O COMÉRCIO INTER-INSULAR NOS SÉCULOS XV E XVI
MADEIRA, AÇORES E CANÁRIAS
ALBERT VIEIRA
REGIÃO AUTÓNOMA DA MADEIRA
CENTRO DE ESTUDOS DE HISTÓRIA DO ATLÂNTICO
1987
TÍTULO: O comércio inter-insular nos séculos XV a XVI. Madeira,
Açores, Canárias
Autor: Alberto Vieira(C)
Edição :
Centro de Estudos de História do Atlântico
Rua dos Ferreiros, 165
9000-Funchal
1ª edição 1987
Colecção Memórias nº.1
Obs.: Aqui apenas se transcreve o texto, sem gráficos e quadros
que o acompanham
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Notícias/Publicações
AS ÁREAS INSULARES A EXPANSÃO E O COMÉRCIO NO
ATLÂNTICO: AS ROTAS DE NAVEGAÇÃO E COMÉRCIO
A valorização do Atlântico nos séculos XV e XVI conduziu
a um intrincado liame de rotas de navegação e de comércio que
ligavam o Velho Continente ao litoral atlântico. Esta
multiplicidade de rotas resultou das complementaridades
económicas e de formas de exploração adoptadas. Se é certo que
esses vectores geraram as referidas rotas, não é menos certo que
as condições mesológicas deste oceano, dominadas pelas correntes,
ventos e tempestades, delinearam o seu rumo. As mais importantes
e duradouras de todas as traçadas neste mar foram sem dúvida a
da Índia e a das Índias, que galvanizaram as atenções dos
monarcas, da população europeia e insular, dos piratas e
corsários.
No traçado de ambas situava-se o Mediterrâneo Atlântico com
uma actuação primordial na manutensão e apoio à navegação
atlântica. As ilhas da Madeira e das Canárias surgem nos séculos
XV e XVI como entreposto para o comércio no litoral africano,
americano e asiático. Os portos principais da ilha da Madeira,
Gran Canaria, La Gomera, Hierro, Tenerife e Lanzarote animam-se
de forma diversa com o apoio a essa navegação e comércio nas
rotas da ida, enquanto nos Açores, com as ilhas de Flores, Corvo,
Terceira, e S. Miguel, surgem como a escala necessária e
fundamental da rota de retorno.
Segundo Pierre Chaunu a rota das Índias de castela assentou
em quatro vértices fundamentais: Sevilha, Canárias, Antilhas,
Açores. Neste traçado, portanto, a Madeira mantinha-se numa
posição excêntrica, pois apenas servia as rotas portuguesas do
Brasil e da costa africana.
As dificuldades do espaço entre as Canárias e Castela,
devido ao golfo de las Yéguas (ou golfo das Éguas) em consonância
com o prolongado percurso até às Antilhas, fizeram das Canárias
uma escala obrigatória e imprescindível para a carreira das
Índias. Aí as naus faziam aguada, procediam aos necessários
reparos e se reabasteciam de lenha e géneros imprescíndiveis para
a longa caminhada de um a dois meses. As ilhas de Tenerife, Gran
Canaria, Hierro, La Gomera, Lanzarote eram favorecidas com essa
escala técnica, pois para além de poderem escoar os seus produtos
no abastecimento das naus, estava facilitada a sua intervenção
no comércio americano.
O arquipélago canário nomeadamente a ilha de Tenerife,
mereceu também a preferência dos navegadores portugueses nas suas
viagens ao Brasil, à costa africana e à Índia. Assim terá
sucedido, por várias vezes, no século XVI sendo de referir em
1530, a escala da armada de Martim Afonso de Sousa em Tenerife
e, em 1563, a viagem do jesuíta Sebastião de Pina.
As ilhas Canárias surgem, pois como uma importante base de
aprovisionamento para as naus portuguesas com destino ao Brasil,
Cabo Verde, Guiné e Angola e, mesmo, como relevantes entrepostos
do comércio ilegal de escravos na costa africana.
Os ingleses serviram-se igualmente das Canárias como o
ponto de apoio para as suas navegações de comércio e corso nas
costas africana e americana. Entre 1524 e 1600 contam-se treze
viagens em que aportaram a este arquipélago, sendo de salientar
a de John Hawkins em 1564 e a de Francis Drake em 1581.
A escala da rota de retorno das principais carreiras
oceânicas passava obrigatoriamente pelos Açores. Este arquipélago
surge, desde princípios do século XVI, como o principal ponto de
apoio para essa navegação, sendo para os espanhóis as "Canárias
de los retornos".
Ambas as escalas são imprescindíveis à navegação e comércio
do atlântico. As dificuldades e delongas da viagem de retorno
implicavam uma paragem retemperadora em pleno oceano, onde fosse
possível reparar os danos das embarcações, fazer o
aprovisionamento de víveres e de água. Por vezes os portos
açoreanos apresentavam-se como o reduto reguro para a protecção
e defesa de qualquer assalto corsário. Tudo isto oferecerá à
praça de Angra, onde a coroa portuguesa centralizou serviços e
infraestruturas de apoio, como a Provedoria das Armas, a partir
de 1527.
Segundo o testemunho de viajantes, na segunda metade do
século XVI a cidade de Angra, mercê de uma forte rede de
fortificações e de bom porto de abrigo, era o principal
entreposto comercial de tráfego oceânico na rota de retorno.
Pompeo Arditi, em 1567, refere que, "à ilha afluem muitos navios
por ser mais comódo à navegação do que qualquer das outras; por
isso nela tocam todos os vindos das Índias orientais e
ocidentais, do Brasil, São Tomé, Mina e Cabo Verde, a abastecer-
se de mantimentos, parecendo que deus põe milagrosamente esta
ilha no meio de tão grande oceano para a salvação dos míseros
navegantes, que muitas vezes lá chegam sem mastros nem velas, ou
sem mantimentos e aí se fornecem de tudo". Vinte anos volvidos
Mosquera de Figueiroa corrobora esse movimento do porto de Angra,
dizendo que "es mucho el comercio com las Índias Orientales y
Ocidentales, por ser escala importantíssima para el refresco y
refugio de sus armadas, por tener en si agua en abundancia muy
delgada e saludable".
A participação madeirense na carreira das Índias foi
esporádica, justificando-se esta ausência pela posição marginal
em relação à sua rota. Todavia a Madeira representa um porto de
escala muito importante para as navegações portuguesas para o
Brasil, Golfo da Guiné e Índia. Desde o século XV que ficou
demarcada essa posição da escala madeirense para as explorações
geográficas e comerciais dos portugueses na costa ocidental
madeirense para as explorações geográficas e comerciais dos
portugueses na costa ocidental africana. Esta opção pela Madeira
adveio dos conflitos latentes com Castela pela posse das
Canárias. A expansão comercial de finais do século XV, com a
abertura da rota do Cabo, veio valorizar mais uma vez esta escala
aquém equador, surgindo inúmeras referências, em roteiros e
relatos de viagens, à escala madeirense. Os mesmos ingleses que
utilizaram as Canárias tocavam com assiduidade a Madeira, onde
se proviam de vinho para a viagem.
A Madeira, como as Canárias muito raramente foi escolhida
como escala de retorno - uma vez que essa missão estava, por
condicionalismos geográficos, reservada aos Açores. Todavia
verificou-se ocasionalmente a escala das embarcações vindas da
Mina Índias e Índias na Madeira. Em 1520 o monarca determinava
o modo de transporte de carga da nau de D. Diogo de Lima,
originário da Índia, para o reino, enquanto em 158 André Soares,
capitão de uma nau oriunda de Mina, reclamava ao provedor da
fazenda. Aí atacavam não só as naus do comércio americano e
índico, mas também as embarcações do comércio insular 1581, mas
de acordo com a opinião de Filipe II essa prática era assídua
nestas últimas décadas do século.
A posição demarcada do Mediterrâneo Atlântico no comercio
e na navegação atlântica fez com que as coroas peninsulares
investissem aí todas as tarefas de apoio, defesa e controle do
trato comercial. As ilhas eram os bastiões avançados, suportes
e símbolos da hegemonia peninsular no Atlântico. A disputa pela
riqueza em movimento neste oceano será feita na área definida por
elas, pois para aí incidiam piratas e corsários ingleses,
franceses e holandeses, ávidos das riquezas em circulação nas
rotas americanas e índicas. Uma das maiores preocupações das
coroas peninsulares terá sido a defesa das embarcações que
sulcavam o Atlântico em relação às investidas dos corsários
europeus. A área definida pela Península Ibérica, Canárias e
Açores era o principal foco de intervenção do corso europeu sobre
os navios que transportavam açúcar ou pastel ao velho continente.
Sendo o ouro, a prata e as especiarias orientais os
principais alvos da cobiça dos corsários, lógico será admitir que
a intervenção destes se fizesse em particular entre os Açores e
o Cabo de S. Vicente. Foi tendo em conta essa insegurança das
embarcações e das ilhas açorianas que, em 1543, Bartolomeu Ferraz
traçou um plano de fortificação desse arquipélago, justificado,
segundo ele, " porque as ilhas terceiras importarão muito assy
pelo que per ssy valem como por serem o velhacoute e socorro muy
principal das naos da Índia e os franceses sserem tão
dessarrozoados que justo vel injusto tomão tudo que podem".
Outra e não menos importante preocupação das referidas coroas
incidia sobre o comércio ilegal que aí se fazia com as
mercadorias do Novo Mundo. Deste modo as necessidades da defesa
e da vigilância, bem como da guarda e da protecção das armadas
ou frotas implicaram a criação de estruturas capazes de manter
com segurança e vantagem o monopólio comercial ibérico.
Desde o início da escala das rotas que esta situação de
insegurança se evidenciará, pelo que ambas as coroas delinearam,
em separado, um plano de defesa e apoio às suas embarcações. Da
parte portuguesa promulgara-se em 1520 o regimento para as naus
da Índia e Açores, no qual se estabelecem as formas de
intervenção à chegada das naus da Índia ao arquipélago. Define-se
nesse diploma o modo de segurar a mercadoria das mãos do
contrabando e corso, o abastecimento necessário para a viagem até
Lisboa. A insuficiência destas prerrogativas tornou necessária
e urgente a Provedoria das Armadas da Índia, Brasil e Guiné,
sendo seu provedor, desde 1527, Pero Anes do Canto. Depois, a
partir da década de 30, procurou-se delinear um plano de defesa
das principais ilhas do arquipélago, com particular incidência
para os portos de apoio de Angra, Ponta Delgada e Horta.
Ao provedor competia a superintendência de toda a acção de
defesa e abastecimento das embarcações em escala ou em passagem
pelos mares açorianos. Além disso a sua acção de apoio alargava-
se à Armada das Ilhas, criada expressamente para comboiar, desde
o Corvo até Lisboa, as embarcações vindas do Brasil, Índia e
Mina, e a fiscalização do mar dos Açores. No período de 1536 a
1556 há notícia de pelo menos doze armadas terem sido enviadas
nessa missão. E, entre 1531-1535, Duarte Coelho era capitão-mor
da armada no Atlântico, tendo-se deslocado em Abril de 1535 com
os seus navios aos Açores, onde permaneceu até Julho.
Por vezes essa armada não chegava atempadamente aos Açores
ou os poucos navios que aí chegavam eram insuficientes para a
defesa das frotas, pelo que o provedor era forçado a armar ou
fretar embarcações para a referida missão. Assim sucedeu entre
1532 e 1555 por onze vezes. Esta incerteza da vinda da armada
das ilhas e a presença constante dos corsários franceses levaram
o provedor, em 1537, a apresentar ao monarca um plano de
construção de caravelas para a referida armada nas ilhas.
