Cap 6. A vida quotidiana
6.1.A alimentação
Neste estudo sobre a vida conventual deparamo-nos com duas refeições principais: o jantar e a ceia. O jantar era a refeição importante do dia. As Constituições e Estatutos estabeleciam que ao jantar cabia 3/4 de arrátel e à ceia 1/2 arrátel, tanto em dias de carne como de peixe. No ano de 1684 cada religiosa que não jantasse da comunidade recebia anualmente 4$160 reis e pela ceia a metade - 2$080, quantitativo que se mantinha em 1756. Temos notícia que em 1669 o pagamento ás religiosas "das ceaz e dias que não comeram da caza", fez-se semanalmente. No ano de 1683 as ceias ficaram em dívida, quiçá problemas financeiros, pensamos nós. Também no triénio 1687-1690 a comunidade ficou devendo 40$000 reis ás religiosas, de suas ceias. Sabemos que em 1708 uma ceia custava 5 reis.Quanto á refeição ligeira, ou colação, encontramos algumas referências talvez aquelas que, atendendo á sua calendarização eram melhoradas com pão-de-ló, queijo ou fruta. Desconhecemos os horários das diferentes refeições.
A base da alimentação era o pão.
Não temos dúvidas em afirmar que a maior fatia dos
gastos da alimentação da comunidade recaia no trigo,
senão vejamos:
Quadro nº LVI
| 1741 | 388$050 | 132$030 | ARM, L22 |
| 1747 | 426$757 | 158$150 | ARM, L22 |
| 1748 | 423$750 | 184$600 | ARM, L22 |
| 1749 | 456$600 | 179$500 | ARM, L23 |
| 1750 | 505$550 | 202$140 | ARM, L23 |
| 1751 | 503$100 | 270$824 | ARM, L23 |
| 1752 | 499$200 | 226$860 | ARM, L22 |
| 1753 | 557$850 | 212$850 | ARM, L22 |
| 1754 | 457$612 | 221$630 | ARM, L22 |
| 1755 | 580$650 | 212$729 | ARM, L16 |
| 1762 | 477$375 | 156$400 | ARM, L23 |
As Constituições e Estatutos determinavam que cada religiosa recebia semanalmente meio alqueire de trigo. Amassava-se no convento e nos livros de receita e despesa aparece, por vezes, a indicação de quantitativos gastos na compra de alguidares de amassar o pão, que deviam ser feitos de troncos de árvores, tal como ainda hoje conhecemos alguns, já que se distiguiam dos alguidares vidrados (quadro LXXXVIII). Estamos em crer que a comunidade religiosa amassava duas vezes por semana, ás quartas e sábados. No triénio 1708-1710 discriminava-se o trigo gasto por amassadura desde sábado até quarta-feira, e deste até sábado. Ainda nos meados do século XIX a distribuição do pão pela comunidade era bissemanal, quartas e sábados .
Mas as quantidades variavam pois enquanto a cada
religiosa e serva cabia meio alqueire de trigo, o padre confessor
e o arrieiro recebiam um alqueire e o trabalhador três quartos:
| 1676 | Religiosa | ANTT, L9 | |
| 1676 | Confessor | ANTT, L9 | |
| 1676 | Serva | ANTT, L9 | |
| 1676 | Arrieiro | ANTT, L9 | |
| 1676 | "preto" João | ANTT, L9 | |
| 1708 | Almocreve | ARM, L18 | |
| 1708 | "mulato" | ARM, L18 |
* Mistura de trigo
e centeio
Os gastos mensais de trigo pela comunidade dependiam
do número de sorores, das festas religiosas e dos trabalhadores
da cerca. Também as oscilações anuais do
consumo de pão variavam na mesma proporção
do número de membros da comunidade:
Quadro nº LVIII
| 1676 | ANTT, L9 | ||
| 1734 | ARM, L22 | ||
| 1761 | ARM, L23 |
A ração de carne constituía, na cozinha da comunidade, o conduto mais importante tanto no preço como pelo número de vezes que era servido semanalmente, sendo quebrado semanalmente pelas imposições religiosas, que restringiam o seu consumo. Comia-se carne de vaca, a carne de galinha assinalava as épocas festivas:Entrudo da Páscoa, Páscoa, festa de Santa Clara, entrada do Advento e Natal, então cada membro recebia meia galinha. Também comiam galinha em caso de doença. A carne de carneiro encontramo-la no picado do dia de Ano Bom. A carne de porco enriquecia a mesa dos servos no Natal. As religiosas não comiam carne de porco, pelo menos não encontramos indicações. A carne de porco seria então considerada de pior qualidade? O perú apareceu-nos uma vez , um mimo que a comunidade fez ao médico. Pensamos que a carne, quando permitida, era consumida quatro dias por semana, melhor dizendo, quando não havia dias de jejum, pois então a quantidade comprada pelo convento diminuia.
