Cap. 4 . Os produtos

4.1. Aquisição dos produtos

A comunidade abastecia-se na cerca, mais propriamente na cerca de baixo, nela cultivavam-se as hortaliças. No entanto, a produção da cerca era diminuta para alimentar o elevado número de comensais do convento, pois ao número das internas juntavam-se os trabalhadores agrícolas que geralmente trabalhavam "a comer". De todos os cantos da ilha aonde estavam localizadas terras do convento forneciam trigo e vinho, que no caso de Santa Cruz se juntavam as cebolas, fruta, abóboras, batata, castanhas, e por vezes produtos não comestíveis (liaças, madeira e tanxões) (quadro LXX). A listagem dos produtos provenientes do Porto Novo e Câmara de Lobos identificava-se muito com a anterior. De Machico acrescentámos, de quando em vez, galinhas e ervilhas. O Norte fornecia algum trigo e, muito esporadicamente, aves e favas. A Calheta enviava trigo, cevada, vinho e grãos. Uma lista mais diversificada obtivemo-la relativamente ao Porto Santo: trigo, centeio e cevada eram uma constante, a que se juntavam vacas ou novilhos, cordeiros para abate, fruta, perrexil, galinhas, lentilhas, abóboras, gofe, melancias, barro, burrecos e escravos . No ano de 1672 o Porto Santo forneceu um arrátel de açafrão. Os anos estéreis do Porto Santo causavam impacto significativo na economia do convento.

O alvará régio de Outubro de 1770 dos quintos e dos oitavos não beneficiou o mosteiro porque provocou um corte nas suas rendas (documento VIII). Já em 1764 o então bispo do Funchal escrevia que as rendas do Convento da Encarnação provenientes do Porto Santo eram diminutas - 160$000 reis e explicava que as sementes, quer de trigo, quer de cevada, "saem" da comunidade e os "collonos fazem as dittas terras limpa(men)te ficão com a metade sem q(ue) asistão com sim(en)te algua". Contudo a lei pombalina de 1770 parace não ter contribuido para inverter a tendência para a degradação da situação económica que já se vinha manifestando anteriormente no Porto Santo. Em 1783, na carta que o então governador Dom Diogo Forjaz Coutinho enviou ao bispo do Funchal, Dom Gaspar Afonso da Costa Brandão, pediu que se obstasse a vaidade dos habitantes do Porto Santo não lhes dando o título de dom nos livros da igreja o que alimentava a "vaidosa imaginação de fidalguia, a subtracção ao trabalho" (Documento IX).

Não raras vezes encontramos pagamentos á comunidade feitos em géneros ou permuta de produtos. Em 1748 a comunidade cedeu uma mulata que havia recebido da legítima duma madre em troca duma mula. Os ingleses que compravam o vinho do mosteiro pagavam-no com produtos. Para os anos de 1677, 1683 e 1740 encontramos indicações de compras feitas na "venda", palavra que ainda hoje se mantém na terminologia popular para designar mercearia. Em 1768 e 1769 comprava-se na "casa do consul" ou na "casa da companhia velha".

Nos triénios 1675 - 1678 e 1681 - 1684 a comunidade vendeu trigo:

Quadro nºXLII

Triénios
Quantidades
Fonte
Moios
Alqueires
1675 -1678 359 ANTT, L9
1681 -1684 257 ARM, L16

A partir de então jamais o mosteiro foi auto suficiente deste cereal, e comprava-o directamente, ou por intermédio de comerciantes ingleses, nas "ilhas do Senhor Santo Cristo" ou genericamente nas "ilhas". Das ilhas vinha também o feijão, favas e toucinho. Em Lisboa a comunidade abastecia-se directamente de: azeite, especiarias, cera, grãos, louça e papel. O dinheiro era enviado antecipadamente. Em 1757 a comunidade pagou 42$650 reis a quem abonou Anastácio Carvalho da Silva, na capital, a quantia de 200$000 reis para a compra de oito moios de trigo e respectivos sacos. Em Novembro de 1762 as religiosas despacharam na alfândega duas caixas de açúcar "produto da pipa de aguardente que foi para o Brasil" . O comércio directo implicava a existência de alguém incumbido dessa tarefa que, em troca dos serviços prestados recebia uma comissão:

