TITULO TERCEIRO

Onde se trata a Descripção da Cathedral sua Fabrica e Thesouro. Do Cabido, suas congruas, armas, estatutos, e izenções. Catalogo dos capitulares eminentes. Das Collegiadas de S. Maria do Calhao, e de S. Pedro do Funchal.


Capitulo I.

Edificaçam da Igreja Cathedral desta Diocesi.

Ja no anno de 1488. dispunha El Rey D. Manoel, ainda então Duque de Beja, a fabrica da Igreja destinada para Sé na villa do Funchal; para o que mandou que se depozitasem as penas criminaes que lhe pertensem como se ve de hua ordem sua passasa a 21. de Outubro daquelle anno, a qual se acha no Archivo da Camara desta Cidade; e no seguinte anno com o mesmo fundamento, criou// a impoziçam nos vinhos atavernados, na mesma forma que se fazia em Lisboa, cuja aplicaçam so seria para emnobrecimento da Ilha; prohibindo a seus sucessores a não devertisem sub penna da sua benção: esta provizão foi passada em Lagos a 5. de Outubro de 1489., e assi achamos outra, com data de 18. de Julho do anno 1500., pella qual mandou aplicar a dita renda para as obras da mesma Igreja.

Em 14. de Mayo de 1493. escreveu ao Senado da Camara, dandolhe parte em como tinha feito vedor da dita obra, a João Gomes, seu criado, de quem esperava se não escuzaria; era este João Gomes a quem chamarão o da Ilha, e por outro alcunha o Trovador, Page que foi do livro do Infante D. Henrique, do qual tomou o nome hua das tres ribeiras que regão a Cidade, onde teve nobres cazas, e larga fazenda, em que instituhio morgado, com sua mulher Guimar Ferreyra, filha de Gonçalo Ayres Ferreyra, no testamento com que faleceu, em cuja aprovação, feita em sete de Novembro de 1495 lhe chama o Tabalião Escudeiro criado do dito Infante, Com a sua morte, sucedida no mesmo anno, lhe su// cedeu na ocupação do vedor da dita obra seu filho primogenito e herdeiro Barbaro Gomes Ferreyra fidalgo da Caza do dito Rey D. Manoel; que faleseu em sete de Janeyro de 1544. Este foi o que correo com toda a fabrica desta Igreja, e como tal vemos a sua pessoa com hua bolça na mão esculpida nas costas da primeira cadeira do seu corpo, que pertence a Dignidade do Deão.

Juntos os materiais se deu principio a esta excelente obra no anno de 1500., em que achamos hua Provizão do mesmo Rey., passada em o primeiro de Junho, pello qual dispunha que não pagase Decima toda a cal que se estava fazendo para esta Igreja; e no proprio dia, mes, e anno escreveo outra carta estando em Lisboa, por Antonio Carneyro, em que rogava muito, aos fidalgos, e moradores do Funchal, se não escusassem de concorrer para a dita obra, com o que lhes paresesse, pella grande vontade que tinha de que se acabasse tão cedo como elle dezejava; dizendo nella estas palavras, dignas de algua ponderaçam: Bem sabeis quanto dezejo temos de nessa Ilha, nessa vossa parte do Funchal aver tal Igreja assi solene, como por vossas pessoas, e pella grande povo// açam della se merece, e quanto a isso temos ajudado, tendes visto etc., e pois para outras obras semilhantes, de fora, o fazeis tão abastadamente, nesta com mais rezão deveis fazelo, pois a deveis aver por propria vossa que na vossa Se faz etc.

Mas posto que por esta carta vemos, que pedia âquelle grande Princepe aos moradores do Funchal ajuda para tão grande obra; tambem achamos, que alem dos materiaes que para ella tinha junto, concorreo a sua liberalidade, com a larga consignaçam de mil arobas de asucar escolhido em cada hum anno, durante a dita obra desde o primeiro dia de Janeyro de 1503. em diante; para o que passou hua ordem ao seu Almoxarife, em dêz do dito mes e anno, para que do milhor asucar do rendimento da Alfandiga, se entregasem ao recebedor da obra, e se vendesem prezente o seu vedor; recomendando, por outra carta escrita no dia seguinte, a Simão Gonçalves da Camara III. Capitão Donatário, o cuidado da sua venda, com a particular advertencia; que devia trabalhar quanto pudese, por que se vendese muito bem a dinheiro; e porque se pudese milhor fazer seria maneyra que as ditas mil arobas fosem de muito bom asucar.//

Ja no anno de 1508., parase que se achava este Templo em grande altura, porque em 29. de Março do dito anno, achamos hua carta del Rey, pella qual dava por nula a venda que o vigário tinha feito das suas Capellas colateraes, hua por setenta mil reis, e a outra por oitenta; porquanto estava informado terem custado mais. Estas capellas com efeito se venderam, pello que consta de outra carta do mesmo Rey, escrita em 6. de Setembro do mesmo anno, em que dis tinha vendido hua a Pedro Gonçalves, e que a outra se puzesse a pregão, a quem mais dese. Nesta mesma carta recomenda se mandasem fazer quatro livros de Canto em purgaminho para a dita Igreja; mas he certo que a 28. de Agosto do dito anno, e ainda nella senão celebravão os officios Divinos, pello que consta da outra carta da criação dos quatro Beneficiados, que para cumplemento de doze, constituhio o dito Rey nesta igreja, dizendo nella e hora pello dito respeito, e por mais honra, e nobrecimento da dita Cidade, lhe praz que tanto que a Igreja for acabada, e se a ella mudarem os officios divinos lhe acenta etc.

Tambem inferimos, que não teve exercicio o dito Templo, antes de ter consti// tuido em Se Cathedral; porque o coro que he hua das suas mayores perfeições, ainda não estava feito no anno de 1514., em que a 27. de Fevereyro /menos de quatro mezes antes, da sua erecção em Roma/ escreveo El Rey D. Manoel esta carta sobre a sua situação: Juizes Vereadores, Procurador, e Misteres. Nos El Rey vos emviamos muito saudar vinos a carta que vos emviastes sobre o coro da Se dessa Cidade, que se fazia na Capella mayor, e que nos pedieis por merce, que o não mandansemos nella fazer porque danaria a dita capella; e mandasemos que se fizesse sobre a porta principal da Igreja; e vistas todas as rezoes que nos apontastes, havemos por bem que se não faça na capella, e queremos que se faça sobre a porta principal; e assi o escrevemos ao vigario. Escrita em Almeirim etc.

Sem embargo desta ordem, vemos o dito coro na capella mayor, com mais acerto. E para quem ouver de reparar na miudeza com que este Princepe dispunha esta fabrica, deixareis neste lugar outra memoria mais secreta, ainda que necessaria; porque se julgue della as advertencias de hum Rey, sobre que carregavão os cuidados de hua dilatada Monarchia: Achasse no Archivo da Alfandiga hua pro// vizam sua, porque mandava se fizesse hua cloaca para os Menistros desta Se, com miudas advertencias, respeito de não prejudicar as paredes do Templo. O Architeto de toda esta obra foi hum Juliannes como se ve do letreyro da sua sepultura que estâ na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, freguezia do Arco da Calheta, obra tambem da sua mão; na qual se le: Aqui jaz Julianes Mestre das obras da Se. Nesta se ve em hua coluna, por baixo do Pulpito, hua cabeça na mesma cantaria, que he tradição ser a sua efigie.