O peixe estava á mesa conventual geralmente ás quartas, sextas e sábados e nos dias prescritos pela religião. Consumia-se fresco, alanhado, salgado e fumado. Era longa a gama de peixes consumidos pelas religiosas (quadro XLIV) embora muitas vezes deparemo-nos com a designação de peixe sem expecificar a espécie. A comunidade comia muito bacalhau, atum (fresco e salgado), sardinhas (frescas, salgadas e fumadas), arenques, pargo (fresco e salgado), chicharros. A cherne era muito utilizada nas empadas. O peixe frito era envolvido em farinha. No mês de Março de 1731 foram gastos seis alqueires de trigo nas empadas, peixe frito e molhos. Por vezes o peixe, na sua falta, era substituido por queijo. Já nos anos cinquenta do século XVII, o cónego Calaça queixava-se da falta de peixe na ilha, razão suficiente para o mosteiro não seguir a regra das Carmelitas Descalças.
Nas Constituições e Estatutos do convento, quando no capítulo 39 se indicavam as quantidades de carne e peixe, incluiam-se os ovos porque enquanto nos dias de carne comiam carne ao jantar e á noite, nos dias de peixe este á noite podia ser substituido por dois ovos "ou cousa que se compensem". Assim no século XVII, quando os registos das despesas eram semanais, indicava-se o quantitativo gasto nos ovos e lia-se "ovos da semana". Por vezes os ovos substituiam o peixe aquando a falta deste ou então eram mais procurados nas semanas que tinham dias de jejum "ovos nesta semana por aver jejum" . Nos meados de setecentos, nos registos então já semanalmente, encontramos ovos, ração de dois dias á comunidade ou ração de um dia. Poder-se-á falar de alteração de hábitos no consumo dos ovos no decorrer do século XVIII? Ao longo da primeira centúria de existência do convento algo foi comum no tocante aos ovos: o aumento do seu consumo nas épocas festivas pois então os ovos eram indispensáveis nas sortidas espécies de doçaria. Apesar de termos muitas indicações de dinheiro gasto na aquisição de ovos, não descobrimos quem abastecia o convento. O preço de uma unidade só foi possível em 1732 porque o aprovador das contas exigiu a informação das quantidades. Assim ficamos a saber que 280 ovos custaram1$400 reis, concluimos, pois, que um ovo custava 5 reis. Sabemos que o consumo dos ovos aumentava nas épocas de ementa melhorada, embora nada saibamos sobre os cuidados de conservação.
O arroz foi, depois do trigo, um cereal básico na alimentação da comunidade. Não temos dúvidas em afirmar que na Madeira, nos meados de setecentos, se consumia milho, presente na mesa dos menos favorecidos economicamente. A única vez, no período estudado, que a comunidade comprou milho destinou-se ao "comer" dos "homens da cerca" . O centeio gastava-se no convento em bolos ou na mistura com trigo para distribuir pelas servas, almocreve e servos. A cevada utilizava-se na alimentação das bestas, ou na venda ou ainda na troca por trigo.
O capítulo 39 das Constituições e Estatutos recomendavam que nos dias festivos se desse uma porção de arroz ou cuscuz "como o tempo o dittar" . Em Novembro de 1687, no dia da morte da madre Cecília, a comunidade comeu 12 libras de arroz e 21 arráteis do mesmo cereal no dia do enterro da madre Ana de Santa Quitéria, que ocorreu em Outubro de 1762. Estamos em crer que a comunidade, no dia a dia, consumia arroz; este nas épocas festivas era substituído pelo cuscuz.
