O COMÉRCIO INTER-INSULAR NOS SÉCULOS XV E XVI
MADEIRA, AÇORES E CANÁRIAS
ALBERT VIEIRA
REGIÃO AUTÓNOMA DA MADEIRA
CENTRO DE ESTUDOS DE HISTÓRIA DO ATLÂNTICO
1987
TÍTULO: O comércio inter-insular nos séculos XV a XVI. Madeira,
Açores, Canárias
Autor: Alberto Vieira(C)
Edição :
Centro de Estudos de História do Atlântico
Rua dos Ferreiros, 165
9000-Funchal
1ª edição 1987
Colecção Memórias nº.1
Obs.: Aqui apenas se transcreve o texto, sem gráficos e quadros
que o acompanham
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Notícias/Publicações
AS ÁREAS INSULARES A EXPANSÃO E O COMÉRCIO NO
ATLÂNTICO: AS ROTAS DE NAVEGAÇÃO E COMÉRCIO
A valorização do Atlântico nos séculos XV e XVI conduziu
a um intrincado liame de rotas de navegação e de comércio que
ligavam o Velho Continente ao litoral atlântico. Esta
multiplicidade de rotas resultou das complementaridades
económicas e de formas de exploração adoptadas. Se é certo que
esses vectores geraram as referidas rotas, não é menos certo que
as condições mesológicas deste oceano, dominadas pelas correntes,
ventos e tempestades, delinearam o seu rumo. As mais importantes
e duradouras de todas as traçadas neste mar foram sem dúvida a
da Índia e a das Índias, que galvanizaram as atenções dos
monarcas, da população europeia e insular, dos piratas e
corsários.
No traçado de ambas situava-se o Mediterrâneo Atlântico com
uma actuação primordial na manutensão e apoio à navegação
atlântica. As ilhas da Madeira e das Canárias surgem nos séculos
XV e XVI como entreposto para o comércio no litoral africano,
americano e asiático. Os portos principais da ilha da Madeira,
Gran Canaria, La Gomera, Hierro, Tenerife e Lanzarote animam-se
de forma diversa com o apoio a essa navegação e comércio nas
rotas da ida, enquanto nos Açores, com as ilhas de Flores, Corvo,
Terceira, e S. Miguel, surgem como a escala necessária e
fundamental da rota de retorno.
Segundo Pierre Chaunu a rota das Índias de castela assentou
em quatro vértices fundamentais: Sevilha, Canárias, Antilhas,
Açores. Neste traçado, portanto, a Madeira mantinha-se numa
posição excêntrica, pois apenas servia as rotas portuguesas do
Brasil e da costa africana.
As dificuldades do espaço entre as Canárias e Castela,
devido ao golfo de las Yéguas (ou golfo das Éguas) em consonância
com o prolongado percurso até às Antilhas, fizeram das Canárias
uma escala obrigatória e imprescindível para a carreira das
Índias. Aí as naus faziam aguada, procediam aos necessários
reparos e se reabasteciam de lenha e géneros imprescíndiveis para
a longa caminhada de um a dois meses. As ilhas de Tenerife, Gran
Canaria, Hierro, La Gomera, Lanzarote eram favorecidas com essa
escala técnica, pois para além de poderem escoar os seus produtos
no abastecimento das naus, estava facilitada a sua intervenção
no comércio americano.
O arquipélago canário nomeadamente a ilha de Tenerife,
mereceu também a preferência dos navegadores portugueses nas suas
viagens ao Brasil, à costa africana e à Índia. Assim terá
sucedido, por várias vezes, no século XVI sendo de referir em
1530, a escala da armada de Martim Afonso de Sousa em Tenerife
e, em 1563, a viagem do jesuíta Sebastião de Pina.
As ilhas Canárias surgem, pois como uma importante base de
aprovisionamento para as naus portuguesas com destino ao Brasil,
Cabo Verde, Guiné e Angola e, mesmo, como relevantes entrepostos
do comércio ilegal de escravos na costa africana.
Os ingleses serviram-se igualmente das Canárias como o
ponto de apoio para as suas navegações de comércio e corso nas
costas africana e americana. Entre 1524 e 1600 contam-se treze
viagens em que aportaram a este arquipélago, sendo de salientar
a de John Hawkins em 1564 e a de Francis Drake em 1581.
A escala da rota de retorno das principais carreiras
oceânicas passava obrigatoriamente pelos Açores. Este arquipélago
surge, desde princípios do século XVI, como o principal ponto de
apoio para essa navegação, sendo para os espanhóis as "Canárias
de los retornos".
Ambas as escalas são imprescindíveis à navegação e comércio
do atlântico. As dificuldades e delongas da viagem de retorno
implicavam uma paragem retemperadora em pleno oceano, onde fosse
possível reparar os danos das embarcações, fazer o
aprovisionamento de víveres e de água. Por vezes os portos
açoreanos apresentavam-se como o reduto reguro para a protecção
e defesa de qualquer assalto corsário. Tudo isto oferecerá à
praça de Angra, onde a coroa portuguesa centralizou serviços e
infraestruturas de apoio, como a Provedoria das Armas, a partir
de 1527.
Segundo o testemunho de viajantes, na segunda metade do
século XVI a cidade de Angra, mercê de uma forte rede de
fortificações e de bom porto de abrigo, era o principal
entreposto comercial de tráfego oceânico na rota de retorno.
Pompeo Arditi, em 1567, refere que, "à ilha afluem muitos navios
por ser mais comódo à navegação do que qualquer das outras; por
isso nela tocam todos os vindos das Índias orientais e
ocidentais, do Brasil, São Tomé, Mina e Cabo Verde, a abastecer-
se de mantimentos, parecendo que deus põe milagrosamente esta
ilha no meio de tão grande oceano para a salvação dos míseros
navegantes, que muitas vezes lá chegam sem mastros nem velas, ou
sem mantimentos e aí se fornecem de tudo". Vinte anos volvidos
Mosquera de Figueiroa corrobora esse movimento do porto de Angra,
dizendo que "es mucho el comercio com las Índias Orientales y
Ocidentales, por ser escala importantíssima para el refresco y
refugio de sus armadas, por tener en si agua en abundancia muy
delgada e saludable".
A participação madeirense na carreira das Índias foi
esporádica, justificando-se esta ausência pela posição marginal
em relação à sua rota. Todavia a Madeira representa um porto de
escala muito importante para as navegações portuguesas para o
Brasil, Golfo da Guiné e Índia. Desde o século XV que ficou
demarcada essa posição da escala madeirense para as explorações
geográficas e comerciais dos portugueses na costa ocidental
madeirense para as explorações geográficas e comerciais dos
portugueses na costa ocidental africana. Esta opção pela Madeira
adveio dos conflitos latentes com Castela pela posse das
Canárias. A expansão comercial de finais do século XV, com a
abertura da rota do Cabo, veio valorizar mais uma vez esta escala
aquém equador, surgindo inúmeras referências, em roteiros e
relatos de viagens, à escala madeirense. Os mesmos ingleses que
utilizaram as Canárias tocavam com assiduidade a Madeira, onde
se proviam de vinho para a viagem.
A Madeira, como as Canárias muito raramente foi escolhida
como escala de retorno - uma vez que essa missão estava, por
condicionalismos geográficos, reservada aos Açores. Todavia
verificou-se ocasionalmente a escala das embarcações vindas da
Mina Índias e Índias na Madeira. Em 1520 o monarca determinava
o modo de transporte de carga da nau de D. Diogo de Lima,
originário da Índia, para o reino, enquanto em 158 André Soares,
capitão de uma nau oriunda de Mina, reclamava ao provedor da
fazenda. Aí atacavam não só as naus do comércio americano e
índico, mas também as embarcações do comércio insular 1581, mas
de acordo com a opinião de Filipe II essa prática era assídua
nestas últimas décadas do século.
A posição demarcada do Mediterrâneo Atlântico no comercio
e na navegação atlântica fez com que as coroas peninsulares
investissem aí todas as tarefas de apoio, defesa e controle do
trato comercial. As ilhas eram os bastiões avançados, suportes
e símbolos da hegemonia peninsular no Atlântico. A disputa pela
riqueza em movimento neste oceano será feita na área definida por
elas, pois para aí incidiam piratas e corsários ingleses,
franceses e holandeses, ávidos das riquezas em circulação nas
rotas americanas e índicas. Uma das maiores preocupações das
coroas peninsulares terá sido a defesa das embarcações que
sulcavam o Atlântico em relação às investidas dos corsários
europeus. A área definida pela Península Ibérica, Canárias e
Açores era o principal foco de intervenção do corso europeu sobre
os navios que transportavam açúcar ou pastel ao velho continente.
Sendo o ouro, a prata e as especiarias orientais os
principais alvos da cobiça dos corsários, lógico será admitir que
a intervenção destes se fizesse em particular entre os Açores e
o Cabo de S. Vicente. Foi tendo em conta essa insegurança das
embarcações e das ilhas açorianas que, em 1543, Bartolomeu Ferraz
traçou um plano de fortificação desse arquipélago, justificado,
segundo ele, " porque as ilhas terceiras importarão muito assy
pelo que per ssy valem como por serem o velhacoute e socorro muy
principal das naos da Índia e os franceses sserem tão
dessarrozoados que justo vel injusto tomão tudo que podem".
Outra e não menos importante preocupação das referidas coroas
incidia sobre o comércio ilegal que aí se fazia com as
mercadorias do Novo Mundo. Deste modo as necessidades da defesa
e da vigilância, bem como da guarda e da protecção das armadas
ou frotas implicaram a criação de estruturas capazes de manter
com segurança e vantagem o monopólio comercial ibérico.
Desde o início da escala das rotas que esta situação de
insegurança se evidenciará, pelo que ambas as coroas delinearam,
em separado, um plano de defesa e apoio às suas embarcações. Da
parte portuguesa promulgara-se em 1520 o regimento para as naus
da Índia e Açores, no qual se estabelecem as formas de
intervenção à chegada das naus da Índia ao arquipélago. Define-se
nesse diploma o modo de segurar a mercadoria das mãos do
contrabando e corso, o abastecimento necessário para a viagem até
Lisboa. A insuficiência destas prerrogativas tornou necessária
e urgente a Provedoria das Armadas da Índia, Brasil e Guiné,
sendo seu provedor, desde 1527, Pero Anes do Canto. Depois, a
partir da década de 30, procurou-se delinear um plano de defesa
das principais ilhas do arquipélago, com particular incidência
para os portos de apoio de Angra, Ponta Delgada e Horta.
Ao provedor competia a superintendência de toda a acção de
defesa e abastecimento das embarcações em escala ou em passagem
pelos mares açorianos. Além disso a sua acção de apoio alargava-
se à Armada das Ilhas, criada expressamente para comboiar, desde
o Corvo até Lisboa, as embarcações vindas do Brasil, Índia e
Mina, e a fiscalização do mar dos Açores. No período de 1536 a
1556 há notícia de pelo menos doze armadas terem sido enviadas
nessa missão. E, entre 1531-1535, Duarte Coelho era capitão-mor
da armada no Atlântico, tendo-se deslocado em Abril de 1535 com
os seus navios aos Açores, onde permaneceu até Julho.
Por vezes essa armada não chegava atempadamente aos Açores
ou os poucos navios que aí chegavam eram insuficientes para a
defesa das frotas, pelo que o provedor era forçado a armar ou
fretar embarcações para a referida missão. Assim sucedeu entre
1532 e 1555 por onze vezes. Esta incerteza da vinda da armada
das ilhas e a presença constante dos corsários franceses levaram
o provedor, em 1537, a apresentar ao monarca um plano de
construção de caravelas para a referida armada nas ilhas.
Aliando a este projecto de criação de uma armada insular surge,
em 1543, o plano de defesa dos açores, traçado por Bartolomeu
Ferraz, como forma de dissuasão aos corsários franceses. Todavia
só muito mais tarde, em face do agravamento da acção dos
corsários nórdicos e franceses se tornou possível a concretização
desse plano de fortificação das ilhas, com a construção do
Castelo de S. Brás (1553) no porto de Ponta Delgada, do Castelo
de S. Sebastião (1572) na Baía do Porto Pipas (Angra) e de um
baluarte (1572) na baía da Horta.
Sendo a Terceira o mais importante porto de escala da
carreira das Índias, os monarcas espanhóis viram-se, por diversas
vezes, na necessidade de solicitar o apoio do provedor das
armadas às embarcações espanholas que por aí passavam. Mas o
menosprezo português ou a necessidade de uma guarda e uma defesa
mais eficazes das armadas da América exigiram uma reorganização
do sistema de frotas da Carreira de las Índias. Assim desde 1521
estas passaram a representar uma nova estrutura organizativa e
defensiva, primeiro com a criação do sistema de frotas anuais
armadas ou ocasionalmente escoltadas por uma armada protectora,
depois, a partir de 1555, com o estabelecimento de duas frotas
anuais para o tráfico americano: Nueva Espãna e Tierra Fierme.
Para além deste regulamentação rigorosa das frotas definira-se,
desde 1521, a necessidade da sua escolta na área definida pelo
Cabo de São Vicente, Canárias e Açores. A partir de então as
armadas espanholas passaram a surgir com frequência nos Açores,
a aguardar as naus da Índia.
A escolta das frotas das Índias espanholas mereceu maior
atenção da coroa peninsular nas duas décadas do século XVI, mercê
do reforço das investidas dos corsários franceses, holandeses e
ingleses. Depois da invasão de Portugal pelas tropas de Filipe
II, importantes almirantes da armada espanhola passaram a surgir
com assiduidade no mar açoreano a capitanear armadas de defesa
e protecção das referidas frotas. Assim, foram incumbidos dessa
missão Don Álvaro Bazan (1580,1590-1591), D. Pedro de Valdés
(1581) e o Marquês de Santa Cruz (1587).
Conhecida e sistematizada a importância destes arquipélagos
na navegação e comércio Atlântico, importa discernir qual o
impacto deste movimento na sociedade insular e qual a
participação dos insulares nesse trato de mercadorias, sob a
forma de contrabando ou não. Muitos estudiosos têm afirmado o
reduzido proveito de algumas ilhas que desempenharam um papel de
relevo neste trato, como sejam as ilhas açorianas. Todavia as
principais contrapartidas económicas da intervenção destas ilhas
assentam, fundamentalmente, na prestação de serviço a essas
rotas. Se a partir da Madeira e das Canárias estava facilitada
a actuação dos insulares com o Novo Mundo, por meio da produção
local do vinho, cereais e queijo, nos Açores apenas se verificava
uma intervenção de apoio ou então uma intromissão no contrabando
das especiarias, açúcar, ouro e prata. As possibilidades de
comércio directo esbarravam com um apertado sistema de vigilância
e limitação criadas pelas coroas peninsulares, que
impossibilitava seu desenvolvimento. Deste modo para o ilhéu o
maior benefício terá resultado de uma remuneração indirecta por
meio do abastecimento das embarcações em escala, da faina de
apoio e reparo das mesmas. Pelo menos esta era a situação que se
vivia na ilha Terceira, como nos retrata Pedro Frias em finais
do século XVI: "a gente destas Ylhas eram inclinadas a seu
jnteresse do qual vjvjam e se sostentavão ~q era vemderem has
armadas de Castela e de Portugal, as crjações, os frutos que
recolhjam e os oficjaes suas obras que tinham p.to pera o tempo
das frotas e nam podjam vjver sem esta comunjcaram".
O aprovisionamento das naus das diversas frotas que
sulcavam o Atlântico era uma preocupação constante das coroas
peninsulares, pelo que nos diversos regimentos para as referidas
frotas e para as estruturas de apoio nestas criadas nos
arquipélagos era dada a especial importância a esse serviço.
Os arquipélagos madeirense e canário tiveram uma acção
muito influente no aprovisionamento das naus da Índia em vinho,
legumes frescos, carne , água e lenha. No caso das canárias essa
situação é-nos descrita, de modo exemplar, por Gonzalo Fernándes
de Oviedo em 1534: "Tornando el viaje deste camino de muestro
Índias, digo pues de una destas siete islas en especial de Gran
Canaria, o La Gomera, o la Palma (porque estan en mas derecha
derrota y alproposito, e som fertiles e abundan de abastimentos
y de lo que conviene a los que esta larga navegación haccen
tomam alli los navios refresco agua e leña e pau fresco e
galinhas, e pescados sallados e pagos que las naos saean de
España".
Na Madeira habitualmente faziam escala as naus portuguesa
da rota da Mina, Brasil e Índia, que aí se abasteciam de vinho
e lenha; por vezes,muitas embarcações espanholas também aportavam
à ilha antes do habitual refresco das Canárias. Assim sucedeu em
1498 com a expedição de Colombo. Esse serviço de apoio às
embarcações portuguesas era assegurado e pago pelo provedor da
Fazenda da Ilha. Dele apenas se referencia, em 1517, a entrega
de oitenta arrobas de lenha a uma nau que se dirigia à Índia e
do envio ao reino, em 1531, de duzentas pipas de vinho para a
frota da Índia. Por vezes as embarcações escalavam a ilha para
tomar o vinho necessário para a viagem. Aliás não foram só os
portugueses que utilizaram o vinho madeirense na ementa das naus
que sulcavam o Atlântico, pois também os ingleses o fizeram por
diversas vezes; é o caso, em 1533, da escala de Richard Eraen na
sua viagem à Guiné, que tomou algumas pipas de vinho no
Funchal. A Madeira também provia as embarcações de retorno que
por aí passavam; assim sucedeu em 1528 com uma nau régia
capitaneada por André Soares, procedente de Mina, que recebeu do
provedor da fazenda biscoito, pescado, azeite e vinho para
sustento dos dezoito tripulantes, no período de vinte dias de
viagem até Lisboa.
As embarcações régias que iam à Madeira carregar açúcar
para o reino ou principais praças italianas e flamengas eram
igualmente abastecidas pelo almoxarifado dos quartos e quintos
conforme a duração da viagem e número e tripulantes. De acordo
com o regimento de 1520 o almoxarifado do Funchal deveria
assegurar o reparo e abastecimento dos navios. Esse
aprovisionamento era atribuído de acordo com a demora do
percurso; assim, os que se dirigiam ao reino recebiam mantimentos
para vinte dias, sendo de quarenta dias para poente e sessenta
para o levante; esses mantimentos consistiam em carne, peixe,
biscoito e vinho e eram distribuídos em rações individuais à
tripulação. E, 1508 há informação da ração completa da nau "S.
Martinho" com quarenta e cinco tripulantes que se dirigia para
o levante; cada tripulante recebeu duas arrobas de biscoitos,
dois almudes e meio de vinho, duas pescadas e meia e uma arroba
de carne.
Nos Açores, desde 1520 que o referido abastecimento às naus
da Índia, Brasil, Mina e Guiné fora regulamentado, ficando essa
missão a cargo do provedor das armadas. O dinheiro para essas
despesas era retirado das receitas do almoxarifado de Angra,
tendo-se fixado em 1539 no valor de quarenta mil reais o
quantitativo máximo a despender nesse serviço. Em 1523 o
refresco da caravela "Santo António", capitaneada por Pedro
Camelo, custou quatro mil e seiscentos reais, tendo o dito
recebido seis carneiros, duas dúzias de galinhas, uma arroba de
azeite, pão fresco, madeira e lenha.
A assiduidade da escala terceirense, a partir do fim do
segundo quartel do século XVI aliada à conjuntura difícil da
produção cerealífera terceirense, vieram causar dificuldades à
acção de reabastecimento das naus. As insuficiências de gado,
pescado e trigo na terceira obrigavam o provedor das armadas a
adquirir estes produtos nas ilhas vizinhas, designadamente em S.
Miguel, S. Jorge, Faial e Pico.
Em certa medida, e de acordo com a opinião do Pe. Manuel
Luís Maldonado, esta escala apresentava-se proveitosa para o
burgo angrense, uma vez que com ela se adquiriram moeda e metais
preciosos a troco de carne, panos, fruta, pão, legumes e peixe.
Todavia, a imposição da obrigatoriedade do fornecimento das naus
em escala da armada das ilhas apresentava-se como um pesado
encargo para os açorianos.
O COMÉRCIO INTER-INSULAR
1.FACTORES
O comércio no mercado insular depende da intervenção de
múltiplos factores, activadores ou não do sistema de trocas.
Assim, se os produtos surgem como o elemento justificativo e
vitalizador das trocas comerciais, não são por si só suficientes
para a sua manutensão. Torna-se, pois, necessário a criação de
condições que as favoreçam, como os meios e vias de comunicação
adequados, agentes habilitados para os diversos serviços e
instrumentos de pagamento ajustados ao volume e duração de
trocas.
O comércio surge neste contexto como uma consequência
lógica de todos esses condicionalismos e o seu nível de
desenvolvimento dependerá em muito do estádio atingido por esses
factores. Nesse sentido o comércio é, ao mesmo tempo,
consequência e causa do desenvolvimento da sociedade e economia
insulares, pois resulta de um determinado estádio de
desenvolvimento dos factores assinalados e, simultaneamente,
influencia estes, bem como a sociedade insular, em geral. Terá
sido o surto do comércio açucareiro que, na Madeira e nas
Canárias, condicionou o desenvolvimento de infraestruturas
portuárias e a valorização patrimonial dos principais centros
urbanos. O mesmo sucedeu na ilha de S. Miguel com o surto do
pastel.
Esta actividade, que mereceu a adesão dos ilhéus e
encontrou os mecanismos adequados a um elevado nível de
desenvolvimento, não era alheia às venalidades da economia
atlântica, bem como aos obstáculos naturais e humanos. O europeu
impõe e domina os circuitos de troca, fazendo
desta área uma região periférica definida como um mercado de
reserva para as suas necessidades mercantis. Além disso as coroas
peninsulares, empenhadas num comércio monopolista, intervêm, com
assiduidade, por meio da regulamentação exaustiva das actividades
económicas, delimitando o campo de manobra dos agentes aí
intervenientes. Esse excessivo intervencionismo, as intempéries,
as tempestades marítimas, a peste, a pirataria e o corso foram
os principais responsáveis pelo bloqueamento dos circuitos
comerciais em determinadas épocas das centúrias em análise.
REGULAMENTAÇÃO DAS ACTIVIDADES ECONÓMICAS
O comércio, bem como as mais actividades económicas estavam
sujeitos a um controle e regulamentação por parte das coroas de
Portugal e Castela. Para isso contribuiu, em primeiro lugar, a
necessidade de preservar o monópolio real do comércio de
determinados produtos em áreas definidas. Em segundo e, em termos
restritos das novas áreas de ocupação atlântica, essa intervenção
constante da coroa e dos municípios tinha como meta o
abastecimento local, bem como a definição dos produtos adequados
que merecessem uma troca valiosa no mercado atlântico-
mediterrânico. Aí, a coroa, por meio de repartições adequadas
(almoxarifado, provedoria da fazenda) e com a colaboração das
instituições locais (a vereação) exercia esse controle e ditava
as medidas necessárias ao cumprimento e manutensão da sua óptica
económica.
Tendo em conta que a primeira situação mereceu já
tratamento adequado por especialistas de renome, apenas nos
deteremos sobre a segunda, encarada, é certo, ao nível do mercado
insular.
