Capitulo III.

Referemse alguas Religiozas deste Musteyro, que

floreceram em virtudes.

Muito teriamos que escrever nesta memoria se a dos antigos deixasem nos escritos aos vindouros, os jejuns, as penitencias, a devoção, o fervor do espirito, e todas as mais virtudes com que sempre floreceram neste Domicilio, muitas Religiozas; de cuja virtude exacta so nos ficarão os aplauzos na lembrança. Das antigas, apenas sabemos os nomes de alguas que por exemplares passarão a fundar outros Musteyros, de que ao depois faremos particular capitulo; mas para que não fique da mesma sorte em silencio, o que ouvimos de outras de que ainda se lembram os vivos, fa//remos hua sincopada narração do que nos contarão Religiozas de muita authoridade.

Da Madre Bernardina do Espirito Santo sabemos, que os quinze annos da sua idade tomou o habito de religioza nesta Caza, onde cresceu tanto nas virtudes, que antes de ter trinta annos de idade, a elegeram Abbadessa, no de 1626. Entre as particulares perfeições da sua vida, se conserva a memoria da grandissima devosão que teve ao Sanctissimo Corpo de Deos Sacramentado; em cujo obsequio gastou todo o rendimento de hua tença, de que existem muitos penhores no aseyo da Capella mayor: e he tradição constante, de que quando faleceu, se ouvirão sobre a mesma Capella, celestes vozes que entoavão: Regina cali latare, alleluia., o qual depoz de ouvida a seguinte Religioza a Madre Joanna da Cruz.

Esta foi filha de Braz Pacheco Tavares, e de sua mulher D. Izabel de Valdaveco; professou nesta Caza no anno de 1632., e desde então foi conhecida por exemplar nas penitencias, e na oração, tendo por Director ao P. Antonio Fernandes, veneravel Religiozo da Companhia de Jesuz, de quem havemos feito memoria, em outro lugar. A tunica interior, que era asparissima, lhe servio sempre de Camiza, a qual cobria com hum habito modesto, e muito religiozo. A sua//cama, foi sempre hua taboa, onde descançava o breve tempo, que lhe sobrava das suas devoções. Entre os particulares mimos que alcançou da bondade devina, foi o Dom de lagrimas, com tal excesso, que ainda tocando no Coro, o baxão, as não podia repremir, e padecendo muitas enfermidades, na ultima que foi penoza, ardia em tanto fogo do amor de Deos, que lhe servião as lagrimas de metigarlhe a secura procedidas da mesma cauza. Muitas vezes servio elevada, com resplandecente rosto, escuzandose outras tantas de ser Prelada, e de toda a ocupação, que não fosse a de enfermeira. Ignoramos o anno da sua morte, mas sabemos que excederam os da sua virtuoza vida, de setenta.

Outra irmaã desta Religioza por nacimento, e pella profição a Madre Clara da Encarnação, que professou no anno de 1635., foi sua verdadeyra imitadora na vida; singularizandose nas virtudes da humildade, observancia da sua Regra, e caridade para com o prosimo; em que não so gastava o que tinha, com os pobres; mas constituindose sua procuradora, andava sempre pedindo para elles; ficando por muitas vezes sem comer, pellos remediar. O seu habito, e vestido, era o que outras Religiozas deixavam// por incapaz. Foi muito compadecida dos enfermos, porem tão riguroza com os que excedião os perceitos da Regra, que sem excesão de pessoa reprehendia a todas muito asperamente. Tinha hua Imagem da Conceição, que toda a vida foi sua companheira; e achandosse com a dita Imagem a cabiseira na hora da morte, se pegou tanto a mão da Senhora a sua, que lhe não poderam tirar ate o ultimo suspiro; e declarou nesta occazião, que toda a sua vida pedira á Virgem Santissima aquelle favor que estava logrando. Faelseu de setenta e dous annos.

A Madre Aurelia de Sancta Clara, foi tambem hua Religioza de raras penitencias, de extrema pobreza, e de perpetua oração; quando estava moribunda, disse as religiozas que lhe assistião, que se erguesem porque entrava a visitala sua Madre Sancta Clara; e pouco depois entregou o espirito a seu Devino Espozo. Ignoramos o dia do seu falecimento, como o das mais religiozas, por não haver livro de obitos nesta caza.

A Madre Izabel Bautista, gastou a mayor parte da vida em oração mental, e em rigurozas penitensias, todo o tempo que a deichavam livre as penozas doenças que padeceu:// na ultima que foi com excesso grande, suavizava as dores com oração; e na hora em que expirou se ouviram suaves canticos. Faleceu no anno de 1652., tendo de idade setenta e quatro.

Não foi menos admiravel na vida a Madre Clara das Chagas, filha de Antonio Dias de Araujo, e de sua mulher D. Izabel da Silva; porque foi hum vivo exemplo de penitencias, e mortificações. o silicio era perpetuo, a deciplina continua, a tunica aspara sobre a carne, e o habito estreyto, e muito reformado. Depois de profeçar, jamais calçou sapatos. Corria a via sacra despida e de geolhos com hua grande cruz sobre os ombros, tomando deciplina emquanto corria; e era neste exercício tão continua, que na quaresma o fazia todos os dias; e no mais tempo do anno em todas as semanas. No comer foi muito parca, e esse pouco guizado de hum dia para o outro. Tinha muito boa tença, a qual empregava em custozas pessas para a Igreja; e com o mesmo zelo introduzio nesta caza a festa que chamão do Menino perdido, aquem tres dias antes buscava com grandes penitencias, depois de achado o leva a Abbadeça com toda a comunidade em procissão pello convento em altas muzicas, e para que tivesse permanencia a dita festa,// deixou a mesma Religioza, renda para hum almoço da Comunidade, por ser este obsequio ao Menino Deos, muito de madrugada. Faleceu no ano de 1701. com setenta e oito anos de idade.

A Madre Anna do Sepulchro foi hua das grandes Religiozas desta caza, observantissima da sua Regra; e no que tocava ao voto da Pobreza com tanto excesso, que nunca teve de seu mais que hum habito, tão sumamente estreyto, que mal podia andar; o veo era de Beatilha tinta., que lhe passava abaixo do joelho. Foi muito penitente e da a oraçam; e o tempo que lhe sobrava destes exercicios, se ocupava na educação das Pupilas, e novissas, como tambem no aseyo de hua capella da Virgem Sanctissima do Rozario, que tinha a seu cargo, e de quem era particularmente devota. Faleceu em vespora de Paschoa do anno 1690.