Capitulo II.
Ultimo descubrimento da Madeira rezam do seu nome, e
calidade de seus Capitães Donatarios.
Emprendidos os descubrimentos portuguezes, foi a Ilha do Porto Sancto a primeira, onde oz levou derrotados hum temporal; dali com a noticia que ja tinhão do Piloto Castelhano, que os guiava avistaram hua grande arumação de nuvens; e entendendo ser a terra que buscavam em Domingo primeyro de Julho de 1419; se fizerão a vella em dous Navios, e pondo sobre ella as proas, aportaram felismente nesta Ilha, em segunda feira dous de Julho, dia da visitaçam da Senhora.
Descuberta finalmente a Ilha da Madeira, a deligencias do Infante D. Henrique Duque de Viseu, Senhor da Covilhaa, e VIII. Mestre Governador da Ordem Militar de Christo, por João Gonçalvez Zarco, Cavaleyro da sua caza, e Capitão mor das Armadas da Costa, se lhe deu aquelle nome, pello vasto arvoredo que a cobria, como alem dos nossos Historiadores, o dis tambem o Principe dos Poetas Portuguezes Luis de Camoes:
Passamos a grande Ilha da Madeira,
que do muito arvoredo assim se chama.//
Devidio-a o mesmo Infante em duas jurisdições e com ellas premiou os serviços de João Gonçalves, e de Tristão Vaz, cavaleyro tambem da sua caza; dando porem ao Zarco a milhor parte lhe concedeu El Rey novas armas como Apelido de Camara de Lobos, que continuarão seus nobilissimos descendentes. Da calidade de ambos, nos parese percizo dar informe pellos seus merecimentos.
He o tempo o que faz calificadas as familias, porem nos annos se confundem as memorias: nacerão em Espanha tarde as letras, porque foi teatro sempre das armas, e posto que sejão estas ordinariamente as que dão principio á nobreza, como lhes faltão escriptores, se ficão sepultadas nas acções. Poucas das que se obram antes do século 1300. tiveram a fortuna de serem confuzamente lembradas; sabemos que ouve viriatoz e Sertorioz, ou porque o dicerão os romanos ou porque mais felismente se concervaram gravadoz os seus nomes naquellas breves inscripções a que perdoou o tempo; de outros muitos nem dicerão as pedras, nem se conservou nos bronzes. Esta disgraça seguio a familia dos Zarcoz talvez porque o seu fim desse nobilissimo principio ao Apelido de Camaras: hum e outro lhe deu este grande Heroe, cujo sangue se vivifica nas veyas da mais elevada nobreza destes Reynos.
Do primeiro apelido apennas achamos// algua memoria nos antigos purgaminhos. Frey Francisco Brandão encontrou hua de Gonçallo Zarco pellos anos de 1177., confrontaçam de certa herdade, que no termo de Thomar, vendeu D. Gomes sacerdote a Pedro Dias: in occidente Petrus Feo, et Gunçalvus Zarco. Deste fundamento tomou principio aquelle chronista, para supor dali natural este Cavalheyro; ou de Lisboa, porque no Livro dos obitos da Sê desta Cidade se faz menção de Maria Gonçalves Zarco, para aniversario em dous de Janeyro. Nas pazes renovadas entre El Rey D. Affonso IV. de Portugal, e o XI. de Castella, no anno de 1327; confirmaram Mestre Vicente das Leys, e Estevão Pires Zarco. Juizes em caza del Rey; e no seguinte anno se achou hum dos 13. eleytores de D. Garcia Pires, para Mestre de Santiago, Affonso Zarco Commendador de Ourique. Em nossos tempos achou o Mestre Fr. João de Deos lente jubilado, e pessoa grande na Provincia de S. Francisco de Portugal, investigador de antiguidades, que fora João Gonçalves Zarco natural da villa de Matozinhos, junto ao Porto; e esta seria a rezão porque seu neto o III. capitão Donatário Simão Gonçalvez da Camara, sendo ja velho, renunciando o governo se retirou á quella villa, onde acabou seus dias no anno de 1530. Comprova esta opinião, o que alguas vezes ouvi contar por grande achado, ao Doutor Christóvão Alam de Moraes,// que faleceu Dezembargador na Relaçam do Porto, grande Gonealogico, que o achará na Camara da dita Cidade, com o titulo de Cidadão, cujos previlegios so se concedião então a pessoas de caridade.