Quadro nºXLIII
Ano
Mês
Valor total da compra / reis
Comissão / reis
%
Fonte
1677 67$808 $318 5 ANTT, L9
1706 Abril 5$111 ARM, L16
1707 Novembro $461 ARM, L16
1754 Janeiro 32$007 ARM, L22
1768 Maio 3$350 $700 16 ARM, L24
1769 Novembro 4$300 18 ARM, L24

A compra de Abril de 1706 envolveu 16$625 reis de seguro, à razão de 9,5 "por cem". Estamos em crer que o comércio se fazia directamente com outras áreas geográficas de que não ficou registo. No triénio 1690-1693 o convento perdeu 32$000 reis que enviara para a ilha de Samatra que "foy tomada pelos franceses".

A aquisição de carne de vaca não foi tarefa fácil á provisora do convento. As religiosas queixaram-se a D. João V que os almotacés impediam a compra de gado e o corte livre da carne necessária ao seu marchante mandando-o ir ao açougue, donde, por vezes, a carne vinha "pouco limpa". As freiras pediram ao rei para matar e cortar a carne no convento, como acontecia no Mosteiro de Santa Clara que já então gozava deste privilégio. As suplicantes alegaram ser da mesma congregação, pelo que deviam gozar dos mesmos privilégios, sem ter de se "sujeitar á jurisdição do ordinário" e sem a obrigatoriedade ao pagamento de qualquer pensão. O rei respondeu favoravelmente a 7 de Março de 1726.

Sabemos que, pelo menos, a partir de 1729 o marchante recebia uma propina que em 1742 era de 10$000 reis , quantitativo que foi triplicado em 1749. Conhecemos o nome de cinco marchantes para o período que medeia entre 1742 e 1763. Sabemos que o marchante tinha de cumprir as normas estipuladas na escritura "de obrigação do marchante", mas desconhecemos o seu conteudo. Em 1747 a comunidade viu-se obrigada a comprar dois bois, na falta do marchante.

O azeite aparece-nos, por vezes, com as designações de: azeite doce, azeite quelme, e encontramos uma vez azeite de "liorne" e azeite de "marcelha" , nomes que julgámos deverem-se ao local de proveniência.

O peixe adquiria-se na "roda", "á porta" contra o pagamento do carreto. Câmara de Lobos estava á cabeça no abastecimento ao convento em quantidade e multiplicidade de espécies (quadro XLIV). Será que podemos generalizar a ideia de que Câmara de Lobos, pelo menos desde o século XVII, se apresentava como o grande fornecedor de peixe á cidade? Consumia-se peixe proveniente de Santa Cruz, de Machico, da Madalena, das Desertas. De Lisboa vinham as sardinhas.

A comunidade comia peixe da "Berberia" , das Canárias. Seria este facto indício do agravamento da falta de peixe na ilha, de que o cónego Henrique Calaça já se lamentara em 1658? Dever-se-ia a importação de peixe ao elevado número de conventos existentes na ilha e ás elevadas exigências do seu consumo por imposições religiosas? Ou, antes, ás facilidades de contactos com o exterior?

O abastecimento, pelos ingleses, de mercadorias ao convento integrava-se no comércio que desenvolveram na Ilha, assim os mercadores britânicos abasteciam-se, nas suas colónias da América, de cereais, carne, peixe, e tabaco. Estes produtos eram entregues a comedida em toca do vinho. O comércio internacional encontrou na Madeira um porto obrigatório no comércio atlântico. Não admira pois que os conflitos europeus da década de quarenta do século XVIII (Documento VI) e a guerra dos Sete Anos vivessem tido consequências no comércio local.

O mercado de trocas, submeudo ao pacto colonial, desenvolvia-se no Império Inglês, encontrando na Madeira um mercado de reexportaçao. O consumo da comunidade religiosa identificava-se com as necessidades de uuna classe média e integrava-se numa economia monetária, que, devido a escassez da moeda metálica, assentava na toca de produtos.

