A COMPANHIA PORTUGUESA RADIO MARCONI NA MADEIRA.1922-1995

 

ALBERTO VIEIRA

email:albvieira@madinfo.pt

 

Habituados aos meandros da História, no sentido lato dos mais diversos domínios temáticos e dentro de um maior afastamento cronológico, foi com algumas reticências que encaramos a hipótese de elaborar uma monografia sumária de uma empresa como a Marconi, de História recente mas cuja actividade tem marcado, de modo evidente, nos últimos anos a Madeira. Mesmo assim aceitámos o desafio lançado pelo Engº Graciano Góis, porque nos agradam novas experiências, desde que enriquecedoras para a nossa faina historiográfica.
A micro-história, um campo pouco conhecido no País, assumiu-se nas últimas décadas como uma via importante para a plena afirmação do conhecimento histórico: A História de uma empresa, de uma personalidade são fundamentais para a compreensão do devir histórico. Alguns dos grandes mestres da Historiografia o têm demonstrado. Aqui, queremos apenas seguir o seu exemplo e fazer com que esta monografia possa revelar a vida recôndita desta empresa que é parte significativa do devir histórico do arquipélago no presente século.
Habituados que estamos a ver neste tipo de publicação uma forma, por vezes, insossa de valorização da entidade em questão, quisemos com o presente texto mostrar que, a par disso, se pode concretizar um trabalho mais gratificante para quem o promove, elabora e recebe. O enquadramento da empresa no processo histórico, de que ela é resultado e factor, foi um dos principais objectivos orientadores.
Aqui, foi nossa intenção demonstrar e relevar a importância que a Marconi assumiu e continua a ter na sociedade madeirense: os feitos relatados são prova disso e não precisamos de tais referências insossas para realçar o seu protagonismo no campo das Telecomunicações. A intervenção da Marconi, nos últimos sessenta anos, transformou, em certa medida, os hábitos quotidianos dos madeirenses. Além disso, os meios que a empresa colocou ao nosso dispor vieram banir todas as barreiras que definiam o casulo do nosso isolamento insular. Por fim queremos declarar que procuramos atribuir a este texto a dimensão de documento-testemunho capaz de transmitir aquilo que foi e continua a ser a acção da companhia no último meio século de História da Madeira: aqui estão reunidos discursos, recortes de jornais, ilustrados com fotografias recentes e antigas, uma breve cronologia das telecomunicações, que queremos fiquem para a posterioridade como testemunho da real importância da Marconi na História madeirense. Por outro lado foi nossa intenção conciliar também o aspecto didáctico por meio de organigramas, fornecidos pelos respectivos serviços da direcção regional da empresa, que explicitam a evolução do sistema de telecomunicações.
Ao longo deste périplo pelos meandros da História da Marconi contámos com a colaboração de alguns responsáveis dos diversos serviços da empresa e amigos, que não podemos esquecer. Em primeiro lugar o Sr. Eng. Graciano Góis, o principal mentor da ideia, que acompanhou com devota dedicação este projecto. Depois os Srs. Engºs Barros e Londral que nos revelaram os segredos das tecnologias disponibilizadas pela empresa, por meio da elaboração dos organigramas explicativos sobre o equipamento.

