uma comissão criada para o efeito que arrecadou 20 contos A obra só foi adjudicada em 1958 à firma Leacock e Cº Lda por 60.486$90. Em 1961 construiu-se um bar e estabeleceu-se como tarifa de entrada um escudo.
Horácio Bento de Gouveia testemunha a realidade: " A piscina da freguesia de Ponta Delgada que meu parente Dr. Henrique de Freitas concebeu, surge com o objectivo não simplesmente turístico, mas de valorização regional.( ) Vai para vinte anos. Lançada a ideia de realizar-se a obra almejada, procuram-se donativos. Há uma comissão organizadora que colocava o interesse geral acima do individual, e encrudeceu até no espírito da gente mais modesta o desejo de ver o plano tornado sensível. comparticipam da obra o Estado e a Junta Geral do distrito, assim como a câmara municipal de São Vicente com quantia correspondente às suas disponibilidades do momento. E a piscina foi uma realidade entre o calhau do sítio da Vigia e a igreja. Aprazia ao visitante a beleza da construção e a volúpia da água esbordando as muralhas, em permanente apelo aos corpos para a sua frescura."
O turismo era já uma actividade florescente. O encanto e assiduidade do visitante aguça o espirito empreendedor dos locais. Assim, em 1971 um agente da empresa Voyages Wirtz SA não se cansa de elogiar aquilo que viu na viagem de estudo, mostrando-se particularmente encantado com as belezas naturais, com a afável hospitalidade, e com o bom vinho e a boa carne da vila e concelho de São Vicente..."
Em 1971iniciou-se uma nova era em que a aposta preferencial será no turismo. Uma sociedade, composta por Gabriel Paulo Drumond Esmeraldo, Francisco Andrade Pereira e Germano Drumond turístico no Calhau, que mereceu aprovação favorável da Câmara em 13 de Maio. É o princípio de uma noiva era para o turismo da encosta norte da ilha, que deu os seus frutos alguns anos mais tarde.
ENFRENTAR A NATUREZA
A orografia da ilha condiciona de modo evidente a vida dos vicentinos, sendo agravada esta condição com as condições climáticas. A ilha foi assolada ao longo da história por inúmeros aluviões. Ao norte mercê das encostas íngremes, da grande quantidade de água, a época invernosa foi sempre um quebra-cabeças para os moradores.
Em 1876 Joaquim Fernandes morador no Lanço reclama perante a vereação os prejuízos causados no seu sítio pelas chuvadas de 31 de Outubro. Os danos não se ficaram apenas pelos caminhos do Lanço pois atingiram todo o concelho, deixando-os quase intransitáveis, pelo que a Vereação foi forçada a apelar ao Governador Civil no sentido de serem dados meios financeiros para a imediata reparação.
A realidade repete-se ao longo do tempo e quase todos os anos é necessário, após o inverno, reparar os caminhos, refazer as pontes e levantar as quebradas. Foi assim em 1888, como em 1896, onde o presidente do município refere que o "alluvião de desgraça que ha um anno a esta parte se teem succedido em todo o concelho... onde a ribeira na sua impetuosa corrente levou para o mar, pontes, caminhos...". Todavia, graças à pronta colaboração de todos foi rápido o restabelecimento da circulação dos caminhos, ficando apenas a aguardar solução aquele que sobe na margem da ribeira junto á vila.
As inundações que ocorreram a 2 e 3 de Outubro de 1895 provocaram grandes estragos nas freguesias de S. Vicente, Boaventura e Ponta Delgada, que ficaram incomunicáveis. Na Ribeira Grande em S. Vicente ficaram 25 famílias sem casa, enquanto nos Enxurros em Ponta Delgada uma quebrada provocou elevados estragos. A ponta da vila entupiu e fez transbordar a água que alagou a vila. A sorte foi que a armação de pedra não resistiu à força da água que a fez desabar. De tudo isto deixou o Feiticeiro do norte um retrato em "as inundações de 1895":
Já em pleno século XX as chuvas continuaram a atormentar as gentes do norte. Logo em 1902 as chuvas fizeram elevados estragos, tornando intransitável a estrada real ao Saramago. Em 16 de Novembro de 1909 os estragos causados nos caminhos e casas, nomeadamente no Laranjal e no Lanço, são elevados, o que levou a Vereação a um orçamento suplementar para cobrir a nova despesa.
