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AS CLARISSAS NA MADEIRA. UMA PRESENÇA DE 500 ANOS EDIÇÃO CEHA CENTRO DE
ESTUDOS DE HISTÓRIA DO ATLÂNTICO FUNCHAL, 2001 PP. 579 pvp: 14,96
EUROS |
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Texto do volume em formato pdf: Clarissas
na Madeira |
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PLANO GERAL Prefácio Agradecimentos Introdução PRIMEIRA PARTE Origem, carisma e difusão da Ordem de Santa Clara de Assis SEGUNDA PARTE Mosteiros da Madeira no passado Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição ou de Santa Clara (Funchal) Mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação (Funchal) Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês (Funchal) TERCEIRA PARTE Mosteiros da Madeira no presente Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade (Caldeira - Câmara de Lobos) Mosteiro de Santo António (Lombo dos Aguiares - Funchal) APÊNDICE Crónica das Celebrações Centenárias |
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Prefácio O V Centenário da Ordem de Santa Clara, na Madeira, comemorado em
Novembro de 1997, teve, entre outras belas iniciativas, a investigação
paciente e cuidada da Irmã Otília Rodrigues Fontoura, osc, em ordem à
publicação do livro As Clarissas na Madeira - Uma presença de 500 anos». Fazia falta uma obra que apresentasse a riqueza espiritual e cultural
da Ordem de Santa Clara nesta diocese, tanto mais que as pedras dos
monumentos deixaram de falar e as que restam apresentam outra linguagem. É doloroso constatar que todos os mosteiros antigos relacionados com
a Ordem Franciscana na Madeira tenham desaparecido, três destruídos, e o
único que resta, o de Santa Clara, só conserva o nome da fundadora mas sem
Clarissas. O livro da Irmã Otília apresenta a Madeira como uma terra que sempre
foi contemplativa, nela sempre houve pessoas apaixonadas por Deus que
encontraram na oração e no silêncio uma forma especial de viver e exprimir o
mistério da Páscoa de Jesus Cristo. Embora a «esponsalidade» seja uma dimensão de toda a Igreja, como
afirma o Papa João Paulo II, «a vida consagrada é a sua imagem viva, manifestando
do melhor modo a tensão para o único Esposo». Desde o início do povoamento da Madeira, o povo cristão sentiu a
necessidade da presença deste sinal escatológico, «honra da Igreja e fonte de
graças celestes». (João Paulo II, Verbi Sponsa, 1). A bula do Papa Sixto IV, de 04 de Maio de 1476, autorizando a
vinda das Clarissas de Beja para o Funchal, correspondia à vocação de algumas
jovens madeirenses se consagrarem a Deus, logo nos primórdios da ocupação das
ilhas. A comunidade cristã sempre dedicou às Clarissas de clausura uma
especial estima e simpatia, consciente de que a sua presença realizava em
grau eminente a vocação contemplativa de todo o povo cristão. Os mosteiros erguiam-se dentro da cidade, mas suficientemente
afastados dos ruídos e agitação comercial, e constituíam, com as suas fortes
estruturas em lugares elevados, cidades sobre o monte, espaços de
recolhimento que convidavam à oração e silêncio. Eram sentinelas do espírito
que vigiavam dia e noite e o povo cristão ali se reunia para
orar, pedir orações, participar na celebração da liturgia e agradecer a Deus
o dom desta presença escatológica. Numa terra pequena, em espaço e número de habitantes, entre os
séculos XV e XVII nasceram três mosteiros, que tiveram a particularidade de
se expandirem para os Açores e o continente português, dando origem ao
mosteiro da Conceição em São Miguel, e ao da Esperança em Lisboa. A vida contemplativa não desapareceu no século XX, apesar da extinção
do mosteiro das Mercês em 1910, mas continuou presente no grupo de quinze
religiosas que, vivendo em suas famílias, permaneceram fiéis aos seus votos e
se reuniam privadamente com a abadessa Madre Virgínia Brites da Paixão. Quando em 1931 foi possível obter um pequeno edifício, na Caldeira,
em Câmara de Lobos, sete religiosas e uma noviça entraram no pequeno
mosteiro. Desta forma a presença espiritual de Santa Clara continuou
ininterrupta na Madeira. Em 1976 um grupo de oito Clarissas dirigiu-se para os Açores, dando
origem ao mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, e em 1986 outro grupo seguiu
para o Brasil, a pedido do Bispo de Nova Iguaçu, e fundou o mosteiro de Santa
Clara. Todos estes factos são descritos com fidelidade histórica neste
volumoso livro que nos apraz apresentar aos leitores. Esta obra alia uma investigação rigorosa e vasta ao
espírito franciscano de recolher humildes violetas para não se perder o
perfume nem a cor. Nalgumas páginas sente-se a frescura e simplicidade das «Florinhas de
São Francisco» embora a prioridade seja concedida aos factos históricos,
narrados com precisão e frieza de datas, números e mapas. É uma obra
com rigor científico que pode ser consultada por aqueles que se dedicam à
investigação histórica e também pelos místicos que amam contemplar os
caminhos que prolongam a oração de Jesus «sobre o monte». É curioso notar que a autora deste livro é uma religiosa
Clarissa, formada em História, e que, após a entrada no mosteiro, conservou o
gosto e o rigor pela investigação histórica. A sua vinda para a Madeira, por ocasião do V Centenário, foi oportuna
e motivo para lhe ser pedido este trabalho que depois se apresentou mais
longo e exigente do que parecia à primeira vista. Agradecemos e louvamos o mosteiro de São Francisco de Assis,
em
Vila Nova de Famalicão, ao qual pertence a Irmã Otília, pela permissão
concedida para ausentar-se durante tanto tempo para o Mosteiro de Nossa
Senhora da Piedade, na Madeira. Sem a cooperação deste mosteiro não teríamos
esta obra que nobilita a vida monástica em Portugal. A Irmã Otília consultou arquivos, tanto civis como eclesiásticos,
entrevistou pessoas, visitou lugares, à procura não só de documentos e
recordações, mas também do perfume, quase diria de um espírito que impregnou
pedras e lugares. Dos cinco séculos de Clarissas na Madeira restam documentos
e as suas filhas, dois testemunhos de beleza, santidade e também debilidade
humana. Com paciência franciscana, a autora foi recolhendo com a exactidão
possível a verdadeira fisionomia das pessoas e das coisas destes cinco
séculos de glória e devastação, da chama do espírito e perseguição humana. Neste livro desfilam sucessões de pessoas, quadros animados,
paisagens, cores, odores, fogo do céu e lama terrestre. As qualidades da historiadora e da mística unem-se para nos oferecer
um testemunho de vida que nos emociona e comove e mostra como apesar do rolar
dos séculos, a vida contemplativa não passou de moda nesta diocese. Numa época de consumo, os conventinhos das Clarissas da Caldeira e de
Santo António proclamam que o essencial consiste na vida em pobreza, solidão,
contemplação da Palavra e da Eucaristia, solidão do Tabor, alegria de uma
aliança invisível mas radiosa com o Deus de amor, sentido profundo de que a sua
vocação as coloca no coração da Igreja. As Clarissas, a exemplo das santas
contemplativas, descobriram com o seu estilo de vida que, para resolver os
problemas do nosso tempo, há uma só forma de combate - o da santidade. Quando alguém se coloca nas mãos de Deus como sua propriedade
absoluta «torna-se uma dádiva de Deus para todos», colabora para a edificação
do Reino de Cristo, a fim de que «Deus seja tudo em todos» (1 Cor, 15, 28). Funchal, 29 de Setembro de 2000
Teodoro de Faria Bispo do Funchal Agradecimentos As Clarissas na Madeira – Uma presença de 500 anos é fruto de uma valiosa colaboração de muitos, de uma convergência de esforços e de vontades.No momento em que
o Centro de Estudos de História do Atlântico vai proceder à sua publicação, a
nossa gratidão dirige-se, antes de mais, para D. Teodoro de Faria, Prelado da
diocese do Funchal, de quem, em 1997, partiu o pedido da elaboração de
uma obra histórica que ficasse a marcar o quinto centenário da entrada
das Irmãs Clarissas na Ilha da Madeira. Para Sua Excelência Reverendíssima,
que sempre soube estimular-nos no prosseguimento deste trabalho, o nosso
agradecimento muito sincero. A D. Teodoro de Faria queremos ainda agradecer a
fineza de prefaciar esta obra e a satisfação com que aceitou o nosso pedido. Igualmente
desejamos ter uma palavra de muito apreço para com as Irmãs Clarissas do
Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, nomeadamente, a Madre Maria Madalena,
então Abadessa, e a Irmã Adelaide Maria da Cruz que, em seu próprio nome e
das Irmãs Clarissas da Madeira, nos solicitaram e confiaram este trabalho, o
qual sempre olharam com vivo interesse. O nosso
reconhecimento dirige-se, de forma particular, aos Senhores Dr José Pereira
da Costa, membro da Academia Portuguesa da História e Presidente do
Centro de Estudos de História do Atlântico, no Funchal, e Doutor Alberto
Vieira, também membro da Academia Portuguesa da História e da Direcção do
mesmo Centro. Ao Dr. José Pereira da Costa agradecemos a amabilidade e
deferência com que veio ao nosso encontro oferecendo o Centro de
Estudos de História do Atlântico para editar esta obra. Ao Doutor
Alberto Vieira, insigne especialista da História Insular Portuguesa, que com
grande satisfação apoiou esta publicação, somos devedoras de
esclarecimentos histórico-culturais e metodológicos. A nossa gratidão,
pela colaboração e ajuda amiga. Seguidamente, o nosso agradecimento vai para o Padre Doutor António
Montes Moreira, membro da Academia Portuguesa da História e
ex-Professor da Universidade Católica Portuguesa, que, com dedicação e
amizade fraterna, se dignou assumir a revisão desta obra. Com a sua
vasta experiência e competência histórica, a obra As Clarissas na Madeira
– Uma Presença de 500 anos sai mais enriquecida. Apraz-nos expressar a
tão distinto historiador franciscano a nossa grande admiração, o nosso vivo
reconhecimento. Na informatização da obra, vários colaboradores nos deram o seu
valioso contributo, amigo e desinteressado. É para nós um dever prioritário
mencionar o seminarista Ignácio Victor Figueira Rodrigues, estudante
universitário de Câmara de Lobos, cuja dedicação foi inexcedível. Soube
pôr-se ao serviço desta causa com entusiasmo e muita amizade, sacrificando,
por vezes, as suas férias. Além disso, em todas as dificuldades de ordem
técnica, foi ele que, ao longo de dois anos, solucionou problemas
imprevisíveis. A nossa palavra cheia de apreço vai igualmente para o Sr. João
Manuel, bancário no Funchal, que, com muita satisfação, durante quase quatro
meses, concluído o seu horário de trabalho no Banco de Portugal, subia à
Caldeira para nos dar a sua colaboração. Cumpre-nos ainda, agradecer à Irmã
Adelaide Maria da Cruz, membro da comunidade do Mosteiro de Nossa Senhora da
Piedade, que jamais se poupou a sacrifícios para nos dar o apoio possível.
Além disso, diante de qualquer dificuldade, teve sempre uma palavra
fraterna e estimulante que nos fazia seguir em frente. A nossa atenção dirige-se agora para os Arquivos, onde mais
demoradamente incidiu a nossa investigação e nos quais encontrámos
sobejas manifestações de simpatia e delicadeza. Referimo-nos ao Arquivo
Nacional da Torre do Tombo; ao Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa, onde
a Directora, Dra Maria Luísa Abrantes foi admirável em acolhimento e
dedicação; ao Arquivo Histórico da Diocese do Funchal, devendo
agradecer as facilidades e a confiança concedidas, a amabilidade e estímulo
do Prelado do Funchal e bem assim a disponibilidade do Dr. Orlando de Freitas
Morna; ao Arquivo Regional da Madeira, onde só encontrámos atenções e
deferências. À Directora deste Arquivo, Dra Maria Fátima Araújo de Barros
Ferreira, queremos expressar o nosso reconhecimento pelo auxílio dado e por
todas as gentilezas de que nos rodeou. Devemos igualmente mencionar a
arquivista Dra Maria Favilla Vieira da Rocha Paredes, sempre atenciosa e
pronta a ajudar-nos em qualquer dificuldade, bem como os funcionários do
mesmo Arquivo, nomeadamente D. Elsa Maria Mendonça Pestana Gonçalves e o Sr.
Leonardo Teixeira Pereira admiráveis na sua competência e acolhimento. Cumpre-nos ainda mencionar a preciosa colaboração da Secretaria
Regional do Turismo e Cultura na pessoa do Senhor Secretário Regional,
João Carlos Abreu, que, desde a primeira hora, apoiou as iniciativas das
celebrações centenárias e a elaboração desta obra, bem como o Director
Regional de Assuntos Culturais, Dr. João Henrique Silva e os seus
colaboradores. Entre estes salientamos o Dr. José de Sainz-Trueva sempre
atencioso e incansável em fornecer-nos as fotografias para esta obra,
disponibilizando o fotógrafo da DRAC Rui Camacho que, por sua vez, se
manifestou sempre muito amável. Devemos ainda agradecer ao Padre Daniel António Silveira Teixeira,
franciscano, a sua valiosa colaboração, bem como à Directora do
Museu de Arte Sacra, Dra Luíza Clode, o seu dedicado contributo. E, finalmente, queremos deixar uma palavra de apreço e cordial
gratidão para com as nossas Irmãs na Ordem, pelo seu apoio espiritual e
dedicação fraterna. Seja-nos permitido referir o acompanhamento amigo da
comunidade do Mosteiro de São Francisco, em Vila Nova de Famalicão, à qual
pertencemos. Possa esta obra ser transmissora da verdade histórica e de conceitos
culturais mas também de vivência interior, de amor, de paz e bem; daquela Paz
e Bem que São Francisco de Assis não se cansava de desejar aos seus
irmãos no século XIII em que viveu. Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, Caldeira-Câmara de Lobos, 4 de
Outubro de 2000, festa de São Francico de Assis Otília Rogrigues
Fontoura, osc |
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INTRODUÇÃO 1. Porquê este livro? A obra As Clarissas na Madeira - Uma presença de 500 anos é a resposta
fraterna a um apelo que nos foi dirigido no início de 1997. Completava-se
então meio milénio de presença da Ordem de Santa Clara de Assis na Pérola do
Atlântico. As cinco primeiras clarissas saídas do real mosteiro da Conceição de
Beja[1] rumo à Madeira, entre as quais se
contava D. Isabel de Noronha, filha de João Gonçalves da Câmara, capitão
donatário, entraram no real mosteiro de Nossa Senhora da Conceição do
Funchal, mais tarde designado mosteiro de Santa Clara, exactamente a 5 de
Novembro de 1497. O mosteiro de Santa Clara, a primeira casa religiosa feminina das
ilhas atlânticas, cresceu e proliferou. Tornou-se como que uma metrópole, uma
casa-mãe, donde a Ordem irradiou para outras áreas geográficas. E tão radicadas
ficaram as filhas de Clara de Assis nas ilhas de João Gonçalves Zarco que, em
época nenhuma, nem mesmo nos períodos conturbados e violentos do Liberalismo
e da República de 1910, a sua presença sofreu interrupção. As Irmãs Clarissas
madeirenses encontraram sempre motivações fortes para permanecerem firmes no
seu próprio viver. Nada nem ninguém, ao longo de 500 anos, conseguiu
vencê-las ou afastá-las do seguimento do seu ideal. Esta presença, que sempre se traduziu na vivência do espírito de
Assis, ainda que no meio de dificuldades e de lutas, queriam as
Irmãs Clarissas de hoje e a Madeira, sua terra-mãe, celebrá-la com amor e
júbilo. A ideia foi ganhando vulto... Em Fevereiro de 1997, chegou até nós um apelo: elaborar a história
dos mosteiros da Madeira. Desejavam as Irmãs Clarissas madeirenses dispor de
texto que lhes permitisse certa difusão da efeméride. Do acolhimento deste
pedido resultou um dossier de pouco mais de cem páginas dactilografadas
que foi enviado ao mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, na Madeira. Algum tempo depois, um novo contacto telefónico nos interpelava. D.
Teodoro de Faria, prelado da diocese do Funchal, desejava a nossa presença na
Ilha por dois motivos: auxiliar a dinamização das celebrações centenárias e
elaborar uma obra histórica que ficasse a perpetuar o acontecimento. Em atitude de obediência e serviço à Igreja e à Ordem, a 18 de Julho
do referido ano, deixávamos Lisboa, rumo à Madeira, para responder às
solicitações que nos haviam sido feitas. 2. A vastidão do tema A complexidade e extensão da matéria que nos propusemos tratar,
assumindo aspectos, em certos casos, antitéticos, nascidos e vividos ao longo
de cinco séculos, acarretou consigo dificuldades. Essa a razão que nos levou
a uma subdivisão do trabalho, sem que, no entanto, lhe tivéssemos
tirado algo da sua unidade e complementaridade. A obra foi, pois, dividida em
três partes seguidas de um apêndice em que se fez uma pequena crónica das
celebrações centenárias. Na Primeira Parte visualizámos a pessoa da fundadora da Ordem,
Clara de Assis, inserida no contexto histórico-social, político e
religioso da época, a origem e o carisma da Ordem e a sua difusão no mundo,
com particular realce para a sua entrada e evolução em Portugal. Com esta
análise, ainda que muito breve, o leitor poderá situar-se no mundo
franciscano e seus matizes. Na Segunda Parte fizemos o estudo dos três mosteiros do
passado: Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição ou de Santa Clara do Funchal
(1497-1890), Mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação do Funchal
(1660-1890), Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês do Funchal (1667-1910). O Funchal conheceu no passado dois mosteiros, Santa Clara e Nossa
Senhora da Encarnação, que se deixaram embarcar na ideologia do tempo, sendo,
mais do que genuínos mosteiros de Clara de Assis, resposta a necessidades
sociais e estruturas políticas. Porém, bem perto destes, o mosteiro de Nossa
Senhora das Mercês, embora nascido, como aqueles, nesse âmbito, soube
subtrair-se ao pensamento e às praxes políticas e sociais do século XVII e
seguintes, para ser seguidor fiel do Evangelho, concretização de um ideal
cheio de valores espirituais. O mosteiro de Nossa Senhora das Mercês foi, de
facto, rocha firme, liame entre o passado e o presente, viveiro das mais
nobres e excelsas virtudes. Certamente por isso, enquanto os dois mosteiros urbanistas, ou seja
seguidores da Regra de Urbano IV, foram, ao ritmo do tempo, manipulados pela
sociedade e suas necessidades, o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês soube
mergulhar no espiritual, vivenciar o carisma franciscano, ser concretização e
resposta espiritual para a humanidade da época. Na Terceira Parte levámos o leitor até à
Caldeira, onde poderá encontrar as continuadoras do mosteiro de Nossa Senhora
das Mercês do Funchal e aos mosteiros de Santo António, no Lombo dos
Aguiares, de Nossa Senhora das Mercês, nos Açores e de Santa Clara, em Nova
Iguaçu, no Brasil, para onde irradiou a comunidade do mosteiro de Nossa
Senhora da Piedade nestas últimas décadas do século XX. E, finalmente, em Apêndice, apresentámos, a gesta de amor e de
louvor que foram as celebrações centenárias. Belo hino que ecoou por toda a
Ilha e vibrou longe em terras do Continente, Açores e Brasil.
3. Fontes e Bibliografia Penetrar no mundo franciscano do passado, palmilhar com interesse e
amor os caminhos já trilhados por Clarissas de outras épocas, foi para nós
trabalho entusiasmante. Se algumas vezes nos pôs diante de comportamentos
dissonantes que nos interpelam vivamente, enfim, situações da fragilidade
humana, no geral, Deus presidiu a esta história de luz e sombras. Este estudo
deu-nos a possibilidade de contacto com um mundo religioso e social, cheio de
ideais, de riquezas e matizes diversos. Para o conhecer, aprofundar e interpretar
com objectividade, procurámos documentar-nos em fontes inéditas e abundante
biografia impressa. Em Lisboa, fizemos investigações nos Arquivo Nacional da Torre do
Tombo, Arquivo Histórico Ultramarino, Arquivo da Direcção Geral dos Edifícios
e Monumentos Nacionais, na Biblioteca Nacional e na
Biblioteca da Ajuda. Na Madeira, a nossa investigação foi longa no Arquivo
Histórico da Diocese do Funchal, no Arquivo Regional, nos arquivos das
Paróquias de São Sebastião e de Nossa Senhora do Carmo, em Câmara de Lobos e
ainda nos arquivos dos mosteiros de Nossa Senhora da Piedade
(Caldeira - Madeira), de Nossa Senhora das Mercês (Açores) e de Santo António
(Funchal). Relativamente a fontes impressas, manejámos obras de carácter geral,
de História de Portugal e, sobretudo, de carácter específico, que nos
ajudaram à inserção do tema; encontrámo-las nas bibliotecas de Lisboa,
Nacional, da Ajuda, do Seminário Franciscano da Luz, da Cúria Provincial dos
Franciscanos, dos mosteiros de Clarissas de Sintra e de Lisboa, e nas
bibliotecas da Madeira, Municipal, da Direcção Regional de Assuntos
Culturais, do Arquivo Regional, do Arquivo Histórico da Diocese do Funchal e
do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade. Devemos ainda mencionar as pesquisas feitas em periódicos e revistas
de temas culturais, nomeadamente, no Jornal da Madeira, Diário de
Notícias, (do Funchal) Diário do Governo, O Réclame, A Verdade,
Correio da Madeira, O Jornal e nas revistas Islenha, Atlântico
Girão. Na Madeira, pudemos também observar importantes fontes históricas,
que directamente se ligam ao tema em questão, como sejam, monumentos,
esculturas, pinturas e outras mais. No Museu de Arte Sacra tivemos a
possibilidade de apreciar algumas pinturas flamengas, luso-flamengas e da
escola portuguesa, que referimos na presente obra. Julgámos, pois, ter percorrido os caminhos possíveis e essenciais
para tratar o tema, polifacetado mas uno. Dada a sua vastidão e complexidade,
embora procurássemos, na maioria dos casos, ir ao fundo da questão, certos
problemas ficaram em aberto. Sobre eles poderão incidir posteriores
investigações. Tentámos dar uma visão de conjunto fixando-nos no essencial e
específico. Doutra forma o nosso trabalho seria excessivamente longo. Apesar do cuidado que pusemos na elaboração do trabalho, não faltarão
imprecisões, lacunas e equívocos que, certamente, outros investigadores virão
a rectificar.
* Atendendo a que esta obra não se destina somente a uma elite
cultural, mas se dirige a um público mais vasto, permitimo-nos, como opção
metodológica, adaptar um pouco a estrutura da frase, assim como a pontuação,
nas transcrições, particularmente para documentos mais antigos, tendo em
vista uma melhor compreensão do texto, sem, contudo, adulterar a
autenticidade do conteúdo.
CONCLUSÃO Quando em princípios do séc. XIII, a Igreja, porque inserida em
sistemas sócio-políticos da época, conheceu uma crise de identidade
evangélica, particularmente no que respeitava à pobreza, menoridade e
fraternidade, Deus, condutor da história dos homens, encontrou em Francisco e
Clara de Assis, os obreiros da transformação necessária. Cedo a Família
Franciscana cresceu e se expandiu, verdadeiro milagre franciscano,
tornando-se presente, ainda naquele século, em muitos países da Europa, entre
os quais Portugal. No final do séc. XV, Francisco e Clara de Assis estavam
presentes na Pérola do Atlântico. . 1. O mosteiro de Santa Clara, primeira casa religiosa feminina na Ilha da Madeira Na Madeira, a nobreza insular havia ganhado prestígio e as linhagens
proliferavam. Impunha-se a fundação de um mosteiro feminino, lugar de oração
e de concretização de anelos espirituais, mas também, segundo a mentalidade
da época, de resguardo moral contra os perigos da vida social[2].
Solicitado por D. Manuel, duque de Beja e Senhor da Madeira, como Mestre que
era da Ordem de Cristo, e pelo clero da cidade do Funchal, foi a construção
do mosteiro de Santa Clara assumida pelo segundo capitão donatário da Ilha,
João Gonçalves da Câmara, filho do descobridor, João Gonçalves Zarco. A Ilha
tinha grande necessidade de uma casa conventual para receber as filhas da
mais distinta nobreza insular, como eram as famílias dos Câmaras, dos
Noronhas e tantas outras. A bula Eximiae devotionis de Sisto IV, de 4
de Maio de 1476, concedia a João Gonçalves da Câmara e sua esposa D. Maria de
Noronha o direito de padroado do mosteiro, bem como a faculdade de
transmiti-lo aos seus sucessores primogénitos. As religiosas seguiam a Regra de
Urbano IV, também chamada Regra Segunda de Santa Clara, que lhes dava
facilidades relativamente à Primeira, a autêntica regra da fundadora. Aquela
permitia que o mosteiro tivesse rendas e bens imóveis, prédios urbanos e
propriedades rústicas, de cujo rendimento advinha a sua sustentação
normal, o que o tornou ao longo dos séculos detentor
de um vasto património que lhe vinha da dotação do fundador, dotes das
religiosas e heranças. O erro esteve no excesso. A Regra previa um governo
bastante democrático e fraterno, sendo a abadessa eleita e assistida por um
corpo de conselheiras, igualmente eleitas pela totalidade das religiosas
capitulares, isto é, professas. Semanalmente, a abadessa devia reunir as
“religiosas de véu preto” em capítulo para com elas se tomarem as decisões
mais importantes. A comunidade de Santa Clara cresceu em número e em prestígio e,
assim, na primeira metade do séc. XVI, pôde irradiar para os Açores e
Continente, onde fez várias fundações: o mosteiro de Nossa Senhora da Luz e o
de Jesus na Praia (Ilha Terceira), o de Nossa Senhora da Conceição e de Jesus
na Ribeira Grande (São Miguel) e o de Nossa Senhora da Piedade da Esperança
em Lisboa . Na segunda metade do século XVII, respondendo a necessidades de
vária ordem que na Ilha da Madeira se faziam sentir, o mosteiro levou a cabo
duas fundações na cidade do Funchal. De facto, a nobreza insular conheceu
então um surto considerável e o mosteiro de Santa Clara tornou-se
insuficiente. Além disso, vivia-se na época uma ânsia de vida espiritual e de
retiro, sentida por muitas jovens da Ilha. O mosteiro de Nossa Senhora da
Encarnação (1660) e de Nossa Senhora das Mercês (1667) foram a resposta a
essa problemática. Porém, enquanto o primeiro, à semelhança do mosteiro
fundador, optou pela Regra de Urbano IV e se inseriu no contexto do tempo, o
mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, tornou-se vivência e irradiação
do verdadeiro carisma contemplativo clariano-franciscano. 2. Dois mosteiros da Regra de Urbano IV( urbanistas): Santa Clara e Encarnação Os mosteiros de Santa Clara e Nossa Senhora da Encarnação do Funchal, porque seguiam a Regra de Urbano IV, viviam os mesmos princípios religiosos. Acrescia que, para além da motivação religiosa, haviam surgido para responder a necessidades sociais – albergar as filhas dos nobres insulares, evitando a sua ida para o Continente. Tendo, pois, aspectos comuns, bem distintos do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, que seguia a Regra de Santa Clara, deles faremos uma síntese conjuntamente. O
número de religiosas professas em qualquer mosteiro não era arbitrário;
impunha-se o necessário equilíbrio entre o número de professas que nele
viviam e os recursos do mesmo. Era da competência dos bispos e outras
autoridades fixar esse número. Para o mosteiro de Santa Clara o número de
religiosas professas consignado pelo Provincial franciscano, não excedia
sessenta, tendo, no entanto, capacidade para mais. Em 1720 o visitador da
Custódia de São Tiago Menor, na Madeira, por patente de 30 de Junho daquele
ano, aumentou-o para cem, podendo ainda haver extranumerárias. O dote em
dinheiro, que inicialmente era de 400.000 réis, foi aumentando, atingindo em
meados do século XIX o valor de 800.000 réis, além de outras despesas, com
atrás ficou dito. No mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação o número
de religiosas professas estipulado no início era de trinta, passando depois para
sessenta, podendo haver supranumerárias que, por vezes, excediam as de
número. Ao longo dos anos o total de religiosas foi aumentando, chegando, em
meados do séc. XVIII a cento e setenta em Santa Clara e cento e quarenta e
quatro na Encarnação.
As religiosa deviam rezar o ofício divino, oração da Igreja por excelência,
com seriedade e modéstia, solenizando com o canto as horas canónicas
principais: Laudes, Vésperas e Matinas, estas rezadas ou
cantadas à meia-noite. Para a celebração da missa e do ofício divino, cada
mosteiro tinha o seu capelão privativo, coadjuvado pelo sacristão, vivendo em
casa anexa. Para orientação espiritual da comunidade havia o confessor, de
nomeação episcopal, que atendia igualmente a restante população do mosteiro.
Pela Páscoa assumia a responsabilidade da desobriga das religiosas, dos
servos e mais pessoal e disso notificava o prelado diocesano. Com a oração
litúrgica, conjugavam a adoração ao Santíssimo Sacramento, tendo para o
efeito custódias riquíssimas. Cada religiosa fazia pelo menos meia hora de
adoração, sendo nesse momento uma presença da humanidade junto de Jesus
Sacramentado. Havia a preocupação de rezar pelas defuntas e cumprir as
“capelas dos benfeitores”. As religiosas, respondendo ao apelo do prelado da
diocese, inseriam-se em devoções então significativas, como eram a confraria
de Nossa Senhora do Monte, erecta em 1750, e a Irmandade das Almas. Em
atitude penitencial e em união com Cristo Redentor, deveriam as religiosa
levar vida ascética e mortificada. A Regra prescrevia jejuns frequentes fora
dos dias festivos, dos quais a abadessa podia dispensar, em atitude de
fraterna caridade, as doentes, fracas, idosas e jovens.
As religiosas prezavam a sua cultura. Pela análise
dos registos de profissões se vê que no mosteiro de Santa Clara e da
Encarnação, todas as noviças que professavam sabiam ler e escrever com
perfeição. Da mesma forma, os livros de contas, de óbitos, de actas e outros,
que as escrivãs nos deixaram, revelam que estamos diante de pessoas
competentes, metódicas e artistas. Textos claros, tantas vezes iniciados por
belíssimas letras capitulares e sempre bem ordenados. Sabe-se também que cultivaram a
música e o canto, tão necessário nas suas celebrações litúrgicas. A igreja de
Santa Clara era muito concorrida pela população circunvizinha e pela mais
distinta nobreza da ilha, particularmente do Funchal. Lembremos que a igreja
do mosteiro da Encarnação serviu de sede paroquial de 1680 a 1745 ou algo
mais, tendo, pois, as religiosas, responsabilidades litúrgicas. Uma grande
parte da população acorria à Encarnação atraída pela beleza e solenidade que
assumiam as celebrações. Havia sempre o cuidado de dar às
candidatas ao noviciado a cultura necessária para poderem desempenhar
com competência das suas funções e deveres conventuais. Pois que para os
trabalhos domésticos havia nestes mosteiros criadas e mais pessoal, puderam
as religiosas dedicar-se a artes domésticas e lavores especializados. A confecção de uma grande variedade
de bolos e gulodices afamadas deram aos mosteiros de Santa Clara e da
Encarnação fama mundial. Também a pintura, o desenho, a iluminura e outras
artes menores foram cultivadas com esmero. Porém, foram verdadeiramente
peritas em bordados, confecção de paramentos litúrgicos, vestidos e mantos
para imagens e alfaias religiosas diversas. O Museu de Arte Sacra do Funchal
conserva alguns paramentos belíssimos dos séc. XVII e XVIII, bordados nos
mosteiros desta cidade. Valiosas obras de arte, distinguem-se pela
riqueza dos tecidos, pela execução primorosa dos bordados a ouro e a matiz
sobre seda e linho. Para o fabrico de alvas e toalhas e outras alfaias
religiosas, primorosamente bordadas, as religiosas estimulavam a cultura do
linho no Porto Santo, São Vicente e Curral Grande ou Curral das Freiras. Com o andar dos séculos, factores
de vária ordem contribuíram para o mau ambiente que veio a nascer nestes
mosteiros, que se acentuou a partir da segunda metade do século XVIII, dando
origem a uma grave crise de natureza espiritual e económica: condicionalismos
sociais e políticos, tirando à jovem a possibilidade de decidir livremente o
seu futuro, desvirtuaram tantas vezes a sacralidade vocacional! Na Ilha da
Madeira, esta pressão social e familiar sentiu-se fortemente. Os costumes dos
séculos XVI a XVIII, a prepotência dos fidalgos, a conservação dos morgadios,
a necessidade de um devoto abrigo e resguardo das filhas que não casavam, a
orfandade, a viuvez, foram tantas vezes razões que levaram os familiares a
encerrar nos mosteiros de Santa Clara e da Encarnação as jovens que, mesmo
quando não professavam, ficavam como senhoras recolhidas com suas
criadas. Acrescia que as meninas podiam ser postas nos mosteiros com sete
anos, ou até menos, para ali “serem criadas para freiras”. Que
admira, pois, que, como refere o Elucidário Madeirense, “o primitivo
fervor na observância das regras conventuais e antiga austeridade de vida das
freiras fosse pouco a pouco resfriando”?!... Que admira que nos mosteiros de
Santa Clara e da Encarnação surgissem abusos que tantas vezes preocuparam a
autoridade eclesiástica?!... Que admira que algumas delas, lesadas nos seus
direitos familiares e postas nos mosteiros sem vocação e contra sua vontade,
ali passassem a juventude e a vida entre anseios e lágrimas? E reparemos que
este desvirtuamento, esta problemática vocacional atingiram no Funchal
proporções consideráveis.
Em mosteiros de freiras fidalgas, ter criadas para o serviço comum e mesmo
particular era normal; sendo nobres, mesmo no mosteiro, não abdicavam dos
seus costumes aristocráticos. Os Estatutos do mosteiro da Encarnação
autorizavam um número de criadas igual a um terço das religiosa professas,
podendo ainda haver escravos, escravas e pessoal assalariado. Porém, o seu
número foi aumentando sempre, chegando em Santa Clara a mais de cem. Os
breves pontifícios, com beneplácito régio e autorização episcopal para ter
criada privativa, multiplicavam-se. Havia
também nestes mosteiros senhoras recolhidas que, embora não podendo ou não
querendo professar, neles pretendiam viver com as suas criadas e
comodidades. Em Santa Clara com as fundadoras entrara D. Constança, filha do
fundador, que, não querendo professar, por ser doente, ali viveu toda a vida.
Os casos foram muitos. Também acontecia que as criadas, quando idosas, podiam
ficar como recolhidas ou alojadas, em cela própria, no interior do mosteiro.
Para mais, generalizou-se o costume entre as senhoras piedosas da Ilha,
geralmente nobres, de solicitarem breves pontifícios para entrar nos
mosteiros por alguns dias para sua consolação espiritual. Podiam fazer oração
com a comunidade, com ela tomar as refeições e ter recreação. Estes breves
estendiam-se geralmente a dez anos, podendo as solicitadoras entrar duas,
três e até seis vezes cada ano e ali ficar alguns dias, excepto no Advento e
Quaresma. As ditas senhoras faziam-se acompanhar de algumas matronas e, por
vezes, de uma filha e criadas. Estas entradas acentuaram-se nos séculos XVIII
e XIX. Também as mães de religiosas professas obtinham licença, por igual
processo, para entrar no mosteiro e visitar as suas filhas, uma vez por mês,
três vezes por ano ou doutra forma, pelo espaço de três dias, acompanhadas de
filhas, tias, sobrinhas e cunhadas, por “amor maternal e para
consolação espiritual”. Além
disso, para satisfazer a necessidades sociais da época e por determinação
régia, os mosteiros recebiam moças nobres, como as designam os documentos,
com fins educativos. Esforçava-se a comunidade por dar-lhes uma formação
religiosa, cultural e feminina primorosa e completa. Formadas dentro dos
princípios da sã moral, ficavam capazes de um comportamento exemplar no meio
da sociedade. Para elas havia sempre uma mestra que, além da formação
religiosa, lhes ministrava conhecimentos culturais, artísticos e domésticos.
Aprendiam a ler e a escrever, recebiam lições de música e de artes
domésticas, ficando com uma fina educação. Ficavam peritas em culinária,
particularmente em doces e outros manjares, bordados, artes decorativas,
regras de cortesia. Ser educada em Santa Clara ou na Encarnação era, na
Madeira, requinte e distinção. Porém, a sua presença entre as religiosas nem
sempre era positiva, dado o seu gosto pelas vaidades e encantos da sociedade
a que pertenciam. A seu respeito muitas queixas chegaram aos réis.
O século XVII foi de acentuada prosperidade para os mosteiros de Santa Clara
e Encarnação, o que lhes permitiu a realização de grandes obras e
melhoramentos. Até meados do século XVIII os rendimentos eram abundantes, a
opulência impunha-se, as comunidades cresceram, atingindo o número máximo de
religiosas. A partir de então, com as leis pombalinas que, cerceando
direitos e privilégios, lhes reduziram os rendimentos, a má administração, as
más colheitas e as dificuldades de exportação, nasceu uma crise económica que
ninguém conseguiu deter. O défice aumentava de ano para ano e a falta de
subsistência nos mosteiros, na Encarnação mais do que em Santa Clara, fez-se
sentir. A situação religiosa não era
melhor. Com o séc. XVIII nasceram novas ideias e novas mentalidades. O
cientismo, com todo o seu gosto pelo saber, o criticismo agnóstico, que se
traduzia na falta de fé, o secularismo, o exagerado exibicionismo, iam
dominando a sociedade e tomando o lugar do sagrado. Toda esta ideologia foi
entrando nos mosteiros, traduzindo-se em formas concretas: as freiras
deixaram o burel cor de cinza e vestiram-se de seda azul, adoptaram modas
mundanas, entraram num letargo espiritual, que se traduziu na decadência da
virtude. e da disciplina regular, males que as cartas de D. Gaspar Afonso da
Costa Brandão e D. José da Costa Torres, bispos do Funchal na segunda metade
do século, deixam transparecer. Tentando melhorar um pouco esta situação,
mais de uma vez as autoridades religiosas e civis quiseram unir a comunidade
da Encarnação à de Santa Clara, onde havia mais ordem. Chegou mesmo a haver
breve de Pio VII, datado de 25 de Setembro de 1807, que teve o beneplácito
régio no mesmo ano, determinando essa união. Um acontecimento de natureza
político-militar, a ocupação da Ilha por tropas britânicas, veio forçar a
fusão das duas comunidades, mas por alguns anos somente. Em 1814 as
religiosas da Encarnação regressaram ao seu mosteiro. A crise económica e espiritual que
se vinha fazendo sentir agravou-se nos dois conventos que, alguns anos
depois, sucumbiram sob o peso das leis liberais. 3. O mosteiro de Nossa Senhora das Mercês,
encarnação do genuíno espírito da Ordem Concretizando o que já ficou dito,
o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês foi a resposta a uma ânsia espiritual.
Nele entravam “nobres e pobres” que, vivendo sob a Regra de Santa Clara,
jamais poderiam aceitar bens de raiz. Viveriam, pois, com simplicidade e
pobreza, ajudadas do seu trabalho e da generosidade da população do bispado,
conforme o estipulado na petição de Gaspar Berenguer e no alvará régio de 20
de Dezembro de 1663.
Este mosteiro foi no Funchal verdadeira encarnação do genuíno espírito da
Ordem de Santa Clara. Da Madre de Deus de Lisboa recebera os Estatutos, os
usos e costumes, isto é, a reforma de Santa Coleta, clarissa francesa que,
havendo captado o verdadeiro espírito de Santa Clara de Assis, empreendera,
na primeira metade do século XV, uma importante reforma, no sentido de fazer
voltar os mosteiros ao genuíno carisma da Ordem. As religiosas das Mercês
seguiam a Regra de Santa Clara, também chamada Primeira Regra, que lhes
mereceu a designação de capuchas, como ficou explicitado na Primeira Parte
desta obra, apelativo que o bom povo madeirense normalmente usava no
diminutivo. Com uma vida de oração
profunda, austeridade penitencial e silêncio, indispensável à vida de
união com Deus, associavam as religiosas capuchas sentimentos fraternos
profundos e delicados, que faziam daquela comunidade um oásis de paz e de
amor. O número de religiosas autorizado
para o mosteiro das Mercês era de vinte e uma, sendo mais tarde aumentado
para vinte e quatro, podendo haver extranumerárias. Jamais a comunidade
ultrapassou o número de trinta religiosas, o que contribuiu para o
equilíbrio económico que sempre nele se verificou. As candidatas, para
auxílio da pobreza da comunidade, entravam com o dote de 400.000 réis, valor
que mais tarde passou para 800.000, dado à Sacristia do mosteiro. Contudo,
cada caso era analisado de per si, para que jamais essa exigência pudesse
obstar à entrada das jovens que, movidas por inspiração divina, livre e
voluntariamente desejassem professar no mosteiro.
A comunidade assumia com fraterno carinho as suas doentes e idosas, às quais
nada devia faltar. Pelos livros de contas se detecta o amor e a solicitude de
que eram alvo. Em certos meses e mesmo em certos anos, as despesas com as
doentes era sensivelmente metade das havidas com a comunidade. Vivia-se com
amor a exortação de Santa Clara: “(...) que a abadessa providencie para que
nada falte às doentes (...). Todas as Irmãs devem cuidar delas e servi-las
como desejariam ser servidas, caso se encontrassem na mesma situação”[3]. A
entrada de leigos no mosteiro das Mercês fazia-se com a conveniente
moderação, e só nos casos justificáveis e autorizados. E como era palpável a
santidade das religiosas, os leigos facilmente detectavam a profundidade de
vida da comunidade. Até mesmo as moças educandas das Mercês, que foram
poucas, diante da austeridade de vida, da virtude, espírito de sacrifício e
fraterna caridade, se sentiam movidas a pedir a sua admissão no noviciado,
pois desejavam ser religiosas professas. Jamais
houve criadas entre as religiosas das Mercês, mas somente alguns assalariados
e um moço para certos trabalhos da cerca ou carretos. Trabalhar era uma
graça, na expressão de Santa Clara; viver do trabalho nos mosteiros do séc.
XVII e XVIII era viver em pobreza. No mosteiro das Mercês trabalhava-se. Para
além das tarefas domésticas, as Irmãs dedicavam-se à confecção de hóstias,
artes decorativas, pintura e desenho, confecção de toalhas, alvas e
paramentos ricos e belíssimos. Entre as religiosas capuchas, nobres ou
pobres, tornadas Irmãs, vivia-se em fraterna igualdade, trabalhando com
simplicidade e alegria; jamais se fez ostentação de títulos ou brasões; e, no
entanto, ali viveram religiosas fidalgas da melhor nobreza madeirense. O
mosteiro das Mercês não conheceu ao longo de mais de duzentos anos crises
económicas e espirituais. Tudo era administrado com equilíbrio. Foi, podemos
afirmá-lo, um oásis de amor e felicidade, bem semelhante ao pequeno mosteiro
de São Damião em Assis, onde Santa Clara viveu na primeira metade do séc.
XIII. Quando,
em 1788, a rainha D. Maria I pediu informações sobre os mosteiros do Funchal,
D. José da Costa Torres, enquanto lamentava o estado dos mosteiros da
Encarnação e Santa Clara, assim falava ao ministro Martinho de Mello e
Castro: “Quanto ao mosteiro das Mercês, respondendo ao que Sua Majestade me
ordena, direi que floresce neste mosteiro a disciplina regular e religiosa
(...). com grande edificação desta cidade. Há nele refeitório comum e vida
comum, estão em vigor as práticas essenciais da vida religiosa. Nem agora têm
nem nunca tiveram criadas, e educandas houve algumas que até professaram”.
Mais diz: “As Preladas e a comunidade cuidam sempre de admitir ao noviciado e
principalmente à profissão só aquelas pessoas que mostrarem verdadeira
vocação”; por isso, acrescenta o bispo do Funchal, “há no convento tanta
observância, fraternidade e santa paz”[4]. Terminaremos esta digressão
comparativa transcrevendo do Correio da Madeira de 5 de Março de 1827:
“Os brasões haviam ficado com as freiras fidalgas de Santa Clara; a opulência
brilharia na Encarnação. No fundo do vale humilde e selva viviam as
capuchinhas das Mercês, pobres e humildes. Mas o perfume das suas virtudes
evolava-se do convento e vinha embalsamar a cidade e os campos da Ilha”[5]. 4. Resposta a leis anti-religiosas e
anticongreganistas Triunfante o Liberalismo, as casas
religiosas femininas entraram em lenta agonia. Proibidas as profissões e a admissão
de noviças, as comunidades foram envelhecendo, tomando o Estado conta dos
edifícios à medida que morria a última professa. Os mosteiros da Encarnação e
de Santa Clara, diante das leis liberais, porque sem vitalidade,
resignam-se a morrer. A última professa da Encarnação, a Madre
Felisberta Cândida de São Bernardo, morreu em 24 de Outubro de 1890 e logo a
15 de Novembro seguinte faleceu a Madre Maria Amália do Patrocínio, a última
religiosa professa de Santa Clara; de imediato, o Estado tomou posse dos dois
mosteiros urbanistas, como fazia com todos os do país. Muito diferente foi a atitude das
religiosas do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês. Porque cheio de força
espiritual e estimado por todos os madeirenses, desde as autoridades ao povo,
bom e simples, as religiosas iam solicitando do rei licença para permanecer
no mosteiro. Os requerimentos, assinados por todas e informados pela
autoridade civil, sempre tiveram resposta favorável. A 19 de Abril de 1895 o
governador civil do Funchal, António de Sousa e Silva, assim apoiava um
requerimento: “informando esta petição, cumpre-me dizer que é exacto tudo
quanto as requerentes alegam (...). e que, pela sua conduta moral e religiosa,
se tornam dignas de ser atendidas”[6]. O mosteiro manteve-se activo e
fervoroso. As candidatas continuaram a entrar, as profissões e as
eleições para os diversos cargos sucediam-se. Em 1910, quando os
republicanos, ordenaram a expulsão, a comunidade estava bem organizada e com
vitalidade espiritual. Nesta longa caminhada de 1834 a 1910, o povo
madeirense, que muito as admirava e amava, com nada lhes faltou. As ofertas
sucediam-se, o carinho redobrava. Logo após a expulsão, a 13 de
Outubro de 1910, as religiosas procuraram organizar-se. Sete
estabeleceram-se na Palmeira, muito perto da capela de Nossa Senhora das Boa
Hora; um grupo de três membros fixou-se na Caldeira ao lado da capela de
Nossa Senhora da Piedade; cinco recolheram à casa paterna. 5. A comunidade de Nossa Senhora das Mercês
reorganizada na Caldeira A Madre Virgínia Brites da Paixão,
abadessa do mosteiro à data da expulsão, que se havia estabelecido em Santo
António, no Lombo dos Aguiares, pois a sua presença nos grupos poderia
despertar a atenção das autoridades, descia muitas vezes a visitar as suas
Irmãs, exortando-as à fidelidade e desenvolvendo nelas a esperança da
reorganização da vida conventual. Fortalecidas pela oração e o amor fraterno,
estas boas Irmãs mantinham bem acesa a chama do amor ao Senhor e à
humanidade, pela qual oravam e se sacrificavam. A 16 de Abril de 1931, as
oito Irmãs sobreviventes, acompanhadas de duas candidatas, entraram
felizes no mosteiro recém-construído, o mosteiro de Nossa Senhora da Piedade.
Cumpre-nos afirmar, e com júbilo o
fazemos, que as religiosas das Mercês escreveram páginas de heroísmo,
de tenacidade e valentia a toda a prova. Nada nem ninguém conseguiu
afastá-las do seu ideal. Caso ímpar na história da Ordem de Santa Clara em
Portugal. Agora, ali estavam na
Caldeira. Sob o meigo olhar de Nossa Senhora da Piedade, a comunidade
cresceu, tornou-se árvore frondosa de Paz e Bem e irradiou. Os
mosteiros de Santo António no Funchal, de Nossa Senhora das Mercês nos Açores
e de Santa Clara em Nova Iguaçu, no Brasil, são três fundações já levadas a
cabo por aquela pequena, mas boa semente. A celebrar esta presença, esta
gesta de amor, vibrou a Ordem, vibrou a Igreja, vibraram as autoridades
e o povo madeirense, ao longo de 1997-1998 para, de mãos dadas e coração
jubiloso, entoar um hino de louvor e gratidão por quinhentos anos de presença
da Ordem de Santa Clara de Assis na Ilha da
Madeira. APÊNDICE CRÓNICA DAS CELEBRAÇÕES
CENTENÁRIAS DE QUINHENTOS ANOS DE
PRESENÇA DE ORDEM DE SANTA CLARA DE ASSIS NA MADEIRA 1. Nascimento da ideia
1.1. Constituição de uma
comissão organizadora A 5 de Novembro de 1497, cinco
Clarissas saídas do real mosteiro da Conceição de Beja, acompanhadas de
algumas candidatas, entraram no mosteiro de Santa Clara do Funchal recém
construído. Nascia a Ordem de Santa Clara de Assis nas Ilhas de Zarco. Desde
então até hoje, a sua presença não conheceu interrupções. Nem as leis
liberais nem a República de 1910 conseguiram extinguir a vida da Ordem na
Ilha. Este facto, esta gesta de amor, queriam as Irmãs Clarissas madeirenses
celebrá-la com entusiasmo. Não era facto que pudesse passar em silêncio. Manifestado este desejo a D.
Teodoro de Faria, prelado da diocese do Funchal, a ideia mereceu a sua
aprovação e, ao longo das celebrações, a mais carinhosa dedicação. A grande dinamizadora das
celebrações centenárias foi a Irmã Adelaide Maria da Cruz. Não houve
dificuldade que a fizesse parar ou recuar. Para auxiliar à realização destas
celebrações e assumir todo o processo histórico a elas relativo, D. Teodoro
de Faria e as Irmãs Clarissas madeirenses solicitaram a presença da Irmã
Otília Rodrigues Fontoura, então no mosteiro de São Francisco de Assis, em
Vila Nova de Famalicão. Obtida a necessária autorização, a 18 de Julho de
1997 deixou o Continente e fez-se presente entre as suas Irmãs
madeirenses. A preparação das celebrações
centenárias começou. Do primeiro encontro de D. Teodoro de Faria com a
comunidade do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, em fins de Setembro,
nasceu a organização de uma comissão que iria assumir a elaboração de
um programa e todo o desenvolvimento das celebrações centenárias. Constituída
por três membros: Frei Daniel António Silveira Teixeira, superior da
fraternidade franciscana da Penha de França, no Funchal, Irmã Adelaide Maria
da Cruz, membro da comunidade de Nossa Senhora da Piedade e pela Irmã Otília
Rodrigues Fontoura. A comissão lançou-se imediatamente ao trabalho. Depois de
algumas reuniões estava esboçado um programa que devia ser levado ao
conhecimento do prelado do Funchal: 1º. Anúncio do lançamento do livro As Clarissas na Madeira, uma
presença de 500 anos, da autoria da Irmã Otília Rodrigues Fontoura. 2º. Organização de uma comissão de nomeação episcopal, destinada a
preparar a introdução do processso de beatificação da Madre Virgínia Brites
da Paixão. 3º. Apresentação de uma peça teatral histórico-medieval da vida de
Santa Clara de Assis, da autoria de Frei Jucundo Paglinara, franciscano
capuchinho italiano, e da Irmã Otília Rodrigues Fontoura[7]. 4º. Preparação de um pequeno historial dos mosteiros, para primeira
informação e distribuição à população. 5º. Exposição do património artístico do mosteiro de Nossa Senhora
das Mercês do Funchal, existente nos mosteiros de Nossa Senhora da Piedade e
de Santo António, e de algumas peças de outra procedência, cuja autenticidade
era bem conhecida. 6º. Organização de um tríduo preparatório a realizar em Novembro na
igreja de Santa Clara do Funchal. 7º. Solene celebração eucarística no mosteiro de Nossa Senhora da
Piedade em Câmara de Lobos. Este programa, com algumas ligeiras
adaptações, mereceu a aprovação de D. Teodoro de Faria que, em reunião havida
na Câmara Eclesiástica, a que ele próprio presidiu, se mostrou entusiasmado
na celebração condigna desta efeméride. Participaram nesta reunião, além dos
membros da comissão organizadora, o P. Carlos Duarte Lino Nunes, secretário
episcopal, P. Adelino Macedo de Castro, pároco do Carmo, em Câmara de Lobos,
Madre Maria Madalena, abadessa do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, e
Madre Maria Angélica do Menino Jesus. Da análise do programa apresentado
resultou um programa definitivo e tornado público: Tríduo – Dias 27, 28 e 29 de Novembro, na
igreja de Santa Clara às 19h30, presidido pelo P. Frei Mário de Jesus Pereira
da Silva, ex-Ministro Provincial dos Frades Menores. Sessão cultural – Dia 29 de Novembro
às 16h00, na igreja de Santa Clara, sessão cultural, com actuação do Coro de
Câmara do Funchal, encenação do Cântico do Irmão Sol e
conferência pela Irmã Otília Rodrigues Fontoura. Solene celebração eucarística – No mosteiro de
Nossa Senhora da Piedade, Caldeira, Câmara de Lobos, dia 30 de Novembro às
15h30, presidida por D. Teodoro de Faria, bispo do Funchal. Exposição – No dia 30 às 17h30, numa sala do
mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, abertura de uma exposição do espólio
artístico do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês do Funchal. Encenação da vida de Santa Clara - No
dia 1 de Dezembro às 20h30, no salão da igreja paroquial de Nossa Senhora do
Carmo, em Câmara de Lobos.
1.2. Pedidos de apoio Conscientes
da falta de recursos para levar a cabo as celebrações, os membros da comissão
começaram por desenvolver uma série de acções que lhes permitissem reunir
fundos para as despesas necessárias. Com simplicidade e muita confiança,
solicitaram a colaboração das instituições bancárias, do Inatel, empresários
e particulares, esclarecendo: “Celebrando
neste ano de 1997, os quinhentos anos da chegada das Irmãs Clarissas à
Madeira, sentimos a necessidade urgente de fazer algumas celebrações
comemorativas, pois não queremos deixar passar em silêncio uma data tão
significativa para esta Região Autónoma que, em 1497, depois de muitos
esforços levados a cabo em Roma e no Reino, viu chegar ao Funchal as
primeiras Irmãs Clarissas, vindas do real mosteiro da Conceição de Beja. As
nossas receitas são apenas os nossos trabalhos quotidianos que não nos
permitem dar uma resposta imediata e satisfatória a grandes despesas, como
agora acontece. Também precisamos de pintar e remodelar algumas secções do
mosteiro para receber as nossas Irmãs madeirenses que se encontram fora da
Ilha. Por isso, vimos encarecidamente pedir a vossa colaboração nesta hora
feliz, mas cheia de encargos para a comunidade”[8]. Bem
depressa sentimos o apoio do Governo Regional, do Inatel, do Banco Espírito
Santo e Comercial de Lisboa, de alguns empresários e de muitos particulares. Enquanto
o subsídio do Governo Regional nos permitiu fazer face às despesas da
remodelação o edifício, os demais apoios permitiram-nos custear a
movimentação das festas centenárias: viagens, fotografias, filmagem,
aquisição de materiais diversos e outras mais. Neste apoio dado há nomes que
não podem ficar no silêncio. Lembramos com muita gratidão o empreiteiro José
Avelino Pinto, amigo de longa data, já falecido, que generosamente quis
contribuir com a verba de quinhentos contos para as celebrações comemorativas
que, segundo ele, tinham um alto significado e mereciam todo o apoio. Que
Deus lhe tenha dado a alegria que sempre resulta do bem fazer. Não podemos
igualmente deixar de fazer referência a D. Rita Cora Aguiar, nossa grande
colaboradora nestas festas centenárias. Dedicou-se com entusiasmo e amor e
levou ao empenhamento muitos amigos e familiares, o que lhe permitiu reunir
mais de uma centena de contos, mas sobretudo, transmitindo apreço e estima
pela Ordem de Santa Clara e esclarecendo sobre a sua actuação na Ilha da
Madeira. Para
informar a população madeirense e motivar as pessoas que se iam ligando à
efeméride, utilizaram-se diversos meios: imprensa, rádio e televisão. Fora da
Ilha contactou-se D. Manuel Franco Falcão, bispo de Beja, o Presidente da
Câmara da mesma cidade e as comunidades das Irmãs Clarissas de Nossa
Senhora das Mercês, nos Açores, e de Santa Clara, no Brasil, fundações feitas
pelo mosteiro de Nossa Senhora da Piedade nas décadas de setenta e oitenta. As
celebrações tiveram o seu ponto mais alto em Novembro, atendendo a que a
entrada das Clarissas saídas de Beja teve lugar exactamente a 5 de Novembro
de 1497. 2. O desenvolvimento das celebrações centenárias
2.1. Tríduo preparatório Nos
dias 27, 28 e 29 de Novembro de 1997, com começo às 19h30, teve lugar um
tríduo preparatório, na igreja de Santa Clara, a que presidiu o P. Frei Mário
de Jesus Pereira da Silva. No
primeiro dia houve a actuação do Coro de Câmara do Funchal. O Maestro Vítor
Costa, respondendo pronta e amavelmente ao pedido que em nome da comissão
organizadora lhe foi dirigido pela Irmã Adelaide Maria da Cruz, aceitou
gostosamente colaborar com as Irmãs Clarissas, para dar à efeméride o maior
brilho possível. No dia
27 de Novembro, às 19h30, na igreja de Santa Clara, tudo estava
preparado para dar começo à celebração eucarística. O Coro de Câmara, sob a
orientação do seu Maestro Vítor Costa iniciou aquela celebração sagrada com o
hino do centenário, cuja letra, da autoria da Irmã Adelaide Maria da Cruz, e
música do P. Mário de Jesus Pereira da Silva, lhe haviam sido
facultadas com antecedência. Executado com mestria, foi uma primeira inserção
daquela numerosa assistência nas festas centenárias, que então começavam.
Seguidamente, o mesmo Coro animou a Eucaristia cantada em gregoriano, o que
fez com suma competência. “Um coro com qualidade”, como referiu o celebrante
quando no final da celebração teve palavras de agradecimento. A
igreja de Santa Clara estava cheia. Encontravam-se presentes membros do
clero, religiosos e religiosas, entre as quais um grupo de Irmãs Clarissas,
membros da Terceira Ordem Franciscana, os seminaristas diocesanos, grande
número de pessoas amigas e simpatizantes. Na
homilia o celebrante evocou o acontecimento histórico-religioso em causa,
salientando que a presença das Clarissas na Madeira não foi um acontecimento
de origem local. Tudo começou mais longe no espaço e no tempo. Tudo teve
começo em Assis, em princípios do século XIII, quando o Irmão Francisco e a
Irmã Clara, construtores de um mundo novo, se empenharam na vivência do
Evangelho em profundidade. Desde 1212, ano em que nasceu a Ordem de Santa
Clara, as Clarissas irradiaram mundo fora. Em 1258, cinco anos apenas após a
morte da fundadora, estavam presentes em Lamego, donde transitaram no ano
seguinte para Santarém. Em 1497 entraram no Funchal. O
celebrante convidou os participantes na Eucaristia a descobrir os valores
franciscanos e a levá-los para a vida. Depois, dirigindo-se às
Irmãs Clarissas, congratulou-se com a sua presença naquela celebração e
salientou o alto significado da participação das comunidades fundadas a
partir da Madeira, o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, nos Açores, e o de
Santa Clara, no Brasil. Ali estavam, de facto, representando os seus mosteiros,
quatro membros: as Irmãs Maria Verónica da Sagrada Face e Teresa do
Santíssimo Sacramento, dos Açores, e Maria da Imaculada Conceição e Maria das
Neves do Rosário, do Brasil. No dia
28 e 29 a animação da liturgia esteve a cargo da comunidade das Franciscanas
Missionárias de Maria, residente no mosteiro de Santa Clara. A Foto
Continental, que a pedido da comissão organizadora assumiu a filmagem
das festas centenárias, a começar pelo tríduo, esteve presente na celebração
do dia 27. Nos dois dias seguintes, 28 e 29, não houve filmagem; somente se
tiraram algumas fotografias.
2.2.Sessão cultural No dia
29, com começo às 18h00, tiveram lugar na igreja de Santa Clara uma sessão
cultural com a actuação do Coro de Câmara da Madeira, a encenação do Cântico
do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas e a conferência da Irmã
Otília Rodrigues Fontoura, religiosa Clarissa, subordinada o tema: As
Clarissas na Madeira- Uma presença de 500 anos. Como
autoridades religiosas estavam presentes D. Teodoro de Faria, prelado da
diocese e D. Maurílio Jorge Quintal de Gouveia, arcebispo de Évora, natural
do Funchal. A presença do Presidente da República no Funchal nesse dia 29 não
possibilitou, como estava previsto, a presença do Presidente do Governo
Regional, Dr. Alberto João Gonçalves Jardim, e de outras autoridades.
Cuidaram, portanto, Suas Excelências de fazer-se representar. Assim,
estiveram presentes as seguintes personalidades: -
Dr. Eduardo António Brazão de Castro, Secretário
Regional dos Recursos Humanos, em nome do Presidente do Governo Regional. -
Dr. Raimundo Quintal, Vereador da Câmara do
Funchal, em nome do Presidente da Câmara, Dr. Miguel Filipe Machado e
Albuquerque. -
Tenente Coronel António Manuel Rosa Salvado,
representando o Comandante Operacional e Comandante da Zona Militar da
Madeira, Brigadeiro José Alberto Reynolds Mendes. -
Dr. João Henrique Silva, Director Regional dos Assuntos
Culturais.
Além destas autoridades, encontravam-se na igreja de Santa Clara membros do
clero e de diversos Institutos Religiosos os estudantes do Seminário
diocesano do Funchal, muitos membros da Terceira Ordem Franciscana e grande
número de pessoas amigas.
À hora prevista, a sessão começou com a actuação do Coro de Câmara que
executou brilhantemente, uma vez mais, o hino centenário e seguiu com
diversos números de qualidade, executados com tanta mestria que
mereceram o apreço da assembleia e o louvor do P. Frei Mário de Jesus
Pereira da Silva, compositor e músico e, portanto, perito nesta
matéria.
Finda a participação do Coro de Câmara teve lugar a encenação do Cântico
do Irmão Sol, também designado Cântico das Criaturas. Este
cântico brotou da alma poética de São Francisco quando, já estigmatizado,
sentia próxima a “irmã morte corporal”. Esta encenação foi levada a
cabo por jovens da paróquia do Carmo, alguns dos quais da Caldeira. Estes
jovens, rapazes e raparigas, autores dos próprios símbolos de que eram
portadores, interpretaram com beleza a eloquente oração de São Francisco, ao
ritmo musical de que foi autor o P. Mário Silva. À frente, caminhava em passo
lento, a menina Ana Margarida de Sousa Menezes, vestida com túnica de cetim
branco e cabeça cingida por uma coroa de flores, levando na mão direita uma
lucerna. A Ana Margarida era o símbolo da Irmã Clara, virgem de Assis que,
embora encerrada no mosteiro de São Damião, iluminou o mundo com a luz de
Cristo. 82. Coro de Câmara da Madeira. Na
igreja de Santa Clara do Funchal, sob a direcção do Maestro Vítor Costa, no
momento em que cantava o hino centenário, no início da sessão cultural que
teve lugar a 29 de Novembro de 1997. Fotografia da Foto Continental.
83. Cântico do Irmão Sol. Um
grupo de jovens da paróquia do Carmo interpretou o Cântico do Irmão Sol
composto por São Francisco de Assis. Para cada estrofe havia uma
representação simbólica. Fotografia da Foto Continental. Este cortejo
simbólico, de que também faziam parte uma jovem e um jovem vestidos de Santa
Clara e de São Francisco, entrou pelo fundo do templo, avançou entre a
assembleia e ocupou no presbitério o lugar deixado pelo Coro de Câmara. Cada
jovem, quando a estrofe cantada evocava o símbolo que tinha em suas
mãos, destacando-se do conjunto avançava para o centro e, levantando-o,
deixava que a assembleia pudesse admirá-lo e interiorizar o louvor do Poverello
de Assis. Finda
esta encenação teve lugar a conferência anunciada no programa, pequena
síntese da história da Ordem de Santa Clara na Madeira ao longo de quinhentos
anos. No curto espaço de quarenta e cinco minutos, a Irmã Otília Rodrigues
Fontoura procurou mostrar o evoluir histórico dos três mosteiros que existiram
no Funchal no passado, estabelecendo um paralelo e uma distinção entre os
mosteiros seguidores da Regra de Urbano IV, os de Santa Clara e da
Encarnação, e o terceiro, o das Mercês, que sempre observou a Regra de Santa
Clara segundo a reforma de Santa Coleta. Os dois primeiros,
esclareceu a religiosa, inseridos na mentalidade do tempo e respondendo
à problemática social então reinante, perdendo o verdadeiro carisma
espiritual, que lhes era próprio, foram asfixiados pelas leis liberais, morrendo
em 1890. Porém, o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, sempre
observantíssimo, conseguiu subtrair-se a imposições políticas e sociais
mantendo ao longo de 243 anos a vitalidade espiritual que lhe permitiu
resistiu a todas as imposições políticas e ideológicas. Expulsas pela
República de 1910, conseguiram, em 1931, depois de vinte e um anos de vida
difícil em casa provisória, organizar-se no novo mosteiro de Nossa Senhora da
Piedade na Caldeira, em Câmara de Lobos. Nada nem ninguém conseguiu vencer
aquelas intrépidas religiosas. 84. Assembleia. Uma numerosa
assembleia assiste com satisfação à actuação do Coro de Câmara e
encenação do Cântico do Irmão Sol, a que se seguirá a conferência: “As
Clarissas na Madeira. Uma presença de 500 anos”. Fotografia da Foto
Continental. No
final da conferência a Irmã Otília Rodrigues Fontoura, dirigindo-se às
autoridades ali presentes, fez um apelo à Madeira: que no local onde existira
o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês se levantasse um monumento que ficasse
a perpetuar a sua memória. Apresentava como razão do seu pedido facto
de os mosteiros de Santa Clara e de Nossa Senhora da Encarnação se
encontrarem ainda bem representados, enquanto o de Nossa Senhora das Mercês,
aquele que pelo seu testemunho de vida fora ao longo de 243 anos amado e
sempre protegido pelas autoridades e população, havia sido totalmente
demolido. As autoridades ali presentes
apoiaram o pedido formulado e o Dr. Eduardo António Brazão de Castro, na
qualidade de representante do Presidente do Governo Regional, Dr.
Alberto João Gonçalves Jardim, prometeu não só transmitir ao Governo
Regional da Região Autónoma da Madeira o desejo das Irmãs Clarissas, mas
também empenhar-se com o máximo interesse na sua concretização. 85. Agradecendo. No final da
sessão o P. Frei Mário de Jesus Pereira de Silva teve palavras de
agradecimento para com os prelados, as autoridades civis e militares e outras
individualidades ali presentes. A satisfação era geral. Fotografia da Foto
Continental. A sessão encerrou com a intervenção
de D. Teodoro de Faria, que agradeceu à assembleia a sua presença e teve
palavras de apreço para com o Coro de Câmara, os jovens encenadores do Cântico
do Irmão Sol e o trabalho histórico apresentado. Seguiram-se
momentos de convívio amigo e troca de impressões. O P. Frei Mário de Jesus
Pereira da Silva, cumprimentando autoridades eclesiásticas e civis, agradeceu
em nome das Irmãs Clarissas da Madeira toda a atenção e colaboração
prestadas. Instantes depois, as Irmãs
Franciscanas Missionárias de Maria, fizeram uma agradável surpresa às Irmãs
Clarissas. Numa sala da comunidade, estava preparado um lanche que desejavam
oferecer-lhes. Era a amizade franciscana, a delicadeza e a alegria de
sermos e nos sentirmos irmãs. Seguiram-se, desta vez às 20h30, as
celebrações centenárias Finalmente, e já não era nada cedo,
podiam regressar ao seu mosteiro na Caldeira. E, graças a Deus, não faltavam
carros: a carrinha do Seminário diocesano, carros de membros da Ordem
Terceira Franciscana, de pessoas amigas, estavam à
disposição.
2.3.
Solene celebração eucarística No dia 30 de Novembro às 15h30,
teve lugar na Caldeira uma solene celebração eucarística, ponto alto destas
celebrações centenárias, a que presidiu, D. Teodoro de Faria. As Irmãs
Clarissas do mosteiro de Santo António desceram do Lombo dos Aguiares a
juntar-se às suas Irmãs da Caldeira. Além das Irmãs vindas dos Açores e do
Brasil, já referidas, estava também presente a Irmã Maria da Encarnação,
madeirense inserida no mosteiro de São José de Vila das Aves, no
Continente. Com o prelado do Funchal
concelebrou D. Maurílio Jorge Quintal de Gouveia que gosta de fazer-se
presente nos acontecimentos mais significativos das Irmãs Clarissas da sua
terra, o P. Carlos Duarte Lino Nunes, secretário episcopal, o P. Frei Mário
Silva, os sacerdotes franciscanos residentes no Funchal, o P. Adelino Macedo
Costa, pároco do Carmo, e outros sacerdotes da Ilha. Estiveram presentes nesta
celebração algumas autoridades: -
O Secretário Regional do Turismo e Cultura, João Carlos
Abreu -
O Presidente da Câmara
Municipal de Câmara de Lobos, Gabriel Gregório Nascimento Ornelas -
A Presidente da Junta de
Freguesia de Câmara de Lobos, D. Maria Paixão Rodrigues Ferreira -
A Directora do Arquivo Regional da Madeira, Drª. Maria
Fátima Araújo de Barros Ferreira -
A arquivista do Arquivo Regional da Madeira, Drª. Maria
Favila Vieira da Cunha Paredes Os Prelados e Sacerdotes
revestiram as vestes litúrgicas numa sala do mosteiro, donde seguiram para o
claustro. Aí foi organizado o cortejo de entrada, onde se via a rica e
variada simbologia franciscana, que avançou cantando “Preparai os caminhos do
Senhor” e, depois de ter passado pelo jardim exterior, se dirigiu para a
capela, onde todos tomaram lugar. Sendo a capela insuficiente para
conter a numerosa assembleia, muitas pessoas ocuparam o salão lateral,
enquanto outras tiveram de se resignar a ficar no adro. Alguns sacerdotes,
não podendo ficar no presbitério, junto dos prelados, ocuparam os primeiros
bancos ao lado das autoridades. A capela estava um encanto. Para
este dia quis a comunidade que no altar tudo fosse novo e belo. A Irmã Teresa
Laurita Gonçalves de Brito, ao longo de meses, empenhou-se na confecção da
toalha e do jogo do altar, corporal, sanguinho, pala e manutérgio, – que
devia servir na Eucaristia. Um belo trabalho em bordado da Madeira sobre
linho. As Irmãs encarregadas da capela, Maria Natália de Jesus e Maria de
Fátima Moniz Baptista, alguns dias antes procuraram providenciar para que
tudo estivesse asseado e decorado com gosto. A população circunvizinha,
vibrando com a festa das Irmãs, fez chegar ao mosteiro as suas mais belas
flores. Toda decorada de “sapatinhos”, a capela estava fina e encantadora. 86. Oferendas simbólicas.
Enquanto os sacerdotes se paramentaram, no jardim do mosteiro, a Irmã
Adelaide Maria da Cruz, procedeu à organização do cortejo de oferendas
simbólicas que seriam apresentadas no altar no início da celebração
litúrgica. Fotografia da Foto Continental. Com a necessária antecedência a
Irmã Cândida Teresa, que seria organista nesse dia, empenhou-se com alegria e
entusiasmo na preparação da missa em gregoriano e também de vários cânticos
em português, criteriosamente seleccionados. Durante a manhã, a Foto
Continental procedeu à instalação sonora e de filmagem. Foi, para o
efeito, utilizado o coro alto da capela, o coro das religiosas, e outros
pontos do templo. É que nada daquela celebração solene se podia perder. D. Teodoro de Faria, uma vez no
altar, salientou a razão de ser da presença de tão grande assembleia na
capela do mosteiro. Exortou os participantes a entrarem no coro de louvor por
quinhentos anos de presença da Ordem de Santa Clara na Ilha da Madeira. Em
palavras afectuosas, exprimiu a sua satisfação pela presença de D. Maurílio
de Gouveia, das autoridades, clero, religiosos, religiosas e tão grande
número de fiéis. Neste momento o cortejo de
oferendas simbólicas avançou até ao altar. À frente via-se uma jovem vestida
de cetim branco, coroada de flores, e segurando em suas mãos uma artística
vela, símbolo da luz de Cristo e da luz que foi Clara de Assis. Durante a
apresentação das oferendas simbólicas, permaneceu ao lado do altar, em
atitude de respeitoso acolhimento. Na apresentação dos símbolos,
enquanto a Irmã Adelaide Maria da Cruz fazia a leitura explicativa de cada um
deles, a pessoa que o levava permanecia em frente do altar voltada para a
assembleia, para que, contemplando-o, todos pudessem captar o seu
significado. Para que este ofertório fosse mais vivenciado, com a leitura de
cada símbolo intercalava-se um cântico franciscano - “Louvado sejas no
Irmão Francisco” e “ Louvado sejas na Irmã Clara”- que a assembleia
repetia com vibração. Foram levados ao altar oito
símbolos: Círio, caravela, Livro da Fundação, Livro de Óbitos,
harpa, plantazinha, mosteiros, “bordado madeira”.Inserimos aqui o texto
relativo a cada símbolo, indicando o nome do respectivo portador. 87. Saudação da assembleia.
No início da celebração eucarística, D. Teodoro de Faria saudou a
assembleia e explicou a razão da presença das autoridades, do clero e do povo
de Deus na capela do mosteiro: dar graças a Deus e celebrar festivamente a
entrada das Irmãs Clarissas na Ilha, há quinhentos anos. Fotografia da
Foto Continental. 88. Círio. A Ana Margarida
apresenta à assembleia um círio ardendo, símbolo da luz de Cristo e da Irmã
Clara que, no mosteiro de São Damião, em Assis, foi luz para o mundo de seu tempo,
e também para o mundo de hoje. Fotografia da Foto Continental.
Círio (Ana Margarida de Sousa Menezes) – A luz de Clara de Assis chegou a
esta Ilha formosa há quinhentos anos sem que jamais se tivesse apagado. “Como
era grande a força desta luz e como era forte a claridade do seu brilho.
Apesar de escondida no segredo do claustro, esta luz irradiava e
projectava-se para todo o mundo”, diz o Papa Alexandre IV na bula de
canonização de Santa Clara.
Caravela (Alzirino Gomes) – Portugal, no desejo de
difundir a fé cristã, lançou-se na aventura dos descobrimentos. Com os
mareantes seguiam filhos de São Francisco de Assis. Na Madeira, em 1497, as
Irmãs Clarissas estavam presentes no mosteiro de Santa Clara. Senhor, aceita
a nossa gratidão e acção de graças pelas maravilhas que realizaste nestas
ilhas do Santíssimo Sacramento, através da vivência do Espírito de Assis. Livro da Fundação (Drª. Maria Fátima Araújo de Barros Ferreira) – Senhor, é com
profunda alegria, que trazemos ao teu altar, o Livro da Fundação do
mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, do qual este mosteiro de Nossa Senhora
da Piedade é continuador, onde, para além da Petição e Dotação dos
fundadores, o capitão Gaspar Berenguer de Andrade e sua esposa, do Alvará
régio, do Breve apostólico de fundação e erecção canónica, se encontra a
Regra, Testamento e Benção de Santa Clara, que pautaram a caminhada de
fidelidade evangélica da comunidade ao longo dos séculos.
Livro de Óbitos (Drª. Maria Favila Vieira da Cunha
Paredes) – Pelo mosteiro das Mercês passaram Irmãs virtuosas e exemplares que
embalsamaram a nossa terra com o perfume da santidade. Senhor, nós te
apresentamos todas as Irmãs do mosteiro, cujos nomes estão registados neste Livro
de Óbitos; a elas unidas, entoamos jubilosas o teu louvor.
Harpa (Irmão Feliciano José Gaita, oh) – As filhas
de Santa Clara vivem o mistério do amor de Deus, na solidão fecunda que nasce
da intimidade silenciosa com o coração de Cristo. Senhor, aceita estes
quinhentos anos de louvor e ajuda-nos a permanecer humildemente fiéis ao
carisma franciscano-clareano. Plantazinha (D. Rita Cora Aguiar) – São Francisco de Assis, padroeiro da
ecologia, e Clara, sua plantazinha, amaram, respeitaram e cantaram a natureza,
louvando Deus Criador. Aceita, Senhor, esta Pérola do Atlântico, que é a
Madeira, cheia de flores, plantas e árvores, porque fizeste tudo com
sabedoria e a tua obra é esplendor e majestade. Mosteiros (Abadessas dos mosteiros) – Nesta flor estão simbolizados os três
mosteiros do passado, Santa Clara, Encarnação e Mercês, no Funchal, assim
como o mosteiro de Nossa Senhora da Piedade e suas três fundações: Mosteiro
de Santo António, no Funchal, Nossa Senhora das Mercês, nos Açores e Santa
Clara, no Brasil. “Bordado madeira” (Irmã Maria da Encarnação, osc) – As Irmãs Clarissas, além da oração
contemplativa dedicam-se à confecção de trabalhos manuais que se coadunam com
a vida conventual. Senhor, aceita o nosso trabalho como expressão de pobreza
e de partilha com a comunidade humana. Seguiu-se a Liturgia da Palavra em
que participaram as Irmãs Clarissas e pessoas convidadas. O salmo
responsorial foi cantado pela Irmã Maria Manuela Sousa, membro da comunidade
do mosteiro do Santíssimo Sacramento de Sintra, que se encontrava na Madeira
a fazer o noviciado canónico. Após a leitura do Evangelho usou da
palavra D. Teodoro de Faria que, depois dum breve comentário ao texto
litúrgico, fez incidir a sua reflexão sobre a Ordem de Santa Clara na
Madeira. Após uma referência à chegada das primeiras Clarissas e ao
nascimento dos três mosteiros do passado, Santa Clara, Encarnação e Mercês, a
sua atenção fixou-se neste último. Salientou que, como fruto de uma vida
fervorosa, quando “a legislação liberal do século XIX levou à extinção das
ordens religiosas, o mosteiro das Mercês, o mais pobre, exemplar e amado pelo
povo, conseguiu continuar vivo nos seus membros, embora em 1910 as religiosas
tivessem sido expulsas da sua casa e espoliadas do seu património religioso”.
As últimas palavras de D. Teodoro de Faria foram simultaneamente uma oração e
um voto: “Obrigado Senhor. Mostra-nos o teu rosto nas situações difíceis da
nossa história. Não apagues nesta terra os sinais sensíveis da vida
contemplativa. Dá-nos vocações. Que Santa Clara de Assis continue presente
entre nós”[9]. 89. Assembleia. Esta grande
assembleia do povo de Deus, onde se misturam autoridades e povo, clérigos e leigos,
está aqui para, em uníssono com as Irmãs Clarissas, agradecer e louvar o
Senhor. Fotografia da Foto Continental. Na oração dos fiéis, para além de
outras intenções eclesiais e franciscanas, orou-se “pelos governantes que
presidem aos destinos da Região Autónoma da Madeira, para que dirijam o seu
povo segundo a vontade de Deus e promovam o bem comum” e “pelos jovens
madeirenses, para que sejam dóceis à voz do espírito e respondam com
generosidade a Cristo que os chama a colaborar na nova civilização do amor. A
Eucaristia prosseguiu com cânticos de louvor e acção de graças. Terminada a celebração eucarística,
D. Teodoro de Faria, a pedido das religiosas, procedeu à entrega das
bênçãos papais destinada aos mosteiros. É que os membros da comissão organizadora
haviam solicitado de Roma a benção do Santo Padre para o mosteiro de Nossa
Senhora da Piedade, suas três fundações (mosteiro de Santo António, no
Funchal, Nossa Senhora das Mercês, nos Açores e Santa Clara, no Brasil), bem
como uma benção pessoal para o prelado da diocese, o arcebispo de Évora, o
prelado de Beja, donde vieram para a Madeira as primeiras Irmãs, uma
benção pessoal para cada uma das Irmãs Clarissas madeirenses e ainda para
algumas pessoas muito ligadas à efeméride[10]. 90. Benção papal. D.
Teodoro de Faria, no final da celebração eucarística, procedeu à
entrega da benção que o Papa João Paulo II se dignou conceder a cada
uma das Irmãs Clarissas madeirenses e aos seus mosteiros. Fotografia da
Foto Continental. As quatro abadessas ali
presentes, Madres Maria Madalena do Divino Mestre, Maria Marta do Precioso
Sangue, Maria Verónica da Sagrada Face e Maria da Imaculada, receberam a
benção do seu mosteiro das mãos de D. Teodoro de Faria, enquanto às Irmãs,
para não retardar a conclusão da celebração, lhes foram entregues
posteriormente. Para as Clarissas residentes no Continente, Açores e
Brasil, foram-lhes enviadas pelo correio, juntamente com uma pequena pagela
em pergaminho, picotada pela Irmã Maria de Fátima , contendo uma
mensagem escrita pela Irmã Otília Rodrigues Fontoura. Já no final da celebração, D.
Maurílio de Gouveia, Arcebispo de Évora, fez uma apreciação da efeméride,
congratulando-se e associando-se ao júbilo das religiosas, de D. Teodoro de
Faria e da população madeirense. Foi uma oportuna intervenção, amiga e cheia
de simpatia, que a todos deixou felizes Esta solene celebração encerrou com
o hino centenário. A assembleia exultava de alegria. Nos rostos lia-se satisfação,
felicidade. Minutos depois, as autoridades
religiosas e civis, membros de institutos religiosos diversos e
individualidades convidadas, entraram na clausura, onde D. Teodoro de Faria,
acompanhado de D. Maurílio, procedeu à inauguração da exposição do espólio
artístico do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês. D. Manuel Franco da Costa de
Oliveira Falcão, bispo de Beja, a quem foi solicitada a presença nas
celebrações, embora, por razões apostólicas não tivesse podido estar
presente, manteve-se muito associado às Irmãs e a quantos se empenharam nesta
efeméride. Em carta de 27 de Outubro de 1997, dirigida à Irmã Otília
Rodrigues Fontoura, depois de agradecer o convite e informações recebidas,
escrevia: “Com esta carta quero associar-me às celebrações centenárias da
chegada à Madeira, a 5 de Novembro de 1497, das religiosas saídas de Beja”[11]. Para o dia 29 de Novembro, ponto alto das
celebrações, enviou às Irmãs Clarissas uma mensagem muito fraterna e
reveladora da sua grande estima pelas filhas de Santa Clara. Igualmente
a Primeira Ordem Franciscana, frades menores e capuchinhos, e os mosteiros da
Ordem de Santa Clara estiveram associados. Recordamos o telefonema de
parabéns de Frei Acílio Mendes, ofm cap, superior da Fraternidade de
Fátima, e da Madre Maria Albertina da Santíssima Trindade, abadessa do
mosteiro de São José em Vila das Aves. 2.4. Exposição do espólio artístico do mosteiro das
Mercês do Funchal
- Organização da exposição A iniciativa desta exposição partiu
de D. Teodoro de Faria. As Irmãs Clarissas acolheram a ideia com satisfação e
facilitaram a sua realização. Dado que os dois actuais mosteiros,
Nossa Senhora da Piedade e de Santo António, possuem uma espólio artístico
das Mercês de certo valor, ao qual se podiam juntar outras peças localizadas
no Museu de Arte Sacra, Museu da Quinta das Cruzes, na igreja de São Martinho
e de São Pedro, no Funchal, a exposição justificava-se. Para organizá-la requeria-se pessoa
competente e capaz de dedicação. Na sua escolha se empenhou D. Teodoro de
Faria, para quem esta exposição era uma iniciativa muito válida e digna de
toda a atenção. O prelado encontrou na Drª. Luíza Clode, actual directora do
Museu de Arte Sacra, a pessoa capaz de se responsabilizar pela sua
organização. Com ela estiveram associadas a Drª. Manuela Teixeira, e duas
Irmãs Clarissas: Cândida Teresa de Gouveia e Otília Rodrigues Fontoura. Conforme o acordado com o prelado
da diocese, a exposição estaria aberta ao público todas as sextas feiras,
sábados, domingos, feriados e dias santos, das 14 às 18h30. Com autorização
de D. Teodoro de Faria teve lugar no interior da clausura, numa sala que
funciona como oratório, com fácil acesso ao claustro, por onde se faria
a entrada do público, e numa pequena sala contígua. Ali se foi reunindo o espólio
existente: imagens, crucifixos, vestes litúrgicas, livros, uma cadeira de
braços, uma armário “caixa de açúcar”, quadros, roupas do Menino Jesus e
pequenos objectos. Depois de um mês de intenso trabalho, a exposição,
simples e pequena, mas bem organizada e cheia de interesse, estava pronta
para ser aberta ao público, o que aconteceu no dia 30 de Novembro de 1997,
pelas 18h00. No patamar situado antes da sala de
exposição estava colocada a planta do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês,
inédita, cujo original a Torre do Tombo, em Lisboa, guarda nos seus arquivos;
três fotografias do mesmo mosteiro, propriedade da Direcção Regional dos
Assuntos Culturais, no Funchal; a fotografia de um armário almofadado, de
dois corpos, existente no Museu da Quinta das Cruzes; a fotografia, em
grandes dimensões, do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade e, em menor
formato, das três fundações por ele feitas nas décadas de setenta e oitenta
deste século XX. Somavam quarenta e oito as peças
artísticas expostas[12], sem contar fotocópias e pequenos
objectos.
Quadro n.º 82 - Imagens
Na exposição encontravam-se sete imagens, todas elas de oficina portuguesa:
duas delas, São Bruno e Santa Ifigénia, em madeira policromada e dourada;
uma, o Senhor da Paciência, escultura em madeira policromada, com um
valioso resplendor em prata; Nossa Senhora, escultura em madeira policromada
(roca), com vestes em seda pérola, decoradas de galões dourados; três imagens
do Menino Jesus, em madeira policromada, uma das quais com repintes; oito
crucifixos, em madeira policromada, três dos quais, são esculturas de valor,
com pedras preciosas de cor vermelha transparente, rubis. Dois deles têm
resplendores e cravos em prata dourada, havendo também um outro, o maior, de
117 centímetros, pintura sobre madeira, já descrito quando falámos sobre o
património artístico do mosteiro.
Quadro nº. 83 - Crucifixos
O Museu de Arte Sacra guarda um
conjunto de paramentos litúrgicos de seda, de oficina luso-oriental,
pertencente ao mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, bordado em matiz, onde
predomina o amarelo, castanho, azul e verde mar, com o qual se misturam aplicações
em lhama de ouro e de prata. O desenho é harmonioso e as cores suaves. A dar
realce e a definir formas, há galão largo de cor amarela e na capa de
asperges franja da mesma cor. Apenas foram expostas duas peças: capa de
asperges e casula em estilo românico. 91. Casula e capa de asperges.
Em seda bordada a matiz, com aplicações em lhama dourada e prateada,
dos séculos XVII / XVIII, de oficina luso-oriental, com galões e franja em
seda amarela. Fotografia de Carlos Fotógrafo.
A exposição apresentou também o enxoval do Menino Jesus do mosteiro de Nossa das Mercês, que se usava na quadra natalícia e ao longo do ano: vestidinhos, em número de seis, envolta, quatro camisinhas, colcha do berço e faixa. O enxoval do Menino era maior, pois, dizem as religiosas, que algumas peças arderam aquando do incêndio que se verificou no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade em 1959. Hoje, este pequeno enxoval é propriedade das Irmãs Clarissas dos actuais mosteiros da Madeira. O berço e a caixa ou arca que a comunidade das Mercês utilizava para o guardar, encontra-se no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade.
Os seis vestidos são das cores usadas na liturgia: verde, vermelho, roxo,
azul e branco. Estes vestidos são em seda e cetim, tendo alguns deles galões
dourados e bordado a fio de ouro e lantejoulas douradas. No enxoval vêem-se
dois vestidos brancos. Um muito simples e o outro mais rico, certamente
utilizado em dias festivos. O azul era usado nas festas marianas. As camisinhas são em linho, uma das
quais em cambraia de linho com rendas e “bordado madeira”. A faixa de em
cetim pérola, está debruada com galão dourado. A envolta do Menino, muito
belo, é de renda branca forrada com seda amarela que lhe dá beleza e a
colcha do bercinho é de damasco vermelho com galão dourado.
Quadro nº. 84 - Vestes litúrgicas e enxoval do Menino
A exposição apresentava um roquete que
o mosteiro de Nossa Senhora da Piedade guarda. Foi bordado nas Mercês,
segundo testemunhavam as religiosas vindas de lá. É de tule branco com
“bordado madeira”, onde se podem distinguir vários pontos: bastido, pastinha,
richelieu, cordão, caseado e garanitos, formando um rendilhado cheio de
beleza. Este bordado ocupa mais de metade do corpo do roquete e das mangas.
A comunidade do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês era pobre e todo o seu
recheio, como pudemos constatar quando, no capítulo oitavo, falámos do
património artístico, era muito sóbrio. Contudo, tinham alguns móveis de
valor, certamente ofertas de familiares das religiosas ou de benfeitores.
Entre eles conhecem-se dois armários “caixas de açúcar”, assim designados por
serem feitos com a madeira das caixas que chegavam com o açúcar exportado
pelo Brasil. São de madeira exótica, dos séculos XVII e XVIII. Uma destas
caixas de açúcar, de um só corpo e com portas almofadadas, pertence ao
mosteiro de Nossa Senhora da Piedade. A outra, um armário de dois corpos,
também almofadado, pode ver-se no Museu da Quinta das Cruzes.
Quadro nº. 85 - Móveis
O mosteiro possuía também uma escrivaninha com alçado de meados do século XVIII, portuguesa, com decoração acharoada a vermelho e embutidos. Aplicação de motivos decorativos a ouro e laca onde se vêem cenas bucólicas e de guerra. No interior da porta do alçado, vemos uma figura de sugestão oriental, muito ao gosto comum na Europa do século XVIII das “chinoiseries”. Este armário escrivaninha foi durante muitos anos propriedade da família Ferreira, possivelmente adquirido em hasta pública. Em 1998 encontrava-se num antiquário do Funchal que lhe atribuía o valor de oito mil contos. É uma peça original, certamente oferecida ao mosteiro de Nossa Senhora das Mercês por pessoa amiga. A superfície decorada com cenas guerreiras abre, ficando então adaptada a escrivaninha.
92. Armário escrivaninha: pormenor. A escrivaninha termina na parte
superior com uma harmoniosa e bela decoração, onde não falta a concha ,
tão em uso na época, envolvida por variados elementos de natureza
bucólica em ouro e laca . 93. Armário escrivaninha. Peça de sugestão oriental, com embutidos e decoração abundante em ouro e laca, onde os motivos são muito variados. Fotografia de Rui Camacho, DRAC.
94. Cadeira de braços. Cadeira de estilo Chippendale,
em mogno, com o espaldar decorado com folhas de acanto. Julgamos que seria
utilizada na capela do mosteiro. Fotografia de Rui Camacho, DRAC.
Na exposição podia ver-se também uma cadeira de braços em mogno, decorada no espaldar com folhas de acanto e com assento almofadado, em damasco, de estilo Chippendale. Foi César Gomes que, em 1946 a ofereceu ao Museu da Quinta das Cruzes, onde se conserva. Sem dúvida tê-la-ia comprado em hasta pública. O oratório, o berço e a caixa ou arca do Menino, que figuraram na exposição, vêm descritos no capítulo VIII, onde falámos do património artístico. Dos muitos livros de natureza religiosa, de que a comunidade das Mercês dispunha para oração e aprofundamento doutrinal, os mosteiros de Clarissas conservam alguns que estiveram expostos. O Breviarium Romano-Seraphicum, que foi usado pela Madre Virginia Brites da Paixão, vem reproduzido na página........desta obra. Também o livro Delicias do Coração Cathólico, o suavíssimo Menino Jesus, de 1757, e a Novena de Santa Clara, de 1720, podem ver-se nas páginas....e......, respectivamente. O livro mais antigo Caminho do céu “descuberto”, de 1665, actualmente propriedade do mosteiro
95. Livro de 1665. O livro mais antiga que as Irmãs Clarissas guardam das Mercês, ainda em bom estado de conservação. Foi dedicado pelo seu autor, Frei António de São Bernardino, à rainha da Inglaterra, D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV, rei de Portugal. Fotografia de Calos Fotógrafo.
de Santo António, pertenceu, conforme alguém manuscreveu na primeira folha, a “Soror Brites da Paixão”, filha de Aires de Ornelas de Vasconcelos, sexto morgado do Caniço, que, conforme o mesmo escrito, morreu nas Mercês “em cheiro de santidade”. Este livro, da autoria de Frei António de São Bernardino, frade menor recoleto da Província dos Algarves do Reino de Portugal, foi impresso em Londres em 1665 e oferecido “à Sereníssima Rainha da Gram Bretanha”. Trata-se de D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV, que estava casada com Carlos II da Inglaterra.
Quadro nº. 86 - Livros e fotocópias
Na exposição figuraram também três quadros: o Busto de Cristo, que se conserva no Museu de Arte Sacra do Funchal, de que fizemos descrição no capítulo VIII, ao tratar do património artístico; Cristo flagelado, em carvão (cópia), com moldura e vidro assinado: G. Alves; o Menino Jesus dormindo sobre uma almofada. O quadro mostra-nos alguns símbolos da Paixão. Estes dois últimos são propriedade do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade.
Quadro nº.87 - Quadros
Temos ainda a mencionar, para além do já referido, alguns pequenos objectos que as Irmãs Clarissas conservam quase com valor de relíquia. São eles: um alicate de fazer terços, uma agulha de crochet, dois furalhós, um terço, uma coroinha, uma aliança, que foi usada por uma religiosa das Mercês, uma pequena chave e uma medalha de São Francisco Xavier de 1878. Na sala 2, onde se concentrou essencialmente o que dizia respeito à Madre Virgínia, por ela usado no Lombo dos Aguiares no período que se seguiu à expulsão em 1910, estiveram em exposição, além do seu hábito e terço, um prato, uma taça e um jarro do século XIX, uma salva de oficina portuguesa, provavelmente do século XVIII, e um candeeiro do século XX. Na mesma sala estiveram em exposição três quadros com religiosas das Mercês que ainda viveram alguns anos no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, na Caldeira, e algumas das primeiras candidatas que entraram nesta nova casa religiosa.
- Abertura e visitas No dia 30 de Novembro, após a solene celebração eucarística, pelas 18h00, como vínhamos dizendo, procedeu-se à abertura da exposição. Estavam presentes, além de D. Teodoro de Faria e D. Maurílio Jorge Quintal de Gouveia, o Secretário do Turismo e Cultura, João Carlos Abreu, o Presidente da Câmara Municipal de Câmara de Lobos, Gabriel Gregório Nascimento Ornelas, a Presidente da Junta de Freguesia da mesma localidade, D. Maria Paixão Rodrigues Ferreira, a Directora do Arquivo Regional da Madeira, Drª. Maria Fátima Araújo de Barros Ferreira, a arquivista, Drª. Maria Favila Vieira da Cunha Paredes, o Secretário Epíscopal, P. Carlos Duarte Lino Nunes, o ex-Ministro Provincial dos Franciscanos, Frei Mário de Jesus Pereira da Silva, vários párocos, religiosos, religiosas, membros da Terceira Ordem Franciscana, e pessoas amigas particularmente empenhadas no centenário. A atenção dos visitantes incidiu, antes de mais, sobre a planta do mosteiro das Mercês ali existente e das fotografias dos mosteiros, situadas no patamar, junto à sala 1, após o que se penetrou no interior da mesma sala. Uma vez ali, após um pequeno historial sobre a chegada e presença das Irmãs Clarissas à Ilha, a Irmã Otília Rodrigues Fontoura foi informando os visitantes sobre a história e o valor de cada peça: imagem de Santa Ifigénia, São Bruno, Nossa Senhora (de roca), o Senhor da Paciência e três do Menino Jesus, crucifixos em número de oito, vários livros religiosos e dois do Arquivo Regional da Madeira: o Livro da Fundação do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês e o Livro de Óbitos do mesmo mosteiro; e ainda alguns paramentos e mobiliário: “caixa de açúcar”, oratório, cadeira de braços, caixa ou arca e berço do Menino Jesus.
96. Observando um crucifixo. A Irmã Otília Rodrigues Fontoura concentra a atenção dos visitantes no crucifixo situado ao fundo da sala. Naquele crucifixo a expressividade mística alia-se à beleza artística. Aquela peça tem mais de uma centena de rubis engastados no Corpo do Senhor e resplendor e cravos em prata dourada (pode ver-se na p... ). Fotografia de Carlos Fotógrafo.
Houve demonstrações de apreço pela exposição; pequena, dizia-se, mas muito significativa. Tudo falava de um passado distante e da sua ligação com as Clarissas madeirenses do presente. Cada pequena peça ali exposta, era como que uma relíquia, um sinal, uma presença das religiosas das Mercês, que souberam ser presença de Deus no meio dos homens. Terminada a visita, todos se dirigiram para a sala de jantar do mosteiro, onde estava preparado um lanche, simples, mas gesto de gratidão e amizade. Tudo decorreu em ambiente de família, com muita alegria e simplicidade, como é próprio do espírito franciscano. Na sexta feira seguinte, 6 de Dezembro, começaram as visitas do público à exposição. Ao longo de dois meses, Dezembro e Janeiro, em que esteve aberta, as visitas sucederam-se. Por aquelas salas passaram umas duas mil pessoas, desde as autoridades eclesiásticas e civis, professores e estudantes, ao povo simples. Visitaram-na entidades culturais, entre as quais o Presidente do Centro de Estudos de História do Atlântico, a Directora da Escola Secundária Lucinda de Andrade, de São Vicente, Dra Natália Lucinda de Sousa, vários professores e alunos da mesma escola, os seminaristas do Seminário diocesano do Funchal, estudantes universitários, quando pelo Natal tiveram férias, alunos das escolas primárias acompanhados das suas professoras, emigrantes de visita à Madeira, enfim, um número incalculável de pessoas. Tivemos ocasião de ouvir alguns testemunhos do amor dedicado às religiosas das Mercês e mais recentemente às do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade e de Santo António. Testemunhos de pessoas que contribuíram para a construção do mosteiro da Caldeira ou para a sua reconstrução em 1959-962, após o incêndio. Com que ternura e admiração falavam “do nosso conventinho, das nossas Irmãs”!... Um casal, D.
97. O enxoval do Menino Jesus. Contemplando o enxoval do Menino Jesus das Mercês, o sorriso franco e terno aparece no rosto de muitos. Aqui se vêm os vestidinhos segundo as cores da liturgia. Fotografia de Carlos Fotógrafo. Maria do Monte e seu marido, residentes no Funchal, traziam consigo a fotografia da Madre Teresa da Apresentação, tia-avó da senhora D. Maria do Monte. Com que veneração esta senhora falava da sua tia!... Pela exposição passou também uma outra senhora que, no Pós- república, entregou na igreja de São Martinho o crucifixo das Mercês que podemos ver no oratório na página....... , que as religiosa haviam confiado ao casal amigo que aquela senhora serviu durante anos. Lembramos com satisfação aquele dia 7 de Janeiro em que o P. José Afonso de Nóbrega Rodrigues visitou a exposição com umas duzentas pessoas, entre as quais pessoas de idade, professores, estudantes liceais, amigos e alguns familiares das irmãs clarissas da comunidade. No dia anterior, 6 de Janeiro, o Jornal da Madeira noticiava: “no próximo domingo, cerca de duzentas pessoas, paroquianos das paróquias de Piquinho e das Preces (Concelho de Machico) visitarão o mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, na Caldeira, Câmara de Lobos. Aí terão ocasião de presenciar a exposição do espólio artístico do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, que se integra nas celebrações do quinto centenário da presença na Madeira das Irmãs Clarissas”[13]. Era dia de chuva. Para poder informar tão grande grupo do contexto histórico e religioso que a exposição abordava, foi preciso reunir todas as pessoas na capela de Nossa Senhora da Piedade, onde, em forma de diálogo, houve informação de grande interesse. Depois, enquanto a Irmã Maria da Cruz ficou a fazer um encontro com os jovens, integrados no grupo, pôde a Irmã Otília Rodrigues Fontoura mostrar minuciosamente a exposição àquela população de Machico, dividida em grupos. Alguns meses volvidos, as pessoas recordavam com saudade “o dia feliz e inesquecível, que foi aquele dia 7 de Janeiro de 1998”. Ao longo destes dois meses a exposição foi filmada e fotografada. Ao Jornal da Madeira devemos a amabilidade de a mandar fotografar em Dezembro, com cuidado e minúcia, trabalho assumido por Carlos Fotógrafo. O mosteiro de Nossa Senhora da Piedade e de Santo António guardam com estima os respectivos álbuns. Algum tempo depois foi filmada, a pedido de D. Teodoro de Faria, pelo P. Eduardo de Freitas Nascimento, tendo sido gravada em simultâneo uma pequena referência histórico-religiosa de cada peça. Em meados de Janeiro, uma jornalista da Rádio Televisão Portuguesa do Centro Regional da Madeira fez igualmente a sua filmagem e uma entrevista, de que alguns dias depois foi feita uma notícia televisiva. Em princípios de Fevereiro um grupo de profissionais da RTP de Lisboa, que aqui se deslocaram a fim de proceder à preparação de um programa “Setenta vezes sete” sobre as celebrações centenárias, filmaram-na novamente.
2.5. Em comunhão com as Irmãs Clarissas
Na continuidade das celebrações centenárias ocorridas em Novembro, a 30 de Dezembro de 1997, com a presença dos Bispos do Funchal e de Bragança, realizou-se no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade um encontro das religiosas da Ilha. Costumam as religiosas da Madeira, no final de cada ano, ter em conjunto e com a presença do prelado da diocese, um dia de reflexão espiritual e de convívio fraterno que, desde há muito, vem contribuindo para o conhecimento recíproco e crescimento da amizade em Cristo. Em 1997, atendendo a que as Irmãs Clarissas da Madeira, se encontravam em celebrações centenárias pela chegada há quinhentos anos das primeiras Irmãs, quis D. Teodoro que o referido encontro tivesse lugar no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, na Caldeira. A Irmã Estrella Rodriguez Rodriguez, do Instituto Missionário Verbum Dei, e àquela data Presidente da Federação Regional dos Institutos Religiosos Femininos, conhecedora da vontade de D. Teodoro de Faria, empenhou-se em congregar os diversos Institutos Religiosos: Congregação Portuguesa das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, Congregação de São José de Cluny, Franciscanas Missionárias de Maria, Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, Instituto Missionário das Filhas de São Paulo, Filhas da Caridade de São Paulo, Instituto Missionário Verbum Dei, Cooperadoras da Sagrada Família e Ordem de Santa Clara de Assis. No dia 30 de Dezembro, à medida que iam chegando num total que ascendeu a mais de setenta, iam tomando lugar na capela. Às 10h00, com o Santíssimo Sacramento solenemente exposto, começou um período de adoração que terminou no final da manhã com a Eucaristia, em que estiveram presentes D. Teodoro de Faria e D. António José Rafael, que, usando da palavra, exultaram com o acontecimento que as Irmãs Clarissas vinham celebrando e com a presença de tão grande número de religiosas. D. Teodoro falou da vida consagrada em profundidade, procurando renovar, no coração de cada religiosa presente, o entusiasmo e a alegria da sua consagração. D. António José Rafael, bispo de Bragança-Miranda, mostrou grande satisfação por estar presente nesta celebração tão cheia de significado. Seguiu-se um almoço partilhado. Cada comunidade trouxe o seu contributo. As Irmãs Clarissas apresentaram uma sopa, café e chá. Tudo posto em mesa comum, na sala de jantar do mosteiro, a refeição tornou-se fraterna. Marcada pela amizade e a simplicidade, em todas infundiu alegria e muita satisfação. Naquele dia 30 de Dezembro viveram-se momentos muito ricos em partilha espiritual, em amizade e alegria fraterna. Momentos de indizível felicidade. E como tudo tem o seu fim, a meio da tarde, as religiosas foram saindo para regressar às suas comunidades, onde outras responsabilidades as esperavam. Algumas tinham vindo de longe. As Irmãs do mosteiro de Nossa Senhora da Piedade sentiam-se felizes com esta comunhão tão construtiva e fraterna.
2.6. Encenação de vida de Santa Clara
Preparação e estreia da peça
A encenação da vida de Santa Clara foi assumida pelo grupo juvenil da paróquia do Carmo que, quando contactado pelas Irmãs Clarissas e pelo seu pároco, P. Adelino Macedo Costa, aceitaram a ideia com viva satisfação. No professor de teatro Jorge de Freitas, encontraram as Irmãs a pessoa ideal para assumir a responsabilidade daquela encenação. Após um primeiro contacto com o texto, o professor Jorge de Freitas deu-se conta do valor histórico-religioso da peça e com entusiasmo assumiu a responsabilidade de a levar à cena. Tratava-se de uma peça histórico-medieval em quatro actos e um quadro, da responsabilidade de Frei Jucundo Paglinara, franciscano capuchinho italiano, missionário em Moçambique, e da Irmã Otília Rodrigues Fontoura, que fez nela algumas adaptações histórico-carismáticas e a aumentou com o quarto acto e o quadro final em que é encenada a morte de Santa Clara. A peça já havia sido representada no Maputo em 1993, aquando das celebrações do oitavo centenário do nascimento de Santa Clara, mas somente com três actos. As primeiras cenas decorrem no palácio acastelado dos pais de Clara, Favarone Offreduccio e Madona Hortolana, na capela de Nossa Senhora dos Anjos ou Porciúncula, na igreja do mosteiro de beneditinas de São Paulo de Bastia e no de São Damião. A encenação foi feita, como se disse, com jovens da paróquia do Carmo, rapazes e raparigas, num total de 27, de idades compreendidas entre os quinze e os dezanove anos, alguns dos quais vizinhos do mosteiro. O encenador Jorge de Freitas, em ensaios sucessivos no salão de festas da igreja do Carmo, amavelmente facultado pelo pároco, bem depressa pôs a peça capaz de ir ao palco. Para um melhor êxito, Santa Clara foi representada no primeiro e segundo actos por Isabel Rodrigues e no terceiro e quarto por Mariela Henriques, que encarnaram o seu papel com muita competência. Para poder apresentar com grande realismo cenas de representação difícil, como sejam o corte dos cabelos após a consagração, a agressão do tio Monaldo de Offreduccio e dos cavaleiros armados, bem como a visão do presépio e das cerimónias natalícias na catedral de São Rufino, quando Clara por doença se encontra retida no leito, o encenador recorreu “a um jogo de sombras chinesas e à filmagem”. A Irmã Adelaide Maria da Cruz, tendo em vista a confecção dos fatos, foi contactando várias casas comerciais do Funchal, onde conseguiu a oferta dos mais variados tecidos: sedas, cetins, rendas e damascos que permitiram a confecção do guarda roupa, sendo a roupagem em estilo medieval cheia de requinte e beleza, cópia bastante próxima do que se usava na época. Na sua confecção colaboraram, além do encenador, os próprios actores e seus familiares. Na véspera da estreia da peça tudo se ultimou. O salão decorado pelas mãos hábeis de alguns jovens e do pároco estava um encanto. A peça pôde ser levada à cena graças à competência e dedicação do encenador, Jorge de Freitas, ao entusiasmo dos jovens actores e ao apoio da paróquia do Carmo, do INATEL-Madeira, Direcção Regional da Juventude e a colaboração das Irmãs Clarissas da Caldeira. Cada personagem encontrou nos jovens actores um fiel intérprete.
Quadro nº. 88 - Personagens e intérpretes
A estreia da peça fez-se no dia 1 de Dezembro com começo às 10h30, no salão de festas da igreja do Carmo, com a presença de autoridades religiosas e civis e de um grande público. Tudo se foi preparando com grande entusiasmo enquanto se aguardava a chegada das autoridades e outras distintas individualidade: D. Teodoro de Faria, D. Maurílio Jorge de Quintal Gouveia, Dr. João Henrique Silva, Director Regional dos Assuntos Culturais, Drª. Maria Fátima Araújo de Barros Ferreira, Directora do Arquivo Regional da Madeira, o Presidente da Câmara de Câmara de Lobos, Gabriel Gregório Nascimento Ornelas, e a Presidente da Junta de Freguesia de Câmara de Lobos, Maria Paixão Rodrigues Ferreira, o Prof. Doutor Ivo Sousa Nunes, Director do Departamento de Educação da Universidade da Madeira e sua esposa D. Jardelina Oliveira Rego Nunes, o Arquitecto João da Silva Paredes e sua esposa Drª. Maria Favila Vieira Paredes, e um grupo de Irmãs Clarissas.
98. Coro de Câmara da Madeira. Sob a direcção do Maestro Vítor Costa, o Coro de Câmara cantou o hino do centenário e seguiu com outros números de grande interesse. Fotografia da Foto Continental.
O espectáculo foi aberto com um diálogo (pergunta – resposta) entre o P. Mário Silva e a Irmã Otília Rodrigues Fontoura que esclareceu os espectadores sobre o ambiente histórico, religioso e social da época em que nasceu a Ordem de Santa Clara, princípios do século XIII, e sobre a sua difusão no mundo e a entrada na Ilha da Madeira. Seguiu-se a actuação do Coro de Câmara da Madeira, sob a orientação do Maestro Vítor Costa, que, além do hino do centenário, executou outros números muito apreciados. Após a saída do Coro de Câmara da boca do palco, o pano abriu e, de imediato, ouvidas as três pancadas de Molière, a encenação da vida de Santa Clara começava.
99. Assembleia. Uma grande assembleia assiste com satisfação à encenação da vida de Santa Clara que, naquela tarde do dia 1 de Dezembro, fazia a sua estreia no salão paroquial da igreja do Carmo. Fotografia da Foto Continental.
Os numerosos assistentes fizeram um recuo no tempo e no espaço. A vida de Santa Clara decorre em Assis, na primeira metade do século XIII, num contexto político-religioso em mutação. A nobreza feudal dava lugar à burguesia comercial e a Igreja, inserida desde há séculos no sistema político-social de então, havia perdido muito do espírito evangélico. Clara sente a situação. Chamada por Cristo e a exemplo de Francisco, decide empenhar-se numa caminhada de profunda vivência evangélica: vida em oração, pobreza e simplicidade. Desce do palácio a misturar-se com os sem direitos, porque decidira permanecer virgem pobre por amor de Cristo pobre. Em São Damião nasce uma comunidade que prescinde de rendas e de dotes, que ora, trabalha e assume, junto de Deus, as alegrias, as necessidades e as dores da humanidade. Rompendo com tradições ancestrais, Clara e as suas Irmãs dão vida a uma nova forma de vida religiosa. Na encenação acompanhamos esta transformação. Clara, depois de longo diálogo com os familiares, que não entendem os seus pontos de vista, deixa o seu castelo e vai para a capelinha de Nossa Senhora dos Anjos, onde faz a sua consagração ao Senhor. No mosteiro das beneditinas de São Paulo de Bastia, onde esteve provisoriamente, é enfrentada pelo tio Monaldo, acompanhado de cavaleiros armados, que pretende fazê-la regressar ao palácio. Clara resiste heroicamente e permanece na decisão tomada. Em São Damião, onde vive quarenta e dois anos com as Irmãs enviadas pelo Senhor, nasce uma comunidade acentuadamente evangélica. O tempo vai passando. Os mosteiros multiplicam-se. Com a bula Solet Annuere de Inocêncio IV a Regra de Santa Clara recebe a aprovação da Igreja, o que corresponde à aprovação da Ordem já muito difundida. À sua morte, em 1253, existiam cento e onze mosteiros. Este foi todo o cenário que a assistência teve diante dos seus olhos durante duas horas.
00. Clara e sua mãe. No palácio de seus pais, em Assis, Clara tinha momentos de intimidade com a mãe, que começara a compreender a nobreza de alma de sua filha. Fotografia da Foto Continental.
A encenação da vida de Clara decorreu com beleza e qualidade artística e mereceu da parte do auditório os mais vivos aplausos. Só a total e generosa dedicação do encenador e a boa vontade e o entusiasmo dos actores puderam permitir tal êxito. Tudo estava perfeito, salvo a sonorização, que foi afectada pelo excesso de lotação. O grupo dos jovens actores da paróquia recebeu no fim uma prolongada e bem merecida ovação, com todo o público de pé, pela forma digna e profissional como a representaram. No final subiram ao palco Frei. Mário de Jesus Pereira da Silva que louvou a qualidade da peça, o encenador e os jovens e exultou com aquele sucesso, a Irmã Adelaide Maria da Cruz, que agradeceu em nome das Irmãs Clarissas a colaboração dada por muitos para que aquela encenação se concretizasse, e o Dr. João Henrique Silva, que louvou os actores, apreciou a qualidade da representação e a perfeição da execução, bem como o seu valor sob o ponto de vista religioso e cultural. Dada a importância da encenação todo o espectáculo foi filmado pela Foto Continental, de que resultaram duas cassetes que ficam a recordar tão feliz encenação.
101. Na intimidade famíliar. Inês e Beatriz, irmãs de Clara, bem como a amiga Bona, vão captando o ideal acalentado pela jovem castelã. Madonna Hortolana, sem compreender bem o que se passa no íntimo de Clara, olha-a com admiração e interroga-se. Fotografia da Foto Continental.
-Levada a outros palcos
Por vontade expressa por D. Teodoro de Faria, P. Frei Mário de Jesus Pereira da Silva e Irmãs Clarissas, a vida de Santa Clara seria levada a todas as paróquias que possuíssem um salão com condições para o efeito, o que, no entanto, só em parte foi possível. Tudo ficou reduzido a cinco representações sempre gratuitas: duas no salão paroquial do Carmo, em Câmara de Lobos, outras duas no salão do Colégio de Santa Teresinha, no Funchal, e uma no salão da Casa do Povo em Boaventura, concelho de São Vicente, como vamos ver. O primeiro pedido de repetição da vida de Santa Clara veio da Quinta Grande. Pedida a sua encenação para o dia 15 de Fevereiro, diante de algumas dificuldades que se levantaram, a peça acabou por ir ao palco às 19h00 desse mesmo dia em Câmara de Lobos, desta vez já aumentada com o quarto acto e o quadro, que davam seguimento à vida de Santa Clara em São Damião. Assim a peça terminava com a bula de aprovação da Regra e da morte de Santa Clara. Junto do leito, rodeado pelas muitas Irmãs, ardia uma vela que, com um efeito cénico, só conhecido do encenador, se apagou no mesmo instante em que Irmã Clara se entregou nas mãos do Criador. O espectáculo abriu com a intervenção de Frei Daniel António Silveira Teixeira que procurou informar a assistência do contexto da época em que decorreu a vida de Santa Clara. Seguiu-se a actuação da Tuna de Bandolins de Câmara de Lobos que diante de todos
102. Oposição do tio. Monaldo de Offreduccio censura duramente a sobrinha e querendo afastá-la do seu ideal de consagração, tenta levá-la ao casamento.
103. Na capela de Nossa Senhora dos Anjos (Porciúncula). Na presença do Irmão Francisco e de seus Irmãos, ali presentes em nome do bispo de Assis, Clara, depondo as suas jóias e vestes luxuosas, cingida com um pobre burel branco, faz a sua consagração ao Senhor . Fotografia da Foto Continental.
demonstrou a sua qualidade e competência, após o que teve lugar a encenação que mereceu mais uma vez o aplauso da numerosa assistência. A 4 de Abril de 1998 a peça deixou o Concelho de Câmara de Lobos para ser representada em São Vicente, na freguesia de Boaventura. O salão da Casa do Povo daquela localidade foi o espaço escolhido para a representação, com início às 16h00. Esta ida da vida de Santa Clara a Boaventura foi solicitada por D. Maria Helena Nunes Carvalho, presidente da Casa do Povo
04. Visita da mãe Hortolana. A mãe de Clara visitava muitas vezes o mosteiro de São Damião, onde acabou por ter as três filhas. O convívio era então íntimo e muito carinhoso .Também ela acabou por inserir-se na comunidade. Fotografia da Foto Continental.
daquela localidade que generosamente assumiu todos os encargos inerentes. A anteceder o início da peça puderam os espectadores assistir à actuação do Grupo de Cordas de Boaventura, com viola, rajão, braguinha e filarmónica. A professora D. Maria Helena julgou bem recompensados todos os esforços, trabalhos e despesas, pois achou a peça “com grande nível e capaz de ser levada a qualquer local”. A deslocação dos actores foi feita em transportes da Câmara Municipal de Câmara de Lobos e o almoço em Boaventura foi gesto simpático da Casa do Povo. Na expressão de muitos “foi uma tarde agradável e enriquecedora”. A 4 de Julho do mesmo ano a vida de Santa Clara voltou ao palco, desta vez no Funchal, no salão do Colégio de Santa Teresinha, das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias. O auditório foi grande e os jovens actores mais uma vez foram aplaudidos com entusiasmo. Naturalmente sentiam-se à vontade no palco, graças à experiência entretanto adquirida e à credibilidade que iam ganhando na opinião pública.
105. O Irmão estigmatizado. O Irmão Francisco, estigmatizado e já gravemente doente, na sua última visita a São Damião. Diante daquele mistério de amor e de dor, o respeito e a reverência traduziam-se em atitudes e gestos concretos. Fotografia da Foto Continental.
Uma semana depois, a 11 do mesmo mês, a encenação repetia-se no mesmo salão do colégio, que desta vez encheu por completo. Enquanto o transporte dos actores na primeira ida da peça ao Funchal esteve ao cuidado da Câmara Municipal de Câmara de Lobos, nesta segunda ida prestou esse contributo a comissão paroquial da paróquia da Sagrada Família do Funchal. Por vontade de muitos, a peça devia ir ao Teatro Municipal do Funchal, pois que os entendidos nesta matéria lhe reconheciam categoria para isso. Feitas as necessárias diligências, encontrou-se boa vontade; contudo, como o teatro ia entrar em obras dentro de poucos meses e até essa data o programa estava feito, sem qualquer hipótese de ser alterado, a encenação no Teatro Municipal do Funchal não foi possível. Também a ida a Porto Santo e a Beja foram irrealizáveis. D. Manuel Franco da Costa de Oliveira Falcão, em carta de 27 de Outubro de 1997, endereçada à Irmã Otília Rodrigues Fontoura, mostrava concordar com a encenação em Beja, donde haviam partido para a Madeira as primeiras clarissas: “Quanto à ideia de um grupo de jovens da Madeira vir a Beja representar a vida de Santa Clara, acho-a bela”. E logo sugeria o contacto com o Presidente da Câmara de Beja, bem como com a fraternidade dos Irmãozinhos de São Francisco de Assis, na Rua Afonso Lopes Vieira daquela cidade. Com muita pena do encenador Jorge de Freitas, dos jovens actores e das Irmãs Clarissas, esta deslocação não se concretizou. As despesas eram demasiado elevadas. Não havia estruturas para tanto. Sem dúvida que esta encenação dentro das celebrações centenárias foi muito positiva. Com ela, ou melhor com a Irmã Clara e o Irmão Francisco, muito aprenderam os jovens e algo de positivo e nobre passou para o grande público, como algumas vezes nos tem sido afirmado.
106. Encenador e jovens actores. No final da peça a assistência irrompeu em aplausos. Todos se sentiam alegres e felizes e, de certo modo, compensados dos esforços feitos. Fotografia da Foto Continental.
Ao encenador Jorge de Freitas que, para além da sua competência de professor de teatro, demonstrou dedicação amiga e pessoalmente desinteressada, aos jovens actores da paróquia do Carmo e ao seu pároco, e bem assim a todos quanto contribuíram para que esta realização fosse possível, afirmamos a nossa gratidão e amizade sincera.
3.Acompanhamento das celebrações centenárias pelos meios da comunicação social
Desde a primeira hora os meios de comunicação social
se mostraram interessados em dar difusão à efeméride. Sem qualquer encargo
para a Ordem, a imprensa, a rádio e televisão acompanharam as comemorações. No que diz respeito à imprensa houve a
colaboração do Diário de Notícias da Madeira, do Jornal da Madeira,
e das Missões Franciscanas, onde foram feitas publicações diversas.
Foi grande o número de artigos referentes às comemorações centenárias, alguns
dos quais dizem directamente respeito à vida de Santa Clara, carisma da Ordem
e vida das Irmãs Clarissas, saídos da pena de várias personalidades. Pela
rádio actuou o Posto Emissor do Funchal e a Rádio Jornal da Madeira. As
comunicações televisivas foram assumidas pela RTP, Centro Regional da
Madeira, e RTP, Lisboa. A 2 de Novembro de 1997 D. Teodoro de
Faria, anunciando oficialmente à Igreja da sua diocese e à população
madeirense em geral as celebrações centenárias de quinhentos anos de presença
da Ordem de Santa Clara de Assis na Ilha da Madeira, salientou a
importância dos mosteiros de clausura como escolas de fé, centros de estudo e
de desenvolvimento da cultura religiosa, bem como a actualidade da vida
contemplativa[14]. Depois, o público foi sendo esclarecido
a nível carismático pelos artigos do P. Nuno Ferreira Filipe, membro da
Ordem dos Irmãos de São João de Deus e actual capelão do mosteiro de
Santo António, de Freis Daniel António Silveira Teixeira e António José
Correia Pereira, franciscanos, das Irmãs Adelaide Maria da Cruz, Clara de Maria,
Maria da Imaculada, Maria Verónica da Santa Face e Otília Rodrigues Fontoura,
da Ordem de Santa Clara, e do médico Dr.Manuel Pedro Freitas, de Câmara
de Lobos, que fez um importante estudo sobre a capela do mosteiro de Nossa
Senhora da Piedade, e ainda da jornalista Luísa Gonçalves, do Jornal da
Madeira. Quadro nº. 89- Publicações
Foram-se repetindo os casos de pessoas
que, após a saída dos artigos ou emissões de rádio, telefonavam,
congratulando-se com o aparecimento nos meios de comunicação social de
estudos tão importantes e significativos. Em Fevereiro de 1998, Luís Santos e três profissionais de televisão, vindos de Lisboa, estiveram no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, trabalhando nos dias 4 e 5 na elaboração de um programa “Setenta vezes sete” que levaria o conhecimento das celebrações centenárias aos mais diversos e distantes telespectadores. Os referidos técnicos gravaram testemunhos, filmaram a comunidade em períodos de oração, de convívio e de trabalho, sem esquecer a confecção de hóstias, de que resultou o programa transmitido a 23 de Março, cuja coordenação foi da responsabilidade de Luís Santos. Logo após a emissão não faltaram telefonemas de pessoas amigas de vários pontos da Ilha e do Continente, dando parabéns e congratulando-se com as Irmãs Clarissas. As entrevistas dadas à Rádio Jornal da
Madeira, ao Posto Emissor do Funchal e Rádio Televisão Portuguesa foram
emitidas várias vezes, no todo ou em parte. Era frequente as pessoas
referirem-se a elas com satisfação.
Quadro nº. 90 - Entrevistas
É natural que esta
comunhão das filhas de Santa Clara com o mundo madeirense tenha contribuído
para o enriquecimento religioso e cultural e sobretudo para dar graças a Deus
pela presença da Ordem de Santa Clara desde 1497 e ainda para dizerem aos
seus irmãos que estão com eles e lhes desejam todo o bem. 4.
Monumento comemorativo No dia 29 de Novembro de 1997, quando na igreja de Santa Clara teve lugar a sessão cultural já referida, a Irmã Otília Rodrigues Fontoura, dirigindo-se às autoridades presentes, formulou um pedido e um voto: que as actuais autoridades da Madeira, dignas representantes e continuadoras de um passado honroso, hajam por bem levantar um monumento no local onde existiu o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, que fique a lembrar aos madeirenses de hoje e de amanhã o mosteiro ali existente de 1667 a 1910, onde muitas filhas da Madeira viveram felizes e se santificaram. “Atendendo a que os outros dois mosteiros, Santa Clara e Encarnação, estão ainda bem representados, enquanto o das Mercês foi totalmente demolido, tal atitude” disse a Irmã, “seria gesto de justiça para com as Irmãs que sempre foram exemplares e alvo do carinho e da dedicação dos madeirenses de antanho”. A ideia foi acolhida com visível
satisfação. O Dr. Eduardo António Brazão de Castro, ali presente em nome do
Presidente do Governo Regional, apoiou a ideia e prometeu ser transmissor e
intérprete do pedido junto dos órgãos do Governo da Região Autónoma da
Madeira. Foi uma lança metida em África. As Irmãs Clarissas ficaram a
aguardar. Alguns meses volvidos, foram informadas de que o pedido havia merecido a atenção dos órgãos governamentais e de que lhe iria ser dado cumprimento o mais depressa possível. Em breve estavam envolvidos no empreendimento e já em contacto directo com o escultor Ricardo Jorge Abrantes Velosa, a personalidade escolhida para levar a cabo a sua concepção. Em reunião havida no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade em que estiveram presentes as entidades referidas e algumas Clarissas, depois de uma primeira troca de impressões, foi feito um prévio esboço da peça, que está na base do monumento depois de levantado. Para a sua colocação foi escolhido o pequeno jardim ao lado do edifício Auxílio Maternal, hoje Secretaria Regional do Turismo e Cultura e Centro Cívico de Animação e Cultura Cabral do Nascimento. Para responder a trâmites oficiais o
pedido devia ter forma escrita. Por isso, a 23 de Junho de 1998, seguiu para
o Secretário dos Recursos Humanos o seguinte ofício: “Ainda
dentro das Celebrações Centenárias dos 500 Anos da presença das Irmãs
Clarissas na Madeira, vimos, respeitosamente, solicitar a Vossa Excelência se
digne concretizar as nossas aspirações, no sentido de, mandar erigir um
pedestal com a estátua de Santa Clara de Assis, com um pequenino jardim
em volta, entre a Rua das Mercês e a Travessa das Capuchinhas, para perpetuar
a lembrança de um dos mais exemplares mosteiros da Madeira e de
Portugal, pela vivência e fidelidade ao carisma da fundadora. Comprovando, ao longo destes quinhentos anos, a grande simpatia do bom povo da Madeira pela filha predilecta de São Francisco de Assis, ficamos profundamente confiantes de que Vossa Excelência anuirá, favoravelmente, a este nosso justo e sincero desejo. Com a nossa sincera gratidão, confirmamos a certeza da nossa prece silenciosa, junto do Senhor, pelos nossos Governantes e por esta Região Autónoma, como nos recomenda Santa Clara de Assis”[15]. A 22 de Outubro o mosteiro era informado pela Drª. Maria João Pereira
Gonçalves Delgado, na qualidade de Chefe de Gabinete, de que “em reunião do
Conselho do Governo de 15 de Outubro de 1998” ficara decidido: “atribuir ao
mosteiro das clarissas de Nossa Senhora da Piedade da Caldeira, um subsídio
no montante de 900 000$00, para implantação da peça escultórica no local onde
se situou o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, de que o mosteiro da
Caldeira é continuador”[16]. A meados de 1999, a peça escultórica estava
concluída. Na inscrição lê-se: NESTE LOCAL LEVANTOU O CAPITÃO GASPAR BERENGUER DE ANDRADE E SUA ESPOSA DONA ISABEL DE FRANÇA O MOSTEIRO
DE NOSSA SENHORA DAS MERCÊS (1667 –
1910), DA ORDEM DE SANTA CLARA DE ASSISão As religiosas das Mercês, mais fortes que as
circunstâncias político-sociais que as envolveram, foram um caso ímpar na
história de Santa Clara em Portugal. Delas se pode e deve orgulhar a Pérola
do Atlântico. Não é sem razão que hoje, ainda em clima de celebrações
centenárias, a terra-mãe que as viu nascer e as soube amar e proteger, lhes
levanta este belo e artístico monumento. Ele aqui ficará a perpetuar a sua
memória, a lembrar, como escreveu o Correio da Madeira a 5 de Março de
1927, “ o perfume das suas virtudes que, evolando-se do mosteiro, embalsamava
a cidade e os campos da Ilha”. Apresentamo-lo com as palavras do próprio escultor: “a peça escultórica que concebi para evocar o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, no Funchal, já desaparecido, é constituída por um bloco em bruto de pedra basáltica, com cerca de dois metros de altura, onde foram embutidos dois baixos relevos em bronze, um com a imagem de Santa Clara e outro com um texto alusivo à existência do referido mosteiro. A sua localização corresponde ao local onde outrora existiu a extinta construção”. A escolha da data da inauguração não foi fácil,
pois havia que atender a disponibilidades de entidades diversas. Na
impossibilidade de inaugurar-se no dia 11 de Agosto, festa de Santa Clara, ou
no dia 24 de Setembro, em que a Igreja celebrava a festa de Nossa Senhora das
Mercês, optou-se pelo dia 8 de Setembro, festa da Natividade de Nossa
Senhora. Dias antes foi enviado às autoridades religiosas, civis e militares
um cartão de convite. Com a necessária antecedência a Rádio difundiu
para informação o seguinte comunicado: “As Irmãs Clarissas do Mosteiro de
Nossa Senhora da Piedade, informam que no dia 8 de Setembro, festa da
Natividade de Nossa Senhora, com a presença do Presidente do Governo
Regional da Região Autónoma da Madeira e outras autoridades civis e
religiosas, D. Teodoro procederá à benção e inauguração de um monumento a
Santa Clara de Assis, levantado no Funchal, no cruzamento da Rua das Mercês
com a Travessa das Capuchinhas, local onde o capitão Gaspar Berenguer de
Andrade e sua esposa D. Isabel construíram o Mosteiro de Nossa Senhora das
Mercês, canonicamente erecto em l667. A última Abadessa deste Mosteiro foi a
Madre Virgínia da Paixão. O belo e artístico monumento, da autoria do
escultor Ricardo Jorge Abrantes Velosa, ficará a perpetuar a memória
daquele mosteiro de Irmãs Clarissas que, ao longo dos séculos, foi
oásis de paz e de santidade. A cerimónia inaugural terá lugar no Largo
das Mercês às 17 horas. Seguir-se-á uma missa de acção de graças na
igreja de São Pedro, pela 18 horas. As Irmãs Clarissas agradecem a presença amiga de
quantos puderem participar nesta efeméride[17]. Na véspera, a Directora Regional da Juventude
providenciou à instalação de um microfone no Largo Severiano Ferraz, junto do
túnel da via rápida. Também o Comandante da Polícia de Segurança Pública
prestou o necessário apoio para que a zona referida, na tarde do dia 8, a
partir das 17h00, pudesse estar livre. No
dia 8, a partir das 16h30, os convidados foram chegando. Às 17h00 pode dar-se
começo ao acto inaugural, que iniciou pela leitura do programa. A Irmã Adelaide Maria da Cruz comunicou que na sequência das
celebrações dos 500 anos da presença das Clarissas na Madeira, ia iniciar-se
a cerimónia da inauguração da peça escultórica de Santa Clara de Assis, no
local onde existiu o antigo Convento das Mercês, e leu o respectivo o
programa que passamos a transcrever: 107. Programa. Diante de numerosa
assistência, concentrada no Largo Severiano Ferraz, junto ao túnel da via
rápida, a Irmã Adelaide Maria de Cruz anunciou o programa de inauguração e
benção da peça escultórica que ficaria a lembrar o mosteiro
existente naquele local de 1667 a 1910. Fotografia de Daniel A. São
Teixeira, ofm Saudação - Padre Mário Pereira da Silva, ofm, ex -
Ministro Provincial dos Franciscanos. Descerrar do monumento Benção do monumento - Sua Excelência Reverendíssima, D. Teodoro de Faria,
bispo do Funchal Hino do centenário - Côro de Câmara do Funchal Historial - Irmã Otília Maria Rodrigues Fontoura, osc Agradecimentos - Irmã Maria Angélica do Menino Jesus, abadessa do
mosteiro de Nossa Senhora da Piedade Intervenção do Senhor Presidente do Governo
Regional Encerramento da cerimónia pelo Senhor Bispo do
Funchal Missa de acção de graças - 18 horas na igreja de São Pedro, presidida pelo P. Mário Silva Após a intervenção do P. Mário de Jesus Pereira
da Silva, a Irmã Maria Madalena do Divino Mestre auxiliada por uma menina,
escolhida entre os circunstantes, retirou o manto que cobria a peça
escultórica. D. Teodoro de Faria procedeu então à benção do monumento de
Santa Clara, que ficou a marcar o local outrora ocupado pelo mosteiro de
Nossa Senhora das Mercês. Finda a benção da peça escultórica o coro
irrompeu com o hino do centenário, o que deu solenidade ao acto que estava a
decorrer. Seguiu-se o historial da Ordem de Santa Clara na Madeira, em
que a Irmã Otília Rodrigues Fontoura salientou a vida virtuosa das Clarissas
das Mercês, a sua resistência a todas as vicissitudes político-sociais do
período liberal e da república de 1910. O Jornal da Madeira publicou o texto
na íntegra no dia seguinte. Agradecendo
gesto de tão alto significado para a Ordem de Santa Clara e tão dignificante
para as autoridades da Região Autónoma da Madeira e da população em geral, a
Madre Maria Angélica assim se expressou: “Ex.mo Senhor Bispo do Funchal, Ex.mo Senhor
Presidente do Governo Regional, Exmas Autoridades, Sacerdotes, religiosas,
Irmãs e irmãos: É uma grande alegria para nós, Irmãs Clarissas da
Madeira, o acontecimento que estamos a celebrar e que perpetuará, neste
local, a presença silenciosa e orante das nossas queridas Irmãs do mosteiro
de Nossa Senhora das Mercês que, durante quase três séculos,
testemunharam jubilosamente o espírito de Santa Clara de Assis,
louvaram ao “ Senhor Deus Altíssimo” e intercederam pelo bom povo da nossa
terra. Diz-nos a história religiosa insular que as
autoridades religiosas e civis, assim como o bom povo da Madeira, sempre
acarinharam as Irmãs Clarissas que aqui viveram. Ainda hoje, nós, as
Clarissas da Madeira, temos a oportunidade de usufruir de semelhantes
atenções, quer do Senhor Bispo do Funchal quer do Senhor Presidente do
Governo Regional, bem como de toda a população desta Ilha. Este acontecimento é possível graças ao
empenhamento do Governo Regional. Muito nos alegra ver aqui o Senhor
Presidente. Ele nos permitirá realçar também a dedicação do Senhor Secretário
dos Recursos Humanos, Dr. Eduardo António Brazão de Castro. A todos a nossa profunda gratidão e a certeza de
que estaréis presentes nas nossas orações junto do Santíssimo Sacramento”[18]. 109. Benção da peça escultórica. D.
Teodoro de Faria procede à benção do monumento de Santa Clara que ali fica
como homenagem da Ilha da Madeira e da Ordem de Santa Clara às Irmãs
Clarissas que outrora viveram no mosteiro das Mercês situado naquele local. Fotografia
de Daniel A. São Teixeira, ofm 109. .Assistência. Autoridades
civis e militares, algumas Irmãs Clarissas, membros de diversos institutos
religiosos e grande número de pessoas amigas assistem à benção da peça
escultórica. Fotografia de Daniel A. S. Teixeira,ofm Seguiu-se a intervenção do Presidente do Governo
Regional, Dr. Alberto João Jardim, que em breve alocução salientou o mérito
da acção franciscana na Ilha ao longo de quase seis séculos. Não escondendo o
seu apreço pela família franciscana, começou por afirmar que estava a
realizar-se “um acto cultural e simultaneamente um acto de reconhecimento,”
um acto que “marca no basalto bem madeirense, aquilo que as Ordens
Franciscanas ajudaram a construir sobretudo no campo dos valores e da
assistência”. Acentuou que o monumento “ evoca momentos grandes da vida da
Madeira, pois as Ordens Religiosas Franciscanas, até ao dia de hoje, quer
pela sua acção de solidariedade e social quer pela sua oração, muito
contribuíram para o bem da Madeira”. Referindo-se directamente à acção das
Irmãs Clarissas, do passado e do presente, congratulou-se com o facto de que
o mosteiro de Nossa Senhora das Mercês tenha sido alvo da protecção das
autoridades e da população madeirense, o que lhe permitiu
manter-se activo até à república de 1910. “E este povo é-lhes sempre muito
reconhecido”, disse Sua Excelência. Continuando, explicou: “ Mesmo em
momentos em que na Pátria portuguesa se perseguiam as congregações
religiosas, nunca o povo madeirense deixou quebrar os laços de afecto para
com as Irmãs Clarissas” E, a terminar, o Dr. Alberto João Jardim,
dirigindo-se às Irmãs, teve palavras de agradecimento “ por tudo o que têm
feito pelos madeirenses” [19].
D. Teodoro de Faria,
congratulando-se com o acto que estava a realizar-se, teve palavras de
agradecimento para com as autoridades, de apreço e de muita simpatia para com
as filhas de Santa Clara. Referiu que no mosteiro de Nossa Senhora das
Mercês, outrora ali existente, muitíssimas vezes se teria repetido a
expressão franciscana “Paz e Bem”, de que o mundo de hoje tanto carece. O
prelado referiu: “Não estamos contra aqueles que no princípio deste século
nos tiraram os mosteiros”. E acrescentou: “ o que nunca puderam tirar-nos foi
a fé e a devoção a São Francisco e a Santa Clara(...)”. As pequenas
sementes que ficaram 110. Intervenção do Senhor Presidente do
Governo Regional da Madeira. Referindo-se ao acto que acabava
de realizar-se, teve palavras de apreço pela Igreja, pela Família Franciscana
e nomeadamente pelas Irmãs Clarissas da sua terra. Fotografia de
António Daniel Silveira Teixeira, ofm vieram a dar origem ao mosteiro de Nossa Senhora da Piedade já
com três fundações feitas: Santo António, no Funchal, Nossa Senhora das
Mercês, nos Açores, e Santa Clara , no Brasil. D. Teodoro de Faria
acrescentou: “é importante reconhecer que a alma madeirense foi moldada, no
princípio, pela alma de São Francisco e de Santa Clara, com simplicidade e
muito amor a Deus, com serviço aos homens, e com sofrimento, mas ao mesmo
tempo com uma grande luta para que os valores humanos e espirituais
pudessem vencer”.[20]
Salientou que foi precisamente no mosteiro de Nossa Senhora das Mercês,
outrora ali existente, que viveu a Madre Virgínia que a Madeira continua a
olhar com veneração. Meia hora após a conclusão desta inauguração e
benção, já as pessoas se encontravam na igreja de São Pedro, matriz da
paróquia a que pertencia o mosteiro, para a celebração eucarística a que
presidiu o P. Mário Silva. Com ele concelebraram o cónego Ernesto Fernandes
de Freitas, pároco da igreja de São Pedro, Frei
Daniel António Silveira Teixeira, franciscano, P. António Fernando Sá
Réis, superior da comunidade dos Carmelitas do Funchal, e o P. Rui Alberto
Fernandes Pontes. Estavam presentes o Dr. António Eduardo Brazão de Castro,
Secretário Regional dos Recursos Humanos, o Dr. José Pereira da Costa,
Presidente do Centro de Estudos de História do Atlântico, membros da família
franciscana, nomeadamente das congregações franciscanas e da Terceira Ordem
Franciscana, religiosas de outros institutos e grande número de pessoas
amigas. Tudo começou com a intervenção do Coro de Câmara, dirigido pelo
Maestro Agostinho Bettencourt, seguindo-se a leitura do alvará régio de 1667,
que autorizava o capitão Gaspar Berenguer de Andrade à transformação do
recolhimento de Nossa Senhora das Mercês em mosteiro professo da Ordem de
Santa Clara de Assis. Feita a leitura pelo Presidente do Centro de Estudos de
História do Atlântico, tão habituado a manusear documentos deste género, Frei
Daniel António Silveira Teixeira, sacerdote franciscano da comunidade da
Penha de França leu o breve papal de Alexandre VII, que concedeu a erecção
canónica. A Eucaristia solene cantada em gregoriano, com
alguns cânticos em vernáculo, pelo Coro de Câmara, foi momento de acção de
graças e de louvor pela presença da Ordem de Santa Clara na Pérola do
Atlântico desde 1497. Finalizando Na Madeira, não houve vicissitude política ou
social que extinguisse a Ordem de Santa Clara. Nem o Liberalismo com suas
medidas anti-religiosas, nem a República de 1910, com sua ordem de expulsão,
conseguiu pôr-lhe termo. As Irmãs Clarissas madeirenses da comunidade do
mosteiro de Nossa Senhora das Mercês souberam perpetuar o espírito de Clara
de Assis. Por este heroísmo, caso ímpar na história de Santa Clara em
Portugal, quis a Ilha da Madeira, desde as autoridades religiosas e civis, às
Irmãs Clarissas e ao povo bom e simples, levantar um hino de louvor ao
Senhor. De facto, as celebrações centenárias dos quinhentos anos de presença
da Ordem de Santa Clara na Madeira foram, antes de mais, gesto de louvor e
gratidão para com o “Altíssimo Senhor” e para a Ilha da Madeira que desde
muito cedo soube amar e estimular o viver franciscano. Para as Irmãs Clarissas, o 500º
aniversário da presença da Ordem de Santa Clara na Madeira foi,
simultaneamente, paragem, reflexão e louvor. Paragem para, em atitude reflexiva,
captar todo o zelo posto pelas autoridades eclesiásticas e civis para que a
Ordem de Santa Clara fosse uma presença na Ilha da Madeira ao
longo de cinco séculos e, sobretudo, para tomar consciência da vida das Irmãs
madeirenses que nos precederam. A história é mestra eloquente; não podemos
esquecer as suas lições. Além disso, este centenário foi momento de acção de
graças. Acção de graças por quinhentos anos de “favores divinos”, conforme
canta o hino do centenário. Estas celebrações proporcionaram às Irmãs Clarissas
madeirenses momentos de indizível alegria e também a chegada das Irmãs dos
mosteiros fundados. Como foi agradável a sua presença!... O convívio, a
proximidade, a comunhão amiga e fraterna!... Se recordar é viver, este centenário foi também
um tornar presentes e vivas todas as religiosas Clarissas que se empenharam
com a própria vida na revitalização da Igreja, as autoridades que as souberam
amar e proteger, todos os madeirenses que com elas se empenharam na
construção de uma sociedade melhor . Ao longo das celebrações sentiu-se uma onda
de simpatia, de estima e de apreço, não só entre as autoridades madeirenses
mas também entre a população. Ao celebrar quinhentos anos de louvor, uma
iniciativa se impunha: levantar um monumento no espaço outrora ocupado pelo
mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, que ficasse a lembrar à posteridade as
filhas da Pérola do Atlântico que ali viveram e ali se santificaram. A peça
escultórica dedicada a Santa Clara lá está, falando a todos da presença do
mosteiro de Nossa Senhora das Mercês naquele local. Para informar a população sobre a história da
Ordem de Santa Clara de Assis e dos mosteiros da Madeira do passado e do
presente, ao longo das celebrações centenárias foi distribuído um
pequeno historial de quinze páginas, que a Grafimadeira imprimiu em número de
seis mil. Hoje, 1999, vestem o hábito da Ordem de Santa Clara cinquenta e cinco filhas da Ilha da Madeira que, movidas por profundo amor a Deus e às “gentes”, se vão dispersando mundo fora. Para além de trinta e quatro presentes na Região Autónoma da Madeira, vinte e uma no mosteiro de Nossa Senhora da Piedade e treze no de Santo António, encontram-se quatro no mosteiro das Mercês nos Açores, quatro no mosteiro de Santa Clara no Brasil e treze nos mosteiros do Continente. A finalizar, queremos, em nome das Irmãs Clarissas madeirenses e em
nosso próprio nome, expressar uma palavra de gratidão a quantos
contribuíram para que estas celebrações centenárias se tivessem
realizado com dignidade e brilho: D. Teodoro de Faria, bispo da diocese do Funchal, que apoiou e viveu
o acontecimento com muito interesse e visível alegria; o Presidente da Região Autónoma da Madeira, Dr.
Alberto João Gonçalves Jardim, que acompanhou e apoiou a efeméride e demais
autoridades civis, entre as quais, o Secretário dos Recursos Humanos, Dr.
Eduardo António Brazão de Castro que, auxiliado pela Drª. Maria João Pereira
Gonçalves Delgado, sua Secretária de Gabinete, pôs todo o seu empenho em que
o monumento a Santa Clara fosse uma feliz realidade; o Presidente da Câmara
Municipal de Câmara de Lobos, Gabriel Gregório Nascimento Ornelas e a Senhora
Presidente da Junta de Freguesia da mesma localidade, D. Maria Paixão
Rodrigues Figueira, que muito nos apoiaram; o P. Frei Mário de Jesus Pereira
da Silva, Ministro Provincial dos Frades Menores, que, a pedido das
Irmãs Clarissas se deslocou à Madeira, onde, com a sua presença e palavra deu
ênfase às celebrações; os Padres Franciscanos de fraternidade da Penha de
França que muito nos ajudaram, particularmente Frei Daniel António Silveira
Teixeira que, como membro da comissão organizadora, se dedicou na prossecução
dos trabalhos; a Senhora Directora do Museu de Arte Sacra, Drª. Luíza Clode,
que pôs grande empenho no organização da exposição do espólio do mosteiro de
Nossa Senhora das Mercês; o Senhor Jorge de Freitas, dedicado encenador da peça
“Vida de Santa Clara de Assis” e aos jovens actores; a toda a população
que se fez presente nas diversas celebrações, particularmente ao povo da
Caldeira que vibrou com as Irmãs Clarissas e com elas rejubilou. INDICE DAS
FOTOGRAFIAS, MAPAS, PLANTAS E QUADROS FOTOGRAFIAS 1
. Mosteiro de São Damião em
Assis............................................................................................... 2
. Capela do mosteiro de São
Damião........................................................................................... 3
. Crucifixo bizantino de São
Damião............................................................................................... 4 . Santa Clara de Assis (de Josefa
de Óbidos)............................................................................... 5
. Bula de aprovação da Regra de Santa
Clara.............................................................................. 6
. Mosteiro de Santa Clara............................................................................................................ 7
. Vista aérea do mosteiro de Santa
Clara...................................................................................... 8
. O claustro gótico do mosteiro de Santa
Clara............................................................................ 9
. O claustro gótico noutra
perspectiva........................................................................................... 10 .
Altar-mor da igreja do mosteiro de Santa
Clara......................................................................... 11 .
Cristo no
túmulo........................................................................................................................ 12 .
Cristo.......................................................................................................................................... 13 .
Carta para o vigário
capitular..................................................................................................... 14 .
Igreja do mosteiro de Santa
Clara.............................................................................................. 15 .
Igreja de Nossa Senhora do Livramento do
Curral................................................................... 16 .
Frontispício da
igreja.................................................................................................................. 17
.Dedicatória à Virgem do Livramento
........................................................................................... 18 .
Mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação do
Funchal............................................................ 19 .
Mosteiro de Nossa Senhora da
Encarnação................................................................................ 20 .
Capela de Nossa Senhora da
Encarnação................................................................................... 21 .
Porta principal da capela da
Encarnação.................................................................................... 22 .
Porta lateral da capela da
Encarnação....................................................................................... 23 .
Lápide tumular do instituidor da
capela..................................................................................... 24 .
Lápide tumular padroeiros do
mosteiro....................................................................................
25 .
Frontispício do Livro de Receitas e
Despesas............................................................................ 26 .
Tríptico flamengo da capela-mor do mosteiro da
Encarnação................................................ 27 .
São
Jerónimo............................................................................................................................... 28.
Interior da capela de Nossa Senhora da
Encarnação...................................................................... 29.
Capela de Nossa Senhora da
Encarnação.................................................................. 30 .
Mosteiro de Nossa Senhora das
Mercês.................................................................................. 31 .
Nossa Senhora das Mercês........................................................................................................ 32 .
Alvará
régio................................................................................................................................ 33 .
Problemática na transmissão do
padroado................................................................................. 34 .
Mosteiro de Nossa Senhora das
Mercês....................................................................................
35 .
Mosteiro da Nossa Senhora das
Mercês..................................................................................... 36 .
Interior da
capela........................................................................................................................
37 .
Santa Maria
Madalena................................................................................................................. 38 .
Santa Catarina
mártir.................................................................................................................. 39 .
Nossa Senhora da
Conceição...................................................................................................... 40 .
Cristo
crucificado........................................................................................................................ 41 .
Breviarium Romano -
Seraphicum........................................................................................... 42 .
.Novena de Santa Clara.............................................................................................................. 43 .
Delícias do Coração Cathólico, o Suavíssimo Menino
Jesus...................................................... 44 .
Menino Jesus............................................................................................................................. 45 .
Menino
Jesus.............................................................................................................................. 46 .
Senhor da Paciência................................................................................................................... 47 .
Berço do Menino
Jesus.............................................................................................................. 48 .
Menino Rei................................................................................................................................. 49 .
Presépio em caixa octogonal.............................................. 50 .
Fólio dum livro de contas.......................................................................................................
51 .
Carta para o escrivão da Câmara
Eclesiástica.......................................................................... 52 .
Busto de Cristo........................................................................................................................... 53 .
Cristo na
Cruz............................................................................................................................ 54 .
São Bruno.................................................................................................................................... 55 .
Santa
Ifigénia............................................................................................................................... 56 .
Menino
Jesus.............................................................................................................................. 57 .
Oratório....................................................................................................................................... 58.
Mosteiro de Nossa Senhora das
Mercês..................................................................................... 59 . O
pequeno mosteiro da Palmeira................................................................................................ 60 .
Transformada num pequenino
mosteiro...................................................................................... 61 .
Mosteiro de Nosso Senhora da Piedade...................................................................................... 62 .
Residência do P. Manuel Gonçalves
Henriques......................................................................... 63 .
Frontispício da capela de Nossa Senhora da
Piedade................................................................. 64 . A comunidade das Mercês, no mosteiro de
Nossa Senhora da Piedade.................................... 65 .
Em adoração eucarística.............................................................................................................. 66 .
Nossa Senhora da Piedade, venerada na capela do
mosteiro...................................................... 67 .
Confecção de hóstias................................................................................................................... 68 .
Bordados em
ouro...................................................................................................................... 69 . O
Externato de Nossa Senhora da Piedade................................................................................. 70 .
Capela de Nossa Senhora das Mercês, (do casal
Frazão)............................................................ 71 .
Capela do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, Açores
...................................................... 72 .
Mosteiro de Santa Clara, Nova Iguaçu, (Brasil)
......................................................................... 73 . A
Betânia..................................................................................................................................... 74 . A
comunidade do mosteiro de Nossa Senhora da
Piedade.......................................................... 75.
Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, hoje..............................................................................
76.
Mosteiro de Santo
António.........................................................................................................
77.
Casa dos pais da Madre Virgínia Brites da Paixão................................................................... 78.
Madre Virgínia Brites da
Paixão............................................................................................... 79 . E
adoração
eucarística.............................................................................................................. 80 . O
Senhor da Paciência ou Senhor da
Pedra.............................................................................. 81
.Mosteiro de Santo
António...................................................................................................... 82 .
Capela do mosteiro de Santo
António...................................................................................... 83 .
Coro de Câmara da
Madeira..................................................................................................... 84 .
Cântico do Irmão
Sol...............................................................................................................
85 .
Assembleia............................................................................................................................... 86 .
Agradecendo............................................................................................................................ 87 .
Oferendas
simbólicas................................................................................................................ 88 . Saudação
da
Assembleia........................................................................................................... 89 .
Círio......................................................................................................................................... 90 .
Assembleia............................................................................................................................... 91 .
Benção
papal........................................................................................................................... 92 .
Casula e capa de
asperges........................................................................................ 93 .
Armário escrivaninha:
pormenor............................................................................................ 94 .
Armário
escrivaninha............................................................................................................... 95 .
Cadeira de braços.......................................................................................................................... 96 .
Livro de
1665........................................................................................................................... 97 .
Observando um crucifixo.......................................................................................................... 98 . O
enxoval do Menino
Jesus...................................................................................................... 99 .
Coro de Câmara da Madeira.......................................................................................................
100 .
Assembleia................................................................................................................................ 101 .
Clara e sua
mãe......................................................................................................................... 102 .
Na intimidade
familiar............................................................................................................. 103 .
Oposição do
tio......................................................................................................................... 104 .
Na capela de Nossa Senhora dos Anjos
(Porciúncula)........................................................... 105 .
Visita da mãe
Hortolana............................................................................................................ 106 .
O Irmão
estigmatizado.............................................................................................................. 107 .
Encenador e jovens
actores..................................................................................................... 108 .
Programa................................................................................................................................. 109 .
Benção da peça
escultórica..................................................................................................... 110.
Assistência............................................................................................................................... 111 .
Intervenção do Senhor Presidente Regional da
Madeira..................................................... MAPAS Mapa
nº. 1 - Mosteiros da Ordem de Santa Clara de Assis em Portugal antes do
Liberalismo...... Mapa
nº. 2 - Mosteiros da Ordem de Santa Clara de Assis em Portugal,
hoje................................. Mapa nº. 3 - O mosteiro de
Santa Clara do Funchal, centro da irradiação da Ordem de
Santa Clara de
Assis.............................................................................................. Planta
nº. 1 - Mosteiro de Santa Clara do
Funchal........................................................................... Planta
nº. 2 - Mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação - Planta
topográfica................................ Planta
nº. 3 - Capela de Nossa Senhora da Encarnação – Planta
topográfica.................................. Planta
nº. 4 - Mosteiro de Nossa Senhora de Encarnação
............................................................... Planta
nº. 5 - Capela de Nossa Senhora da Encarnação e Casa do
confessor.................................... Planta
nº. 6 - Capela de Nossa Senhora da Encarnação,
hoje............................................................ Planta
nº. 7 - Mosteiro de Nossa Senhora das
Mercês...................................................................... QUADROS Quadro
nº. 1 - Irradiação da Ordem de Santa
Clara......................................................................... Quadro
nº. 2 - Alguns dados estatísticos: Século XIII - XVIII e
XIX.............................................. Quadro
nº. 3 - Total de clarissas no final de
1999............................................................................ Quadro
nº. 4 - A Ordem de Santa Clara no mundo em
1999........................................................... Quadro
nº. 5 - Fundações em Portugal.............................................................................................. Quadro
nº. 6 - Mosteiros
fundados................................................................................................... Quadro
nº. 7 - Dados estatísticos da Ordem de São Clara em Portugal (séc.
XX)........................... Quadro
nº. 8 - Nos séculos XV e
XVI.............................................................................................. Quadro
nº. 9 - No século XVII.........................................................................................................
Quadro
nº. 10 - No século
XVIII...................................................................................................... Quadro
nº. 11 - Alguns dados estatísticos......................................................................................... Quadro
nº. 12 - Espiritualidade das
confrarias.................................................................................. Quadro
nº. 13 - Alguns dados estatísticos......................................................................................... Quadro
nº. 14 - Desequilíbrio
financeiro........................................................................................... Quadro
nº. 15 - Obras a
realizar....................................................................................................... Quadro
nº. 16 - Evolução da
comunidade......................................................................................... Quadro
nº. 17 - Eleições das abadessa ( 1749 –1882 )
.................................................................... Quadro
nº. 18 - Abadessas com mais de um
triénio.......................................................................... Quadro
nº. 19 - Votações mais
aproximadas.................................................................................... Quadro
nº. 20 - Propriedades rústicas do
mosteiro........................................................................... Quadro
nº. 21 - Iguarias usuais nas
festividades................................................................................ Quadro
nº. 22 - Valores em ouro e
prata.......................................................................................... Quadro
nº. 23 - Despesas no
boticário.............................................................................................. Quadro
nº. 24 - Desequilíbrio orçamental no final do século
XIX.................................................... Quadro
nº. 25 - Obras de restauro..................................................................................................... Quadro
nº. 26 - Propriedades rústicas do
padroado........................................................................... Quadro
nº. 27 - Trigo fornecido pelas propriedades do
padroado..................................................... Quadro
nº. 28 - Candidatas recebidas sem idade canónica
................................................................ Quadro
nº. 29 - Admissões ao noviciado - Idades.............................................................................. Quadro
nº. 30 - Procedência das
noviças........................................................................................... Quadro
nº. 31 - Candidatas de ascendência nobre ............................................................................ Quadro
nº. 32 - Cargos trienais
.......................................................................................................... Quadro
nº. 33 - Ofícios trienais .......................................................................................................... Quadro
nº. 34 - Religiosas das Mercês de 1752 a 1834
..................................................................... Quadro
nº. 35 - Admissões com autorização régia (1777 – 1778 )
.................................................. Quadro
nº. 36 - Admissões por autorização régia (1793 - 1795
................................................... Quadro
nº. 37 - Comissão administrativa do mosteiro (1847 - 1859)............................................ Quadro
nº. 38 - Religiosas
falecidas.................................................................................................. Quadro
nº. 39 - Consumo de linho e estopa ..................................................................................... Quadro
nº. 40 - Despesas com as doentes
....................................................................................... Quadro
nº. 41 - Compra de trigo ..................................................................................................... Quadro
nº. 42 - Consumo de trigo em bolos e outras iguarias (alqueires
)..................................... Quadro
nº. 43 - Rendimentos da Sacristia (1764)........................................................................... Quadro
nº. 44 - Rendimentos da Sacristia
(1861)............................................................................ Quadro
nº. 45 - Ofertas certas e incertas (1726 - 1784).................................................................... Quadro
nº. 46 - Ofertas em trigo
(alqueires).................................................................................... Quadro
nº. 47 - Ofertas em géneros (não incluído o trigo).............................................................. Quadro
nº. 48 - Despesa da comunidade, doentes, igreja e
servos................................................... Quadro
nº. 49 - Balanços anuais....................................................................................................... Quadro
nº. 50 - Alguns paramentos
................................................................................................ Quadro
nº. 51 - Objectos em prata................................................................................................... Quadro
nº. 52 - Pinturas em madeira e
tela....................................................................................... Quadro
nº. 53 – Litografias.............................................................................................................. Quadro
nº. 54 - Imagens de madeira e
roca..................................................................................... Quadro
nº. 55 - Nichos.................................................................................................................... Quadro
nº. 56 - Candidatas recebidas após o dec. de
28/05/1834.................................................. Quadro
nº. 57 - Alguns dados estatísticos.......................................................................................... Quadro
nº. 58 - Cargos trienais de 1856 a
1910............................................................................. Quadro
nº. 59 - A comunidade em Outubro de 1910...................................................................... Quadro
nº. 60 - Morada após a
expulsão................................................................... Quadro
nº. 61 - Na casa paterna....................................................................................................... Quadro
nº. 62 - A comunidade do mosteiro
nascente...................................................................... Quadro
nº. 63 - Horário de oração de oração comunitária...............................................................
Quadro
nº. 64 - Horário
comunitário................................................................................................ Quadro
nº. 65 - Ofícios
trienais......................................................................................................... Quadro
nº. 66 - Discretório para 1999 –
2002................................................................................. Quadro
nº. 67 - Dados estatísticos (1931-1999).............................................................................. Quadro
nº. 68 –
Óbitos.....................................................................................................................
Quadro
nº. 69 - Frequência do Externato.......................................................................................... Quadro
nº. 70 - Corpo
Docente........................................................................................................ Quadro
nº. 71 - Fundações feitas pelo mosteiro
............................................................................... Quadro
nº.72 - Fundadoras do mosteiro
(19)............................................................................... Quadro
nº.73 - Fundadoras do mosteiro
(1986)............................................................................... Quadro
nº.74 - A comunidade em 1999
.......................................................................................... Quadro
nº.75 - A comunidade fundadora em
1971......................................................................... Quadro
nº.76 - Horário de
oração............................................................................................ Quadro
nº.77 – Horário da comunidade......................................................................................... Quadro
nº.78 – Cargos
trienais........................................................................................................ Quadro
nº.78 – Discretório para 1999-2001................................................................................. Quadro
nº.80 – Dados
estatísticos................................................................................................ Quadro
nº.81 – A comunidade em 1999....................................................................................
Quadro
nº.82 –
Imagens................................................................................................................
Quadro
nº.83 – Crucifixos............................................................................................................. Quadro
nº.84 – Vestes litúrgica e enxoval do
Menino.................................................................... Quadro
nº.85 – Móveis.................................................................................................................. Quadro
nº.86 – Livros e
fotocópias................................................................................................
Quadro
nº.87 – Quadros................................................................................................................. Quadro
nº.88 – Personagens e
intérpretes......................................................................................... Quadro
nº.89 – Publicações............................................................................................................ Quadro
nº.90 –
Entrevistas............................................................................................................. INDICE GERAL Dedicatória......................................................................................................................................... Celebrando 500 anos de louvor - Hino do
Centenário..................................................................... Siglas........................................................................................................................................ .Fontes e Bibliografia ............................................................................................................. I Fontes
..................................................................................................................................... II Bibliografia ........................................................................................................................... Prefácio...................................................................................................................................... Agradecimentos........................................................................................................................... Plano
geral.................................................................................................................................... Introdução...................................................................................................................................
PRIMEIRA PARTE ORIGEM,CARISMA
E DIFUSÃO DA ORDEM DE SANTA CLARA DE ASSIS
CAPÍTULO I A VOCAÇÃO DE CLARA E A ORIGEM DA ORDEM...................................................... 1.
Assis, nos séculos
XII-XIII....................................................................................................... 2.
Clara Offreduccio
.................................................................................................................... 3. Uma opção plenamente
livre..................................................................................................... 4. A
comunidade
nascente............................................................................................................. CAPÍTULO II COM CLARA DE ASSIS, UMA NOVA
FORMA DE SER CONTEMPLATIVA.. 1. Contemplação
franciscana..........................................................................................................
1.1.Encanto e
enamoramento.....................................................................................................
1.2. Em comunhão com toda a
criação.......................................................................................
1.3. Uma só vocação, um só carisma, uma só
família................................................................. 2. O
mosteiro de São Damião - Ideal e
desafio..................................................................................
2.1. Vida em
fraternidade...........................................................................................................
2.2. O trabalho como meio de
subsistência................................................................................
2.3. Em louvor e
adoração......................................................................................................... CAPÍTULO III TEXTOS
LEGISLATIVOS E Reformação........................................................................... 1.
Defendendo o carisma
próprio....................................................................................................
1.1. Fuga à influência da Regra de São Bento - Luta pelo carisma
próprio.....................................
1.2.Testamento e Regra de Santa Clara. Salvo o carisma da
Ordem........................................ 2. Vicissitudes posteriores- Regras da Beata Isabel de França e de Urbano IV................................ 3.
Movimentos
renovadores....................................................................................................... CAPÍTULO IV DIFUSÃO DA ORDEM DE SANTA
CLARA ASSISão.............................................................. 1.A
expansão da
Ordem.................................................................................................................. 2.Supressões
e ressurgimento.......................................................................................................... 3. Alguns dados
estatísticos............................................................................................................. 3.1. Ao longo dos
séculos............................................................................................................. 3.2. No final do século XX........................................................................................................... CAPÍTULO V A ORDEM DE SANTA CLARA EM
PORTUGAL................................................................................. 1.Os
quatro primeiros
mosteiros....................................................................................................... 2.Fundações
nos séculos
XIV-XIX................................................................................................. 3. Extinção......................................................................................................................................... 4. Reestruturação da Ordem (séc.
XX).............................................................................................
4.1. Restauração de três mosteiros
antigos...................................................................................
Mosteiro do Santíssimo Sacramento do
Louriçal...................................................................
Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês do
Funchal..............................................................
Mosteiro do Santíssimo Sacramento de Lisboa
(Conventinho)............................................
4.2. Fundação de sete novos mosteiros
.......................................................................................
Referência
sumária.................................................................................................................
Mosteiros
fundadores.............................................................................................................
4.3. Criação da Federação do Imaculado Coração de
Maria........................................................ 5.
Alguns dados
estatísticos.............................................................................................................. SEGUNDA PARTE MOSTEIROS DA MADEIRA NO
PASSADO I SECÇÃO MOSTEIRO DE SANTA CLARA ( FUNCHAL), 1497-1890...............................................
CAPÍTULO I ESTRUTURA MATERIAL E
ECONÓMICA.......................................................................... 1. O primeiro mosteiro feminino na Madeira................................................................................
2. Autorização
papal......................................................................................................................
3. A construção..............................................................................................................................
4. Licença papal definitiva
.............................................................................................................
5. O padroado da família
Câmara.....................................................................................................
6. Instituição de
“capelas”...............................................................................................................
7. Património do mosteiro - Propriedades rústicas e
urbanas.........................................................
8. O saque de 1566
........................................................................................................................
9. Obras de ampliação e
restauro.................................................................................................... 10.
Património artístico do
mosteiro.................................................................................................. 11. O
mosteiro de Santa Clara , reflexo de uma
época......................................................................
CAPÍTULO II VIDA INTERNA: COMUNIDADE E GOVERNO........................................................................
1. A comunidade
.............................................................................................................................
1.1. As candidatas........................................................................................................................ 1.2. A profissão
religiosa.................................................................................................... 2. O governo do mosteiro......................................................................................................... 2.1. Eleições -
Corresponsabilidade
fraterna.................................................................................. 2.2. A administração do
mosteiro................................................................................................. 3. Alguns dados estatísticos sobre a evolução
da comunidade
..................................................................
CAPÍTULO III VIDA INTERNA - ESPIRITUALIDADE E CULTURA
1. Espiritualidade............................................................................................................................... 1.1. Oração comunitária e
vida litúrgica........................................................................................
1.2.Viveiro de
santidade................................................................................................................
1.3. Celebrações natalícias ............................................................................................................
O Menino Perdido e Achado
.................................................................................................. Presépios artísticos................................................................................................................. 2. O mosteiro como centro cultural: escola de formação feminina................................................... 2.1. As letras e a música
sacra....................................................................................................... 2.2.Culinária, bordados e artes decorativas................................................................................... 2.3. Educação de “moças nobres” .............................................................................................
CAPÍTULO IV A VIDA INTERNA : ECONOMIA............................................................................................ 1.O Curral das Freiras e a Quinta de Santo
António....................................................................... 2. Produtos comercializados – o açúcar e o
vinho
.......................................................................... 2.1. O
açúcar............................................................................................................................... 2.2. O vinho................................................................................................................................. 2.3. Os
juros................................................................................................................................ 3. O
quotidiano................................................................................................................................ 3.1.O abastecimento de
água....................................................................................................... 3.2. Os géneros
alimentícios........................................................................................................
3.3. O pessoal
trabalhador........................................................................................................... CAPÍTULO V INSERÇÃO E COLABORAÇÃO COM A
IGREJA LOCAL................................................. 1. Culto público na igreja do mosteiro
............................................................................................. 2. O mosteiro de Santa Clara, membro da
confraria de Nossa Senhora do Monte............................ 3. Em benefício da população do Curral das
Freiras ..........................................................................
3.1. A capela de Santo António e seus capelães
.............................................................................
3.2. Cedência do terreno para a construção da igreja de Nossa Senhora do
Livramento................ 3.3. Erecção
da paróquia do Curral das Freiras e Fajã dos Cardos ou paróquia
de Nossa
Senhora do
Livramento.............................................................................................................. CAPÍTULO VI O MOSTEIRO DE SANTA CLARA,
CENTRO DE IRRADIAÇÃO DA ORDEM............... 1.Irradiação para os
Açores.......................................................................................................
...... 1.1. Mosteiro de Nossa Senhora da
Luz da Praia (Ilha Terceira)................................................. 1.2. Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Vale de Cabaços (Ilha de São Miguel).......... 1.3. Mosteiro de Jesus da
Praia...................................................................................................... 1.4. Mosteiro de Jesus da Ribeira
Grande...................................................................................... 2. Projecção para o
Continente......................................................................................................... 2.1. Mosteiro de Nossa
Senhora da Piedade da
Esperança...........................................................
2.2. Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de
Alenquer..................................................... 3. Duas fundações do mosteiro de Santa Clara no
Funchal............................................................... CAPÍTULO VII DECADÊNCIA................................................................................................................................
1.Condicionalismo sócio-político
...................................................................................................... 2. Irregularidades
internas................................................................................................................. 2.1. As
criadas............................................................................................................................... 2.2. A presença de seculares
dentro da clausura............................................................................ 2.3. O abuso dos locutórios:
excesso de
visitas............................................................................ 2.4. Saídas da clausura................................................................................................................. 2.5. Tentativas para deter o
mal.................................................................................................... 3.O
mosteiro de Santa Clara nos fins do século VIII - Crise espiritual e
económica
..........................
3.1. Crise
espiritual....................................................................................................................... 3.2. Crise
económica.....................................................................................................................
CAPÍTULO VIII O MOSTEIRO DE SANTA CLARA NA
POSSE DO ESTADO. SITUAÇÃO ACTUAL.... 1. O mosteiro na posse do
estado...................................................................................................... 1.1. Extinção das Ordens
Religiosas (1832 -
1834)..................................................................... 1.2. Supressão do mosteiro
de Santa Clara
(1890)....................................................................... 1.3. Encerramento e
reabertura da igreja de Santa
Clara................................................................ 2. O edifício, seu destino e
utilidade.................................................................................................. 2.1.
Recolhimento........................................................................................................................... 2.2. Colégio ao serviço da
Associação Auxiliar das Missões Ultramarinas
..................................... 2.3. Novamente ao serviço da
Associação Auxiliar das Missões Ultramarinas............................ 2.4. Obras de
restauro.................................................................................................................. 3. Situação actual............................................................................................................................. II SECÇÃO MOSTEIRO DE NOSSA SENHORA DA ENCARNAÇÃO (
FUNCHAL), 1660-1890.... CAPÍTULO I O RECOLHIMENTO DE SANTA TERESA.
............................................................................. 1. Voto do Cónego Henrique Calaça de
Viveiros............................................................................... 2. A construção do edifício
................................................................................................................ 3. A incorporação da capela de Nossa Senhora da
Encarnação......................................................... 4. Abertura do Recolhimento de Santa
Teresa..................................................................................... CAPITULO II PASSAGEM A MOSTEIRO DE
CLARISSASão..........................................................................
1.
Autorização apostólica (1651)
.................................................................................................... |