MARCONI E AS TELECOMUNICAÇÕES

"Os meus esforços permitiram amilhões de seres humanos viver a um nível inatingível noutras condições. Pode acusar-se a máquina de ser em certo grau, a causa de excessiva produção. Talvez. Mas não é menos verdadeiro que os habitantes de Londres, por exemplo, não poderiam trabalhar como hoje fazem se não dispusessem do telefone e do telégrafo" (Marconi, 1933).
No presente momento o acto de comunicar faz parte do nosso quotidiano. Para isso a tecnologia colocou ao nosso dispor inúmeros meios que o facilitam e fazem dele um dos aspectos mais evidentes deste final do século vinte. Eles destronaram as inúmeras torres de Babel e fizeram com que o mundo se reduzisse a uma aldeia, onde todos se intercomunicam, ainda que anonimamente.
São múltiplos os inventos do Homem que deram a verdadeira expressão ao acto de comunicar. Por muito tempo a comunicação só podia fazer-se por meio da escrita ou sinais sonoros e visuais. Mas, passados alguns séculos sobre esta realidade, eis que aparece a possibilidade de comunicar por meio do sistema electromagnético ou por ondas hertzianas: a Telegrafia com ou sem fios, o cabo submarino, e, mais recentemente, o satélite, foram os meios necessários a tal revolução no acto de comunicar. A eles vieram juntar-se os instrumentos de comunicação, que cada vez mais se aperfeiçoam: a rádio, o telefone, a televisão, o telex, o fax (...).
O sociólogo canadiano Marshall Macluhan foi quem primeiro chamou a atenção para a importância dos meios e técnicas que asseguram a transmissão das mensagens. Segundo ele os mesmos exercem um efeito muito maior que a própria mensagem. Macluhan definiu três estádios para a evolução do sistema técnico de difusão da mensagem: a sociedade tradicional e tribal, as galáxias de Gutemberg e Marconi. As duas últimas marcaram de forma evidente a difusão da mensagem. Aqui os inventos de Marconi tiveram um efeito espectacular ao propiciarem uma rápida e eficaz difusão da mensagem. A tão propalada "aldeia global", também definida por este sociólogo, é o resultado disso.
Para um espaço insular como a Madeira o acto de comunicar, pela fruição destes meios, apresenta-se vital, sendo imprescindível para abater as barreiras geográficas, que definem a insularidade. É por isso, que hoje fazemos parte dessa "aldeia global", dispondo de alguns dos meios mais sofisticados de comunicação.
Todo este serviço com o exterior é garantido pela Companhia Portuguesa Rádio Marconi, que desde 15 de Dezembro de 1926 iniciou as actividades na Madeira: começou com o TSF, mas hoje oferece aos madeirenses uma multiplicidade de serviços, através do seu Centro de Telecomunicações do Funchal..
Ontem como hoje as comunicações são um factor de desenvolvimento económico e social. Mas enquanto no passado era a situação económica das regiões e a conjuntura emergente das áreas em que se inseriam que quebravam o isolamento, mercê da atracção que exerciam sobre os potenciais interessados no comércio e consumo dos seus produtos, hoje a sua implementação é resultado de um compromisso político-social, um serviço prestado às regiões periféricas, que resulta num factor de franco progresso social e económico.
Hoje dispomos de uma avançada tecnologia que torna possível a recepção da nossa voz e imagem em qualquer parte do mundo e, por isso mesmo, nos esquecemos das dificuldades que sentiram os nossos antepassados para saírem do casulo madeirense. Por isso, aqui apresentamos, numa breve síntese a situação das comunicações da Madeira desde o século XV até à actualidade, donde se destaca a função primordial da ilha no espaço atlântico, função que só a hodierna geração espacial do satélite e da aviação retiraram.
Para um espaço como a Madeira, isolado no meio do oceano, comunicar foi sempre uma necessidade imperiosa das suas gentes. Mas, se na actualidade a tecnologia das telecomunicações permite um contacto imediato com o exterior, tempos houve em que esta ligação só seria possível após alguns dias e, por vezes, meses de peripécias no vasto mar oceânico. No século XV as ligações com o reino só se tornavam possíveis apenas em seis meses do ano, demorando a viagem cerca de uma a duas semanas. Já nos finais do século dezanove a viagem do navio Priscilla, que saiu da Madeira com destino ao Hawaii durou cento e vinte dias.