De facto, o capítulo 39 das Constituições e Estatutos do Convento da Encarnação do Funchal é de suma importância quando nos queremos imiscuir na vida do cenóbio, em especial na sua alimentação. Neste capítulo referem-se "granos ervas e legumes". Grãos seriam os grãos brancos, e os grãos pardos? e os legumes? E as ervas? Na inventariação que efectuamos (quadro LIX) verificamos que desde os seus primórdios se consumiu agrião, couve nabo e abóbora que constituiam a base da sopa do segundo decénio da última metade do século XVIII. As compras de agrião faziam-se principalmente nos meses de Fevereiro a Abril, enquanto, a abóbora era adquirida no último trimestre. De Maio a Setembro poucas aquisições foram feitas, não se comprando qualquer legume no mês de Junho. Não havia esta espécie, então, á venda? Não se fazia a sopa? A sopa seria um prato de Inverno? Constituiam ementa do Advento? Ou, o convento abastecia-se na sua cerca de baixo?As ervilhas, as favas, o feijão e as lentilhas consumiam-se secos, julgámos nós, na medida em que encontramos estes grãos importados.
A cozinha conventual também foi atingida
com a mania das especiarias. Como temperar as empadas sem o cravo,
a pimenta e a canela? Ou os chouriços sem o almíscar,
a canela e a pimenta? E as especiarias para os pasteis? Já
pensou o que seria o arroz-doce sem a canela? Ou os bolos de mel
sem a pimenta, cravo, canela e erva-doce? Por isso é longa
a lista dos condimentos utilizados na cozinha do convento de 1670
a 1768 (quadro LXXXIII). No entanto, é-nos difícil
afirmar que a sua aquisição era mais abundante no
Natal, Páscoa e festa de Santa Clara porque muitas vezes
a comunidade, como previdente que era, abastecia-se com antecedência,
daí as nossas dificuldades.
6.2 As
épocas festivas e os manjares
Na verdade, a calendário religioso impunha muitos dias de jejum. Sendo estes sacrifícios depois recompensados com as variadas iguarias de determinados dias festivos. O Natal, a Páscoa e a festa da Madre (Santa Clara), eram as "festas principais" e a "igreia dispende mais graças e alegrias com seos filhos conuem que tambem nestes dias a religiaõ a imite dando algu pasto mayor as suas". As Constituições e Estatutos do mosteiro recomendavam que no Natal se desse "a cada hua" um pão grande de leite "se o ouver", um bolo, um "masapaõ", um arrátel de laranjada, outro de cidrada, duas dúzias de argolinhas. Na Páscoa distribuia-se um pão, bolo e queijada, e na festa de Santa Clara um pão e bolo e um pastel com os doces da época . Os pasteis, os quais encontramos ao longo do período estudado, confeccionavam-se á base da carne de vaca - e especiarias. Em Fevereiro e Agosto constituiam "obrigações da casa" e "obrigações de fora", na mesma época ou em datas diferentes. Nos meados do século XVIII os pasteis das madres foram substituidos por dinheiro.
