Cap 6. A vida quotidiana

6.1.A alimentação

Neste estudo sobre a vida conventual deparamo-nos com duas refeições principais: o jantar e a ceia. O jantar era a refeição importante do dia. As Constituições e Estatutos estabeleciam que ao jantar cabia 3/4 de arrátel e à ceia 1/2 arrátel, tanto em dias de carne como de peixe. No ano de 1684 cada religiosa que não jantasse da comunidade recebia anualmente 4$160 reis e pela ceia a metade - 2$080, quantitativo que se mantinha em 1756. Temos notícia que em 1669 o pagamento ás religiosas "das ceaz e dias que não comeram da caza", fez-se semanalmente. No ano de 1683 as ceias ficaram em dívida, quiçá problemas financeiros, pensamos nós. Também no triénio 1687-1690 a comunidade ficou devendo 40$000 reis ás religiosas, de suas ceias. Sabemos que em 1708 uma ceia custava 5 reis.Quanto á refeição ligeira, ou colação, encontramos algumas referências talvez aquelas que, atendendo á sua calendarização eram melhoradas com pão-de-ló, queijo ou fruta. Desconhecemos os horários das diferentes refeições.

A base da alimentação era o pão. Não temos dúvidas em afirmar que a maior fatia dos gastos da alimentação da comunidade recaia no trigo, senão vejamos:

Quadro nº LVI

Ano
Comedorias anuais á comunidade
Trigo
Vaca
Fonte
1741388$050 132$030 ARM, L22
1747426$757 158$150 ARM, L22
1748423$750 184$600 ARM, L22
1749456$600 179$500 ARM, L23
1750505$550 202$140 ARM, L23
1751503$100 270$824 ARM, L23
1752499$200 226$860 ARM, L22
1753557$850 212$850 ARM, L22
1754457$612 221$630 ARM, L22
1755580$650 212$729 ARM, L16
1762477$375 156$400 ARM, L23

As Constituições e Estatutos determinavam que cada religiosa recebia semanalmente meio alqueire de trigo. Amassava-se no convento e nos livros de receita e despesa aparece, por vezes, a indicação de quantitativos gastos na compra de alguidares de amassar o pão, que deviam ser feitos de troncos de árvores, tal como ainda hoje conhecemos alguns, já que se distiguiam dos alguidares vidrados (quadro LXXXVIII). Estamos em crer que a comunidade religiosa amassava duas vezes por semana, ás quartas e sábados. No triénio 1708-1710 discriminava-se o trigo gasto por amassadura desde sábado até quarta-feira, e deste até sábado. Ainda nos meados do século XIX a distribuição do pão pela comunidade era bissemanal, quartas e sábados .

Mas as quantidades variavam pois enquanto a cada religiosa e serva cabia meio alqueire de trigo, o padre confessor e o arrieiro recebiam um alqueire e o trabalhador três quartos:

Quadro nº LVII .Comedoria de trigo

Ano

Beneficiado

Comedoria semanal de trigo / alqueires

Fonte
1676Religiosa
0.5
ANTT, L9
1676Confessor
1
ANTT, L9
1676Serva
*0.5
ANTT, L9
1676Arrieiro
*1
ANTT, L9
1676"preto" João
* 0.75
ANTT, L9
1708Almocreve
1
ARM, L18
1708"mulato"
0.75
ARM, L18

* Mistura de trigo e centeio

Os gastos mensais de trigo pela comunidade dependiam do número de sorores, das festas religiosas e dos trabalhadores da cerca. Também as oscilações anuais do consumo de pão variavam na mesma proporção do número de membros da comunidade:

Quadro nº LVIII

Ano
Trigo gasto anualmente com os bolos, pasteis , cuscuz, argolinhas, empadas
Fonte
Moios
Alqueires
1676
32
53
ANTT, L9
1734
64
59
ARM, L22
1761
50
58
ARM, L23