Estas dificuldades nas comunicações, que durante muito tempo se fizeram única e exclusivamente por via marítima, não são facilmente perceptivas à maioria de todos nós habituados às comodidades da actual tecnologia das comunicações, que vai do avião ao mais sofisticado sistema de telecomunicações.
Mesmo assim nos séculos que nos antecederam a Madeira foi um espaço privilegiado a esse nível. Para isso terão contribuído alguns factores, sendo de considerar as condições favoráveis do oceano que a circunda e as condições económicas da ilha, resultantes da cultura da cana sacarina e da vinha: o mar ao mesmo tempo que separa a ilha une-a aos mais diversos portos costeiros, tendo sido até ao presente século o meio privilegiado de ligação com o exterior; os produtos, o ouro arrancado à terra, desperta a atenção dos aventureiros do atlântico e fazem do Funchal um dos principais portos de comércio e navegação. Uma e outra situação contribuíram para que a ilha quebrasse o isolamento definido pelo oceano e se mantivesse um assíduo contacto com o velho continente europeu e o novo mundo.
Já nos alvores do século XV a coroa definira em 1443, segundo opinião de Zurara, o Funchal como principal entreposto de escala e apoio à navegação lusíada no Atlântico. Ao longo dos séculos XVI e XVII as novidades e contactos com a Europa são resultado da frequência de navegadores, expedicionistas e mercadores que escalavam periodicamente o Funchal. A chegada de uma embarcação era sempre alvo da curiosidade dos presentes no calhau ou daqueles que dos terraços das suas casas as conseguiam avistar. As torres avista navios são o testemunho dessa ancestral miragem oceânica.
A situação manteve-se por largos séculos e só foi quebrada com a afirmação da máquina a vapor na navegação e a crise do comércio do vinho. Desde então, a Madeira perdeu o convívio com as gentes do mar e acentuou-se o isolamento, só quebrado com a afirmação do turismo terapêutico, da afirmação da cidade do Funchal como estância de aclimatação para os colonialistas britânicos e o desenvolvimento da telegrafia sem fios.
Também a posição privilegiada da Madeira, no caminho para a Madeira ou a América, fez com que assumisse uma função primordial na rede de cabos submarinos. Foi a partir da ilha que se fizeram em 1874 as primeiras ligações transatlânticas. Todavia o incremento deste meio em princípios do nosso século veio a confirmar o Porto da Horta (Faial-Açores) como o principal eixo do emaranhado de cabos que estabeleciam as ligações entre o continente americano e a Europa: para o período de 1893 a 1928 estão registados 15 cabos que amarravam ao referido porto. Mas, na actualidade, a Madeira volta a assumir de novo o protagonismo oitocentista afirmando-se com um importante nó de comunicações, via cabo submarino, no espaço banhado pelo Atlântico.
Para o necessário enquadramento do historial da C.P.R.M. na Madeira considerámos necessário estabelecer as principais linhas mestras desta galáxia da comunicação no arquipélago em que a C.P.R.M. foi o principal e, por muito tempo, único protagonista. Deste modo optámos por estabelecer um pequeno historial dos meios postos à disposição do homem para o acto de comunicar em que inserimos a situação da Madeira. E só depois falaremos da C.P.R.M. e das concretizações e actuais meios que a empresa coloca à disposição do madeirense.
Já atrás o dissemos que o acto de comunicar é uma necessidade biológica, nasceu com o Homem, e foi ele o principal obreiro das múltiplas cambiantes que o mesmo tem tido. Mas a comunicação tem muitas expressões de acordo com a distância a que se encontram os dois interlocutores: o emissor e receptor. As telecomunicações expressam um distanciamento expressivo entre os dois factores deste acto.