Na inventariação por nós eleborada,
verificou-se que as recomendações dos Estatutos
foram cumpridas e nalguns casos enriquecidas; no Natal encontramos
ou
Quadro nº LIX
| Anos | Janeiro | Fevereiro | Março | Abril | Maio | Junho | Julho | Agosto | Setembro | Outubro | Novembro | Dezembro |
| 1675 | abóboras | |||||||||||
| 1681 | nabos | |||||||||||
| 1682 | couve | |||||||||||
| 1683 | abóboras | |||||||||||
| 1689 | abóboras | |||||||||||
| 1690 | abóboras | |||||||||||
| 1692 | agrião | agrião | abóboras | |||||||||
| 1693 | agrião | agrião | agrião | |||||||||
| 1705 | abóboras | |||||||||||
| 1706 | agrião/abóboras | agrião | abóboras | abóboras | ||||||||
| 1707 | agrião/nabos | abóboras | ||||||||||
| 1708 | agrião | |||||||||||
| 1710 | agrião | |||||||||||
| 1711 | agrião | agrião | abóboras | |||||||||
| 1723 | abóboras | |||||||||||
| 1724 | abóboras | |||||||||||
| 1736 | agrião/nabos | |||||||||||
| 1741 | agrião | nabos | ||||||||||
| 1742 | abóboras | |||||||||||
| 1743 | nabos/abóboras | agrião | ||||||||||
| 1746 | agrião | agrião | nabos | |||||||||
| 1747 | abóboras | |||||||||||
| 1748 | agrião | abóboras | ||||||||||
| 1749 | nabos | agrião | nabos/agrião | nabos/agrião | ||||||||
| 1750 | nabos/agrião | abóboras | abóboras | |||||||||
| 1751 | nabos | nabos/agrião | agrião | abóboras | abóboras | abóboras/nabos | ||||||
| 1752 | agrião | agrião | ||||||||||
| 1753 | agrião | agrião | abóboras | |||||||||
| 1754 | agrião | agrião | ||||||||||
| 1755 | agrião | agrião | abóboras | |||||||||
| 1756 | nabos | abóboras | ||||||||||
| 1757 | agrião | |||||||||||
| 1761 | nabos | nabos/agriões | abóboras/couves | |||||||||
| 1762 | agrião | nabos | abóboras | |||||||||
| 1763 | agrião | agrião | agrião | |||||||||
| 1767 |
chouriços, a batatada (quadro LXII), e as empadas na Páscoa. A meia galinha a cada religiosa era comum ás três festas. A ementa do Entrudo da Páscoa e do Natal era enriquecida com a galinha. Já a festa de Nossa Senhora da Encarnação era assinalada com os doces, convém lembrara que o mês de Março era época quaresmal. Competia á nobreza a celebração desta festa "com despesa e singular devoçaõ" .
Os doces abundavam nas endoenças, na festa do Espírito Santo, no primeiro de Maio, e ainda na festa de São João. Pelo Pão-por-Deus compravam-se ovos para as obrigações.
A morte era festejada, pelo menos assinalou-se a efeméride da morte do bispo Frei João do Nascimento, na década de sessenta do século XVIII. Assim, no ano de 1761, gastaram-se sete alqueires de trigo para os bolos no dia do dito Ofício. Seis anos depois, com o mesmo objectivo, no mês de Novembro a comunidade adquiriu especiarias para o picado dado ás religiosas. Em 1769 os clérigos receberam dez libras de "xeculhate" que custaram 3$000 reis, no dia do funeral da madre Joana Baptista.
Nas festas de Março e Agosto de 1768 os "pretos"
tocaram charamela, pelo que a comunidade registou nas despesas
do trigo do dito ano um alqueire "para os pretos que tocaram
xaramellos"; no mês de Março já havia
gasto $100 reis para o queijo do almoço dos musicos e no
mês de Agosto pagara-lhes 1$100 reis por tocarem nas festas
do mesmo mês
6.3. A
doçaria
Quando se fala em doçaria associa-se o açúcar, sem açúcar não há doces. Os bolos de mel confeccionados com mel, quer seja mel de cana ou mel de abelhas levam açúcar, embora em menor proporção. O açúcar era pois um ingrediente indispensável nas receitas da doçaria conventual. Longe vão os tempos do uso do açúcar estritamente na medicina. No século XVII, quando a cultura sacarina já havia conquistado o mundo, ainda encontrámos a aquisição de uma arroba de açúcar para a enfermaria este produto apareceu-nos medido em libras, arráteis e arrobas. Encontramos uma referência a um pão-de-açúcar que foi enviado para o Porto Santo, pesou onze arráteis e meio.
O açúcar, graças às suas
características conservantes, permitiu o fabrico da marmelada
que deveria ser consumida em grandes quantidades pela comunidade
já que nas Constituições e Estatutos, capítulo
19 se lê que era lícito a cada religiosa guardar
uma arroba de marmelada e uma arroba de "outros doces".