ANO PAGADORVALOR/REIS PRODUTO PRODUTOFONTE
ENTREGUE VENDIDO
1733 Escot42$000 trigovinhoARM,L18
1741 Guilherme Mordoque11 $100 sardinhasvinhoARM,L22
1741 Guilherme Mordoque52$000 tecidosvinhoARM,L22
1741 Guilherme Mordoque8$000 arrozvinhoARM,L22
1746 Guilherme Mordoque12$000 trigovinhoARM,L22
1747 R.: Hille48$000 trigovinhoARM,L22
1749 Richard Hille28$000 bacalhauvinhoARM,L23
1749 Richard Hille21 $303 farinhavinhoARM,L23
1749 Richard Hille21 $664 aduelasvinhoARM,L23
1749 Richard Hille3$166 aduelasvinhoARM,L23
1749 Richard Hille22$925 farinhavinhoARM ,L23
1750 Roberl Franche5$760 bacalhauvinhoARM,L23
1750 Roberl Franche19$400 farinhavinhoARM,L23
1751 Robert Franche4$800 bacalhauvinhoARM,L23
1751 Robert Franche2$400 bacalhauvinhoARM,L23
1751 Richard Hille126$000 trigovinhoARM,L23
1751 Richard Hille63$000 trigovinhoARM,L23
1751 Richard Hille63$000 trigovinhoARM,L23
1751 Richard Hille24$444 aduelasvinhoARM,L23
1751 Richard Hille6$400 bacalhauvinhoARM,L23
1751 Richard Hille19$950 farinhavinhoARM,L23
1751 Richard Hille120$000 trigovinhoARM ,L23
1751 Richard Hille19$200 bacalhauvinhoARM,L23
1754 Richard Hille33$600 ceravinhoARM,L22
1754 Richard Hille13$278 arrozvinhoARM,L22
1754 Richard Hille63$000 trigovinhoARM,L22
1754 Richard Hille21$126 aduelasvinhoARM ,L22
1754 Richard Hille22$660 bacalhauvinhoARM,L22
1754 Richard Hille21$000 trigovinhoARM,L22
1754 Richard Hille11$425 arrozvinhoARM, l22
1754 Richard Hille18$746 farinhavinhoARM,L22
1756 Guilherme Murdoque76$000 bacalhauvinhoARM,L16
1756 Tomás Lamar32$550 trigovinhoARM,L16
1761 Tomás Chipe59$758 bacalhaualuguer/granéis ARM,L23
1761 Mateus Hichor9$000 bacalhaualuguer/ lojas ARM,L 23
1762 Mateus Hichor120$000 trigovinhoARM,L23
1762 Mateus Hichor180$000 trigovinhoARM,123
1762 Mateus Hichor9$600 bacalhauvinhoARM,L23
1762 Tomás Chipe100$000 ceraaluguer/granéis ARM, L23
1767 Mateus Hichor108$000 trigovinhoARM,L24
1767 Mateus Hichor61 $533 farinhavinhoARM,L 24
1767 Mateus Hichor108$000 trigovinhoARM ,L24

A Madeira inscrevia-se nas rotas comerciais que se desenvolveram nos séculos XVII e XVIII ente a Europa, as Américas e a Ásia. A economia das colónias inglesas da América do Norte e Cen~¢o complementava, e alimentava, o comércio da Ilha. Se as Américas conshtuiram a área dominante do comércio ingles do século XVIII, o comércio aniilhano e os lucros obtidos do contolo do táficos luso-brasileiros se revelaram os mais extenuantes, nao podemos descorar a importencia do táfico para a Madeira, que já Bolton, em 1697, reconhecia como sendo lucratica.