De início a comunicação a longa distância a partir desta forma fazia-se por intermédio de meios pouco adequados mas capazes de cumprir a sua missão. Eram os sinais sonoros ou visuais, que a partir de um código preestabelecido, tornavam o acto possível. Dizem os anais de História que teria sido Plínio quem nos deu a conhecer em 100 A.C. o sistema de transmissão por combinações de luzes, que teve a primeira aplicação prática no exército de Alexandre, o Grande. Todavia os grandes aperfeiçoamentos do sistema tiveram lugar muito mais tarde, sendo obra de Lippershem, Galileu e Kipler. Ele manteve-se até finais do século XVIII, altura em que os irmãos Chappe, em França, criaram o primeiro sistema semafórico, cujo princípio estará na origem do telégrafo (1844). Ambos foram também aplicados em Portugal e na Madeira, servindo de meio de comunicação das embarcações entre si, com os portos e entre os vários núcleos de povoamento.
Uma das principais utilidades deste sistema foi no aviso da presença de corsários, prontos a assaltar barcos e povoações. Desde o início da ocupação da ilha que os seus habitantes estiveram expostos ao livre arbítrio de piratas e corsários. Eles frequentavam com assiduidade o mar madeirense e apresentavam-se como uma permanente ameaça para as populações costeiras. Ficaram célebres os assaltos dos franceses em 1566 ao Funchal e dos argelinos em 1616 ao Porto Santo. Perante esta permanente ameaça foi necessário estabelecer medidas de vigilância e protecção. No primeiro caso destacam-se as vigias colocadas em locais estratégicos ao longo da vertente sul da Madeira, onde permaneciam turnos de guarda. A presença de um navio estranho, indiciador de um pirata ou corsário, era de imediato avisado aos comandantes das ordenanças que de imediato reuniam as hostes por meio de um sinal sonoro: o repicar dos sinos da igreja ou o toque do tambor. Todavia as demais populações costeiras precisavam também de ser avisados de modo a poderem preparar a defesa. Para isso definiu-se em toda a ilha um sistema de comunicação por sinais luminosos (os fachos), que circulavam ao longo da orla costeira, por intermédio das elevações que propiciavam este contacto. A rede terminava no Pico da Cruz, em S. Martinho, que foi conhecido como o Pico Telégrafo. Daí resultou a designação de Pico do Facho às elevações onde se faziam os sinais luminosos. Com este nome surgem-nos dois picos no Porto Santo e na Madeira (em Machico). A forma de organização desta comunicação por sinais ópticos é-nos apresentada em 1805 pelo governador D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho num regimento que estabeleceu para tal fim.
Como é óbvio o sistema não permitia uma perfeita e total comunicação entre os dois interlocutores actuando apenas como meio de aviso rápido e eficaz. A par disso, inúmeros obstáculos se colocavam à sua concretização, numa ilha marcada pelo acidentado do terreno. Estas dificuldades só podiam ser ultrapassadas com o aparecimento de um novo meio de comunicação, no caso o telégrafo eléctrico, surgido em 1837. Foi neste ano que William Cooke e Charles Whatstone registaram a patente. Aqui há a considerar a Telegrafia com fios e sem fios, sendo de destacar na primeira a que se realizava por via terrestre ou marítima (=cabo submarino). O sistema de telegrafia com fios surgiu em Portugal a partir de 1855, mas só em Agosto de 1873 se procedeu à sua instalação na Madeira, por meio de uma linha que ligava o Funchal à Ponta do Sol e, no ano imediato, com a Ponta do Pargo e Machico.
O facto de em 10 de Março de 1876 Alexandre Bell ter patenteado o novo invento (o telefone) veio a tornar absoleto o sistema de telegrafia. Todavia ele em chegar à Madeira: em 1881 foi concedido o alvará de exploração à companhia Edison Gower Bell Company para a rede de Lisboa, mas só em 1911 é que os madeirenses puderam usufruir dele. A primeira ligação telefónica teve lugar a 6 de Outubro entre o Governador e o Diário de Notícias, que tinha o número 32. Entretanto no ano imediato a Câmara solicitava o alargamento a toda a ilha, o que só foi conseguido nos quarenta anos que se seguiram. Para as ligações com o exterior continuou a manter-se o sistema telegráfico e o usufruto do mesmo sistema, por meio do TSF ou cabo submarino, que teve lugar muito mais cedo, mercê do facto de a ilha se situar num eixo importante das comunicações com o continente africano.

