Capitulo XI.
Noticia do Governo Eclesiastico desta Diocesi, antes de
se erigir Bispado.
Poucas noticias nos ofresem as memorias daquelle tempo, de que possamos fazer narraçam neste capitulo; consta porem que os vigarios de Thomar tinhão cuidado, em confirmarem// capellaes freyres da mesma Ordem militar de Christo, aprezentados pellos governadorez do Mestrado. O Infante D. Henrique emquanto não cedeu a dita administraçam em seu filho adoptivo, o Infante D. Fernando, o que foi no anno de 1460. nunca aprezentou mais que hum capellão, ou vigario em cada jurisdição, o qual governava o eclesiastico de toda; forão multiplicando os moradores, e logo que entrou a governar o dito D. Fernando, lhe suplicaram os da villa do Funchal para que lhes aumentasse o numero, nas mais povoaçoez; assim consta da reposta do mesmo Infante dada em tres de Agosto de 1461: Voz me pediz que vos prova de Capellaes a Ilha, porque o Infante D. Henrique meu Padre nunca pusera mais, que hum capellão, por ser então a gente pouca, e ja não podia abranger hum so a todos os lugares, como Camara de Lobos, Ribeyra Brava, Ponta do Sol, e Arco; e nisto dizei ao vigario que vos proveja dos ditos capellaes, que vos forem necessarios e mo avize etc. Então tiveram principio alguaz freguezias; mas ja neste tempo avia em Machico, e no Funchal vigarios, e alguns Beneficiados; mas sem oubrigção de dizerem missa ao Povo mais que nos Domingos e Sanctos; observandosse nesta villa dizeremse alternativamente hum domingo em// Nossa Senhora do Calhao, em outro em Santa Maria de Sima, onde hoje esta fundado o Convento da Conceyção da Senhora. Isto se observou ate o anno de 1484; em que a petição dos moradores mandou o Duque D. Diogo /ultima acção que obrou neste Dominio/ que se disesse missa todos os dias ao povo; na igreja Matriz da Villa; o que teria principio no dia de Natal do mesmo anno.
O primeyro vigario de Machico, nos dis Frutuozo que se chamou Frey João Garcia; ao do Funchal ignoramos o nome; sendo o primeyro de que achamos noticia Frey Nuno Gonçalves capellão do Duque D. Diogo; cuja aprezentação fez a Infante D. Brites sua May e Tutora, por carta passada em Beja a 30. de Outubro de 1476. Annos depois se malquistou este Parrocho com o povo, e o lançou fora de vigario; mal alcançando ordem para ser restituido, e escusou da ocupação El Rey D. João II., escrevendo hua carta a Camara com data de 26. de Setembro de 1485., com a dita determinação, louvandolhes juntamente o animo com que estavão, de o tornarem a admitir; como mais largamente se ve da sua copia, produzida no Appendix.
Demorado o provimento do novo sucessor, suplicou a villa a El Rey D. Manoel, ja então Duque Governador do Mestrado, para que lhe desse Parrocho; e achamos a sua resposta, em que lhe// deferia assi: Ao que me escrevestes, que vos quisesse prover de vigario, porque as Igrejas, e povo não estavam assi bem, certo eu o vejo, e sou sempre disso bem lembrado; e se te aqui aqui se leixou de enviar, foi porque queria que fosse tal, quegando-o voz merecis; porem eu tenho disso grande cuidado, e o enviarei, prazendo a Deos mui cedo etc. escrita em a minha villa de Beja, a onze dias de Junho de 1489./ O Duque. Não se esqueceu aquelle Princepe de o cumprir assi, muitos tempos, porque aprezentou em vigario do Funchal a Frey Nuno Cao, Mestre em Theologia, grande sugeito em letras, e em virtudes; como se exprimentou; e o testemunhava o mesmo Principe na Carta de aprezentação, passada em Evora a 30. de Março de 1490., com a renda annual de trez moyos de trigo, duas pipas de vinho, 3$ r em dinheyro, doze cabritos, doze frangaos, e duas arrobas de asucar; com os dous terços do pe de altar; rezervando o ultimo para o raçoeyros, que eram os Beneficiados; o qual por outra provizão se reduzia depois a quarta perte de todo, em 6. de Outubro de 1515. Nesta vigairaria foi colado, por carta de D. Frey Pedro Vaz Vigario que então era de Thomar; e se acharam tão satisfeitos os povos, desta eleyção, que em agradecimento della escreveo a Camara ao Duque; o qual lhe satisfez com hua honrada resposta, de que daremos a copia no Apendix.//
Era Fr. Nuno Cão, freyre da mesma ordem de Christo, e
pessoa de muito agrado a El Rey D. Joam II., que entreveyo para
a sua colaçam, achavasse vigario de S. Maria do Calhao,
quando no anno de 1508., disposta a fabrica da nova Cathedral,
se mandou para ella a Parrochia com outros Beneficiados que erao,
e mais quatro, que então lhe acresentou El Rey, com certa
oubrigação de Missas, como consta da carta passada
em Sintra a 28. de Agosto daquelle anno; e depois de erecta em
Cathedral, foi promovido a primeira Dignidade della com o titulo
de Deão, mas com as mesmas obrigações de
Parrocho, em quanto se não criaram os dous curas. Tinha
então sessenta missas de obrigação, como
os outros vigarios as dos Sabados, pello Infante D. Henrique,
na forma do seu testamento. Achamos os apontamentos que lhe deu
o mesmo Duque D. Manoel para o bom governo das Igrejas, e de seus
Menistros; nos quais dezia: Mestre Frey Nuno Cão, que ora
his por vigario de S. Maria do Funchal. A maneyra que hei por
bem que se tenha em alguas couzas, de que vos encarrego he esta:
que os raçoeyros da dita Igreja, que ora são e ao
diante forem, sejam pagos por vossa certidão, a que deis
fe, como os ditos reçoeyros serviram o tempo; e couzas
a que são obrigados; e avoz dous carrego e poder de os
apontares; porque por// vossa certidão hao de ser pagos
etc. Esta mesma maneyra se tera nas capellas, que hão as
seis onças de prata para cantarem as Capellas do Senhor
Infante D. Henrique meu tio, que Deos haja, que são na
dita Ilha.