Se a comunidade religiosas não comprava, o que é perfeitamente perceptível, os tecidos ingleses, salvo algumas referencias aos "mimos" a oferecer aos procuradores e feitores do mosteiro tinha, no entanto, os preciosos vinhos que eram pagos em toca da farinha "trigo inglês de Londres", bacalhau e arroz. Conhecemos no Funchal, duas casas britânicas fornecedoras do Convento, a Casa do Cônsul e a Casa da Companhia Velha. As oscilações de preços na Ilha verificadas nas décadas de cinquenta e sessenta de setecentos eram bem o reflexo das reexportaçoes dos produtos coloniais ingleses, além de que três quintos do total dos barcos que visitavam o porto do Funchal eram da mesma nacionalidade. As alterações do preço do açúcar do Brasil e a queda de produção do ouro da Mina teve graves consequências na fase de depressão que Portugal então atravessava. Esta depressão seguiu-se a prosperidade brasileira dos primeiros decénios de setecentos que a partir do ouro suscitava um aumento do mercado. A emigração portuguesa, e na qual se incluía a corrente moratória da Madeira (documento VII) actuava no mesmo sentido. Verificava-se uma dependência da economia luso-brasileira em relação ao mercado britânico.

Para a ,transferencia do centro financeiro de Amesterdão para Londres contnbuiu o comércio com a África, Ásia, América, Brasil, e a que não se pode alhear o comércio com a Madeira que ficava no circuito das rotas comerciais. Se na primeira metade do século XVII havia uma forte influencia francesa no comércio da ilha, a partir da segunda metade da mesma centiiria, os ingleses eram os principais comerciantes no comércio local. Muitos destes ingleses criaram raízes na ilha, como seja Robert Vilovi, pai da professa Maria Bernarda do Vencimento, abadessa por alguns triénios.

Havia uma troca entre a campo e a cidade, ou seja, o campo enviava a sua produção para a cidade. Estamos no dizer de Oliveira Marques: "é preciso igualmente ter em conta que a organização mercado não veio, de forma alguma, substituir por completo o sistema feudal de auto suficiência". Com efeito o convento abastecia-se nas suas terras espalhadas pelas várias freguesias aonde compravam também produtos. Encontrámos dotadores - devedores que pagavam, em géneros, as suas dívidas á comunidade. Assim, em Dezembro de 1731, o capitão Francisco França entregou à comunidade aves e ovos no valor de 1$900 reis, o que voltou a acontecer no mês de Agosto do ano seguinte, num montante ligeiramente superior - 2$000 reis. As aves necessárias ao convento na festa da Madre de 1733 foram entregues pelos capitães Manuel Freire, Brás Moniz de Meneses e Francisco França , todos eles dotadores. Este último, viúvo residente na Calheta, era o pai de três religiosas que professaram em Setembro de 1722. O capitão Brás Moniz de Meneses, residente no Porto da Cruz, tinha também três filhas freiras, uma das quais professou em Maio de 1699, outra em Novembro de 1726 e a terceira em 1749.

4.2. A variação dos preços

Vitorino Magalhães Godinho e Aurélio de Oliveira são unânimes quando escrevem que as estatísticas dos preços podem ser obtidas nos registos das compras do convento. Propusemo-nos, neste estudo, a elaboração de séries de preços e procuramos obtê-las através de vários géneros de uso quotidiano no mosteiro: açúcar, bacalhau, trigo, carne de vaca, sal, manteiga, grãos, e queijo. Infelizmente estas nossas intenções foram goradas de insucesso porque ora a madre escrivã indicava o numerário gasto sem mencionar a quantidade ou, por vezes, a comunidade adquiria, como previdente que era, grandes quantidades que destinavam para um período alargado. No caso de escassez de carne de vaca a comunidade abastecia-se do gado "dado a criar" nas suas fazendas; ou deparamo-nos com o desapareceimento de livros de Receita e Despesa de alguns triénios. Assim obtivemos dados dispersos no tempo, informações amputadas, pelo que desconhecemos o que se passou nesses períodos, conforme se pode observar no quadro seguinte

