Capitulo II.
Fundaçam do convento Capitular de S. Francisco do Funchal,
e sua observancia.
Emprendida a fundação do novo convento se elegeo para elle hum sitio pegado a villa então do Funchal; o qual se achava vinculado â capella que tinha instituido Clara Esteves ja defunta; cujo administrador João do Porto, a não podia alienar, por authoridade propria; por cuja cauza recorrerão a Infante D. Brites, como administradora então do Mestrado; a qual ordenou que se fizessem promutação do sitio pello do antigo convento de S. João, que ficaria vinculado â Capella, menos a Igreja do Sancto; e que o novo convento fora pensionado em hua missa cantada em cada hum anno, pella alma da defunta,// como se observa. Nesta forma se celebrou escreptura a 20. de Oitubro de 1479., sendo guardião o P. Fr. Rodrigo da Arruda.
Deste Documento tomou principio o P. Fr. Manoel da Esperança para a firmar que se fundara este convento com tanta previdade, que nelle rezidiao ja os Religiozos no principio do anno de 1482. quando sucedera o milagre do Sancto Christo, o qual foi a 26. de Dezembro do anno antecedente; e moralmente falando era impossivel caminhar com tanta preça toda a fabrica da Igreja e do Convento que se achase acabado em dous annos e dous mezes, e que são os que passarão da feitura daquelle instrumento ao dia do Milagre. Movenos tambem a esta consideração ver que no anno de 1476. trazia ja o dito guardião Fr. Rodrigo Cotendas; com a Provincia sobre separar o convento do Funchal, e os mais de que faz memoria o Chronista; como tambem o epitafio que lemos na sepultura que esta no meyo da Capella mayor, onde se diz: Aqui jaz Luis Alvares da Costa que fundou esta caza na era de 1473. Este mesmo epitafio serve de resposta ao que afirma// o proprio Chronista, que não havia lembrança de particular Bemfeitor desta fundaçam; e he muito que sendo assi, se consentisse expor aquelle letreyro aos olhos de todos e aos dos mesmos Religiozos daquelle tempo, ainda que o suponhamos alguns annos adiante, por conter tambem o nome de seu filho Francisco Alvares da Costa, que era Provedor da Fazenda Real pellos annos de 1494.
O certo he que este edificio foi a primeira caza de religião em forma, que se fundou nas conquistas de Portugal, exceto os Conventos de Ceuta; e se foi aumentando por modo que diz o chronista, era no tempo em que escreveo notavel entre os mais da Provincia; com mayor rezam o disera hoje depois de setenta annos, que se ve mais ampliado com excelentes officinas e grandes dormitorios. Comprehende dentro hua dilatada cerca, que se aumentou pella deixa de D. Maria de Atouguia, com hua modica penção de Missas; a qual faleceu solteira em onze de Fevereiro de 1550., e foi filha do sobredito Provedor Francisco Alvares da Costa, neta do fundador.
Tem hua fonte de agoa nativa, conduzida por aquedutos para o
serviço da Caza// de que corre perenemente outra porção,
a hum chafariz de jaspe, que fica no meyo da Claustra; e juntandose
em hum tanque, ferteliza hum aseado jardim; sobre o qual cayem
as varandas da mesma claustra sustentadas sobre os arcos, e colunas
de cantaria fina; pello qual dise o Poeta de Guimaraes, falando
nos conventos de S. Francisco que tem esta Diocesi:
O do Funchal terá com mais grandeza
Por maravilha oitava hum rico claustro,
Que pode so por ver sua Realeza
Vir passealo o sol, no aureo plaustro.
Nelle fica hua nobre, e aseada Sanchristia, com outro rezisto de agoa em hum lavatorio, de jaspe; assi mesmo duas nobres cazas, com suas capellas, para o serviço das Irmidas da Senhora da Soledade, e dos Irmãos Terceyros; ambos custozamente asiadas. He este convento cabeça de Custodia, e era sua lotaçam pellos estatutos, de Sincoenta Religiozos; porem hoje rezidem nella muitos mais, com boa acomodação.
Foi esta caza em todo o tempo muito reformada, e viveram sempre
nella Religiozos de particular virtude; della daa o grande Chronista
o P. Fr. Manoel da Esperança: Faltariam noutras partes
os estilos regularez, mas aqui estavão em seu vigor, pello
que muitos Padres de veneravel, que fugião dos embaraços
do mundo, desprezando o perigo da viagem, nelle vinhão
recolherse, e pella// mesma rezam, o estimavam os Princepes etc.
Ainda nos nossos tempos se fizerão conhecidos alguns neste
Convento; e na sua Igreja descansão ate a resureição
univerçal: Destes foi o P. Fr. Bautista de Jesuz; natural
da Guarda que vindo a esta Ilha ja sacerdote, com o habito de
recoleto, foi sempre nomeado na Religião por capucho: Daqui
passou a Roma sobre a canonização do grande servo
de Deos seu natural Fr. Pedro da Guarda; mas encontrando naquella
curia alguns estorvos, se tornou a recolher nesta caza, onde acabou
a vida com passante de oitenta annos de idade, e a mayor parte
delles com exemplar virtude; sabese que não sahio jamais
do Convento senão em acto de comunidade ou de obediencia;
na sua sella não entrava religiozo, e menos Secular; foi
tão caritativo com os pobres, que repartia com elles a
sua porção franciscana, rezervando della hua modica
refeição para o seu sustento. Faleceu em 1682.,
e de suas virtudes faz especial memoria o Chronista; porem muito
diminuto dos seus merecimentos. Aqui mesmo descança o veneravel
P. Fr. Manoel de Sancto Thomaz confeçor, e natural da villa
de// Tentugal, que faleseu no anno de 1695., depoiz de rezidir
nesta caza largos annos, com hum raro exemplo de penitencias;
tratando o seu corpo com tantas as mortificações
de sorte, que lhe paresia de bronze, deixando hua grande saudade
a sua memoria nestes povos; delle falla tambem o M. R. P. M. Fr.
Fernando da Soledade, e nos somos testemunha da sua veneração.
De outros tais religiozos faremos memoria nas cazas onde falecerão
como dos naturais desta Diocesi em seu Titulo.