BIBLIOGRAFIA

 

 

     O estudo das ilhas atlânticas tem merecido neste século uma atenção preferencial no âmbito da História do Atlântico. Primeiro foram os investigadores europeus ou americanos como Fernand Braudel (1949), Pierre Chaunu (1955-1960), Frédéric Mauro (1960) e Charles Verlinden (1960) e T. B. Duncan (1970) a referenciar a importância do espaço insular no contexto da expansão europeia. Depois surgiu a Historiografia nacional a reforçar este interesse e a equacioná-lo nas dinâmicas da expansão peninsular. São de maior importância os textos de Francisco Morales Padron (1955) e Vitorino Magalhães Godinho (1963).

     Tudo isto condicionou os rumos da historiografia insular nas últimas décadas, concorrendo para a necessária abertura às novas teorias e orientações do conhecimento histórico. Neste contexto, as décadas de setenta e oitenta, demarcam-se como momentos importantes no progresso da investigação e saber históricos. Para isso terá contribuindo o aparecimento de estruturas institucionais e de iniciativas afins, activadoras de um verdadeiro salto qualitativo.

     O movimento editorial da Historiografia insular é desigual, dependendo da existência de historiadores e de instituições capazes de incentivar a produção e divulgação dos estudos. A similitude do processo vivencial das ilhas atlânticas, aliada à sua permeabilidade às perspectivas históricas peninsulares definiram uma certa unidade na forma e conteúdo da Historiografia insular. Gaspar Frutuoso, em finais do século XVI, com as Saudades da Terra expressa, de forma modelar, a visão de conjunto do mundo insular, aproximando os arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde. Esta situação, ímpar na historiografia, só será retomada a partir da década de quarenta da presente centúria pelos historiadores europeus e só agora pelos insulares. A consciência histórica da unidade desta múltipla realidade arquipelágica foi definida de modo preciso pela expressão braudeliana de Mediterrâneo Atlântico, que abrange os três arquipélagos postados à entrada do oceano.

    No culminar deste processo, as exigências académicas com a expansão das universidades e do saber histórico, condicionaram um avanço qualitativo da historiografia, a partir da década de quarenta do presente século. Todavia ela é desigual, o que provoca também uma diversidade de níveis de conhecimento da realidade para cada um dos arquipélagos. Deste modo foi mais assídua e volumosa a produção histórica nos arquipélagos dos Açores e Canárias do que na Madeira, S. Tomé e Cabo Verde. Isso a deve-se, fundamentalmente, à falta de instituições culturais e universitárias para tal vocacionadas. Por outro lado importa salientar o valor assumido pelas publicações periódicas e a possibilidade de encontro dos investigadores, através de colóquios, que a década de oitenta foi fértil.

      A historiografia insulana, permeável às origens europeias, surge na alvorada da revolução do conhecimento geográfico como a expressão pioneira desta novidade e, ao mesmo tempo, como uma necessidade institucional de justificativa de um processo de afirmação da soberania peninsular. Deste modo o período que medeia entre os séculos iniciais do reconhecimento do oceano é marcado por uma escrita mais europeia do que insular, próxima da crónica e da literatura de viagens, onde as ideias se espraiam.

     Os factos históricos e as impressões de viagem são perpetuados na escrita com  um uso posterior, de acordo com as exigências de cada geração e época. Esta prosa histórica está impregnada de um ideal romântico e serve-se de perspectivas e formas positivistas para justificar e fundamentar certos objectivos políticos imanentes da conjuntura política em que emergiram.

      As publicações periódicas assumem particular importância na pesquisa histórica uma vez que é a partir delas que o público interessado toma conhecimento dos progressos que se vão conseguindo. Para a Madeira todo o mérito vai para duas: o Arquivo Histórico da Madeira  (19 volumes editados de 1931-1990), iniciada por Cabral do Nascimento e que José Pereira da Costa transformou em boletim do então Arquivo Distrital do Funchal; Das Artes e Da História da Madeira (1948-1977), órgão da Sociedade de Concertos da Madeira, revista publicada por iniciativa de Luís Peter Clode. Na actualidade merecem referência as revistas Atlântico (1985-1989) e Islenha (desde 1987).

     Nos Açores, ontem como hoje, proliferam as publicações periódicas, muitas delas de índole geral mas com forte incidência na temática histórica. São elas a Insulana(1944), do Instituto Cultural de Ponta Delgada; Boletim do Núcleo Cultural da Horta (1950) e  o Boletim da Comissão Reguladora do Comércio de Cereais dos Açores (1945-1960). Uma referência especial para as publicações que apostam no conhecimento histórico: Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira (1944) e  Arquipélago -ciências humanas, revista da Universidade dos Açores (1977), que desde 1985 publica números em separado sobre a História.

