Capitulo II.
D. Martinho de Portugal Arcebispo do Funchal e Primaz das
Indias
Foi este illustre Prelado Irmão segundo do primeyro Conde do Vimiozo D. Francisco de Portugal, ambos filhos de D. Afonso Bispo de Evora, o qual o foi de D. Affonso Marques de Valença, conde de Ourem, senhor do Porto de Moz, Embaxador ao Concilio de Basileia; e filho primogenito de D. Afonso I. duque de Bargança. Foi sua May D. Filippa de Macedo, de quem ouve suspeitas que fora clandestinamente recebida; Irmaa de Martim Rabelo ultimo Prior do Musteiro de Soutto; e filhos de João Gonçalves de Macedo, e de sua segunda mulher Izabel Gomes Rabelo filha do Senhor do Concelho de Caria. Era João Gonçalves de Macedo filho herdeiro de Diogo Gonçalves Senhor das Villas de Melgaço, Sanseriz, Outeyro, e Aldeya de Pindello, camareyro del Rey D. João I., que lhe deu tres mil livras de renda na Mouraria e Portagem de Evora, em recompeça das Disimas e Portagem de Bargança, que fora herança de seu Pay Martim Gonçalves de Azevedo, e lhas largou em 27. de Julho de 1423.//
Estes forão os Avoz de D. Martinho de Portugal, o qual nos primeiros annos se aplicou as letras, e com ellas se fez Douto Cortezão, e de exemplares virtudes, cujas prendas realçaram tanto com seu nacimento que se fez recomendavel na graça del Rey D. João III. No anno de 1522. se achava governando o Bispo de Viseu pello Infante Cardial D. Alonso; e no de 1526. o aprezentou El Rey no Priorado mor do Musteyro de S. Jorge da par de Coimbra, de Conigos Regrantes de S. Agostinho. Pouco depois o constituhio seu Embaxador a Roma em obediencia ao Papa Clemente VII., de que foi tão aceito, que durando o tempo da sua Embaxada o mandou a este Reyno por Nuncio Apostolico, com pleno poder de legado a Latare, em toda a Espanha, de que existe memoria no dito Musteyro de S. Jorge de que foi Prior Comendatario; porque fundando de novo a Igreja, poz na sua Torre o sino do relogio, em que ao redor se ve ezte letreyro: D. Martinho de Portugal, sendo Nuncio a Embaxador do Papa Clemente VII., com pleno poder de legado a Latare em toda a Espanha, mandou fazer este sino a 20. de Março do anno de 1529.//
Exercitou esta ocupação algunz annos ainda que com pouca satisfação del Rey, mas soubese fazer com elle tão bem quisto, que alcançando do Pontifece a erecção de Metropole no Funchal o nomeou El Rey seu Arcebispo nos fins do anno de 1537., em cuja dignidade foi confirmado, por Paulo III. em Bulla de 8. de Julho de 1539, que principia Romani Pontificis circunspectio, e nella se expresa que ja seu antecessor Clemente VII. que faleceu em 25. de Setembro de 1534., havia promovido a Metropole à dita Igraja, de baixo de cuja obediencia criara para sufraganeos seus quatro Bispados; expressando na mesma Bulla que a aprezentação dos beneficios pertencião ao Mestre da ordem militar de Christo, que ja então era o mesmo Rey, a cuja coroa havia vinculado o Papa Adriano VI. em 19. de Março de 1522., e o confirmou depois Julio III. em 1551.
Confirmado finalmente nesta Dignidade se principiou a intitular: D. Martinho de Portugal, por Divina Comisseração Arcebispo do Funchal Primaz das Indias, e de todas as terras novas descubertas, e por descubrir etc. asinandose D. Martinho de Portugal Arcebispo Primaz. Assi consta de varios documentos, cujos originaes se conservam no Archivo da Sua Sê, onde os rezistamos. No// anno de 1538. em que tomou posse desta Igreja por seus Procuradores, emviou a Ilha para exercitar os officios episcopaes a D. Ambrozio Brandam Bispo de Rociona; e com elle douz vizitadores Jordam Jorge, e Alvaro Dias; que por chegarem a tempo em que ardia a Cidade em peste se demoraram alguns dias na villa de Machico ate o primeiro de Mayo em que por milagre de Santiago Menor, seu Padroeyro, cessou de todo tão terrivel epidemia; como em seu lugar veremos.
Com este Bispo e visitadores, remeteu o novo Prelado alguas reliquias authenticas, que havia trazido de Roma as quais se depozitaram em particular Sacrario, onde hoje se conservam, no Altar mayor da mesma Sê. Exercitou o Bispo os seus officios, e depois de hum anno se restituio ao Reyno. Pouco mais se demoraram os visitadores, que correram toda a Ilha, e se fiseram malquistos do povo com a sua aspareza: efeitos quazi sempre da reforma. Embarcados finalmente para o Reyno em hua caravella, foram dar a Costa no Algarve, onde o Reyno não escapou pessoa algua.
Assi continuava o Arcebispo o seu governo// sem poder jamais passar á sua Diocesi mas sempre com vigilante cuidado, prudencia, zelo e justiça. Amava muito o seu Cabido, tabalhando sempre pello aumentar em rendas, e honras. Deulhe liberdades, previlegios, e constituições reguladas pellos Arcebispados do Reyno, com a mesma magnificencia que uzou na sua pessoa; procurando com cuidado que se celebrasem com decencia os officios Divinos, e que nas horas do Coro se não interrompesem, nem estorvassem com o tanger dos Sinos; e assi afirmão as memorias antigas, que em tudo foi felis a Ilha nos tempos do seu governo.