Daqui se infere, como nota o mesmo Brandão que nelle fora apelido Zarco, e não alcunho como quer Gaspar de Frutuozo por ter menos hum olho perdido nas guerras de Africa, ou por matar ali mesmo hum Mouro deste nome. O certo he que confirmão as Historias antigas que elle fora nobre por seus Avoz: assi o testefica nas suas memorias o mesmo Furtuozo, e sem duvida sobrava para o crermos, o que falando dos dous Donatarios, disse o nosso Livio Portugues João de Barroz: E que nesta parte os meritos de ambos fossem comuns, em João Gonçalves particularmente havia os da nobreza do seu sangue, o que parese responder a lhe ser dada mayor parte na repartição da Ilha; sempre depois precedeo em honra aoz Capitaes de Machico. Argote de Molina, falando no apelido de Camaras em Portugal, diz: El primero que usó este apellido y armas en aquel Reyno, fue Juan Gonçalves Zarco Cavallero principal del. E sem duvida foi João Gonçalvez Zarco o primeiro que deixou este apelido pello de Camara, posto que afirme o mesmo Brandão que seus filhos se apellidaram tambem de Zarco, por doações que diz vio da quelle tempo; poderia mui bem ser antes que// se lhes dese o de Camara de Lobos, principalmente concedendoselhe este ao mesmo João Gonçalvez, com os armas, no reynado del Rey D. Afonso V; já no anno de 1460, muitos depois deste descubrimento, e sete antes da sua morte, como em outro lugar veremos.
Sete Cidades da antiga Grecia contenderão sobre o nacimento
de Homero, como refere Galio naquelle celebrado Distico:
Septem urbes certant de Stipite insignio Homeri;
Smyrna Rhodos, Colophon, Salamin, Jos Argos, Athena.
Mas nada menos do que hum Reyno foi a patria de João Gonçalves
Zarco varao mayor que o seu nome por mais que o fizesem grande
as suas acções. Duvidouse aparte de Portugal em
que nacera, por não caber em todo elle hum coração
tão dilatado, que acrecentou dominioz á patria,
onde coubese parte da sua vida, ja dilatada na Africa, e na Europa:
cuja elevação de espiritos não so deveo ao
illustre do sangue como tambem a escolla em que aprendeu, na Caza
do Infante D. Henrique; a que chamarão Seminario do valor
e da virtude, João de Barros, e Manoel de Faria e Souza;
os quais afirmão, que se achara com o mesmo Infante na
tomada de Ceuta, onde no de 25. de Agosto do anno de 1415. o armara
Cavaleyro de sua mão o que tambem o Chronista del Rey D.
João I., na Chronica impreça por D. Rodrigo da Cunha.
Dalli se cre que fora o primeiro que introduzira no mar// o uzo
da artilharia, como escreve o Poeta de Guimaraes:
Bem he verdade, que este, o Lusitano
Primeiro foi no Mar, com nome eterno,
que uzou da dura fruta de vulcano,
E o salitrado aljofre do Inferno;
Com quem fez aos imigos tanto dano,
E adquirio tanta fama no governo,
Que emquanto Cinthio der rayos ao mundo
Será seu nome em gloria sem segundo.
Repetindo que era rifão entre o vulgo de toda a Andalusia:
Que el Zarco los cañones que trahia
Afrentavan al Mar quando enojado,
Pues mostravan con sus pelotas solas
Seren más bravos, que del Mar las olas.