O CABO SUBMARINO

A ideia do cabo submarino havia sido sugerida em 1795 pelo catalão Salvat numa comunicação sobre o uso da corrente eléctrica para transmissão à distância, apresentada à Academia de Ciências de Barcelona. Três anos mais tarde era lançado em Madrid o primeiro circuito com 44 Km, mas só a partir da década de quarenta da centúria seguinte este meio ganhou novo incremento. Para isso terá contribuído o facto de o português José de Almeida ter trazido da Malásia para a Europa a gutta-percha , apresentada em 1843 na Royal Asiatic Society de Londres. Este produto passou a ser utilizado como isolador dos cabos submarinos a partir de 1845.
O período que se sucede foi marcado por múltiplos lançamentos do cabo e pela criação de companhias para a sua exploração. Em 1856 surge a Atlantic Telegraph Company e em 1783 a Brazilian Submarine Telegraph Co. A última foi responsável pelo lançamento e exploração de um circuito entre Portugal e o Brasil com passagem pelo Funchal e S. Vicente (Cabo Verde).
A imersão do cabo começou a 28 de Agosto de 1873, sendo executada pelo vapor inglês Seins. A 19 de Março de 1874 estava concluída a ligação com o Funchal, estabelecendo-se de imediato a prestação do serviço público. A ligação entre as ilhas da Madeira e S. Vicente foi realizada pelo vapor Hibernia , ficando concluído em 11 de Março de 1874, altura em que foram trocados telegramas entre a Câmara de S. Vicente e a sua congénere no Funchal.
Em Janeiro de 1876 rebentou o cabo no percurso de Lisboa ao Funchal, o que levou a companhia a propor o lançamento de outro, concretizado em 1882, mas com o dobro dos circuitos.
A partir de 1889 a companhia de exploração do cabo passou a chamar-se Western Telegraph e foi ela a responsável pelo lançamento de outro em 1901. Entretanto em 1947 foi estabelecido um novo cabo entre Gibraltar e o Funchal e, finalmente, em 1972 era inaugurada uma nova geração de cabos por iniciativa da Marconi. A companhia inglesa do cabo submarino havia encerrado oficialmente as instalações a 31 de Dezembro de 1970.

