Cap 5. Património artístico
5.1 - A
Igreja
A capela de Nossa Senhora da Encarnação, que serviu de igreja do mosteiro, resistiu ás vicissitudes do tempo e ainda hoje marca presença de um passado. A sua construção remonta ao século XVI, sendo anterior á criação do convento. Presume-se que a sua fundação se deve a António Malheiro que morreu em 1565. Isabel Maria Acciaiouli mandou edificar a capela-mor, onde existiu um rico tríptico flamengo quinhentista que hoje enriquece o admirável património do Museu de Arte Sacra do Funchal, depois de ter guarnecido, pelo segundo decénio do nosso século, uma das capelas laterais da Igreja de São Martinho - Funchal, assunto que retomamos à frente.
A partir de 1718 e por um período de aproximadamente vinte anos a capela serviu de matriz à freguesia de Santa Luzia; devia ter sido então que, no dizer do Dr. Piolho, a freguesia de Santa Luzia se chamou Freguesia da Encarnação. A capela da Encarnação que hoje temos está despida das riquezas de outrora. O que ainda resta da capela deve-se à então Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que na década de cinquenta do nosso século procedeu a obras de restauro e recuperou a fachada, consolidou as abóbadas, reconstituiu os remates em cornija segundo os elementos encontrados. O adro foi parcialmente alterado num passado muito recente.
No interior do Convento havia duas ermidas, a mais antiga das quais, de invocação a S. Francisco de Assis, recebeu a autorização a 22 de Abril de 1698, depois de feita a vistoria pelo cónego chanceler do Bispado "fazendose hu muro pella parte de cima qua va intestar, correndo pello tanque na parede do refeitorio e pella parte de baixo outro muro, correndo da cozinha na mesma cerca".
Na inventariação de 1683 refere-se a ermida de invocação a S. João Baptista, para a qual não encontramos outra indicação. Por outro lado temos conhecimento que o Papa Benedicto XIV no ano de 1746 concedeu ao Convento da Encarnação "lugares sagrados com os espirituais Beneficios de Indulgencias" num altar de S. Pedro e S. Paulo para as madres falecidas .
5.2 - A
descrição do cenóbio
Aquando a vistoria ao Recolhimento de Nossa Senhora da Encarnação, em 1660, o então Deão descreveu-o com três dormitórios e celas suficientes para trinta pessoas e as divisões necessárias aos serviços, móveis e alfaias que bastavam a uma comunidade ordenada. Todo o edifício e cerca estavam rodeados por um muro muito alto de pedra e cal e uma única porta de entrada com dois ferrolhos e duas chaves diferentes. Das casas dos dormitórios para a cerca havia as portas necessárias ao uso do Recolhimento. O edifício tinha o refeitório, cozinhas, graneis, despensas e outras "officinas", lojas com portas que davam para a cerca.
Nos dois triénios consecutivos à Fundação do Convento 1660 - 1666 foi levantada a torre que custou 444$415 reis, quantitativo gasto nos muros e na torre "que dos alicerces se edificou". No triénio 1669 - 1672 foram gastos 137$860 reis no aquisição de tabuado, travetas, telhas "pedra para fazer cal", pregos, baldes para a conclusão do dormitório grande e construção do noviciado, bem como do mirante da capela-mor.
| Alvenaria | 22$550 |
| Areia | 4$100 |
| Cal | 123$565 |
| Cantaria | 264$225 |
| Tabuado de til | 29$110 |
| Tabuado de pinho | 55$800 * |
| Travetas de til castanho e folhado | 20$160 |
| Xaprões de vinhático | 6$530 |
| Pregadura da Flandres e da terra | 18$230 |
| Ferraduras | 8$990 |
| Chumbo e grude | 2$650 |
| Telha | 35$700 |
| Azulejos destinados ao refeitório | 35$020 |
| Total dos gastos (incluindo mão-de-obra e matéria prima) | 911$068 |
*(parte
importada da Holanda)
Alguns anos mais tarde, ou seja, em 1734 foram gastou 437$245 reis dos quais 241$475 reis nas obras do muro da cerca, refeitório e corredor, o restante financiou os consertos da casa das servas, dormitórios e tanque.