A economia insular, como vimos, estrutura-se na consonância
dos vectores marcantes da política expansionista europeia, com
as diferenças ou as assimetrias resultantes da estrutura do solo,
do clima e do seu posicionamento geográfico. Todo este conjunto
de factores definirá um processo peculiar de cada grupo destas
ilhas. De acordo com esse dimensionamento teremos a definição e
regulamentação das actividades económicas da sociedade insular.
Há necessidade, por parte das administrações central e insular,
de exercer um estrito controle destas actividades nos seus
múltiplos aspectos, no sentido de assegurar o cumprimento de uma
dada política, acima referida.
Esta preocupação é constante e abrange todos os sectores
de actividade. As autoridades municipais e régias intervêm na
produção, no processo transformador das matérias-primas, na
distribuição e no comércio dos produtos locais e estrangeiros.
O município legisla sobre a forma de postura e de acórdão,
regulamentando com minúcia todas as actividades sectoriais acima
enunciadas; a coroa, por sua vez, através das instituições
próprias, intervém por meio de regimentos e alvarás. Deste modo
os produtos e as actividades que definem a economia de
subsistência e de mercado sujeitavam-se ao intervencionismo
municipal e régio; esta actuação regia-se pelos princípios
básicos da comunidade insular de provisão, qualidade, preço, peso
e medida adequados desses produtos.
As repartições régias surgem, muitas vezes, como mecanismos
coarctivos, tendo como finalidade básica a defesa do património
real. A sua acção tem como princípio impedir a vigência e
generalização de práticas fraudulentas e lesivas desse
património. O contrabando surge, neste circuito, ao mesmo tempo
como causa e consequência deste apertado sistema de controle de
produtos no mercado insular, pois, como é bem sabido, a excessiva
regulamentação dos mecanismos de troca, para além de entorpecer
e de retardar esta, cria ou torna inevitável o aparecimento de
circuitos paralelos. Ao mercador insular e europeu não satisfazem
estas medidas intervencionistas da coroa e do município, pois
limitam o seu restrito campo de manobra e oneram a sua acção: daí
que ele actue de modo a poder ter uma intervenção activa na
formulação da normas, ao mesmo tempo que se serve de subterfúgios
para contrariar as leis e normas vigentes.
Como atrás enunciamos, este intervencionismo é geral, uma
vez que atinge os vários sectores de actividade artesanal ou
transformadora e comércio. De seguida daremos conta dessa
intervenção, de modo separado, de acordo com os referidos
sectores de actividade e com os produtos, ou seja, com as
componentes da economia insular.
PRODUÇÃO
A intervenção das autoridades inicia-se com a distribuição
das terras para arrotear, em que se define não só o proprietário,
a forma de sucessão e os limites das arroteias, mas também os
produtos adequados para o seu cultivo. Esta última situação
resultava, em primeiro lugar, de política expansionista europeia
e, em segundo, da necessidade de assegurar a subsistência das
ilhas. No primeiro caso salienta-se o lançamento de produtos
coloniais, componentes fundamentais do comércio atlântico: o
alçúcar e o pastel. O mesmo sucede no segundo, com a
transplantação dos componentes fundamentais da dieta europeia-
mediterrânica: a vinha e os cereais.
De acordo com estes dados temos conhecimento de algumas
situações bem claras. Assim, na Madeira, em 1492, recomendava-se
o plantio de terras aráveis com trigo ou cevada enquanto, em
1508, se ordenava que "se nam rompa em toda essa ylha terra pera
se em ella se aver de lavrar e semear pam nem pera outra algu~ua
cousa somente pera se fazerem canaveaes pera açuquares". Na
ilha de S. Miguel definira-se, em 1532, que as terras de cultura
estavam reservadas para o trigo e pastel, principais produtos da
economia micaelense. No que respeita às Canárias é
significativa a actuação dos governadores de Tenerife e Gran
Canaria, o primeiro apostado na cultura da cana de açúcar e o
segundo num conjunto de culturas capazes de assegurarem a
subsistência e um comércio rendoso.
O incentivo à produção açucareira, na Madeira e nas
Canárias, derivava das facilidades do seu rápido escoamento e,
igualmente, da criação de condições para o normal andamento das
tarefas agrícolas e da laboração dos engenhos; por isso se
regulamentou o uso da águas, a construção de levadas, o corte e
o transporte da lenha e o reparo dos engenhos.
Definido o proprietário, o regime de exploração e o produto
adequado ao solo e às necessidades do momento, não estava ainda
concluída a intervenção das autoridades, uma vez que estas
pretendiam não só assegurar a sua manutensão, mas também a
qualidade e preços condignos.
A defesa e manutensão das qualidade do produto colhido no
solo insular é uma das constantes da actuação das autoridades
régias e locais, atingindo especialmente os produtos da
exportação: o vinho, o pastel e o açúcar. A todos se definiam,
por regimentos específicos, as tarefas de cultivo, do cuidado e
da laboração final do produto, de modo a que este se apresentasse
nas condições e quantidades necessárias para a sua
comercialização. Assim, para o pastel aparece nos Açores, o
regimento de 1536, em que se estabeleciam normas para a sua
cultura e laboração, ao mesmo tempo que se criavam cargos de
aldeadores para assegurar o seu cumprimento. Idêntica é a
situação na Madeira e nas Canárias com o açúcar, que é alvo de
constantes regulamentações e de um controle assíduo dos
aldeadores para o efeito eleitos em vereação. Deste modo, o
monarca D. Manuel, para garantir a boa qualidade do açúcar
madeirense de exportação e assegurar o seu crédito no mercado
europeu, ordenara, em 1485, que todo o mestre de açúcar deveria
ser examinado e aprovado por três homens bons, ao mesmo tempo que
estipulava a obrigatoriedade de uma vistoria qualitativa ao
açúcar, após a sua laboração, por oficiais competentes: os
aldeadores.
O engenho, estrutura industrial complexa e fundamental para
a laboração do açúcar, era o centro de toda a actividade
açucareira e mantinha-se activo os doze meses do ano. Enquanto
durava a safra, de Janeiro a Junho, tinha intensa actividade com
a laboração do açúcar; nos restantes meses aproveitava-se a
disponibilidade para as necessárias reparações, abastecimento de
lenha e víveres para a safra seguinte. Uma mão de obra
especializada assegurava as principais tarefas da sua laboração:
mestre de açúcar, caldeireiro, purgador, espumeiro, refinador,
caixeiro, etc.; entretanto um grupo numeroso de almocreves
garantia a referida laboração, fornecendo as canas e a lenha.
Deste grupo numeroso de assalariados dependia o
funcionamento do engenho e bem assim a qualidade do produto
laborado. Daí que as autoridades municipais tenham acautelado
esta situação ao regulamentarem exaustivamente, por postura , as
principais tarefas. Ao mesmo tempo exigia-se que os ofícios
empenhados nessas actividades fossem examinados e aprovados
pelas autoridades competentes. Francisco Morales Padron refere,
a propósito, que nas ordenanças de Gran
Canaria (1531) tudo gira em torno do açúcar.
AS ACTIVIDADES ARTESANAIS
As actividades artesanais estavam organizadas em ofícios,
sendo estes regulamentados por leis e pragmáticas régias e
ordenanças concelhias. Esta intervenção das autoridades, e
especialmente a das concelhias, tinha como finalidade assegurar
a qualidade de matéria-prima, dos ingredientes e dos métodos
usados na sua laboração, de modo a que o artefacto se
apresentasse no mercado com a qualidade desejável; ao mesmo tempo
que a vereação actuava no sentido de evitar a especulação,
definindo uma tabela de preços para os serviços a prestar aos
artefactos. Além disso, todo o oficial mecânico deveria ser
examinado por um juíz do referido ofício sendo, depois, obrigado
a apresentar anualmente fiança e juramento perante a vereação.
O município mercê deste apertado sistema de regulamentação,
exarado nas posturas, tinha sob controle todos os ofícios, bem
como todas as actividades artesanais e transformadoras. Destas
algumas houve que, pela sua importância para a vida do burgo,
mereceram uma constante vigilância por parte dos almocatéis: o
moleiro, as padeiras, os vendeiros, as regateiras, os carniceiros
sujeitavam-se ao rigoroso controle destes oficiais concelhios;
esta era uma forma de assegurar o fornecimento dos produtos
essenciais para a vida do burgo.
O COMÉRCIO
As coroas de Portugal e Castela exerceram um rigoroso
controle sobre o comércio com as suas colónias no Atlântico.
Através de Lisboa e Sevilha os dois impérios atlânticos mantinham
um regular sistema de controle das rotas e do comércio. As ilhas
atlânticas posicionadas estrategicamente nesse trama de relações
económicas, viram assim toda a economia condicionada por uma
política intervencionista e proibitiva.
Deste modo nas Canárias, área charneira para o
relacionamento com as Índias de Castela, a coroa, por intermédio
da Casa de Contratacción de Sevilha, exercía um assíduo e
rigoroso controle nas ligações entre este arquipélago e o novo
continente. O seu objectivo era impedir a quebra do monopólio
andaluz e evitar o contrabando de nacionais e estrangeiros, com
o ouro, prata e açúcar das Índias. Até 1564, altura em que foi
criado o lugar de juíz de registo, o comércio feito a partir das
Canárias estava sujeito a autorizações especiais, por um
determinado período. Idêntica é a situação relativa à Madeira
e aos Açores, em relação ao comércio no litoral atlântico e,
nomeadamente, com o Brasil a partir do século XVII. No período
da união das duas coroas tornou-se possível nos três arquipélagos
uma política concertada de defesa do exclusivo comercial
hispânico. O mercado insular, pela sua importância no contexto
da economia europeia-atlântica, mereceu igualmente a intervenção
da coroa: esta, por meio das diversas repartições régias
existentes nas ilhas, exerceu um rigoroso controle sobre o
movimento de troca entre o próspero mercado destas e o da Europa
mediterrânica e atlântiva: tal intervenção não deriva só da
necessidade de assegurar a arrecadação dos direitos reais, mas
também do exercício do domínio exclusivo do comércio insular.
Assim a fiscalidade e a tendência monopolista-intervencionista
ditaram o aparecimento de instituições próprias: o almoxarifado
e a alfândega, o primeiro com a superintendência de arrecadação
dos direitos reais e a segunda com a finalidade de regular as
entradas e saidas e de arrecadar os respectivos direitos. A
alfândega surge como a mais importante instituição para regular
e controlar as actividades de troca, sendo uma das vias mais
adequadas para o controle do comércio insular. Na Madeira a
alfândega surge, desde 1477, como uma necessidade de organizar
a actividade fiscal e de regular o trânsito de mercadorias. A
infanta D. Beatriz organizou naquele ano os serviços de fisco,
criando duas alfândegas, uma na capitania do Funchal e outra na
de Machico; entre esta data e 1483 estes serviços adquirem uma
orgânica adequada ao volume das trocas madeirenses.
Em finais do século XV e princípios do seguinte o
desenvolvimento do comércio do açúcar implicou a criação de novas
alfândegas na Ribeira Brava, Ponta de Sol e Calheta. Com a
alfândega nova no Funchal, a partir de 1508, todo o serviço de
exportação do açúcar passará a fazer-se por aí. O monarca, ao
estipular esta medida, em 1512, aduzia em seu favor a perda que
a coroa tinha com a arrecadação dos direitos em diversas
localidades.
Até princípio do último quartel do século XV o movimento
de carga e descarga, no calhau do Funchal, fazia-se na presença
dos oficiais do duque ou dos seus rendeiros; desde então o juíz
da alfândega, com os almoxarifes e os escrivães, passará a
controlar toda essa actividade, lançando os direitos de acordo
com o regimento; a partir de 1497 o despacho dos navios era
supervisionado por um juíz e vereador da câmara do Funchal.
Se os alvarás e os forais concediam aos naturais o
privilégio de isenção da dízima das mercadorias de e para o
reino, o mesmo já não sucedia com os estrangeiros que, para além
de estarem sujeitos ao pagamento desse direito, viam limitada a
sua acção com as medidas proibitivas da coroa. Assim, para além
da interdição da vizinhança, estes viram restringidas as suas
possibilidades de comércio pelos contingentes de 1483 e 1485; de
facto, os referidos mestres ou mercadores eram obrigados a
descarregar a sua mercadoria num prazo de três e, depois, cinco
dias, pagando a respectiva dízima; caso contrário perdiam a
mercadoria; esteve-lhes também vedada até 1508 a carga na ilha,
pois apenas o podiam fazer os naturais.
Nos Açores a arrecadação dos direitos reais fazia-se do
mesmo modo que na Madeira, regendo-se as referidas repartições
pelos regimentos das suas similares do Funchal. No entanto aí
elas adquiriram nesse caso uma estrutura mais complexa, e não só
também mais adequada à realidade geo-humana como igualmente
ajustada à sua importância no contexto da economia açoreana e
atlântica.
Nas Canárias a fazenda real, transplantada de Castela,
organizou-se de acordo com as circunstâncias das ilhas após a
conquista e o seu posicionamento no traçado das rotas comerciais
do Atlântico. Assim, o regime fiscal não se apresentou gravoso,
pois a coroa concedera ao arquiélago um regime idêntico ao que
se fizera na Madeira e nos Açores, várias isenções e privilégios
incentivadores da sua ocupação e do seu desenvolvimento
económico. Todavia a grande preocupação do legislador castelhano
neste arquipélago incidia mais sobre o comércio canário-americano
do que sobre o comércio canário em geral. Disto resultaram as
constantes ordenanças e instruções da Casa de Contratacción de
Sevilha aos oficiais régios das ilhas deste arquipélago.
LEGISLAÇÃO
A regulamentação do comércio no mercado insular e deste com
as restantes áreas do Atlântico era uma das competências que os
municípios não descuravam na sua acção governativa. Esta
intervenção resultava da necessidade de assegurar o abastecimento
do mercado local dos produtos essenciais para o quotidiano da
comunidade insular; para isso os oficiais eleitos definiam
medidas, exaradas ou não sob a forma de posturas, que vão desde
a proibição de exportação de produtos locais ao reajustamento e
à regulamentação dos circuitos de distribuição e venda e, mesmo,
à proibição de entrada de produtos lesivos da economia concelhia.
Em síntese, a sua intervenção incidia, fundamentalmente, nos
seguintes domínios:
- definição dos locais de compra e venda: a praça
pública com o seu numeroso grupo de lojas e tendas;
- controle dos preços, por meio do tabelamento do preço
de venda dos produtos agrícolas, dos artefactos e dos
serviços prestados pelos vários oficiais mecânicos;
- controle de pesos e medidas por intermédio de
vistorias assíduas dos almotacés;
- proibição de saída dos produtos considerados
essenciais para a subsistência da comunidade insular:
trigo, gado e derivados, presunto, azeite, cera, cebo,
fruta seca e verde, madeiras, pipas vazias, tecidos e
artefactos de importação.
A venda de qualquer produto deveria fazer-se em praça
pública, nas lojas e tendas, sendo proibida a venda em casa ou
de porta em porta, como era hábitos dos bufarinheiros. Os
vinhos e a comida no Funchal, em 1541, apenas poderiam ser
vendidos nas ruas do Matoso, dos peixes e Direita. Idêntica é
a situação dos artífices que vêem reduzida a sua disseminação no
burgo com a obrigatoriedade de assentarem a sua tenda num
arruamento determinado pela vereação. Esta situação facilitava
a actividade do município na fiscalidade, inspecção e controle
das lojas e tendas.
O controle sobre os agentes do mercado local mais se amplia
com a obrigatoriedade de pagamento de fiança por todos os
oficiais mecânicos e intervenientes nas actividades da praça
pública: vendeiros, regatões, carniceiros, etc. Muitas vezes
o município vedava o acesso a estas actividades como forma de
evitar o roubo. Assim, no Funchal, os escravos e os moços
solteiros que viviam de sua soldada não podiam exercer o ofício
de vendeiro ou regatão.
A venda dos produtos de importação estava sujeita a uma
regulamentação especial, de modo a evitar-se o açambarcamento e
a especulação. Assim, só era permitida a sua venda a retalho
a nove ou quinze dias após a sua entrada, respectivamente em
Tenerife e no Funchal; além disso a sua venda só se podia
efectuar após vistoria dos deputados e sua subsequente licença,
ficando o infractor sujeito a pesadas penas.
Nas Canárias duas particularidades evidenciam uma similar
orgânica do mercado interno. Assim, entre 1521-1522, funcionou
em Tenerife um mercado franco, uma vez por semana, que foi
encerrado pelo dano que acarretava às rendas do concelho. Ao
mesmo nível funcionaram no século XVI feiras locais com caracter
sazonal. Além disso em Gran Canária, Tenerife e La Palma a venda
de determinados produtos de consumo em áreas definidas era muitas
vezes entregue, em regime de monopólio, a determinados moradores;
as casas de venda eram conhecidas por bodegones.
O controle das entradas fazia-se de acordo com as carências
locais, tendo-se em vista a necessidade de evitar a concorrência
dos produtos do estrangeiro ou das ilhas vizinhas, bem como a sua
utilização como represália para com as nações inimigas; no
primeiro caso temos como exemplo a actuação do cabildo de
Tenerife ao proibir a entrada de vinhos de fora e ao incentivar
a cultura da vinha; no segundo temos as represálias mútuas
entre Portugal e Castela, na década de 70, que surgem nas
Canárias em ordens de 1476 e 1480 e na Madeira em 1471. Além
disso há referência a represálias nas Canárias em 1592 contra a
França e em 1596 contra Inglaterra, o mesmo sucedendo na Madeira
em 1485 contra a Escócia e Bruges.
Mas se o produtos de fora não
deparavam com grandes entraves à entrada, o mesmo já não sucedia
à saída; nesse caso o concelho exercia um rigoroso controle sobre
esse movimento, no sentido de coibir a saída dos produtos
proibidos, porque necessários ao burgo; deste modo para todo o
produto cuja exportação fosse autorizada, o mercador deveria
solicitar ao concelho a necessária licença de saída. O trigo, as
madeiras, a carne e as verduras faziam parte desse grupo de
produtos prescritos. A sua exportação só se fazia em condições
específicas e mediante licença dos oficiais do concelho; e,
muitas vezes, só em condições muito especiais era facultada a sua
saída.
Na Madeira nso séculos XV e XVI, o açúcar galvanizou as
atenções das autoridades madeirenses e régias. Este produto era,
uma componente importante dos réditos da ilha e da coroa e, como
tal, estava sob vigilância constante do senhorio, da coroa do
almoxarifado e da vereação. Segundo Vitorino Magalhães Godinho
"oregime do comércio (do açúcar) vai oscilar entre a liberdade
fortemente restringida pela intervenção quer da coroa quer dos
poderosos grupos capitalistas, de um lado, e o monopólio global,
primeiro, posteriormente um conjunto de monopólios cada qual em
relação com uma escápula de outra banda". Assim, desde 1469 e
até princípios do século XVI, o comércio do açúcar madeirense
fazia-se num apertado circuito sob controle da coroa e de um
reduzido grupo de mercadores estrangeiros.
As tentativas levadas a efeito pelo Infante D. Fernando
para fazer vigorar o contrato de monopólio mereceram a oposição
declarada e firme dos vizinhos do Funchal; sómente conseguiu
vigorar, a partir de 1487, o monopólio régio de exportação deste
produto para o levante, um dos principais mercados do açúcar
madeirense; e, finalmente, em 1498, D. Manuel I, em face da
difícil situação de crise comercial, limita esse comércio,
estabelecendo um máximo de produção e os contingentes para as
diversas escápulas. Esta situação foi revogada em 1503, mas o
comércio deste produto não obteve a necessária liberalização,
pois o escoamento passou a fazer-se sob o regime de contrato
entregue, na sua maioria, a estrangeiros ou seus agentes.
Ao invés, nas Canárias, e mesmo nos Açores, o comércio do
açúcar não suscitou a mesma atenção e intervenção da coroa, pois
que este trato foi daí deixado à iniciativa do grupo de
mercadores nacionais, ou estrangeiros; no caso das Canárias o seu
comércio era quase exclusivo dos mercadores genoveses e
flamengos.
Mais do que o açúcar, o trigo e outros cereais serão o alvo
primordial da intervenção assídua do município. Sendo produtos
básicos da dieta alimentar insular, lógico será admitir que os
vereadores, tendo a seu cargo o regimento da terra, estivessem
preocupados e atentos ao fornecimento do cereal no mercado local.
Numa breve passagem pelas vereações dos séculos XV e XVI
existentes para os três arquipélagos verifica-se que esta questão
atemorizava e preocupava constantemente os oficiais da Câmara
quando se reuniam em vereação duas vezes por semana.
A actuação de cada concelho será feita de acordo com as
pecularidades e a conjuntura específica da área a que
circunscreve. Podemos considerar para os três arquipélagos uma
linha de conduta que, na globalidade, apresenta muitos pontos
comuns. Assim, teremos para a Madeira e Açores a sua inspiração
na administração de Lisboa e, para as Canárias, a transplantação
e adaptação do modelo andaluz. Embora com raíz diferente essa
actuação dos municípios insulares poderá definir-se do seguinte
modo:
- controle da produção e dos circuitos de abastecimento e
conservação de cereal.
- controle/regulamentação/proibição do comércio e
transporte do cereal no mercado interno e externo.
Isto é, toda a acção concelhia é orientada no sentido da
regulamentação e do controle da produção e do comércio do cereal,
por meio dos exames na Madeira e nso Açores e da tazmia ou cala
y cata nas Canárias, das medidas limitativas ou proibitivas da
sua exportação. A sua aplicação variava de concelho para concelho
consoante a prioridade fosse dada à produção ou à importação;
assim nos concelhos de Ponta Delgada, Vila Franca do Campo,
Ribeira Grande, Angra, São Sebastião, do arquipélago dos Açores,
e em Santa Cruz de Tenerife e de La Palma e certamente nos
cabildos de Lanzarote e Fuerteventura, predominam as ordenanças
e posturas regulamentadoras da produção do referido cereal,
assentes no princípio básico de assegurar as necessidades do
consumo local. No Funchal, Las Palmas de Gran Canaria dominam as
ordenações facultativas da importação do precioso grão, quer por
meio da abertura do mercado a todo o que a ele concorresse, que
por meio de medidas aliciadoras (como sejam no Funchal, o
pagamento da descarga, dos sacos e da loja), quer ainda por meio
de medidas proibitivas à sua saída.
A concretização da primeira da referida política definia-se
nos Açores pelo trigo dos exames, isto é, o trigo resultante do
exame da produção e dos stocks de abastecimento dos granéis
concelhios ou particualres, necessário para o fornecimento à
população em momentos de penúria. Segundo o regimento régio de
26 de Junho de 1507 a vereação tinha a incumbência de fazer, no
início do Verão, por altura das colheitas, o orçamento do trigo
necessário ao consumo e à sementeira até à nova colheita,
armazenando-o depois em granéis à sua guarda, de modo a poder
distribui-lo na altura da carência. A partir de 1561 juntar-se-à
um quarto dos valores exportados. Para dar cumprimento a estas
medidas a vereação ordenará que toda a exportação só deveria ser
feita mediante licença sua após vistoria dos granéis a cargo do
oficial dos exames.
