AS CLARISSAS NA MADEIRA.

UMA PRESENÇA DE 500 ANOS

 

 

 

 

EDIÇÃO

 

CEHA

CENTRO DE ESTUDOS DE HISTÓRIA DO ATLÂNTICO

FUNCHAL, 2001

 

PP. 579

 

pvp: 14,96 EUROS

 

 

 

Texto do volume em formato pdf:  Clarissas na Madeira

 

 

PLANO GERAL

 

 

Prefácio

 

Agradecimentos

 

Introdução

 

PRIMEIRA PARTE

Origem, carisma e difusão da Ordem de Santa Clara de Assis

 

 

SEGUNDA PARTE

Mosteiros da Madeira no passado

 

Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição ou de Santa Clara (Funchal)

Mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação (Funchal)

Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês (Funchal)

 

TERCEIRA PARTE

Mosteiros da Madeira no presente

 

Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade (Caldeira - Câmara de Lobos)

Mosteiro de Santo António (Lombo dos Aguiares - Funchal)

 

 

APÊNDICE

Crónica das Celebrações Centenárias

 

 

 

  

  

 

Prefácio

 

O V Centenário da Ordem de Santa Clara, na Madeira, comemorado em Novembro de 1997,  teve, entre outras belas iniciativas, a investigação paciente e cuidada da Irmã  Otília Rodrigues Fontoura, osc, em ordem à publicação do livro As Clarissas na Madeira - Uma presença de 500 anos».

Fazia falta uma obra que apresentasse a riqueza espiritual e cultural da Ordem de Santa Clara nesta diocese, tanto mais que as pedras dos monumentos deixaram de falar e as que restam apresentam outra linguagem.

É doloroso constatar que todos os mosteiros antigos relacionados com a Ordem Franciscana na Madeira tenham desaparecido, três destruídos, e o único que resta, o de Santa Clara, só conserva o nome da fundadora mas sem Clarissas.

O livro da Irmã Otília apresenta a Madeira como uma terra que sempre foi contemplativa, nela sempre houve pessoas apaixonadas por Deus que encontraram na oração e no silêncio uma forma especial de viver e exprimir o mistério da Páscoa de Jesus Cristo.

Embora a «esponsalidade» seja uma dimensão de toda a Igreja, como afirma o Papa João Paulo II, «a vida consagrada é a sua imagem viva, manifestando do melhor modo a tensão para o único Esposo».

Desde o início do povoamento da Madeira, o povo cristão sentiu a necessidade da presença deste sinal escatológico, «honra da Igreja e fonte de graças celestes». (João Paulo II, Verbi Sponsa, 1).

A bula do Papa Sixto IV, de 04 de Maio de 1476,  autorizando a vinda das Clarissas de Beja para o Funchal, correspondia à vocação de algumas jovens madeirenses se consagrarem a Deus, logo nos primórdios da ocupação das ilhas.

A comunidade cristã sempre dedicou às Clarissas de clausura uma especial estima e simpatia, consciente de que a sua presença realizava em grau eminente a vocação contemplativa de todo o povo cristão.

Os mosteiros erguiam-se dentro da cidade, mas suficientemente afastados dos ruídos e agitação comercial, e constituíam, com as suas fortes estruturas em lugares elevados, cidades sobre o monte, espaços de recolhimento que convidavam à oração e silêncio. Eram sentinelas do espírito que vigiavam dia e noite  e o povo cristão ali se reunia para  orar, pedir orações, participar na celebração da liturgia e agradecer a Deus o dom desta presença escatológica.

Numa terra pequena, em espaço e número de habitantes, entre os séculos XV e XVII nasceram três mosteiros, que tiveram a particularidade de se expandirem para os Açores e o continente português, dando origem ao mosteiro da Conceição em São Miguel, e ao da Esperança em Lisboa.

A vida contemplativa não desapareceu no século XX, apesar da extinção do mosteiro das Mercês em 1910, mas continuou presente no grupo de quinze religiosas que, vivendo em suas famílias, permaneceram fiéis aos seus votos e se reuniam privadamente com a abadessa Madre Virgínia Brites da Paixão.

Quando em 1931 foi possível obter um pequeno edifício, na Caldeira, em Câmara de Lobos, sete religiosas e uma noviça entraram no pequeno mosteiro. Desta forma a presença espiritual de Santa Clara continuou ininterrupta na Madeira.

Em 1976 um grupo de oito Clarissas dirigiu-se para os Açores, dando origem ao mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, e em 1986 outro grupo seguiu para o Brasil, a pedido do Bispo de Nova Iguaçu, e fundou o mosteiro de Santa Clara.

Todos estes factos são descritos com fidelidade histórica neste volumoso livro que nos apraz apresentar aos leitores.

Esta obra  alia uma investigação rigorosa e vasta  ao espírito franciscano de recolher humildes violetas para não se perder o perfume nem a cor.

Nalgumas páginas sente-se a frescura e simplicidade das «Florinhas de São Francisco» embora a prioridade seja concedida aos factos históricos, narrados com precisão e  frieza de datas, números e mapas. É uma obra com rigor científico que pode ser consultada por aqueles que se dedicam à investigação histórica e também pelos místicos que amam contemplar os caminhos que prolongam a oração de Jesus «sobre o monte».

É curioso notar que a autora  deste livro é uma religiosa Clarissa, formada em História, e que, após a entrada no mosteiro, conservou o gosto e o rigor pela investigação histórica.

A sua vinda para a Madeira, por ocasião do V Centenário, foi oportuna e motivo para lhe ser pedido este trabalho que depois se apresentou mais longo e exigente do que parecia à primeira vista.

Agradecemos e louvamos o mosteiro de São Francisco de Assis, em                                          Vila Nova de Famalicão, ao qual pertence a Irmã Otília, pela permissão concedida para ausentar-se  durante tanto tempo para o Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, na Madeira. Sem a cooperação deste mosteiro não teríamos esta obra que nobilita a vida monástica em Portugal.

A Irmã Otília consultou arquivos, tanto civis como eclesiásticos, entrevistou pessoas, visitou lugares, à procura não só de documentos e recordações, mas também do perfume, quase diria de um espírito que impregnou pedras e lugares. Dos cinco séculos de Clarissas na Madeira restam documentos e as suas filhas, dois testemunhos de beleza, santidade e também debilidade humana.

Com paciência franciscana, a autora foi recolhendo com a exactidão possível a verdadeira fisionomia das pessoas e das coisas destes cinco séculos de glória e devastação, da chama do espírito e perseguição humana.

Neste livro desfilam sucessões de pessoas, quadros animados, paisagens, cores, odores, fogo do céu e lama terrestre.