     Para as ilhas de Cabo Verde e S. Tomé o panorama não é idêntico, resumindo-se muitas vezes a sua valorização às publicações periódicas nacionais com incidência colonial, como sejam: Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa  (desde 1875), Studia (1958) e Ultramar (1961); com carácter específico merece ser referenciado o Boletim  Cultural da Guiné Portuguesa e para Cabo Verde as Revistas Claridade (S. Vicente-1957), Cabo Verde (1950) e, mais recentemente, Raízes (Praia-1978). Uma referência  especial para os estudos publicados por António Carreira e A. Teixeira da Mota que muito contribuíram para revelar a parte recôndita da História destas ilhas.

     Também os colóquios foram importantes na valorização e incentivo ao conhecimento histórico. Esta é uma nova dimensão que emergiu no final da centúria. Primeiro foram os colóquios realizados em Las Palmas desde 1977, que ficaram conhecidos como  Colóquio de História Canário-Americana, que terá em 1992 a sua décima realização, depois idêntica iniciativa nos Açores (1983, 1987 e 1990) e Madeira (1986, 1989). Das três realizações açorianas e das duas madeirenses ficaram algumas centenas de comunicações reunidas em vários volumes e a certeza de que a investigação histórica iniciou uma nova era.

  

     No sentido de facilitar ao leitor um maior aprofundamento da temática explicitada ao longo destas paginas vamos apresentar uma resenha sumárias das obras que reputámos mais importantes.

 

 

1. (Os) Açores e o Atlântico (séculos XIV-XVII), Angra do Heroísmo, 1984. Este volume reúne as actas do colóquio realizado em 1983. A este seguiram-se mais dois em 1987 e 1990, tendo-se publicado as actas do segundo em volume no Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira (vol. XLV, 1987), entidade promotor de todos estes eventos.

 

2. ALBUQUERQUE, Luís de (direcção de), Portugal no Mundo, 6 volumes, Lisboa, 1989. Nos dois primeiros volumes publicam-se estudos monográficos sobre a Madeira (Alberto Vieira), Açores (Artur Teodoro de Matos, Maria Olímpia da Rocha Gil), Cabo Verde (Marília Lopes, Maria Manuel Torrão) e S. Tomé (Luís de Albuquerque e Isabel Castro Henriques).

 

3. Arquivo dos Açores, 15 volumes, Ponta Delgada, 1878-1959 (reeditado pela Universidade dos Açores, 1980-1984). A sua publicação iniciou-se em Maio de 1878, por iniciativa de Ernesto do Canto, que subvencionou os dez primeiros volumes, sendo os restantes da responsabilidade de Afonso Chaves, J. B. Oliveira Rodrigues. Neles se reúnem, ainda que de forma avulsa, os documentos mais importantes sobre os Açores, recolhidos nos arquivos açorianos, Torre do Tombo e outros arquivos.

 

4. Arquivo Histórico da Madeira, 19 volumes, Funchal, 1931-1990. Iniciativa de Cabral do Nascimento, que depois passou a Boletim do Arquivo Distrital do Funchal (hoje Arquivo Regional da Madeira), em que se publicaram importantes estudos e apontamentos sobre a história da ilha. Nos últimos cinco volumes (1977-1990), reuniu-se a documentação do tomo primeiro do registo geral da Câmara do Funchal, com documentos de 1425 a 1623.

 

5. AZEVEDO, Álvaro Rodrigues de, "Notas", in Saudades da Terra,

Funchal, 1873. Em trinta e três notas (pp.313-855) apensas à edição da obra de Gaspar Frutuoso referente à Madeira o autor reúne tudo o que conseguiu recolher, até 1873, sobre a História do arquipélago, capaz de esclarecer algumas questões  deixadas em aberto no texto editado.

 

6. BARCELLOS, Christianno José Senna, Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné, 5 partes, Lisboa, 1899-1911. Nestes anais de Cabo Verde e Guiné o autor reuniu importante documentação que trata de forma cronológica, até 1842, faltando uma adequada estrutura formal, que deverá ser reunida na obra em preparação, dirigida por Luís de Albuquerque e M. E. Madeira Santos, com o título de História Geral de Cabo Verde.

 

7. BRåSIO, António (publicação e notas), Monumenta Missionária Africana. África Ocidental, 1ª série, 7 volumes, Lisboa, 1952-1956, 2ª série 15 volumes, Lisboa, 1952-1985. Nesta colecção de documentos o investigador encontra o que de mais significativo existe sobre os arquipélagos de Cabo Verde e S. Tomé e neles se juntam textos narrativos e a documentação diplomática.

 

8. CARREIRA, António, Cabo Verde. Formação e extinção de uma sociedade escravocrata (1460-1878), Lisboa, 1983 (2ª edição). Pertence ao autor o maior número de trabalhos históricos sobre o arquipélago de Cabo Verde, de que este estudo é exemplo.