Nas Canárias e mais propriamente em Tenerife, encontramos
definida a mesma orientação sob a designação do tazmia ou cala
y cata. O cabildo em momento de penúria, antes de autorizar a
saída do cereal, procedia ao exame dos granéis e ao arrolamento
da população, de modo a avaliar o trigo necessário ao consumo
concelhio e assegurar a reserva satisfatória. Esta prática
derivava das primeiras medidas proibitivas exaradas em finais do
século XV e do correcto dimensionamento da política cerealífera
pelo cabildo em princípios do século XVI. Enquanto no primeiro
período apenas se estipulava a proibição de saída, no segundo,
ao pressentir-se a ineficácia dessa actuação, alarga-se o seu
âmbito. Assim, em 1505, em face da falta de pão, ordena-se a
vistoria às principais casas da ilha para, no ano imediato, se
promulgar a ordenança sobre o pão, onde se definia o modo de
actuar. A partir de então esta prática institucionaliza-se,
tornando-se um hábito corrente na vida municipal.
Não obstante as medidas proibitivas terem maior força de
lei em momentos de maior penúria, o certo é que em anos de
abundância estas apresentavam-se como prejudiciais aos vizinhos
das ilhas produtoras: Tenerife, La Palma e Fuerteventura. Era,
no entanto, a situação dos mercadores, obrigados à troca das suas
mercadorias por trigo. Daí a reivindicação dos moradores do
direito de exportar metade da sua colheita, no que a coroa apenas
concordou com um terço. Mesmo assim o cabildo passou a exercer
um controle rigoroso sobre esta parte, ao definir como
obrigatória a solicitação de licença para exportar e, mesmo,
revogando essa regalia em momentos de penúria, como sucedeu em
1522.
A cabildo de Tenerife perante a contingência da conjuntura
de crise e do movimento demográfico conclui que os dois terços
não são suficientes para o sustento da população, pelo que
ordena, a partir de Julho de 1522, que de todo o trigo a exportar
deveria ficar uma reserva de dez por cento às ordens da Câmara,
a fim de ocorrer aos momentos de falta. De modo a controlar-se
o cumprimento desta ordenação regulamentara-se a obrigatoriedade
do registo do cereal a exportar e a solicitação da respectiva
licença ao cabildo, ao mesmo tempo que se estabeleciam guardas
de vigia nos portos.
Quer em S. Miguel, quer em Tenerife, os produtores e
mercadores, entre os quais se colocavam o capitão donatário, o
senhorio e alguns funcionários concelhios e régios, usavam de
todos os subterfúgios para fazer sair o seu trigo, agravando
deste modo a situação de penúria cerealífera.
No mercado consumidor carente toda a política cerealífera
incidia a dois níveis no seu comércio: primeiro procurnado
assegurar o normal abastecimento de trigo, por meio de incentivos
à sua introdução; depois através do controle dos circuitos de
fornecimento de mercado local, evitando a sua saída, sob a forma
de grão ou de biscoito. Ao nível da Madeira define-se a actuação
da vereação funchalense; primeiro, com o estabelecimento de
contratos copm alguns mercadores para meterem anualmente o trigo
necessário ao provimento dela, pagando-se a descarga, do sacos
e a loja; depois, com a abertura total do mercado à sua
introdução, por meio da isenção da dízima de entrada. Caso
estas medidas não fossem suficientes, então a vereação punha em
prática o seu plano de emergência, que consistia na actuação
junto dos mercadores e mestres de navios, obrigando-os a
descarregar o trigo que conduziam ao reino ou às Canárias, ou
então forçando-os a irem buscar o trigo aos Açores ou outras
partes. A esta orientação aliavam-se as ordenações régias de
1508 a 1521, que tornavam obrigatória a rota do fornecimento de
trigo açoriano ao mercado madeirense.
Assegurados os circuitos de abastecimento do mercado
funchalense, tornava-se necessário controlar e regulamentar os
circuitos internos de distribuição e venda, de modo a evitar-se
o açambarcamento e a especulação. Neste caso a vereação actuava
com medidas drásticas, quer por meio do exame das lojas pelos
amotacéis, quer lançando pesadas multas aos infractores. Ao
mesmo tempo, desde 1496 proibira-se a saída deste cereal, até
mesmo para o fornecimento de naus que escalavam a ilha pois,
segundo se dizia, estas deveriam vir devidamente providas de
Lisboa.
Idântica situação encontra-se definida no arquipélago
canário nas ilhas da Gran Canaria, La Gomera, onde estava
regulamentada a proibição de saída, e medidas de apoio aos
circuitos e rotas abastecedoras com origem em Lanzarote, Tenerife
ou Fuerteventura. A ilha de Gran Canaria tinha em Tenerife o
celeiro de abastecimento anual, mas tal como sucedia na Madeira
em relação aos Açores, esse provimento despoletou vários litígios
entre as duas ilhas no período de 1531-1603, devido à segunda se
negar a esse fornecimento; pelo que respeita a La Gomera, o
trato foi assegurado por cédula de 1521.
Se é certo que as medidas atrás enunciadas atestam o
interesse do concelho em assegurar o normal funcionamento dos
circuitos de abastecimento de modo a evitar-se qualquer situação
de penúria ou de fome, também é verdade que as mesmas
documentam, de modo evidente, a premência da crise, resultante
do esgotamento do solo e, acima de tudo, do aumento da população
insular. Assim, ao nível das áreas produtoras, as medidas
regulamentadoras do comércio do cereal surgem com maior acuidade,
apontando para uma nitída tendência da sua proibição.Tal como
sucede nos Açores, desde a década de 30 do século XVII e, em
Tenerife, a partir de 1564-65, evidenciando-se nesta última a
partir de princípios do século XVII. Deste modo se as crises de
1502, 1506, 1521 e 1546 surgem como fenómenos isolados,
articulando-se com as más colheitas, ocasionadas por factores
sazonais, o mesmo já não se poderá dizer em 1574, 1604, 1616,
1625, em que se nota uma marca evidente da crise estrutural, cujo
agravamento se salienta de modo periódico em ciclos decenais.
esta situação da economia cerealífera da Canárias repercutir-se-á
de modo evidente no mercado madeirense, que tinha nesse
arquipélago uma fonte importante de abastecimento, em 1589 e
1596.
TÉCNICAS
A NAVEGAÇÃO
A navegação no mundo insular deriva não só de factores
implícitos ao próprio meio geográfico, mas de igual modo da
premência de vectores e solicitações externas, resultantes do
posicionamento desta área no mercado colonial e do estádio de
desenvolvimento dos meios e técnicas de navegação. Os acidentes
mesológicos serão perfeitamente ultrapassáveis mediante o avanço
da tecnologia naval.
Sendo esta vasta área insular dominada pelo oceano
Atlântico, seria inevitável que a vivência ribeirinha incidisse
fortemente no ilhéu e, ao mesmo tempo se verificasse um domínio
das vias de comunicação marítimas, inclusive contactos internos.
O mar será assim o elo de ligaçaõ e separação. O ilhéu viverá
sobre o fascínio desta enorme massa de água.
VIAS DE COMUNICAÇÃO E MEIOS DE TRANSPORTE
As vias de comunicação e os meios de transporte são
factores determinantes do desenvolvimento sócio-económico de uma
dada região; tais factores são, de certo modo, os aferidores do
estádio da sua evolução. É, por outro lado, evidente a
interconexão entre eles e as actividades económicas, pois o valor
mercantil implica a existência de meios e circuitos adequados
para o seu escoamento; além disso, a facilidade de contacto ou
de transporte poderá condicionar de modo positivo o nível e
desenvolvimento da economia de áreas determinadas. A este
propósito é muito esclarecedora a análise comparativa que Gaspar
Frutuoso faz das ilhas açorianas e das Canárias: "A ilha de
Tenerife dizem que foi a quarta conquistada e é logo a segunda
ilha depois de Gran Canaria, principal de todas as outras, ainda
que a Palma o seja nas armadas e navegações, como, entre estas
ilhas dos Açores, a mais rica e principal é esta ilha de S.
Miguel, pois ela rende só mais que todas as outras juntas, mas
a ilha Terceira, além de ser mais principal por ser a cabeça do
bispado, o é também por a razão das escalas, armadas e navegações
que ali vão ter em diversos tempos".
Para o mundo insular o mar é o elo de ligação e meio de
comunicação mais importante. No caso do Mediterrâneo Atlântico
esta permissa torna-se mais clara em virtude da descontinuidade
e heterogeneidade do solo e da costa. Num parco espaço terrestre
disseminado por dezoito ilhas com um solo acidentado e uma costa
alta e escarpada, não é dificil de compreender a dificuldade que
aí se depararam nas comunicações internas e externas. Elias
Serra Rafols, a propósito desta realidade, enuncia de modo
esclarecedor: "Para compreender esta vida insular, hay que tener
siempre presente esto: que se trata de islas (...) todo tiene que
venir de fuera o ha de salir pera fora. El camino del mar lo es
todo, vida material espiritual, riqueza y saber; en el tiene todo
su origen y su fin".
Sendo certa a importância primordial do oceano Atlântico
nas comunicações insulares e deste com o litoral afro-esuropeu-
americano, não menos o serão em termos restritos das vias de
comunicação terrestres, pois é por seu intermédio que se escoam
os produtos para os mercados ou postos do litoral, a partir dos
quais entram nos circuitos comerciais locais e internacionais.
Não obstante o interesse das autoridades municipais na abertura
e preservação dos caminhos, nota-se em todo o mundo insular a
insuficiência de vias de comunicação terrestre e a ineficácia das
referidas ordenações.
A importância das comunicações por terra no espaço insular
relaciona-se com a formação orográfica de cada ilha. Assim,
enquanto na Madeira elas são relativizadas, em S. Miguel,
Terceira, Tenerife e Gran Canaria apresentar-se-ão como
fundamentais para a economia local. Na Madeira os meios e vias
de comunicação terrestres apenas ganham importância a partir de
finais do século XVIII, sendo assim relativa a actuação dos
carreteiros, dos boieiros e, mesmo, de bestas de carga na vida
local. Toda a economia madeirense é dominada pelo mar e define-se
pela litoralidade da sua implantação sócio-geográfica.
O mesmo não sucede nas ilhas de Gran Canaria e Tenerife,
onde há a preocupação de traçar uma rede viária que ligue os
canaviais aos engenhos e estes aos portos de cabotagem ou de
exportação. Assim, deparamo-nos nestas ilhas com uma elevada
valorização dos agentes de transporte, sendo numeroso o grupo de
carreteiros, de almocreves, de cameleiros, bem como de bestas de
carga. Estas profissões e actividades merecem uma regulamentação
constante por parte dos cabildos. Pelas mesmas razões é elevado
o número de reclamações dos carregadores da ilha de S. Miguel
pela abertura e pela reparação de caminhos. Aliás estes eram
um importante meio de contacto entre o principal porto de
comércio com o exterior - Ponta Delgada - e as áreas produtoras
de pastel e trigo. Os contactos com a Ribeira grande faziam-se
por via terrestre e eram assíduos. havendo para o efeito um
numeroso grupo de carreiros.
A insuficiência das comunicações terrestres evidencia a
importância de actuação das vias marítimas materializadas numa
teia complicada de rotas de cabotagem. A sua preferência é muitas
vezes relativizada em face dos acidentes e adversidades da costa
e do mar, pois os ventos e as correntes marítimas dificultam a
sua utilização. A Madeira, devido aos condiconalismos de ordem
geográfica e climática, apresentava reduzidas possibilidades para
o desenvolvimento das vias e meios de comunicação terrestres e
marítimas. Esta condição limitou as possibilidades de
desenvolvimento económico, fazendo restringir essa actuação à
faixa litoral sul entre Machico e a Calheta, espaço recheado de
enseadas e calhetas para o necessário movimento de cabotagem.
Assim surgem portos em Machico, Santa Cruz, Funchal, Ribeira
Brava, Ponta de Sol e Calheta. O transporte da produção de
açúcar da Calheta do ano de 1509 para o Funchal fez-se por
barqueiros, em conjunto ou individualmente; executava-se ao longo
de todo o ano, mas habitualmente no período da safra e de maior
exportação, entre Março e Julho.
Até 1508 todo o movimento de contactos com o exterior era
feito a partir do Funchal. Daí que existisse um contínuo
movimento de cabotagem, entre este porto e os restantes da ilha,
para o escoamento do açúcar. A partir de então, ao ser
permitida a carga e descarga para a exportação do açúcar,
contribuiu-se para a valorização dos portos das partes do fundo
em detrimento do Funchal. Esta situação manteve-se por pouco
tempo, pois no ano imediato a medida foi revogada.
O porto do Funchal surge no dealbar do século XVI como o
principal entreposto madeirense do comércio atlântico. A zona
ribeirinha do burgo funchalense, em redor da alfândega nova, era
o principal pólo de animação. Aí convergiam mercadores,
carreteiros, barqueiros, mareantes e curiosos.No calhau havia-se
instalado em 1488 o cabrestante, cuja exploração foi concedida
em regime de monopólio a João Fernandes Mauzinho, com o foro
anual de cem reais. Desde 1568 a sua exploração seria entregue
a uma sociedade, passando em finais do século a ser explorado por
diversos mareantes que aí construíram um número variado de
cabrestantes.
O município aforava não só a instalação do cabrestante, mas
também as casas e os chãos necessários para a actividade desses
mareantes e barqueiros. O foro de um cabrestante variava entre
duzentos a trezentos reais, enquanto o de um chão ou casa se
cifrava em trezentos reais.
O arquipélago açoriano,compartimentado por novas ilhas,
define-se por diversas assimetrias, evidenciadas pelo relevo,
pela estrutura e pelo clima, que conduziram a um desenvolvimento
sócio-económico desarticulado e variado. A diversidade bem como
a complementaridade da estrutura sócio-económica açoriana
conduziram à definição de uma rede complicada de rotas de
cabotagem nas ilhas e entre elas. Deste modo as comunicações
marítimas serão de uma importância primordial na sua economia.
Aliás, o próprio arrumar das culturas nas ilhas foi comandado por
esta importante via de comunicação.
O desenvolvimento das infraestruturas portuárias do
arquipélago fez-se de acordo com a importância das ilhas na
economia insular e atlântica. Por estas razões vemos desenvolver-
se no século XVI dois portos importantes: Ponta Delgada e Angra,
o primeiro para servir o comércio do pastel e dos cereais de S.
Miguel e o segundo para o apoio à navegação atlântica. Além
disso, em ambos existe uma clara intervenção nos circuitos de
redistribuição e escoamento do mercado açoriano.
Tal como na Madeira, No arquipélago das Canárias o
movimento de cabotagem está dificultado pelas condições geo-
climáticas da área; não obstante este meio era preferido ao
terrestre, pois o transporte de produtos dentro das diversas
ilhas fazia-se habitualmente por mar; por isso o cabildo de Gran
Canaria e Tenerife apostavam mais na construção e reparo dos
portos locais de cabotagem do que nos caminhos de penetração.
Lobo Cabrera refere que o mundo do mar galvanizou os
canários e que essa navegação marítima surgiu e se alicerçou nas
pescarias, no comércio de cabotagem e de longa distância. O
mesmo autor define ao nível das infraestruturas portuárias dois
tipos de portos, de acordo com o seu vocacionamento: portos de
destino e de despacho; aliás, adquiriram variadas designações,
de acordo com a dominância de determinados sectores de actividade
e das áreas geográficas com que se relacionavam.
A existência desta variedade de portos nas Canárias não
implica uma acção descentralizadora dos circuitos comerciais,
pois tanto em Tenerife,como em Gran Canaria surge um porto que
se afirma com entreposto ou área charneira para onde convergem
as rotas de cabotagem e donde divergem os circuitos dos
principais produtos, como o açúcar e cereais. Assim em Gran
Canaria o Puerto de Las Isletas e de la Luz, em Tenerife o Puerto
de Santa Cruz e Garachico. Nos registos de fretamento do
séculoXVI (1507-1551), já publicados, esta situação surge com
certa evidência: No global temos 64% com origem em Santa Cruz e
26% em Las Isletas, sendo apenas 10% dos restantes portos de Gran
Canaria e Tenerife.
A partir dos principais portos processa-se todo o movimento
comercial da ilha, pois os portos secundários apenas surgem como
escalas intermédias para se proceder à carga; elas aparecem em
33% dos fretamentos em causa, circunscrevendo-se aos portos de
Taganana, Sardina, Agaete, Garachico, Abona, La Orotava e Taoro.
Por vezes as embarcações de cereal ou de açúcar para
exportação faziam o circuito de cabotagem para carregarem o
produto, voltando depois aos portos de Las Isletas ou Santa Cruz
donde seguiam o rumo definido. Em Tenerife, das quarenta e sete
embarcações saídas de Santa Cruz, entre 1507 e 1520, seis fizeram
esta escala nos portos de Taoro, Abona, Garachico e Taganana. Em
Gran Canaria apenas se verifica a escala na rota nos portos de
Agaete e La Orotava, mas sem o retorno ao ponto de partida. De
um modo geral nessa ilha as referidas embarcações não fazem
qualquer escala de carga, pois ao Porto de Las Isletas vinham
parar todos ou quase todos os quantitativos de açúcar de
exportação.
Nas restantes ilhas do arquipélago os portos existentes
serviam apenas o movimento de cabotagem, fazendo escoar os seus
produtos para os principais centros de comércio em Las Palmas e
Santa Cruz. Apenas as ilhas de La Palma e Gomera contrariam esta
tendência, mercê da sua actuação como portos de escala para as
naus das rotas atlânticas.
A CONSTRUÇÃO NAVAL
Sendo o mar o meio de comunicação mais usual e importante
da comunidade insular, teremos de admitir que a construção naval
tenha aí adquirido grande relevo; ela surge não apenas com a
finalidade de assegurar o fornecimento de embarcações de
cabotagem, mas também para dar apoio à navegação atlântica, no
reparo das embarcações fustigadas pelos acidentes ou pelas
tempestades oceânicas.
Os estaleiros de construção e reparação naval proliferavam
nas principais ilhas do meio insular, sendo esta actividade
transformadora regulamentada e apoiada pelas autoridades locais
e centrais, que, por exemplo, asseguravam as licenças necessárias
para o corte das madeiras e definiam as dimensões e capacidade
das embarcações a construir.
As madeiras da ilha da Madeira foram muito apreciadas no
século XV na cosntrução naval, no reino e na ilha. O seu uso
imoderado nestas e noutras actividades cinduziu à paulatina
desarborização da ilha, pelo que as autoridades concelhias
actuaram no sentido da defesa do parque florestal madeirense,
restringindo o uso das madeiras a sectores essenciais da vida
local. Deste modo proibiu-se a exportação de tabuado e limitou-se
a construção naval à construção de caravelões a barcas "pera
serviço e maneo das cousas e negocios da ylha...". Em 1515
especificava-se que a madeira apenas deveria satisfazer as
necessidades da pesca do carreto, sendo interdita a sua venda
para fora. Por esta razão em 1541 é incriminado André Lourenço,
mestre de moinhos de açúcar em Santa Cruz, por ter construído uma
embarcação de maiores dimensões do que as permitidas no
regimento.
Os estaleiros de reparação e construção naval da Madeira
situar-se-iam no Funchal, principal porto da ilha e em Machico
sede da capitania do norte, onde as madeiras eram abundantes.
Nos Açores promovera-se, desde o início da sua ocupação,
a construção naval. Esta actividade ganhou importância nos
séculos XV e XVI nomeadamente nas ilhas de S. Miguel e Terceira.
Gaspar Frutuoso na sua crónica das ilhas refere-nos a existência
de vários estaleiros de construção naval em S. Miguel: Fenais da
Luz, Porto Formoso, Lagoa, Porto dos Bateis, Ponta Delgada e
Povoação. Para a Terceira alude apenas aos estaleiros de Porto
de Pipas e Prainha, dizendo que na cidade de Angra eram cinquenta
os carpinteiros de ribeira.
Este numeroso grupo de estaleiros, apenas nas duas ilhas,
atesta a importância que esta actividade assumiu nos Açores no
século XVI. No entanto as dificuldades no fornecimento de
madeiras conduziram à sua delimitação em 1594, altura em que se
restringiu a sua construção apenas a embarcações até 40 toneladas
e, ao mesmo tempo, se interditava a sua venda para fora.
Nas Canárias a construção naval teve idêntico relevo nas
actividades transformadoras. A riqueza de madeiras e as
necessidades da navegação de cabotagem e das rotas atlânticas
fortaleceram esta arte. Mas num segundo momento as dificuldades
no abastecimento de madeiras e pez, em consonância com os
problemas de desarborização, conduziram à sua limitação. Os
cabildos de Tenerife e Gran Canária passam a controlar o corte
de madeiras mediante a passagem de licenças.
As limitações impostas à construção naval nesta ilha
conduziram à aquisição de embarcações nos estaleiros navais da
Península. Assim, no caso das Canárias, mais própriamente em
Tenerife, há notícia da compra de vinte e sete embarcações, na
sua maioria a Portugal. O preço destas variava de acordo com o
tipo, a tonelagem e a capacidade da embarcação.
O FRETE
O contrato de frete, lavrado junto do notário sob a forma
de carta de fretamento ou conhecimento, defenia as formalidades
do contrato, a capacidade e o volume da mercadoria a carregar,
os portos de destino e de escala. O tempo de demora e a forma e
o local de pagamento. O seu preço era estabelecido de duas
formas: no global ou de acordo com a tonelada, pipa, caixa ou
carga. Variava de acordo com uma diversidade de factores:
finalidade e destino da viagem, tonelagem da embarcação e a carga
a transportar; juntavam-se-lhes variações sazonais e anuais. O
pagamento fazia-se à altura do embarque na moeda da terra, ou no
porto de destino.
Nas Canárias os contratos de frete, com o objectivo de
resgate e comércio na costa ocidental africana adquiriram outra
forma. Assim, a embarcação era fretada na totalidade por períodos
de um mês, ficando o fretor sujeito ao pagamento das averias, da
soldada e do mantimento da tripulação. O frete variava entre os
cinco mil setecentos e sessenta e os trinta e cinco mil trezentos
e setenta maravedis.
Ao nível de movimento de cabotagem o custo do transporte
dos produtos variava de acordo com a distância, a mercadoria e
o período do ano em que se assentava. Na Madeira, em 1503, o
frete de um batel para ir aos lugares de baixo (Calheta-Ponta de
Sol-Ribeira Brava) orçava os trezentos e cinquenta reais,
passando em 1516 para quatrocentos reais. E em 1505 o
transporte de passageiros entre a Ribeira Brava ou Calheta orçava
os cento e cinquenta reais cada. O aumento significativo do
seu custo só se fazia sentir nas ligações com a costa norte,
mercê da demora e das dificuldades do percurso. Em 1517, por
exemplo, o transporte de um mastro de barbusano ao Funchal ficou
por dois mil e quinhentos reais.
Saliente-se que os trezentos reais que em 1505 davam para
uma viagem do Funchal à Calheta, em 1591 apenas dão para despesas
de transbordo no calhau do porto do Funchal. Esse percurso ficará
então por cinco vezes mais.
As relações entre os três arquipélagos eram assíduas, mercê
dos contactos estabelecidos para o transporte de produtos e
passageiros. Entre as Canárias e a Madeira mantem-se uma rota de
fornecimento de pez e trigo. Os custos de transporte de pez
variavam entre quinhentos e setecentos maravedis a tonelada e do
trigo entre trinta e três e quarenta e cinco maravedis o quintal.
