cap.1- O mosteiro
"O Convento levantado pela mão veneravel do patriotismo
devia cahir, acabar seus dias n'estes tempos em que o patriotismo
não passa d'uma palavra, e em que já se pede o jugo
de Castela para se evitar o latego prepotente da Inglaterra!"
Semanário, " AVerdade", 1890, 7 de Nov
1.1 .A tradição franciscana
Nos meados do século XV, contando a Madeira oitocentos vizinhos, a ilha não dispunha ainda da fixação de nenhuma ordem religiosa. Neste quadro se insere a fundação do Convento de São Francisco que, de acordo com Frei Jerónimo de Belém, se estabeleceu no Funchal ao redor de 1450. Nesse mesmo ano fora publicada a bula do Papa Nicolau V para a sobredita fundação.
O historiador Fernando Augusto da Silva, sem identificar a fonte, refere que membros da Ordem Seráfica "acompanharam os descobridores, começaram a desempenhar funções religiosas no mesmo dia que se efectuou o primeiro desembarque em Machico". Na opinião do mesmo estudioso, Frei Rogério, por 1430, constituiu o primeiro núcleo da comunidade regular franciscano sito junto da capela de São João da Ribeira. O enforcamento de um professo levou ao abandono do lugar, aproximadamete dezanove anos depois. Desta comunidade saíram os fundadores do Convento de Xabregas, nas cercanias de Lisboa. Frei Rodrigo de Arruda e alguns companheiros seus chegaram à ilha por 1476 e, com apoio do breve do papa Sisto IV concedido no mesmo ano, organizaram a comunidade franciscana no centro da vila "em chãos e terras defronte de Santa Catarina , além da ribeira, onde ora está fundada uma das melhores casas desta ordem, que a Província tem em Portugal", no dizer de Gaspar Frutuoso.
Com efeito, o franciscanismo foi um baluarte da expansão e responsável pela colonização da Ilha da Madeira. O seu ideal de pregação oponente à vida de reclusão na cela contribuiu para o expansionismo duma sociedade que pretendia alargar os seus mercados. Sobre este assunto Jaime Cortesão escreveu: "a ordem de São Francisco, ordem de pregadores, missionários e viajantes, que se propunham viver fora do claustro, levar o verbo e o exemplo de Cristo ao povo e aos infiéis, corresponde, pelo contrário, ao novo regime urbano e mercantil, às ambições expansionistas da burguesia e ás reivindicações igualitárias do povo do pré-renascimento".
Uns anos mais tarde chegou a vez das claristas. No ano de 1491 D. Manuel, duque de Beja, administrador da Ordem de Cristo, concedeu a faculdade para edificar um mosteiro de Santa Clara na Ilha da Madeira. No entanto, acrescenta o cronista desconhecer se o pedido foi realizado, uma vez que o Convento apresenta um outro fundador. Com efeito, é comummente aceite na Historiografia local que a fundação do Convento de Santa Clara se deve ao segundo Capitão do donatário do Funchal, João Gonçalves da Câmara, para recolhimento das suas filhas e de outras donzelas que quisessem seguir a vida monástica. Deste convento partiram duas religiosas para reformação do Convento da Esperança em Lisboa onde uma dela foi por muitos anos abadessa. Mas não se limitou à cidade do Funchal a Ordem dos Minoristas. O Convento de São Benardino situado na freguesia de Câmara de Lobos "dois tiros de besta de Câmara de Lobos para o Norte, pela terra dentro" ganhou fama na ilha e no continente português pelas virtudes de Frei Pedro da Guarda. A sua fundação ficou a dever-se a Frei Gil de Carvalho que aí se fixou quando os franciscanos abandonaram São João e se estabeleceram em Xabregas.
