INTRODUÇÃO
O Centro de Estudos de História do Atlântico, de acordo com plano estabelecido em 1989, decidiu avançar com um projecto de investigação sobre a História dos Municípios da Madeira. A ideia era envolver a sociedade civil e política com o passado histórico no sentido da valorização do último com benefício evidente para todos. Entretanto, foram muitos os entraves que se colocaram por elementos estranhos à sua prossecução e que fizeram surgir algumas falsas imitações.
Hoje, passados mais de oito anos, não podemos considerar que o projecto tenha sido um logro, como afirmam certos sectores menos informadores, isto é, os profetas da desgraça e do proveito próprio. Senão vejamos. Em 1994, aproveitando-se a comemoração dos quatrocentos e cinquenta anos da criação do concelho, publicou-se um volume, que se apresentou já como uma amostra do projecto em marcha. No ano passado surgiu novo livro: Roteiro para uma visita e descoberta do concelho de S. Vicente. E fazemos todo o nosso esforço para que mais este seja dado à luz do dia. Afinal, a ambição de apenas um volume suplantou as nossas próprias expectativas e eis-nos com três e a esperança de que outros mais textos se seguirão. A história nunca deve ser considerada como um processo acabado, mas algo em permanente construção. Afinal, a síntese em História não se faz do nada, pois é a partir dos estudos parcelares que se torna possível o "puzzle" tão difícil de reconstrução do nosso discurso histórico.
S.Vicente um século de vida Municipal (1868-1974) é um projecto inovador e ambicioso. É a primeira vez que se faz uma abordagem da evolução do município num dos períodos mais recentes e conturbados da nossa História. São mais de cem anos recheados de múltiplos acontecimentos que marcaram de forma evidente a contemporaneidade. Mas será que o eco disso se fez sentir nas encostas perdidas do norte da ilha ? Os vicentinos alhearam-se da política e agarraram-se à terra ou, pelo contrário, souberam fazer valer os seus interesses nos momentos de maior dificuldade ? Os tumultos de 1868 ou 1924 deverão ser entendidos como manifestações avulsas de um povo desordeiro ou antes a expressão de quem sabe o quer ? A estas e muitas mais questões, que pululam na mente de muitos de nós, espectadores presenciais ou seus conhecedores por memórias orais e escritas.
Aqui, a História faz-se com acontecimentos ainda recentes. O vinte e cinco de Abril de 1974 inaugurou uma nova realidade que ainda é muito cedo para passar às páginas da memória histórica. São inúmeros os protagonistas vivos e a memória histórica ainda não amadureceu. Mas será que a sua experiência, por mais lúcida que seja, permitirá entender este processo ?. Quantas vezes nos envolvemos numa situação e fechamos olhos a tudo o que nos cerca. Certamente que a posição de afastamento poderá muitas vezes favorecer uma leitura desapaixonada e desencravar outra realidade ou então uma diferente visão.
Para nós modestos intervenientes neste processo desde a década de cinquenta, só a agora nos foi possível entender alguns episódios que marcaram de forma indelével a nossa infância. A descoberta do automóvel, as idas constantes à vila, as primeiras passagens pelo banco da escola nas Casas Novas, são elementos desconexos do puzzle da nossa memória que agora se compõem de forma perfeita. É a oportunidade de conciliação com o nosso passado e de catarse.
Para muitos dos protagonistas que encontrarem o seu nome inscrito em qualquer das situações que dão corpo a este volume será a oportunidade de rememorar épocas passadas e esperámos que seja apenas isso que os mova na interpretação das nossas palavras. Não fazemos da escrita da História um tribunal para julgar quem quer seja. Move-nos apenas o empenho de trazer à memória do presente o passado e através das mútuas cambiantes e de tentar encadear um discurso inteligível.