Na década de vinte esta realidade aumenta de intensidade. Em Fevereiro de 1921 os estragos foram tantos em todo o conselho que passando mais de um ano ainda se aguardava a reparação. Em 1927 o mês de Dezembro voltou a ser invernoso, causando elevados danos, de modo especial na principal estrada que liga pela Encumeada ao Funchal. Passados dois anos abateu-se uma grande calamidade sobre a freguesia. A 6 de Março pelas 10 h da manhã uma quebrada no alto da Vargem vitimou 29 famílias e causou danos, avaliados em mais de dois mil contos. Os dados assim o provam: 40 mortos, perda de 100 palheiros e igual número de cabeças de gado. O tema correu em toda a ilha e foi manchete, por algum tempo nos jornais locais, obrigando o Governador Civil a deslocar-se ao concelho a 8 de Março.
Não parou aqui a fúria do tempo pois que em 28 de Outubro de 1934 e Janeiro de 1952 novas trombas de água se abateram sobre o concelho provocaram de novo elevados prejuízos materiais e a destruição de inúmeras estradas e pontes, que só foi possível recuperar com apoio de subsídios da Junta Geral e do Governo Central.
Termina aqui o medo do vicentino face às ribeiras. Desde então não mais estas transbordaram de forma violenta molestando os residentes, destruindo caminhos e pontes. O clima parece ter mudado com também a força do homem para enfrentar a natureza.
DEVOÇÃO E CULTO
Note-se que, não obstante surgirem referências à fixação de colonos na área a partir da segunda metade do século XV, somente na centúria seguinte os primeiros núcleos populacionais adquirem alguma importância, como se poderá verificar com o aparecimento das primeiras freguesias - S. Jorge (1517), P. Delgada (1552), Seixal (1552) -. A de São Vicente deverá ser mais antiga. Álvaro Rodrigues de Azevedo, com fundamento que desconhecemos, apresenta a data de 1440 como a da fundação.
Os princípios do nosso século foram pautados por profundas remodelações nas igrejas paroquiais do concelho. A primeira a ser alvo desta situação foi a de Ponta Delgada mercê do típico incêndio que a atingiu em 1908. O facto de ser o local de uma das mais importantes romarias da ilha levou a um movimento da rápida recuperação com auxílio do Governo Central.
Nos anos quarenta o pároco de S. Vicente, o padre Alfredo Teodoro de Ponte Lira aposta na renovação e ampliação das duas igrejas do concelho. Primeiro foi a reconstrução da igreja matriz da Vila com o aumento de uma nova nave para o Centro da Vila seguindo-se depois a ampliação da de Nossa Senhora do Rosário em 1947 com duas naves laterais tendo a Câmara construído o largo e jardinagem do largo junto da Capela.
Facto significativo foi a iniciativa de construção da Capela de Nossa Senhora de Fátima no Pico da Cova, que ocorreu na Vereação de 1946 como forma de regozijo pelo fim da 2ª Grande Guerra Mundial.
Com o bispo D. Frei David de Sousa a diocese do Funchal viu aumentar o número de paróquias, sendo de salientar as três novas do concelho: Lameiros, Feiteiras e Fajã do Penedo. Não obstante ter sido instalada a cripta em 1965 tardou alguns anos até que estas dispusessem do próprio templo. A iniciativa da construção da Igreja das Feiteiras bem como da casa paroquial do Rosário partiram do Padre Manuel de Sousa Júnior.
Seguindo uma secular tradição o concelho de S. Vicente organizava todos os anos a festa do Corpo de Deus que constava de um desfile nas ruas da Vila. Em 1873 estiveram presentes e desfilaram na procissão o pároco de Ponta Delgada acompanhado da Confraria do Santíssimo Sacramento.
As actividades do município marcavam também a presença, indo o juiz ordinário e juízes eleitos, o administrador do concelho acompanhados dos funcionários. O empenho da Vereação nesta cerimónia é apenas manifesta neste ano e em 1869, não existindo outra qualquer referência à concretização.
Hoje, quando se fala na devoção religiosa das gentes do norte vêm-nos à memória, no imediato, as romarias do Senhor Bom Jesus (no primeiro domingo de Setembro) e de Nossa Senhora do Rosário (no primeiro Domingo de Outubro). Ontem como hoje as duas manifestações religiosas continuam a ser um dos momentos mais importantes da vivência religiosa e folia. Ontem como hoje mantêm-se como festividades regionais que fazem atrair milhares de romeiros ou forasteiros.