A ração de carne constituía, na cozinha da comunidade, o conduto mais importante tanto no preço como pelo número de vezes que era servido semanalmente, sendo quebrado semanalmente pelas imposições religiosas, que restringiam o seu consumo. Comia-se carne de vaca, a carne de galinha assinalava as épocas festivas:Entrudo da Páscoa, Páscoa, festa de Santa Clara, entrada do Advento e Natal, então cada membro recebia meia galinha. Também comiam galinha em caso de doença. A carne de carneiro encontramo-la no picado do dia de Ano Bom. A carne de porco enriquecia a mesa dos servos no Natal. As religiosas não comiam carne de porco, pelo menos não encontramos indicações. A carne de porco seria então considerada de pior qualidade? O perú apareceu-nos uma vez , um mimo que a comunidade fez ao médico. Pensamos que a carne, quando permitida, era consumida quatro dias por semana, melhor dizendo, quando não havia dias de jejum, pois então a quantidade comprada pelo convento diminuia.

O peixe estava á mesa conventual geralmente ás quartas, sextas e sábados e nos dias prescritos pela religião. Consumia-se fresco, alanhado, salgado e fumado. Era longa a gama de peixes consumidos pelas religiosas (quadro XLIV) embora muitas vezes deparemo-nos com a designação de peixe sem expecificar a espécie. A comunidade comia muito bacalhau, atum (fresco e salgado), sardinhas (frescas, salgadas e fumadas), arenques, pargo (fresco e salgado), chicharros. A cherne era muito utilizada nas empadas. O peixe frito era envolvido em farinha. No mês de Março de 1731 foram gastos seis alqueires de trigo nas empadas, peixe frito e molhos. Por vezes o peixe, na sua falta, era substituido por queijo. Já nos anos cinquenta do século XVII, o cónego Calaça queixava-se da falta de peixe na ilha, razão suficiente para o mosteiro não seguir a regra das Carmelitas Descalças.

Nas Constituições e Estatutos do convento, quando no capítulo 39 se indicavam as quantidades de carne e peixe, incluiam-se os ovos porque enquanto nos dias de carne comiam carne ao jantar e á noite, nos dias de peixe este á noite podia ser substituido por dois ovos "ou cousa que se compensem". Assim no século XVII, quando os registos das despesas eram semanais, indicava-se o quantitativo gasto nos ovos e lia-se "ovos da semana". Por vezes os ovos substituiam o peixe aquando a falta deste ou então eram mais procurados nas semanas que tinham dias de jejum "ovos nesta semana por aver jejum" . Nos meados de setecentos, nos registos então já semanalmente, encontramos ovos, ração de dois dias á comunidade ou ração de um dia. Poder-se-á falar de alteração de hábitos no consumo dos ovos no decorrer do século XVIII? Ao longo da primeira centúria de existência do convento algo foi comum no tocante aos ovos: o aumento do seu consumo nas épocas festivas pois então os ovos eram indispensáveis nas sortidas espécies de doçaria. Apesar de termos muitas indicações de dinheiro gasto na aquisição de ovos, não descobrimos quem abastecia o convento. O preço de uma unidade só foi possível em 1732 porque o aprovador das contas exigiu a informação das quantidades. Assim ficamos a saber que 280 ovos custaram1$400 reis, concluimos, pois, que um ovo custava 5 reis. Sabemos que o consumo dos ovos aumentava nas épocas de ementa melhorada, embora nada saibamos sobre os cuidados de conservação.

O arroz foi, depois do trigo, um cereal básico na alimentação da comunidade. Não temos dúvidas em afirmar que na Madeira, nos meados de setecentos, se consumia milho, presente na mesa dos menos favorecidos economicamente. A única vez, no período estudado, que a comunidade comprou milho destinou-se ao "comer" dos "homens da cerca" . O centeio gastava-se no convento em bolos ou na mistura com trigo para distribuir pelas servas, almocreve e servos. A cevada utilizava-se na alimentação das bestas, ou na venda ou ainda na troca por trigo.

O capítulo 39 das Constituições e Estatutos recomendavam que nos dias festivos se desse uma porção de arroz ou cuscuz "como o tempo o dittar" . Em Novembro de 1687, no dia da morte da madre Cecília, a comunidade comeu 12 libras de arroz e 21 arráteis do mesmo cereal no dia do enterro da madre Ana de Santa Quitéria, que ocorreu em Outubro de 1762. Estamos em crer que a comunidade, no dia a dia, consumia arroz; este nas épocas festivas era substituído pelo cuscuz.