A GALÁXIA DE MARCONI

A afirmação do cabo submarino como meio privilegiado de comunicação com o exterior foi de vida efémera. A concorrência da telegrafia sem fio, mercê dos progressos técnicos gerados por Marconi, a afirmação do correio aéreo, associados à depressão de 1929 conduziram a que este meio se tornasse absoleto e de elevados custos, dando lugar a uma complexa rede de T.S.F. Este foi o primeiro passo para um rápido enlace de todo o mundo, conseguido em pleno na actualidade com a geração dos satélites.
Não obstante as primeiras experiências de rádio serem de 1825, foi em finais do século dezanove, com Guilherme Marconi, que se deram os grandes progressos na transmissão pela Telegrafia sem fios. Foi em 1896, após um ano de experiências, que o mesmo registou em Londres a patente, criando no ano imediato a Wireless Telegraph Company.
A conjuntura da primeira metade do século foi favorável ao rápido desenvolvimento da T.S.F. A primeira guerra mundial(1914-1919), os conflitos militares isolados, como o dos boers na África do Sul, criaram a necessidade de um rápido e eficaz sistema de comunicações, só possível com a telegrafia sem fios. A utilização, a partir de 1905, do rádio nas comunicações militares, e a acuidade destes conflitos nos primeiros decénios da presente centúria traçaram o caminho para a plena afirmação das comunicações via rádio. Foi Marconi quem durante a guerra divulgou no seu país o serviço de telegrafia e telefonia.
Entretanto o invento patenteado por Marconi ia dando os primeiros resultados. Dos iniciais 4 Km de comunicação passou-se para os 400 Km e para a total cobertura do mundo. As experiências realizadas entre Julho e Dezembro de 1902 a bordo do vapor Carlos Alberto levaram ao desenvolvimento do sistema de transmissão em morse e a recepção telefónica de ondas, que lhe proporcionaram em 1902 a transmissão da primeira mensagem radiotelegráfica entre o Canadá e Inglaterra, e no ano imediato com os USA. A 16 de Setembro de 1906 foi inaugurado o primeiro serviço radiotelegráfico regular entre a Europa e a América.
Os benefícios deste novo sistema de comunicações tornam-se evidentes na guerra ou no salvamento de embarcações naufragadas, como sucedeu em 1909 com os vapores Florida, e Republica e em 1912 com o grande paquete Titanic.
Em 1916 Marconi apresentava o primeiro aparelho de Telefonia por ondas curtas e contribuía, decisivamente, para o progresso das comunicações a longa distância, e a afirmação de uma nova realidade que marcou a sociedade mundial a partir da década de vinte. Foram os anos da rádio: primeiro nos E.U.A. desde 1914, depois na Europa com a BBC (1922). Após isso o inventor desenvolveu as investigações sobre o sistema de ondas curtas, servindo-se, para o efeito, do vapor Electra. Deste modo em Maio de 1924 transmitia pela primeira vez a voz humana por meio da radiofonia entre a Inglaterra e a América.
A descoberta do TSF, patenteada em 2 de Junho de 1896, colocou-o entre as personalidades ilustres e mais badaladas da primeira metade da presente centúria, e levou-o ao panteão do prémio Nobel ao receber o respectivo da Física em 1909. O iate Electra, o seu mundo ambulante, considerado pelos italianos "nave del miracolo", tornou-se no centro de experiências, enquanto Roma e Londres funcionavam como o meio de concretização técnica dos inventos, por meio da companhia que criara em Julho de 1897.

GUGLIELMO MARCONI NA MADEIRA

Entre as primeiras experiências em 1896 e a generalização do uso do TSF nas comunicações marítimas, terrestres e aéreas, desde 1913-14, medeia um curto espaço de tempo, pelo que estes anos e os sucedâneos foram de intensa actividade para o cientista. Deste modo entre 1922-24 devassou o Atlântico, desde Cabo Verde, aos Açores e à Madeira, no sentido de encontrar uma solução adequada à dirigibilidade das ondas de pequena extensão: de 17 a 18 de Julho de 1922 esteve na Horta (Faial-Açores) e de 25 de Agosto a 2 de Setembro de 1924 passou pela Madeira.
Esta curta estância na Madeira enquadrava-se no plano de experiências traçado para o mesmo ano que o levou também a Lisboa, Cabo Verde e Gibraltar. Foram três meses de demoradas pesquisas que contribuíram para a solução das principais dificuldades resultantes da comunicação rádio eléctrica. Deste modo no seu regresso a Londres, a 3 de Novembro, deu início à construção da primeira estação equipada com o novo invento.
Marconi chegou à Madeira na madrugada do dia 26 de Agosto e cá permaneceu até ao dia 2 de Setembro. O seu iate Electra vinha sob o comando do oficial da marinha italiana Comandante Lauro e acompanhavam-no nesta viagem a mulher e filha. Aqui, no Funchal procurou acolhimento no Hotel Reid's, onde consta a sua assinatura no livro de honra de hóspedes. Durante esta curta estância na ilha deu continuidade às experiências, tendo, também, aproveitado o pouco tempo disponível para visitar a cidade de automóvel, o que segundo os jornais da época foi alvo da curiosidade de muitos transeuntes. Todavia a imprensa local deu pouca atenção à sua presença, noticiando laconicamente a chegada e partida. Apenas o Diário de Notícias na edição de Domingo do dia 31 de Agosto transcreveu na primeira página uma entrevista que Marconi concedera ao "Século" de Lisboa, no dia 23 sob a epígrafe: "As grandes celebridades. Marconi na Madeira".
Sabemos que o mesmo estivera no Porto Santo e que no Pico do Castelo teria feito algumas experiências, mas mais uma vez a nossa imprensa ignorou o feito, empenhada que estava na difícil conjuntura política e económica em que a ilha estava submersa. A inexistência de uma biografia completa e do seu livro de memórias, o esquecimento da imprensa e o desinteresse dos testemunhos presenciais, impedem-nos de conhecer e divulgar com pormenor a sua breve estadia na Madeira: apenas o testemunho documental é legítimo enunciar.

