Capitulo IV.
Continuasse a mesma materia, e se referem os
appellidos que se conthem nas letras H. L. M.
Henriquez: Procedem de D. Joam Henriquez filho terceiro de D. Henrique Henriquez II. Senhor das Alcaçovas, Aprezentador, e Casador mor dos Reys D. Affonso V., D. Joam II., e D. Manoel; e sua primeira mulher D. Felippa de Noronha filha de João Gonçalves da Camara II. Capitam Donatario do Funchal, e de D. Maria de Noronha sua mulher; cuja rezão o trouse a viver nesta Ilha, onde rezidio na villa da Ponta do Sol; e jaz sepultado na cape//la do Sanctissimo da Igreja Collegiada da mesma villa. Cazou no anno de 1510., com D. Joana de Abreu filha de João Fernandes do Arco, e de Beatriz de Abreu sua mulher; e forao seus filhos o veneravel Padre Leam Henriques da Companhia de Jesus, e D. Afonso Henriques que herdou a caza; cuja baronia se acabou em D. Henrique Henriquez seus descendente, que faleseu solteyro em 20. de Março de 1611., e passou a caza com os morgados a sua irmãa D. Joanna Henriques, que cazou em 11. de Abril de 1622., com Antonio Correa Betencurt, chefe da familia dos Correas; em cujo bisneto Antonio Correa Betencurt Henriques, hoje se concerva.
Outros Henriquez, que são Noronhas, procedem de D. João, e D. Diogo Henriquez, de D. João e D. Garcia de Noronha, todos quatro filhos de D. Garcia de Henriquez, que viveo em Sevilha, bisneto de D. Afonso Conde de Gijon e Noronha, filho illegitimo del Rey D. Henrique II., de Castella. Cazaram estes quatro cavalheyros nesta Ilha nobremente; como escreve em titulo particular, de Henriquez Noronhas da Ilha da Madeira, Alonso Lopes de Haro, deduzindo a sua descendencia.
Outros Henriquez, procedem de Henrique Alemão, natural de Polonia, e Cavalheyro de Sancta Catherina, que passou a viver// nesta Ilha pellos annos de 1450., e povoou na Madalena, onde se lhe deram terras de sexmaria, como ja disemos em outra parte. Cazou com Senhorinha Annes, de quem teve a Segesmundo Henriquez, que faleceu solteyro vindo de Lisboa para esta Ilha; e Barbora Henriques que cazou, e teve descendencia deste appellido.
Heredias: Procedem de D. Antonio de Heredia, natural de Avila,
e filho de Dom Christovam de Heredia, e de D. Francisca de Morales.
Passou a esta Ilha por Capitão da gente de guerra do prezidio
castelhano, em tempo da sugeição de Castella. Faleseu
em 12. de Março de 1624., sendo cazado com D. Anna de Cubas
natural das Ilhas Canarias.
Homens: Procedem de Garcia Homem de Souza que cazou com Catherina Gonçalves da Camara filha de João Gonçalves Zarco; o qual se dis ser filho de João Homem, e neto de Pedro Homem, hum dos doze Cavalheyros de Inglaterra; conforme hua certidão do doutor Christovão Alão de Moraes Dezembargador do Porto, e grande investigador de antiguidades. Teve a Diogo Homem de Souza que faleceu solteiro, e a Leonor Homem de Souza que cazou duas vezes; hua com Duarte Pestana de Brito fidalgo da Caza del Rey; e outra com Ruy Dias de Aguiar seu primo irmão. Foi seu sobrinho Ruy Fernandes Homem, que faleceu//nesta Ilha o anno de 1504., e jaz em S. Francisco do Funchal. Cazou duas vezes, e de ambas teve larga descendencia, que seguio este, e outros appellidos.
Outros do mesmo appellido, procedem de Francisco Homem de
Gouvea, fidalgo da Caza del Rey D. Manoel; o qual tirou Brazão
de Armas desta familia, em 13. de Abril de 1535., onde justificou
ser filho de Francisco Homem, e neto de Pedro Homem, morador em
Gouvea e fidalgos de linhagem. Viveu no Estreyto da Calheta, onde
instituhio hum morgado, com a Capella dos Reys, que alli edificou,
para que se conservasse nos seus descendentes primogenitos, por
doação feita em quatro de Agosto de 1529. Cazou
com Izabel Afonso, filha de Belchior Gonçalves Ferreyra,
e de Branca Affonso Doromondo. Foi seu neto o doutor Antonio da
Gama Pereyra Dezembargador do Paço, e insigne nas letras,
como ja dissemos.
Lemes: Procedem de Martim Leme, filho legitimado por El Rey D.