De facto, o capítulo 39 das Constituições e Estatutos do Convento da Encarnação do Funchal é de suma importância quando nos queremos imiscuir na vida do cenóbio, em especial na sua alimentação. Neste capítulo referem-se "granos ervas e legumes". Grãos seriam os grãos brancos, e os grãos pardos? e os legumes? E as ervas? Na inventariação que efectuamos (quadro LIX) verificamos que desde os seus primórdios se consumiu agrião, couve nabo e abóbora que constituiam a base da sopa do segundo decénio da última metade do século XVIII. As compras de agrião faziam-se principalmente nos meses de Fevereiro a Abril, enquanto, a abóbora era adquirida no último trimestre. De Maio a Setembro poucas aquisições foram feitas, não se comprando qualquer legume no mês de Junho. Não havia esta espécie, então, á venda? Não se fazia a sopa? A sopa seria um prato de Inverno? Constituiam ementa do Advento? Ou, o convento abastecia-se na sua cerca de baixo?As ervilhas, as favas, o feijão e as lentilhas consumiam-se secos, julgámos nós, na medida em que encontramos estes grãos importados.

A cozinha conventual também foi atingida com a mania das especiarias. Como temperar as empadas sem o cravo, a pimenta e a canela? Ou os chouriços sem o almíscar, a canela e a pimenta? E as especiarias para os pasteis? Já pensou o que seria o arroz-doce sem a canela? Ou os bolos de mel sem a pimenta, cravo, canela e erva-doce? Por isso é longa a lista dos condimentos utilizados na cozinha do convento de 1670 a 1768 (quadro LXXXIII). No entanto, é-nos difícil afirmar que a sua aquisição era mais abundante no Natal, Páscoa e festa de Santa Clara porque muitas vezes a comunidade, como previdente que era, abastecia-se com antecedência, daí as nossas dificuldades.

6.2 As épocas festivas e os manjares

Na verdade, a calendário religioso impunha muitos dias de jejum. Sendo estes sacrifícios depois recompensados com as variadas iguarias de determinados dias festivos. O Natal, a Páscoa e a festa da Madre (Santa Clara), eram as "festas principais" e a "igreia dispende mais graças e alegrias com seos filhos conuem que tambem nestes dias a religiaõ a imite dando algu pasto mayor as suas". As Constituições e Estatutos do mosteiro recomendavam que no Natal se desse "a cada hua" um pão grande de leite "se o ouver", um bolo, um "masapaõ", um arrátel de laranjada, outro de cidrada, duas dúzias de argolinhas. Na Páscoa distribuia-se um pão, bolo e queijada, e na festa de Santa Clara um pão e bolo e um pastel com os doces da época . Os pasteis, os quais encontramos ao longo do período estudado, confeccionavam-se á base da carne de vaca - e especiarias. Em Fevereiro e Agosto constituiam "obrigações da casa" e "obrigações de fora", na mesma época ou em datas diferentes. Nos meados do século XVIII os pasteis das madres foram substituidos por dinheiro.

Na inventariação por nós eleborada, verificou-se que as recomendações dos Estatutos foram cumpridas e nalguns casos enriquecidas; no Natal encontramos ou

Quadro nº LIX
AnosJaneiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro
1675 abóboras
1681 nabos
1682 couve
1683 abóboras
1689abóboras
1690 abóboras
1692 agrião agrião abóboras
1693 agrião agrião agrião
1705 abóboras
1706 agrião/abóboras agrião abóboras abóboras
1707 agrião/nabos abóboras
1708 agrião
1710 agrião
1711 agrião agrião abóboras
1723 abóboras
1724 abóboras
1736 agrião/nabos
1741 agrião nabos
1742 abóboras
1743nabos/abóboras agrião
1746agrião agrião nabos
1747 abóboras
1748 agrião abóboras
1749 nabos agrião nabos/agrião nabos/agrião
1750 nabos/agrião abóboras abóboras
1751nabos nabos/agrião agrião abóboras abóboras abóboras/nabos
1752 agrião agrião
1753 agrião agrião abóboras
1754 agrião agrião
1755 agrião agrião abóboras
1756nabos abóboras
1757 agrião
1761 nabos nabos/agriões abóboras/couves
1762 agrião nabos abóboras
1763 agrião agrião agrião
1767

