Capitulo IV.
Continuasse a materia do precedente capitulo.
Misteriozo parecera tomar de novo alento, para repetir as virtudes da Madre Iza//bel da Natividade, se o descuido não sepultara memorias, que devião ser terminadas na fama. Guardou esta Religioza tão perpetuo silencio, que parese tinha perdido o uzo de falar; e porque de todo mortificase o sentido do gosto, jamais comeo sem lhe lançar pucaro de agoa fria, a titulo de estar salgado, o que comia; outras vezes o polvarizava de Cinza com o nome de canella. Em alguas ocaziões, que a chamavão para matinas, a acharão com hua corda ao pescoso, que lhe cingia todo o corpo, o qual lançava sobre hua traveta que lhe servia ordinariamente de cama, onde tinha por traviseyro dous pregos, entre os quais prendia a cabeça, por não ter o alivio de a mover.E este pouco he o que sabemos da sua vida, porque foi sempre tão retirada da comunicação humana que deve a sua memoria mais o silencio proprio, do que o alheyo. Faleceu com particulares sinaes de Santidade no anno de 1663; contando na idade sincoenta e tantos.
Em tudo imitadora desta grande Religioza foi a Madre Soror Leonor da Emcarnaçam, filha de Jorge Correa de Bettencourt, e de sua mulher D. Joanna da Camara. Guardou sempre tal silencio nas suas penitencias, e mortificações, que o mais que// dellas se soube descubrio a morte. Estando hum dia no refeytorio, ouvio hua voz que lhe dezia se dispozesse para morrer; e esperando a Abbadeça, se dezapropriou nas suas mãos, e fazendo hua confição geral, pedio os Sacramentos, e lançada na cama durou dous dias em hum profundo letargo, até entregar o espirito a seu criador quando lhe compuzerão o corpo para o feretro lhe acharam varios silicios de ferro, e o corpo todo macerado das penitencias, confirmandose então a boa opinião que sempre se teve da sua vida: faleseu no anno 17..
Mais dilatadas noticias da sua virtude nos deixou a Madre Ignacia do Espirito Santo, filha natural de João Miciot de Betencourt e Sâ, que faleceu Conigo da Se desta Cidade em 17. de Junho de 1637 ., cuja may se chamou Izabel Jaquez: entrou esta senhora educanda, e logo de menina perdeo o sentido de ouvir, e depois de profeça a vista de hum olho, ate ficar de todo cega com os annos. Foi sempre muito observante da sua regra, e reformada no habito sem jamais calçar os pez: no Coro, e na oração era continua; e retirada totalmente dos lugares publicos, ainda para comunicarse a seus parentes. O unico descubrimento que se lhe sabia emquanto teve vista, era dispor hum// Prezepe para o Natal. Predice alguas couzas antes de sucederem; e estando hum Domingo na cella, a tempo que asistia no Coro a Comunidade, passando hua serviçal, reparou interiormente nella, asentando que não fora ouvir missa; e chamando a dita moça, lhe advertio que nunqua julgase mal do prosimo; por ella tinha ja ouvido missa, e se recolhera molestada para a cella.
Quando sucedia encontrar com huas flores a que chamão chagas, ou cravos, as comia lavada em lagrimas, contemplando na sacratissima paixão de Christo Senhor Nosso. Foi muito persiguida do inimigo, que em forma de hum idiondo mulato, a atormentava; e em certa ocazião a lançou por hua escada, dandolhe com hum candieyro no ombro, onde lhe ficou o sinal de hua chaga, por muitos tempos. Por muitas vezes a ouvião falar com o Menino deos, e com a Madre Sancta Clara. Esteve intrevada muitos annos, padecendo grandes trabalhos, porque se abrirão muitas chagas pello corpo; mas tão sofrida, que jamais se lhe ouvio hum dezafogo. Seis annos esteve sem comungar, por não dar materia algua aos confeçores; porem antes do seu falecimento pedio os Sacramentos, e com grande edificação das suas companheyras, os recebeo com// particulares afectos e ternuras; e assi continou ate entregar o espirito a seu Divino Espozo, em os primeyros de Junho deste proprio anno em que referimos estas memorias 1722., contando noventa de idade.