A COMPANHIA DE MARCONI NA ILHA

A ligação de Marconi à ilha ficou apenas testemunhada, até à sua morte em 1937, por esta efémera passagem em 1924. Mas a concretização em 1926 de uma estação de TSF no Caniçal, trouxe de novo a este rincão o seu nome, através dos inventos e de uma delegação da empresa criada em Setembro de 1922 para prover o território nacional de uma rede de TSF. Esta presença foi evidente a partir de 15 de Dezembro de 1926, data memorável para os anais da firma, que marcam o início de actividade em Portugal e também a afirmação da TSF em detrimento do cabo submarino, que entra na curva descendente. Desde então a concorrência entre os dois meios de comunicação dominará o panorama regional até que a companhia do cabo submarino encerra em 1970 os seus serviços na ilha, ficando a C.P.R.M. com o exclusivo das comunicações por TSF e cabo submarino. A viragem não foi pacífica, manifestando-se através de uma concorrência entre os meios de transmissão de telegramas por TSF e cabo submarino. Uma das primeiras consequências foi a redução das taxas cobradas por palavra na emissão de telegramas. Em 1942 a via Portucale confirma a supremacia do TSF. A derrota do cabo submarino na guerra de comunicação era evidente: o cabo estava velho e sujeito a constantes e custosas reparações, as despesas de manutenção eram elevadas, não podendo o cabo, deste modo, competir com o seu concorrente a TSF. A 16 de Outubro de 1927 a Western Telegraph Co. encerrou o seu Hotel e escola em Santa Clara. O cabo submarino, entretanto precisava de ser substituído em face da idade e dos constantes reparos a que foi sujeito em 1928, 1931, 1933, 1934, 1936. A sua morte foi protelada em 1929 com o estabelecimento de um pacto de colaboração entre as duas companhias. Mas, aos poucos, a companhia do cabo submarino ia perdendo o controlo da exploração no espaço português: em 1943 era estabelecido um acordo telegráfico com o Brasil que dava uma posição privilegiada à Marconi, enquanto em 4 de Abril de 1969 no acordo celebrado entre o governo português e a The Western Telegraph Company e a Cable and Wireless Limited não lhe é concedido qualquer exclusivo. O governo português reservava-se o direito de estabelecer e explorar, directamente ou mediante concessão, outro cabo submarino, ou quaisquer sistemas de telecomunicações. Vingou a última situação com a concessão à Marconi do direito a 11 de Agosto de 1966, de que resultou a inauguração da estação de cabo submarino de Sesimbra,que estabelecia a ligação entre Londres e a África do Sul. Os reflexos das descobertas de Marconi chegaram a Portugal por intermédio da companhia, Marconi Wireless Telegraph Co. Ldt. a quem o governo português concedeu a 22 de Agosto de 1922 a exploração, por um período de quarenta anos, da rede de rádio telegráfica nacional. A 14 de Setembro do mesmo ano foi constituída a empresa em Portugal e a 15 de Dezembro de 1926 eram inaugurados os primeiros serviços de TSF de ligação do continente com a Madeira, Açores e Inglaterra. Entretanto em 1966 foi feita nova concessão por 25 anos, sendo a prestação de serviços alargada ao cabo submarino de que resultou o aparecimento de novo cabo no Funchal em 1970. Note-se que as transmissões da telegrafia sem fios na Madeira não se iniciaram em 1926 com a estação da Marconi do Caniçal, pois no período da primeira guerra mundial os ingleses haviam já criado um serviço na Quinta