Quadro nºXLV .Triénios
Início
Terminus
Livro
Ano
Ano
Abadessa
Escrivã
Receita - Despesa
16601663 Clara São Bernardo ANTT, L2
16631666 Clara São Bernardo ANTT, L2
16661669 desaparecido
16691672 Clara São Bernardo Catarina da Encarnação ARM, L14
16721675 Teresa de Jesus Luisa Xavier desaparecido
16751678 Teodora de Jesus Maria do Lado ANTT, L9
16781681 desaparecido
16811684 Antónia da Resssurreição Leonor Santo António ARM, L15
16841687 Teresa de Jesus Maria de Belém desaparecido
16871690 Maria do Lado Filipa São João ARM, L16
16901693 Antónia da Resssurreição Luisa Cherobins ARM, L15
16931696 desaparecido
16961699 desaparecido
16991702 desaparecido
17021705 desaparecido
17051708 ARM, L16
17081711 Mariana São Bernardo Mariana Santa Teresa ARM, L18
17111714 desaparecido
17141717 desaparecido
17171720 Luisa Cherobins Mariana Esperança ARM, L19
17201723 desaparecido
17231725 Antónia da Resssurreição Inácia Santo António ARM, L50
17251728 desaparecido
17281730 Francisca Santo António Antónia Francisca da Graça ARM, L20
17311733 Mariana São Bernardo Maria Josefa da Anunciação ARM, L22
17341736 Teresa Josefa Santa Maria Maria do Monte Olivete ARM, L22
17361738 desaparecido
17401742 Luisa Joana da Ressurreição Mariana Cordula da Vitória ARM, L22
17431745 Teresa Josefa Santa Maria Angélica Nazaré ARM, L23
17461748 Luisa Joana da Ressurreição Maria Bernarda do Vencimento ARM, L22
17491751 Teresa Josefa Santa MAria Angélica Nazaré ARM, L23
17521754 Luisa Joana da Ressurreição Luzia Catarina São João ARM, L22
17551757 Luisa de Jesus Maria Mariana da Paixão ARM, L16
17581760 Teodora do Monte Olivete desaparecido
17611763 Luisa de Jesus Maria Maria Teresa da Trindade ARM, L23
17641766 Maria Bernarda do Vencimento desaparecido
17671769 Loriana Luísa Natividade Ursula Estrela ARM, L24
17701772 Mariana da Paixão desaparecido
17731775 Maria Bernarda do Vencimento desaparecido
17761778 Luisa Catarina São João ANTT, L10

Apesar de séries lacunares e cônscios da impossibilidade do seu valor operatório quisemos deixar o registo na esperança de que este nosso trabalho possa ajudar futuros investigadores da história dos preços da Região Autónoma da Madeira.

Sentimos dificuldades na conversão do arrátel e da libra à arroba e acabamos por trabalhar com igualdade de uma arroba a trinta arráteis e a trinta e duas libras, embora saibamos que na maioria dos estudos nacionais uma arroba seja igual a trinta e dois arráteis. Ainda hoje, entre nós, a equivalência do barril diverge muito, no Porto Moniz corresponde a 55 litros, no Porto da Cruz e nalgumas zonas do Funchal 45, e em São Vicente a 50 litros.

Com base nestas séries por nós conseguidas, algumas questões se levantaram. Comecemos pelo bacalhau. No ano de 1672 não encontramos referências à compra de bacalhau (quadro LXXV). Dez anos depois a comunidade comeu cagarras. A descida do preço do bacalhau no ano de 1678 coincidiu com a descida do preço da carne de vaca (quadro LXXVI). Também no mesmo período o preço dos grão brancos, apesar das grandes variações, atingiu preços elevados que foram mais baixos em 1691. Quais as razões da subida de preços na década de setenta de seiscentos? Aumento da procura? Dificuldade na importação? Ou repercursão da crise económica que o país atravessava?

Observe-se o preço do alqueire de grãos brancos em 1768 e no ano seguinte. Com efeito distanciava-se da guerra dos sete anos, das suas consequências negativas. Prova-se também que os preços locais dependiam das importações, pensamos nós.