As qualidades da historiadora e da mística unem-se para nos oferecer um testemunho de vida que nos emociona e comove e mostra como apesar do rolar dos séculos, a vida contemplativa não passou de moda nesta diocese.

Numa época de consumo, os conventinhos das Clarissas da Caldeira e de Santo António proclamam que o essencial consiste na vida em pobreza, solidão, contemplação da Palavra e da Eucaristia, solidão do Tabor, alegria de uma aliança invisível mas radiosa com o Deus de amor, sentido profundo de que a sua vocação as coloca no coração da Igreja. As Clarissas, a exemplo das santas contemplativas, descobriram com o seu estilo de vida que, para resolver os problemas do nosso tempo, há uma só forma de combate - o da santidade.

Quando alguém se coloca nas mãos de Deus como sua propriedade absoluta «torna-se uma dádiva de Deus para todos», colabora para a edificação do Reino de Cristo, a fim de que «Deus seja tudo em todos» (1 Cor, 15, 28).

 

 

Funchal, 29 de Setembro de 2000

 

 

 

Teodoro de Faria

Bispo do Funchal


 

Agradecimentos

 

 

As Clarissas na Madeira – Uma presença de 500 anos é fruto de uma valiosa colaboração de muitos, de uma convergência de esforços e de vontades.

No momento em que o Centro de Estudos de História do Atlântico vai proceder à sua publicação, a nossa gratidão dirige-se, antes de mais, para D. Teodoro de Faria, Prelado da diocese do Funchal, de quem, em 1997,  partiu o pedido da elaboração de uma obra histórica que ficasse a marcar o  quinto centenário da entrada das Irmãs Clarissas na Ilha da Madeira. Para Sua Excelência Reverendíssima, que sempre soube estimular-nos no prosseguimento deste trabalho, o nosso agradecimento muito sincero. A D. Teodoro de Faria queremos ainda agradecer a fineza de prefaciar esta obra e a satisfação com que aceitou o nosso pedido.

Igualmente desejamos ter uma palavra de muito apreço para com as Irmãs Clarissas do Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, nomeadamente, a Madre Maria Madalena, então Abadessa, e a Irmã Adelaide Maria da Cruz que, em seu próprio nome e das Irmãs Clarissas da Madeira, nos solicitaram e confiaram este trabalho, o qual sempre olharam com vivo interesse.

O nosso reconhecimento dirige-se, de forma particular, aos Senhores Dr José Pereira da Costa, membro da  Academia Portuguesa da História e Presidente do Centro de Estudos de História do Atlântico, no Funchal, e Doutor Alberto Vieira, também membro da Academia Portuguesa da História e da Direcção do mesmo Centro. Ao Dr. José Pereira da Costa agradecemos a amabilidade e deferência com que veio ao nosso encontro  oferecendo o Centro de Estudos de História do Atlântico para editar esta obra.  Ao  Doutor Alberto Vieira, insigne especialista da História Insular Portuguesa, que com grande satisfação apoiou esta publicação, somos devedoras de esclarecimentos  histórico-culturais e metodológicos. A nossa gratidão, pela colaboração e ajuda amiga.

Seguidamente, o nosso agradecimento vai para o Padre Doutor António Montes Moreira,  membro da Academia Portuguesa da História e ex-Professor da Universidade Católica Portuguesa, que, com dedicação e amizade  fraterna, se dignou assumir a revisão desta obra. Com a sua vasta experiência e competência histórica, a obra As Clarissas na Madeira – Uma Presença de 500 anos sai mais enriquecida. Apraz-nos expressar a tão distinto historiador franciscano a nossa grande admiração, o nosso vivo reconhecimento.

Na informatização da obra, vários colaboradores nos deram o seu valioso contributo, amigo e desinteressado. É para nós um dever prioritário mencionar o seminarista Ignácio Victor Figueira Rodrigues, estudante universitário de Câmara de Lobos, cuja dedicação foi inexcedível. Soube pôr-se ao serviço desta causa com entusiasmo e muita amizade, sacrificando, por vezes, as suas férias. Além disso, em todas as dificuldades de ordem técnica, foi ele que, ao longo de dois anos, solucionou problemas imprevisíveis. A nossa palavra cheia de apreço vai igualmente para o Sr. João Manuel, bancário no Funchal, que, com muita satisfação, durante quase quatro meses, concluído o seu horário de trabalho no Banco de Portugal, subia à Caldeira para nos dar a sua colaboração. Cumpre-nos ainda, agradecer à Irmã Adelaide Maria da Cruz, membro da comunidade do Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, que jamais se poupou a sacrifícios para nos dar o apoio possível. Além disso, diante de qualquer dificuldade, teve sempre uma palavra fraterna  e estimulante que nos fazia seguir em frente.

A nossa atenção dirige-se agora para os Arquivos, onde mais demoradamente incidiu  a nossa investigação e nos quais encontrámos sobejas manifestações de simpatia e delicadeza. Referimo-nos ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo; ao Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa, onde a Directora,  Dra Maria Luísa Abrantes foi admirável em acolhimento e dedicação;  ao Arquivo Histórico da Diocese do Funchal, devendo agradecer as facilidades e a confiança concedidas, a amabilidade e estímulo do Prelado do Funchal e bem assim a disponibilidade do Dr. Orlando de Freitas Morna; ao Arquivo Regional da Madeira, onde só encontrámos atenções e deferências. À Directora deste Arquivo, Dra Maria Fátima Araújo de Barros Ferreira, queremos expressar o nosso reconhecimento pelo auxílio dado e por todas as gentilezas de que nos rodeou. Devemos igualmente mencionar a arquivista Dra Maria Favilla Vieira da Rocha Paredes, sempre atenciosa e pronta a ajudar-nos em qualquer dificuldade, bem como os funcionários do mesmo Arquivo, nomeadamente D. Elsa Maria Mendonça Pestana Gonçalves e o Sr. Leonardo Teixeira Pereira  admiráveis na sua competência e acolhimento.

Cumpre-nos ainda mencionar a preciosa colaboração da Secretaria Regional do Turismo e Cultura na pessoa do Senhor  Secretário Regional, João Carlos Abreu, que, desde a primeira hora, apoiou as iniciativas das celebrações centenárias e a elaboração desta obra, bem como o Director  Regional de Assuntos Culturais, Dr. João Henrique Silva e os seus colaboradores. Entre estes salientamos o Dr. José de Sainz-Trueva  sempre atencioso e incansável em fornecer-nos as fotografias para esta obra, disponibilizando o fotógrafo da DRAC Rui Camacho que, por sua vez, se manifestou sempre muito amável.