 

9. Colóquio Internacional de História da Madeira (actas do I e II), 3 volumes, Funchal, 1989-1990. Nos três volumes estão reunidas as actas do primeiro (1986) e segundo (1989) colóquios realizados no Funchal pela Secretaria do Turismo Cultura e Emigração do Governo Regional da Madeira.

 

10. DIAS, Urbano de Mendonça, A vida de nossos avós, 8 volumes, Vila Franca do Campo, 1944-1948. Tentativa de recriação da vida dos antepassados com o recurso a documentos que o autor também publica. Esta obra e outras publicadas do mesmo autor são indispensáveis para a compreensão e estudo da história micaelense.

 

11. DUNCAN, T.B., Atlantic islands. Madeira, the Azores, and the Cape Verdes in seventeenth - century. Commerce and navigation, Chicago, 1972. O primeiro estudo, feito de forma compartimentada, sobre os arquipélagos portugueses (Madeira, Açores e Cabo Verde) no século dezassete.

 

12. DRUMMOND, Francisco Ferreira, Anais da ilha Terceira, 4 volumes,

Angra do Heroísmo, 1850-1864 (reedição em 1981). Nestes quatro volumes apresenta-se de forma cronológica a história da ilha Terceira até 1832. Como complemento deverá indicar-se a edição recente dos seus  Apontamentos Topográficos, Políticos, Civis e Eclesiásticos para a História das nove ilhas dos Açores servindo de suplemento aos Anais da ilha Terceira, Angra do Heroísmo, 1990, edição de J. G. Reis Leite.

 

13. FRUTUOSO, Gaspar, Saudades da Terra (livros 1 a sexto), 7 volumes, Ponta Delgada, 1977-1987. Nesta obra escrita na década de noventa do século dezasseis o autor reuniu tudo o que conseguiu recolher sobre os arquipélagos da Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde. Texto indispensável é certo, mas a ser usado com todo o cuidado e confronto com a documentação disponível.

 

14. GIL, Maria Olímpia da Rocha, O arquipélago dos Açores no século XVII. Aspectos sócio económicos (1575-1675), Castelo Branco, 1979. Uma das primeiras tentativas de sistematização da sociedade e economia açorianas num período crucial da história deste arquipélago. Peca apenas pelo facto de privilegiar os núcleos documentais terceirenses em detrimento das outras ilhas.

 

15. GODINHO, Vitorino Magalhães, Os Descobrimentos e a Economia Mundial, 4 volumes, Lisboa, 1981/1982. A primeira obra de síntese sobre os aspectos económicos dos descobrimentos em que às ilhas atlânticas é atribuído um papel relevante.

 

16. IDEM, Mito e Mercadoria, Utopia e Prática de Navegar. Séculos XIII-XVIII, Lisboa, 1990. Para além da visão de conjunto que a obra pretende apresentar nos dezassete capítulos; parece-nos particularmente relevante aquele em que o autor nos presenteia com uma primorosa síntese sobre "As ilhas atlânticas: dos mitos geográficos à construção do novo mundo".

 

17. MACEDO, António L. da Silveira, História das quatro ilhas que formam distrito da Horta, Horta, 3 volumes, 1871 (reedição em 1981). Estudo monográfico sobre as ilhas do Faial e Pico.

 

18. MAURO,Frédéric, Portugal, o Brasil e o Atlântico. 1570-1670, 2 volumes, Lisboa, 1988-1989 (1ª edição em 1960). Obra geral sobre o espaço atlântico, aqui encarado numa perspectiva inovadora, com especial incidência na valorização que se dá aos arquipélagos da Madeira e Cabo Verde.

 

19. PEREIRA, Fernando Jasmins, Estudos sobre História da Madeira, Funchal, 1991. Compilação de estudos inéditos e publicados pelo autor sobre a História da Madeira nos séculos XV e XVI. Este é um dos marcos referenciais da actual Historiografia madeirense.

 

20. SANTOS, João Marinho, Os Açores nos séculos XV e XVI, 2 volumes, Ponta Delgada, 1989. A primeira tentativa de análise global do processo histórico açoriano, peca porque a sua abordagem se restringir apenas à documentação publicada e às fontes narrativas.

 

21. SILVA, Fernando Augusto da, Elucidário Madeirense, 4 volumes, Funchal, 1984 (4ª edição). Dicionário histórico-enciclopédico sobre o arquipélago da Madeira: a sua leitura deverá ser feita com algumas reservas, pois enferma de certos erros na cronologia.

 

22. VIEIRA, Alberto, O comércio inter-insular  nos séculos XV e XVI (Madeira, Açores, Canárias), Funchal, 1987. Neste trabalho foi nossa intenção relevar as conexões sociais e económicas entre os três arquipélagos em causa.

 

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