Capitulo VI.

Catalogo dos governadores desta Ilha, depois dos Donatarios, até o anno de 1640.

8. Logo que D. Felippe II. de Castella tomou posse destes Reynos, mandou a Ilha da Madeyra o Dezembargador João Leytão, com os postos de Governador Geral da Guerra, Administrador da fazenda real, e julgador nos cazos da justiça. Estas ocupações exercitou juntas, até o anno de 1582., em que cedeu a de governador; e general das Armas, por nova patente do mesmo Rey, em

9. D. Agostinho de Herrera Conde de Lançarote, e senhor de Forte// Ventura. A rezão de passar este fidalgo ao governo desta Ilha, foi Prevenção do receyo com que se esperava nella a invazão de hua Armada Francesa a favor do Senhor D. Antonio. Cessando porem o temor, passados dous annos, se retirou a Espanha no de 1584., entregando outra vez o bastam ao mesmo Dezembargador de cujas maoz o havia tomado; a esta sucedeu.

10. Tristam Vaz da Veyga filho terceyro de Diogo Vaz da Veyga, e de sua mulher D. Beatriz Cabral, que era filha de Diogo Cabral o velho, genro do Zarco. Avia este Cavalheiro militado muitos annos na India, onde ocupou varios postos; e achandose em Lisboa por falecimento do Cardial Rey D. Henrique, fiaram os governadores do Reyno do seu valor a defença da Fortaleza de S. Gião na Barra do Tejo, que elle entregou ao Duque de Alva General do exercito com que D. Felippe II. preocupou o Reyno. Em satisfaçam deste serviço, lhe deu o dito Rey, entre outras merces, a Donataria de Machico, que havia confiscado a Caza do Vimiozo; por carta de 25. de Fevereyro de 1582; e considerando aquelle prudente Rey, quanto lhe convinha segurar o dominio desta Ilha, o elegeo, como entereçado na sua conservação, para superintendente das couzas da guerra, e governador de ambas as capitanias della,// constituindo-o Alcayde mor da fortaleza de S. Lourenço do Funchal, pro provizão passada em

Lisboa a 19. de Outubro de 1585. e tomou posse do governo em 22. do seguinte mes de Novembro do mesmo anno; o qual teve ate o de 1591., em que lhe sucedeu

11. Antonio Pereyra de Berredo, filho de Antonio Lopez Homem, e de Donna Maria Pereyra sua mulher. Este cavalheyro se achou depois na Armada da perdição, sendo cabo de dêz galiões, e foi capitão general de Tangere, e da Armada real deste Reyno; cativou na Batalha de Alcacere, e foi comendador de Arganil, e da Castalheyra na Ordem de Christo. Por mandado de D. Felippe II. foi visitar as Fortalezas de Africa, e depois o mandou a India com o governo das partes do sul, a primeyra sucesão no Estado , e outras merces; porem nada aseitou. Passouselhe a patente deste governo em 30. de Dezembro de 1590., e tomou posse delle em 21. de Agosto do seguinte anno; e o teve ate o de noventa e sinco, em que lhe sucedeu:

12. Diogo de Azambuja de Mello, que avia servido na India, filho de Antonio de Azambuja, e neto de Diogo num dos tres Cavalheyros que escolheo El Rey D. João II. para se acharem com elle na morte do Duque D. Diogo. Passouse-// lhe provizão para este governo em 23. de Mayo de 1594., e tomando menagem em tres de Janeyro de 1595; passou a Ilha onde tomou a posse a 20. de Abril do proprio anno, que conservou ate o de 1600., em que lhe sucedeu:

13. Christovão Falcão de Souza, que depois foi general da Armada Real. Era filho natural mas herdeiro de Christovão Falcão, aquelle a quem chamarão o Christal, pello auto que compos dos seus amores. Com este nome, derivado das primeiras sylabas do seu. Passouselhe a patente em Lisboa a 20. de Abril de 1600., e governou ate o anno de 1603., e em que lhe sucedeu:

14. João Fugaça Deça comendador de S. Maria de Mocçaa na Ordem de Christo, em o Bispado da guarda; filho segundo de Antonio Gonçalves da Camara cassador mor del Rey D. João III., e de sua 2a. mulher D. Margarida de Noronha. Foi avou materno de D. Francisco de Alarcão Cavalheyro da Ordem de Calatrava. Mestre de campo, e sargento mor da Batalha no Exercito de Castella contra Portugal, onde ficou prezioneyro na batalha de Montes Claros, no anno de 1665., e Marques de Trocifal, conde de Torres Vedras. Passouselhe patente deste governo em Valhadolid a 14. de Agosto de 1603., e o teve seis annos ate o de 1609, em que lhe sucedeu

15. D. Manoel Pereyra Coutinho// comendador de Penella na Ordem de Aviz, capitão mor das Naos da India, e depois Governador de Angolla. Foi segundo filho do terceyro matrimonio de D. Francisco Pereyra comendador do Pinheyro, vedor da fazenda do Indante D. Luis, e Embaxador a D. Felippe II. de Castella. Teve este governo por provizão de 22. de Novembro de 1607., de que tomou posse em 1609, o teve ate Julho de 1614., em que lhe sucedeu:

16. D. Frey Lourenço de Tavora, Bispo que então era desta Ilha, por hua provizão passada em Lisboa a 8. de Abril de 1614., de que tomou menagem, e posse juntamente em 4. de Julho do mesmo anno, nas maos do seu antecessor D. Manoel Pereyra. Governou ate 17. de Dezembro, em que entregou o bastão a

17. Jorge da Camara, a quem chamaram o Poeta, filho natural de Ruy Gonçalves da Camara capitão de Barcelor, e de Ormuz, capitão do mar da India, onde faleseu; neto de João Gonçalves da Camara, IV. capitão Donatario desta jurisdição. Passouselhe provizão para este Governo em 18. de Janeyro de 1614., tomou menagem em 4. de Novembro, e a posse em 17. de Dezembro do proprio anno, governou ate o de 1618, em que lhe sucedeu:

18. Pedro da Silva a quem chamarão o molle, Senhor do morgado de Monchique, que depois foi Viso Rey da India, onde faleseu a 24. de Junho de 1639. Era filho segundo de Fernão da Silva Pereyra Regedor da Justiça, Embaxador a Castella por El Rey D. Sebastião pello Cardial Rey, e ultimamente pellos Governadores do Reyno, vedor da fazenda do Concelho de Estado, e eleyto Viso Rey da India que não acceitou. Passouselhe patente para este governo em 30. de Mayo de 1618., de que tomou menagem nas maos do Marques de Alenquer ViRey de Portugal, em 17. de Junho; e a posse a seis de Julho do proprio anno; governou ate o de 1622., em que lhe sucedeu

19. D. Francisco Henriquez capitam mor que foi das Naos da India, e Governador do Malabar; filho de D. Jorge Henriquez cassador mor do Infante D. Luis; e neto de D. Braz cassador mor del Rey D. Manoel. Passouselhe a patente para este governo em 20. de Julho de 1622., tomou menagem em Lisboa a 21. de Outubro, e a posse na Ilha da Madeyra a 28. do proprio mes e anno, Estando governando em 24. de Junho de 1624., havendo dado principio a Fortaleza de S. João do Pico. Mandouse sepultar no Collegio da Companhia de Jesus, e que seus ossos fossem leva// doz a Evora a sepultura de seus avos no Capitulo de S. Francisco. Sucedeulhe

20. D. Hieronimo Fernando Bispo que então era do Funchal, o qual tomou o bastão do governo por nomeação de seu antesessor, e dando parte a El Rey lhe confirmou mandando que continuasse, por patente de tres de Agosto do proprio anno de 1624., e governou ate Abril de 1625. em que lhe sucedeu:

21. Fernão de Saldanha comendador de S. Martinho de Santarem, e Irmão de Antonio de Saldanha do Concelho de Guerra, e governador da Torre de Belém, que instituhio o moragado dos Cadafaes em 30. de Julho de 1635; filhos ambos de João de Saldanha o Abbade capitam mor das Naos da India. Foi ate fidalgo progenitor dos senhores que hoje são morgados de Oliveyra. Passouselhe Patente deste governo a 10. de Janyero de 1625., tomou menagem a 5. de Abril e a posse a 11. do proprio mes e anno. Teve pouco tempo este governo, ignoramos a cauza. Sucedeulhe:

22. D. Hieronimo Fernando Bispo do Funchal, o mesmo que lhe tinha entregue o Bastão, o tornou a tomar no seguinte anno de 1626., entendo que por falecer o dito Fernão de Saldanha; porque achamos ordem do dito Bispo passadas como Governador do militar a 28. de Setembro do dito anno, em diante ate Abril do seguinte 1628. Sucedeulhe//

23. D. Francisco de Souza Senhor da Quinta do Calhariz, que havia servido nas Armadas; filho de D. Felippe de Souza, que depois de servir em Arzilla e Tangere foi Mestre Salla do Princepe D. João e Trinchante del Rey D. Sebastião seu filho, senhor da mesma quinta e mais caza de seuz avoz; a foi por baronia bisavo do Reverendissimo Senhor D. Manoel Caetano de Souza clerigo Regular da Divina Providencia, onde foi Proposito lente da Sagrada Theologia, Examinador das tres ordens militares, e do Priorado do Crato, governador da junta da Cruzada e principal Director desta Real Academia, por soberano decreto del Rey D. João V. nosso Senhor; cujos empregos são relevantemente merecidos pello illustre do seu sangue, exemplar das suas virtudes, e erudição das suas letras. Passouselhe patente deste governo em 18. de Janeyro de 1627., e tomou menagem em 19. de Abril do seguinte anno 1628., e passando a esta Ilha acompanhado da Senhora D. Violante Henriquez sua espoza, tomou posse do governo em o primeiro de Mayo do mesmo anno, o qual teve ate o dia trez de Agosto de 1530; em que por hum Decreto, passado a petição sua, em

23. de Março do proprio anno, se embarcou para Lisboa, deixando com o bastão terceyra vez a

24. D. Hieronimo Fernando, o mesmo Bispo// que lho avia entregue, na forma da mesma ordem. Continuou este Prelado no dito governo o principio do anno de 1634. em que por outra provizão, lhe sucedeu.

25. D. João de Menezes, filho do grande general D. Manoel, que depois de servir em Alemanha, passou a governar esta Ilha ate o anno de 1636., em cujo tempo deu principio a fortificaçam do Ilheo. Voltando para o Reyno, embarcado em hua Nâo Amburgueza, foi tomado â vista de Peniche pellos Olandezes, em dia de S. Clara 12. de Agosto do mesmo anno 1636., e achandose ja resgatado em Madrid, quando se aclamou neste Reyno El Rey D. João IV., foi prezo em hum lugar junto a Burgos; vindose retirando a Portugal; e estando retido em caza de D. Marcelino de Faria Bacharel Ordinario deste Reyno, se namorou de sua filha D. Dorothea de Gusmão; e casandose com ella teve graças de lhe ensinar a lingoa Francesa, e em trajos de homem, passou com ella, por seu criado a França, e dahi a Lisboa, no anno de 1645., onde sua mulher depois de veuva, cazou segunda vez com Joanna Mendes de Vasconcellos, como escreve Manoel de Faria e Souza. Feito Concelheiro de Guerra, servio nas guerras com grande satisfaçam; e governando Olivença, a defendeo valerozamente no anno de 1648. do Marques de Leganhez, a custa de tres feridas;// cuja fineza lhe agradeceu El Rey D. João IV. com hua honrada carta, que copiou o Conde da Ericeyra D. Luis de Menezes. Depois foi Governador do Porto, e estando nomeado para Embaxador de Olanda, faleseu em Lisboa de hua prelezia no anno de 1649. acabando nelle hu varam merecedor de muyta dilatada memoria, como dis o mesmo Conde. Sucedeulhe

26. Luis de Miranda Henriquez Pinto Senhor de Ferreyros e Tendaes, Alcayde mor de Chaves, e filho de Henrique Henriques de Noronha de Miranda Pinto. Passouselhe a patente em 18. de Novembro de 1635. deu menagem em 13. de Fevereyro de 1636., e tomou posse do governo em 6. de Junho seguinte; o qual teve quatro annos complectos, porque entregou o bastam no mesmo dia e mes do anno de 1640., a seu sucessor Luis de Miranda Henriques o moso, como no seguinte capitulo veremos.