O imóvel voltou a sofrer obras de vulto no
triénio 1755 - 1757, para as quais o rei contribuiu com
a esmola de 1000$00 reis. Para as mesmas obras duas religiosas
ofereceram 200$00 reis.
| Obras no dormitório | 2421$709 |
| Obras no coro e calçada | 416$070 |
O inventário elaborado em 1862 apresentou a área total de 14458 m2 incluindo a cerca, a casa que servia de residência ao Padre Capelão e seu quintal, Igreja, coro, adro, torre, as casas com os números de polícia 16 a 22, dois telheiros que serviam de residência às servas, dormitórios, capelas e os terreiros. A descrição de Abril de 1863 é pormenorizada: o primeiro dormitório tinha 23 celas e no fim deste dormitório situava-se o celeiro. O dormitório novo albergava 21 celas e no fim havia uma "casa quadrilonga" e ao lado a casa que servia de noviciado. No andar inferior situava-se o refeitório e próximo a casa do capítulo e depois do refeitório havia a casa da Amassaria com "3 alguidares firmes de pedra e cal" junto a cozinha geral do convento. Dispunha ainda do dormitório velho que em 1863 não tinha celas devidi á sua destruição pelas tropas inglesas aquando da sua pernamência no convento na segunda década de oitocentos e servia unicamente de passagem para outras casas. Por baixo deste dormitório ficava a loja da lenha. Havia um outro dormitório com 5 celas, tendo por baixo cozinhas.
Anexo á igreja localizava-se uma casa com dois andares. Na casa da portaria situava-se o dormitório das criadas com lojas no piso inferior. Existiam dois locutórios para as religiosas e da parte de fora destes e por cima do alpendre da portaria havia dois outros para as pessoas de visita "ou tratar algum negocio com as rellegiosas". O coro do andar superior destinava-se aso ofícios divinos "guarnecidos com cadeiras de madeira para as rellegiosas", e um altar ao fundo. Por baixo havia outro coro. No pátio inferior havia uma casa baixa que servia de residência aos servos. Neste pátio existia uma casa pequena sobradada "encostada ao dormitório vellho". E uma outra casa anexa, junto ao portão da residência do capelão. O adro era grande "e seguro por ser defendido pelo sul e oeste por uma grande muralha". A escada à entrada era de cantaria. A entrada era larga e calçada de pedra miúda, gozando "de uma vista deliciosa para toda a cidade"
O pátio inferior da portaria era de cantaria. Fora do alpendre situavam-se dois jardins pequenos cercados de gradeação de ferro "a vista da cidade e porto para o lado Sul e a vista das campinas dos outros lados são arrebatadoras"
Resumindo: o imóvel doado pelo cónego fundador constituiu o corpo central a que se acrescentou a torre, casas, do que resultaram dependências anexas com ligação interna.
Já no tempo do fundador o problema da água foi resolvido com a permuta consentida entre o fundador e Jorge Correia Vasconcelos pelo qual este trocou água potável proveniente de perto de meia légua. Esta água entrava pela cerca junto a dois tanques que recebiam o excesso de líquido e dava para regar a cerca maior. A comunidade cedeu 15 horas de água da Levada de Santa Luzia e um lugar de religiosa no convento para uma descendente da outra parte contratante. As obras do aqueduto foram suportadas pela comunidade.
É nossa opinião que nos primeiros triénios da Fundação o convento passou por várias obras de ampliação respeitando-se a vontade do cónego Henrique Calaça que determinava que 100$00 reis de cada dote revertiam para as obras. Já no século XVIII, excepção feita ao triénio 1755 - 1757, as obras limitaram-se aos trabalhos de manutenção (quadro LXXXII). Pensamos que todos os dotes, ou a sua quase totalidade, revertia para a subsistência da comunidade, à parte algum quantitativo dado a juro.
Registamos a qualidade das madeiras empregues -
castanho, til, vinhático, as madeiras indígenas
da ilha, embora tivesse sido utilizado pinho da Holanda.
5.3. A imaginária
Conhecemos alguns inventários levantados
ao património da instituição objecto do
nosso estudo. De acordo com o inventário dos bens móveis
datado de 1862 e assinado por um delegado da autoridade eclesiástica
e dois funcionários da Repartição de Finanças
existiam então as seguintes imagens:
| 5 crucifixos | madeira | 26$000 |
| 3 imagens das onze mil virgens | 30$000 | |
| 1 imagem de Santa Teresa | 4$000 | |
| 1 imagem de Santo António | 50$000 | |
| 3 imagens da Sagrada Família | 20$000 | |
| 1 imagem de Santa Bárbara | pedra | 8$000 |
| 1 imagem de Santa Clara | madeira | 12$000 |
| 1 imagem de São Francisco | 10$000 | |
| 1 imagem de São Martinho | 5$000 | |
| 1 imagem de São Brás | 5$000 | |
| 1 imagem de Nosso Senhor da Capa | 4$000 | |
| 1 imagem do Senhor dos Passos | 21$000 | |
| 1 imagem da Senhora da Conceição | 3$000 | |
| 1 imagem de São Pedro | 3$000 | |
| 1 imagem do Senhor de Lava-pés | 30$000 | |
| 1 imagem de S. Francisco | 10$000 | |
| 1 imagem da Senhora de Monserrata | 6$000 |
Só por mero acaso sabemos da localização das imagens no interior do mosteiro, bem como de algumas das suas características. Assim, graças a um outro inventário existente no Arquivo Regional da Madeira tomamos conhecimento que a Imagem de Santa Teresa ornamentava o altar colateral da igreja, à direita "antiga mas de boa escultura". O altar da esquerda era de invocação a Santo António "cuja imagem tão bem de boa escultura". Ignoramos hoje o paradeiro destas duas obras de arte.