Maria do Orto freyra do veo branco, foi rigurozamente penitente, e tão humilde, que estimava todas as occaziões do desprezo proprio, com particular alegria. Os seus jejuns continuados erão de pam e agoa; assi todas as quaresmas; e ordinariamente passava muitos dias com hua so laranja. Comungando hum dia de N. S. da Encarnação, ficou arebatada publicamente em extazis ate as tres horas da tarde, e em outras occazioes mais particulares lhe sucedia o mesmo; faleceu de idade de quarenta annos no de 1662.
De outras muitas Religiozas poderamos dizer muito, se o não occultasse o tempo, e a mesma virtude; e não teriamos menos que escrever das que hoje vivem, se as tivesse coroado o fim dos seus merecimentos; porem concluiremos esta memoria com a noticia de hua serviçal desta caza, muito grande serva de Deos; que agora faleseu nestes dias. Chamouse Maria de S. Bernardo, e era natural da villa de Machico,// filha de pais humildes, mas bem precedidos. Entrou neste Mosteyro por serva, e logo tomou o habito de Terceyra de S. Francysco. Em todo o tempo de sua vida foi hum raro exemplo de penitencias, e da caridade; e tomando quazi sempre o officio de enfermeira, era o seu mayor regalo tratar das doenças mais ascarozas. Raras vezes se entrava no Coro, que nelle a não achasem em oração, na qual tinha muitos raptos. Logo de madrugada, que se abrião as portas da clausura interior, sahia a correr, a via Sacra, pellos claustros, com os braços abertos em cruz, e muitas vezes de geolhos, não uzando de calçado mais que nas ocaziões de doença. O seu vestido era hum habito velho se lho davam por esmolla. Muitas vezes, arebatada do espirito, sahia gritando: Filhas de Adam, amay a vosso Espozo., em outras acompanhava estas palavras com muitas de devoção e ternura, que parecião dictadas, pello Espirito Sancto.
No fim dos seus annos lhe deu hua doença penoza, que por ser de lepra; a mandaram os Medicos separar; e em se lhe ineimando esta sentença, se foi ao Coro, e diante de hua devota Imagem do Senhor crusificado, fez acceitação do mal, com particular rezignação; e com grande obediencia se recolheo ao seu retiro, sem mais sahir delle. Alli se via muitas vezes elevada// em altas contemplações; e converçando muitas vezes de noite com as religiozas defuntas, a quem chamava pellos seus nomes. Tres dias antes que fose a descançar dos penozos trabalhos desta vida se poz a chorar a paxão de Christo Senhor nosso, repetindo todos os passos, tormentos, e vituperios que o senhor padeceu por nos remir, desde o Monte Olivete, ate espirar no Calvario: e com tais suspiros, lagrimas, e ansias, que a todas deixou enternecidas, e edificadas. Na seguinte noite repetio que via hua dilatada procissão de Mancebos, muito genilhomens, a que se segura grande numero de Religiozos do seu seraphico instituto, os quais acompanhavam doze andores; cujas Imagens vinhão cubertas com veos; e por ultimo de todos, de baixo de hum rico palco encarnado, hua precioza custodia, com o Senhor Sacramentado: foi então tal o jubilo de gosto com que o ordenou, que convocava todas as assistentes para o mesmo; e dizendo ultimamente que a chamavão pello seu nome para aquelle devoto concurso, se confeçava indigna de tal sociedade, nesta contemplação ficou immovel, e dezacordada, sem outro movimento algum mais que na amão direyta, como quem maneya hua desiplina: assi esteve dous dias e duas noites, ate que na ultima faleseu, entre as dez// e as onze de 28. de Julho, vespora de Sancta Marta, deste proprio anno 1722., de cuja Sancta, era sumamente devota, e avia muitos annos antes predicto, que no seu dia, a havião de sepultar, como sucedeu, em idade de setenta annos, ou pouco mais. Assi mesmo predice alguas couzas que conservamos em silencio ate se verificarem.