TITULO SETIMO

Onde se escrevem os Musteiros de Religiozas

desta Diocesi.


Capitulo I.

Fundação do Musteiro de N. S. da Conceiçam do Funchal.

A terceira caza de devoção que erigirão João Gonçalves Zarco, e sua mulher Constança Rodrigues, quando no anno de 1420. deram principio a nova povoação do Funchal, foi junto do seu domicilio, a Igreja de Nossa Senhora da Conceyção, que então chamarão Sancta Maria de Sima, por ficar eminente a villa, e pella destinguirem de outra da mesma invocação, // que ja estava fundada junto ao mar, com o titulo de S. Maria do Calhao; entre as quais se devidia o officio Parrochial, dizendose em baixo missa ao Povo em hum Domingo e no outro em sima nesta Igreja; cujo costume durou muitos annos em quanto se não eregio a nova fabrica do Musteyro, quando orago da Igreja tomou o titulo da Conceição. Esta fabrica intentou El Rey D. Manoel sendo ainda Duque de Beja, e administrador do Mestrado, no anno de 1488., segundo achamos por hua carta sua, escrita em 17. de Junho ao Senado da Câmara desta villa, dizendo nella que tinha alcançado Breve do Sancto Padre para erigir o dito Mosteyro; e que emquanto senão fazia nova Igreja para Parrochia no meyo da villa, como determinava, se mudacem os officios Parrochiais para a Igreja de S. Sebastião, ou para a de S. Maria do Calhao, como depois se fez.

A esta rezoluçam replicou o Senado, como se colhe de outra carta, do mesmo Princepe, escrita em onze de Junho do seguinte anno 1489., que ambas copiaremos no Appendix, para que se veja o afecto com que aquelle grande Rey zelava as conveniencias destes Povos. Escreve o Chronista da Ordem que o Breve concedido a El Rey D. Manoel fora passado por Innocencio VIII., em o I. de Fevereiro // de 1491; porem da referida carta se prova ser anterior a conceção: mas passarsehia depois o Breve, como afirma Uvadingo.

Como quer que fosse não tiverão efeito os seus intentos, porque excedião muitas vezes as occaziões do tempo, o dilatado do seu generozo espirito. Havia ja de antes tomado por sua conta, a mesma fabrica o II. capitão do Funchal João Gonçalves da Camara. II. tambem do nome, e filho de Zarco; para o que conseguio do papa Xisto IV. hum breve para a sua erecção passada em 4. do mes de Mayo de 1476., e valendose agora delle, procurou por em execução esta obra; mas dispostos os materiais, lhe foi percizo passar a Corte, deixando encarregada a nova fabrica do Musteyro a sua filha D. Constança de Noronha que com magnificencia lhe deu principio no anno 1492., e já no de 1495. se achava suficientemente disposta a clausura, quando o capitão seu Pay alcançou novo Breve do papa Alexandre VI. que principia Ex injuncto nobis, passado em Roma ao primeiro de Abril do ditto anno 1495. como refere o mesmo Annalista.

Neste ultimo Breve, por erro da informação para a suplica, como eruditamente advertio o Chronista, se dao os titulos ao impetrante, de I. capitão da Ilha, e povoador; quando este, que // foi seu Pay João Gonçalves Zarco, era já falecido muitos annos antes no de 1467., nelle he concedeo o Pontifece o Padroado do Mosteyro, e que fosse da Regular observancia, com perpetua clausura e recolhimento; sugeito em tudo ao Comissario, o Guardião do Funchal; e que as primeyras fundadoras seriam quatro ou sinco Religiozas do Mosteyro da Conceyção de Beja, que era da mesma Regra, e Provincia de Portugal, fundado no anno de 1459., pellos Infantes D. Fernando, e D. Brites sua espoza; dispondo que com ellas fosse para primeyra Abbadeça D. Joanna de Noronha filha do capitão fundador, e profeça, no mesmo convento de Beja; e porque senão poderião sustentar de esmollas, dispensou com as Religiozas do Novo Mosteyro que pudesem herdar, e ter propriedades, para o que concurreu com a sua faculdade El Rey D. Manoel, que já se achava no Trono, com as redeas do Governo; o qual lhes concedeu tambem, que tivesem Juis privativo para a execução dos seus rendeiros.

O mesmo Pontifece Alexandre VI. lhe consedeu que sem ambargo do rigor da sua reforma, pudesem comer carne, lactesinios, e ovos, na forma em que o fazem os Seculares; e que todas as pessoas que vizitasem a Igreja deste Mosteyro, e desem suas esmollas, nas festas da Conceição, Natividade, Anunciação, Visitação, Purificação, e Assumpção da Se//nhora; e nos dias de S. Francisco, e de S. Clara, alcansassem quinze annos, e outras tantas quarentenas de perdão.

Cometida finalmente a execução da Bulla ao Vigario Geral da Se de Lisboa Afonso Gil Bacharel em Canones, tomou conhecimento da cauza em seis de Junho de 1497., e logo com toda a brevidade sentenciada, e foram conduzidas de Beja ao Funchal, pello capitao fundador João Gonçalves da Camara, sua filha a nova Abadeça, e quatro Religiozas mais, que forão D. Joanna de Albuquerque, D. Maria de Mello, Maria Pessanha, e Anna Travaços, com alguas educandas mais suas parentas. Chegadas que foram a Ilha, depois de descançarem alguns dias na companhia de D. Constança de Noronha, que tambem alcançou breve para viver Secular no mesmo Convento; e todas fizeram a sua entrada publica em hum Domingo, oito de Novembro, em que cahio o Oytavario de Todos os Sanctos, no proprio anno de 1497., levando em sua companhia alguas senhoras moças principaes, e duas filhas mais do mesmo fundador, D. Elvira, e D. Izabel, que todas profeçaram depois nas mãos de D. Joanna de Noronha primeyra Abbadessa; que alem das rezoes de seu illustre nacimento tinha as da virtude, que foi o mayor estimulo, para agrande reformação em que se con//servou sempre esta caza, pello admiravel exemplo de suas fundadoras; porque todas erão de opinião veneravel, e exactamente, observantes da sua regra; assi introduzirão na criação deste Mosteyro tal rigor, e tanta perfeyção que levou a ventagem aos que foram mais reformados, e ainda hoje se adiantam nas virtudes tanto, que por mais que se acautelem na clauzura, se venerão na Cidade como asombros; emfim doi esta a caza a primeyra que se fundou nas conquistas de Portugal, e ainda nas de toda a Espanha muitos annos depois, mas em todos os Seculos sará memoravel o seu nome, e progreços da sua virtude.