No global o frete do navio oscilava entre os doze mil e os
dezassete mil e quinhentos maravedis. Note-se que em 1511 se
mantinha o mesmo preço por tonelada de cevada a exportar para o
Funchal e Faial. O trigo açoriano com destino ao Funchal era
onerado entre mil e mil e seiscentos e cinquenta reais por
tonelada.
Nos contactos com o exterior o preço do frete variava de
acordo com o porto de destino e o número de escalas intermédias.
Assim, da Madeira e dos Açores ao reino o frete custava em 1591
setenta mil reais. Das Canárias para o mesmo destino ele podia
oscilar, em 1520-1521, entre os quatrocentos e sessenta maravedis
por tonelada para Lisboa e Setúbal e os quinhentos para
Aveiro. De Tenerife para Castela, em 1510-1511, o frete
variava entre os seiscentos e cinquenta maravedis para Galiza e
os quinhentos e cinquenta e quatro para Cádiz. O açúcar
transportado desde Las Isletas até Cádiz era contabilizado a
quatro reais de prata em 1511, e seis e meio em 1572, à caixa.
Para Génova ficava em um ducado de ouro a caixa (em 1519),
chegando a atingir em 1531 a quantia de quinze reais de prata.
Para Anvers o seu preço cifrava-se, em 1533-1534, em cinco
ducados ouro.
MEIOS DE PAGAMENTO
A moeda e os usuais meios de pagamento são um factor
importante e activador do movimento de troca. Aliás o progresso
da actividade comercial depende, em última instância, de situação
monetária e das condições de crédito. No caso concreto das ilhas
atlânticas, onde se afirmará uma economia colonial, o instrumento
de troca de uma acção primordial na estrutura económica insular.
A moeda e seus substitutos são necessários para a compra
de manufacturas de importação e aquisiçaõ dos bens essenciais de
que a sociedade insular carece, pois os produtos dominantes não
perfazem nem contrabalançam essa entrada. A situação monetária
das ilhas não se apresentava diferente, pois que em todas é
dominante a falta do metal amoedável e da sua circulação. Esta
é, assim, a característica dominante da sociedade insular, que
condiciona de modo vincado as operações financeiras e contribui
para o entorpecimento das relações de troca.
Esta falta crónica de moeda tornou necessária a criação de
novas formas de pagamento e condicionou o aparecimento de novos
instrumentos de troca. Assim, ter-se-ia generalizado nestas ilhas
o pagamento em géneros, a troca produto a produto e, em circuitos
mais amplos, o crédito, a letra de câmbio e o trespasse de
dívidas.
Como medida padrão do sistema de troca produto a produto
vigora em cada área e em cada época o produto ou produtos
dominantes e mais importantes em termos sócio-económicos. Este
câmbio-vertical da moeda apresentava-se muito prejudicial aos
insulares, uma vez que os mercadores nacionais e estrangeiros,
que detinham o controle dos circuitos de importação, apresentavam
os seus produtos a um preço mais favorável em relação aos
produtos de troca locais: pastel, trigo e açúcar.A dominância
desta tendência monocultural e a dependência dela decorrente em
relação ao mercado externo contribuiram para o reforço da posição
estrangeira, o aumento especulativo dos produtos e das suas
transacções, e o agravar da situação financeira.
A moeda corrente nas ilhas era a mesma do mercado hispânico
continental. As coroas de Portugal e Castela mantiveram sempre
como privilégio seu a cunhagem da moeda. Esta situação não
invalida a existência de cunhagens especiais com destino às
ilhas, bem como a circulação uniforme de moeda portuguesa e
castelhana nos três arquipélagos. A primeira situação surge
apenas nas Canárias em 1511 e 1513 com a cunhagem da moeda em
Sevilha; a segunda aparece desde os primórdios destas sociedades
como resultado das interconexões sócio-políticas e económicas dos
três arquipélagos. A moeda de prata castelhana , porque se
apresentava como a moeda forte, alastrará a todo o mundo
atlântico, dominando todas as relações de troca; circulou com
abundância no mercado madeirense desde princípios do século
XVI. As autoridades locais tendo em atenção essa situação
regulamentaram desde meados do século o seu valor corrente, que
passará a ser trinta e seis reais. Nas Canárias, ao invés,
circulavam os ceutis portugueses, que invadiam o mercado
financeiro canário em face da valorização da moeda de ouro e
prata espanhola; as transações do mercado interno implicavam a
existência de uma moeda e o ceutil português era a mais indicada.
As questões e soluções adequadas para o sistema financeiro
insular não eram uniformes; pelo contrário, entre as ilhas
portuguesas e espanholas apresentavam-se assimetrias. Assim,
enquanto nas Canárias se procedia à valorização da moeda (1500-
1509, 1521), como forma de assegurar a estabilidade do mercado
financeiro, na Madeira e nos Açores, mercê da política financeira
portuguesa, actuava-se no sentido inverso, com consecutivas
desvalorizações.
A incidência da questão financeira no mercado insular foi
igualmente preocupação dos munícipios, que intervinham no sentido
de assegurar a estabilidade do mercado monetário local,
procurando colmatar os problemas derivados da urgente falta de
moeda. Em Tenerife, desde finais do século XV, o respectivo
cabildo, definiu a sua política financeira, que assentava nas
seguintes directrizes:
- aumento da produção da riqueza local por meio do
incentivo à produção com valor mercantil,
- incentivo à fixação de artesãos como forma de
contrabalançar o movimento de troca com o exterior,
considerado a principal causa de sangria monetária,
- dinamização e institucionalização do sistema de trocas
por produtos (cereais, açúcar) de acordo com um
tabelamento de preços pré-estabelecidos nas posturas e
acórdãos,
- obrigatoriedade dos mercadores efectuarem os seus
pagamentos em moeda e de arrecadarem as dívidas locais
em produtos, de acordo com o preço estabelecido,
- probição de saída da moeda.
Em finais do século XV e princípios do século XVI o cabildo
ordena que os cereais e o gado sejam considerados como moeda de
troca, tendo os mercadores de os aceitar a troco dos seus
produtos. A valorização sócio-económica do açúcar obrigou a
uma nova reformulação do sistema de trocas, passando este produto
a actuar como medida, a partir de 1508. Nesse sentido poderá
considerar-se que os cereais e o açúcar se mantiveram por todo
o século XVI como os principais produtos e instrumentos de
troca. Na Madeira e nos Açores a situação financeira é
idêntica e, de igual modo, os produtos dominantes terão uma acção
fundamental na organização do sistema de troca, Os cereais, o
pastel, o açúcar e o vinho surgirão em cada época como uma moeda
de troca.
Na Madeira , a dominância de cultura da cana sacarina
até a primeira metade do século XVI, fará com que o açúcar seja
utilizado como meio de pagamento no mercado local e
internacional; o açúcar era usado não só no pagamento de soldadas
e dos serviços de lavra e safra açucareira, mas também para pagar
o trigo e cevada importados dos Açores. A coroa, por vezes,
servia-se dos seus réditos para fazer os pagamentos, em pimenta
da casa da Índia, das despesas da coroa e das encomendas.
O lavrador e o proprietário do engenho serviam-se
usualmente do produto da sua safra para o pagamento da mão de
obra assalariada de que necessitavam. Entre 1509 e 1537 há
referência a diversos pagamentos em açúcar por serviços prestados
na lavoura e na laboração do engenho e, mesmo, na compra de
qualquer manufactura ou prestação de serviço artesanal.
Os pagamentos aos serviços da safra do açúcara tingem 31%,
sendo 17% no cultivo e apanha de cana e o restante nos serviços,
sendo dominados pelos sapateiros (28%) e ferreiros (25%).
As obrigações de pagamento do trigo açoriano com açúcar
surgem apenas entre 1509 e 1519. No global temos 43% em moeda e
57% em açúcar. Neste curto período de dez anos movimentaram-se
946,5 arrobas de açúcar em troca de 235,5 moios de trigo, o que
dá em média quatro arrobas de açúcar por moio de trigo, avaliado
em cerca de mil reis.
Esta característica da economia e das finanças das ilhas
não era a mais conveniente para o desenvolvimento do comércio
externo do mercado insular; para além de entorpecer os circuitos
de troca e de prejudicar os habitantes das ilhas e os
estrangeiros, conduziu à paulatina subordinação da economia ao
mercado europeu que aí surgia em condições vantajosas com as suas
manufacturas. O ilhéu, não dispondo destas e perante a penúria
da moeda, via-se obrigado a recorrer à venda antecipada e às
hipotecas ou empréstimos. Desta forma os mercadores adquiriam as
manufacturas a preços elevados e sujeitavam-se a entregar os
cereais e o açúcar a preços inferiores.
Perante tal exorbitância dos mercadores estrangeiros, os
municípios actuaram no sentido de regularizar a situação,
traçando normas de conduta mais convenientes. Primeiro
estabeleceram o preço porque deviam ser vendidos os produtos,
depois coibiram os mercadores de tais práticas fraudulentas.
As dificuldades do sistema monetário não implicaram apenas
os recursos à troca produto a produto, mas de igual modo a
procura de outras formas de pagamento substitutivas da moeda,
então em voga na Europa: a carta ou letra de Câmbio e o trespasse
de dívidas em dinheiro ou produtos.
Segundo Enrique Otte, Las Palmas surge no século XVI como
uma importante praça bancária, situando-se ao nível das de Medina
del Campo e Valência. Os genoveses detinham aí a maior parte
do movimento de cédulas.
Na Madeira, como nos Açores, a letra de câmbio teve igual
importância nas transacções comerciais com o exterior. Este meio
de pagamento activou o trato do açúcar, sendo usual nas trocas
com o reino, nomeadamente Lisboa. A existência de uma
importante comunidade de italianos e de flamengos, ligados ao
comércio do açúcar com as principais praças europeias, contribuiu
para a generalização desta forma de pagamento. Os florentinos
experientes nas transacções financeiras, surgiram também com
grande vidência, sendo particularmente importante a acção de
Feducho Lamoroto e de Francisco Lape.
COMPANHIAS E SOCIEDADES COMERCIAIS
A empresa comercial no atlântico, pelo investimento do
capital que implicava, pelas dificuldades e longas viagens entre
as principais praças, pelo risco constante a que sujeitava homens
e haveres, não poderia ser uma iniciativa isolada dos
interessados. Apenas com uma redistribuição equitativa de capital
investido, perdas e lucros, se torna possível a manutensão desta
rede de negócios. Assim, especializam-se as tarefas e surgem os
tratantes, os transportistas, os seguradores e o societário. Ao
mesmo tempo adaptaram-se a este movimento as estruturas que
fundamentam o comércio mediterrâneo-europeu. Surgem, Assim, as
sociedades comerciais, os contratos de frete e o sistema de
seguros, a dar cobertura a essa aspiração de segurança,
estabilidade e expansão da burguesia comercial e marítima
europeia.
A sua divulgação e institucionalização ficaram a dever-se
aos mercadores italianos e alemães que chegavam às ilhas atraídos
pelo comércio do açúcar, do pastel e da urzela. Já instalados nas
praças de Lisboa, Sevilha e Cádiz, alargavam a sua acção às
principais cidades portuárias insulares: Funchal, Ponta Delgada,
Angra, Las Palmas, Santa Cruz (Tenerife) e Garachico.
Subestabeleciam as tarefas a desempenhar em familiares ou
concidadãos com o estatuto de societários, de agentes ou de
procuradores. Os Welsers, por exemplo, tinham um feitor em Lisboa
(Lucas Rem) e vários agentes subestabelecidos no Funchal e em La
Palma.
A forma mais divulgada de associação e de alargamento da
rede de negócios foi a companhia ou sociedade comercial, nas suas
diversas modalidades. Estas definiam-se, de um modo geral, pelo
seu caracter familiar, pela eventualidade da sua acção e por uma
composição variada de intervenientes, que investiam o seu capital
ou o seu trabalho.
Geralmente são empresas familiares, servindo-se os seus
componentes dos laços de parentesco para assegurar a permanência
da sua acção, a solidariedade e comunhão de interesses. Quando
tal se tornava impossível recorria-se aos compatrícios
avizinhados nas principais praças. Esta última forma surgiu com
assiduidade na Madeira.
Não obstante as companhias familiares terem à partida uma
tendência perdurável, de modo geral a associação de mercadores
assume um carácter temporário ou eventual. Todas as companhias
são formadas por um período determinado, e surgem com frequência
nas transacções comerciais entre as Canárias a Andaluzia e as
Índias: na Madeira assumem a mesma condição definidas para a
compra do açúcar das escápulas, dos direitos reais e também para
o arrendamento desses direitos por períodos determinados.
O relacionamento dos intervenientes nestas sociedades
fazia-se de acordo com o investimento na empresa: capital e
trabalho. Quando um dos societários apenas intervém com o seu
trabalho poderá ser definido como agente ou feitor. Por vezes
esses laços são de menor dimensão surgindo assim o procurador
que, mediante documento notarial, actua sobre a fazenda do seu
parceiro no mercado local, cobrando por isso uma determinada
percentagem. Ambas as situações aparecem com grande evidência na
praça funchalense, enquanto nas Canárias se afirma com muita
acuidade a segunda.
A rede de negócios funchalense, em torno do trato do
açúcar, foi criada e incentivada pelo mercador estrangeiro,
alemão ou italiano, que aí aportou depois da reconfortante e
vantajosa escala em Lisboa; ele dominou as principais sociedades
intervenientes no comércio açucareiro, não obstante ter morada
fixa em Lisboa, Flandres ou Génova; o seu domínio atingiu não só
as sociedades criadas no exterior com intervenção na ilha, mas
também o grupo de agentes ou feitores e procuradores
subestabelecidos no Funchal. A escolha destes é criteriosa;
primeiro os familiares, depois os compatrícios enraízados na
sociedade e, só depois, os madeirenses ou nacionais.
As principais casas intervenientes no trato açucareiro
madeirense sob esta forma, podem ser definidas de acordo com o
número de representantes, salientando-se entre eles Baptista
Morelli, B. Marchioni, Welser, Claaes, Charles Correa, pero de
Ayala e Pero de Mimença.
Os Welsers e Claaes intervêm na praça do Funchal por
intermédio de agentes estabelecidos em Lisboa, respectivamente.
Lucas Rem e Erasmo Esquet, que na ilha subestabelecem feitores.
O primeiro tinha como seus interlocutores no Funchal, em
princípios do século XVI, João de Augusta, Bono Broxone, Jorge
Emdorfor, Jácome Holsbuck, Leo Ravenspurger e Hans Schonid. Os
produtores e feitores, na sua condição de interlocutores dos
mercados europeus, não se ligam a uma única sociedade, mas
distribuem a sua acção por um grupo numeroso de societários; e
estes, por sua vez, não se prendem apenas a um representante,
pois fazem distribuir os seus poderes por um grupo razoável de
feitores e procuradores. Na primeira situação distingue-se Benoco
Amatori que representava B. Marchionni, B. Morelli, Álvaro
Pimentel e Jerónimo Sernigi, e, na segunda João Francisco
Affaitati que, entre 1500-1529, estava representado por Gabriel
Affaitati, Luca Antonio, Cristóvão Bocollo, Capella e Caeollani,
João Dias, João Gonçalves, Matia Manardi, Mafei Rogell e Lucas
Giraldi.
Fora do âmbito do trato açucareiro formam-se companhias com
objectivos definidos no comércio ou transporte. Assim em 1597
Rodrigo Fernandes Saía de Veloso, mercador, morador no Funchal,
contrata com Afonso Antunes, mercador, morador em Cabo Verde, o
comércio de chacina. Na mesma data surge uma nova sociedade
entre Manuel Vieira Jardim e António Gonçalves d'Araújo, para o
transporte e venda de trigo da ilha do S. Miguel. No sector
dos transportes, área onde o risco era maior, existiam também
companhias, em que intervinham mercadores e mareantes. Em 1597
referencia-se a venda de uma caravela pertença de uma sociedade
composta por António Rodrigues Torzilho, Domingos António e Diogo
Gonçalvez, a uma outra, composta pelos mercadores António Lopes
de Vila real e Manuel Gomes e pelo Mareante Pero Vaz.
O arquipélago açoriano, área privilegiada do comércio
transatlântico, foi igualmente atraído pelas sociedades
europeias, portuguesas ou não, que detinham os seus interesses
nessa área; elas surgem aí, com mais frequência, interessadas nas
riquezas locais ou nas que por aí passavam; estabeleciam
contactos com a burguesia e aristocracia locais, que se lhes
associavam com o estatuto de agente ou procurador.
Na praça de Angra fomos encontrar um mercador inglês,
Thomaz Barnes, associado a um compatrício seu, com interesses em
Canárias. E, em Ponta Delgada, Afonso Annes de Chaves surge
associado, em sistema de parceria, com Afonso Pires, vizinho e
morador no Porto; o primeiro comprometia-se a enviar ao Porto
vinhos, vinagres, castanhas e sardinhas, enquanto este lhe
enviaria couro de cordovão e toalhas de mão.
Nas Canárias as companhias não surgem apenas no sector
conercial, pois esta forma de associação alarga-se também ao
sector produtivo e aos transportes; é de referir em especial, no
sector produtivo, a aquisição em 1513, pelos Welsers, de
importantes canaviais em Tazacorte (La Palma), que depois
trespassaram aos seus agentes, Juan Bissan e Jácome de
Monteverde. Em Gran Canaria são frequentes os contratos de
companhia entre os lavradores de açúcar e os mercadores ou mesmo
entre os primeiros e os canavieiros.
As sociedades comerciais canárias actuam de modo diverso
em três partes distintas - mercado europeu nórdico e
mediterrânico, no litoral africano e no litoral americano. Nas
praças de Las Palmas, Santa Cruz e Garachico formam-se
sociedades, compostas por mercadores locais e forasteiros, com
o objectivo de comerciar nessas três partes. Geralmente chegam
aí a partir de Sevilha e Cadiz, as principais sociedades
europeias que subestabelecem o tratamento dos seus interesses em
feitores ou procuradores.
Em 1518 forma-se em Cádiz uma sociedade para comerciar
entre Castela e Tenerife, sendo composta por dois mercadores
residentes nesta ilha, Huan Pacho e Gaspar Jorba, e outro em
Castela, mas com larga experiência no comércio canário, Lorenzo
Garcia. Quando ela termina, em 1520, dois dos seus
intervenientes, Juan Pacho e Lorenzo Garcia, criam nova sociedade
por quatro anos. O êxito destas iniciativas, bem como a
possibilidade de alargamento da rede de negócios à Flandres e
Berberia, fê-los fundar em 1533 uma nova companhia, conjuntamente
com Lucas del Burgos e Diego Rodrigues.
Com os mesmos objectivos surgiu em 1536 outra companhia,
fundada por três mercadores de Barcelona; pretendiam comerciar
o açúcar das Canárias e escravos, tendo Cádiz como centro de
redistribuição. A estes seguiu-se, em 1574, nova iniciativa de
mercadores de Barcelona com idêntico objectivo.
Nesta trama de relações comerciais entre a Andaluzia e as
Ilhas Canárias dominam acima de tudo, as companhias de
familiares, em que se conjugam os laços de parentesco com os
comerciais. As principais famílias italianas, flamengas e
andaluzas, organizadas ou não em sociedade, subestabeleciam
familiares seus nas principais praças destas ilhas,nomeadamente
em Las Palmas, Garachico e Santa Cruz. Aí encontramos os
Sopranis, Coronas, Veintinigla, etc.
AGENTES
Os agentes poderão considerar-se como elemento fundamental
e activador de todo o sistema de trocas. São eles que executam
as principais tarefas inerentes ao movimento de circulação dos
produtos.
Numa sociedade nascente, a preocupação primordial dos seus
vizinhos assenta na necessidade de assegurar a subsistência. A
criação de excedentes e o recurso aos produtos com valor
mercantil surgem num segundo momento. Só então se fazem sentir
as necessidades decorrentes do sistema de troca, tornando-se
necessário viabilizar e institucionalizar uma estrutura de
mercado adequada às dimensões das permutas internas e externas;
as autoridades régias e locais terão nessa fase uma actuação
importante.
Numa sociedade essencialmente agrícola, em que a maioria
da população se dedica quase em exclusivo à faina do
aproveitamento da terra e a actividades artesanais subsidiárias,
torna-se difícil o recrutamento desses novos agentes económicos.
A juntar-se a tudo isto verifica-se o domínio de uma mentalidade
ruralizada, e insufuciência de meios e de bens disponíveis para
uma actividade de tal índole.
A sociedade insular define-se pelo seu carácter agrário.
A agricultura ocupa a quase totalidade da sua população. O sector
artesanal alia-se, muitas vezes, ao agrário, enquanto o sector
comercial, embora ligado a essa realidade, mantém um certo
distanciamento. O grupo de agentes de transporte e do comércio
fixa a morada no burgo ribeirinho, afirmando-se nesse meio como
um estrato sócio-económico importante e animador do quotidiano
das vilas e cidades. Não obstante, a sua representatividade na
população insular é muito reduzido, isto é 3 a 4%. Na Madeira
essa percentagem atinge os 7%, enquanto nas Canárias não
ultrapassa 3% e ficando-se nos Açores apenas em 0,5%. Estes dados
comprovam o carácter marcadamente rural da sociedade açoriana,
em contraste com uma tendência mercantilizadora das sociedades
madeirense e canária. A posição dominante da Madeira resulta do
desenvolvimento sócio-económica, ao longo do século XVI, em que
se denota a constância e a afirmação do sector mercantil. Aliás,
toda a exploração agrícola, desde meados do século XV, estava
subordinada a este sector. Recolher-se-iam produtos, como o
açúcar e o vinho, cujo fim primordial é o fornecimento do mercado
externo europeu ou o americano e o asiático; daí a forte
implantação dos agentes de transporte e comércio. O mesmo não
sucederá nos Açores, onde predominará uma agricultura de
subsistência, em aliança com uma produção com valor mercantil:
trigo, pastel. As Canárias, por seu turno, debater-se-ão entre
uma exploração de subsistência e outra de mercado, sendo a
actuação das autoridades régias e locais no sentido de manter um
equilibrio adequado entre o cereal eo açúcar.
Esta inadequação ou inapetência do insular para as
actividades que o desliguem da terra, aliada à intensificação das
relações de troca, conduziram a uma solicitação exterior dos
principais agentes de comércio, e mesmo de transporte. A
sociedade insular recebeu nos séculos XV e XVI 29,8% dos seus
agentes do exterior, sendo 12,1% no sector dos transportes e
36,7% no comércio.
As ilhas da Madeira e Canárias exerceram maior atracção,
pois totalizam isoladamente 48% enquanto os Açores atingem apenas
3%. Esta situação por si só denuncia a importância que os dois
sectores tiveram na Madeira e nas Canárias, importantes
entrepostos do comércio atlântico.