Aos poucos protagonistas vivos e aos muitos já falecidos aqui fica a nossa justa homenagem pela disponibilidade para o serviço público e o incansável labor de defesa e promoção do concelho. A evolução, os avanços e recuos do progresso são fruto deles e a nossa melhor homenagem é continuar a lutar com o mesmo espírito para que possamos merecer o mesmo testemunho dos vindouros. O futuro o dirá…
São cinquenta e oito anos de conturbada vida política seguidos de outros quarenta e oito de regime ditatorial, definido pela omnipresença de um só grupo político, de um único modo de ver e moldar a realidade política. No total são cento e seis anos da nossa História Contemporânea recente. A razão de ter como ponto de partida o ano de 1868 prende-se com o facto de neste ano terem ocorrido alguns acontecimentos que ficaram a marcar de forma indelével a História do Concelho. A 12 de Abril de 1868 ocorreram tumultos na Vila de S. Vicente que levaram à total destruição de todos os documentos existentes no Arquivo Municipal, apagando-se desta forma a memória histórica do concelho. Face a esta situação torna-se difícil reconstituir o passado histórico do concelho entre 1744 e 1868. Os dados são avulsos e devem ser encontrados, qual agulha em palheiro, nos acervos documentais dos concelhos vizinhos, ou nos referentes aos fundos dos governadores gerais ou civis.
Traçar o quotidiano do município através das actas da vereação é um projecto arriscado, pois sujeitamo-nos ao empenho ou não daqueles que de forma directa actuaram para fazer passar aos vindouros uma certa realidade. Nem tudo o que acontece no concelho tem debate obrigatório na sessão camarária e muitas das questões mais pertinentes dissolvem-se no diálogo quotidiano não institucional. Esse é apenas privilégio de memorial oral, hoje possivelmente reconstituído através da chamada História Oral. Analisados os cento e seis anos de vida municipal conclui-se que esta realidade dependerá sempre dos intervenientes, mas de modo especial ao presidente, que dirige os trabalhos, e ao escrivão ou outro qualquer a quem seja acometida a tarefa de redigir as actas. São eles o espelho duma realidade que hoje apenas se mantêm na memória de alguns.
O discurso indirecto nem sempre obedece aos requisitos e exigências do historiador. A opinião, o debate são falsas realidades nesta tribuna que deveria viver disso mesmo. Perante nós desfilam páginas e páginas de sessões, ou de transcrição sumária de petições, ofícios e requerimentos. A unanimidade parece ser a palavra de ordem nos últimos cinquenta anos.
Para colmatar algumas das lacunas evidentes que prejudicam a definição da estrutura institucional na evolução e quotidiano concelhio confrontou-se as actas camarárias com outros dados conexos. Foi nossa intenção reconstituir as ambiências que dominaram o passado recente da História do Concelho. A intervenção do concelho é nesta altura cada vez mais abrangente e é isso que reflectem as actas. Pela mesa das sessões, por intervenção directa dos munícipes ou dos vereadores, passam não só os problemas do dia a dia do concelho, mas também as ambições de um progressivo desenvolvimento do concelho.
Aqui olha-se para o presente mas também para o futuro. São os projectos de uma adequada rede viária, de instalações adequadas para as repartições públicas e da progressiva valorização das gentes com um plano adequado de escolas. A realidade de hoje evidencia que a luta não foi inglória. O progresso sempre presente na mira da vida municipal é hoje algo evidente porque os nossos avoengos lutaram por isso nos últimos cem anos.
Os caminhos do presente delineiam-se no passado, mas os do futuro tem por palco o momento presente. Neste contexto é a rede viária que ontem como hoje traçará o rumo. Em 1914 a ligação do norte ao sul abriu uma nova era na História do Norte da Ilha. Agora que se avizinham novos projectos será de ambicionar por uma nova mudança, a esperança dos políticos, mas acima de tudo das populações.
A concretização deste projecto só foi possível com a pronta adesão da actual vereação do Concelho de S. Vicente, primeiro sob a presidência de Gabriel Drumond, o primeiro presidente da autarquia na presente era, e hoje do Prof. Duarte Mendes, que nos facultaram de forma aberta e sem qualquer limite o acesso ao arquivo municipal. A todos o nosso sincero agradecimento e retribuição através destas páginas, que esperamos sejam um dado mais no fortalecimento da instituição municipal no final de século.