chouriços, a batatada (quadro LXII), e as empadas na Páscoa. A meia galinha a cada religiosa era comum ás três festas. A ementa do Entrudo da Páscoa e do Natal era enriquecida com a galinha. Já a festa de Nossa Senhora da Encarnação era assinalada com os doces, convém lembrara que o mês de Março era época quaresmal. Competia á nobreza a celebração desta festa "com despesa e singular devoçaõ" .

Os doces abundavam nas endoenças, na festa do Espírito Santo, no primeiro de Maio, e ainda na festa de São João. Pelo Pão-por-Deus compravam-se ovos para as obrigações.

A morte era festejada, pelo menos assinalou-se a efeméride da morte do bispo Frei João do Nascimento, na década de sessenta do século XVIII. Assim, no ano de 1761, gastaram-se sete alqueires de trigo para os bolos no dia do dito Ofício. Seis anos depois, com o mesmo objectivo, no mês de Novembro a comunidade adquiriu especiarias para o picado dado ás religiosas. Em 1769 os clérigos receberam dez libras de "xeculhate" que custaram 3$000 reis, no dia do funeral da madre Joana Baptista.

Nas festas de Março e Agosto de 1768 os "pretos" tocaram charamela, pelo que a comunidade registou nas despesas do trigo do dito ano um alqueire "para os pretos que tocaram xaramellos"; no mês de Março já havia gasto $100 reis para o queijo do almoço dos musicos e no mês de Agosto pagara-lhes 1$100 reis por tocarem nas festas do mesmo mês

6.3. A doçaria

Quando se fala em doçaria associa-se o açúcar, sem açúcar não há doces. Os bolos de mel confeccionados com mel, quer seja mel de cana ou mel de abelhas levam açúcar, embora em menor proporção. O açúcar era pois um ingrediente indispensável nas receitas da doçaria conventual. Longe vão os tempos do uso do açúcar estritamente na medicina. No século XVII, quando a cultura sacarina já havia conquistado o mundo, ainda encontrámos a aquisição de uma arroba de açúcar para a enfermaria este produto apareceu-nos medido em libras, arráteis e arrobas. Encontramos uma referência a um pão-de-açúcar que foi enviado para o Porto Santo, pesou onze arráteis e meio.

O açúcar, graças às suas características conservantes, permitiu o fabrico da marmelada que deveria ser consumida em grandes quantidades pela comunidade já que nas Constituições e Estatutos, capítulo 19 se lê que era lícito a cada religiosa guardar uma arroba de marmelada e uma arroba de "outros doces". O açúcar era indispensável na preparação das talhadas, da batatada, dos coscurões, arroz-doce, bolos e queijadas.

Quadro nº LX .Bolos
Ano
Mês
Ingredientes
Quantidade
Variedades
Festa
Fonte
1671Dezembro açúcar 12 arrobas ARM, L14
1688 trigo12 alqueires São João ARM, L16
1724 açúcar São João ARM, L50
1728 açúcar São João ARM, L20
1733 trigo Natal ARM, L18
1735 trigo15 alqueires São João ARM, L22
1747Junho açúcar 2 arrobas São João ARM, L22
1748Outubro açúcar 3 arrobas São João/Espírito Santo ARM, L22
1754Junho açúcar 4 arrobas São João ARM, L22
1762Junho leite bolos de cevada São João ARM, L23
1762Outubro açúcar 75 arrobas São João ARM, L23
1763Maio açúcar 50 libras Espírito Santo ARM, L23
1767Abril açúcar 24 libras ARM, L24
1767Julho manteiga, erva-doce bolos de cevada ARM, L24
1768 trigo S. João/ ofícios Frei João do Nascimento ARM, L24
1768 Natal ARM, L24
1769 2 arrobas Natal ARM, L24