Desta listagem localizamos o Senhor da Capa actualmente patente na capela da Estrela - Calheta, que no dizer da actual administradora da casa solarenga aonde se insere a capela a imagem foi transportada do Convento para a referida capela aquando as lutas liberais. Desta informação deve subentender-se a extinção do convento. É uma peça do século XVIII e carece de restauro.
No Museu de Arte Sacra do Funchal fomos encontrar a rica Imagem de Santa Isabel da Hungria dada como outrora pertencente ao Convento da Encarnação do Funchal, embora não figure no inventário de 1862.
Prata
Pelo inventário de 1862 sabemos que existiam
então vários objectos de prata que totalizavam 33
peças, apesar de, em 1819, uma faísca eléctrica
que caiu na torre do convento ter destruído as pratas
que encontrou na sacristia
| 2 castiçais de madeira revestidos de prata | 3700 | 43$200 |
| 2 castiçais de madeira revestidos de prata | 3420 | 32$400 |
| 2 castiçais de madeira revestidos de prata | 3470 | 32$400 |
| 1 turíbulo de prata | 1160 | 34$800 |
| 1 turíbulo de prata | 830 | 24$900 |
| 1 noveta | 670 | 20$100 |
| 1 caldeirinha | 810 | 21$870 |
| 1 jarra de prata | 222 | 5$994 |
| 1 purificador e salvinha de prata | 172 | 7$644 |
| 1 bandeja | 516 | 13$932 |
| 2 ceroferários de madeira e prata | 958 | 57$480 |
| 1 lâmpada | 5700 | 153$900 |
| 1 lâmpada | 1800 | 48$600 |
| 1 lâmpada | 1450 | 39$150 |
| 1 lâmpada | 1300 | 35$000 |
| 1 lâmpada | 980 | 26$460 |
| 1 maquineta de madeira e prata | 1000 | 30$000 |
| 1 estante de madeira e prata | 13$500 | |
| 1 cálice de prata dourada | 880 | 26$400 |
| 1 cálice de prata dourada | 730 | 21$900 |
| 1 ambula de prata dourada | 442 | 11$934 |
| 1 ambula | 460 | 12$420 |
| 1 resplendor | 360 | 10$800 |
| 6 resplendor | 130 | 3$900 |
| 1 coroa grande | 550 | 14$850 |
| 3 coroas pequenas | 180 | 4$860 |
| 1 bastão | 200 | 3$400 |
| 2 cruzes de prata | 224 | 4$048 |
| 1 palma de prata | 30 | $810 |
| 2 crucifixos | 32 | $864 |
| 1 coroa pequena | 12 | $324 |
| 1 rosário | 3$240 | |
| 2 chapas das portas dos comungatórios | 654 | 17$658 |
| 1 sandália de prata | 1$000 | |
| 1 caixa de madeira e prata | 5$549 | |
| Total | 33042 | 785$287 |
Quadro nºLIII
| Objectos de Ouro | ||
| 2 pares de botões com cadeia | 2 | $800 |
| 1 chave do sacrário | 45 | 18$000 |
| Total | 47 | 18$800 |
Da origem destes objectos sabemos que já em 1660 o Fundador, no seu testamento, se referiu ao lampadário de prata oferecido por João de Sousa de Almeida. Em Abril de 1732 a Comunidade pagou ao ourives 12$000 reis pelo feitio do sacrário, cujo conserto em 1751 custou $300 reis, e onze anos depois $200 reis . Com a prata deixada pela Madre Maria da Coroa a Comunidade fez o vazo para a Santa Unção, e o seu feitio foi pago com alguns "trastes" que a dita Madre deixou e que importou em 8$000 reis "e nada gastou o Conv.to".