Devemos ainda agradecer ao Padre Daniel António Silveira Teixeira, franciscano, a sua valiosa   colaboração, bem como à Directora do Museu de Arte Sacra, Dra Luíza Clode, o seu dedicado contributo.

E, finalmente, queremos deixar uma palavra de apreço e cordial gratidão para com as nossas Irmãs na Ordem, pelo seu apoio espiritual e dedicação fraterna. Seja-nos permitido referir o acompanhamento amigo da comunidade do Mosteiro de São Francisco, em Vila Nova de Famalicão, à qual pertencemos.

Possa esta obra ser transmissora da verdade histórica e de conceitos culturais mas também de vivência interior, de amor, de paz e bem; daquela Paz e Bem que São Francisco de Assis não se cansava de desejar aos seus irmãos no século XIII em que viveu.

Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, Caldeira-Câmara de Lobos, 4 de Outubro de 2000, festa de São Francico de Assis

 

 

Otília Rogrigues Fontoura, osc

 

 

 

 

 

           

 

 INTRODUÇÃO

 

1. Porquê este livro?

A obra As Clarissas na Madeira - Uma presença de 500 anos é a resposta fraterna a um apelo que nos foi dirigido no início de 1997. Completava-se então meio milénio de presença da Ordem de Santa Clara de Assis na Pérola do Atlântico.

As cinco primeiras clarissas saídas do real mosteiro da Conceição de Beja[1] rumo à Madeira, entre as quais se contava D. Isabel de Noronha, filha de João Gonçalves da Câmara, capitão donatário, entraram no real mosteiro de Nossa Senhora da Conceição do Funchal, mais tarde designado mosteiro de Santa Clara, exactamente a 5 de Novembro de 1497.

O mosteiro de Santa Clara, a primeira casa religiosa feminina das ilhas atlânticas, cresceu e proliferou. Tornou-se como que uma metrópole, uma casa-mãe, donde a Ordem irradiou para outras áreas geográficas. E tão radicadas ficaram as filhas de Clara de Assis nas ilhas de João Gonçalves Zarco que, em época nenhuma, nem mesmo nos períodos conturbados e violentos do Liberalismo e da República de 1910, a sua presença sofreu interrupção. As Irmãs Clarissas madeirenses encontraram sempre motivações fortes para permanecerem firmes no seu próprio viver. Nada nem ninguém, ao longo de 500 anos, conseguiu vencê-las ou afastá-las do seguimento do seu ideal.

Esta presença, que sempre se traduziu na vivência do espírito de Assis, ainda que no meio de dificuldades e de lutas, queriam as Irmãs Clarissas de hoje e a Madeira, sua terra-mãe, celebrá-la com amor e júbilo. A ideia foi ganhando vulto...

Em Fevereiro de 1997, chegou até nós um apelo: elaborar a história dos mosteiros da Madeira. Desejavam as Irmãs Clarissas madeirenses dispor de texto que lhes permitisse certa difusão da efeméride. Do acolhimento deste pedido resultou um dossier de pouco mais de cem páginas  dactilografadas que foi enviado ao mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, na Madeira.

Algum tempo depois, um novo contacto telefónico nos interpelava. D. Teodoro de Faria, prelado da diocese do Funchal, desejava a nossa presença na Ilha por dois motivos: auxiliar a dinamização das celebrações centenárias e elaborar uma obra histórica que ficasse a perpetuar o acontecimento.

Em atitude de obediência e serviço à Igreja e à Ordem, a 18 de Julho do referido ano, deixávamos Lisboa, rumo à Madeira, para responder às solicitações que nos haviam sido feitas.

 

2. A vastidão do tema

A complexidade e extensão da matéria que nos propusemos tratar, assumindo aspectos, em certos casos, antitéticos, nascidos e vividos ao longo de cinco séculos, acarretou consigo dificuldades. Essa a razão que nos levou a uma subdivisão do trabalho,  sem que, no entanto, lhe tivéssemos tirado algo da sua unidade e complementaridade. A obra foi, pois, dividida em três partes seguidas de um apêndice em que se fez uma pequena crónica das celebrações centenárias.

Na Primeira Parte visualizámos a pessoa da fundadora da Ordem, Clara de Assis, inserida no contexto histórico-social,  político e religioso da época, a origem e o carisma da Ordem e a sua difusão no mundo, com particular realce para a sua entrada e evolução em Portugal. Com esta análise, ainda que muito breve, o leitor poderá situar-se no mundo franciscano e seus matizes.

Na Segunda Parte fizemos o estudo dos três mosteiros do passado: Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição ou de Santa Clara do Funchal (1497-1890), Mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação do Funchal (1660-1890), Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês do Funchal (1667-1910).

O Funchal conheceu no passado dois mosteiros, Santa Clara e Nossa Senhora da Encarnação, que se deixaram embarcar na ideologia do tempo, sendo, mais do que genuínos mosteiros de Clara de Assis, resposta a necessidades sociais e estruturas políticas. Porém, bem perto destes, o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês,  embora nascido, como aqueles, nesse âmbito, soube subtrair-se ao pensamento e às praxes políticas e sociais do século XVII e seguintes, para ser seguidor fiel do Evangelho, concretização de um ideal cheio de valores espirituais. O mosteiro de Nossa Senhora das Mercês foi, de facto, rocha firme, liame entre o passado e o presente, viveiro das mais nobres e excelsas virtudes.

Certamente por isso, enquanto os dois mosteiros urbanistas, ou seja seguidores da Regra de Urbano IV, foram, ao ritmo do tempo, manipulados pela sociedade e suas necessidades, o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês soube mergulhar no espiritual, vivenciar o carisma franciscano, ser concretização e resposta espiritual para a humanidade da época.

Na Terceira  Parte levámos o leitor até à Caldeira, onde poderá encontrar as continuadoras do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês do Funchal e aos mosteiros de Santo António, no Lombo dos Aguiares, de Nossa Senhora das Mercês, nos Açores e de Santa Clara, em Nova Iguaçu, no Brasil, para onde irradiou a comunidade do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade nestas últimas décadas do século XX.

E, finalmente, em Apêndice, apresentámos, a gesta de amor e de louvor que foram as celebrações centenárias. Belo hino que ecoou por toda a Ilha e vibrou longe em terras do Continente, Açores e Brasil.

 

3. Fontes e Bibliografia

Penetrar no mundo franciscano do passado, palmilhar com interesse e amor os caminhos já trilhados por Clarissas de outras épocas, foi para nós trabalho entusiasmante. Se algumas vezes nos pôs diante de comportamentos dissonantes que nos interpelam vivamente, enfim, situações da fragilidade humana, no geral, Deus presidiu a esta história de luz e sombras. Este estudo deu-nos a possibilidade de contacto com um mundo religioso e social, cheio de ideais, de riquezas e matizes diversos. Para o conhecer, aprofundar e interpretar com objectividade, procurámos documentar-nos em fontes inéditas e abundante biografia impressa.