A presença forasteira é mais clara no sector comercial do
que no de transporte, pois no primeiro atinge 88,5% e no segundo
não ultrapassa os 11,5%. Esta presença é justificada pelo
comércio dos produtos de exportação. Além disso ela varia nos
três arquipélagos, pois nos Açores é apenas de 3,4% enquanto na
Madeira é de 48,1% e nas Canárias de 50,5%. A situação aludida,
para além de reforçar a ideia da importante actuação da classe
mercantil forasteira na Madeira e nas Canárias, nos contactos com
o exterior, denuncia a sua predominante intervenção no mercado
e comércio local. O açúcar e, depois, o vinho atraíram mais
facilmente a cobiça do mercado europeu do que o pastel ou os
cereais. Neste grupo de estrangeiros evidenciam-se os oriundos
do mercado hispânico que representam na Madeira 47,7% e nas
Canárias 44,4%. Verificamos assim que a burguesia comercial e
marítima hispânica mantém uma posição dominante no mercado
insular, que desde os inícios do povoamento atraiu as suas
atenções.
A activação dos circuitos de troca no mercado insular
deriva da acção dos agentes de transporte e de comércio. Os
primeiros subdividem-se em agentes de transporte terrestre
(carreteiro, boieiro, cocheiro, cameleiro, almocreve) e marítimo
(barqueiro, mareante, piloto e mestre de navio). Os segundos
ramificam-se de acordo com a incidência da sua actividade no
mercado local e externo; assim, teremos o mercador propriamente
dito, que se dedicava ao trato por grosso de mercadorias de
exportação e importação, e um grupo numeroso de agentes
retalhistas, que asseguram a actividade do mercado local -
regatão, vendeiro, estalajadeiro, peixeira, especiero, carniceiro
e vinhateiro.
Numa área onde a economia se define pela litoralidade, em
que portanto o transporte dominante é o marítimo, e onde a troca
directa ou indirecta da produção é devida à acção dos agentes
comerciais, esta fica logicamente valorizada; representam 71,7%,
predominando a sua actuação nos três arquipélagos. De acordo com
essa situação, o transporte marítimo terá uma posição primordial,
representando os seus agentes dois terços do global do grupo de
transporte.
TRANSPORTE MARÍTIMO E TERRESTRE
Definida a importância das vias e meios de comunicação na
economia insular e sublinhada a dominância do mar nesse
relacionamento, apenas nos interessaremos aqui pela actuação dos
vários agentes de transporte no mercado insular.
Os meios, vias e agentes de transporte terrestre terão a
sua acção limitada pela orografia insular e/ ou pela facilidade
das comunicações marítimas. Não obstante, terão uma importância
primordial nos contactos entre as áreas produtoras e os portos
de exportação, como acontece em São Miguel e Gran Canaria.
De entre os agentes sobressaem os almocreves, que já na
Europa medieval tinham uma acção muito importante no transporte
e na comunicação entre as várias regiões do interior; serão
igualmente importantes na economia insular, sendo os principais
agentes de transporte na safra do açúcar. O almocreve tanto
transporta a lenha e as canas ao engenho, como o açúcar aos
principais portos de cabotagem ou exportação.
Na Madeira surgem com maior incidência no século XVI
(82,1%), sendo os principais agentes de transporte na safra do
açúcar, onde as condições orográficas o permitiam. A área do
Funchal e arredores, onde se concentravam todas as actividades
comerciais, torna-se o seu principal pólo de acção, seguindo-se
a parte acidental da vertente sul, entre a Ribeira Brava e
Calheta, região onde se situava a maior produção açucareira.
Nos Açores não obstante a importância que tiveram as
ligações entre Ponta Delgada e Ribeira Grande e de Angra com a
Praia, apenas há notícia de um almocreve. Aliás, nos contactos
entre a Ribeira Grande e Ponta Delgada, o transporte terrestre,
apara além de ser mais rápido, estava facilitado pelas condições
orográficas. Assim no século XVI os almocreves micaelenses deram
um importante contributo à economia cerealífera local, sendo os
principais agentes de transporte de cereais e farinhas da Ribeira
Grande e áreas limítrofes para Ponta Delgada. A câmara da Ribeira
Grande, preocupa-se com a sua acção, quer por meio do regimento
da sua actividade, quer pela acção de reparo dos caminhos. Em
1599 era autorizada a circulação de sessenta almocreves nesse
circuito, que deveriam apresentar anualmente fiança na câmara.
Nas Canárias tal como na Madeira, a sua actividade será
justificada pela safra do açúcar. Deste modo teremos nas ilhas
produtoras de açúcar - Gran Canaria e Tenerife - um numeroso
grupo de almocreves. Todavia, apenas são referenciados 52, sendo
13,5% em Gran Canaria e 86,5% em Tenerife. Destes, quatro são
portugueses.
Quanto aos restantes agentes de transporte apenas há a
salientar os cameleiros e carreteiros nas Canárias e os cocheiros
e boieiros na Madeira. Estes últimos surgem na década de 50,
certamente dedicados ao transporte de passageiros. Em Vila Franca
do Campo e São Miguel existiam, em 1566, 14 carreteiros dedicados
ao transporte de produtos no município e deste com Ponta Delgada
e Ribeira Grande.
O predomínio dos agentes de transporte marítimo denuncia
a cambiante marítima da sociedade e economia insulanas. As vias
e meios de transporte desse tipo são um dos sustentáculos da
economia dessa sociedade. A vivência ribeirinha fez do ilhéu um
marinheiro nato, ele surge como pescador, barqueiro, mareante e,
muito raramente, como piloto ou mestre de navio.
Na Madeira dominam os barqueiros (90,8%) enquanto nas
Canárias essa posiçaõ é ocupada pelo mestre de navio (96,9%);
entretanto os mareantes, como os pilotos e os mestres de navio,
surgem com maior evidência. Não obstante, há informação mais
esclarecedora sobre arquipélago dos Açores, que aponta uma
marcada actuação dos barqueiros, pois só na Vila Franca do Campo,
em 1566, existiam 23 barqueiros.
Estes dados indicam que o movimento comercial da Madeira
e Açores estava entregue a um grupo de agentes de transporte
forasteiros que, muitas vezes, associavam essa actividade ao
comércio. As ilhas portuguesas não dispunham de uma frota
adequada ao comércio externo, pois as poucas embarcações
existentes estavam ocupadas no comércio de cabotagem; ao
visitante do reino ou estrangeiro estava reservada essa
actividade. A situação é de tal modo precária que, ao longo dos
séculos XVI e XVII, e veração funchalense tem de recorrer às
embarcações visitantes para se abastecer de trigo nos Açores.
O facto de se documentar uma elevada percentagem de
mareantes no Funchal (9%), não é sinónimo do desenvolvimento da
navegação a longa distância nestas paragens, mas sim da
assiduidade desses contactos e do apelo constante à mão de obra
assalariada, necessária a essa actividade. Em termos globais
nota-se que os marinheiros surgem, nos três arquipélagos, na
razão inversa dos mestres e pilotos de navios.
Na Madeira, o principal centro de incidência dos homens do
mar situava-se na zona ribeirinha do Funchal. Aí deparamo-nos com
82,1% dos barqueiros e 97,9% dos mareantes. Muitos destes
encontravam-se lá temporáriamente ao serviço de embarcações que
aportavam ao Funchal. Desses 12,2% são do reino, nomeadamente de
Tavira, Faro, Lagos, Alcácer do Sal, Santarém, Porto, Esposende,
Sesimbra, Gaia. Viana, Barcelos e Vila do Conde. Sendo assim, o
movimento de embarcações entre a Madeira e os Açores e o reino
era intenso, salientando-se neste último o litoral algarvio, a
região de Lisboa e a costa norte. A existência de mareantes fora
do Funchal - Calheta, Santa Cruz, Machico (3,2%) - evidencia
também a existência de contactos dessas embarcações de comércio
a longa distância nestas zonas costeiras.
O mareante e o barqueiro, tal como o pescador, assentaram
morada na zona ribeirinha pelo apego ao mar, junto do burburinho
do calhau, onde poderiam ouvir o marulhar das ondas. A zona do
calhau, hoje Corpo Santo, acolhia o maior número de marinheiros,
barqueiros e pescadores. A sua influência foi dominante nesta
área citadina, pois aí construiu no século XV uma capela para
o seu padroeiro S. Pedro Gonçalves Telmo, com uma confraria para
defesa e apoio dos mesmos mareantes. Em Machico, Santa Cruz,
Ribeira Brava, Calheta e na ilha do Porto Santo havia igualmente
uma diminuta comunidade de homens do mar com morada fixa junto
ao calhau ou aos ancoradouros.
Nos Açores o barqueiro ou mareante surge em todas as ilhas
nas áreas costeiras de maior movimento. Em Vila Franca do Campo,
por exemplo, em 1566 a comunidade marítima representava 5% do
grupo, sendo 23 barqueiros, 10 marinheiros e 13 pescadores.
A comunidade marítima nas Canárias, embora espalhada por
todo o arquipélago, tem em Gran Canaria e Tenerife os principais
focos de fixação, e surge anexa aos principais portos destas
ilhas: Las Isletas, Santa Cruz e Garachico. Nestes lugares, onde
domina o tráfico a longa distância nota-se a afirmação dos
marinheiros, pilotos e mestres de navio; os primeiros representam
88% e os últimos apenas 9%.
A maioria dos mestres de navio referenciados actua a partir
de Tenerife (80%), surgindo com maior frequência o porto de Santa
Cruz; eram na sua maioria forasteiros. No total de 125 aduzidos
apenas 49 têm a indicação de procedência, sendo 78% estantes e
22% vizinhos. Nos primeiros sobressaem os portugueses com 13%,
seguidos dos castelhanos (6%) e genoveses (3%). No grupo dos
portugueses encontramos dois oriundos da Madeira e um do Faial,
facto demonstrativo das ligações entre as Canárias e os
arquipélagos de Portugal
COMÉRCIO INTERNO E EXTERNO
O mercado interno estava sob o domínio do município que
delimitava os locais e a forma de venda a retalho dos diversos
produtos, concedendo as necessárias licenças aos seus agentes,
de modo a poder fiscalizar a sua actividade; o tabelamento dos
preços, verificação dos pesos e medidas pelos almotacés estavam
ainda no seu campo de intervenção.
Os principais agentes desta actividade sectorial poderão
definir-se em duas categorias: revendedores, isto é,
bufarinheiros, regatões, vendeiros que procedem à revenda a
retalho de fruta, hortaliça, queijo, pão, caça, de acordo com as
normas elaboradas em postura; e vendedores, ou sejam, os
carniceiros, peixeiras, vinhateiros, especieiros, que vendiam a
carne, peixe e espécies em locais estabelecidos pela vereação.
O município não acolhia de bom grado a actividade dos
revendedores, em virtude da sua apetência para a especulação e
acções lesivas do bem comum. Assim, para além da rigorosa
fiscalização exercida sobre eles, através da obrigatoriedade do
uso da licença, os vereadores exararam em postura a faculdade dos
vizinhos poderem comprar os seus produtos directamente ao
mercador visitante. Para isso, ordenaram que todo o produto
deveria ficar retido nove ou quinze dias, respectivamente, em
Tenerife e na Madeira, para os vizinhos poderem adquiri-los ao
preço de compra; só após esse prazo se procederia a revenda de
acordo com as posturas.
No Funchal há notícia de quarenta e oito vendeiros que se
dedicavam a esse comércio a retalho, dos quais vinte e cinco são
de finais do século XV os vendeiros são na totalidade do sexo
feminino, pois só na última data aparecem os do sexo masculino
que representam cerca de 70%.
O açougue, a peixaria, a taberna mereceram maior incentivo
por parte do município que regulamentava com rigor a venda nestes
recintos de modo a dissuadir os seus agentes da especulção e da
fraude, e com o fim de garantir as devidas condições de higiene.
A venda dos produtos estabelecidos para essas lojas, considerados
essenciais para o quotidiano do burgo fazia-se de acordo com as
normas e tabelamento de preços, estabelecidos em vereação. Esta
vigilância não derivava apenas da necessidade de assegurar o
abastecimento da população e de evitar as práticas fraudulentas,
mas tinha de igual modo o fim de assegurar o lançamento e
arrecadação dos direitos reais e concelhios, como sucedia com o
vinho da Madeira. Aqui a vereação, por intermédio do juíz da
referida imposição, auxiliado por arrieiros e um escrivão,
verificava o transporte, a abertura das pipas e a venda do vinho,
lançando, de acordo com o varejo, os direitos a pagar.
A venda de carne era feita noa açougues municipais que
detinham o monopólio do abate e da venda. Eram arrendados pelo
concelho a carniceiros que procediam ao abate e venda de acordo
com as posturas.
O comércio externo do espaço insular, pela amplitude e
importância que adquiriu no mercado atlântico-europeu, pelo
investimento e organização que implicava, condicionou o
aparecimento de agentes forasteiros, ligados aos circuitos
comerciais europeus no Atlântico e Mediterrâneo. A intervenção
destes agentes de comércio neste domínio far-se-á de modo
diverso, adquirindo uma dimensão ou posição de acordo com a
amplitude da sua actividade. Poderemos assim diferenciar três
tipos de mercadores: 1. mercador, especializado no comércio de
determinados produtos de importação e exportação; 2. mercador
transportista, que intervém no comércio marítimo internacional,
dispondo de meios financeiros e técnicos para isso; e 3. mercador
banqueiro, que se dedica a operações de finanças nos principais
mercados de dinheiro da Europa, tendo uma rede de negócios
organizada em todas as melhores praças europeias, por intermédio
de familiares e agentes.
Ao nível insular a presença destes três grupos de
mercadores não é uniforme, pois varia de ilha para ilha de acordo
com a importância sócio-económica das praças insulares. Os dois
últimos tipos, na sua maioria estrangeiros, têm uma presença
temporária, surgindo apenas em momentos de exportação dos
produtos mais importantes do mercado - vinho, açúcar, pastel -
a fim de estabelecer a sua troca com as manufacturas europeias.
Por vezes fazem-no de modo indirecto, por meio de familiares ou
agentes, que se apresentam como filiais das casas europeias. Além
disso, o último tipo só surgirá com grande relevo em Las Palmas,
onde a alta finança europeia monta uma praça bancária
especializada no comércio atlântico. Nos Açores e na Madeira
não há qualquer informação que aponte para a sua existência; aí
tudo nos indica a presença e o domínio exercido pela praça de
Lisboa.
O primeiro grupo será aquele que terá maior
representatividade no mercado insular. Ele surge muitas vezes
numa posição subalterna, como agente subestabelecido ou
representante de mercador transportista ou barqueiro; os que nele
se inserem, definem a burguesia comercial com assento nas ilhas,
que detém uma posição privilegiada no comércio inter-insular e
nos contactos com a mãe pátria.
A maior parte das operações financeiras, comerciais e,
mesmo, de transporte eram dominadas por estrangeiros, a partir
de Génova, Veneza, Anvers e Antuérpia. Uma rede de negócios e
circuitos comerciais assegurava esse domínio. Italianos e
flamengos, seus principais detentores, surgem desde cedo nas
praças de Lisboa, Sevilha e Cádiz; a partir daí tomam a direcção
das operações financeiras e comerciais do Mediterrâneo Atlântico,
adquirindo e reforçando essa posição com as regalias e os
privilégios concedidos pelas coroas hispânicas.
Factores internos e externos condicionaram essa intervenção
de mercadores nacionais e estrangeiros no mercado insular; em
primeiro lugar, o desenvolvimento de culturas, como o vinho, o
açúcar, o pastel, componentes importantes das trocas europeias
e americanas; em segundo, a posição privilegiada dos três
arquipélagos e, nomeadamente, das Canárias e dos Açores, no
traçado das rotas do comércio atlântico. Alemães, genoveses,
venezianos e judeus disputam entre si o domínio deste mercado.
O arruamento dos ofícios e dos locais de venda de
artefactos e produtos agrícolas deriva não só da necessidade de
fiscalizar e defender os interesses dos diversos artesãos e
vendedores, mas também da necessária aproximação da alfândega e
calhau, de modo a facilitar as operações de transporte. Por isso
nas principais cidades e vilas do mundo insular existia sempre
uma Rua dos Mercadores, arruamento onde se centrava a maioria
deste grupo, para proceder às suas transacções locais e
externas.
Na Madeira, de acordo com a informação de Gaspar Frutuoso,
toda a actividade comercial estava centralizada em três ruas
anexas à alfândega e calhau: Rua Direita dos Mercadores, Rua do
Poço Novo e Rua do Sabão. A primeira é definida pelo autor
como a rua "dos mercadores e franqueiras, ingleses e flamengos
e outros forasteiros, e de homens ricos e de grosso trato...";
a segunda estava reservada a "outros de menor trato, com a fruta,
pano de linho e coisas de fancaria, que vêm de fora..."; a última
servia de "logeas e graneis de trigo".
Esta informação é concordante com a realidade emanente da
documentação compulsada. Assim, em 1469, a Rua Direita é definida
como a principal rua, onde residiam os mercadores do trato do
açúcar; no século XVI estava-lhes reservada, em consequência
da obrigatoriedade de os mercadores com casa de aluguer residerem
apenas aí, o que mereceu o protesto dos visados e o pedido da
revogação dessa postura. Não obstante, pela sua localização
e costume da actividade comercial, esta rua manteve-se como o
principal arruamento de residência e actividade do mercador, quer
local quer estrangeiro. No século XVI dos oitenta e um mercadores
com referência da morada temos 31% com loja nessa rua e os
restantes nas ruas circunvizinhas da alfândega.
O grupo de mercadores identificados no mercado insular
para os séculos XV e XVI atinge o total de 1612, sendo a sua
maioria oriundos da praça do Funchal; situam-se maioritariamente
no século XVI (88%) e, nomeadamente, na segunda metade do século
(63%) momento de grande movimento comercial no mundo insular. No
século XV apenas a praça do Funchal apresentava um avultado
número de mercadores, que aumenta, de modo espectacular, no
período subsequente, pois triplica na primeira metade do século
XVI.
A razão da sua importância no século XV e do aumento
espectacular na primeira metade do século seguinte deriva da
conjuntura sócio-económica madeirense. A Madeira foi de todas as
ilhas do Atlântico a primeira a ser ocupada e a apresentar uma
exploração agrícola com valor mercantil, que despertou a cobiça
do mercador nacional e estrangeiro. Nos Açores e nas Canárias o
processo arrastou-se por algumas décadas, e esses arquipélagos
só assumiram idêntica posição no século XVI.
Na Madeira, o açúcar fez atrair desde meados do século XV
um numeroso grupo destes agentes, que se dedicaram quase em
exclusivo ao seu comércio. A quebra desta produção na primeira
metade do século XVI não provocou o desaparecimento deste
mercador, pois ele irá adaptar-se às novas realidades e
cambiantes da economia madeirense: primeiro substituindo o açúcar
pelo vinho e, depois, por meio da ligação deste mercado às áreas
produtoras brasileiras, o que viabilizava a sua actividade
comercial em torno do ouro branco. As ilhas das Canárias e dos
Açores só poderão apresentar essa multidão de agentes económicos
quando usarem do essencial para a sua actividade, isto é, de um
mercado vantajoso para as manufacturas e um conjunto adequado de
produtos com valor mercantil. Tal só veio a suceder para as
Canárias no início do século XVI com o açúcar, o pastel e os
cereais; nos Açores essa situação só se definirá na segunda
metade do século XVI, exactamente quando se atinge o maior número
de agentes (83%); isso resultará da estabilidade adquirida pelo
mercado açoriano e da sua valorização na economia atlântica, como
um porto importante de escala.
Como vimos, o mercado insular, pelo seu posicionamento e
importância na rede de trocas no Atlântico e pelas suas
potencialidades sócio-económicas fez atrair as atenções da
burguesia comercial e marítima do velho continente que, por
intermédio de Lisboa, Cádiz ou Sevilha, aí fixa morada ou se faz
representar por agentes.
No global nota-se a posição privilegiada do mercador
forasteiro ou estrangeiro que quase sempre repudia o seu carácter
nómada para aí se fixar sempre como vizinho penetrando e actuando
activamente nas estruturas institucionais e económicas do mundo
insular.
As ilhas da Madeira e das Canárias ofereceram maiores
garantias à intervenção do grupo de forasteiros sob o estatuto
de vizinho ou de estante. No entanto os forasteiros temporários
surgem com maior frequência nas Canárias; esta situação resulta
da sua eficaz actuação, a partir de Sevilha, Cádiz e Medina del
Campo, por meio de agentes ou de familiares, o que inviabiliza
a necessidade de permanência no arquipélago; além disso define
de modo cabal uma situação peculiar da economia canária, isto é,
a sua subordinação aos interesses e intervenção da burguesia
comercial e marítima da região de Andaluzia. Aliás, entre
forasteiros é importante a presença dos agentes com morada fixa
no reino: Castela e Portugal.
O grupo de mercadores estrangeiros oriundos das principais
praças europeias é dominante nos três arquipélagos, atingindo 14%
na Madeira, 9% nos Açores e 31% nas Canárias. Nesse grupo
sobressaem, na Madeira e nas Canárias, os italianos e os
flamengos e nos Açores os ingleses.
O aparecimento da burguesia comercial e marítima
estrangeira na sociedade insular prende-se com a actuação de
determinados factores de ordem conjuntural e estrutural. Uma
multiplicidade de solicitações e de condições de fixação
conduziram à sua valorização na economia e na sociedade
insulares.
O conhecimento e a ocupação do vasto espaço atlântico, não
obstante a direcção das coroas de Castela e Portugal, não ficou
isento da presença estrangeira, nomeadamente italiana. Os
italianos comprometidos com as navegações atlânticas, aparecem
desde o século XV como o grupo estrangeiro mais influente no
Mediterrâneo Atlântico, ligando-se às actividades
administrativas, produtiva e comercial. Será no seguimento desta
vaga inicial que teremos, em finais do século XVI, a sua
implantação em força na Madeira e nas Canárias, de que resultou
a sua posição dominante no grupo de mercadores.
Atraídos pelos lucros do açúcar e do pastel surgem, no
século XVI, novas levas de mercadores oriundos das praças
europeias do norte, como os flamengos e ingleses que, ao
contrário dos italianos, se apresentam apenas com o estatuto de
mercador-transportista-banqueiro, e só muito raramente como
mercador proprietário.
A Madeira atraiu a primeira vaga destes mercadores
forasteiros, mercê da prioridade na ocupação e exploração do
açúcar. Só o impediam as ordenanças limitativas à sua residência
na ilha, resultantes da sua tendência para a rápida fixação e
para controle dos circuitos comerciais madeirenses.
Em meados do século XV a coroa facultava a entrada e
fixação de italianos, flamengos franceses e bretões, por meio de
privilégios especiais, como forma de assegurar um mercado europeu
para o açúcar. Mas a presença e a influência desses homens foram
lesivas para os mercados nacionais e para a coroa, pelo que se
tornou necessário impedir que eles pudessem "asy soltamente
trautas todos"; deste modo o senhorio ordena a proibição da
sua permanência na ilha como vizinhos. A questão foi levada
às cortes de Coimbra de 1472-1473 e de Évora em 1481, reclamando
a burguesia do reino contra o monopólio de facto dos mercadores
genoveses e judeus no comércio do açúcar; para isso propunha a
sua exploração nesse regime a partir de Lisboa.