O único mosteiro que sabemos ter existido na capitania
de Machico, também mendicante, situava-se em Santa Cruz
- Convento de Nossa Senhora da Piedade. A seu propósito
escreveu o cronista-mor dos Açores:" do Porto do
Seixo está outro engenho de açúcar, que é
dos Freitas, acima do caminho, e abaixo dele um mosteiro de frades
franciscanos onde estão até oito religiosos de missa,
que tem boa igreja, com boas oficinas e aposentos, de que António
Lomelino, do Porto do Seixo, homem fidalgo, rico e mui generoso
é padroeiro, com quem ele reparte grandes esmolas de sua
fazenda além das que deixaram seus antepassados para aquela
casa, que fizeram".
1.2. A fundação do convento
Se por um lado existiam, por meados do século XVII, muitos conventos da ordem franciscana para religiosos, o seu número era então muito reduzido para as mulheres que quisessem seguir a vida da clausura. O mosteiro de Santa Clara era insuficiente para receber as donzelas "pellas muitas que este bispado tem nobres y de mays condição", argumenta o cónego Henrique Calaça de Viveiros que comparou a falta de mosteiros na Ilha da Madeira e a abundância deles nos Açores. E o mesmo cónego, que fizera o voto de fundar um mosteiro em honra de Nossa Senhora da Encarnação, quando Portugal se libertasse do domínio de Castela, cumpriu religiosamente a sua promessa.
O Cónego fundador nasceu no Porto Santo, ao redor de 1589, sendo filho de Bento Martins, que ocupou o cargo de guarda da Ribeira, e de Cecília Calaça tendo os pais casado a 18 de Agosto de 1588 na Sé do Funchal, e eram pessoas de remediados haveres. Os seus estudos foram feitos nas escolas da diocese. Depois de ordenado o padre Henrique Calaça foi capitular da Sé e encarregado da Chancelaria da Sé. Viveu ainda longos anos entregue ao múnus espiritual. No seu testamento pediu que o sepultassem na Sé e nomeou como testamenteira a recolhida Teresa de Jesus, sua sobrinha. Pediu também que se celebrassem duas missas semanalmente "emquamto o mundo durar". Morreu no dia 25 de Maio de 1662, com 73 anos. No registo do seu óbito lê-se o seguinte:"em os 26 dias do mez de Mayo de 1662 falleceo o Rdo Cónego Henrique Calaça fundador do Convento da Encarnaçaõ fez testamento que naõ vi, nem se me entregou, foi sepultado no mesmo convento" Nota á margem "o testamento ficou em poder do notário Manuel Ribeiro". No ano de 1670 a comunidade religiosa ainda despendeu $480 reis na aquisição de 4 covados de "randilha" negra para cobrir a sepultura do fundador.
O Convento da Encarnação do Funchal fundado em 1660 surgiu aonde existia o recolhimento.A primeira pedra para a construção do imóvel foi lançada a 20 de Novembro de 1645. Nesta obra o fundador gastou cerca de vinte mil cruzados. Próximo ao edifício existia a capela de Nossa Senhora da Encarnação que foi integrada no recolhimento. No ano seguinte, e no mesmo dia, entraram nele cinco recolhidas, das quais só professou a Madre Teresa de Jesus que teve de recolhimento quatorze anos e meio.
O recolhimento era superintendido por uma regente, e por vontade do cónego, seguiu a ordem de Santa Teresa de Jesus, Carmelitas Descalças. No ano de 1658, quando o fundador dirigiu petição à rainha regente para que as recolhidas professassem, já elas eram em número de vinte.O instrumento público de doação lavrado na capela de Nossa Senhora da Encarnação na presença de representantes do Cabido, do doador e recolhidas teve lugar no dia 14 de Fevereiro de 1658.