Em Lisboa, fizemos investigações nos Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Histórico Ultramarino, Arquivo da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais,  na Biblioteca  Nacional e na Biblioteca da Ajuda. Na Madeira, a nossa investigação foi longa no Arquivo Histórico da Diocese do Funchal, no Arquivo Regional, nos arquivos das Paróquias de São Sebastião e de Nossa Senhora do Carmo, em Câmara de Lobos e ainda nos arquivos dos mosteiros de Nossa Senhora da Piedade (Caldeira - Madeira), de Nossa Senhora das Mercês (Açores) e de Santo António (Funchal).

Relativamente a fontes impressas, manejámos obras de carácter geral, de História de Portugal e, sobretudo, de carácter específico, que nos ajudaram à inserção do tema; encontrámo-las nas bibliotecas de Lisboa, Nacional, da Ajuda, do Seminário Franciscano da Luz, da Cúria Provincial dos Franciscanos, dos mosteiros de Clarissas de Sintra e de Lisboa, e nas bibliotecas da Madeira, Municipal, da Direcção Regional de Assuntos Culturais, do Arquivo Regional, do Arquivo Histórico da Diocese do Funchal e do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade.

Devemos ainda mencionar as pesquisas feitas em periódicos e revistas de temas culturais, nomeadamente, no Jornal da Madeira, Diário de Notícias, (do Funchal) Diário do Governo, O Réclame, A Verdade, Correio da Madeira, O Jornal e nas revistas Islenha, Atlântico  Girão.

Na Madeira, pudemos também observar importantes fontes históricas, que directamente se ligam ao tema em questão, como sejam, monumentos, esculturas, pinturas e outras mais. No Museu de Arte Sacra tivemos a possibilidade de apreciar algumas pinturas flamengas, luso-flamengas e da escola portuguesa, que referimos na presente obra.

Julgámos, pois, ter percorrido os caminhos possíveis e essenciais para tratar o tema, polifacetado mas uno. Dada a sua vastidão e complexidade, embora procurássemos, na maioria dos casos, ir ao fundo da questão, certos problemas ficaram em aberto. Sobre eles poderão incidir posteriores investigações. Tentámos dar uma visão de conjunto fixando-nos no essencial e específico. Doutra forma o nosso trabalho seria excessivamente longo.

Apesar do cuidado que pusemos na elaboração do trabalho, não faltarão imprecisões, lacunas e equívocos que, certamente, outros investigadores virão a rectificar.

 

                                                                  *

 

Atendendo a que esta obra não se destina somente a uma elite cultural, mas se dirige a um público mais vasto, permitimo-nos, como opção metodológica, adaptar um pouco a estrutura da frase, assim como a pontuação, nas transcrições, particularmente para documentos mais antigos, tendo em vista uma melhor compreensão do texto, sem, contudo, adulterar a autenticidade do conteúdo.

 

                          

 

 


 

CONCLUSÃO

 

Quando em princípios do séc. XIII, a Igreja, porque inserida em sistemas sócio-políticos da época, conheceu uma crise de identidade evangélica, particularmente no que respeitava à pobreza, menoridade e fraternidade, Deus, condutor da história dos homens, encontrou em Francisco e Clara de Assis, os obreiros da transformação necessária. Cedo a Família Franciscana cresceu e se expandiu, verdadeiro milagre franciscano, tornando-se presente, ainda naquele século, em muitos países da Europa, entre os quais Portugal. No final do séc. XV, Francisco e Clara de Assis estavam presentes na Pérola do Atlântico.

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1. O mosteiro de Santa Clara, primeira casa religiosa feminina na Ilha da Madeira

 

Na Madeira, a nobreza insular havia ganhado prestígio e as linhagens proliferavam. Impunha-se a fundação de um mosteiro feminino, lugar de oração e de concretização de anelos espirituais, mas também, segundo a mentalidade da época, de resguardo moral contra os perigos da vida social[2].

          Solicitado por D. Manuel, duque de Beja e Senhor da Madeira, como Mestre que era da Ordem de Cristo, e pelo clero da cidade do Funchal, foi a construção do mosteiro de Santa Clara assumida pelo segundo capitão donatário da Ilha, João Gonçalves da Câmara, filho do descobridor, João Gonçalves Zarco. A Ilha tinha grande necessidade de uma casa conventual para receber as filhas da mais distinta nobreza insular, como eram as famílias dos Câmaras, dos Noronhas e tantas outras. A bula Eximiae devotionis de Sisto IV, de 4 de Maio de 1476, concedia a João Gonçalves da Câmara e sua esposa D. Maria de Noronha o direito de padroado do mosteiro, bem como a faculdade de transmiti-lo aos seus sucessores primogénitos.

As religiosas seguiam a Regra de Urbano IV, também chamada Regra Segunda de Santa Clara, que lhes dava facilidades relativamente à Primeira, a autêntica regra da fundadora. Aquela permitia que o mosteiro tivesse rendas e bens imóveis, prédios urbanos e propriedades rústicas, de cujo rendimento advinha a sua  sustentação normal, o que o  tornou ao   longo dos séculos  detentor de um  vasto património que lhe vinha da dotação do fundador, dotes das religiosas e heranças. O erro esteve no excesso. A Regra previa um governo bastante democrático e fraterno, sendo a abadessa eleita e assistida por um corpo de conselheiras, igualmente eleitas pela totalidade das religiosas capitulares, isto é, professas. Semanalmente, a abadessa devia reunir as “religiosas de véu preto” em capítulo para com elas se tomarem as decisões mais importantes.

A comunidade de Santa Clara cresceu em número e em prestígio e, assim, na primeira metade do séc. XVI, pôde irradiar para os Açores e Continente, onde fez várias fundações: o mosteiro de Nossa Senhora da Luz e o de Jesus na Praia (Ilha Terceira), o de Nossa Senhora da Conceição e de Jesus na Ribeira Grande (São Miguel) e o de Nossa Senhora da Piedade da Esperança em Lisboa . Na segunda metade do século XVII, respondendo a necessidades de vária ordem que na Ilha da Madeira se faziam sentir, o mosteiro levou a cabo duas fundações na cidade do Funchal. De facto, a nobreza insular conheceu então um surto considerável e o mosteiro de Santa Clara tornou-se insuficiente. Além disso, vivia-se na época uma ânsia de vida espiritual e de retiro, sentida por muitas jovens da Ilha. O mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação (1660) e de Nossa Senhora das Mercês (1667) foram a resposta a essa problemática. Porém, enquanto o primeiro, à semelhança do mosteiro fundador, optou pela Regra de Urbano IV e se inseriu no contexto do tempo, o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês,  tornou-se vivência e irradiação do verdadeiro carisma  contemplativo clariano-franciscano.