O monarca, comprometido com essa posição vantajosa dos
estrangeiros, mercê dos privilégios concedidos, actua de modo
ambíguo, procurando salvaguardar os compromissos anteriormente
assumidos e atender às solicitações dos moradores do reino; por
isso estabelece limitações à residência dos estrangeiros no
reino, fazendo-a depender de licenças especiais; quanto à Madeira
define a possibilidade da sua vizinhança sem licença sua, ao
mesmo tempo que os interdita de revenda no mercado local; a
câmara, por seu turno, baseada nestas ordenações e no desejo
expresso dos seus moradores, ordena a sua saída até Setembro de
1480, no que foi impedida pelo senhorio; somente em 1489 se
reconhece a utilidade da sua presença na ilha, ordenando D. João
II a D. Manuel, então Duque de Beja, que os estrangeiros fossem
considerados como "naturaes e vizinhos de nossos regnos".
Os problemas do mercado açucareiro da década de 90
conduziram ao ressurgimento desta política xenófoba. Os
estrangeiros passam a dispor de três ou quatro meses, entre Abril
e meados de Setembro, para comerciar os seus produtos, não
podendo dispor de loja e feitor; em 1493 D. Manuel reconhece
o prejuízo que as referidas medidas causavam à economia
Madeirense, afugentando os mercadores, pelo que revoga as
interdições anteriormente impostas. As facilidades concedidas
à estada destes agentes forasteiros conduzirão à assiduidade da
sua frequência nesta praça, bem como à sua fixação e à sua
intervenção de modo acentuado na estrutura fundiária e
administrativa.
A comunidade de mercadores estrangeiros na Madeira estava
dominada pela presença italiana, seguida da dos flamengos e dos
franceses; todos surgem aí atraídos pelo tão solicitado ouro
branco.
Os italianos em especial os florentinos e os genoveses,
conseguiram implantar-se na Madeira, desde meados do século XV,
como os principais agentes do comércio do açúcar alargando depois
a sua actuação ao domínio fundiário, por meio da compra de laços
matrimoniais. Na década de 70, mediante o contrato
estabelecido com o senhorio da ilha, detinham já uma posição
maioritária na sociedade criada para o efeito, sendo
representados por Baptista Lomellini, Francisco Calvo e Micer
Leão. No último quartel do século vêm juntar-se a estes Cristóvão
Colombo, João António Cesare, Bartolomeu Marchioni, Jerónimo
Sernigi e luis Doria. A este grupo inicial seguiu-se, em
princípios do século XVI, outro grupo mais numeroso, que
alicerçou a comunidade italiana residente; entravam nele Lourenço
Cattaneo, João Rodrigues Castiogliano, Chirio Cattaneo, Sebastião
Centurione, Lucas Salvago, Giovanni e Lucano Spinola.
Os mercadores-banqueiros de Florença evidenciaram-se nas
transações comerciais e financeiras do açúcar madeirense no
mercado europeu. A partir de Lisboa, onde adquirem uma posição
privilegiada junto da coroa, mantêm e orientam uma extensa rede
de negócios que abrange a Madeira e as principais praças
europeias. Primeiro conseguem da fazenda real o quase exclusivo
do comércio do açúcar resultante dos direitos reais por meio do
contrato; depois apoderam-se do açúcar em comércio, tomando o
exclusivo dos contingentes estabelecidos pela coroa, em 1498.
Assim teremos Bartolomeu Marchioni, Lucas Giraldi e Benedito
Morelli com uma clara intervenção no trato do açúcar, na primeira
metade do século XVI. A manutensão dessa rede de negócios fazia-
se por meio da intervenção directa destes mercadores e por meio
de procuradores ou de agentes subestabelecidos. Benedito Morelli,
em 1509-1510, tinha na ilha como seus agentes para o recebimento
do açúcar dos quartos Simão Acciaiuolli, João de Augusta, Benoco
Amador, Cristóvão Bocolo e António Leonardo. Marchioni em 1507-
1509, fazia-se representar em operações de idêntica indole por
Feducho Lamaroto. João Francisco Affaitati, cremonês, agente em
Lisboa de uma das mais importantes companhias comerciais da
época, teve uma participação muito activa nesse comércio entre
1502 e 1526, por meio de contratos de compra e venda dos açúcares
dos direitos reais (1516-1518, 1520-1521 e 1529) e pagamentos em
açúcar a troco da pimenta; este mercador actua quer em sociedade
com Jerónimo Sernigi, João Jaconde, Francisco Corvinelli e Janim
Bicudo, quer isoladamente, tendo para o efeito como feitores e
procuradores na ilha Gabriel Affaitati, Luca António, Cristóvão
Bocollo, Capella de Capellani, João Dias, João Gonçalves, Matia
Manardi e Maffei Rogell.
A penetração deste grupo de mercadores na sociedade
madeirense foi muito acentuada. O usufruto de privilégios reais
e o interrelacionamento familiar conduziram à sua plena inserção
na aristocracia terratenente e administrativa; na sua maioria,
apresentam-se como proprietários e mercadores de açúcar,
instalam-se nas terras de melhor e maior produção; e, por meio
de compra e laços matrimoniais, tornam-se nos mais importantes
proprietários de canaviais. Assim sucede com Rafael Cattano, Luis
Doria, João Esmeraldo, João e Jorge Lomelino, João Rodrigues
Castelhano, Lucas Salvago, Giovanni Spinola, João Antâo, João
Florença, Simão Acciaiolli e Benoco Amatori.
A sua intervenção na estrutura administrativa madeirense
abrange os domínios mais elementares do governo, como a vereação
e repartições da fazenda, que incidiam sobre a economia
açucareira. Surgem, assim, como almoxarifes e provedores da
fazenda; e têm uma intervenção forte na arrecadação dos direitos
reais, aparecendo ainda como rendeiros.
Tal como os italianos, os franceses e flamengos surgem na
ilha, desde finais do século XV, atraídos pelo rendoso comércio
do açúcar; mas já não se enraizam na sociedade insular, mantendo
a sua condição errante; na verdade, o seu interesse é única e
exclusivamentea aquisição do açúcar a troco dos seus artefactos,
alheando-se da realidade produtiva e administrativa locais. Os
franceses distinguem-se pelas suas operações de troca em torno
do açúcar (20%), enquanto os flamengos mantêm uma posição
subalterna, mesmo como grupo interveniente no mercado madeirense;
no entanto, aliam a Madeira a rede de negócios da Canárias, que
surge como ramificação das praças nórdicas e andaluzas; a sua
condição de estantes limitou o seu aparecimento e rastro na
sociedade madeirense, pelo que se torna impossível avaliar da sua
importância.
Os mercadores franceses têm uma presença muito activa no
comércio do açúcar da Madeira na primeira metade do século XVI;
aparecem com frequência nas comarcas do Funchal, Ponta do Sol,
Ribeira Brava e Calheta, onde adquirem grandes quantidades de
açúcar que transportam em embarcações suas. Nesse trato
evidenciaram-se mestre António Archelem, António Coyros, António
Caradas e Francisco Lido.
Nos Açores a inexistência de uma forte rede de negócios em
torno do açúcar, bem como a sua desvalorização em favor do pastel
e dos cereais, limitaram as possibilidades de intervenção da
burguesia italiana e castelhana, e abriram as portas à
intervenção de flamengos e ingleses, interessados no comércio do
pastel. Linschoot, em 1589, refere que o comércio do pastel era
feito por franceses, ingleses e escoceses; quanto a Ponta
Delgada, diz-nos que aí "vão mercadores franceses, ingleses e
escoceses buscar o pastel mais do que vão à Terceira, e que lá
levam mais de duzentos quintais todos os anos".
Esta assídua frequência de mercadores estrangeiros nos
portos de Ponta Delgada e de Angra era considerada pelos seus
vizinhos como ruinosa, pelo que solicitaram ao monarca, em 1557,
medidas limitativas da sua actuação. No entanto, estas
pretensões só foram atendidas na década de 80, já sob o domínio
filipino; através de uma guerra de represálias interditou-se o
mercado açoriano à sua intervenção, primeiro com a proibição de
venda das suas mercadorias, depois, proibindo a sua actividade
nas ilhas; todavia, esta proibição não surtiu o efeito
desejado, uma vez que os por ela visados se mantiveram activos
servindo-se da intervenção de outros mercadores, pelo que em 1590
e 1596 o governo espanhol reforçou a represália.
As Canárias, estiveram ao longo do século XV-XVI, sujeitas
à investida de mercadores forasteiros, que participaram
activamente na conquista e ocupação, relançamento das bases da
estrutura sócio-económica, e também na activação e manutensão dos
circuitos comerciais; primeiro os portugueses e genoveses,
depois, os flamengos e franceses.
Os genoveses, fortemente implantados na Andaluzia, tiveram
nos século XV uma participação muito activa no comércio da urzela
e escravos deste arquipélago. O seu interesse pelo comércio nesta
área comprometeu-os com o processo de conquista, e este conduziu
ao reforço das suas actividades comerciais no arquipélago e na
sociedade nascente; desalojados das suas feitorias e cidades no
Mediterrâneo, impedidos de aí comerciar pelos árabes e pelas
rivalidades políticas dos seus irmãos, procuraram no Mediterrâneo
Atlântico o lugar ideal para a sua morada; a Madeira, Gran
Canaria e Tenerife serão, assim, nos séculos XV e XVI, a sua
pátria atlântica, onde se fixam como vizinhos, tornando-se em
poderosos proprietários, mercadores e prestamistas.
Destes mercadores genoveses poderemos identificar três
tipos, de acordo com o seu modo de fixação: 1. Conquistadores que
se tornam parte activa nas conquistas das Canárias, como
guerreiros e financiadores das expedições; 2. Povoadores, que
surgem após a conquista, usufruindo dos incentivos inerentes ao
processo de ocupação; e 3. Mercadores, solicitados pelo
desenvolvimento das relações de troca locais, que surgem
temporariamente, dedicando-se ao comércio de manufacturas e
açúcar, apoiados pela intervenção dos seus compatrícios aí
residentes.
Conquistadores e povoadores adquirem importância na
sociedade nascente, em Tenerife e Gran Canaria, tornando-se nos
mais importantes hacendados, com uma intervenção Cristóbal Ponte
e Tomás Justiniano, que surgem em Tenerife como os mais ricos da
ilha.
Em Gran Canaria a sua implantação é mais clara e dominadora
da economia açucareira local, pois aí representam 70%, enquanto
em Tenerife não ultrapassam os 28%; apesar disso, Clavijo
Hernandez considera que a ilha de Tenerife foi o centro mercantil
dos genoveses. A razão dessa implantação em Gran Canaria
deriva da sua acção na conquista, povoamento e lançamento das
principais arroteias para os canaviais; de financiadores da
conquista passam a financiadores de plantação e safra dos
canaviais. Incluem-se neste grupo Francisco Riberol, Antonio
Manuel Mayuello, Bautista Riberol e Jacome Sopranis. A sua
importância fica revelada pela posse do patronato de capela maior
do convento de S. Francisco e pela designação de uma rua - calle
de los genoveses.
Tal como na Madeira, eles intervêm na vida administrativa
local, como funcionários ou rendeiros dos direitos reais; é o
caso de Juan Leandro e Luis de Couto, que em 1524 surgem como
arrendatários das terças reais.
Sendo certa a fixação de muitos genoveses na sociedade
canária, surgindo aí como componentes importantes da aristocracia
fundiária, não é menos certa a sua presença com carácter
temporário; aliás o número de mercadores genoveses referenciados
em Gran Canaria sob o título de estantes, de acordo com a
enumeração de Guilherme Camacho y Pérez Galdos, é quatro vezes
superior ao dos vizinhos; ao invés, em Tenerife os vizinhos
representam 57%. A primeira situação explica-se pelo facto de a
maioria destes agentes se dedicar ao comércio de exportação de
açúcar e de importação de manufacturas, o que implicava um
movimento assíduo nas ilhas e entre esta e a Europa; além disso
, esses homens tinham, na sua maioria, as suas casas instaladas
na costa andaluza, mantendo uma rede de negócios em todo o mundo
atlântico, com familiares, feitores ou procuradores; Francisco
Riberol, por exemplo, um dos mais importantes mercadores
genoveses, residia ora em Sevilha, ora em Gran Canaria, tendo,
aliás, nesta ilha grandes interesses na economia açucareira.
Em síntese pode-se dizer que o mercador genovês teve uma
actuação primordial na economia canária, dominando quer a
exploração dos recursos com valor mercantil (urzela), quer a
produção para troca no mercado europeu (açúcar), quer ainda, a
venda de manufacturas de importação.
Os genoveses surgem na sociedade canária como os mais
representativos (91%) da comunidade italiana, não obstante a
presença activa dos lombardos e dos florentinos nas operações
financeiras; entre estes sobressaem Juanoto Berudo, florentino
e conquistador de La Palma e Jacome de Carminátis, Lombardo, que
aliava o comércio à agricultura e à actividade artesanal.
A comunidade flamenga será uma componente de quase igual
importância na economia e sociedade canária. Não obstante a
intervenção isolada de um ou outro como mercador ou conquistador
no século XV, os flamengos só chegam ao arquipélago nos começos
do século XVI, adquirindo notoriedade a partir da década de 20;
atraídos pelo comércio do açúcar e das plantas tintureiras
(pastel, urzela), estabelecem uma rota importante para a
exportação desses produtos e de importação da Ropa. A sua
actividade alargava-se a todos os sectores do mercado, desde a
venda em tenda à concessão de empréstimos em dinheiro e
mercadoria, ao comércio externo das ilhas; estabeleceram deste
modo uma importante rede de negócios no arquipélago, a partir das
ilhas de Gran Canaria, La Palma e Tenerife. Esta última atraiu
maior número de mercadores dos países baixos, tendo-se afirmado
como principal pólo de fixação e manobra; aí aportaram 57% dos
mercadores flamengos, enquanto a Gran Canaria apenas chegaram 32%
e La Palma um reduzido grupo de 8%.
O mercador flamengo que aparece nas ilhas de Tenerife e
Gran Canaria é na sua maioria visitante, sendo reduzido o número
com morada fixa (15%); na primeira temos 87% como estantes e na
segunda 76%. As suas operações, por que se circunscreviam ao
domínio comercial-financeiro e de transporte, não implicavam uma
permanência constante no arquipélago; a sua estada é temporária,
limitando-se ao tempo necessário para a venda da ropa e a compra
ou troca do açúcar para a viagem de retorno; apenas quando as
dificuldades e as delongas das suas operações lhe
impossibilitavam o retorno rápido o mercador se via forçado a
assentar morada; em alternativa, e a prática era correntes,
fazia-se substituir, por meio de procuração, por feitores ou
agentes.
Apenas em La Palma nos deparamos com uma pequena comunidade
fixa com forte implantação no meio sócio-económico da ilha. Em
primeiro lugar tivemos a intervenção dos Welsers na economia
canária por intermédio de Juan Bisen e Jácome de Monteverde,
investindo capitais no sector produtivo com a compra de
importantes terrenos em Tazacorte e los LLanos; Jácome de
Monteverde, ao adquirir a titularidade deste património fundiário
tornou-se um dos principais proprietários do arquipélago. A ele
juntaram-se em 1562 os Van de Walle que aí fixam morada e
adquiriram terrenos; esta família, como componente influente da
ilha de Bruges, conduziu à valorização das rotas comerciais das
Canárias com a Flandres. O mercador flamengo, com a mesma
facilidade que o genovês, penetra na sociedade insular adquirindo
o estatuto de vizinho, relacionando-se com as principais famílias
destas sociedade nova e comandando os activos circuitos
comerciais com as cidades de origem - Bruges e Anvers.
Os mercadores oriundos dos reinos peninsulares surgem como
o grupo mais numeroso dos forasteiros na Madeira (13%), Açores
(5%) e Canárias (28%); são geralmente originários das regiões
costeiras da península com tradição marítimo-comercial; assim nas
Canárias dominarão as regiões andaluza e catalã, enquanto que na
Madeira e nos Açores pertencerá a região de Entre-Douro-e-Minho.
Para a Madeira surgem três áreas perfeitamente delineadas
dos mercadores oriundos do reino: Algarve (9%), Lisboa (13%) e
norte do Douro (71%), sendo as mesmas dominadas por algumas vilas
e cidades costeiras importantes, como Lagos, Tavira, Lisboa,
Ponte de Lima, Caminha. Vila Real e Vila do Conde. Os contactos
com a região de entre o Minho e Douro iniciaram-se muito cedo,
pois desde 1477 que há referência a um comércio assíduo de panos
e outros produtos desta área a troco de açúcar da ilha.
Ao invés nas Canárias a maior participação surge da região
andaluza (35%), dominada pelas principais cidades da bética:
Sevilha (9%) e Cádiz (4%). A vinculação comercial da região
andaluza é anterior à conquista das Canárias, reforçando-se com
esta. Aos andaluzes seguem-se os catalães (12%), cuja comunidade
nas Canárias, ao contrário da andaluza e galega, se dedicava em
exclusivo ao comércio, com uma intensa actividade em Tenerife,
Gran Canaria e na zona de Cádiz e Sevilha; os poucos que fixam
morada nas Canárias, como Rafael Fonte e Pedro Benavente, não
renegaram a sua ascendência e a sua actividade, mantendo
contactos assíduos com a sua região de origem e activando um
sistema de trocas entre si.
A influência e acção da comunidade castelhana e portuguesa
no espaço insular não é uniforme, pois varia de ilha para ilha
e de época para época. Esta alteração espacio-temporal resulta
da conjuntura político-sócio-cultural do Mediterrâneo Atlântico
em particular, e da Europa Atlântica, no geral.
Nas ilhas portuguesas a acção dos moradores de Castela é
reduzida e, apenas ganha importância no período filipino (1580-
1640). Mas se no caso dos Açores poderá considerar-se nula, na
Madeira terá alguma representatividade (2%), resultante da
posição dessa ilha em relação às rotas peninsulares de ligação
às Canárias e do necessário comércio de cereais entre as
Canárias, a Madeira e Lisboa. Daí deriva essa intervenção
castelhana com carácter temporário ou fixo. Os Açores, alheios
a estes circunstancialismos, surgiram apenas como sustentáculo
da rota de retorno das Índias, facto que atraíu as atenções dos
agentes comprometidos nesse trato, mas apenas no intuito de
assegurar a chegada dos seus produtos a porto seguro, intervindo
raras vezes no mercado local.
As Canárias, pelo contrário atraíram as atenções de
mercadores, marinheiros e agentes de Portugal e ilhas. As
diversas províncias do reino associaram-se ao processo de
construção da sociedade canária: do Minho e Beiras vieram
agricultores e artesãos: do litoral algarvio os marinheiros e
pilotos de navios. Da comunidade portuguesa faz parte um grupo
numeroso de mercadores (32%), interessado no comércio dos
cereais, de escravos e da tão solicitada oportunidade de uma
saída até às Índias. A importância da comunidade lusíada é de tal
modo significativa em Tenerife e Gran Canária que justificou a
existência de uma rua em Las Palmas e na vila de San Cristóbal
(Tenerife).
O mercador insular, com parcos recursos financeiros, não
poderia usufruir das mesmas vantagens que o mercador hispânico
e europeu, pelo que estava limitado o seu campo de manobra;
encontrava-se, muitas vezes reduzido à posição subalterna de
feitor ou procurador do mercador do reino, dos flamengos e dos
italianos. Perante esta circunstância hiperatrofiadora, ele
aspira, apenas, a reduzidos contactos com o reino e ilhas
próximas ou, então, algumas aventuras esporádicas nos
arquipélagos vizinhos. O carácter temporário com que executam
essas actividades comerciais não permitiu, muitas vezes, a sua
referenciação documental.
Sabemos da existência e assiduidade desses contactos, mas
pouco ou quase nada dos nomes dos intervenientes; lacunas da
documentação insular impossibilitam um conhecimento aprofundado
dessa situação; assim, nos Açores há apenas referência a um
mercador canário, enquanto nas Canárias apenas se noticia um
mercador madeirense.
No entanto, na Madeira encontramos uma importante
comunidade de açorianos (2%), resultante da assiduidade de
contactos entre os dois arquipélagos em torno do comércio ou
fornecimento de cereais; aliás, se tivermos em conta a sua
origem, verificaremos que eles prevêm, na sua maioria (75%), das
ilhas de maior comércio e contactos com a Madeira, ou seja, S.
Miguel e Terceira.
Definida a componente forasteira dos agentes comerciais da
sociedade insular, torna-se necessário referenciar o seu
comportamento em conjunto com os naturais ou residentes, no
espaço amplo e heterogéneo que é o mundo insular hispânico.
A sua implantação nesta área é evidenciada por uma
tendência concentracionista, comandada pelas principais ilhas e
cidades portuárias. Nao Açores as ilhas de S. Miguel e Terceira
absorvem a quase totalidade do grupo de mercadores aí radicados
e, nas Canárias, as de Tenerife e Gran Canaria. Além disso esta
tendência torna-se radical quando encaramos as duas ilhas
isoladamente, pois, no primeiro caso, a ilha de S. Miguel
apresenta 72% enquanto a Terceira fica reduzida a menos de
metade; no segundo, a comunidade de Gran Canaria (52%) mais
numerosa que a de Tenerife (45%).
A esta predominância das cinco ilhas, em termos económicos,
associa-se a das principais praças comerciais - Funchal, Ponta
Delgada, Angra, Santa Cruz (Tenerife), Garachico, Las Palmas. Na
Madeira a cidade do Funchal acolhe 90% dos mercadores e nos
Açores a cidade de Ponta Delgada 68% e Angra 79%.
As regiões periféricas subordinam-se assim aos interesses
da burguesia concentrada nas principais cidades portuárias, que
intervém de modo activo no comércio, quer por meio da sua acção
directa, quer por meio de agentes, procuradores e familiares.
A predominância da cultura sacarina, aliada a esta
tendência, actuará de modo explícito na concentração dos agentes
económicos. As áreas de maior produção na vertente sul, dominada
pelo porto do Funchal, atrairão as suas atenções e condicionarão
a sua vizinhança além do Funchal. Assim se explica a importância
que eles adquiriram na Calheta e Ribeira Brava, ao invés do que
sucede em Santa Cruz e Machico; estas povoações situavam-se na
capitania de Machico com pouca importância na economia
açucareira.
Na ilha de São Miguel, a cidade de Ponta Delgada, como o
seu porto e alfândega principal da ilha, desde princípios do
século XVI, domina a actividade de troca e a concentração dos
seus agentes. A importância de Vila Franca do Campo e da Ribeira
Grande é justificada pelo seu peso na economia micaelense, pois
nas suas proximidades situavam-se as áreas de maior produção de
pastel e de cereais. Na Terceira a vivência ribeirinha do burgo
angrense fez concentrar aí o grosso destes agentes, não obstante
a vila da Praia se localizar numa das áreas mais importantes de
economia agrícola terceirense. Tal situação deve-se ao facto da
proximidade desta vila em relação a Angra e da facilidade das
comunicações por via marítima e terrestre. Se tivermos em conta
a que na Praia e S. Sebastião existiam portos aptos ao comércio
das produções da área, seremos levados a compreender o reforço
da posição macrocéfala da praça angrense que domina toda a ilha
e algumas vizinhas, como S. Jorge e Graciosa.
O mercador vizinho ou estante procura, assim, o acolhimento
das principais praças comerciais do mundo das ilhas definidas com
áreas de convergência da produção insular e de redistribuição das
manufacturas europeias.
A actividade comercial não o absorve por completo, pois
subdivide a sua acção quotidiana entre o comércio, o transporte,
a banca, a produção e a administração local e régia; as primeiras
actividades completam-se e garantem-lhe um pecúlio vantajoso,
enquanto a última assegura as condições e meios privilegiados da
sua acção.