Santana(espaço do actual hospital do Dr. João Almada), que encerrou as suas actividades em 2 de Abril de 1919. O material ficou na ilha sendo usado na montagem de uma nova estação no 1º andar de um edifício da Rua de João Gago onde estava instalada a Estação Telegráfico-Postal do Funchal. As obras da primeira estação da Marconi ficaram concluídas em 31 de Maio de 1922, iniciando-se as emissões no dia imediato. As primeiras comunicações foram com Las Palmas e depois com o vapor inglês Kenil Worth Castle. Esta estação fora criada por despacho publicado no diário do governo em 26 de Julho. Todavia a pretensão dos madeirenses era a de uma estação telegráfica mais adequada, integrada na rede estabelecida para todo o País, aprovada na Câmara dos Deputados em 21 de Agosto de 1922. Note-se que em 20 de Agosto o jornalista do Diário de Notícias reclamava a montagem de uma estação telegráfica no Funchal, para o necessário apoio à navegação, uma vez que a existente cobria um raio de acção de apenas 400 milhas. Entretanto em 1926 a estação do Funchal estava situada no Pico Rádio, mas com a entrada em funcionamento a 4 de Novembro da estação do Caniçal todo o serviço marítimo passou a ser assegurado por esta. O desenvolvimento dos meios de comunicação por meio de ondas electromagnéticas iniciou-se em 1924, tendo-se alcançado alguns progressos nos anos de 1935-38, que levaram ao início das emissões regulares de televisão em Londres a partir de 25 de Agosto de 1938. Note-se que algumas das experiências que conduziram à afirmação da televisão tiveram lugar na Madeira em 1936 por iniciativa de W. L. Wrigth. Todavia a televisão só chegou aos lares madeirenses em época muito recente, se exceptuarmos a recepção da de Canárias. OS ANOS DA RÁDIO Os anos vinte foram de autêntica euforia das ondas eléctricas. O período de 1920 a 1926 foi de perfeita loucura nos Estados Unidos, que levou o governo a estabelecer em 1926 uma legislação especial para disciplinar o espectro rádio-eléctrico. Esta vaga chegou à Madeira a partir do Verão de 1927, pois foi a partir de então que vimos referenciados os primeiros anúncios para a venda de material de telefonia da Marconi e Sterling. As primeiras recepções de rádio tiveram lugar a partir do ano imediato, enquanto em 1929 se dava os primeiros passos de uma emissão com a onda de 47 metros. Para isso deverá ter contribuído a presença de Alberto Carlos de Oliveira, funcionário da empresa do cabo submarino. Ele havia iniciado em 1914 em Cabo Verde as primeiras comunicações com os navios do alto mar. Em 1920 foi transferido para a delegação da empresa no Funchal e aqui manteve as experiências, tendo ensaiado em 1925 a transmissão com um emissor de lâmpadas em ondas curtas. Foi assim que se gerou na Madeira uma verdadeira aficcion pelo semfilismo que perdura até à actualidade. A partir de 1930 aumenta o interesse pela rádio na ilha, sendo evidente a publicidade nos periódicos às diversas emissões em onda curta que seria possível sintonizar. Em 1935 era instalado numa casa particular do Estreito de Câmara de Lobos um aparelho de Telefonia tendo como objectivo propiciar diversão à população da localidade. Neste momento a recepção de programas de rádio era variada, vindo de Madrid, México, Marrocos, Vaticano, Suiça, Rio de Janeiro e Moscovo. Ao nível local, seguiram-se várias emissões experimentais - rádio emissor CT3 AQ (Rádio Eddystone), CT3