Nesta doação o cónego Calaça manifestou o desejo de dar graças a Deus pela aclamação de D. João IV ao fundar um recolhimento para donzelas "pelas muytas que neste bispado tem nobres e de mays condição que o deseião servir na clausura". No instrumento público o fundador dotava o convento de casas, fazendas, e foros que possuia e mais bens que se achassem por sua morte e pedia, porque tinha parentes pobres, dois lugares de freiras para duas sobrinhas. De ínicio foram as parentes por via materna, Teresa de Jesus e Clara da Conceição, e por morte desta duas outras por via paterna. Ainda no ano de 1751 houve duas noviças e se limitaram a pagar os ordinários de profissão por direito do fundador.As restantes recolhidas davam 20$000 reis para sustento e ficavam obrigadas ao dote de profissão de mil cruzados cada uma. E continuava o fundador a referir a dificuldade em seguir a Ordem de Santa Teresa de Jesus porque a Ilha carecia de peixe pelo que optou pela Ordem de Santa Clara.
A resposta de Sua Magestade, de 1659, foi favorável à petição de criação do Convento de Nossa Senhora da Encarnação do Funchal, atendendo a que a Madeira já tinha uma cidade e cinco vilas e só um mosteiro de Santa Clara, e às louváveis intenções do fundador de custear a fundação do convento para agradecer a Deus a aclamação de D. João IV,"se despuzeram com a ocaziaõ da aclamaçaõ de el Rey meu Sr. e Pay que Santa Gloria aja, a fazer em acçaõ de graças hum convento a sua custa na ditta cidade do Funchal ,no milhor sitio della junto a hua igreja que o cabido sede vacante lhe dera da invocação de Nossa Senhora da Incarnação".
Nesta provisão foram concedidas as licenças ao Cónego fundador no que respeitava à profissão de duas suas sobrinhas e ao número de professas e noviças que devia ser igual a trinta. A alteração deste número precisava de autorização real.E a finalizar pediu-se que o Alvará fosse registado nos livros da Câmara e do Cabido e do Arquivo do Convento.
Data de 13 de Abril de 1660 a petição do Cónego para a criação do Convento. O pedido era também expresso pelas trinta recolhidas. Nesta petição referia-se o breve do Papa que autorizava a transferência de uma freira professa de Santa Clara do Funchal para exercer o múnus de abadessa do novo mosteiro que obedecia à mesma regra - A Regra de Santa Clara Urbana e os quatro votos de castidade, pobreza, obediência e clausura e segundo as constituições e estatutos da mesma Ordem que eram conforme os Sagrados Cânones do Concílio Tridentino. Os suplicantes pediam para usufruir dos mesmos privilégios e isenções da dita Ordem e para iniciar o noviciado pelo período de um ano, durante o qual não seriam admitidas mais noviças .
A petição do fundador e sorores recolhidas deu lugar á visita do Deão para indagar das condições.O membro do cabido opinou que a casa obedecia aos requisitos da clausura e a Igreja era propícia à oração e ao culto divino. A autoridade ordinária e apostólica relembrou a Regra de Santa Clara Urbana, com o hábito de Santa Clara, que era tomado após um ano de noviciado e com a anuência de todas as sorores.Recomendou ainda que o número de professas devia estar em consonância com as respectivas rendas e novas religiosas só seriam admitidas com o respectivo dote de mil cruzados, além das comedorias do noviciado e ordinários da profissão.
A chegada da primeira Abadessa, professa do Convento de Santa Clara do Funchal, ao recolhimento de Nossa Senhora da Encarnação, aconteceu no dia 18 de Abril, sete dias após a publicação da sentença do Deão Provisor e Vigário Geral, para a criação do novo mosteiro.
A deslocação da primeira Abadessa do Convento de
Nossa Senhora da Encarnação, foi acompanhada de
muitas senhoras nobres, do Cabido, e do Comissário do
Convento de São Francisco da Madeira, " e povo
della ".A Madre Abadessa Clara São Bernardo
foi recebida no recolhimento pela Regente, sorores e mais recolhidas
que aceitaram a sua Prelada tomando a benção,fechando-se
as portas da clausura ao mundo exterior.