Quadro nº LXI.Arroz-doce
Ano
Mês
Ingredientes
Quantidade
Festa
Fonte
1691Abril açúcar 52 arrateis Quinta Feira Maior ARM, L15
1733Março açúcar preto ARM, L18
1741Março açúcar 6 arobas Semana Santa ARM, L22
1754Abril açúcar 5.5 arrobas Endoenças ARM, L22
1757Março açúcar 30 arráteis Nossa Senhora da Encarnação ARM, L16
1757Março açúcar 5 arrobas Endoenças ARM, L16
1762Março açúcar 150 arráteis Endoenças ARM, L23
1767Agosto açúcar 12 libras ARM, L24
1768Junho ovos ARM, L24

Quadro nº LXII .Batatada
Ano
Mês
Ingredientes
Quantidade
Festa
Consumidor
Fonte
1670Janeiro almíscar ARM, L14
1682Dezembro batata "Collegio" ARM, L15
1691Março açúcar 12 arrobas "Obrigações" ARM, L15
1705Dezembro ARM, L16
1706Dezembro Dia de Jesus ARM, L16
1707Dezembro ARM, L16
1708Dezembro ARM, L18
1729Dezembro ARM, L20
1732Dezembro açúcar 5 arrobas Religiosas ARM, L18
1733Dezembro ARM, L18
1741Dezembro batata3 sacos Comunidade ARM, L22
1744Novembro açúcar branco 11.5 arrobas NatalReligiosas ARM, L23
1744Novembro batata3 sacos NatalReligiosas ARM, L23
1747 ARM, L22
1750Dezembro Religiosas / "pensões de fora" ARM, L23
1751Dezembro açúcar 8 arrobas Religiosas / "pensões de fora" ARM, L23
1753Novembro Procurador do convento em Lisboa ARM, L22
1754Dezembro açúcar 7 arrobas ARM, L22
1755Dezembro 7 arrobas ARM, L16
1756Novembro açúcar 6 arrobas ARM, L16
1756Dezembro batata ARM, L16
1757Outubro açúcar branco 210 librasNatal Religiosas ARM, L16
1757Dezembro batata2 sacos ARM, L16
1761Novembro açúcar 7 arrobas ARM, L23

Quadro nº LXIII. Talhadas
Ano
Mês
Ingredientes
Quantidade
Festa
Fonte
1742Março açúcar 2.5 arrobas PáscoaARM, L22
1746Março açúcar 13 arrobasNossa Senhora da Encarnação / Endoenças ARM, L22
1750Maio açúcar 4 arrobasQuaresma ARM, L23
1753Março açúcar ARM, L22
1754Março açúcar 4.5 arrobas Nossa Senhora da Encarnação ARM, L22
1755Fevereiro açúcar ARM, L16
1757Março açúcar 240 librasNossa Senhora da Encarnação ARM, L16
1761Fevereiro açúcar Passos ARM, L23
1763Março açúcar 7 arrobas ARM, L23
1768Março açúcar 4 arrobasNossa Senhora da Encarnação ARM, L24

Quadro nºLXIV .Coscurões
Ano
Mês
Ingredientes
Festa
Substituidos por:
Fonte
1670Fevereiro ARM, L14
1671Fevereiro ovos ARM, L14
1672Fevereiro ovos ARM, L14
1683Fevereiro ovos ARM, L15
1688Fevereiro queijo ARM, L16
1689Fevereiro Entrudo queijo ARM, L16
1724Fevereiro ARM, L50
1733Janeiro manteiga ARM, L18
1740Fevereiro açúcar ARM, L22
1746Fevereiro ovos Entrudo ARM, L22

Quadro nº LV .Queijadas
Ano
Mês
Ingredientes
Quantidade
Festa
Consumidor
Fonte
1682Junho leite, ovos 15 canadas "Padres" ARM,L15
1756Junho leite, ovos São João "Obrigações e padres" ARM, L16
1767Junho "Padres" ARM, L24