Quadro nº XLVI. Grãos brancos
Ano
Mês
Quantidade / alqueire
Preço alqueire / reis
Fonte
1672Abril 1.5 $800ARM, L 14
1682Abril 3$450 ARM, L 15
1683Abril 1$700 ARM, L 15
1683Junho 0.25 $600ARM, L 15
1684Fevereiro 1.5 $700ARM, L 15
1684Agosto 1$800 ARM, L 15
1688Novembro 20$340 ARM, L 16
1691Fevereiro 3$300 ARM, L 15
1691Fevereiro 2$500 ARM, L 15
1691Fevereiro 15$317 ARM, L 15
1693Março 5$450 ARM, L 15
1709Fevereiro 31$000 ARM, L 18
1734Janeiro 1$800 ARM, L 22
1736Janeiro 5$600 ARM, L 22
1743Março 6$400 ARM, L 23
1743Junho 55$400 ARM, L 23
1747Novembro 2$500 ARM, L 22
1749Março 4$600 ARM, L 23
1749Maio 3$600 ARM, L 23
1752Março 2$600 ARM, L 22
1757Janeiro 2.5 $600ARM, L 16
1763Fevereiro 1.5 $600ARM, L 23
1768abril 31$200 ARM, L 24
1769Março 3$118 ARM, L 24
1717 - 20 Fevereiro 1$600 ARM, L 19


Quando reflectimos sobre os preços da manteiga (quadro LXXVII) no ano de 1751 somos levados a pensar que o seu preço subiu nos meses de verão, talvez devido aos problemas de conservação; contudo em 1749 o preço manteve-se estacionário durante todo o ano.

No caso do trigo os preços indicados para os triénios 1669 - 1672 e 1681 - 1683 (quadros LXXX e LXXXI) são de venda pelo convento, melhor dizendo, a comunidade era auto suficiente deste cereal, a produção excedentária era vendida. No entanto, no ano de 1683 o trigo foi escasso "trigo que se comprou no triénio por faltarem os foreiros pella carestia que houve no anno 1683". A partir de então o Convento da Encarnação do Funchal tornou-se grande consumidor do "trigo das ilhas". Não nos esqueçamos que os Açores desempenhavam um papel relevante no fornecimento de pão à Madeira. O mercador inglês Bolton, estabelecido na Madeira, numa carta datada de 2 de Janeiro de 1696, escrevia que então que um moio de trigo importado dos Açores custava, com todos os encargos, 15$000 reis, sendo 24$000 o seu preço corrente "será um bom negocio considerando que foi comprado com mercadorias que dão lucro".

As referências a "trigo das ilhas", "trigo de Santa Maria", "trigo das ilhas de São Miguel", foram encontradas nos livros de Receita e Despesa ao longo dos três últimos quarteis do século XVIII pelo que se tornou particularmente difícil a ordem régia de 1757 que limitou as exportação do trigo açoreano ao abastecimento da corte e Mazagão. O trigo da terra era procurado para ser utilizado como semente.

As grandes dificuldades da obtenção do trigo pelo Convento da Encarnação do Funchal deviam ter sido agravadas na década de quarenta do século XVIII porque a comedoria do trigo às religiosas passou a ser entregue em dinheiro. Em1741 o vigário do Campanário entregou trigo ao mosteiro por ordem do bispo e nesta mesma década a comedoria de trigo aos trabalhadores foi uma mistura de trigo e centeio.

Poderíamos relacionar estas dificuldades na obtenção de trigo com os conflitos europeus (doc VI)? Ou dever-se-ia a uma centralização do comércio regional nas mãos dos ingleses? O surto emigratório que se fez sentir para o Brasil nesta mesma década, estaria relacionado com esta carência de pão? Durante o mesmo decénio generalizou-se a venda de farinha de trigo, informação obtida no levantamento que levámos a cabo sobre os preços de farinha comprada às religiosas.