O açúcar era indispensável na preparação
das talhadas, da batatada, dos coscurões, arroz-doce, bolos
e queijadas.
| 1671 | Dezembro | açúcar | 12 arrobas | ARM, L14 | ||
| 1688 | trigo | 12 alqueires | São João | ARM, L16 | ||
| 1724 | açúcar | São João | ARM, L50 | |||
| 1728 | açúcar | São João | ARM, L20 | |||
| 1733 | trigo | Natal | ARM, L18 | |||
| 1735 | trigo | 15 alqueires | São João | ARM, L22 | ||
| 1747 | Junho | açúcar | 2 arrobas | São João | ARM, L22 | |
| 1748 | Outubro | açúcar | 3 arrobas | São João/Espírito Santo | ARM, L22 | |
| 1754 | Junho | açúcar | 4 arrobas | São João | ARM, L22 | |
| 1762 | Junho | leite | bolos de cevada | São João | ARM, L23 | |
| 1762 | Outubro | açúcar | 75 arrobas | São João | ARM, L23 | |
| 1763 | Maio | açúcar | 50 libras | Espírito Santo | ARM, L23 | |
| 1767 | Abril | açúcar | 24 libras | ARM, L24 | ||
| 1767 | Julho | manteiga, erva-doce | bolos de cevada | ARM, L24 | ||
| 1768 | trigo | S. João/ ofícios Frei João do Nascimento | ARM, L24 | |||
| 1768 | Natal | ARM, L24 | ||||
| 1769 | 2 arrobas | Natal | ARM, L24 |
| 1691 | Abril | açúcar | 52 arrateis | Quinta Feira Maior | ARM, L15 |
| 1733 | Março | açúcar preto | ARM, L18 | ||
| 1741 | Março | açúcar | 6 arobas | Semana Santa | ARM, L22 |
| 1754 | Abril | açúcar | 5.5 arrobas | Endoenças | ARM, L22 |
| 1757 | Março | açúcar | 30 arráteis | Nossa Senhora da Encarnação | ARM, L16 |
| 1757 | Março | açúcar | 5 arrobas | Endoenças | ARM, L16 |
| 1762 | Março | açúcar | 150 arráteis | Endoenças | ARM, L23 |
| 1767 | Agosto | açúcar | 12 libras | ARM, L24 | |
| 1768 | Junho | ovos | ARM, L24 |
| 1670 | Janeiro | almíscar | ARM, L14 | |||
| 1682 | Dezembro | batata | "Collegio" | ARM, L15 | ||
| 1691 | Março | açúcar | 12 arrobas | "Obrigações" | ARM, L15 | |
| 1705 | Dezembro | ARM, L16 | ||||
| 1706 | Dezembro | Dia de Jesus | ARM, L16 | |||
| 1707 | Dezembro | ARM, L16 | ||||
| 1708 | Dezembro | ARM, L18 | ||||
| 1729 | Dezembro | ARM, L20 | ||||
| 1732 | Dezembro | açúcar | 5 arrobas | Religiosas | ARM, L18 | |
| 1733 | Dezembro | ARM, L18 | ||||
| 1741 | Dezembro | batata | 3 sacos | Comunidade | ARM, L22 | |
| 1744 | Novembro | açúcar branco | 11.5 arrobas | Natal | Religiosas | ARM, L23 |
| 1744 | Novembro | batata | 3 sacos | Natal | Religiosas | ARM, L23 |
| 1747 | ARM, L22 | |||||
| 1750 | Dezembro | Religiosas / "pensões de fora" | ARM, L23 | |||
| 1751 | Dezembro | açúcar | 8 arrobas | Religiosas / "pensões de fora" | ARM, L23 | |
| 1753 | Novembro | Procurador do convento em Lisboa | ARM, L22 | |||
| 1754 | Dezembro | açúcar | 7 arrobas | ARM, L22 | ||
| 1755 | Dezembro | 7 arrobas | ARM, L16 | |||
| 1756 | Novembro | açúcar | 6 arrobas | ARM, L16 | ||
| 1756 | Dezembro | batata | ARM, L16 | |||
| 1757 | Outubro | açúcar branco | 210 libras | Natal | Religiosas | ARM, L16 |
| 1757 | Dezembro | batata | 2 sacos | ARM, L16 | ||
| 1761 | Novembro | açúcar | 7 arrobas | ARM, L23 |
| 1742 | Março | açúcar | 2.5 arrobas | Páscoa | ARM, L22 |
| 1746 | Março | açúcar | 13 arrobas | Nossa Senhora da Encarnação / Endoenças | ARM, L22 |