Os ovos juntavam-se ao açúcar na ordem de importância no fabrico das variadas especialidades. Na designação genérica de bolos podemos incluir os bolos de cevada confeccionados à base de manteiga, açúcar e erva-doce, podendo a manteiga ser substituida por leite, como aconteceu em 1762, pelo São João. Os bolos de mel foram, também, uma guloseima das freiras do Convento da Encarnação. Embora conheçamos hoje receitas de bolos de mel de outros conventos da ilha, infelizmente, não dispomos da receita usual deste convento, que, pensamos nós, em pouco devia diferenciar-se das receitas hoje conhecidas. Não temos dúvidas que havia bolos enriquecidos com água-de-flor, amêndoa e nozes, mas desconhecemos quais. Os bolos encontravam-se na mesa conventual no Natal e São João. Sabemos que no ano de 1678 a comunidade despendeu 15 alqueires de trigo para os gastos do São João e, em 1733, vinte e seis alqueires para o mesmo dia . No ano de 1690, pelo São João, a ementa incluiu bolos de trigo novo. Em 1768, na mesma época, as freiras comeram arroz-doce. Este doce preparava-se no convento em épocas assinaladas, encontramos nas Endoenças e no ano de 1757 no dia de Nossa Senhora da Encarnação e na festa de Santa Clara. O arroz-doce não ganhou raízes na culinária madeirense.

A batatada, (quadro LXII) doce habitual no Natal no século XVII, é referenciada, em 1670, para mimos e "obrigações de fora". Era preparado á base de açúcar e batata podendo levar almíscar. Guardava-se em taças, cubos ou "covilhetes" e podia-se conservar pois foi enviado para Lisboa. Este doce ainda hoje é mencionado na cozinha tradicional madeirense.

Os coscorões (quadro LXIV) eram habituais no Entrudo da Páscoa. Preparavam-se á base de açúcar e ovos, encontramos referências ao seu fabrico de 1670 a 1746. Nos anos de 1683 e 1689 os coscorões foram substituidos por queijo e manteiga. Que razões justificariam esta substituição? Falta de farinha? Falta de açúcar?

As talhadas preparadas à base de açúcar eram características da Páscoa e do dia de Nossa Senhora da Encarnação (quadro LXIV). A sua mais antiga alusão é datada de 1742. Mas a listagem dos doces é mais extensa, sabemos que se preparavam os ovos reais, a perada, as mal-assadas que se comiam com mel e eram servidas aos servos. As monjas comiam sonhos.

6.4. O tabaco

Os primeiros usos do tabaco pela freiras do Convento da Encarnação do Funchal datam de 1705, por alturas do Natal, após o que se tornou uma propina usual ás religiosas nesta época e na festa da madre (quadro LXVI). Por meados de setecentos a propina do pastel e do açúcar foi entregue em dinheiro, mantendo-se a propina do tabaco em género. A quantidade adquirida pela comunidade aumentou na mesma proporção dos seus elementos. O seu preço manteve-se estacionário -1$200 reis / arrátel - , com excepção do triénio 1705 - 1708 cujo preço atingiu valores mais elevados.