Quadro nºXLVII.Farinha comprada ás religiosas
Ano
Mês
Preço / alqueire - reis
Quantidade total / alqueires
Preço /total
Fonte
1740Fevereiro
$300
103$000
ARM, L 22
1740Setembro
$300
15.5 4$650
ARM, L 22
1744Dezembro
$300
1.42 426$000
ARM, L 23
1745Fevereiro
$300
30 9$000
ARM, L 23
1745Abril
$300
206$000
ARM, L 23
1745Junho
$300
206$000
ARM, L 23
1745Setembro
$300
144$200
ARM, L 23
1745Outubro
$300
154$500
ARM, L 23
1745Novembro
$300
3$900
ARM, L 23
1746Maio
$300
3$900
ARM, L 22
1748Fevereiro
$300
51$500
ARM, L 22
1749Fevereiro
$300
51$500
ARM, L 23
1749Março
$300
103$000
ARM, L 23
1749Abril
$300
61$800
ARM, L 23
1749Junho
$300
61$800
ARM, L 23
1749Julho
$300
133$900
ARM, L 23
1749Agosto
$300
4.5 1$350
ARM, L 23
1749Setembro
$300
9.5 2$850
ARM, L 23
1750Março
$300
82$400
ARM, L 23
1750Maio
$300
92$700
ARM, L 23
1750Junho
$300
82$400
ARM, L 23
1750Julho
$300
113$300
ARM, L 23
1750Setembro
$300
123$600
ARM, L 23
1750Novembro
$300
4.5 1$350
ARM, L 23
1751Fevereiro
$300
41$200
ARM, L 23
1751Março
$300
123$300
ARM, L 23
1751Maio
$300
82$400
ARM, L 23
1751Junho
$300
72$100
ARM, L 23
1751Julho
$300
103$000
ARM, L 23
1751Agosto
$300
61$800
ARM, L 23
1751Setembro
$300
51$500
ARM, L 23
1754Abril
$300
61$800
ARM, L 22
1755Junho
$300
2$600
ARM, L 16
1755Outubro
$300
1.5 $450
ARM, L 16
1756Janeiro
$300
2$600
ARM, L 16
1762Fevereiro
$400
1$400
ARM, L 23
1762Abril
$400
31$200
ARM, L 23
1767Dezembro
$600
1$600
ARM, L 24


Esta conclusão está de acordo com os utensílios de uso diário das religiosas (quadro LXXXVIII) que pela mesma época reduziu a aquisição de joeiras. Lembremo-nos que eram então escassas as quantidades guardadas no graneis, pelo que se tornava mais fácil a aquisição da farinha, embora com uma conservação mais precária. Acrescente-se que o preço da farinha vendida pelas freiras não acompanhou o preço do trigo.

Quanto ao sal(quadro LXXIX), o preço mais elevado foi atingido em Janeiro de 1692, $600 reis alqueire e $500 reis em Dezembro do mesmo ano.

O preço mais elevado do açúcar foi alcançado pelo açúcar da terra e o mais baixo pelo açúcar mascavado. Entenda-se por açúcar branco a designação genérica de açúcar. Conclusões mais pertinentes obtivemos na série das caixas de açúcar compradas pelo convento.A aquisição das caixas de açúcar coincidia com as épocas festivas de Agosto e Dezembro ou meses precedentes. Não encontramos referências à sua aquisição no quinto decénio de setecentos, apesar de termos estudado alguns triénios deste período, ou seja, não se compraram grandes quantidades de açúcar de uma só vez. Falta de açúcar? Dificuldades na sua comercialização? Implicações da guerra dos sete anos?

4.3. Os transportes

Aquando a deslocação de Clara São Bernardo, primeira abadessa vinda do Convento de Santa Clara do Funchal, ela foi transportada "em sua cadeira (que são as carroças desta ilha)".

Data de 1677 a compra efectuada pela comunidade religiosa de "metade de hum carro para serviço do convento a Lobo de Castro morador em Machico", pago com trinta alqueires de cevada. Este carro destinava-se ao transporte de pessoas, ou antes, ao carreto de produtos? Em Outubro de 1747 o convento pagou $400 reis pelo aluguer de uma besta utilizada pelo padre procurador na sua deslocação, a fim de tirar as divisões das Quebradas e Bom Sucesso. Dois anos mais tarde encontrámos o mesmo tipo de transporte para levar o porteiro à partilha da legítima duma madre. Na deslocação do procurador às vindimas do Porto Novo, no ano de 1753, a comunidade pagou o "frete". Foram escassas as informações obtidas sobre o transporte de pessoas. Para o transporte de produtos encontramos indicações de carretos e fretes.