Atraídos, primeiro, pela produção local, esses mercadores
acabam por investir os seus capitais em bens fundiários,
tornando-se importantes proprietários; eles representam na
Madeira 7% do total e nos Açores, 26%. Na primeira destas ilhas,
mercê do desenvolvimento e importância da cultura do açúcar,
surgem como proprietários de canaviais, representando, na
primeira metade do século XVI, 24% do total dos proprietários,
com 30% da produção.
A estrutura administrativa da sociedade insular, desde
princípios do século XVI, organiza-se de acordo com as realidades
sócio-económicas, procurando ajustar-se às necessidades da
fiscalidade e da intervenção e regulamentação das actividades
económicas dominantes.
Ao mercador, como interveniente comprometido com as
realidades sócio-económicas, interessava uma posição de domínio
nessa completa estrutura administrativa, como forma de fazer
valer os seus interesses nas ordenanças, posturas, leis e
regimentos. De entre os mercadores intervenientes nessa estrutura
temos 10% na Madeira e 3% nas Canárias.
Na Madeira, dos referenciados, 52% são funcionários da
fazenda real, do almoxarifado e alfândega e 48% têm participação
activa na administração municipal. Saliente-se que neste grupo
de mercadores funcionários estrangeiros há dois estrangeiros na
Madeira e quatro nas Canárias.
EMIGRAÇÃO INTER-INSULAR
A elevada mobilidade social é uma das características da
sociedade insular. O fenómeno imigratório lançou as bases dessa
sociedade, e a emigração ramificou-se e projectou-a além
Atlântico. As ilhas são, assim, num primeiro momento, pólos de
atracção, passando, depois, actuar como áreas centrífugas. A
novidade aliada à ambiência, que definiram o processo de
ocupação, activaram o primeiro movimento; a desilusão, as
escassas e limitadas possibilidades económicas e a atracção pelas
riquezas das Índias definiram o segundo surto.
Primeiro foi a Madeira, depois, os Açores e, finalmente nos
alvores do século XVI, as Canárias. Desiludido com a Madeira, o
colono procura melhor fortuna nos Açores, mas gorada também essa
iniciativa, procura refúgio nas Canárias, aliando-se, em finais
do século XV, ao processo da conquista e ocupação deste grupo de
ilhas. A Madeira terá, assim, um papel primordial no movimento
migratório insular do século XV, actuando como pólo de atracção
e redistribuição no mundo das ilhas do Norte Atlântico.
Esta extrema modalidade do ilhéu levou os monarcas a
restringir o movimento emigratório em favor da fixação do colono
à terra, de modo a evitar-se o despovoamento. Nas Canárias, em
1484, proibia-se a saída dos vizinhos de Fuerteventura,
Lanzarote, Gomera e Ferro para Las Palmas; nos Açores nas
décadas de 60 e 70 dão-se incentivos à fixação de colonos.
No século XVI desvanece-se o interesse pelas ilhas. Todas
as atenções convergem para o continente americano, a nova
esperança do europeu e do insular. O posicionamento do
arquipélago canário no traçado das rotas das Índias Ocidentais
e Orientais coloca-o na situação de foco irradiador de colonos
e aventureiros para o Novo Mundo. Aí se concentravam insulares
e europeus à espera da almejada partida para as Índias. Indo ao
encontro dessa ânsia de fuga do ilhéu, o monarca castelhano
passou autorização especial, em 1511, para a emigração canária,
tendo-se mesmo organizado, em 1537, expedições com gente
recrutada nestas ilhas; os cabouqueiros do atlântico-insular
projectavam a sua experiência além-atlântico. Mas o perigo
eminente do despovoamneto do arquipélago, bem como a utlização
desmesurada desta via por estrangeiros, nomeadamente portugueses,
conduziram ao cancelamento de autorizações de viagens com tal
destino, em 1574.
Francisco Morales Padron transmite-nos de forma modelar
essa realidade da sociedade canária do século XVI: "Las islas
fueron primero, como una espera de lo desconocido; luego una
previa experiencia; después se transformaron en Camino para las
Índias, y más tarde se convierten en vívero conformador del Nuevo
Mundo".
As ilhas portuguesas não se dissociaram do processo
expansionista português do Atlântico e do Índico. A aristocracia
insular, imbuida das ideias de conquista e de descobrimentos
participou activamente nas viagens de exploração para o Ocidente
e nas diversas expedições a África e Brasil.Além disso muitos dos
seus vizinhos, ambicionando maior riqueza ou impelidos pelas
circunstâncias, saíram para o Brasil e Índia.
As ilhas, pela sua proximidade e similar forma de vida,
aliadas às necessidades de contactos comerciais assíduos, mercê
da complementaridade sócio-económica, exerceram igualmente forte
atracção entre si. Madeirenses, açorianos e canários não ignoram
a sua condição de insulares e, por isso mesmo sentiram
necessidade de um estreitamento dos contactos e relações, com
especial relevo para os comerciantes. Nesta comunhão de ideias
e neste espírito de entre-ajuda teremos a solicitação de colonos
experimentados da Madeira para a cultura e safra do açúcar nas
Canárias e Açores.
A Madeira mercê da sua posição charneira entre os Açores
e as Canárias e da prioridade da sua ocupação, foi desde meados
do século XV um importante fornecedor de colonos a estes
arquipélagos. Foram os madeirenses que deram o arranque
definitivo à ocupação da terra açoriana e, nomeadamente, à ilha
de S. Miguel. Os filhos segundos da aristocracia madeirense, sem
direito a uma parcela de terreno do seu torrão natal por força
do direito sucessório, procuram adquirir nos Açores e, depois,
nas restantes áreas de ocupação portuguesa, aquilo que lhes foi
negado na Madeira. Assim o conseguiram Rui Gonçalves da Câmara
ao trocar, em 1474, as suas parcas fazendas na Ponta de Sol pela
capitania de S. Miguel. O mesmo sucedeu com Álvaro de ornelas ao
adquirir a capitania da ilha do Pico. Com estes vieram outros
membros de aristocracia madeirense na esperança de adquirir maior
número de dadas de terras; assim sucedeu com alguns membros da
família Betancor, os descendentes de Gonçalo Aires Ferreira, dos
Furtados de Mendonça de Castela, dos Martim Mendes de
Vasconcelos, dos Tavares, dos Cantos e dos Barcelos. Todos eles
receberam dadas de terra em S. Miguel, Terceira e Santa Maria,
tornando-se influentes nos locais de fixação. Essa posição adveio
das vantagens iniciais na aquisição de terras, do seu espírito
empreendedor e do seu rápido relacionamento matrimonial com as
principais famílias açorianas.
Aliada a esta vaga de povoamento teremos, ao longo do
século XVI, novas levas de emigrantes, provocadas quer pelo
movimento comercial, quer por causa da peste que assolou a
Madeira, na primeira metade desse século.
Dos madeirenses emigrados para os Açores, nos séculos XV
e XVI, 62% destinaram-se a S. Miguel, 17% à Terceira
distribuiram-se por Santa Maria, Graciosa, S. Jorge, Pico e
Faial. Esta situação denota o interesse sócio-económico dos
madeirenses pelas duas ilhas mais importantes do arquipélago com
as quais a Madeira mantinha estreitas relações comerciais.
As Canárias não ofereciam aos madeirenss as mesmas
possibilidades que os Açores. No entanto, a situação deste
arquipélago, associada ás esperanças postas no mito açoriano,
atrairão o madeirense que num ou noutro arquipélago busca uma
libertação das peias da aristocracia fundiária local ou uma
solução para a crise açucareira. Para os mais ambiciosos a mira
será S. Tomé ou o Brasil, mas a maioria prefere as propostas
aliciantes dos governadores de Gran Canaria e Tenerife à aventura
tropical. Assim, um grupo numeroso de lavradores, mestres de
açúcar, carpinteiros, caldeireiros, e refinadores trocou as
agruras da cultura e safra do açúcar madeirense pela promissora
faina açucareira de Gran Canaria e Tenerife. Da contabilização
estabelecida para este surto emigratório há referência a 56%
relacionados com a safra do açúcar, enquanto os restantes se
distribuem de modo uniforme pelas diversas actividades agrícolas
e artesanais. O primeiro grupo surge com maior incidência em Gran
Canária, enquanto o segundo se circunscreve a Tenerife.
As áreas de maior afluxo desta vaga emigratória são,
naturalmente, as ilhas de Gran Canária e Tenerife, onde teremos,
respectivamente, 37% e 60%; das restantes apenas são
referenciadas as ilhas de Palma e Hierro.
Açorianos e canários, atentos e cobiçando as riquezas das
Índias, ignoravam a realidade sócio-económica madeirense; toda
a sua atenção estava virada para o promissor Novo Mundo; eram as
embarcações que chegavam de Andaluzia e nas Canárias procuravam
o necessário reparo e refresco para o moroso percurso que os
esperava até às Antilhas; eram os mercadores naturais e
estrangeiros que cobiçavam e disputavam as necessárias licenças
para um comércio rendoso com essa área; eram, ainda, os vizinhos,
que aguardavam as caravelas ou a almejada oportunidade de
embarcarem para as Índias. Nos Açores pelo contrário, vivia-se
a expectativa da chegada das naus na esperança de adquirir
algumas migalhas do reluzente e precioso metal.
A Madeira só era recordada quando todas estas expectativas
se goravam ou quando a manutenção do comércio inter-insular o
justificava. As rotas açoriana e canária do fornecimento dos
cereais à Madeira implicaram essa necessidade; por isso
depararemos, ao longo dos déculos XVI e XVII, com a permanência
temporária de açorianos e canários na Madeira; eram na sua
maioria originários das ilhas que mantinham contactos mais
assíduos com o Funchal.
No período de 1539 a 1600 os açorianos representam 9% da
imigração madeirense; surgem só a partir de década de 50 e
atingem nas décadas imediatas percentagem elevada, surgindo em
finais do século em lugar de muito relevo; este situação
evidencia a importância do contingente açoriano na constituição
da população da freguesia de Sé do Funchal. A componente canária,
ao invés, é reduzidíssima, e surge com maior incidência nas duas
décadas do século XVI, como
resultado da ocupação da ilha, em 1582, por Augustin Herrera.
Das famílias ilustres que trocaram as Canárias pela Madeira
salientam-se os Bettencourts, que, desiludidos com a conquista
e ocupação castelhana das Canárias, preferiram a calma da Ribeira
Brava, onde se fixaram, aí se relacionaram com os principais
terratenentes adquirindo terras na Banda d'Além.
As Canárias forneceram ainda grandes contingentes de mão-
de-obra escrava para o pastoreio e safra do açúcar; a afluência
dos aborígenes canários à Madeira deriva, assim, do surto da
cultura açucareira em meados do século XV e das necessidades daí
decorrentes em mão-de-obra. As Canárias, porque próximas e
povoadas por guanches, ofereciam saque fácil e contingentes
adequados.
O conhecimento das correntes migratórias entre os Açores
e as Canárias está dificultado pela falta de fontes; no entanto,
as poucas disponíveis elucidam-nos sobre a existência destes
contactos humanos e comerciais. Esta corrente migratória afirmou-
se mais no sentido Açores-Canárias que no inverso; neste último
sentido apenas há notícia da vinda de um mestre de açúcar para
Vila Franca do Campo e de Pedro Alves, de Tenerife, que serviu
a João Alvares do Sal na Lagoa (S. Miguel) como guardador de
cabras.
Os emigrantes açorianos nas Canárias são, na sua maioria,
oriundos das ilhas Terceira e S. Miguel; fixam-se nas ilhas de
Tenerife, Gran Canaria e Lanzarote, dedicando-se à cultura dos
cereais, vinha e cana sacarina. Em Lanzarote surge um grupo
importante que se dedica à cultura cerealífera. Os açorianos
teriam contribuído para o arranque do pastel em Tenerife.
OS PRODUTOS
As ilhas atlânticas dos três arquipélagos a que nos temos
referido, definidas por F. Braudel e P. Chaunu como o
Mediterrâneo Atlântico, caracterizam-se por uma política de
desenvolvimento económico na dependência dos interesses do
tráfico europeu internacional. A selecção e transplante dos
produtos para as novas arroteias far-se-á, assim, em consonância
destes vectores do dirigismo económico europeu, com as diferenças
e assimetrias derivadas da estrutura do solo e do clima. Esses
impulsos, em conjunto, actuam como mecanismos virtuais de
distribuição das culturas europeia-mediterrânicas, componentes
da dieta alimentar (cereais, vinho) ou resultantes das
solicitações das principais praças europeias (açúcar e
pastel).
Tal situação materializar-se-á numa nítida tendência destas
áreas para uma exploração económica baseada na monocultura ou
dominância de um produto. Contra isso surgirá a heterogeneidade
do espaço insular que condicionará a distribuição das culturas,
dando lugar a uma política distributiva ou de arrumação dos
principais produtos agrícolas; surgem deste modo áreas de
produção para a subsistência e troca, procurando definir-se as
condições necessárias à estabilidade das actividades sócio-
económicas. Assim, o alargamento da área do cultivo do açúcar na
Madeira implica a criação de novas áreas de produção cerealífera.
De igual modo, a heterogeneidade e descontinuidade do
espaço arável dos arquipélagos das Canárias e dos Açores
condicionarão a distribuição dos produtos e sectores de
actividade nas diversas ilhas, definida pela sua importância em
relação às necessidades internas e externas. As ilhas de
Fuerteventura, Lanzarote e Tenerife serão vocacionadas para
atender as necessidades da sua própria subsistência e das ilhas
vizinhas, enquanto as ilhas de S. Miguel, Graciosa, S. Jorge
suprirão as carências de Angra, praças africanas e Madeira. Nas
ilhas de Tenerife e S. Miguel, mercê da actuação hábil dos
governantes ou da disponibilidade de áreas de arroteias, foi
possível conciliar as necessidades de subsistência com a
voracidade das solicitações do mercado externo. Aí os cereais
medravam, lado a lado com o pastel ou o açúcar.
Esta situação de interdependência activa uma complicada
teia de cicuitos comerciais inter-insulares, necessários à
manutensão desta tendência monocultural.
O povoamento e exploração do espaço insular vai ao encontro
das solicitações que regeram o processo e a economia insulares.
O carácter agrário destas sociedades nascentes é compatível com
as necessidades derivadas da subsistência e das solicitações
externas. Ambos os sectores alicerçaram o rumo desta economia,
definido, por um lado, a aposta numa agricultura de subsistência,
assente nos componentes da dieta alimentar europeia e, por outro,
a imposição de produtos estranhos capazes de activarem o sistema
de trocas.
A estrutura do sector produtivo adaptar-se-á a esta
situação, podendo definir-se em componentes de dieta alimentar -
cereais, vinha, hortas, fruteiras, gado e derivados - e de troca
colonial - pastel, cana de açúcar. Em consonância com a
actividade agrícola verificar-se-á a valorização dos recursos do
meio insular, que irão integrar a dieta alimentar - pesca,
silvicultura - e as trocas comerciais - urzela, sumagre, madeiras
e derivados, como o pez.
Uma informação sobre a importância de todos esses
componentes na economia agrícola insular apenas se torna possível
para as Canárias; aí, em finais do século XVI, as deduções do
diezmo permitem essa análise.
Os cereais representam 34% em 1575 e 47% em 1584, enquanto
o açúcar apenas representa 1/4 na primeira data e 1/5 na segunda;
esta situação favorável dos cereais é explicável, como veremos,
pela crise da indústria e comércio açucareiro, a partir de meados
do século. São estes os principais produtos da economia canária,
variando a sua importância de ilha para ilha. O açúcar, que surge
apenas nas ilhas da Gran Canaria, Tenerife. La Palma e La Gomera,
adquire maior importância em Gran Canaria (48%) e La Palma
(34%).Os cereais, ao invés, dominam na ilha de Tenerife (37%).
No global, as ilhas de Gran Canaria (28%), Tenerife (44%) e La
Gomera (27%), surgem com as principais áreas produtivas do
arquipélago.
OS CEREAIS E O VINHO
Oriundos de uma área em que a componente fundamental da
alimentação era definida pelos cereais (trigo, cevada, centeio)
os colonos europeus que povoaram estas ilhas não menosprezaram
o quantitativo de grão necessário para a sementeira nestas novas
frentes de arroteamento. O fenómeno de ocupação e povoamento das
ilhas atlânticas é, assim, caracterizado pela transplantação de
homens, técnicas, produtos e formas de domínio e poder; tudo será
moldado à imagem e semelhança das terras de origem dos colonos.
Assim, surgem as searas, os vinhedos, as hortas e fruteiras
dominadas pela casa da palha e, mais tarde, pelas luxuosas
vivendas senhoriais.
Na Madeira, até à década de 70, a paisagem agrícola será
dominada pelas searas, decoradas de parreiras e canaviais. A
cultura cerealífera dominava, então, a economia madeirense,
referindo Fernando Jasmins Pereira, a este propósito, que no
período henriquino os cereais constituíram a base da colonização
da ilha.
A fertilidade do solo, resultante das queimadas, fez com
que esta cultura atingisse níveis de produção espectaculares, que
a historiografia quatrocentista e quinhentista anuncia com
assiduidade, notando que o cereal se exportava para o reino e
praças africanas. Em meados do século, segundo Cadamosto, a ilha
produzia 3000 moios de trigo, que excedia em mais de 65% as
necessidades da parca população. Esse excedente, avaliado em
cerca de 2/3 da produção, era exportado para o reino e, segundo
os cronistas, vendia-se ao preço de quatro reais; desde 1461,
1000 moios de cada safra destinavam-se ao saco da Guiné.
Não obstante, a partir da década de 60, com a valorização
da produção açucareira, as searas diminuiram em superfície e a
produção cerealífera passou a ser deficitária. ou seja: a partir
de 1466, a ilha precisava de importar trigo para sustento dos
seus vizinhos, sendo portanto, impossível manter as escápulas
estabelecidas; aliás, em 1479, referia-
se que essa produção dava apenas para quatro meses. Esta última
situação derivou da acção dominadora dos canaviais, aliada ao
rápido esgotamento do solo e inadequação da cultura, resultante
de uma exploração intensiva, sem recurso a qualquer técnica de
arroteamento.
O agravamento do défice cerealífero nas décadas de 70 e 80,
que conduziu ao alastramento da fome em 1485, surgirá como a
principal preocupação das autoridades locais e centrais. primeiro
procurou-se colmatar a falta com o recurso à Berberia, Porto,
Setúbal, Salónica; depois foi necessário definir uma área externa
produtora, capaz de suprir as necessidades dos madeirenses. Assim
sucedeu, desde 1508, com a definição dos Açores como principal
área cerealífera do Atlântico português; as ilhas açorianas
actuariam como o celeiro de provimento da Madeira e substitutivo
desta no fornecimento às praças africanas.
A Madeira, que se havia afirmado, no período henriquino,
como um importante mercado de fornecimento de trigo passará, no
governo fernandino, à situação de comprador, adquirindo mais de
1/2 do seu consumo nas ilhas vizinhas: Açores, Canárias.
A crise cerealífera surge simultaneamente com a afirmação
da mesma cultura no solo açoriano, havendo correlação entre a
crise, de um lado, e o surto, do outro; Joel Serrão refere-nos
que a valorização dos cereais na agricultura resulta dessa
situação. O rápido incentivo do povoamento deste arquipélago
nas décadas de 60 e 70, conduziu ao igual desenvolvimento da
cultura cerealífera, de modo que esta se afirmava, em finais do
século, como a principal área produtora de trigo do Novo Mundo.
A historiografia é unânime em afirmar a elevada fertilidade
do solo açoriano; o mais demonstrativo desses textos é o de
Gaspar Frutuoso, que nos dá conta, de modo exaustivo, das
diversas formas de actividade económica do arquipélago, tendo em
conta a actuação dos factores de produção; na descrição que
faz das nove ilhas salienta que o solo açoriano, de um modo
geral, se apresenta apto para a cultura do trigo, quer pela sua
estrutura geográfica, quer pela fertilidade, que tornava
desnecessário o recurso ao sistema de afolhamento.
A intensificação dessa cultura e a falta de uma correcta
política de arroteamento condicionaram a produção cerealífera
açoriana a partir de meados do século XVI. A situação de crise,
que então surgiu, resultava, por um lado, do esgotamento e
inadequação das sementes ao solo e, por outro, de acção da
alforra. Esta situação condicionará e provocará profundas
alterações na economia agrária açoriana, sendo o factor
preponderante para o alargamento da área arroteada e das
alterações na estrutura económica.
Os problemas cerealíferos que surgiram com maior acuidade
a partir desta data, agravando-se nas últimas décadas do século,
pautavam toda a acção dos municípios e coroa que procuram, de
modo desenfreado, as soluções adequadas para a carestia e para
a fome.
A partir de finais do século XVI as ilhas de Tenerife,
Lanzarote, Fuerteventura, La Palma e Gran Canaria juntar-se-ão
ao grupo das áreas produtoras de cereal no Atlântico,
apresentando-se como celeiro local e de fornecimento da Madeira
e, até de Castela, em momentos de penúria; segundo Eduardo
Aznar a cultura cerealífera desempenhou um papel preponderante
na economia insular, suplantando mesmo o açúcar. Da análise
das rendas das ilhas realengas verifica-se que os cereais surgem
como uma componente importante da economia insular, variando, é
certo, de ilha para ilha. Assim, para todo o século XVI, nas
ilhas de Tenerife e La Palma teremos a dominância desta cultura;
de 1507 a 1508 ela representava 47%, na primeira, e 36%, na
segunda; em 1510 estas duas ilhas apresentavam 49% em cereais e
45% em açúcar.
Em 1522, no conjunto das ilhas realengas, salienta-se com
maior acuidade a dominância desta cultura na produção canária;
assim as referidas ilhas representavam 55% enquanto o açúcar
surge com 16%, isto é, menos de um terço. Esta situação resulta,
fundamentalmente, da ilha de Tenerife, uma vez que em Gran
Canaria, e desde 1498, o açúcar adquiriu uma posição privilegiada
(52%) em relação aos cereais (38%).
A produção cerealífera canária circunscrevia-se às ilhas
de Tenerife, Gran Canaria, La Palma, Lanzarote e Fuerteventura.
A primeira adquire posição cimeira, desde os inícios da
conquista, mantendo-se até finais do século XVI (1585); entre
1507 e 1522, a média de produção orçava as 85.000 fanegas de
cereais, sendo 60% de trigo e 40% de cevada. No ano de 1522 das
100 000 fanegas de produção, cerca de 30 000 foram consumidas
localmente e as restantes exportadas para as ilhas vizinhas e
para a Madeira.
A ilha de Tenerife mantém-se, até princípios do século XVI,
como o principal celeiro canário, capaz de suprir as necessidades
do seu consumo e das ilhas vizinhas, como Gran Canaria, La Palma
e Madeira. Aliás, em 1585, Thomas Nichols referia que "esta isla
es la más fértil de todas encuanto al trigo, y desde este punto
de vista es una madre o una nodriza para todas las demás en
tiempo de necessidad".
A conjuntura cerealífera deste arquipélago, em meados do
século XVI, é idêntica à das restantes áreas produtoras (S.