| 1750 | Maio | açúcar | 4 arrobas | Quaresma | ARM, L23 |
| 1753 | Março | açúcar | ARM, L22 | ||
| 1754 | Março | açúcar | 4.5 arrobas | Nossa Senhora da Encarnação | ARM, L22 |
| 1755 | Fevereiro | açúcar | ARM, L16 | ||
| 1757 | Março | açúcar | 240 libras | Nossa Senhora da Encarnação | ARM, L16 |
| 1761 | Fevereiro | açúcar | Passos | ARM, L23 | |
| 1763 | Março | açúcar | 7 arrobas | ARM, L23 | |
| 1768 | Março | açúcar | 4 arrobas | Nossa Senhora da Encarnação | ARM, L24 |
| 1670 | Fevereiro | ARM, L14 | |||
| 1671 | Fevereiro | ovos | ARM, L14 | ||
| 1672 | Fevereiro | ovos | ARM, L14 | ||
| 1683 | Fevereiro | ovos | ARM, L15 | ||
| 1688 | Fevereiro | queijo | ARM, L16 | ||
| 1689 | Fevereiro | Entrudo | queijo | ARM, L16 | |
| 1724 | Fevereiro | ARM, L50 | |||
| 1733 | Janeiro | manteiga | ARM, L18 | ||
| 1740 | Fevereiro | açúcar | ARM, L22 | ||
| 1746 | Fevereiro | ovos | Entrudo | ARM, L22 |
| 1682 | Junho | leite, ovos | 15 canadas | "Padres" | ARM,L15 | |
| 1756 | Junho | leite, ovos | São João | "Obrigações e padres" | ARM, L16 | |
| 1767 | Junho | "Padres" | ARM, L24 |
Os ovos juntavam-se ao açúcar na ordem de importância no fabrico das variadas especialidades. Na designação genérica de bolos podemos incluir os bolos de cevada confeccionados à base de manteiga, açúcar e erva-doce, podendo a manteiga ser substituida por leite, como aconteceu em 1762, pelo São João. Os bolos de mel foram, também, uma guloseima das freiras do Convento da Encarnação. Embora conheçamos hoje receitas de bolos de mel de outros conventos da ilha, infelizmente, não dispomos da receita usual deste convento, que, pensamos nós, em pouco devia diferenciar-se das receitas hoje conhecidas. Não temos dúvidas que havia bolos enriquecidos com água-de-flor, amêndoa e nozes, mas desconhecemos quais. Os bolos encontravam-se na mesa conventual no Natal e São João. Sabemos que no ano de 1678 a comunidade despendeu 15 alqueires de trigo para os gastos do São João e, em 1733, vinte e seis alqueires para o mesmo dia . No ano de 1690, pelo São João, a ementa incluiu bolos de trigo novo. Em 1768, na mesma época, as freiras comeram arroz-doce. Este doce preparava-se no convento em épocas assinaladas, encontramos nas Endoenças e no ano de 1757 no dia de Nossa Senhora da Encarnação e na festa de Santa Clara. O arroz-doce não ganhou raízes na culinária madeirense.
A batatada, (quadro LXII) doce habitual no Natal no século XVII, é referenciada, em 1670, para mimos e "obrigações de fora". Era preparado á base de açúcar e batata podendo levar almíscar. Guardava-se em taças, cubos ou "covilhetes" e podia-se conservar pois foi enviado para Lisboa. Este doce ainda hoje é mencionado na cozinha tradicional madeirense.
Os coscorões (quadro LXIV) eram habituais no Entrudo da Páscoa. Preparavam-se á base de açúcar e ovos, encontramos referências ao seu fabrico de 1670 a 1746. Nos anos de 1683 e 1689 os coscorões foram substituidos por queijo e manteiga. Que razões justificariam esta substituição? Falta de farinha? Falta de açúcar?