 

2. Dois mosteiros da Regra de Urbano IV( urbanistas): Santa Clara e Encarnação

 

Os mosteiros de Santa Clara e Nossa Senhora da Encarnação do Funchal, porque seguiam a Regra de Urbano IV, viviam os mesmos princípios religiosos. Acrescia que, para além da motivação religiosa, haviam surgido para responder a necessidades sociais – albergar as filhas dos nobres insulares, evitando a sua ida para o Continente. Tendo, pois, aspectos comuns, bem distintos do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, que seguia a Regra de Santa Clara, deles faremos uma síntese conjuntamente.

O número de religiosas professas em qualquer mosteiro não era arbitrário; impunha-se o necessário equilíbrio entre o número de professas que nele viviam e os recursos do mesmo. Era da competência dos bispos e outras autoridades fixar esse número. Para o mosteiro de Santa Clara o número de religiosas professas consignado pelo Provincial franciscano, não excedia sessenta, tendo, no entanto, capacidade para mais. Em 1720 o visitador da Custódia de São Tiago Menor, na Madeira, por patente de 30 de Junho daquele ano, aumentou-o para cem, podendo ainda haver extranumerárias. O dote em dinheiro, que inicialmente era de 400.000 réis, foi aumentando, atingindo em meados do século XIX o valor de 800.000 réis, além de outras despesas, com atrás ficou dito. No mosteiro de Nossa  Senhora da Encarnação o número de religiosas professas estipulado no início era de trinta, passando depois para sessenta, podendo haver supranumerárias que, por vezes, excediam as de número. Ao longo dos anos o total de religiosas foi aumentando, chegando, em meados do séc. XVIII a cento e setenta em Santa Clara e cento e quarenta e quatro na Encarnação.

            As religiosa deviam rezar o ofício divino, oração da Igreja por excelência, com seriedade e modéstia, solenizando com o canto as horas canónicas principais: Laudes, Vésperas e Matinas, estas rezadas ou cantadas à meia-noite. Para a celebração da missa e do ofício divino, cada mosteiro tinha o seu capelão privativo, coadjuvado pelo sacristão, vivendo em casa anexa. Para orientação espiritual da comunidade havia o confessor, de nomeação episcopal, que atendia igualmente a restante população do mosteiro. Pela Páscoa assumia a responsabilidade da desobriga das religiosas, dos servos e mais pessoal e disso notificava o prelado diocesano. Com a oração litúrgica, conjugavam a adoração ao Santíssimo Sacramento, tendo para o efeito custódias riquíssimas. Cada religiosa fazia pelo menos meia hora de adoração, sendo nesse momento uma presença da humanidade junto de Jesus Sacramentado. Havia a preocupação de rezar pelas defuntas e cumprir as “capelas dos benfeitores”. As religiosas, respondendo ao apelo do prelado da diocese, inseriam-se em devoções então significativas, como eram a confraria de Nossa Senhora do Monte, erecta em 1750, e a Irmandade das Almas. Em atitude penitencial e em união com Cristo Redentor, deveriam as religiosa levar vida ascética e mortificada. A Regra prescrevia jejuns frequentes fora dos dias festivos, dos quais a abadessa podia dispensar, em atitude de fraterna caridade, as doentes, fracas, idosas e jovens.

            As religiosas prezavam a sua cultura.

Pela análise dos registos de profissões se vê que no mosteiro de Santa Clara e da Encarnação, todas as noviças que professavam sabiam ler e escrever com perfeição. Da mesma forma, os livros de contas, de óbitos, de actas e outros, que as escrivãs nos deixaram, revelam que estamos diante de pessoas competentes, metódicas e artistas. Textos claros, tantas vezes iniciados por belíssimas letras capitulares e sempre bem ordenados.

Sabe-se também que cultivaram a música e o canto, tão necessário nas suas celebrações litúrgicas. A igreja de Santa Clara era muito concorrida pela população circunvizinha e pela mais distinta nobreza da ilha, particularmente do Funchal. Lembremos que a igreja do mosteiro da Encarnação serviu de sede paroquial de 1680 a 1745 ou algo mais, tendo, pois, as religiosas, responsabilidades litúrgicas. Uma grande parte da população acorria à Encarnação atraída pela beleza e solenidade que assumiam as celebrações.

Havia sempre o cuidado de dar às candidatas ao noviciado a cultura necessária para  poderem desempenhar com competência das suas funções e deveres conventuais. Pois que para os trabalhos domésticos havia nestes mosteiros criadas e mais pessoal, puderam as religiosas dedicar-se a artes domésticas e lavores especializados.

A confecção de uma grande variedade de bolos e gulodices afamadas deram aos mosteiros de Santa Clara e da Encarnação fama mundial. Também a pintura, o desenho, a iluminura e outras artes menores foram cultivadas com esmero. Porém, foram verdadeiramente peritas em bordados, confecção de paramentos litúrgicos, vestidos e mantos para imagens e alfaias religiosas diversas. O Museu de Arte Sacra do Funchal conserva alguns paramentos belíssimos dos séc. XVII e XVIII, bordados nos mosteiros desta cidade.  Valiosas obras de arte, distinguem-se pela riqueza dos tecidos, pela execução primorosa dos bordados a ouro e a matiz sobre seda e linho. Para o fabrico de alvas e toalhas e outras alfaias religiosas, primorosamente bordadas, as religiosas estimulavam a cultura do linho no Porto Santo, São Vicente e Curral Grande ou Curral das Freiras.

Com o andar dos séculos, factores de vária ordem contribuíram para o mau ambiente que veio a nascer nestes mosteiros, que se acentuou a partir da segunda metade do século XVIII, dando origem a uma grave crise de natureza espiritual e económica: condicionalismos sociais e políticos, tirando à jovem a possibilidade de decidir livremente o seu futuro, desvirtuaram tantas vezes a sacralidade vocacional! Na Ilha da Madeira, esta pressão social e familiar sentiu-se fortemente. Os costumes dos séculos XVI a XVIII, a prepotência dos fidalgos, a conservação dos morgadios, a necessidade de um devoto abrigo e resguardo das filhas que não casavam, a orfandade, a viuvez, foram tantas vezes razões que levaram os familiares a encerrar nos mosteiros de Santa Clara e da Encarnação as jovens que, mesmo quando não professavam, ficavam  como senhoras recolhidas com suas criadas. Acrescia que as meninas podiam ser postas nos mosteiros com sete anos, ou até menos, para ali “serem criadas para freiras”.