A merce desta capitania do Funchal, para a sua descendencia se reduzio a doaçam no 1º. de Novembro de 1450. pello dito Infante; a qual foi confirmada por El Rey D. Affonso V. em 25. do dito mes, no seguinte anno de 1451., e segunda ves em 16. de Agosto de 1461., como veremos pellas Doaçoes no Appendix, havendo ja a 30. annos, que a tinha descoberto, e povoado com a mercê feita em sua vida somente. Assi se foi continuando nos descendentes da primeyra linha, cuja baronia se acabou em João Gonçalves da Camara IV. Conde da Calheta e VIII. Capitão Donatario desta Jurisdição; sucedeolhe sua Irmãa D. Mariana de Alancastro Marqueza Camareyra mor da Raynha D. Maria Francisca, e mulher de João Rodrigues de Vasconcellos II. Conde// de Castellomilhor, comendador e Alcayde mor de Pombal governador das armas da Provincia de Entre Douro e Minho, e Vice Rey do Brazil; dos quais he neto Afonso de Vasconcellos, VII. Conde da Calheta, IV. de Castellomilhor, e Reposteyomor del Rey.
A segunda capitania, em que se devidio a Ilha da Madeira, e a quem a disgraça de Machim deu nome de Machico, foi doada pello mesmo Infante D. Henrique a Tristão Vaz, Cavaleyro tambem da sua caza, como dizem as Doacoes. Esta he a unica memoria que temos da sua nobreza, que pella mesma rezam supomos grande. Não lhe descobrimos outro apellido, posto que o P. Antonio Cordeyro1 lhe de o de Teixeyra, que não teve, e o tomarão seus filhos, de sua mulher Branca Teixeyra, de quem dis o mesmo Pe. que era descendente da Illustrissima caza de Villa Real; cuja errada memoria copiou o dito Pe. de Frutuozo, que assi otras; mas entendemos ser erro manuense, devendo escrever que era dos Teixeyras de villa real, onde os deste apelido são antigos, e de muita nobreza.
Servio este capitão Infante, com quem se achou na tomada de Ceuta, e Palanque de Tangere, onde dis Barros que o armara Cavaleyro da sua mão; e com faculdade real lhe deu esta capitania em sua vida, que depois se estendeu a seus descendentes, por Doação, feita em 8. de Mayo de 1440., que confirmou El Rey D. Afonso V., dandolhe por armas hua Ave Fenix, reproduzindose// entre chamas, como singular na Cavalaria. Viveo 80. annos governou 50., e faleceu em Silves no de 1470.
Continuousse esta merce nos primogenitos da primeyra linha, ate
Diogo Teixeyra seu bisneto, que falecendo sem filho varão
no anno de 1540., e ficando vaga, na forma da ley mental, para
a coroa, em o seguinte anno, fes della merce El Rey D. João
III., de juro e herdade a Antonio da Silveyra de Menezes, em satisfação
dos grandes serviços que fez na India. Este a vendeo com
faculdade real em 1549. a Francisco de Gusmão Mordomo mor
da Senhora Infante D. Maria, por trinta e sinco mil cruzados,
para dote de sua filha D. Luiza de Gusmão; que depois foi
Condeça do Vimiozo, mulher de D. Afonso de Portugal, ao
qual se confiscou, entre os mais bens, por seguir as partes do
senhor D. Antonio Prior do Crato, nas pertenções
do Reyno; pello que fez nova mercê da dita capitania, El
Rey D. Felippe II., por carta de 25. de Fevereyro de 1582., a
Triztão Vaz da Veyga, pello serviço de lhe entregar
a Fortaleza de S. Gião na Barra de Lisboa, quando entrou
nella o Duque de Alva General do seu exercito. Por sua morte,
foi restituida com a mais caza, ao IV. conde do Vimiozo D. Luiz
de Portugal, cujo bisneto D. Francisco VIII. Conde, e II. Marques
de Valença, a pesue hoje.//