Temos notícia de um inventário feito,
por ordem do Bispo, das peças e alfaias do Convento, mas
desconhecemos o seu conteúdo.Infelizmente
resultaram infrutíferos todos os nossos contactos para
a localização deste espólio outrora pertencente
ao Convento da Encarnação do Funchal.
Pintura
Mencionando as "imagens milagrozas desta
diocesi", Henrique Henriques de Noronha incluiu o quadro
de Nossa Senhora da Encarnação "não
he menos frequente a devoção de Nossa Senhora da
Encarnação antigua, é excelente pintura;
orago(?) do mosteiro das religiosas da mesma cidade, onde nos
sábados concorre muita gente" hábil".
Este quadro foi também descrito no Inventário de
6 de Junho de 1891 de cuja comissão fez parte o professor
Candido Pereira da "Escola de Desenho Josepha d'Obidos"
quatro retábulos, sendo um central, dois laterais e um
superior ... se achem assentes no altar-mor, é da maior
conveniencia que não sejam deslocados em quanto a Igreja
penccinar pela grande falta que fariam, sendo ainda para reciar
(sic) que a sua deslocação muito os prejudicasse
por serem de madeira". Presume-se que o adiantado estado
de degradação da capela foi responsável pela
deslocação deste precioso tríptico para a
igreja de São Martinho aonde o conservador do museu de
Arte Antiga de Lisboa, Manuel Almeida Zagalo o localizou já
na primeira metade do nosso século. Do estudo deste precioso
tríptico concluiu tratar-se dum painel adquirido pelo "presumível
edificador" da Capela da Encarnação, mais
tarde Igreja do Convento, António Mialheiro, falecido
em 1565. Observe-se o valor pecuniário que lhe foi atribuido
em 1863:
| Um quadro da Anunciação de Nossa Senhora, pintado em madeira | 20$000 |
| Um quadro co Menino Jesus, pintado em madeira | 8$000 |
| Um quadro da Assunção, pintado em madeira | 8$000 |
| Um quadro de Santa Ana, pintado em madeira | 8$000 |
| Nossa Senhora da Encarnação | $200 | ||
| Senhora da Conceição | 1$400 | ||
| Visitação de Nossa Senhora | 5$100 | ||
| Senhora da Graça | 1$800 | ||
| Coroação de Nossa senhora | 5$000 | ||
| Fuguida do Egipto | 2$400 | ||
| Descida da Cruz | 1$200 | ||
| São Martinho | $500 | ||
| São Tomas da Cantuária | $500 | ||
| Santa Filomena | $200 | ||
| Santo Antão | $500 | ||
| São João | 1$000 | ||
| Senhora do Rosário | 11$500 | ||
| Senhora da Nazareth | 5$300 | ||
| Nascimento do Menino Jesus | 1$000 | ||
| Santa Teresa | $400 | ||
| Santa Joana | $200 | ||
| São Francisco ressuscitado (alto relevo de madeira) | 7$000 | ||
| Santo António | 1$500 | ||
| Santa Ana | $200 | ||
| Assunção | 1$500 | ||
| Verónica do Senhor | $200 | ||
| Senhora das Mercês | $300 | ||
| São Francisco | 3$000 | ||
| Senhora da Conceição (pintado em folha de cobre) | $300 | ||
| São Jerónimo (pintado em madeira) | $100 | ||
| Retrato do Fundador | 13$000 | ||
| Retrato da sobrinha do Fundador | 10$000 | ||
Fonte: ANTT, MInistério das Finanças, Conv.
Enc. F., Caixa 2070
Dos quadros do Convento conhecemos apenas, o quadro
de S. Jerónimo, o baixo relevo de madeira de São
João bem como a Virgem, patentes na Museu de Arte Sacra
do Funchal, estes dois últimos do século XVI com
vestígios do tempo. A propósito do quadro de São
Jerónimo, escrevia o já citado Manuel Almeida Zagalo
"tenha sido o seu autor holandês ou alemão,não
deixa dúvida que se trata de mais um exemplar que revela
como foi notária a influência de Dürer e imitada
as suas geniais composições". Pintura executada
sobre madeira de reduzidas dimensões 0.20 x 0.20 metros.
Observe-se o preço que lhe foi atribuido em 1862, embora
não saibamos se sofreu restauro.O mesmo historiador defende
que "deve ter sido retocado , pois é visível
na parte superior da mão esquerda e em todo o dedo indicador
leve camada de tinta branca transparente, acima da pintuta inicial"
Conhecemos o retrato do Fundador que outrora ormamentava uma
parede da Biblioteca Municipal do Funchal, infelizmente desaparecido
(ilustração I).