Santa Quitéria, São Vicente, Bom Jesus, são os padroeiros das igrejas matrizes das três freguesias que formam o Concelho de São Vicente. O último sustentado por um dos mais rijos arraiais de toda a ilha, o do Bom Jesus de Ponta Delgada, em Setembro, e onde acorrem centenas de forasteiros, noutros tempos ostentando, presa na fita do chapéu, estampa votiva do santo, impressa com a oração de indulgência "Encommendação a Jesus"
O Senhor Bom Jesus e Nossa Senhora do Rosário firmaram-se desde muito cedo na devoção das gentes do norte e também de toda a ilha. O Senhor Bom Jesus é a devoção mais antiga e terá surgido na ilha desde 1466 com Manuel Afonso Sanha um colono oriundo de Braga que fez transplantar para a sesmaria na Ponta Delgada o seu patrono. Deste modo, a primeira ermida que também fez erguer foi em sua honra. Da devoção privada passou-se à de todas as gentes do local, da encosta norte, e, depois, de toda a ilha.
Não sabemos como tudo se passou. Apenas podemos afirmar que já no último quartel do século XVI a festa do Senhor Bom Jesus fazia atrair muitos romeiros à encosta norte. Nos livros que regista as visitas do Bispo ou seu representante encontramos informações que apontam para um aumento da devoção ao Senhor Bom Jesus e de afluência dos romeiros nos séculos seguintes. Em 1657 e 1706 surgem queixas a propósito de o gado, no caso de caprino, pastar nas serras, sobranceiras às veredas, o que fazia perigar os transeuntes que se dirigiam à missa ou em romagem. E, no último ano, refere-se a morte de "muitas pessoas das contínuas romarias". Na verdade, neste século XVIII o Senhor Bom Jesus, não obstante estar colocado num local distante da encosta norte, era motivo de grande devoção, fazendo aumentar a afluência de romeiros.
Desde finais do século XVI que está testemunhada a existência da confraria do Senhor Bom Jesus que através do número de legados perpétuos oriundos de gentes de diversas origens atesta que a devoção estava em crescente subida. A fama do Senhor Bom Jesus como milagreiro alastrou a toda a ilha e fez com que o norte, mais propriamente Ponta Delgada, se transformasse num dos principais centros de peregrinação. Desde o século XVII são evidentes os testemunhos da dominância da romaria na devoção popular. Assim, para além dos legados em género ou dinheiro, temos as obrigações de romaria ao Senhor Bom Jesus com missa e a presença do ente querido a quem foi pedida a intersecção do Senhor Bom Jesus. A promessa, ontem como hoje, não se ficava apenas pela ida em romaria a Ponta Delgada e entrega de uma esmola mas também pela alegria dos cantares. O testemunho das assíduas romagens está no facto de em 1646 Afonso Gomes ter deixado à fábrica da igreja de Ponta Delgada uma casa para os romeiros.
A tradição prolongou-se no tempo chegando até nós. E, neste curso de cinco séculos, são evidentes os testemunhos desta viva tradição. Em 1817 José Moniz de Câmara, vizinho da Fajã de Areia, declarava ao Padre Francisco Borges seu testamenteiro para cumprir os legados, entre os quais estava a obrigação de cumprir uma romaria ao Senhor Bom Jesus de Ponta Delgada, entrando de joelhos desde a porta principal até ao altar-mor seguido de uma missa. O culto está também patente na confraria com o mesmo nome, que domina os legados perpétuos a partir de 1645. A devoção atingia as gentes do lugar mas também as de São Vicente.
O facto da devoção se afirmar a partir de meados do século XVII deverá estar relacionado com a fama de milagreiro do Senhor Bom Jesus. Assim, em 1866 o presidente da Câmara de S. Vicente dá conta de que a festa contou com a afluência de muito povo, o que provocou uma desorganização junto da imagem, não intervindo o regedor do lugar porque estava ocupado a vender círios. No ano imediato foi ainda maior a presença de peregrinos: "no primeiro de Setembro teve lugar a grande romaria de Ponta Delgada, a qual foi bastante concorrida, pois "é a opinião geral de que a romaria deste ano excedia um terço dos anos anteriores". Tudo correu sem incidentes, havendo apenas a lamentar a morte de um barqueiro da Ribeira Brava que caiu embriagado nas fajãs de São Vicente.