Afonso V., no anno de 1464., de outro Martim Leme Cavalheyro Flamengo,
de que faz memoria Manoel Soeyro nos seus annaes de Flandes, que
voltando depois de Portugal a sua patria, foi gentilhomem da Camara
do Emperador Maximiliano, e Escutete de Brujas. Passou o// dito
Martim Leme a esta Ilha no anno de 1483., em que escreveu o Duque
Infante D. Fernando, ou D. Diogo seu filho, hua carta em seu favor
a Camara desta Cidade, então villa. Jaz sepultado no Cruzeyro
da Igreja de S. Francisco do Funchal; e foi seu filho Antonio
Leme, que teve larga descendencia de sua mulher Catherina de Barros
filha de Pedro Gonçalves da Clara, e de sua mulher Izabel
de Bairos; a qual instituhio hum morgado na villa da Ponta do
Sol, que posuem os descendentes de sua filha D. Leonor Leme; e
seu filho Pedro Leme, instituhio outro na freguezia de S. Antonio,
junto a esta Cidade, com oubrigação de se conservar
esta appellido nos administradores delle.
Lomelinos: Procedem de Bautista Lomelino, Irmão de Urbano Lomelino fundador do Convento de Nossa Senhora da Piedade, e instituidor do Morgado na villa de Sancta Cruz; os quais eram naturaes de Genova, de hua das vinte e oito familias, ou appellidos, a que reduzio aquella Republica a sua antiga nobreza no anno de 1528. Passarão a esta Ilha no de 1476., e foi seu filho Jorge Lomelino, fidalgo da Caza del Rey D. Manoel, e herdeyro do morgado de seu tio, em que se inclue o Padroado do dito Convento. Servio em Africa, e achouse na tomada de Azamor. Faleceu em 9. de Dezembro de// 1548., e jaz sepultado na capella mayor da Igreja do mesmo Convento, como deixamos dito em outra parte. Cazou com Maria Adão filha de João Adão da Casta Grande dos Ferreiras; de quem teve nobres descendentes, e foi seu filho herdeiro Francisco Lomelino, que servio valerozamente em Africa, onde ficou captivo na tomada da fortaleza de Cabo de Guer, e ao cabo de sete annos fugio do cativeiro com o Mouro da sua Guarda, como refere Furtuozo. Cazou primeira vez com D. Izabel de Moura filha de João de Ornellas de Vasconcellos, e D. Cezilia de Moura, de quem teve a Jorge Lomelino que faleseu na Batalha de Alcacere em 4. de Agosto de 1578. Solteiro segunda ves em 7. de Agosto de 1570. Cazou com D. Joana Correa filha de Antonio Correa o Grande, e de D. Izabel de Betencurt, de quem teve a Francisco Lomelino, que faleceu em vida de seu Pay, e nelle se acabou a boronia legitima; pello que passou o Morgado desta caza aos descendentes de sua Irmaa Anna Lomelino mulher de Duarte Teixeyra, de quem não teve sucesão, porem sim de seu segundo marido Estevão Calaça, de quem foi terceira neta D. Catherina Lomelino de Vasconcellos, que o levou em dote a Caza dos Correas, para cazar com Francisca Esmeraldo Henriques, cujo filho Antonio Correa Henriques Lomelino, hoje a possue.
Leminhana: Appellido Catalão, ou Valenciano, uzão
delle os Berengueiz, tomando-o do Doutor Pedro de Berenguer de
Leminhana, como ja disemos em o primeiro capitulo.//
Machados: Procedem de João Machado de Miranda, natural
de Guimaraes, filho de Antonio Machado de Villas Boas, e de Magdalena
Vasques de Maya, sua mulher; o qual passou a esta Ilha a chamado
de seu tio Bertholameu Machado, filho de Lopo Machado de Goes,
por não ter herdeiros de sua mulher D. Francisca de Velloza;
e ambos instituirão morgado de seus bens na descendencia
do dito seu sobrinho, com oubrigação do Apellido
de Machados, no qual se inclue a celebre espada de Viriato, em
que falla Manoel de Faria e Souza, para o que o cazarão
com D. Francisca de Velloza, filha de Hirvão Teixeira,
e de D. Maria de Velloza, Irmaã da sua instituidora; cujo
morgado com outros, passou a caza dos Betencores Sâs, pello
cazamento de sua neta D. Magdalena de Miranda com D. Gaspar de
Betencurt e Sâ senhor do morgado da Agoa de Mel, dos quais
passou a seu neto Francisco Luis de Vasconcellos Bettencurt Machado
por sua filha D. Guimar de Sa mulher de Francisco de Vasconcellos
Bettencurt da baronia dos Coutos; onde hoje se acha, com outras
muitas cazas incluidas.