Que admira, pois, que, como refere o Elucidário Madeirense, “o primitivo fervor na observância das regras conventuais e antiga austeridade de vida das freiras fosse pouco a pouco resfriando”?!... Que admira que nos mosteiros de Santa Clara e da Encarnação surgissem abusos que tantas vezes preocuparam a autoridade eclesiástica?!... Que admira que algumas delas, lesadas nos seus direitos familiares e postas nos mosteiros sem vocação e contra sua vontade, ali passassem a juventude e a vida entre anseios e lágrimas? E reparemos que este desvirtuamento, esta problemática vocacional atingiram no Funchal proporções consideráveis.

             Em mosteiros de freiras fidalgas, ter criadas para o serviço comum e mesmo particular era normal; sendo nobres, mesmo no mosteiro, não abdicavam dos seus costumes aristocráticos. Os Estatutos do mosteiro da Encarnação autorizavam um número de criadas igual a um terço das religiosa professas, podendo ainda haver escravos, escravas e pessoal assalariado. Porém, o seu número foi aumentando sempre, chegando em Santa Clara a mais de cem. Os breves pontifícios, com beneplácito régio e autorização episcopal para ter criada privativa,  multiplicavam-se.

 Havia também nestes mosteiros senhoras recolhidas que, embora não podendo ou não querendo professar, neles pretendiam  viver com as suas criadas e comodidades. Em Santa Clara com as fundadoras entrara D. Constança, filha do fundador, que, não querendo professar, por ser doente, ali viveu toda a vida. Os casos foram muitos. Também acontecia que as criadas, quando idosas, podiam ficar como recolhidas ou alojadas, em cela própria, no interior do mosteiro. Para mais, generalizou-se o costume entre as senhoras piedosas da Ilha, geralmente nobres, de solicitarem breves pontifícios para entrar nos mosteiros por alguns dias para sua consolação espiritual. Podiam fazer oração com a comunidade, com ela tomar as refeições e ter recreação. Estes breves estendiam-se geralmente a dez anos, podendo as solicitadoras entrar duas, três e até seis vezes cada ano e ali ficar alguns dias, excepto no Advento e Quaresma. As ditas senhoras faziam-se acompanhar de algumas matronas e, por vezes, de uma filha e criadas. Estas entradas acentuaram-se nos séculos XVIII e XIX. Também as mães de religiosas professas obtinham licença, por igual processo, para entrar no mosteiro e visitar as suas filhas, uma vez por mês, três vezes por ano ou doutra forma, pelo espaço de três dias, acompanhadas de filhas, tias, sobrinhas e cunhadas,  por “amor maternal e para consolação espiritual”.

Além disso, para satisfazer a necessidades sociais da época e por determinação régia, os mosteiros recebiam moças nobres, como as designam os documentos, com fins educativos. Esforçava-se a comunidade por dar-lhes uma formação religiosa, cultural e feminina primorosa e completa. Formadas dentro dos princípios da sã moral, ficavam capazes de um comportamento exemplar no meio da sociedade. Para elas havia sempre uma mestra que, além da formação religiosa, lhes ministrava conhecimentos culturais, artísticos e domésticos. Aprendiam a ler e a escrever, recebiam lições de música e de artes domésticas, ficando com uma fina educação. Ficavam peritas em culinária, particularmente em doces e outros manjares, bordados, artes decorativas, regras de cortesia. Ser educada em Santa Clara ou na Encarnação era, na Madeira, requinte e distinção. Porém, a sua presença entre as religiosas nem sempre era positiva, dado o seu gosto pelas vaidades e encantos da sociedade a que pertenciam. A seu respeito muitas queixas chegaram aos réis.

  O século XVII foi de acentuada prosperidade para os mosteiros de Santa Clara e Encarnação, o que lhes permitiu a realização de grandes obras e melhoramentos. Até meados do século XVIII os rendimentos eram abundantes, a opulência impunha-se, as comunidades cresceram, atingindo o número máximo de religiosas. A partir de então, com as leis  pombalinas que, cerceando direitos e privilégios, lhes reduziram os rendimentos, a má administração, as más colheitas e as dificuldades de exportação, nasceu uma crise económica que ninguém conseguiu deter. O défice aumentava de ano para ano e a falta de subsistência nos mosteiros, na Encarnação mais do que em Santa Clara, fez-se sentir.

A situação religiosa não era melhor. Com o séc. XVIII nasceram novas ideias e novas mentalidades. O cientismo, com todo o seu gosto pelo saber, o criticismo agnóstico, que se traduzia na falta de fé, o secularismo, o exagerado exibicionismo, iam dominando a sociedade e tomando o lugar do sagrado. Toda esta ideologia foi entrando nos mosteiros, traduzindo-se em formas concretas: as freiras deixaram o burel cor de cinza e vestiram-se de seda azul, adoptaram modas mundanas, entraram num letargo espiritual, que se traduziu na decadência da virtude. e da disciplina regular, males que as cartas de D. Gaspar Afonso da Costa Brandão e D. José da Costa Torres, bispos do Funchal na segunda metade do século, deixam transparecer. Tentando melhorar um pouco esta situação, mais de uma vez as autoridades religiosas e civis quiseram unir a comunidade da Encarnação à de Santa Clara, onde havia mais ordem. Chegou mesmo a haver breve de Pio VII, datado de 25 de Setembro de 1807, que teve o beneplácito régio no mesmo ano, determinando essa união. Um acontecimento de natureza político-militar, a ocupação da Ilha por tropas britânicas, veio forçar a fusão das duas comunidades, mas por alguns anos somente. Em 1814 as religiosas da Encarnação regressaram ao seu mosteiro.

A crise económica e espiritual que se vinha fazendo sentir agravou-se nos dois conventos que, alguns anos depois, sucumbiram sob o peso das leis liberais.

 

3. O mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, encarnação do genuíno espírito da Ordem

 

Concretizando o que já ficou dito, o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês foi a resposta a uma ânsia espiritual. Nele entravam “nobres e pobres” que, vivendo sob a Regra de Santa Clara, jamais poderiam aceitar bens de raiz. Viveriam, pois, com simplicidade e pobreza, ajudadas do seu trabalho e da generosidade da população do bispado, conforme o estipulado na petição de Gaspar Berenguer e no alvará régio de 20 de Dezembro de 1663.