É evidente que o facto de Ponta Delgada ser o principal porto de desembarque e embarque no concelho favoreceu a presença de romeiros de diversas partes da ilha, que aí acolhiam por via marítima, a exemplo do que sucedia noutras freguesias da ilha. O fervor religioso justifica muitas vezes o sacrifício e não impediu que em 1908, a apenas dois meses do incêndio que vitimou a igreja a 12 de Julho, o arraial tivesse lugar.
A afluência dos peregrinos ao local de romagem era grande e fazia-se através dos caminhos que ligavam o local ao sul da ilha, via Boaventura ou S. Vicente. Deste modo na última semana de Agosto era desusado o seu número que calcorreavam a pé as encostas íngremes. No século XX com a abertura das estradas de ligação entre S. Vicente e a Ribeira Brava e Ponta Delgada o movimento transferiu-se para a estrada. Não será de estranhar o facto de a romaria do Senhor Bom Jesus se estender à Encumeada, Caramujo e Estanquinhos. Assim em 1936 o imposto sobre a carne e barracas montada nos locais nos dias 5 a 10 de Setembro era cobrado por Joaquim Nunes Brazão Machado
A grande aposta em terrenos de devoção e diversão estava nos arraiais de Ponta Delgada e do Rosário. A referência a estas manifestações é ocasional e prende-se com os interesses e obrigações do próprio município. Em 1876 a Vereação nomeou dois fiscais para as vendas ambulantes na festa de Ponta Delgada. Ainda de acordo com determinação da comissão reguladora do comércio do distrito do Funchal sabemos que em 1941 podiam ser abatidas até 80 cabeças de gado. Os contributos da Câmara para as festas são poucos resumindo-se a assegurar as despesas com o policiamento e apenas em 1937 é declarado que o valor de 135$00 do imposto cobrado aos vendedores ambulantes no arraial do Rosário ficaria para as despesas do mesmo.
A partir dos anos quarenta temos notícia de outro arraial em honra do orago do concelho. Desde 1947 que temos referência à realização através do pedido de licença para a colocação de mastros na rua da Vila. Entretanto em 25 de Outubro de 1962 a Vereação, sob proposta do presidente decidiu considerar o dia 22 de Janeiro como feriado municipal, tendo em conta que era uma festa com grande tradição em honra do padroeiro da Vila e do concelho. A partir daqui há notícia do empenhamento da Vereação nesta festividade, tendo contribuído em 1970 com 6 000$00.
Em 1944 a Vereação decidiu comemorar outra efeméride evocativa da elevação do lugar de S. Vicente à categoria de Vila e de criação do concelho. A 15 de Julho decidiu-se celebrar os duzentos anos com uma festa, à qual compareceram as mais altas individualidades da região. A vila tornou-se no centro da ilha durante algum tempo. Fez-se uma exposição de gado e etnográfica. O acto foi aproveitado para uma homenagem ao Governador Civil, Gustavo Teixeira Dias, e ao Presidente da Junta Geral, Dr. João Abel de Freitas que foram agraciados com o título de cidadão honorário do concelho. A Câmara gastou com as cerimónias 15.181$00.
É evidente nesta época uma preocupação pela história e tradições do concelho, encarando a Vereação tal realidade. Em 1943 havia-se convidado o Dr. Augusto da Silva Branco Camacho a fazer um estudo histórico sobre a vida do concelho, a data da criação e evolução administrativa, o que nunca concretizou. Depois, coincidindo com os 200 anos de criação da Vila foi aprovado pela comissão de heráldica a 28 de Junho o selo e a bandeira, que não existiam.
Outra manifestação de carácter profano ocorreu em 1953. Pela primeira vez temos referência à festa das vindimas que aqui teve lugar no dia 13 de Setembro.
Na verdade, o concelho de S. Vicente foi desde a década de trinta um importante local de diversão. Para isso contribuiu a inauguração a 27 de Setembro de 1931 do Teatro Gil Vicente, propriedade de Carlos França. Vários grupos de excursionistas deslocavam-se do Funchal para representar e assistir às inúmeras récitas que aí tiveram lugar.