Quando el Rey D. Joam III., o nomeou Arcebispo, lhe acresentou a renda da Mitra em duzentos mil reais mais, sobre os outros duzentos da criação do Bispado, como declarou por um Alvara que vimos do mesmo Rey, no Archivo da Sé; e a sua contemplaçam se acresentaram mais quatro capellaes de sobrepolis, alem dos quatro da sua criação, para milhor serviço da Igreja Primacial; consta do Alvara passado em Evora, por elle mesmo, em sete de// Agosto de 1545. Tambem achamos que em reverencia do Santo do seu nome, deu o seu dia de guarda nesta Diocesi; mas como não ficou por Constituição Synodal, somente se concerva esta memoria, fazendolhe a festa na Cathedral, como dia de qualquer Doutor da Igreja e assi o deixou por regimento o Bispo D. Luis de Figueyredo de Lemos no anno de 1598.
Avendo falecido ultimamente o Senhor D. Duarte filho natural del Rey D. João III., que ocupava a Cadeyra Primacial de Braga, foi promovido para ella D. Manoel de Souza, que se achava Bispo de Silves no Algarve, aquem passadas as Bullas de confirmação se deu posse em Julho de 1545., e desde então se encarregou o governo do Bispado de Silves, com a sua promoçam ao Arcebispo D. Martinho, e recorrendo a Sê Apostolica pellas Bullas, foi mais apreçada a morte; porque antes de lhe chegarem, faleceu em Lisboa no dia 15. de Novembro de 1547., como consta por um Alvara del Rey D. João III., passado em 12. de Outubro de 1553. Deste Prelado faz memoria Manoel Thomas, na sua Insulana, como estas oitavas://
E porque sara nesta aventejado,
A Dom Martinho Portugal famoso,
Em titulo mayor de Arcebispado
O Bispoado da Ilha venturozo.
Nota, como mos mares dilatado,
Por Metropole ser, he mais honroso,
E frequentado de diverças gentes
Ja de ultramar, nas terras adjacentes.
Este Prelado singular e egregio,
Com titulo famozo o amplifica,
como nos mostra o parentesco Regio
Com que a Cathedral sua magnifica;
Aqui de seu Cabido, o previlegio,
com honras, e Estatutos mais duplica;
que como pello amar, no anno se apura
Dignos, e altos augmentos lhe procura.
Nam se eximem os Princepes, ainda eclesiasticos, do defeyto de
humanos; por mais que na terra os inculpe à veneraçam
por Divindades; mas a fragilidade que pella natureza os disculpa,
nos não izenta, pella obrigaçam da Historia, de
os dizer. Teve este grande Prelado, antes de o ser, alguns filhos
em D. Catherina de Souza, a quem o amor e fermosura fizeram incorrer
no proprio crime do nacimento contra o indulto na nobreza; porque
foi filha natural de Jorge de Souza, cuja fidalguia e procedimento,
desmereceu// todo oppreçor; mas hum e outro sangue lhes
infundio nas veyas tanto valor, que nos brios de seus procedimentos
deixaram sepultada a notta de iligitimos. O primeyro foi D. Eliseu
de Portugal, que sendo clerigo, foi muitos annos em Roma Cubiculario
do Secreto dos Pontifeces Pio IV., e Grigorio XIII., depois voltando
a Portugal no anno de 1590., faleceu em Madrid. O outro foi D.
Cesilia de Portugal, segunda espoza de D. Diogo de Castro, o Hombrinhos,
filho segundo de D. Rodrigo Alcayde mor do Torram, comendador
de Cea, e capitão general de Safim; e de sua nulher D.
Anna Deça; por hua e outra parte nobilissino: assim a sua
descendencia.
Sê Vacante
Quinze annos durou a Se Vacante desta Diocesi, por falecimento de seu unico Arcebispo D. Martinho; o que vai de 1547., em que elle faleceu, ao de 1552. em que della tomou posse D. Gaspar seu sucessor. Neste intervallo foram Provisores do Arcebispado, Amador Afonso Arcediago na mesma// Cathedral; cujo governo teve somente dous annos. Seguioselhe na ocupaçam Pedro da Cunha Thezoureyro mor da mesma Se; e a este o Conego Lopo Barreyros seu capitular.
Havia neste tempo recorrido a Se Apostolica, a providencia del
Rey D. João III. para que todos os Bispados ultramarinos
os reconhesessem por Metropole a Cathedral de Lisboa, concideradas
mayores despezas e deterimento das partes, no recurço â
do Funchal; e por este ficava sem aquelles sufraganeos, ficou
reduzido ao estado antigo de Bispado, e so com o territorio da
Mesma Ilha, e a Porto Sancto, e Arguim pella vezinhança
que tinham. Assi lho concedeu o Papa Julio III., por breve passado
em 1550., anno santo do Jubileo Decimo, e primeyro da sua criaçam.
Deste tempo em diante se intitularam os Bispos desta Diocese somente:
Bispos da Madeyra, Porto Santo, e Arguim, como hoje uzão,
sem ambargo de perdermos este ultimo territorio.//