          Este mosteiro foi no Funchal verdadeira encarnação do genuíno espírito da Ordem de Santa Clara. Da Madre de Deus de Lisboa recebera os Estatutos, os usos e costumes, isto é, a reforma de Santa Coleta, clarissa francesa que, havendo captado o verdadeiro espírito de Santa Clara de Assis, empreendera, na primeira metade do século XV, uma importante reforma, no sentido de fazer voltar os mosteiros ao genuíno carisma da Ordem. As religiosas das Mercês seguiam a Regra de Santa Clara, também chamada Primeira Regra, que lhes mereceu a designação de capuchas, como ficou explicitado na Primeira Parte desta obra, apelativo que o bom povo madeirense normalmente usava no diminutivo.

Com uma vida de oração profunda,  austeridade penitencial e silêncio, indispensável à vida de união com Deus, associavam as religiosas capuchas sentimentos fraternos profundos e delicados, que faziam daquela comunidade um oásis de paz e de amor.

O número de religiosas autorizado para o mosteiro das Mercês era de vinte e uma, sendo mais tarde aumentado para vinte e quatro, podendo haver extranumerárias. Jamais a comunidade ultrapassou o número de  trinta religiosas, o que contribuiu para o equilíbrio económico que sempre nele se verificou. As candidatas, para auxílio da pobreza da comunidade, entravam com o dote de 400.000 réis, valor que mais tarde passou para 800.000, dado à Sacristia do mosteiro. Contudo, cada caso era analisado de per si, para que jamais essa exigência pudesse obstar à entrada das jovens que, movidas por inspiração divina, livre e voluntariamente desejassem professar no mosteiro.

           A comunidade assumia com fraterno carinho as suas doentes e idosas, às quais nada devia faltar. Pelos livros de contas se detecta o amor e a solicitude de que eram alvo. Em certos meses e mesmo em certos anos, as despesas com as doentes era sensivelmente metade das havidas com a comunidade. Vivia-se com amor a exortação de Santa Clara: “(...) que a abadessa providencie para que nada falte às doentes (...). Todas as Irmãs devem cuidar delas e servi-las como desejariam ser servidas, caso se encontrassem na mesma situação”[3].

A entrada de leigos no mosteiro das Mercês fazia-se com a conveniente moderação, e só nos casos justificáveis e autorizados. E como era palpável a santidade das religiosas, os leigos facilmente detectavam a profundidade de vida da comunidade. Até mesmo as moças educandas das Mercês, que foram poucas, diante da austeridade de vida, da virtude, espírito de sacrifício e fraterna caridade, se sentiam movidas a pedir a sua admissão no noviciado, pois desejavam ser religiosas professas.

Jamais houve criadas entre as religiosas das Mercês, mas somente alguns assalariados e um moço para certos trabalhos da cerca ou carretos. Trabalhar era uma graça, na expressão de Santa Clara; viver do trabalho nos mosteiros do séc. XVII e XVIII era viver em pobreza. No mosteiro das Mercês trabalhava-se. Para além das tarefas domésticas, as Irmãs dedicavam-se à confecção de hóstias, artes decorativas, pintura e desenho, confecção de toalhas, alvas  e paramentos ricos e belíssimos. Entre as religiosas capuchas, nobres ou pobres, tornadas Irmãs, vivia-se em fraterna igualdade, trabalhando com simplicidade e alegria; jamais se fez ostentação de títulos ou brasões; e, no entanto, ali viveram religiosas fidalgas da melhor nobreza madeirense.

O mosteiro das Mercês não conheceu ao longo de mais de duzentos anos crises económicas e espirituais. Tudo era administrado com equilíbrio. Foi, podemos afirmá-lo, um oásis de amor e felicidade, bem semelhante ao pequeno mosteiro de São Damião em Assis, onde Santa Clara viveu na primeira metade do séc. XIII.

Quando, em 1788, a rainha D. Maria I pediu informações sobre os mosteiros do Funchal, D. José da Costa Torres, enquanto lamentava o estado dos mosteiros da Encarnação e Santa Clara, assim falava ao ministro Martinho de Mello e Castro: “Quanto ao mosteiro das Mercês, respondendo ao que Sua Majestade me ordena, direi que floresce neste mosteiro a disciplina regular e religiosa (...). com grande edificação desta cidade. Há nele refeitório comum e vida comum, estão em vigor as práticas essenciais da vida religiosa. Nem agora têm nem nunca tiveram criadas, e educandas houve algumas que até professaram”. Mais diz: “As Preladas e a comunidade cuidam sempre de admitir ao noviciado e principalmente à profissão só aquelas pessoas que mostrarem verdadeira vocação”; por isso, acrescenta o bispo do Funchal, “há no convento tanta observância, fraternidade e santa paz”[4].

Terminaremos esta digressão comparativa transcrevendo do Correio da Madeira de 5 de Março de 1827: “Os brasões haviam ficado com as freiras fidalgas de Santa Clara; a opulência brilharia na Encarnação. No fundo do vale humilde e selva viviam as capuchinhas das Mercês, pobres e humildes. Mas o perfume das suas virtudes evolava-se do convento e vinha embalsamar a cidade e os campos da Ilha”[5].

 

4. Resposta a leis anti-religiosas e anticongreganistas

 

Triunfante o Liberalismo, as casas religiosas femininas entraram em lenta agonia. Proibidas as profissões e a admissão de noviças, as comunidades foram envelhecendo, tomando o Estado conta dos edifícios à medida que morria a última professa. Os mosteiros da Encarnação e de Santa Clara, diante das  leis liberais, porque sem vitalidade, resignam-se a morrer. A última professa da Encarnação, a Madre  Felisberta Cândida de São Bernardo, morreu em 24 de Outubro de 1890 e logo a 15 de Novembro seguinte faleceu a Madre Maria Amália do Patrocínio, a última religiosa professa de Santa Clara; de imediato, o Estado tomou posse dos dois mosteiros urbanistas, como fazia com todos os do país.

Muito diferente foi a atitude das religiosas do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês. Porque cheio de força espiritual e estimado por todos os madeirenses, desde as autoridades ao povo, bom e simples, as religiosas iam solicitando do rei licença para permanecer no mosteiro. Os requerimentos, assinados por todas e informados pela autoridade civil, sempre tiveram resposta favorável. A 19 de Abril de 1895 o governador civil do Funchal, António de Sousa e Silva, assim apoiava um requerimento: “informando esta petição, cumpre-me dizer que é exacto tudo quanto as requerentes alegam (...). e que, pela sua conduta moral e religiosa, se tornam dignas de ser atendidas”[6].

O mosteiro manteve-se activo e fervoroso. As candidatas continuaram a entrar,  as profissões e as eleições para os diversos cargos sucediam-se. Em 1910, quando os republicanos, ordenaram a expulsão, a comunidade estava bem organizada e com vitalidade espiritual. Nesta longa caminhada de 1834 a 1910, o povo madeirense, que muito as admirava e amava, com nada lhes faltou. As ofertas sucediam-se, o carinho redobrava.