Mas o tabaco serviu também para presentear os feitores e arrecadadores do convento, já por meados da mesma centúria. Na década de sessenta encontramos trabalhadores agrícolas que receberam o seu salário em tabaco. Em 1705 um meeiro adquiriu, entre vários produtos, tabaco para pagar com vinho. Podemos pois afirmar que começos do século XVIII todas as religiosas do Convento da Encarnação do Funchal cheiravam (fumavam? mastigavam?) tabaco. Sabemos também que o seu uso se tornou prática usual no seio do povo, no decorrer do mesmo século.
Ano Mês Prço Quantidade Preço Finalidade Fonte
/arrátel/reis /arrátel total
1705Dezembro 1$400 3,54$900 Propina de Natal ARM, L16
1705 Adquirido pelo meeiro ARM, L17
1706Agosto 1$500 34$500 ARM, L16
1706Dezembro 1$600 3,55$600 ARM, L16
1706Dezembro 1$000 11$000 ARM, L16
1706Dezembro 1$500 3,55$250 ARM, L16
1707Dezembro 1$000 22$000 ARM, L16
1707Dezembro 1$000 33$000 ARM, L16
1708Dezembro 4$800 ARM, L18
1709Agosto 4$000 ARM, L18
1710Julho 3$840 Propina ás religiosas ARM, L18
1710Dezembro 3$840 ARM, L18
1711Agosto 5$000 ARM, L18
1724Dezembro 11$200 Dia de Reis ARM, L50
1724Agosto 11$200 ARM, L50
1725Janeiro 8$000 ARM, L50
1728Agosto 4$800 ARM, L20
1729Agosto 7$200 ARM, L20
1729Dezembro 7$200 ARM, L20
1730Setembro 4$800 ARM, L20
1730Dezembro 4$800 ARM, L20
1731Julho 7$200 ARM, L18
1732Agosto 7$200 ARM, L18
1732Dezembro 1$200 67$200 ARM, L18
1733Agosto 1$200 67$200 ARM, L18
1734Agosto 1$200 67$200 ARM, L22
1735Agosto 1$200 67$200 ARM, L22
1735Dezembro 1$200 67$200 ARM, L22
1736Agosto 1$200 67$200 ARM, L22
1740Agosto 1$200 67$200 ARM, L22
1740Dezembro 1$200 67$200 ARM, L22
1741Agosto 1$200 67$200 ARM, L22
1742Janeiro 1$200 67$200 Dia de Reis ARM, L22
1742Julho 1$200 67$200 ARM, L22
1742Dezembro 1$200 67$200 ARM, L22
1743Dezembro 1$200 67$200 Propina de Natal ARM, L23
1744Agosto 1$200 67$200 ARM, L23
1744Dezembro 1$200 67$200 Propina de Natal ARM, L23
1745Junho 1$200 11$200 Mimo ao procurador do Porto-Santo ARM, L23
1745Agost 1$200 67$200 ARM, L23
1745Dezembro 1$200 67$200 Propina de Natal ARM, L23
1746Agosto 1$200 6,257$500 ARM, L22
1746Dezembro 1$200 6,257$500 ARM, L22
1747Agosto 1$200 67$200 ARM, L22
1747Dezembro 1$200 67$200 ARM, L22
1748Janeiro 1$700 11$700 Mimo ao arrecadador da Calheta ARM, L22
1748Agosto 1$200 6,257$500 ARM, L22
1748Agosto 1$200 6,57$800 ARM, L22
1749Agosto 1$200 6,257$500 ARM, L23
1749Dezembro 1$200 6,257$500 ARM, L23
1750Janeiro 1$200 11$200 Mimo ao procurador da Calheta ARM, L23
1750Março 1$200 11$200 Mimo ao procurador ARM, L23
1750Agosto 1$200 6,257$500 ARM, L23
1750Dezembro 1$200 6,57$800 Propina de Natal ARM, L23
1751Agosto 1$200 6,57$800 ARM, L23
1751Dezembro 1$200 6,257$500 ARM, L23
1752Agosto 1$200 7,59$000 ARM, L22
1753Janeiro 1$200 78$400 ARM, L22
1754Agosto 1$200 7,59$000 ARM, L22
1754Dezembro 1$200 7,59$000 Dia de Reis ARM, L22
1755Agosto 1$200 89$600 ARM, L16
1755Dezembro 1$200 89$600 ARM, L16
1756Agosto 1$200 910$800 ARM, L16
1756Agosto 1$200 7,59$000 ARM, L22
1757Janeiro 1$200 89$600 ARM, L16
1757Dezembro 1$200 89$600 ARM, L16
1761Agosto 1$200 0,25$300 Mimo ao procurador do Porto Santo ARM, L23
1761Dexembro 1$200 89$600 Religiosas / dia de Jesus ARM, L23
1762Janeiro 1$200 0,25$300 Mimo ao procurador do Porto-Santo ARM, L23
1763Janeiro 1$200 89$600 Religiosas / dia de Jesus ARM, L23
1763Junho 1$200 0,25$300 Mimo ao procurador do Porto-Santo ARM, L23
1763Agosto 1$200 89$600 Propina ás religiosas ARM, L23
1767Fevereiro 1$200 0,25$300 Dar aos homens da tresfega ARM, L24
1768Fevereiro ARM, L24
1769Janeiro Dar aos homens da poda ARM, L24
1769Outubro Dar aos homens da vindima ARM, L24
1717 -1720 4$000 ARM, L19