As talhadas preparadas à base de açúcar eram características da Páscoa e do dia de Nossa Senhora da Encarnação (quadro LXIV). A sua mais antiga alusão é datada de 1742. Mas a listagem dos doces é mais extensa, sabemos que se preparavam os ovos reais, a perada, as mal-assadas que se comiam com mel e eram servidas aos servos. As monjas comiam sonhos.
6.4. O tabaco
Os primeiros usos do tabaco pela freiras do Convento da Encarnação do Funchal datam de 1705, por alturas do Natal, após o que se tornou uma propina usual ás religiosas nesta época e na festa da madre (quadro LXVI). Por meados de setecentos a propina do pastel e do açúcar foi entregue em dinheiro, mantendo-se a propina do tabaco em género. A quantidade adquirida pela comunidade aumentou na mesma proporção dos seus elementos. O seu preço manteve-se estacionário -1$200 reis / arrátel - , com excepção do triénio 1705 - 1708 cujo preço atingiu valores mais elevados.
Mas o tabaco serviu também para presentear
os feitores e arrecadadores do convento, já por meados
da mesma centúria. Na década de sessenta encontramos
trabalhadores agrícolas que receberam o seu salário
em tabaco. Em 1705 um meeiro adquiriu, entre vários produtos,
tabaco para pagar com vinho. Podemos pois afirmar que começos
do século XVIII todas as religiosas do Convento da Encarnação
do Funchal cheiravam (fumavam? mastigavam?) tabaco. Sabemos também
que o seu uso se tornou prática usual no seio do povo,
no decorrer do mesmo século.
| Ano | Mês | Prço | Quantidade | Preço | Finalidade | Fonte |
| /arrátel/reis | /arrátel | total | ||||
| 1705 | Dezembro | 1$400 | 3,5 | 4$900 | Propina de Natal | ARM, L16 |
| 1705 | Adquirido pelo meeiro | ARM, L17 | ||||
| 1706 | Agosto | 1$500 | 3 | 4$500 | ARM, L16 | |
| 1706 | Dezembro | 1$600 | 3,5 | 5$600 | ARM, L16 | |
| 1706 | Dezembro | 1$000 | 1 | 1$000 | ARM, L16 | |
| 1706 | Dezembro | 1$500 | 3,5 | 5$250 | ARM, L16 | |
| 1707 | Dezembro | 1$000 | 2 | 2$000 | ARM, L16 | |
| 1707 | Dezembro | 1$000 | 3 | 3$000 | ARM, L16 | |
| 1708 | Dezembro | 4$800 | ARM, L18 | |||
| 1709 | Agosto | 4$000 | ARM, L18 | |||
| 1710 | Julho | 3$840 | Propina ás religiosas | ARM, L18 | ||
| 1710 | Dezembro | 3$840 | ARM, L18 | |||
| 1711 | Agosto | 5$000 | ARM, L18 | |||
| 1724 | Dezembro | 11$200 | Dia de Reis | ARM, L50 | ||
| 1724 | Agosto | 11$200 | ARM, L50 | |||
| 1725 | Janeiro | 8$000 | ARM, L50 | |||
| 1728 | Agosto | 4$800 | ARM, L20 | |||
| 1729 | Agosto | 7$200 | ARM, L20 | |||
| 1729 | Dezembro | 7$200 | ARM, L20 | |||
| 1730 | Setembro | 4$800 | ARM, L20 | |||
| 1730 | Dezembro | 4$800 | ARM, L20 | |||
| 1731 | Julho | 7$200 | ARM, L18 | |||
| 1732 | Agosto | 7$200 | ARM, L18 | |||
| 1732 | Dezembro | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L18 | |
| 1733 | Agosto | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L18 | |