Aliando a este projecto de criação de uma armada insular surge,
em 1543, o plano de defesa dos açores, traçado por Bartolomeu
Ferraz, como forma de dissuasão aos corsários franceses. Todavia
só muito mais tarde, em face do agravamento da acção dos
corsários nórdicos e franceses se tornou possível a concretização
desse plano de fortificação das ilhas, com a construção do
Castelo de S. Brás (1553) no porto de Ponta Delgada, do Castelo
de S. Sebastião (1572) na Baía do Porto Pipas (Angra) e de um
baluarte (1572) na baía da Horta.
Sendo a Terceira o mais importante porto de escala da
carreira das Índias, os monarcas espanhóis viram-se, por diversas
vezes, na necessidade de solicitar o apoio do provedor das
armadas às embarcações espanholas que por aí passavam. Mas o
menosprezo português ou a necessidade de uma guarda e uma defesa
mais eficazes das armadas da América exigiram uma reorganização
do sistema de frotas da Carreira de las Índias. Assim desde 1521
estas passaram a representar uma nova estrutura organizativa e
defensiva, primeiro com a criação do sistema de frotas anuais
armadas ou ocasionalmente escoltadas por uma armada protectora,
depois, a partir de 1555, com o estabelecimento de duas frotas
anuais para o tráfico americano: Nueva Espãna e Tierra Fierme.
Para além deste regulamentação rigorosa das frotas definira-se,
desde 1521, a necessidade da sua escolta na área definida pelo
Cabo de São Vicente, Canárias e Açores. A partir de então as
armadas espanholas passaram a surgir com frequência nos Açores,
a aguardar as naus da Índia.
A escolta das frotas das Índias espanholas mereceu maior
atenção da coroa peninsular nas duas décadas do século XVI, mercê
do reforço das investidas dos corsários franceses, holandeses e
ingleses. Depois da invasão de Portugal pelas tropas de Filipe
II, importantes almirantes da armada espanhola passaram a surgir
com assiduidade no mar açoreano a capitanear armadas de defesa
e protecção das referidas frotas. Assim, foram incumbidos dessa
missão Don Álvaro Bazan (1580,1590-1591), D. Pedro de Valdés
(1581) e o Marquês de Santa Cruz (1587).
Conhecida e sistematizada a importância destes arquipélagos
na navegação e comércio Atlântico, importa discernir qual o
impacto deste movimento na sociedade insular e qual a
participação dos insulares nesse trato de mercadorias, sob a
forma de contrabando ou não. Muitos estudiosos têm afirmado o
reduzido proveito de algumas ilhas que desempenharam um papel de
relevo neste trato, como sejam as ilhas açorianas. Todavia as
principais contrapartidas económicas da intervenção destas ilhas
assentam, fundamentalmente, na prestação de serviço a essas
rotas. Se a partir da Madeira e das Canárias estava facilitada
a actuação dos insulares com o Novo Mundo, por meio da produção
local do vinho, cereais e queijo, nos Açores apenas se verificava
uma intervenção de apoio ou então uma intromissão no contrabando
das especiarias, açúcar, ouro e prata. As possibilidades de
comércio directo esbarravam com um apertado sistema de vigilância
e limitação criadas pelas coroas peninsulares, que
impossibilitava seu desenvolvimento. Deste modo para o ilhéu o
maior benefício terá resultado de uma remuneração indirecta por
meio do abastecimento das embarcações em escala, da faina de
apoio e reparo das mesmas. Pelo menos esta era a situação que se
vivia na ilha Terceira, como nos retrata Pedro Frias em finais
do século XVI: "a gente destas Ylhas eram inclinadas a seu
jnteresse do qual vjvjam e se sostentavão ~q era vemderem has
armadas de Castela e de Portugal, as crjações, os frutos que
recolhjam e os oficjaes suas obras que tinham p.to pera o tempo
das frotas e nam podjam vjver sem esta comunjcaram".
O aprovisionamento das naus das diversas frotas que
sulcavam o Atlântico era uma preocupação constante das coroas
peninsulares, pelo que nos diversos regimentos para as referidas
frotas e para as estruturas de apoio nestas criadas nos
arquipélagos era dada a especial importância a esse serviço.
Os arquipélagos madeirense e canário tiveram uma acção
muito influente no aprovisionamento das naus da Índia em vinho,
legumes frescos, carne , água e lenha. No caso das canárias essa
situação é-nos descrita, de modo exemplar, por Gonzalo Fernándes
de Oviedo em 1534: "Tornando el viaje deste camino de muestro
Índias, digo pues de una destas siete islas en especial de Gran
Canaria, o La Gomera, o la Palma (porque estan en mas derecha
derrota y alproposito, e som fertiles e abundan de abastimentos
y de lo que conviene a los que esta larga navegación haccen
tomam alli los navios refresco agua e leña e pau fresco e
galinhas, e pescados sallados e pagos que las naos saean de
España".
Na Madeira habitualmente faziam escala as naus portuguesa
da rota da Mina, Brasil e Índia, que aí se abasteciam de vinho
e lenha; por vezes,muitas embarcações espanholas também aportavam
à ilha antes do habitual refresco das Canárias. Assim sucedeu em
1498 com a expedição de Colombo. Esse serviço de apoio às
embarcações portuguesas era assegurado e pago pelo provedor da
Fazenda da Ilha. Dele apenas se referencia, em 1517, a entrega
de oitenta arrobas de lenha a uma nau que se dirigia à Índia e
do envio ao reino, em 1531, de duzentas pipas de vinho para a
frota da Índia. Por vezes as embarcações escalavam a ilha para
tomar o vinho necessário para a viagem. Aliás não foram só os
portugueses que utilizaram o vinho madeirense na ementa das naus
que sulcavam o Atlântico, pois também os ingleses o fizeram por
diversas vezes; é o caso, em 1533, da escala de Richard Eraen na
sua viagem à Guiné, que tomou algumas pipas de vinho no
Funchal. A Madeira também provia as embarcações de retorno que
por aí passavam; assim sucedeu em 1528 com uma nau régia
capitaneada por André Soares, procedente de Mina, que recebeu do
provedor da fazenda biscoito, pescado, azeite e vinho para
sustento dos dezoito tripulantes, no período de vinte dias de
viagem até Lisboa.
As embarcações régias que iam à Madeira carregar açúcar
para o reino ou principais praças italianas e flamengas eram
igualmente abastecidas pelo almoxarifado dos quartos e quintos
conforme a duração da viagem e número e tripulantes. De acordo
com o regimento de 1520 o almoxarifado do Funchal deveria
assegurar o reparo e abastecimento dos navios. Esse
aprovisionamento era atribuído de acordo com a demora do
percurso; assim, os que se dirigiam ao reino recebiam mantimentos
para vinte dias, sendo de quarenta dias para poente e sessenta
para o levante; esses mantimentos consistiam em carne, peixe,
biscoito e vinho e eram distribuídos em rações individuais à
tripulação. E, 1508 há informação da ração completa da nau "S.
Martinho" com quarenta e cinco tripulantes que se dirigia para
o levante; cada tripulante recebeu duas arrobas de biscoitos,
dois almudes e meio de vinho, duas pescadas e meia e uma arroba
de carne.
Nos Açores, desde 1520 que o referido abastecimento às naus
da Índia, Brasil, Mina e Guiné fora regulamentado, ficando essa
missão a cargo do provedor das armadas. O dinheiro para essas
despesas era retirado das receitas do almoxarifado de Angra,
tendo-se fixado em 1539 no valor de quarenta mil reais o
quantitativo máximo a despender nesse serviço. Em 1523 o
refresco da caravela "Santo António", capitaneada por Pedro
Camelo, custou quatro mil e seiscentos reais, tendo o dito
recebido seis carneiros, duas dúzias de galinhas, uma arroba de
azeite, pão fresco, madeira e lenha.
A assiduidade da escala terceirense, a partir do fim do
segundo quartel do século XVI aliada à conjuntura difícil da
produção cerealífera terceirense, vieram causar dificuldades à
acção de reabastecimento das naus. As insuficiências de gado,
pescado e trigo na terceira obrigavam o provedor das armadas a
adquirir estes produtos nas ilhas vizinhas, designadamente em S.
Miguel, S. Jorge, Faial e Pico.
Em certa medida, e de acordo com a opinião do Pe. Manuel
Luís Maldonado, esta escala apresentava-se proveitosa para o
burgo angrense, uma vez que com ela se adquiriram moeda e metais
preciosos a troco de carne, panos, fruta, pão, legumes e peixe.
Todavia, a imposição da obrigatoriedade do fornecimento das naus
em escala da armada das ilhas apresentava-se como um pesado
encargo para os açorianos.
O COMÉRCIO INTER-INSULAR
1.FACTORES
O comércio no mercado insular depende da intervenção de
múltiplos factores, activadores ou não do sistema de trocas.
Assim, se os produtos surgem como o elemento justificativo e
vitalizador das trocas comerciais, não são por si só suficientes
para a sua manutensão. Torna-se, pois, necessário a criação de
condições que as favoreçam, como os meios e vias de comunicação
adequados, agentes habilitados para os diversos serviços e
instrumentos de pagamento ajustados ao volume e duração de
trocas.
O comércio surge neste contexto como uma consequência
lógica de todos esses condicionalismos e o seu nível de
desenvolvimento dependerá em muito do estádio atingido por esses
factores. Nesse sentido o comércio é, ao mesmo tempo,
consequência e causa do desenvolvimento da sociedade e economia
insulares, pois resulta de um determinado estádio de
desenvolvimento dos factores assinalados e, simultaneamente,
influencia estes, bem como a sociedade insular, em geral. Terá
sido o surto do comércio açucareiro que, na Madeira e nas
Canárias, condicionou o desenvolvimento de infraestruturas
portuárias e a valorização patrimonial dos principais centros
urbanos. O mesmo sucedeu na ilha de S. Miguel com o surto do
pastel.
Esta actividade, que mereceu a adesão dos ilhéus e
encontrou os mecanismos adequados a um elevado nível de
desenvolvimento, não era alheia às venalidades da economia
atlântica, bem como aos obstáculos naturais e humanos. O europeu
impõe e domina os circuitos de troca, fazendo
desta área uma região periférica definida como um mercado de
reserva para as suas necessidades mercantis. Além disso as coroas
peninsulares, empenhadas num comércio monopolista, intervêm, com
assiduidade, por meio da regulamentação exaustiva das actividades
económicas, delimitando o campo de manobra dos agentes aí
intervenientes. Esse excessivo intervencionismo, as intempéries,
as tempestades marítimas, a peste, a pirataria e o corso foram
os principais responsáveis pelo bloqueamento dos circuitos
comerciais em determinadas épocas das centúrias em análise.
REGULAMENTAÇÃO DAS ACTIVIDADES ECONÓMICAS
O comércio, bem como as mais actividades económicas estavam
sujeitos a um controle e regulamentação por parte das coroas de
Portugal e Castela. Para isso contribuiu, em primeiro lugar, a
necessidade de preservar o monópolio real do comércio de
determinados produtos em áreas definidas. Em segundo e, em termos
restritos das novas áreas de ocupação atlântica, essa intervenção
constante da coroa e dos municípios tinha como meta o
abastecimento local, bem como a definição dos produtos adequados
que merecessem uma troca valiosa no mercado atlântico-
mediterrânico. Aí, a coroa, por meio de repartições adequadas
(almoxarifado, provedoria da fazenda) e com a colaboração das
instituições locais (a vereação) exercia esse controle e ditava
as medidas necessárias ao cumprimento e manutensão da sua óptica
económica.
Tendo em conta que a primeira situação mereceu já
tratamento adequado por especialistas de renome, apenas nos
deteremos sobre a segunda, encarada, é certo, ao nível do mercado
insular.
