Centro Estudos História Atlântico


O INFANTE E A MADEIRA: Dúvidas e certezas

 

ALBERTO VIEIRA

 

  1. INTRODUÇÃO

    Dos primeiros quarenta anos de ocupação do arquipélago já muito se tem dito e os documentos, do domínio público, estão mais ou menos explorados. Estes últimos são poucos e em quase nada satisfazem a curiosidade do investigador interessado. Sem duvida, aquele que se nos apresenta mais importante, pela informação que contem, suplanta o seu âmbito cronológico. É a extensa resposta do infante D. Fernando às reclamações dos moradores feitas por dois procuradores idos da ilha. As soluções e respostas aos pedidos permitem rastrear a situação vivida no tempo de governo do infante D. Henrique.
    À parte a documentação diplomática, existe um conjunto variado de fontes narrativas que abordam estes primeiros anos de ocupação do arquipélago. Aqui, a principal dificuldade é encontrar uma versão consensual para as diversas dúvidas que nos assaltam. E, lamentavelmente, a historiografia tem-se dedicado mais a descobrir as diferenças do que as suas semelhanças.
    Por tudo isto, a História dos primeiros quarenta anos de ocupação do arquipélago, faz-se mais pelas dúvidas do que pelas certezas. A cada historiador ou erudito, que se debruça sobre a época, corresponde uma nova e, por vezes, original versão.
    Falar da Madeira no tempo do Infante é um doloroso acto de repitação de tudo o que está dito e redito. Por isso, porque não é nossa intenção entrar nesta lista, decidimo-nos por outro caminho, assim a nossa atenção estará centrada nas dúvidas e certezas que se nos assaltam quando nos ocupamos deste tema. São quatro as questões fundamentais para debate:
    -quem descobriu o arquipélago? -Quem comandou o processo de descobrimento e povoamento do arquipélago: o rei ou o infante? -Quando começou de facto o povoamento da Madeira? -Serão algarvios os colonos madeirenses? A nossa intenção é tão só colocar o leitor perante um conjunto variado de informações que lhe possibilitem a sua leitura e resposta a estas pertinentes questões. Mesmo assim é possível retirar deste conjunto de dúvidas e certezas uma opinião unânime sobre o que terão sido os primeiros anos de ocupação e valorização económica das ilhas. Aqui a presença do Infante D. Henrique foi fundamental. A dúvida principal levanta-se quanto ao período de duração da mesma. Acresce, ainda, que o conhecimento aprofundado de tudo o que se passou no arquipélago da Madeira é fundamental para a compreensão do fenómeno daí decorrente. A Madeira, para além de ter sido a primeira terra portuguesa do Novo Mundo Atlântico, foi, por isso mesmo, modelo para todas as iniciativas levadas a cabo em novas áreas de ocupação.

  2. O INFANTE NA HISTORIOGRAFIA MADEIRENSE A grande aposta na figura do Infante como obreiro do descobrimento da Madeira teve lugar com as comemorações do V Centenário do descobrimento da Madeira (1922-239) e do V Centenário da morte do Infante D. Henrique (1960). Estes foram na verdade, momentos de grande importância para a divulgação da história do arquipélago e da sua vinculação à figura do Infante D. Henrique. As primeiras manifestações ocorreram entre 29 de Dezembro de 1922 e 4 de Janeiro de 1924, sendo o momento mais solene o cortejo alegórico que percorreu as ruas do Funchal no dia de encerramento dos festejos (4 de janeiro de 1923). Nesta manifestação a figura do Infante dominou todas as representações. Neste particular a figura de João Gonçalves Zarco ficou descurada, sendo alvo de atenção no dia 29 de Dezembro no Convento de Santa Clara1. Daqui resultou a ideia de rememorar os dois heróis do descobrimento da Madeira através de um monumento. No caso do monumento a João Gonçalves Zarco a primeira pedra foi lançada a 29 de Dezembro de 1922, sendo inaugurado a 28 de Maio de 1934. E o Infante D. Henrique teve direito a um largo e monumento apenas em 28 de Maio de 1947.
    Em termos historiográficos o mais importante legado está no Elucidário Madeirense da responsabilidade do Pe Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Menezes, sob os auspícios da Junta Geral em 1921. A brochura comemorativa do evento, editada em Dezembro de 1922, é circunstâncial neste campo, embora tivesse sido coordenado pelo Pe. Fernando Augusto da Silva. O mais significativo deste acontecimento foi a sua repercussão nos anos sucedâneos.
    A discussão que antecedeu e se prolongou pela efeméride teve efeito positivo nos eruditos locais. Deste modo podemos considerar a década de cinquenta, que antecedeu a evocação do V Centenário da morte do Infante D. Henrique, como o momento mais prolixo da produção historiográfica.
    São desta época os mais significativos trabalhos do Pe Manuel Juvenal Pita Ferreira, donde merece a nossa atenção o último, publicado em 1959, com o título significativo de O Arquipélago de Madeira Terra do Senhor Infante de 1420 a 1460, editado pela Junta Geral do Funchal para evocar a morte do referido Infante. O título não denota o conteúdo usual da hiperbolização da figura do Infante D. Henrique. É de louvar a forma isenta e clara como o autor procura analisar a acção do Infante no que concerne à Madeira, quando a ambiência fazia pensar algo diferente.
    Homem do situacionismo será sem dúvida Eduardo Pereira com quem este manterá acesa polémica3. A conferência proferida nos Paços do Conselho a 4 de Março de 1960 é disso exemplo4. Esta deu o mote para as comemorações do quinto centenário da morte do Infante D. Henrique, que se prolongou até 13 de Novembro. Neste conjunto de manifestações é evidente a iniciativa de José Pereira da Costa, então Director do Arquivo Distrital do Funchal, que organizou uma exposição no Museu da Quinta das Cruzes e dedicou um volume do boletim do Arquivo Histórico da Madeira (o décimo segundo) às referidas manifestações.
  3.  
  4.  
  5. DÚVIDAS E CERTEZAS

Última alteração : 95/10/03