| 1734 | Agosto | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1735 | Agosto | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1735 | Dezembro | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1736 | Agosto | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1740 | Agosto | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1740 | Dezembro | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1741 | Agosto | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1742 | Janeiro | 1$200 | 6 | 7$200 | Dia de Reis | ARM, L22 |
| 1742 | Julho | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1742 | Dezembro | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1743 | Dezembro | 1$200 | 6 | 7$200 | Propina de Natal | ARM, L23 |
| 1744 | Agosto | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L23 | |
| 1744 | Dezembro | 1$200 | 6 | 7$200 | Propina de Natal | ARM, L23 |
| 1745 | Junho | 1$200 | 1 | 1$200 | Mimo ao procurador do Porto-Santo | ARM, L23 |
| 1745 | Agost | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L23 | |
| 1745 | Dezembro | 1$200 | 6 | 7$200 | Propina de Natal | ARM, L23 |
| 1746 | Agosto | 1$200 | 6,25 | 7$500 | ARM, L22 | |
| 1746 | Dezembro | 1$200 | 6,25 | 7$500 | ARM, L22 | |
| 1747 | Agosto | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1747 | Dezembro | 1$200 | 6 | 7$200 | ARM, L22 | |
| 1748 | Janeiro | 1$700 | 1 | 1$700 | Mimo ao arrecadador da Calheta | ARM, L22 |
| 1748 | Agosto | 1$200 | 6,25 | 7$500 | ARM, L22 | |
| 1748 | Agosto | 1$200 | 6,5 | 7$800 | ARM, L22 | |
| 1749 | Agosto | 1$200 | 6,25 | 7$500 | ARM, L23 | |
| 1749 | Dezembro | 1$200 | 6,25 | 7$500 | ARM, L23 | |
| 1750 | Janeiro | 1$200 | 1 | 1$200 | Mimo ao procurador da Calheta | ARM, L23 |
| 1750 | Março | 1$200 | 1 | 1$200 | Mimo ao procurador | ARM, L23 |
| 1750 | Agosto | 1$200 | 6,25 | 7$500 | ARM, L23 | |
| 1750 | Dezembro | 1$200 | 6,5 | 7$800 | Propina de Natal | ARM, L23 |
| 1751 | Agosto | 1$200 | 6,5 | 7$800 | ARM, L23 | |
| 1751 | Dezembro | 1$200 | 6,25 | 7$500 | ARM, L23 | |
| 1752 | Agosto | 1$200 | 7,5 | 9$000 | ARM, L22 | |
| 1753 | Janeiro | 1$200 | 7 | 8$400 | ARM, L22 | |
| 1754 | Agosto | 1$200 | 7,5 | 9$000 | ARM, L22 | |
| 1754 | Dezembro | 1$200 | 7,5 | 9$000 | Dia de Reis | ARM, L22 |
| 1755 | Agosto | 1$200 | 8 | 9$600 | ARM, L16 | |
| 1755 | Dezembro | 1$200 | 8 | 9$600 | ARM, L16 | |
| 1756 | Agosto | 1$200 | 9 | 10$800 | ARM, L16 | |
| 1756 | Agosto | 1$200 | 7,5 | 9$000 | ARM, L22 | |
| 1757 | Janeiro | 1$200 | 8 | 9$600 | ARM, L16 | |
| 1757 | Dezembro | 1$200 | 8 | 9$600 | ARM, L16 | |
| 1761 | Agosto | 1$200 | 0,25 | $300 | Mimo ao procurador do Porto Santo | ARM, L23 |
| 1761 | Dexembro | 1$200 | 8 | 9$600 | Religiosas / dia de Jesus | ARM, L23 |
| 1762 | Janeiro | 1$200 | 0,25 | $300 | Mimo ao procurador do Porto-Santo | ARM, L23 |
| 1763 | Janeiro | 1$200 | 8 | 9$600 | Religiosas / dia de Jesus | ARM, L23 |
| 1763 | Junho | 1$200 | 0,25 | $300 | Mimo ao procurador do Porto-Santo | ARM, L23 |
| 1763 | Agosto | 1$200 | 8 | 9$600 | Propina ás religiosas | ARM, L23 |
| 1767 | Fevereiro | 1$200 | 0,25 | $300 | Dar aos homens da tresfega | ARM, L24 |
| 1768 | Fevereiro | ARM, L24 | ||||
| 1769 | Janeiro | Dar aos homens da poda | ARM, L24 | |||
| 1769 | Outubro | Dar aos homens da vindima | ARM, L24 | |||
| 1717 -1720 | 4$000 | ARM, L19 |