Trazer um produto por via marítima implicava o seu carreto do local de produção até ao calhau e uma vez feita a travessia o seu carreto até ao convento. Encontrámos muitas informações de pagamentos a boieiros e notamos uma constância nestes trabalhadores: Martinho Gomes foi boieiro ao serviço do Convento da Encarnação pelo menos de 1740 a 1767, sendo pago mediante o número de carretos prestados mensalmente, ou por períodos mais alargados.

De 1711 a 1751 encontramos o almocreve transportando o vinho e o mosto. O mesmo trabalhador, no século XVII, era designado por arrieiro. João de Freitas ora apareceu identificado por arrieiro, ora almocreve. O almocreve trabalhava com as bestas do mosteiro, recebia uma soldada e a sua ração. Assim se compreende a existência do arrieiro, do almocreve, do boieiro, a manutenção e cuidados com as "bestas", o "macho", a "mula"; a compra de albardas, conserto destas, sacos e gibões para as mulas, e compra de palha para a alimentação dos animais.

Fernand Braudel refere que no Antigo Regime todas as cidades estavam dependentes dos cavalos e compara os cavalos de Paris setecentista aos automóveis de hoje, na mesma proporção. Nós acrescentamos que no Funchal da mesma época as mulas, as bestas, e proporcionalmente, eram as carrinhas de transporte de mercadorias dos nossos dias.
AnoMês
Nº Caixas
Arrobas / caixa
Variedade
Preço / arroba
Preço /
Imposto Alfândega
Fonte
Outras informações
1688Dezembro
1
36branco 1$900 ARM, L16 Propina Natal
1705Dezembro
2
1$200 ARM, L16 Propina Natal
1706Março
1
32,5 3$000 ARM, L16
1707Março
1
$80 ARM, L16
1707Novembro
1
162$600 ARM, L16
1708Agosto
1
342$650 ARM, L16 Propina dia de Santa Clara
1709Novembro
1
$560 ARM, L18
1710Janeiro
1
ARM, L18
1710Agosto
1
ARM, L18
1711Abril
1
ARM, L18
1717-20
3
ARM, L19
1723Novembro
1
41 ARM, L22
1724Agosto
1
ARM, L22
1724Dezembro
1
ARM, L50 Propina Natal
1728Setembro
1
$720 $360 ARM, L20
1728Agosto
4
ARM, L20 Propina dia de Santa Clara
1729Maio
1
ARM, L20
1731Novembro
1
ARM, L18
1732Março
1
ARM, L18
1732Novembro
2
ARM, L18 Propina dia de Santa Clara
1733Junho
2
ARM, L18 Propina dia de Santa Clara
1733Dezembro
1
branco ARM, L18 Propina Natal
1734Abril ARM, L21
1735Outubro
1
ARM, L21
1735Dezembro
1
ARM, L22 Propina Natal
1736Agosto
1
382$560 ARM, L22 Propina dia de Santa Clara
1740Março
1
mascavado ARM, L22
1740Julho
1
322$300 ARM, L22
1741Agosto
1
412$550 ARM, L22 Propina dia de Santa Clara
1741Novembro
1
branco 2$650 ARM, L22
1742Novembro
1
40,5 ARM, L22 Propina Natal
1743Abril
1
421$920 $700 ARM, L23
1743Junho
1
35branco 2$000 ARM, L23
1743Agosto
1
42branco 2$560 ARM, L23 Propina - dia Santa Clara
1744Agosto
1
36branco 2$560 $600 ARM, L23 Propina - dia Santa Clara
1745Julho
1
38mascavado 1$619 $550 ARM, L23
1749Fevereiro
1
31,5preto 1$800 ARM, L23
1749Março
1
41branco 2$800 ARM, L23
1762Novembro
2
1 branca outra mascavado 19$800 26$650 ARM, L23 Produto da troca de uma pipa de aguardente para o Brasil
1763Janeiro
2
34$995 ARM, L23