Logo após a expulsão, a 13 de Outubro de 1910,  as religiosas procuraram organizar-se. Sete estabeleceram-se na Palmeira, muito perto da capela de Nossa Senhora das Boa Hora; um grupo de três membros fixou-se na Caldeira ao lado da capela de Nossa Senhora da Piedade; cinco recolheram à casa paterna.

 

5.  A comunidade de Nossa Senhora das Mercês reorganizada na Caldeira

 

A Madre Virgínia Brites da Paixão, abadessa do mosteiro à data da expulsão, que se havia estabelecido em Santo António, no Lombo dos Aguiares, pois a sua presença nos grupos poderia despertar a atenção das autoridades, descia muitas vezes a visitar as suas Irmãs, exortando-as à fidelidade e desenvolvendo nelas a esperança da reorganização da vida conventual. Fortalecidas pela oração e o amor fraterno, estas boas Irmãs mantinham bem acesa a chama do amor ao Senhor e à humanidade, pela qual oravam e se sacrificavam. A 16 de Abril de 1931, as oito Irmãs sobreviventes, acompanhadas de duas candidatas, entraram felizes no mosteiro recém-construído, o mosteiro de Nossa Senhora da Piedade.

Cumpre-nos afirmar, e com júbilo o fazemos, que as religiosas das Mercês escreveram  páginas de heroísmo, de tenacidade e valentia a toda a prova. Nada nem ninguém conseguiu afastá-las do seu ideal. Caso ímpar na história da Ordem de Santa Clara em Portugal.

Agora, ali estavam  na Caldeira. Sob o meigo olhar de Nossa Senhora da Piedade, a comunidade cresceu, tornou-se árvore frondosa de Paz e Bem e irradiou. Os mosteiros de Santo António no Funchal, de Nossa Senhora das Mercês nos Açores e de Santa Clara em Nova Iguaçu, no Brasil, são três fundações já levadas a cabo por aquela pequena, mas boa semente.

A celebrar esta presença, esta gesta de amor,  vibrou a Ordem, vibrou a Igreja, vibraram as autoridades e o povo madeirense, ao longo de 1997-1998 para, de mãos dadas e coração jubiloso, entoar um hino de louvor e gratidão por quinhentos anos de presença da Ordem de Santa Clara de Assis na Ilha da Madeira.       

 

 

 

 

APÊNDICE

 

CRÓNICA

 

DAS CELEBRAÇÕES CENTENÁRIAS DE QUINHENTOS ANOS

DE PRESENÇA DE ORDEM DE SANTA CLARA DE ASSIS NA MADEIRA

 

 

 

 

1. Nascimento da ideia

 

          1.1. Constituição de uma comissão organizadora

 

A 5 de Novembro de 1497, cinco Clarissas saídas do real mosteiro da Conceição de Beja, acompanhadas de algumas candidatas, entraram no mosteiro de Santa Clara do Funchal recém construído. Nascia a Ordem de Santa Clara de Assis nas Ilhas de Zarco. Desde então até hoje, a sua presença não conheceu interrupções. Nem as leis liberais nem a República de 1910 conseguiram extinguir a vida da Ordem na Ilha. Este facto, esta gesta de amor, queriam as Irmãs Clarissas madeirenses celebrá-la com entusiasmo. Não era facto que pudesse passar em silêncio.

Manifestado este  desejo a D. Teodoro de Faria, prelado da diocese do Funchal, a ideia mereceu a sua aprovação e, ao longo das celebrações,  a mais carinhosa dedicação.

A grande dinamizadora das celebrações centenárias foi a Irmã Adelaide Maria da Cruz. Não houve dificuldade que a fizesse parar ou recuar. Para auxiliar à realização destas celebrações e assumir todo o processo histórico a elas relativo, D. Teodoro de Faria e as Irmãs Clarissas madeirenses solicitaram a presença da Irmã Otília Rodrigues Fontoura, então no mosteiro de São Francisco de Assis, em Vila Nova de Famalicão. Obtida a necessária autorização, a 18 de Julho de 1997  deixou o Continente e fez-se presente entre as suas Irmãs madeirenses.

A preparação das celebrações centenárias começou. Do primeiro encontro de D. Teodoro de Faria com a comunidade do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, em fins de Setembro, nasceu a organização de uma comissão que iria assumir  a elaboração de um programa e todo o desenvolvimento das celebrações centenárias. Constituída por três membros: Frei Daniel António Silveira Teixeira, superior da  fraternidade franciscana da Penha de França, no Funchal, Irmã Adelaide Maria da Cruz, membro da comunidade de Nossa Senhora da Piedade e pela Irmã Otília Rodrigues Fontoura. A comissão lançou-se imediatamente ao trabalho. Depois de algumas reuniões estava esboçado um programa que devia ser levado ao conhecimento do prelado do Funchal:

 

1º. Anúncio do lançamento do livro As Clarissas na Madeira, uma presença de 500 anos, da autoria da Irmã Otília Rodrigues Fontoura.

 

2º. Organização de uma comissão de nomeação episcopal, destinada a preparar a introdução do processso de beatificação da Madre Virgínia Brites da Paixão.

 

3º. Apresentação de uma peça teatral histórico-medieval da vida de Santa Clara de Assis, da autoria de Frei Jucundo Paglinara, franciscano capuchinho italiano, e da Irmã Otília Rodrigues Fontoura[7].

 

4º. Preparação de um pequeno historial dos mosteiros, para primeira informação e distribuição à população.

5º. Exposição do património artístico do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês do Funchal, existente nos mosteiros de Nossa Senhora da Piedade e de Santo António, e de algumas peças de outra procedência, cuja autenticidade era bem conhecida.

 

6º. Organização de um tríduo preparatório a realizar em Novembro na igreja de Santa Clara do Funchal.

 

7º. Solene celebração eucarística no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade em Câmara de Lobos.

 

Este programa, com algumas ligeiras adaptações, mereceu a aprovação de D. Teodoro de Faria que, em reunião havida na Câmara Eclesiástica, a que ele próprio presidiu, se mostrou entusiasmado na celebração condigna desta efeméride. Participaram nesta reunião, além dos membros da comissão organizadora, o P. Carlos Duarte Lino Nunes, secretário episcopal, P. Adelino Macedo de Castro, pároco do Carmo, em Câmara de Lobos, Madre Maria Madalena, abadessa do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, e Madre Maria Angélica do Menino Jesus. Da análise do programa apresentado resultou um programa definitivo e tornado público: