Capitulo V.

De muitas Religiozas exemplares, que sahirão deste

Mosteyro para fundadoras de outros.

Chegavam a Portugal os odoriferos perfumes das virtudes, com que se fazião exemplares as grandes religiozas deste Mosteyro, quando se acabava a piedoza fabrica da de Nossa Senhora da Piedade, que chamão da Esperança de Lisboa; a qual avia dado principio D. Izabel de Mendanha, e posto a ultima mão D. Joanna Deça, que depois de veuva foi camareyra mor da Raynha D. Catarina, mulher del Rey D. João III. Era esta Senhora filha de João Fugaça vedor del Rey D. João II. e de D. // Maria Deça, sua mulher; havia cazado com Pedro Gonçalves da Camara./ e forão progenitores por baronia da Illustrissima caza dos Almotaceis mores/ filho terceyro do II. Capitão Donatario do Funchal, onde asistio alguns tempos; e sendo testemunha de grande reforma, e observancia deste Mosteyro que tinha fundado seu sogro, e onde tinha ja suas filhas, fez com que fossem delle as fundadoras, segundo a faculdade da eleyçam que a dita D. Izabel de Mendanha, tinha dado o Papa Clemente VII., na Bulla que lhe concedeu para a sua fundação em 16. de Janeyro de 1524.

Nove foram as primeiras religiozas, peregrinas flores, que prefessas nesta caza, se transplantarão na da Esperança, onde cultivaram a espiritual observancia que alli resplandece, e com que se criaram. Chegaram a Lisboa a 25. de Oitubro do anno 1535., e por não estar de todo ainda aperfeiçoada a clauzura se retiraram por seis mezes ao Mosteyro de S. Clara de Sanctarem; donde no seguinte anno se recolherão ao novo Domicilio, trazendo a sua fragancia como pombas do Divino Espozo, duas companheyras mais. As que forão do Funchal erão Soror Ignes de Deos, logo nomeada para primeyra Abbadessa, de cujas relevantes virtudes faz larga memoria o M.R.P. Chronista da sua Religião, escuzandonos//a sua elegancia de o repetirmos. As outras forão, Anna de S. Joseph sua tia, não menos exemplar nas virtudes; Ellena de Jesuz que foi depois muitas vezes Abbadessa no proprio Mosteyro; e sua Irmaã Alcaria de Assumpção, ambas filhas da mesma Camareyra mor D. Joanna Deça: Barbora da Assumpção, Clara do Paraizo, Ignes de S. Francisco, Maria da Conceyção, e Anna do Espirito Sancto. De todas fazião memoria os seguintes disticos, que por authoridade do M.R.P. Chronista Fr. Fernando da Soledade, se achão manuscritos no livro da fundação daquella Caza:

Octo dicata Deo stipata sodalibus Agnes,

Sorte quitus Presul prefuit ipsa prior.

Insula ab hac venit, nomen cui plurima fecit

Materies sacras has coluisse somos:

Clara, Maria, Helene, hec Agnes, haec Barbara nomen

Virginibus duplex Anna dicabus erat

Angela jungatur: Joanna, Agnes qual protectae

Scalabãe, de gregibus, quas ipia clara regit.

Na ultima errou o autor dos verços, chamando Angella a Maria da Conceição; engano em que cahio tambem o Ageologio Lusitano, como ja advertio o mesmo Chronista; equivocados ambos com Angela de Jesuz, religioza tambem exemplar; professa no proprio Mosteyro do Funchal, donde foi le // vada a este tres annos depois, por companheyra de Soror Felippa de S. Antonio, filha da mesma Camareyra mor, que foi suceder no cargo a primeyra Abbadeça Soror Ignes de Deos. De ambas estas religiozas, faz tambem grande memoria das suas virtudes, o proprio Chronista, a quem nos Remetemos. Havia se escuzado desta ocupação por falecimento da primeyra Abbadeça, Soror Izabel do Espirito Sancto com o pertexto dos seus achaques; do mesmo procurou tambem escuzarse a Madre Felippa que sendo das primeyras nomeadas uzou a sua Comunidade do Subterfugio de a constituirem Abbadeça do Funchal; porem agora se conseguio; pello meyo das censuras, fazendo embarcalas o braço del Rey que cometeu esta execução ao Lecenciado Affonso da Costa Corregedor que disto mandou fazer hum auto de 25. de Junho de 1539; sendo o seu conductor o P. Fr. Nuno de Figueyro, Difinidor da Provincia.

Das primeiyras religiozas que forão dar o Mosteyro da Esperança, sahirão depois em 14. de Outubro de 1555., para fundarem na villa de Alenquer o Mosteyro da Conceyção, que no anno de 1553., avia edificado João Gomes de Carvalho, fidalgo da Caza del Rey D. João III., e Camareyro do Infante Cardial Rey D. henrique. Foram estas// Soror Maria da Assumpção, filha da Camareira mor, para a Abbadessa; e Soror Anna do Espirito Sancto, para vigaria da Caza; a qual foi filha de Garcia da Camara, e neta do fundador, o II. capitão do Funchal. Da virtude destas duas senhoras faz tambem larga narração o R. P. Chronista, referindo alguas revelações que teve a segunda.

Do mesmo Mosteyro de S. Clara do Funchal, segundo afirma o mesmo Chronista, sahirão duas Religiozas para a Ilha de S. Miguel a fundar o Mosteyro de N. Senhora da Conceyção de Val Cabaços, junto da villa de Agoa de pao, que foi fundado por Ruy Gonçalves da Camara III. capitão Donatario da mesma Ilha, e 2º neto de Jão Gonçalves Zarco, pellos annos de 1523.. porem destas Rligiozas não descubrimos os nomes, nem as memorias antigas, no lo dizem. Tambem o Isigne Peta Manoel Thomaz nos afirma que deste Mosteyro forão duas religiozas, netas do capitão fundador, reformar o Convento de villa do Conde, na cota que poz a estrofe 102 do 5º livro.

Dignamente sera tam observante

Da Serafica ordem este Convento,

E tanto em suas glorias vigilante,

Crescera com virtude em digno aumento;

Que com gloria das virgens mais triumphante.

Muitas com levantado pensamento

Em Portugal da Sancta Regra Auroras

De outras cazas se vam Reformadoras.

Nesta noticia seguio o Poeta a Gaspar Furtuozo, mas entendo que ambos se enganarão tomando villa do Conde por Alenquer, onde forão as duas fundadoras, netas do dito II. Capitão João Gonçalves da Camara como deixamos escripto.

Mas sem perigrinarmos outras terras, na mesma Cidade do Funchal temos dous Mosteyros sugeitos ao Ordinario de que depois falaremos, ambos fundados por Religiozas deste nobre Domicilio; qual foi a Madre Clara de S. Bernardo aqui profeça, que no anno de 1660, foi fundadora no Espiritual da Regra de S. Clara do Mosteyro de Nossa Senhora da Encarnação; como tambem o foi a Madre D. Branca de Jesuz, profeça nesta mesma Caza o anno de 1636., que no de 1667, plantou a primeyra observancia da Regra da propria S. Clara, no Mosteyro de Nossa S. das Merces; e assim que ate hoje, são sinco os Jardins que cultivarão, as filhas deste cenobio magestozo, e em todo o tempo venerado pella sua observancia, virtudes, e reforma. //