Mialheiros: Procedem de Pedro Gonçalves Mialheiro, e seu
Irmão Antonio Mialheiro, filhos de Gonçallo Mialheiro
Senhor da Quinta de Alhandia em Portugal. Passarão a esta
Ilha; nos fins do Seculo 1500., e nella cazaram nobremente, de
que descendem alguas cazas das principaes.//
Mirandas: Procedem de João Lourenço de Miranda,
hum dos nobres companheiros de João Gonçalves Zarco,
no descubrimento desta Ilha, o qual o escolheu para esta empreza,
entre os mais de que faz memoria o Poeta de Guimaraes, dizendo
delle:
Escolheo João Lourenço de Miranda
Novo Bellerophonte, o que pudera
Mais que a empreza, a que Henrique o manda,
O lugar pertender da quinta esphera.
Foi Irmão de Izabel Lourenço de Miranda mulher
de Luis Alvares da Costa, e filhos ambos de Pedro Lourenço
de Miranda Pagem da lança do Infante D. Henrique. Cazou
com D. Ignes Monis; de quem nacerão Catherina Lourenço
de Miranda mulher de Luis Mendes de Vasconcellos, e Maria Lourenço
de Miranda mulher de Joane Mendes de Vasconcellos, ambos filhos
de Martim Mendes o velho, e netos do mesmo Zarco; De ambos procedem
nobillissima descendencia, como dis o mesmo Poeta.
João Lourenço insigne de Miranda,
Também com descendencia poderoza
Em augmentar da ilha as glorias anda,
Com geração illustre, e generoza.
Outros Mirandas procedem de João Machado de Miranda
como vimos assima no appellido de Machados.
Mondragoes: Procedem de João Rodrgiues Mondragão
natural de Biscaya, e filho de Garcia Banhes de Mondragão,
que tinha seu solar no valle de Artazubiaga, na Provincia de Guipuscoa;
cujas armas são dous Dragoes rompentes contra hua Torre,
com as collas para baixo; e por orlas, veneras de prata, como
se vem na sua // capella de S. João Bautista, na Igreja
do Convento de S. Francisco do Funchal. Faleseu em 25. de Fevereiro
de 1550., instituindo, com sua mulher, morgado de seus bens, em
seus descendentes primogenitos; e por falta delles, entrou por
cazamento na Caza dos Coutos, onde hoje existe. Produzio esta
familia varoes insignes em letras, como disemos ja em outra parte.
Monizes: Procedem de Vasco Martins Monis fidalgo da Caza del Rey,
e filho segundo de Henrique Monis Alcaide mor de Silves, e de
sua segunda mulher D. Ignes de Menezes filha de Gonçallo
Nunes Barreto Alcaide mor de Faro, e de D. Izabel Pereira, que
foi filha de Diogo Pereyra comendador mor da Ordem de Santiago,
e Governador da Caza do Infante D. João, filho del Rey
Dom João I. Passou a povoar nesta Ilha, onde teve grande
caza na villa de Machico. Delle faz memoria Manoel Thomas, com
a ocazião de socorrer a fortaleza de Cabo de Guer, com
hum navio a sua custa, em hum largo panegirico. Cazou tres vezes
na mesma Ilha; e deixando nobilissima descendencia, de que ainda
se conserva a baronia, faleseu em Portugal na villa de Torrão,
em caza de sua May, no anno de 1510., havendo instituido morgado
da sua terça, no testamento que aprovou em 15. de Setembro
de 1483.//
Moraes: Procedem de João Moraes, filho de João Fermozo
de Moraes e neto de outro João Fermozo de Moraes alcayde
mor de Bargança; como consta da justificação
que fez seu filho Sebastiam de Moraes o velho, para tirar Brazão
das suas armas, o qual se lhe passou em 26. de Janeiro de 1508.
Viveu na villa de Machico, cazado com Izabel Nunes Cardoza irmaã
de Nuno Fernandes Cardozo o de Gaula, e filhos de Fernão
Nunes de Govea, como ja fica dito. De seus filhos procede nesta
Ilha muita nobreza, como tambem na Ilha Terceyra, onde passou
seu filho Francisco de Moraes, e sua Irmaã Maria de Moraes,
que foi May do lecenciado Antonio de Moraes. Extincta a sua baronia
em Francisco de Moraes de Aguiar, seu terceyro neto, que faleceu
sem filhos em 23. de Fevereiro de 1634., passou o morgado desta
casa com o Padroado da Capella do Spirito Sancto na Collegiada
de Machico, a familia dos Homens Souzas, pello cazamento de sua
irmaã D. Felippa da Camara com Antonio da Silva Barreto
filho de Jorge Mialheyro Pereira, e de D. Elena de Menezes; pellos
quaes o pesuhe hoje Pedro Julio da Camara Leme.//