A economia insular, como vimos, estrutura-se na consonância
dos vectores marcantes da política expansionista europeia, com
as diferenças ou as assimetrias resultantes da estrutura do solo,
do clima e do seu posicionamento geográfico. Todo este conjunto
de factores definirá um processo peculiar de cada grupo destas
ilhas. De acordo com esse dimensionamento teremos a definição e
regulamentação das actividades económicas da sociedade insular.
Há necessidade, por parte das administrações central e insular,
de exercer um estrito controle destas actividades nos seus
múltiplos aspectos, no sentido de assegurar o cumprimento de uma
dada política, acima referida.
Esta preocupação é constante e abrange todos os sectores
de actividade. As autoridades municipais e régias intervêm na
produção, no processo transformador das matérias-primas, na
distribuição e no comércio dos produtos locais e estrangeiros.
O município legisla sobre a forma de postura e de acórdão,
regulamentando com minúcia todas as actividades sectoriais acima
enunciadas; a coroa, por sua vez, através das instituições
próprias, intervém por meio de regimentos e alvarás. Deste modo
os produtos e as actividades que definem a economia de
subsistência e de mercado sujeitavam-se ao intervencionismo
municipal e régio; esta actuação regia-se pelos princípios
básicos da comunidade insular de provisão, qualidade, preço, peso
e medida adequados desses produtos.
As repartições régias surgem, muitas vezes, como mecanismos
coarctivos, tendo como finalidade básica a defesa do património
real. A sua acção tem como princípio impedir a vigência e
generalização de práticas fraudulentas e lesivas desse
património. O contrabando surge, neste circuito, ao mesmo tempo
como causa e consequência deste apertado sistema de controle de
produtos no mercado insular, pois, como é bem sabido, a excessiva
regulamentação dos mecanismos de troca, para além de entorpecer
e de retardar esta, cria ou torna inevitável o aparecimento de
circuitos paralelos. Ao mercador insular e europeu não satisfazem
estas medidas intervencionistas da coroa e do município, pois
limitam o seu restrito campo de manobra e oneram a sua acção: daí
que ele actue de modo a poder ter uma intervenção activa na
formulação da normas, ao mesmo tempo que se serve de subterfúgios
para contrariar as leis e normas vigentes.
Como atrás enunciamos, este intervencionismo é geral, uma
vez que atinge os vários sectores de actividade artesanal ou
transformadora e comércio. De seguida daremos conta dessa
intervenção, de modo separado, de acordo com os referidos
sectores de actividade e com os produtos, ou seja, com as
componentes da economia insular.
PRODUÇÃO
A intervenção das autoridades inicia-se com a distribuição
das terras para arrotear, em que se define não só o proprietário,
a forma de sucessão e os limites das arroteias, mas também os
produtos adequados para o seu cultivo. Esta última situação
resultava, em primeiro lugar, de política expansionista europeia
e, em segundo, da necessidade de assegurar a subsistência das
ilhas. No primeiro caso salienta-se o lançamento de produtos
coloniais, componentes fundamentais do comércio atlântico: o
alçúcar e o pastel. O mesmo sucede no segundo, com a
transplantação dos componentes fundamentais da dieta europeia-
mediterrânica: a vinha e os cereais.
De acordo com estes dados temos conhecimento de algumas
situações bem claras. Assim, na Madeira, em 1492, recomendava-se
o plantio de terras aráveis com trigo ou cevada enquanto, em
1508, se ordenava que "se nam rompa em toda essa ylha terra pera
se em ella se aver de lavrar e semear pam nem pera outra algu~ua
cousa somente pera se fazerem canaveaes pera açuquares". Na
ilha de S. Miguel definira-se, em 1532, que as terras de cultura
estavam reservadas para o trigo e pastel, principais produtos da
economia micaelense. No que respeita às Canárias é
significativa a actuação dos governadores de Tenerife e Gran
Canaria, o primeiro apostado na cultura da cana de açúcar e o
segundo num conjunto de culturas capazes de assegurarem a
subsistência e um comércio rendoso.
O incentivo à produção açucareira, na Madeira e nas
Canárias, derivava das facilidades do seu rápido escoamento e,
igualmente, da criação de condições para o normal andamento das
tarefas agrícolas e da laboração dos engenhos; por isso se
regulamentou o uso da águas, a construção de levadas, o corte e
o transporte da lenha e o reparo dos engenhos.
Definido o proprietário, o regime de exploração e o produto
adequado ao solo e às necessidades do momento, não estava ainda
concluída a intervenção das autoridades, uma vez que estas
pretendiam não só assegurar a sua manutensão, mas também a
qualidade e preços condignos.
A defesa e manutensão das qualidade do produto colhido no
solo insular é uma das constantes da actuação das autoridades
régias e locais, atingindo especialmente os produtos da
exportação: o vinho, o pastel e o açúcar. A todos se definiam,
por regimentos específicos, as tarefas de cultivo, do cuidado e
da laboração final do produto, de modo a que este se apresentasse
nas condições e quantidades necessárias para a sua
comercialização. Assim, para o pastel aparece nos Açores, o
regimento de 1536, em que se estabeleciam normas para a sua
cultura e laboração, ao mesmo tempo que se criavam cargos de
aldeadores para assegurar o seu cumprimento. Idêntica é a
situação na Madeira e nas Canárias com o açúcar, que é alvo de
constantes regulamentações e de um controle assíduo dos
aldeadores para o efeito eleitos em vereação. Deste modo, o
monarca D. Manuel, para garantir a boa qualidade do açúcar
madeirense de exportação e assegurar o seu crédito no mercado
europeu, ordenara, em 1485, que todo o mestre de açúcar deveria
ser examinado e aprovado por três homens bons, ao mesmo tempo que
estipulava a obrigatoriedade de uma vistoria qualitativa ao
açúcar, após a sua laboração, por oficiais competentes: os
aldeadores.
O engenho, estrutura industrial complexa e fundamental para
a laboração do açúcar, era o centro de toda a actividade
açucareira e mantinha-se activo os doze meses do ano. Enquanto
durava a safra, de Janeiro a Junho, tinha intensa actividade com
a laboração do açúcar; nos restantes meses aproveitava-se a
disponibilidade para as necessárias reparações, abastecimento de
lenha e víveres para a safra seguinte. Uma mão de obra
especializada assegurava as principais tarefas da sua laboração:
mestre de açúcar, caldeireiro, purgador, espumeiro, refinador,
caixeiro, etc.; entretanto um grupo numeroso de almocreves
garantia a referida laboração, fornecendo as canas e a lenha.
Deste grupo numeroso de assalariados dependia o
funcionamento do engenho e bem assim a qualidade do produto
laborado. Daí que as autoridades municipais tenham acautelado
esta situação ao regulamentarem exaustivamente, por postura , as
principais tarefas. Ao mesmo tempo exigia-se que os ofícios
empenhados nessas actividades fossem examinados e aprovados
pelas autoridades competentes. Francisco Morales Padron refere,
a propósito, que nas ordenanças de Gran
Canaria (1531) tudo gira em torno do açúcar.
AS ACTIVIDADES ARTESANAIS
As actividades artesanais estavam organizadas em ofícios,
sendo estes regulamentados por leis e pragmáticas régias e
ordenanças concelhias. Esta intervenção das autoridades, e
especialmente a das concelhias, tinha como finalidade assegurar
a qualidade de matéria-prima, dos ingredientes e dos métodos
usados na sua laboração, de modo a que o artefacto se
apresentasse no mercado com a qualidade desejável; ao mesmo tempo
que a vereação actuava no sentido de evitar a especulação,
definindo uma tabela de preços para os serviços a prestar aos
artefactos. Além disso, todo o oficial mecânico deveria ser
examinado por um juíz do referido ofício sendo, depois, obrigado
a apresentar anualmente fiança e juramento perante a vereação.
O município mercê deste apertado sistema de regulamentação,
exarado nas posturas, tinha sob controle todos os ofícios, bem
como todas as actividades artesanais e transformadoras. Destas
algumas houve que, pela sua importância para a vida do burgo,
mereceram uma constante vigilância por parte dos almocatéis: o
moleiro, as padeiras, os vendeiros, as regateiras, os carniceiros
sujeitavam-se ao rigoroso controle destes oficiais concelhios;
esta era uma forma de assegurar o fornecimento dos produtos
essenciais para a vida do burgo.
O COMÉRCIO
As coroas de Portugal e Castela exerceram um rigoroso
controle sobre o comércio com as suas colónias no Atlântico.
Através de Lisboa e Sevilha os dois impérios atlânticos mantinham
um regular sistema de controle das rotas e do comércio. As ilhas
atlânticas posicionadas estrategicamente nesse trama de relações
económicas, viram assim toda a economia condicionada por uma
política intervencionista e proibitiva.
Deste modo nas Canárias, área charneira para o
relacionamento com as Índias de Castela, a coroa, por intermédio
da Casa de Contratacción de Sevilha, exercía um assíduo e
rigoroso controle nas ligações entre este arquipélago e o novo
continente. O seu objectivo era impedir a quebra do monopólio
andaluz e evitar o contrabando de nacionais e estrangeiros, com
o ouro, prata e açúcar das Índias. Até 1564, altura em que foi
criado o lugar de juíz de registo, o comércio feito a partir das
Canárias estava sujeito a autorizações especiais, por um
determinado período. Idêntica é a situação relativa à Madeira
e aos Açores, em relação ao comércio no litoral atlântico e,
nomeadamente, com o Brasil a partir do século XVII. No período
da união das duas coroas tornou-se possível nos três arquipélagos
uma política concertada de defesa do exclusivo comercial
hispânico. O mercado insular, pela sua importância no contexto
da economia europeia-atlântica, mereceu igualmente a intervenção
da coroa: esta, por meio das diversas repartições régias
existentes nas ilhas, exerceu um rigoroso controle sobre o
movimento de troca entre o próspero mercado destas e o da Europa
mediterrânica e atlântiva: tal intervenção não deriva só da
necessidade de assegurar a arrecadação dos direitos reais, mas
também do exercício do domínio exclusivo do comércio insular.
Assim a fiscalidade e a tendência monopolista-intervencionista
ditaram o aparecimento de instituições próprias: o almoxarifado
e a alfândega, o primeiro com a superintendência de arrecadação
dos direitos reais e a segunda com a finalidade de regular as
entradas e saidas e de arrecadar os respectivos direitos. A
alfândega surge como a mais importante instituição para regular
e controlar as actividades de troca, sendo uma das vias mais
adequadas para o controle do comércio insular. Na Madeira a
alfândega surge, desde 1477, como uma necessidade de organizar
a actividade fiscal e de regular o trânsito de mercadorias. A
infanta D. Beatriz organizou naquele ano os serviços de fisco,
criando duas alfândegas, uma na capitania do Funchal e outra na
de Machico; entre esta data e 1483 estes serviços adquirem uma
orgânica adequada ao volume das trocas madeirenses.
Em finais do século XV e princípios do seguinte o
desenvolvimento do comércio do açúcar implicou a criação de novas
alfândegas na Ribeira Brava, Ponta de Sol e Calheta. Com a
alfândega nova no Funchal, a partir de 1508, todo o serviço de
exportação do açúcar passará a fazer-se por aí. O monarca, ao
estipular esta medida, em 1512, aduzia em seu favor a perda que
a coroa tinha com a arrecadação dos direitos em diversas
localidades.
Até princípio do último quartel do século XV o movimento
de carga e descarga, no calhau do Funchal, fazia-se na presença
dos oficiais do duque ou dos seus rendeiros; desde então o juíz
da alfândega, com os almoxarifes e os escrivães, passará a
controlar toda essa actividade, lançando os direitos de acordo
com o regimento; a partir de 1497 o despacho dos navios era
supervisionado por um juíz e vereador da câmara do Funchal.
Se os alvarás e os forais concediam aos naturais o
privilégio de isenção da dízima das mercadorias de e para o
reino, o mesmo já não sucedia com os estrangeiros que, para além
de estarem sujeitos ao pagamento desse direito, viam limitada a
sua acção com as medidas proibitivas da coroa. Assim, para além
da interdição da vizinhança, estes viram restringidas as suas
possibilidades de comércio pelos contingentes de 1483 e 1485; de
facto, os referidos mestres ou mercadores eram obrigados a
descarregar a sua mercadoria num prazo de três e, depois, cinco
dias, pagando a respectiva dízima; caso contrário perdiam a
mercadoria; esteve-lhes também vedada até 1508 a carga na ilha,
pois apenas o podiam fazer os naturais.
Nos Açores a arrecadação dos direitos reais fazia-se do
mesmo modo que na Madeira, regendo-se as referidas repartições
pelos regimentos das suas similares do Funchal. No entanto aí
elas adquiriram nesse caso uma estrutura mais complexa, e não só
também mais adequada à realidade geo-humana como igualmente
ajustada à sua importância no contexto da economia açoreana e
atlântica.
Nas Canárias a fazenda real, transplantada de Castela,
organizou-se de acordo com as circunstâncias das ilhas após a
conquista e o seu posicionamento no traçado das rotas comerciais
do Atlântico. Assim, o regime fiscal não se apresentou gravoso,
pois a coroa concedera ao arquiélago um regime idêntico ao que
se fizera na Madeira e nos Açores, várias isenções e privilégios
incentivadores da sua ocupação e do seu desenvolvimento
económico. Todavia a grande preocupação do legislador castelhano
neste arquipélago incidia mais sobre o comércio canário-americano
do que sobre o comércio canário em geral. Disto resultaram as
constantes ordenanças e instruções da Casa de Contratacción de
Sevilha aos oficiais régios das ilhas deste arquipélago.
LEGISLAÇÃO
A regulamentação do comércio no mercado insular e deste com
as restantes áreas do Atlântico era uma das competências que os
municípios não descuravam na sua acção governativa. Esta
intervenção resultava da necessidade de assegurar o abastecimento
do mercado local dos produtos essenciais para o quotidiano da
comunidade insular; para isso os oficiais eleitos definiam
medidas, exaradas ou não sob a forma de posturas, que vão desde
a proibição de exportação de produtos locais ao reajustamento e
à regulamentação dos circuitos de distribuição e venda e, mesmo,
à proibição de entrada de produtos lesivos da economia concelhia.
Em síntese, a sua intervenção incidia, fundamentalmente, nos
seguintes domínios:
- definição dos locais de compra e venda: a praça
pública com o seu numeroso grupo de lojas e tendas;
- controle dos preços, por meio do tabelamento do preço
de venda dos produtos agrícolas, dos artefactos e dos
serviços prestados pelos vários oficiais mecânicos;
- controle de pesos e medidas por intermédio de
vistorias assíduas dos almotacés;
- proibição de saída dos produtos considerados
essenciais para a subsistência da comunidade insular:
trigo, gado e derivados, presunto, azeite, cera, cebo,
fruta seca e verde, madeiras, pipas vazias, tecidos e
artefactos de importação.
A venda de qualquer produto deveria fazer-se em praça
pública, nas lojas e tendas, sendo proibida a venda em casa ou
de porta em porta, como era hábitos dos bufarinheiros. Os
vinhos e a comida no Funchal, em 1541, apenas poderiam ser
vendidos nas ruas do Matoso, dos peixes e Direita. Idêntica é
a situação dos artífices que vêem reduzida a sua disseminação no
burgo com a obrigatoriedade de assentarem a sua tenda num
arruamento determinado pela vereação. Esta situação facilitava
a actividade do município na fiscalidade, inspecção e controle
das lojas e tendas.
O controle sobre os agentes do mercado local mais se amplia
com a obrigatoriedade de pagamento de fiança por todos os
oficiais mecânicos e intervenientes nas actividades da praça
pública: vendeiros, regatões, carniceiros, etc. Muitas vezes
o município vedava o acesso a estas actividades como forma de
evitar o roubo. Assim, no Funchal, os escravos e os moços
solteiros que viviam de sua soldada não podiam exercer o ofício
de vendeiro ou regatão.
A venda dos produtos de importação estava sujeita a uma
regulamentação especial, de modo a evitar-se o açambarcamento e
a especulação. Assim, só era permitida a sua venda a retalho
a nove ou quinze dias após a sua entrada, respectivamente em
Tenerife e no Funchal; além disso a sua venda só se podia
efectuar após vistoria dos deputados e sua subsequente licença,
ficando o infractor sujeito a pesadas penas.
Nas Canárias duas particularidades evidenciam uma similar
orgânica do mercado interno. Assim, entre 1521-1522, funcionou
em Tenerife um mercado franco, uma vez por semana, que foi
encerrado pelo dano que acarretava às rendas do concelho. Ao
mesmo nível funcionaram no século XVI feiras locais com caracter
sazonal. Além disso em Gran Canária, Tenerife e La Palma a venda
de determinados produtos de consumo em áreas definidas era muitas
vezes entregue, em regime de monopólio, a determinados moradores;
as casas de venda eram conhecidas por bodegones.
O controle das entradas fazia-se de acordo com as carências
locais, tendo-se em vista a necessidade de evitar a concorrência
dos produtos do estrangeiro ou das ilhas vizinhas, bem como a sua
utilização como represália para com as nações inimigas; no
primeiro caso temos como exemplo a actuação do cabildo de
Tenerife ao proibir a entrada de vinhos de fora e ao incentivar
a cultura da vinha; no segundo temos as represálias mútuas
entre Portugal e Castela, na década de 70, que surgem nas
Canárias em ordens de 1476 e 1480 e na Madeira em 1471. Além
disso há referência a represálias nas Canárias em 1592 contra a
França e em 1596 contra Inglaterra, o mesmo sucedendo na Madeira
em 1485 contra a Escócia e Bruges.
Mas se o produtos de fora não
deparavam com grandes entraves à entrada, o mesmo já não sucedia
à saída; nesse caso o concelho exercia um rigoroso controle sobre
esse movimento, no sentido de coibir a saída dos produtos
proibidos, porque necessários ao burgo; deste modo para todo o
produto cuja exportação fosse autorizada, o mercador deveria
solicitar ao concelho a necessária licença de saída. O trigo, as
madeiras, a carne e as verduras faziam parte desse grupo de
produtos prescritos. A sua exportação só se fazia em condições
específicas e mediante licença dos oficiais do concelho; e,
muitas vezes, só em condições muito especiais era facultada a sua
saída.
Na Madeira nso séculos XV e XVI, o açúcar galvanizou as
atenções das autoridades madeirenses e régias. Este produto era,
uma componente importante dos réditos da ilha e da coroa e, como
tal, estava sob vigilância constante do senhorio, da coroa do
almoxarifado e da vereação. Segundo Vitorino Magalhães Godinho
"oregime do comércio (do açúcar) vai oscilar entre a liberdade
fortemente restringida pela intervenção quer da coroa quer dos
poderosos grupos capitalistas, de um lado, e o monopólio global,
primeiro, posteriormente um conjunto de monopólios cada qual em
relação com uma escápula de outra banda". Assim, desde 1469 e
até princípios do século XVI, o comércio do açúcar madeirense
fazia-se num apertado circuito sob controle da coroa e de um
reduzido grupo de mercadores estrangeiros.
As tentativas levadas a efeito pelo Infante D. Fernando
para fazer vigorar o contrato de monopólio mereceram a oposição
declarada e firme dos vizinhos do Funchal; sómente conseguiu
vigorar, a partir de 1487, o monopólio régio de exportação deste
produto para o levante, um dos principais mercados do açúcar
madeirense; e, finalmente, em 1498, D. Manuel I, em face da
difícil situação de crise comercial, limita esse comércio,
estabelecendo um máximo de produção e os contingentes para as
diversas escápulas. Esta situação foi revogada em 1503, mas o
comércio deste produto não obteve a necessária liberalização,
pois o escoamento passou a fazer-se sob o regime de contrato
entregue, na sua maioria, a estrangeiros ou seus agentes.
Ao invés, nas Canárias, e mesmo nos Açores, o comércio do
açúcar não suscitou a mesma atenção e intervenção da coroa, pois
que este trato foi daí deixado à iniciativa do grupo de
mercadores nacionais, ou estrangeiros; no caso das Canárias o seu
comércio era quase exclusivo dos mercadores genoveses e
flamengos.
Mais do que o açúcar, o trigo e outros cereais serão o alvo
primordial da intervenção assídua do município. Sendo produtos
básicos da dieta alimentar insular, lógico será admitir que os
vereadores, tendo a seu cargo o regimento da terra, estivessem
preocupados e atentos ao fornecimento do cereal no mercado local.
Numa breve passagem pelas vereações dos séculos XV e XVI
existentes para os três arquipélagos verifica-se que esta questão
atemorizava e preocupava constantemente os oficiais da Câmara
quando se reuniam em vereação duas vezes por semana.
A actuação de cada concelho será feita de acordo com as
pecularidades e a conjuntura específica da área a que
circunscreve. Podemos considerar para os três arquipélagos uma
linha de conduta que, na globalidade, apresenta muitos pontos
comuns. Assim, teremos para a Madeira e Açores a sua inspiração
na administração de Lisboa e, para as Canárias, a transplantação
e adaptação do modelo andaluz. Embora com raíz diferente essa
actuação dos municípios insulares poderá definir-se do seguinte
modo:
- controle da produção e dos circuitos de abastecimento e
conservação de cereal.
- controle/regulamentação/proibição do comércio e
transporte do cereal no mercado interno e externo.
Isto é, toda a acção concelhia é orientada no sentido da
regulamentação e do controle da produção e do comércio do cereal,
por meio dos exames na Madeira e nso Açores e da tazmia ou cala
y cata nas Canárias, das medidas limitativas ou proibitivas da
sua exportação. A sua aplicação variava de concelho para concelho
consoante a prioridade fosse dada à produção ou à importação;
assim nos concelhos de Ponta Delgada, Vila Franca do Campo,
Ribeira Grande, Angra, São Sebastião, do arquipélago dos Açores,
e em Santa Cruz de Tenerife e de La Palma e certamente nos
cabildos de Lanzarote e Fuerteventura, predominam as ordenanças
e posturas regulamentadoras da produção do referido cereal,
assentes no princípio básico de assegurar as necessidades do
consumo local. No Funchal, Las Palmas de Gran Canaria dominam as
ordenações facultativas da importação do precioso grão, quer por
meio da abertura do mercado a todo o que a ele concorresse, que
por meio de medidas aliciadoras (como sejam no Funchal, o
pagamento da descarga, dos sacos e da loja), quer ainda por meio
de medidas proibitivas à sua saída.
A concretização da primeira da referida política definia-se
nos Açores pelo trigo dos exames, isto é, o trigo resultante do
exame da produção e dos stocks de abastecimento dos granéis
concelhios ou particualres, necessário para o fornecimento à
população em momentos de penúria. Segundo o regimento régio de
26 de Junho de 1507 a vereação tinha a incumbência de fazer, no
início do Verão, por altura das colheitas, o orçamento do trigo
necessário ao consumo e à sementeira até à nova colheita,
armazenando-o depois em granéis à sua guarda, de modo a poder
distribui-lo na altura da carência. A partir de 1561 juntar-se-à
um quarto dos valores exportados. Para dar cumprimento a estas
medidas a vereação ordenará que toda a exportação só deveria ser
feita mediante licença sua após vistoria dos granéis a cargo do
oficial dos exames.
Nas Canárias e mais propriamente em Tenerife, encontramos
definida a mesma orientação sob a designação do tazmia ou cala
y cata. O cabildo em momento de penúria, antes de autorizar a
saída do cereal, procedia ao exame dos granéis e ao arrolamento
da população, de modo a avaliar o trigo necessário ao consumo
concelhio e assegurar a reserva satisfatória. Esta prática
derivava das primeiras medidas proibitivas exaradas em finais do
século XV e do correcto dimensionamento da política cerealífera
pelo cabildo em princípios do século XVI. Enquanto no primeiro
período apenas se estipulava a proibição de saída, no segundo,
ao pressentir-se a ineficácia dessa actuação, alarga-se o seu
âmbito. Assim, em 1505, em face da falta de pão, ordena-se a
vistoria às principais casas da ilha para, no ano imediato, se
promulgar a ordenança sobre o pão, onde se definia o modo de
actuar. A partir de então esta prática institucionaliza-se,
tornando-se um hábito corrente na vida municipal.
Não obstante as medidas proibitivas terem maior força de
lei em momentos de maior penúria, o certo é que em anos de
abundância estas apresentavam-se como prejudiciais aos vizinhos
das ilhas produtoras: Tenerife, La Palma e Fuerteventura. Era,
no entanto, a situação dos mercadores, obrigados à troca das suas
mercadorias por trigo. Daí a reivindicação dos moradores do
direito de exportar metade da sua colheita, no que a coroa apenas
concordou com um terço. Mesmo assim o cabildo passou a exercer
um controle rigoroso sobre esta parte, ao definir como
obrigatória a solicitação de licença para exportar e, mesmo,
revogando essa regalia em momentos de penúria, como sucedeu em
1522.
A cabildo de Tenerife perante a contingência da conjuntura
de crise e do movimento demográfico conclui que os dois terços
não são suficientes para o sustento da população, pelo que
ordena, a partir de Julho de 1522, que de todo o trigo a exportar
deveria ficar uma reserva de dez por cento às ordens da Câmara,
a fim de ocorrer aos momentos de falta. De modo a controlar-se
o cumprimento desta ordenação regulamentara-se a obrigatoriedade
do registo do cereal a exportar e a solicitação da respectiva
licença ao cabildo, ao mesmo tempo que se estabeleciam guardas
de vigia nos portos.
Quer em S. Miguel, quer em Tenerife, os produtores e
mercadores, entre os quais se colocavam o capitão donatário, o
senhorio e alguns funcionários concelhios e régios, usavam de
todos os subterfúgios para fazer sair o seu trigo, agravando
deste modo a situação de penúria cerealífera.
No mercado consumidor carente toda a política cerealífera
incidia a dois níveis no seu comércio: primeiro procurnado
assegurar o normal abastecimento de trigo, por meio de incentivos
à sua introdução; depois através do controle dos circuitos de
fornecimento de mercado local, evitando a sua saída, sob a forma
de grão ou de biscoito. Ao nível da Madeira define-se a actuação
da vereação funchalense; primeiro, com o estabelecimento de
contratos copm alguns mercadores para meterem anualmente o trigo
necessário ao provimento dela, pagando-se a descarga, do sacos
e a loja; depois, com a abertura total do mercado à sua
introdução, por meio da isenção da dízima de entrada. Caso
estas medidas não fossem suficientes, então a vereação punha em
prática o seu plano de emergência, que consistia na actuação
junto dos mercadores e mestres de navios, obrigando-os a
descarregar o trigo que conduziam ao reino ou às Canárias, ou
então forçando-os a irem buscar o trigo aos Açores ou outras
partes. A esta orientação aliavam-se as ordenações régias de
1508 a 1521, que tornavam obrigatória a rota do fornecimento de
trigo açoriano ao mercado madeirense.
Assegurados os circuitos de abastecimento do mercado
funchalense, tornava-se necessário controlar e regulamentar os
circuitos internos de distribuição e venda, de modo a evitar-se
o açambarcamento e a especulação. Neste caso a vereação actuava
com medidas drásticas, quer por meio do exame das lojas pelos
amotacéis, quer lançando pesadas multas aos infractores. Ao
mesmo tempo, desde 1496 proibira-se a saída deste cereal, até
mesmo para o fornecimento de naus que escalavam a ilha pois,
segundo se dizia, estas deveriam vir devidamente providas de
Lisboa.
Idântica situação encontra-se definida no arquipélago
canário nas ilhas da Gran Canaria, La Gomera, onde estava
regulamentada a proibição de saída, e medidas de apoio aos
circuitos e rotas abastecedoras com origem em Lanzarote, Tenerife
ou Fuerteventura. A ilha de Gran Canaria tinha em Tenerife o
celeiro de abastecimento anual, mas tal como sucedia na Madeira
em relação aos Açores, esse provimento despoletou vários litígios
entre as duas ilhas no período de 1531-1603, devido à segunda se
negar a esse fornecimento; pelo que respeita a La Gomera, o
trato foi assegurado por cédula de 1521.
Se é certo que as medidas atrás enunciadas atestam o
interesse do concelho em assegurar o normal funcionamento dos
circuitos de abastecimento de modo a evitar-se qualquer situação
de penúria ou de fome, também é verdade que as mesmas
documentam, de modo evidente, a premência da crise, resultante
do esgotamento do solo e, acima de tudo, do aumento da população
insular. Assim, ao nível das áreas produtoras, as medidas
regulamentadoras do comércio do cereal surgem com maior acuidade,
apontando para uma nitída tendência da sua proibição.Tal como
sucede nos Açores, desde a década de 30 do século XVII e, em
Tenerife, a partir de 1564-65, evidenciando-se nesta última a
partir de princípios do século XVII. Deste modo se as crises de
1502, 1506, 1521 e 1546 surgem como fenómenos isolados,
articulando-se com as más colheitas, ocasionadas por factores
sazonais, o mesmo já não se poderá dizer em 1574, 1604, 1616,
1625, em que se nota uma marca evidente da crise estrutural, cujo
agravamento se salienta de modo periódico em ciclos decenais.
esta situação da economia cerealífera da Canárias repercutir-se-á
de modo evidente no mercado madeirense, que tinha nesse
arquipélago uma fonte importante de abastecimento, em 1589 e
1596.
TÉCNICAS
A NAVEGAÇÃO
A navegação no mundo insular deriva não só de factores
implícitos ao próprio meio geográfico, mas de igual modo da
premência de vectores e solicitações externas, resultantes do
posicionamento desta área no mercado colonial e do estádio de
desenvolvimento dos meios e técnicas de navegação. Os acidentes
mesológicos serão perfeitamente ultrapassáveis mediante o avanço
da tecnologia naval.
Sendo esta vasta área insular dominada pelo oceano
Atlântico, seria inevitável que a vivência ribeirinha incidisse
fortemente no ilhéu e, ao mesmo tempo se verificasse um domínio
das vias de comunicação marítimas, inclusive contactos internos.
O mar será assim o elo de ligaçaõ e separação. O ilhéu viverá
sobre o fascínio desta enorme massa de água.
VIAS DE COMUNICAÇÃO E MEIOS DE TRANSPORTE
As vias de comunicação e os meios de transporte são
factores determinantes do desenvolvimento sócio-económico de uma
dada região; tais factores são, de certo modo, os aferidores do
estádio da sua evolução. É, por outro lado, evidente a
interconexão entre eles e as actividades económicas, pois o valor
mercantil implica a existência de meios e circuitos adequados
para o seu escoamento; além disso, a facilidade de contacto ou
de transporte poderá condicionar de modo positivo o nível e
desenvolvimento da economia de áreas determinadas. A este
propósito é muito esclarecedora a análise comparativa que Gaspar
Frutuoso faz das ilhas açorianas e das Canárias: "A ilha de
Tenerife dizem que foi a quarta conquistada e é logo a segunda
ilha depois de Gran Canaria, principal de todas as outras, ainda
que a Palma o seja nas armadas e navegações, como, entre estas
ilhas dos Açores, a mais rica e principal é esta ilha de S.
Miguel, pois ela rende só mais que todas as outras juntas, mas
a ilha Terceira, além de ser mais principal por ser a cabeça do
bispado, o é também por a razão das escalas, armadas e navegações
que ali vão ter em diversos tempos".
Para o mundo insular o mar é o elo de ligação e meio de
comunicação mais importante. No caso do Mediterrâneo Atlântico
esta permissa torna-se mais clara em virtude da descontinuidade
e heterogeneidade do solo e da costa. Num parco espaço terrestre
disseminado por dezoito ilhas com um solo acidentado e uma costa
alta e escarpada, não é dificil de compreender a dificuldade que
aí se depararam nas comunicações internas e externas. Elias
Serra Rafols, a propósito desta realidade, enuncia de modo
esclarecedor: "Para compreender esta vida insular, hay que tener
siempre presente esto: que se trata de islas (...) todo tiene que
venir de fuera o ha de salir pera fora. El camino del mar lo es
todo, vida material espiritual, riqueza y saber; en el tiene todo
su origen y su fin".
Sendo certa a importância primordial do oceano Atlântico
nas comunicações insulares e deste com o litoral afro-esuropeu-
americano, não menos o serão em termos restritos das vias de
comunicação terrestres, pois é por seu intermédio que se escoam
os produtos para os mercados ou postos do litoral, a partir dos
quais entram nos circuitos comerciais locais e internacionais.
Não obstante o interesse das autoridades municipais na abertura
e preservação dos caminhos, nota-se em todo o mundo insular a
insuficiência de vias de comunicação terrestre e a ineficácia das
referidas ordenações.
A importância das comunicações por terra no espaço insular
relaciona-se com a formação orográfica de cada ilha. Assim,
enquanto na Madeira elas são relativizadas, em S. Miguel,
Terceira, Tenerife e Gran Canaria apresentar-se-ão como
fundamentais para a economia local. Na Madeira os meios e vias
de comunicação terrestres apenas ganham importância a partir de
finais do século XVIII, sendo assim relativa a actuação dos
carreteiros, dos boieiros e, mesmo, de bestas de carga na vida
local. Toda a economia madeirense é dominada pelo mar e define-se
pela litoralidade da sua implantação sócio-geográfica.
O mesmo não sucede nas ilhas de Gran Canaria e Tenerife,
onde há a preocupação de traçar uma rede viária que ligue os
canaviais aos engenhos e estes aos portos de cabotagem ou de
exportação. Assim, deparamo-nos nestas ilhas com uma elevada
valorização dos agentes de transporte, sendo numeroso o grupo de
carreteiros, de almocreves, de cameleiros, bem como de bestas de
carga. Estas profissões e actividades merecem uma regulamentação
constante por parte dos cabildos. Pelas mesmas razões é elevado
o número de reclamações dos carregadores da ilha de S. Miguel
pela abertura e pela reparação de caminhos. Aliás estes eram
um importante meio de contacto entre o principal porto de
comércio com o exterior - Ponta Delgada - e as áreas produtoras
de pastel e trigo. Os contactos com a Ribeira grande faziam-se
por via terrestre e eram assíduos. havendo para o efeito um
numeroso grupo de carreiros.
A insuficiência das comunicações terrestres evidencia a
importância de actuação das vias marítimas materializadas numa
teia complicada de rotas de cabotagem. A sua preferência é muitas
vezes relativizada em face dos acidentes e adversidades da costa
e do mar, pois os ventos e as correntes marítimas dificultam a
sua utilização. A Madeira, devido aos condiconalismos de ordem
geográfica e climática, apresentava reduzidas possibilidades para
o desenvolvimento das vias e meios de comunicação terrestres e
marítimas. Esta condição limitou as possibilidades de
desenvolvimento económico, fazendo restringir essa actuação à
faixa litoral sul entre Machico e a Calheta, espaço recheado de
enseadas e calhetas para o necessário movimento de cabotagem.
Assim surgem portos em Machico, Santa Cruz, Funchal, Ribeira
Brava, Ponta de Sol e Calheta. O transporte da produção de
açúcar da Calheta do ano de 1509 para o Funchal fez-se por
barqueiros, em conjunto ou individualmente; executava-se ao longo
de todo o ano, mas habitualmente no período da safra e de maior
exportação, entre Março e Julho.
Até 1508 todo o movimento de contactos com o exterior era
feito a partir do Funchal. Daí que existisse um contínuo
movimento de cabotagem, entre este porto e os restantes da ilha,
para o escoamento do açúcar. A partir de então, ao ser
permitida a carga e descarga para a exportação do açúcar,
contribuiu-se para a valorização dos portos das partes do fundo
em detrimento do Funchal. Esta situação manteve-se por pouco
tempo, pois no ano imediato a medida foi revogada.
O porto do Funchal surge no dealbar do século XVI como o
principal entreposto madeirense do comércio atlântico. A zona
ribeirinha do burgo funchalense, em redor da alfândega nova, era
o principal pólo de animação. Aí convergiam mercadores,
carreteiros, barqueiros, mareantes e curiosos.No calhau havia-se
instalado em 1488 o cabrestante, cuja exploração foi concedida
em regime de monopólio a João Fernandes Mauzinho, com o foro
anual de cem reais. Desde 1568 a sua exploração seria entregue
a uma sociedade, passando em finais do século a ser explorado por
diversos mareantes que aí construíram um número variado de
cabrestantes.
O município aforava não só a instalação do cabrestante, mas
também as casas e os chãos necessários para a actividade desses
mareantes e barqueiros. O foro de um cabrestante variava entre
duzentos a trezentos reais, enquanto o de um chão ou casa se
cifrava em trezentos reais.
O arquipélago açoriano,compartimentado por novas ilhas,
define-se por diversas assimetrias, evidenciadas pelo relevo,
pela estrutura e pelo clima, que conduziram a um desenvolvimento
sócio-económico desarticulado e variado. A diversidade bem como
a complementaridade da estrutura sócio-económica açoriana
conduziram à definição de uma rede complicada de rotas de
cabotagem nas ilhas e entre elas. Deste modo as comunicações
marítimas serão de uma importância primordial na sua economia.
Aliás, o próprio arrumar das culturas nas ilhas foi comandado por
esta importante via de comunicação.
O desenvolvimento das infraestruturas portuárias do
arquipélago fez-se de acordo com a importância das ilhas na
economia insular e atlântica. Por estas razões vemos desenvolver-
se no século XVI dois portos importantes: Ponta Delgada e Angra,
o primeiro para servir o comércio do pastel e dos cereais de S.
Miguel e o segundo para o apoio à navegação atlântica. Além
disso, em ambos existe uma clara intervenção nos circuitos de
redistribuição e escoamento do mercado açoriano.
Tal como na Madeira, No arquipélago das Canárias o
movimento de cabotagem está dificultado pelas condições geo-
climáticas da área; não obstante este meio era preferido ao
terrestre, pois o transporte de produtos dentro das diversas
ilhas fazia-se habitualmente por mar; por isso o cabildo de Gran
Canaria e Tenerife apostavam mais na construção e reparo dos
portos locais de cabotagem do que nos caminhos de penetração.
Lobo Cabrera refere que o mundo do mar galvanizou os
canários e que essa navegação marítima surgiu e se alicerçou nas
pescarias, no comércio de cabotagem e de longa distância. O
mesmo autor define ao nível das infraestruturas portuárias dois
tipos de portos, de acordo com o seu vocacionamento: portos de
destino e de despacho; aliás, adquiriram variadas designações,
de acordo com a dominância de determinados sectores de actividade
e das áreas geográficas com que se relacionavam.
A existência desta variedade de portos nas Canárias não
implica uma acção descentralizadora dos circuitos comerciais,
pois tanto em Tenerife,como em Gran Canaria surge um porto que
se afirma com entreposto ou área charneira para onde convergem
as rotas de cabotagem e donde divergem os circuitos dos
principais produtos, como o açúcar e cereais. Assim em Gran
Canaria o Puerto de Las Isletas e de la Luz, em Tenerife o Puerto
de Santa Cruz e Garachico. Nos registos de fretamento do
séculoXVI (1507-1551), já publicados, esta situação surge com
certa evidência: No global temos 64% com origem em Santa Cruz e
26% em Las Isletas, sendo apenas 10% dos restantes portos de Gran
Canaria e Tenerife.
A partir dos principais portos processa-se todo o movimento
comercial da ilha, pois os portos secundários apenas surgem como
escalas intermédias para se proceder à carga; elas aparecem em
33% dos fretamentos em causa, circunscrevendo-se aos portos de
Taganana, Sardina, Agaete, Garachico, Abona, La Orotava e Taoro.
Por vezes as embarcações de cereal ou de açúcar para
exportação faziam o circuito de cabotagem para carregarem o
produto, voltando depois aos portos de Las Isletas ou Santa Cruz
donde seguiam o rumo definido. Em Tenerife, das quarenta e sete
embarcações saídas de Santa Cruz, entre 1507 e 1520, seis fizeram
esta escala nos portos de Taoro, Abona, Garachico e Taganana. Em
Gran Canaria apenas se verifica a escala na rota nos portos de
Agaete e La Orotava, mas sem o retorno ao ponto de partida. De
um modo geral nessa ilha as referidas embarcações não fazem
qualquer escala de carga, pois ao Porto de Las Isletas vinham
parar todos ou quase todos os quantitativos de açúcar de
exportação.
Nas restantes ilhas do arquipélago os portos existentes
serviam apenas o movimento de cabotagem, fazendo escoar os seus
produtos para os principais centros de comércio em Las Palmas e
Santa Cruz. Apenas as ilhas de La Palma e Gomera contrariam esta
tendência, mercê da sua actuação como portos de escala para as
naus das rotas atlânticas.
A CONSTRUÇÃO NAVAL
Sendo o mar o meio de comunicação mais usual e importante
da comunidade insular, teremos de admitir que a construção naval
tenha aí adquirido grande relevo; ela surge não apenas com a
finalidade de assegurar o fornecimento de embarcações de
cabotagem, mas também para dar apoio à navegação atlântica, no
reparo das embarcações fustigadas pelos acidentes ou pelas
tempestades oceânicas.
Os estaleiros de construção e reparação naval proliferavam
nas principais ilhas do meio insular, sendo esta actividade
transformadora regulamentada e apoiada pelas autoridades locais
e centrais, que, por exemplo, asseguravam as licenças necessárias
para o corte das madeiras e definiam as dimensões e capacidade
das embarcações a construir.
As madeiras da ilha da Madeira foram muito apreciadas no
século XV na cosntrução naval, no reino e na ilha. O seu uso
imoderado nestas e noutras actividades cinduziu à paulatina
desarborização da ilha, pelo que as autoridades concelhias
actuaram no sentido da defesa do parque florestal madeirense,
restringindo o uso das madeiras a sectores essenciais da vida
local. Deste modo proibiu-se a exportação de tabuado e limitou-se
a construção naval à construção de caravelões a barcas "pera
serviço e maneo das cousas e negocios da ylha...". Em 1515
especificava-se que a madeira apenas deveria satisfazer as
necessidades da pesca do carreto, sendo interdita a sua venda
para fora. Por esta razão em 1541 é incriminado André Lourenço,
mestre de moinhos de açúcar em Santa Cruz, por ter construído uma
embarcação de maiores dimensões do que as permitidas no
regimento.
Os estaleiros de reparação e construção naval da Madeira
situar-se-iam no Funchal, principal porto da ilha e em Machico
sede da capitania do norte, onde as madeiras eram abundantes.
Nos Açores promovera-se, desde o início da sua ocupação,
a construção naval. Esta actividade ganhou importância nos
séculos XV e XVI nomeadamente nas ilhas de S. Miguel e Terceira.
Gaspar Frutuoso na sua crónica das ilhas refere-nos a existência
de vários estaleiros de construção naval em S. Miguel: Fenais da
Luz, Porto Formoso, Lagoa, Porto dos Bateis, Ponta Delgada e
Povoação. Para a Terceira alude apenas aos estaleiros de Porto
de Pipas e Prainha, dizendo que na cidade de Angra eram cinquenta
os carpinteiros de ribeira.
Este numeroso grupo de estaleiros, apenas nas duas ilhas,
atesta a importância que esta actividade assumiu nos Açores no
século XVI. No entanto as dificuldades no fornecimento de
madeiras conduziram à sua delimitação em 1594, altura em que se
restringiu a sua construção apenas a embarcações até 40 toneladas
e, ao mesmo tempo, se interditava a sua venda para fora.
Nas Canárias a construção naval teve idêntico relevo nas
actividades transformadoras. A riqueza de madeiras e as
necessidades da navegação de cabotagem e das rotas atlânticas
fortaleceram esta arte. Mas num segundo momento as dificuldades
no abastecimento de madeiras e pez, em consonância com os
problemas de desarborização, conduziram à sua limitação. Os
cabildos de Tenerife e Gran Canária passam a controlar o corte
de madeiras mediante a passagem de licenças.
As limitações impostas à construção naval nesta ilha
conduziram à aquisição de embarcações nos estaleiros navais da
Península. Assim, no caso das Canárias, mais própriamente em
Tenerife, há notícia da compra de vinte e sete embarcações, na
sua maioria a Portugal. O preço destas variava de acordo com o
tipo, a tonelagem e a capacidade da embarcação.
O FRETE
O contrato de frete, lavrado junto do notário sob a forma
de carta de fretamento ou conhecimento, defenia as formalidades
do contrato, a capacidade e o volume da mercadoria a carregar,
os portos de destino e de escala. O tempo de demora e a forma e
o local de pagamento. O seu preço era estabelecido de duas
formas: no global ou de acordo com a tonelada, pipa, caixa ou
carga. Variava de acordo com uma diversidade de factores:
finalidade e destino da viagem, tonelagem da embarcação e a carga
a transportar; juntavam-se-lhes variações sazonais e anuais. O
pagamento fazia-se à altura do embarque na moeda da terra, ou no
porto de destino.
Nas Canárias os contratos de frete, com o objectivo de
resgate e comércio na costa ocidental africana adquiriram outra
forma. Assim, a embarcação era fretada na totalidade por períodos
de um mês, ficando o fretor sujeito ao pagamento das averias, da
soldada e do mantimento da tripulação. O frete variava entre os
cinco mil setecentos e sessenta e os trinta e cinco mil trezentos
e setenta maravedis.
Ao nível de movimento de cabotagem o custo do transporte
dos produtos variava de acordo com a distância, a mercadoria e
o período do ano em que se assentava. Na Madeira, em 1503, o
frete de um batel para ir aos lugares de baixo (Calheta-Ponta de
Sol-Ribeira Brava) orçava os trezentos e cinquenta reais,
passando em 1516 para quatrocentos reais. E em 1505 o
transporte de passageiros entre a Ribeira Brava ou Calheta orçava
os cento e cinquenta reais cada. O aumento significativo do
seu custo só se fazia sentir nas ligações com a costa norte,
mercê da demora e das dificuldades do percurso. Em 1517, por
exemplo, o transporte de um mastro de barbusano ao Funchal ficou
por dois mil e quinhentos reais.
Saliente-se que os trezentos reais que em 1505 davam para
uma viagem do Funchal à Calheta, em 1591 apenas dão para despesas
de transbordo no calhau do porto do Funchal. Esse percurso ficará
então por cinco vezes mais.
As relações entre os três arquipélagos eram assíduas, mercê
dos contactos estabelecidos para o transporte de produtos e
passageiros. Entre as Canárias e a Madeira mantem-se uma rota de
fornecimento de pez e trigo. Os custos de transporte de pez
variavam entre quinhentos e setecentos maravedis a tonelada e do
trigo entre trinta e três e quarenta e cinco maravedis o quintal.
No global o frete do navio oscilava entre os doze mil e os
dezassete mil e quinhentos maravedis. Note-se que em 1511 se
mantinha o mesmo preço por tonelada de cevada a exportar para o
Funchal e Faial. O trigo açoriano com destino ao Funchal era
onerado entre mil e mil e seiscentos e cinquenta reais por
tonelada.
Nos contactos com o exterior o preço do frete variava de
acordo com o porto de destino e o número de escalas intermédias.
Assim, da Madeira e dos Açores ao reino o frete custava em 1591
setenta mil reais. Das Canárias para o mesmo destino ele podia
oscilar, em 1520-1521, entre os quatrocentos e sessenta maravedis
por tonelada para Lisboa e Setúbal e os quinhentos para
Aveiro. De Tenerife para Castela, em 1510-1511, o frete
variava entre os seiscentos e cinquenta maravedis para Galiza e
os quinhentos e cinquenta e quatro para Cádiz. O açúcar
transportado desde Las Isletas até Cádiz era contabilizado a
quatro reais de prata em 1511, e seis e meio em 1572, à caixa.
Para Génova ficava em um ducado de ouro a caixa (em 1519),
chegando a atingir em 1531 a quantia de quinze reais de prata.
Para Anvers o seu preço cifrava-se, em 1533-1534, em cinco
ducados ouro.
MEIOS DE PAGAMENTO
A moeda e os usuais meios de pagamento são um factor
importante e activador do movimento de troca. Aliás o progresso
da actividade comercial depende, em última instância, de situação
monetária e das condições de crédito. No caso concreto das ilhas
atlânticas, onde se afirmará uma economia colonial, o instrumento
de troca de uma acção primordial na estrutura económica insular.
A moeda e seus substitutos são necessários para a compra
de manufacturas de importação e aquisiçaõ dos bens essenciais de
que a sociedade insular carece, pois os produtos dominantes não
perfazem nem contrabalançam essa entrada. A situação monetária
das ilhas não se apresentava diferente, pois que em todas é
dominante a falta do metal amoedável e da sua circulação. Esta
é, assim, a característica dominante da sociedade insular, que
condiciona de modo vincado as operações financeiras e contribui
para o entorpecimento das relações de troca.
Esta falta crónica de moeda tornou necessária a criação de
novas formas de pagamento e condicionou o aparecimento de novos
instrumentos de troca. Assim, ter-se-ia generalizado nestas ilhas
o pagamento em géneros, a troca produto a produto e, em circuitos
mais amplos, o crédito, a letra de câmbio e o trespasse de
dívidas.
Como medida padrão do sistema de troca produto a produto
vigora em cada área e em cada época o produto ou produtos
dominantes e mais importantes em termos sócio-económicos. Este
câmbio-vertical da moeda apresentava-se muito prejudicial aos
insulares, uma vez que os mercadores nacionais e estrangeiros,
que detinham o controle dos circuitos de importação, apresentavam
os seus produtos a um preço mais favorável em relação aos
produtos de troca locais: pastel, trigo e açúcar.A dominância
desta tendência monocultural e a dependência dela decorrente em
relação ao mercado externo contribuiram para o reforço da posição
estrangeira, o aumento especulativo dos produtos e das suas
transacções, e o agravar da situação financeira.
A moeda corrente nas ilhas era a mesma do mercado hispânico
continental. As coroas de Portugal e Castela mantiveram sempre
como privilégio seu a cunhagem da moeda. Esta situação não
invalida a existência de cunhagens especiais com destino às
ilhas, bem como a circulação uniforme de moeda portuguesa e
castelhana nos três arquipélagos. A primeira situação surge
apenas nas Canárias em 1511 e 1513 com a cunhagem da moeda em
Sevilha; a segunda aparece desde os primórdios destas sociedades
como resultado das interconexões sócio-políticas e económicas dos
três arquipélagos. A moeda de prata castelhana , porque se
apresentava como a moeda forte, alastrará a todo o mundo
atlântico, dominando todas as relações de troca; circulou com
abundância no mercado madeirense desde princípios do século
XVI. As autoridades locais tendo em atenção essa situação
regulamentaram desde meados do século o seu valor corrente, que
passará a ser trinta e seis reais. Nas Canárias, ao invés,
circulavam os ceutis portugueses, que invadiam o mercado
financeiro canário em face da valorização da moeda de ouro e
prata espanhola; as transações do mercado interno implicavam a
existência de uma moeda e o ceutil português era a mais indicada.
As questões e soluções adequadas para o sistema financeiro
insular não eram uniformes; pelo contrário, entre as ilhas
portuguesas e espanholas apresentavam-se assimetrias. Assim,
enquanto nas Canárias se procedia à valorização da moeda (1500-
1509, 1521), como forma de assegurar a estabilidade do mercado
financeiro, na Madeira e nos Açores, mercê da política financeira
portuguesa, actuava-se no sentido inverso, com consecutivas
desvalorizações.
A incidência da questão financeira no mercado insular foi
igualmente preocupação dos munícipios, que intervinham no sentido
de assegurar a estabilidade do mercado monetário local,
procurando colmatar os problemas derivados da urgente falta de
moeda. Em Tenerife, desde finais do século XV, o respectivo
cabildo, definiu a sua política financeira, que assentava nas
seguintes directrizes:
- aumento da produção da riqueza local por meio do
incentivo à produção com valor mercantil,
- incentivo à fixação de artesãos como forma de
contrabalançar o movimento de troca com o exterior,
considerado a principal causa de sangria monetária,
- dinamização e institucionalização do sistema de trocas
por produtos (cereais, açúcar) de acordo com um
tabelamento de preços pré-estabelecidos nas posturas e
acórdãos,
- obrigatoriedade dos mercadores efectuarem os seus
pagamentos em moeda e de arrecadarem as dívidas locais
em produtos, de acordo com o preço estabelecido,
- probição de saída da moeda.
Em finais do século XV e princípios do século XVI o cabildo
ordena que os cereais e o gado sejam considerados como moeda de
troca, tendo os mercadores de os aceitar a troco dos seus
produtos. A valorização sócio-económica do açúcar obrigou a
uma nova reformulação do sistema de trocas, passando este produto
a actuar como medida, a partir de 1508. Nesse sentido poderá
considerar-se que os cereais e o açúcar se mantiveram por todo
o século XVI como os principais produtos e instrumentos de
troca. Na Madeira e nos Açores a situação financeira é
idêntica e, de igual modo, os produtos dominantes terão uma acção
fundamental na organização do sistema de troca, Os cereais, o
pastel, o açúcar e o vinho surgirão em cada época como uma moeda
de troca.
Na Madeira , a dominância de cultura da cana sacarina
até a primeira metade do século XVI, fará com que o açúcar seja
utilizado como meio de pagamento no mercado local e
internacional; o açúcar era usado não só no pagamento de soldadas
e dos serviços de lavra e safra açucareira, mas também para pagar
o trigo e cevada importados dos Açores. A coroa, por vezes,
servia-se dos seus réditos para fazer os pagamentos, em pimenta
da casa da Índia, das despesas da coroa e das encomendas.
O lavrador e o proprietário do engenho serviam-se
usualmente do produto da sua safra para o pagamento da mão de
obra assalariada de que necessitavam. Entre 1509 e 1537 há
referência a diversos pagamentos em açúcar por serviços prestados
na lavoura e na laboração do engenho e, mesmo, na compra de
qualquer manufactura ou prestação de serviço artesanal.
Os pagamentos aos serviços da safra do açúcara tingem 31%,
sendo 17% no cultivo e apanha de cana e o restante nos serviços,
sendo dominados pelos sapateiros (28%) e ferreiros (25%).
As obrigações de pagamento do trigo açoriano com açúcar
surgem apenas entre 1509 e 1519. No global temos 43% em moeda e
57% em açúcar. Neste curto período de dez anos movimentaram-se
946,5 arrobas de açúcar em troca de 235,5 moios de trigo, o que
dá em média quatro arrobas de açúcar por moio de trigo, avaliado
em cerca de mil reis.
Esta característica da economia e das finanças das ilhas
não era a mais conveniente para o desenvolvimento do comércio
externo do mercado insular; para além de entorpecer os circuitos
de troca e de prejudicar os habitantes das ilhas e os
estrangeiros, conduziu à paulatina subordinação da economia ao
mercado europeu que aí surgia em condições vantajosas com as suas
manufacturas. O ilhéu, não dispondo destas e perante a penúria
da moeda, via-se obrigado a recorrer à venda antecipada e às
hipotecas ou empréstimos. Desta forma os mercadores adquiriam as
manufacturas a preços elevados e sujeitavam-se a entregar os
cereais e o açúcar a preços inferiores.
Perante tal exorbitância dos mercadores estrangeiros, os
municípios actuaram no sentido de regularizar a situação,
traçando normas de conduta mais convenientes. Primeiro
estabeleceram o preço porque deviam ser vendidos os produtos,
depois coibiram os mercadores de tais práticas fraudulentas.
As dificuldades do sistema monetário não implicaram apenas
os recursos à troca produto a produto, mas de igual modo a
procura de outras formas de pagamento substitutivas da moeda,
então em voga na Europa: a carta ou letra de Câmbio e o trespasse
de dívidas em dinheiro ou produtos.
Segundo Enrique Otte, Las Palmas surge no século XVI como
uma importante praça bancária, situando-se ao nível das de Medina
del Campo e Valência. Os genoveses detinham aí a maior parte
do movimento de cédulas.
Na Madeira, como nos Açores, a letra de câmbio teve igual
importância nas transacções comerciais com o exterior. Este meio
de pagamento activou o trato do açúcar, sendo usual nas trocas
com o reino, nomeadamente Lisboa. A existência de uma
importante comunidade de italianos e de flamengos, ligados ao
comércio do açúcar com as principais praças europeias, contribuiu
para a generalização desta forma de pagamento. Os florentinos
experientes nas transacções financeiras, surgiram também com
grande vidência, sendo particularmente importante a acção de
Feducho Lamoroto e de Francisco Lape.
COMPANHIAS E SOCIEDADES COMERCIAIS
A empresa comercial no atlântico, pelo investimento do
capital que implicava, pelas dificuldades e longas viagens entre
as principais praças, pelo risco constante a que sujeitava homens
e haveres, não poderia ser uma iniciativa isolada dos
interessados. Apenas com uma redistribuição equitativa de capital
investido, perdas e lucros, se torna possível a manutensão desta
rede de negócios. Assim, especializam-se as tarefas e surgem os
tratantes, os transportistas, os seguradores e o societário. Ao
mesmo tempo adaptaram-se a este movimento as estruturas que
fundamentam o comércio mediterrâneo-europeu. Surgem, Assim, as
sociedades comerciais, os contratos de frete e o sistema de
seguros, a dar cobertura a essa aspiração de segurança,
estabilidade e expansão da burguesia comercial e marítima
europeia.
A sua divulgação e institucionalização ficaram a dever-se
aos mercadores italianos e alemães que chegavam às ilhas atraídos
pelo comércio do açúcar, do pastel e da urzela. Já instalados nas
praças de Lisboa, Sevilha e Cádiz, alargavam a sua acção às
principais cidades portuárias insulares: Funchal, Ponta Delgada,
Angra, Las Palmas, Santa Cruz (Tenerife) e Garachico.
Subestabeleciam as tarefas a desempenhar em familiares ou
concidadãos com o estatuto de societários, de agentes ou de
procuradores. Os Welsers, por exemplo, tinham um feitor em Lisboa
(Lucas Rem) e vários agentes subestabelecidos no Funchal e em La
Palma.
A forma mais divulgada de associação e de alargamento da
rede de negócios foi a companhia ou sociedade comercial, nas suas
diversas modalidades. Estas definiam-se, de um modo geral, pelo
seu caracter familiar, pela eventualidade da sua acção e por uma
composição variada de intervenientes, que investiam o seu capital
ou o seu trabalho.
Geralmente são empresas familiares, servindo-se os seus
componentes dos laços de parentesco para assegurar a permanência
da sua acção, a solidariedade e comunhão de interesses. Quando
tal se tornava impossível recorria-se aos compatrícios
avizinhados nas principais praças. Esta última forma surgiu com
assiduidade na Madeira.
Não obstante as companhias familiares terem à partida uma
tendência perdurável, de modo geral a associação de mercadores
assume um carácter temporário ou eventual. Todas as companhias
são formadas por um período determinado, e surgem com frequência
nas transacções comerciais entre as Canárias a Andaluzia e as
Índias: na Madeira assumem a mesma condição definidas para a
compra do açúcar das escápulas, dos direitos reais e também para
o arrendamento desses direitos por períodos determinados.
O relacionamento dos intervenientes nestas sociedades
fazia-se de acordo com o investimento na empresa: capital e
trabalho. Quando um dos societários apenas intervém com o seu
trabalho poderá ser definido como agente ou feitor. Por vezes
esses laços são de menor dimensão surgindo assim o procurador
que, mediante documento notarial, actua sobre a fazenda do seu
parceiro no mercado local, cobrando por isso uma determinada
percentagem. Ambas as situações aparecem com grande evidência na
praça funchalense, enquanto nas Canárias se afirma com muita
acuidade a segunda.
A rede de negócios funchalense, em torno do trato do
açúcar, foi criada e incentivada pelo mercador estrangeiro,
alemão ou italiano, que aí aportou depois da reconfortante e
vantajosa escala em Lisboa; ele dominou as principais sociedades
intervenientes no comércio açucareiro, não obstante ter morada
fixa em Lisboa, Flandres ou Génova; o seu domínio atingiu não só
as sociedades criadas no exterior com intervenção na ilha, mas
também o grupo de agentes ou feitores e procuradores
subestabelecidos no Funchal. A escolha destes é criteriosa;
primeiro os familiares, depois os compatrícios enraízados na
sociedade e, só depois, os madeirenses ou nacionais.
As principais casas intervenientes no trato açucareiro
madeirense sob esta forma, podem ser definidas de acordo com o
número de representantes, salientando-se entre eles Baptista
Morelli, B. Marchioni, Welser, Claaes, Charles Correa, pero de
Ayala e Pero de Mimença.
Os Welsers e Claaes intervêm na praça do Funchal por
intermédio de agentes estabelecidos em Lisboa, respectivamente.
Lucas Rem e Erasmo Esquet, que na ilha subestabelecem feitores.
O primeiro tinha como seus interlocutores no Funchal, em
princípios do século XVI, João de Augusta, Bono Broxone, Jorge
Emdorfor, Jácome Holsbuck, Leo Ravenspurger e Hans Schonid. Os
produtores e feitores, na sua condição de interlocutores dos
mercados europeus, não se ligam a uma única sociedade, mas
distribuem a sua acção por um grupo numeroso de societários; e
estes, por sua vez, não se prendem apenas a um representante,
pois fazem distribuir os seus poderes por um grupo razoável de
feitores e procuradores. Na primeira situação distingue-se Benoco
Amatori que representava B. Marchionni, B. Morelli, Álvaro
Pimentel e Jerónimo Sernigi, e, na segunda João Francisco
Affaitati que, entre 1500-1529, estava representado por Gabriel
Affaitati, Luca Antonio, Cristóvão Bocollo, Capella e Caeollani,
João Dias, João Gonçalves, Matia Manardi, Mafei Rogell e Lucas
Giraldi.
Fora do âmbito do trato açucareiro formam-se companhias com
objectivos definidos no comércio ou transporte. Assim em 1597
Rodrigo Fernandes Saía de Veloso, mercador, morador no Funchal,
contrata com Afonso Antunes, mercador, morador em Cabo Verde, o
comércio de chacina. Na mesma data surge uma nova sociedade
entre Manuel Vieira Jardim e António Gonçalves d'Araújo, para o
transporte e venda de trigo da ilha do S. Miguel. No sector
dos transportes, área onde o risco era maior, existiam também
companhias, em que intervinham mercadores e mareantes. Em 1597
referencia-se a venda de uma caravela pertença de uma sociedade
composta por António Rodrigues Torzilho, Domingos António e Diogo
Gonçalvez, a uma outra, composta pelos mercadores António Lopes
de Vila real e Manuel Gomes e pelo Mareante Pero Vaz.
O arquipélago açoriano, área privilegiada do comércio
transatlântico, foi igualmente atraído pelas sociedades
europeias, portuguesas ou não, que detinham os seus interesses
nessa área; elas surgem aí, com mais frequência, interessadas nas
riquezas locais ou nas que por aí passavam; estabeleciam
contactos com a burguesia e aristocracia locais, que se lhes
associavam com o estatuto de agente ou procurador.
Na praça de Angra fomos encontrar um mercador inglês,
Thomaz Barnes, associado a um compatrício seu, com interesses em
Canárias. E, em Ponta Delgada, Afonso Annes de Chaves surge
associado, em sistema de parceria, com Afonso Pires, vizinho e
morador no Porto; o primeiro comprometia-se a enviar ao Porto
vinhos, vinagres, castanhas e sardinhas, enquanto este lhe
enviaria couro de cordovão e toalhas de mão.
Nas Canárias as companhias não surgem apenas no sector
conercial, pois esta forma de associação alarga-se também ao
sector produtivo e aos transportes; é de referir em especial, no
sector produtivo, a aquisição em 1513, pelos Welsers, de
importantes canaviais em Tazacorte (La Palma), que depois
trespassaram aos seus agentes, Juan Bissan e Jácome de
Monteverde. Em Gran Canaria são frequentes os contratos de
companhia entre os lavradores de açúcar e os mercadores ou mesmo
entre os primeiros e os canavieiros.
As sociedades comerciais canárias actuam de modo diverso
em três partes distintas - mercado europeu nórdico e
mediterrânico, no litoral africano e no litoral americano. Nas
praças de Las Palmas, Santa Cruz e Garachico formam-se
sociedades, compostas por mercadores locais e forasteiros, com
o objectivo de comerciar nessas três partes. Geralmente chegam
aí a partir de Sevilha e Cadiz, as principais sociedades
europeias que subestabelecem o tratamento dos seus interesses em
feitores ou procuradores.
Em 1518 forma-se em Cádiz uma sociedade para comerciar
entre Castela e Tenerife, sendo composta por dois mercadores
residentes nesta ilha, Huan Pacho e Gaspar Jorba, e outro em
Castela, mas com larga experiência no comércio canário, Lorenzo
Garcia. Quando ela termina, em 1520, dois dos seus
intervenientes, Juan Pacho e Lorenzo Garcia, criam nova sociedade
por quatro anos. O êxito destas iniciativas, bem como a
possibilidade de alargamento da rede de negócios à Flandres e
Berberia, fê-los fundar em 1533 uma nova companhia, conjuntamente
com Lucas del Burgos e Diego Rodrigues.
Com os mesmos objectivos surgiu em 1536 outra companhia,
fundada por três mercadores de Barcelona; pretendiam comerciar
o açúcar das Canárias e escravos, tendo Cádiz como centro de
redistribuição. A estes seguiu-se, em 1574, nova iniciativa de
mercadores de Barcelona com idêntico objectivo.
Nesta trama de relações comerciais entre a Andaluzia e as
Ilhas Canárias dominam acima de tudo, as companhias de
familiares, em que se conjugam os laços de parentesco com os
comerciais. As principais famílias italianas, flamengas e
andaluzas, organizadas ou não em sociedade, subestabeleciam
familiares seus nas principais praças destas ilhas,nomeadamente
em Las Palmas, Garachico e Santa Cruz. Aí encontramos os
Sopranis, Coronas, Veintinigla, etc.
AGENTES
Os agentes poderão considerar-se como elemento fundamental
e activador de todo o sistema de trocas. São eles que executam
as principais tarefas inerentes ao movimento de circulação dos
produtos.
Numa sociedade nascente, a preocupação primordial dos seus
vizinhos assenta na necessidade de assegurar a subsistência. A
criação de excedentes e o recurso aos produtos com valor
mercantil surgem num segundo momento. Só então se fazem sentir
as necessidades decorrentes do sistema de troca, tornando-se
necessário viabilizar e institucionalizar uma estrutura de
mercado adequada às dimensões das permutas internas e externas;
as autoridades régias e locais terão nessa fase uma actuação
importante.
Numa sociedade essencialmente agrícola, em que a maioria
da população se dedica quase em exclusivo à faina do
aproveitamento da terra e a actividades artesanais subsidiárias,
torna-se difícil o recrutamento desses novos agentes económicos.
A juntar-se a tudo isto verifica-se o domínio de uma mentalidade
ruralizada, e insufuciência de meios e de bens disponíveis para
uma actividade de tal índole.
A sociedade insular define-se pelo seu carácter agrário.
A agricultura ocupa a quase totalidade da sua população. O sector
artesanal alia-se, muitas vezes, ao agrário, enquanto o sector
comercial, embora ligado a essa realidade, mantém um certo
distanciamento. O grupo de agentes de transporte e do comércio
fixa a morada no burgo ribeirinho, afirmando-se nesse meio como
um estrato sócio-económico importante e animador do quotidiano
das vilas e cidades. Não obstante, a sua representatividade na
população insular é muito reduzido, isto é 3 a 4%. Na Madeira
essa percentagem atinge os 7%, enquanto nas Canárias não
ultrapassa 3% e ficando-se nos Açores apenas em 0,5%. Estes dados
comprovam o carácter marcadamente rural da sociedade açoriana,
em contraste com uma tendência mercantilizadora das sociedades
madeirense e canária. A posição dominante da Madeira resulta do
desenvolvimento sócio-económica, ao longo do século XVI, em que
se denota a constância e a afirmação do sector mercantil. Aliás,
toda a exploração agrícola, desde meados do século XV, estava
subordinada a este sector. Recolher-se-iam produtos, como o
açúcar e o vinho, cujo fim primordial é o fornecimento do mercado
externo europeu ou o americano e o asiático; daí a forte
implantação dos agentes de transporte e comércio. O mesmo não
sucederá nos Açores, onde predominará uma agricultura de
subsistência, em aliança com uma produção com valor mercantil:
trigo, pastel. As Canárias, por seu turno, debater-se-ão entre
uma exploração de subsistência e outra de mercado, sendo a
actuação das autoridades régias e locais no sentido de manter um
equilibrio adequado entre o cereal eo açúcar.
Esta inadequação ou inapetência do insular para as
actividades que o desliguem da terra, aliada à intensificação das
relações de troca, conduziram a uma solicitação exterior dos
principais agentes de comércio, e mesmo de transporte. A
sociedade insular recebeu nos séculos XV e XVI 29,8% dos seus
agentes do exterior, sendo 12,1% no