Miguel, Terceira), definindo-se pela acuidade dos problemas de
abastecimento local, que surgem como o resultado da deterioração
do solo e do aumento desporporcionado da população; a esta
situação de crise, generalizada a todo o mundo insular,
corresponde uma intervenção assídua da coroa e dos municípios,
entravando a livre circulação do produto e o seu consequente
comércio.
A produção de 1585 evidencia essa situação, demarcando a
necessidade de recurso a outros produtos alimentares ou à sua
importação; a produção de trigo dava apenas para um quarto das
necessidades; Daí o recurso a outros cereais, como o centeio e
a cevada, produtos importantes na dieta das camadas sociais mais
humildes. No entanto, como esta produção apenas surge com metade
do quantitativo necessário, somos levados a concluir que a
alimentação deveria ser variada, sendo os seus componentes
extraídos da rúbrica miunças, que representa valor superior em
todas as ilhas, e um total de 50% do global das Canárias. Apenas
as ilhas de Lanzarote e Fuerteventura poderiam manter um
importante comércio de exportação, alheio a qualquer impedimento
à sua livre circulação.
Os cabouqueiros peninsulares transportam conjuntamente com
os poucos grãos de cereal alguns bacelos das boas cepas
existentes no reino, de modo a poderem dispor do precioso
rubinéctar para o ritual cristão e alimento diário. A videira
adaptou-se com facilidade ao solo insular e conquistou uma
posição importante na economia peninsular.
Cadamosto, que em meados do século XV visitou a Madeira,
ficou deslumbrado com o rápido crescimento desta cultura,
aduzindo que a ilha "tem vinhos, muitíssimo bons; se se
considerar que (...) é habitada há pouco tempo são em tanta
quantidade, que chegam para os da ilha e se exportam muitos
deles".
A cultura da vinha na Madeira absorvia, já por esse tempo,
uma porção considerável da área arroteada da ilha e, de modo
especial, a zona ribeirinha do Funchal, onde deparamos com doze
vinhas e treze latadas. Além Funchal, na área entre a Ribeira
Brava e a Ponta do Sol encontramos apenas oito latadas. Na
primeira metade do século seguinte esta cultura aumenta em
extensão e importância, alargando-se a novas áreas como Câmara
dos Lobos, Caniço e Ribeira Brava; a partir de meados do mesmo
século a vinha conquista em definitivo o solo madeirense,
substituindo os canaviais e alargando-se às clareiras vertente
norte, e de tal modo que em finais do século existia com
abundância em todos os núcleos de povoamento.
Os trigais e os canaviais davam, assim, lugar ás latadas
e balseiras, a vinha tornava-se a cultura exclusiva do colono
madeirense, à qual passa a dedicar toda a sua acção e engenho.
O vinho adquire o primeiro lugar na economia madeirense,
mantendo-se nessa situação cerca de três séculos.
A evolução da situação viti-vinícola madeirense é
apresentada de modo exemplar por alguns visitantes da ilha nesse
século. Assim em 1547 Hans Standen definia a economia da ilha
pelo binómio vinho/açúcar, enquanto, em Maio desse ano a vereação
funchalense decidia o preço do vinho, uma vez que "nesta ilha as
mais pessoas della vivem de vinhos". Esta última situação
surge reforçada em meados do século, e de tal modo que, na década
de 70, o vinho viria a apresentar-se como o primeiro e principal
produto de exportação. Em 1583 T. Nichols referia que "la
producción principal de este país es una gran cantidad de vino
excepcionalmente bueno, que se lleva a muchos lugares". E, em
1590, Torriani dava conta da abundância de vinho na ilha,
referindo que "superou em mucho lo que en su tiempo habia visto
Alvise da Mosto".
Nos Açores o vinho não terá adquirido, nos séculos XV e
XVI, a importância que teve na Madeira e, mesmo, nas Canárias;
só assumirá uma posição de relevo na economia açoriana a partir
de finais do século XVI, com as escápulas vantajosas para o
Brasil e Antilhas. Os condicionalismos de ordem geográfica e
climática terão contribuido, em parte, para o escasso
desenvolvimento da cultura da vinha; se excluirmos a ilha do Pico
e Santa Maria, é forçoso concluir que o arquipélago não
apresentava as condições mesológicas adequadas aos vinhedos;
aliás, no reinado de D. João II, o alemão Munzer queixava-se da
fraca qualidade do vinho dos Açores; e, em finais do século
tanto Linschoot como Mosquera de Figueiroa apontaram que o vinho
terceirense era de muita má qualidade; o primeiro salienta, a
esse propósito, que na ilha "onde se dá também grande abundância
de vinho, mas muito fraco e que não pode guardar-se nem ser
transportado para fora; é, contudo, utilizado por gente pobre,
pois que os mais ricos usam ordinariamente dos vinhos da Madeira
e das Canárias".
O incentivo desta cultura no século XV, a partir das
décadas de 60 e 70, deverá resultar das correntes imigratórias
de madeirenses que participaram activamente na ocupação e
exploração do solo açoriano; de resto a tradição anota que teria
sido frei Pedro Gigante quem, cerca de 1460, introduziu os
primeiros bacelos oriundos da Madeira na ilha do Pico. A
cultura de vinha espalhou-se a quase todo o arquipélago,
adquirindo importância na ilha do Pico e em S. Jorge, Santa Maria
e S. Miguel, ocupando aí todas as terras de biscoito.
Na ilha de S. Miguel a produção em finais do século
oscilava entre duas mil e cinco mil pipas anuais, das quais 70%
provinham das vinhas de Ponta Delgada e Lagoa, 20% da Ribeira
Grande e apenas 10% das restantes partes da ilha. Na de S.
Jorge colhiam anualmente três mil pipas de que se exportava
metade para a Graciosa e Faial, referindo Gaspar Frutuoso que em
S. Jorge existiam trezentas adegas. Na ilha do Pico, só em S.
Roque e Santa Bárbara produziam-se mil e novecentas pipas,
havendo aí importantes lavradores de vinha, como Belchior Homem,
que produzia de cem a cento e trinta pipas de bom vinho.
Nas Canárias o impulso viti-vinícola deu-se logo após a
conquista destas ilhas, tendo o vinho assumido uma posição de
relevo na economia canária, na segunda metade do século XVI. O
rápido arranque desta cultura na ilha de Tenerife resulta do
incentivo do cabildo à plantação de videiras, aliado à proibição
dos vinhos de fora, como forma de colmatar a sua falta no mercado
local. Nas ilhas de La Palma e Gomera esse avanço resulta da
existência de um mercado comprador nas Índias Ocidentais, cujo
transporte era facilitado pela posição das duas ilhas no traçado
rotas comerciais de ida.
A insuficiência da produção cerealífera insular,
acompanhada da incidência de agudas crises de produção,
conduziram à valorização da componente leguminosa e frutícola na
alimentação insular. Assim a fruticultura e horticultura
apresentar-se-ão como componentes importantíssimas na economia
de subsistência. Gaspar Frutuoso em finais do século XVI, alude
com frequência às hortas e quintais, que ornamentavam a paisagem
humanizada do mundo insular, onde se produzia um conjunto variado
de legumes e frutas; estes, para além do uso na dieta
alimentar, eram também valorizados pela utilização para
provimento das naus que aportavam com assiduidade a estas
paragens.
A dieta insular completava-se com o aproveitamento dos
recursos do meio com valor alimentar, como seja a caça e pesca,
e dos derivados da actividade pecuária, como a carne, o queijo
e o leite. A pesca, mercê de condições do meio, será uma
actividade importante das populações ribeirinhas, que usufruem
de grande variedade de mariscos e peixe, junto à costa e no mar
alto.
O gado terá igualmente importância na economia insular, não
só pela sua utilização como força de tracção nos transportes e
na lavoura, mas também pela valorização dos seus derivados na
alimentação (carne, queijo) e nas indústrias artesanais (couro,
sebo). Tendo em conta esta múltipla utilização, os municípios
procuram valorizar e regulamentar a componente pecuária da
economia local, ao mesmo tempo que intervêm na distribuição e
venda dos seus derivados e do seu uso quotidiano, como força
motriz.
O AÇÚCAR E O PASTEL
Enquanto os produtos anteriormente referenciados surgem
como uma necessidade emergente da dieta alimentar dos colonos
europeus que tomaram estas ilhas por morada, os produtos
coloniais aparecem como uma imposição da Europa Atlântica, ou
seja, com a finalidade de suprir as necessidades do mercado
europeu.
A Europa distribui os produtos de cultivo pelas áreas
adequadas e assegura as condições necessárias à sua implantação
e ao seu escoamento e comércio. Nestas circunstâncias surgem a
cana-de-açúcar e o pastel, que se alaragam a todo o espaço
insular atlântico. Os incentivos da coroa e municípios, aliados
à sua elevada valoração pelos agentes europeus, actuaram como
mecanismo de desenvolvimento e expansão destas culturas no mundo
insular.
A cana-de-açúcar, pelo seu alto valor económico no mercado
europeu-mediterrânico foi um dos primeiros e principais produtos
que a Europa legou e impôs às novas áreas de ocupação; primeiro
chegou à Madeira e daí passou para os Açores e Canárias.
A cana-de-açúcar, na sua primeira experiência além-Europa,
evidenciou as suas possibilidades de desenvolvimento fora do
habitat mediterrânico. Esta evidência catalizou as atenções do
capital estrangeiro e nacional, que apostou no crescimento e
promoção desta cultura na ilha; só assim se poderá compreender
o seu arranque rápido; se nos primórdios da ocupação do solo
insular se apresentava como uma cultura subsidiária, a partir das
últimas décadas do século XV aparece como o produto dominante,
situação que se manterá até à primeira metade do século XVI.
A cana sacarina usufruindo do apoio e protecção do senhorio
e da coroa, conquista o espaço arroteado das searas, expandindo-
se a todo o solo arável da ilha. Aí poderemos distinguir duas
áreas: a) a vertente meridional (de Machico à Calheta), com um
clima quente e abrigada dos alíseos, onde os canaviais atingem
os 400 m de altitude; b) o nordeste, dominado pelas plantações
da capitania de Machico (Porto da Cruz e Faial até Santana), solo
em que as condições mesológicas não permitem a sua cultura além
dos 200m, nem uma produção idêntica à primeira área.
A capitania do Funchal agregava no seu perímetro as
melhores terras para a produção do açúcar, ocupando a quase
totalidade do espaço da vertente meridional. À capitania de
Machico restava apenas uma ínfima parcela dessa área e todo um
vasto espaço acidentado impróprio para a cultura. Assim, em 1494,
do açúcar produzido na ilha, apenas 20% advém da capitania de
Machico e o sobrante da capitania do Funchal; em 1520 a primeira
atinge 25% e a segunda os 75%.
Fernando Jasmins Pereira, num estudo comparativo da
produção das duas capitanias entre 1498 e 1537, discorda da
relação até então estabelecida, pois, de acordo com a sua
análise, a razão situa-se em 4:1 para os primeiros decénios do
século XVI, descendo entre 1521-1524 para 3:1 e recuperando na
segunda metade do decénio para a anterior relação.
Na capitania do Funchal os canaviais distribuem-se de modo
irregular, de acordo com as condições mesológicas da área. Em
1494 a maior safra situava-se nas partes do fundo, englobando as
comarcas da Ribeira Brava, Ponta de Sol e Calheta com 64% da
produção, enquanto o Funchal e Câmara dos Lobos tinham apenas
16%. Em 1520, não obstante uma ligeira alteração, a diferença
mantém-se, pois a primeira área surge com 50%, enquanto a segunda
apresenta 25%, valor igual ao total da capitania de Machico.
Numa análise em separado das diversas comarcas da capitania
do Funchal verifica-se que a comarca do Funchal domina essa
produção com 33%, seguindo-se a Calheta com 27%; as comarcas de
Ribeira Brava e Ponta de Sol surgem numa posição secundária,
ambas com 20%.
Referida a situação da geografia açucareira madeirense,
vejamos a sua evolução até meados do século XVI. Criadas as
condições a nível interno por meio do incentivo ao investimento
de capitais na cultura da cana-de-açúcar e comércio de seus
derivados, do apoio do senhorio, da coroa e da administração, a
cana estava em condições de prosperar e de se afirmar, por algum
tempo, como o produto dominante da economia madeirense. O
incentivo externo do mercado mediterrâneo e nórdico aceleraram
este processo expansionista, e a sua detenção só foi possível
pela conferência de vários factores endógenos e exógenos; assim
se explica o rápido movimento ascendente bem como o percurso
inverso, pois ao atingir-se o zénite não houve um lapso de
estabilidade.
A fase ascendente, que poderá situar-se entre 1450 e 1506,
não obstante a situação deprecionária de 1497-1499, é marcada por
um crescimento acelerado que, entre 1454-1472, se situava na
ordem dos 240% e no período subsequente, até 1493, em 1430%, isto
é, uma média anual de 13,3% no primeiro caso e de 68% no segundo.
No período seguinte, após o colapso de 1497-1499, a recuperação
é de tal modo rápida que em 1500-1501 o crescimento é de 110% e,
entre 1502-1503, de 205%. Esta forte aceleração do ritmo de
crescimento nos primeiros anos do século XVI irá marcar o máximo,
atingido em 1506, a que se sucede um rápido declínio nos anos
imediatos, de tal modo acelerado que em quatro anos se atinge um
valor inferior ao do início do século. A situação agrava-se nas
duas décadas seguintes, baixando a produção na capitania do
Funchal, entre 1516-1537, em 60%; na capitania de Machico a
quebra é lenta, sendo sinónimo do depauperamento do solo e da
crescente desafeição do mesmo à cultura. Todavia a partir de
1521 a tendência descendente é global e acentuada, e de tal modo
que a produção do fim do primeiro quartel do século se situava
a um nível pouco superior ao registado em 1470.
Na década de 30 consumava-se em pleno a crise da economia
açucareira, e o ilhéu viu-se na necessidade de abandonar os
canaviais ou de os substitiur pelos vinhedos, o que sucedeu de
modo evidente a partir de meados do século XVI.
A historiografia tradicional vem apresentando múltiplas
explicações para esta crise, assentes fundamentalmente na
actuação de factores externos. No entanto Fernando Jasmins
Pereira com o seu estudo sobre o açúcar madeirense, contraria
essa opinião fazendo assentar a crise em determinantes comdições
ecológicas e sócio-económicas da ilha, definindo como primordial
o primeiro factor: "...a decadência da produção madeirense é
primordialmente motivada por um empobrecimento dos solos que,
dada a limitação da superfície aproveitável na cultura, vai
reduzindo inexoravelmente a capacidade produtiva".
Deste modo a crise da economia açucareira madeirense não
se explica apenas pela concorrência do açúcar das Canárias,
Brasil, Antilhas e S. Tomé mas, acima de tudo, pela conjugação
de vários factores de ordem interna: a carência de adubagem, a
desafeição do solo à cultura e as alterações climáticas. A
concorrência do açúcar das restantes áreas produtoras do
Atlântico, bem como a peste (em1526) e a falta de mão-de-obra
vieram agravar a situação de crise do açúcar madeirense.
As socas de cana não foram esquecidas na bagagem dos
primeiros cabouqueiros açorianos, pois esta cultura surge nas
primeiras frentes de arroteamneto nas ilhas de Santa Maria e S.
Miguel e, mais tarde, na Terceira e no Faial. A cana trazida por
colonos oriundos do reino, da Madeira ou da Flandres, não
encontrou aí as condições adequadas ao seu rápido
desenvolvimento. As condições mesológicas aliadas à inexistência
ou reduzida presença de capitais nacionais e estrangeiros
travaram o seu desenvolvimento. Não bastaram as iniciativas
madeirenses, a partir da década de 70, e flamengas, em 1490, para
que esta cultura tomasse rumo idêntico ao da Madeira. No que se
refere a Santa Maria, Gaspar Frutuoso afirma que essa situação
resultou da falta de regalias, da insuficiência de cabedais e da
pouca curiosidade dos seus homens. Não obstante esta situação
desfavorável, em finais do século XV e princípios do seguinte
este produto ganhou importância de relevo nas ilhas de Santa
Maria, S. Miguel e Faial, isto se atendermos ao rendimento das
rendas entre 1502 e 1510. Nesta última data o açúcar açoriano
representaria apenas um terço da produção madeirense.
A falta de informação adequada para o período imediato e
a indicação no texto frutuosiano de uma nova fase de aranque da
cultura na década de 40 levam-nos a concluir que a primeira
metade do século não se apresentava favorável ao seu cultivo,
mercê do rápido surto da cultura dos cereais e pastel.
Esta segunda tentativa de implementação da cultura surge
em Vila Franca do Campo, por iniciativa de micaelenses com o
apoio técnico e financeiro de madeirenses; embora certamente
mais bem sucedida do que a primeira, manteve-se por pouco tempo,
pois desde 1563 que surgem os primeiros sinais de crise que
condicionarão momento seguinte, e de tal modo que na década de
80 havia apenas um engenho na Ribeira Seca.
A situação favorável das décadas de 40 e 50 é retratada na
documentação oficial. Assim, em 1551 o ouvidor justificava a
necessidade de construção de um porto em Ponta Delgada pelo
"grande crescimento em que vai a ilha com os açúcares que agora
se prantão e querem fazer". Além disso, desde 1552 que era
justificada a existência, em Vila Franca do Campo, de um escrivão
e recebedor de açúcares.
A crise de 1583 foi atribuída pelos mercadores deste trato
à fraca qualidade do produto, derivado das condições mesológicas
e das técnicas de fabrico. A tudo isto juntar-se-á em finais
do século XVI, a oneração do fabrico da arroba de açúcar, em
contraste com o seu valor reduzido e com a pouca competitividade
com o das Antilhas e do Brasil; este orçamento dos custos de
produção derivava do elevado preço de construção dos engenhos
(600 000 reais) e da falta e dificuldade de transporte de lenha
para a sua laboração; o bicho da cana viria completar a fase
decrescente desta cultura e pôr termo a esta efémera aventura.
Em síntese poderemos afirmar que o açúcar nos Açores não
se apresentou com a mesma importância que assumiu na Madeira e
nas Canárias, pois nunca constituiu um "elemento predominante na
economia insular", no dizer de Maria Olímpia da Rocha Gil.
Nas Canárias, na mesma medida da Madeira, o açúcar surge
como o componente mais importante do comércio durante o século
XVI; o desenvolvimento desta cultura nas ilhas Canárias ficou a
dever-se em muito à intervenção genovesa, quer por meio do
investimento do seu capital em canaviais e engenhos, quer pela
sua acção no trato deste produto; enquanto os genoveses intervêm
com o capital e prática comercial, os portugueses surgem com a
sua experiência no delineamento do sistema de regadio, construção
e laboração dos engenhos.
As primeiras socas de cana e mão-de-obra especializada
foram conduzidas da Madeira pelo governador de Gran Canaria, D.
Pedro de Vera. A partir daí a cultura expande-se para as ilhas
de Tenerife, La Palma e La Gomera, áreas onde existiam as
condições necessárias para a manutensão desta cultura, ou seja,
ilhas em que se tornava possível introduzir o devido sistema de
regadio e encontrar a lenha necessária à laboração dos engenhos.
Deste modo o açúcar surgirá, na vida canária da primeira
metade do século XVI, como o principal produto activador das
actividades económicas. segundo M. A. Ladero Quesada "el azúcar
fue, el principal producto de exportación, que permitia obtener
en contrapartida las manufacturas y otros productos que las
manufacturas y otros productos que las islas necessitaban. El
azúcar atrajo las inversiones de capital más importantes,
estimuló las relaciones mercantiles, la construcción de puertos
y varaderos".
Na segunda metade do século XVI assistir-se-á à diminuição
paulatina desta cultura mercê da concorrência do açúcar das
Antilhas e costa ocidental africana e, de igual modo, do
incremento da produção vitícola.
Tal como o açúcar, o pastel surge no mercado da Europa
nórdica e mediterrânica como um produto importante; era um dos
principais corantes utilizados na indústria têxtil europeia. A
abundância de urzela e sangue de drago no mercado insular
condicionou o aparecimento dos mercadores italianos e flamengos
que, na procura desses materiais corantes, trouxeram consigo o
pastel.
Não obstante estar referida a sua existência na Madeira,
no século XV, e nas ilhas de Hierro, La Palma e Tenerife, o
pastel só ganhou importância nas ilhas açorianas; encontramos
esta cultura nem todas as ilhas dos Açores, com especial
incidência em S. Miguel, Terceira e Faial.
Esta planta cultivou-se inicialmente na Madeira, sendo o
seu produto enviado ao reino e Itália; em 1460, ainda em vida do
Infante D. Henrique, recomendava-se o seu envio ao reino.
Jacques Heers corrobora esta situação ao afirmar que, por volta
de 1460, os genoveses vinham frequentemente buscar este produto
à ilha, e que esta era conhecida como a ilha do pastel; não
obstante, a documentação madeirense apenas referencia a
existência e o comércio de outras plantas tintureiras, como o
dragoeiro e a urzela. Mas se dermos crédito à lembrança do
Infante D. Henrique corroborada pela notícia de Jacques Heers,
e se tivermos em conta a referência feita por Virgínia Rau,
acerca da sua exportação em 1537 para Antuérpia, somos levados
a concluir que este produto era um componente importante das
trocas madeirenses nos séculos XV e XVI. O seu esquecimento
na documentação oficial será resultado da inexistência de
qualquer circunstância que nos escapa ou da sua secundarização
a favor de produtos, como o vinho e o açúcar, dominantes e
granjeadores de um valioso lucro.
O mesmo se poderá dizer em relação às Canárias, onde
deparamos apenas com referências muito lacónicas àcerca do
cultivo e comércio deste produto; a planta surge nas ilhas de
Hierro, La Palma e Tenerife; Gaspar Frutuoso em finais do século
XVI, refere-nos que em La Palma "houve muito pastel que deixaram
de os fazer por haver mais proveito nos vinhos e trigo e por os
da escala das Índias, de que é frequentada aquela ilha, não
pedirem senão vinhos".
O pastel foi certamente introduzido nas Canárias pelos
portugueses oriundos dos Açores, uma vez que estes surgem em
Tenerife associados à sua cultura e transformação. No
arquipélago açoriano esta cultura alcançou um lugar similar ao
ocupado pela cana-de-açúcar na Madeira e nas Canárias, sendo o
principal produto de troca com o exterior e um chamariz para os
mercadores italianos, flamengos e ingleses.
A historiografia, baseada no texto de Gaspar Frutuoso (L,ºs
III, IV, VI) refere-nos que o pastel foi introduzido pelos
flamengos que estiveram ligados ao povoamento das ilhas da
Terceira e Faial; no entanto parece-nos ser de outra
precedência a sua origem em solo açoriano. Em primeiro lugar,
convém esclarecer que o facto de os flamengos estarem ligados aos
primórdios do seu cultivo e comércio não poderá ser prova cabal
da sua transplantação da Flandres e de que a sua produção se
destinava em exclusivo a este mercado. O seu interesse pelo
pastel deriva da necessidade do seu uso na indústria têxtil,
procurando evitar os contratempos e dificuldades do mercado
abastecedor francês, pois a Flandres não era um mercado produtor,
mas sim um potencial comprador do pastel de Toulouse, Deste modo,
se tivermos em conta a sua existência na Madeira no século XV,
considerado na década de 60 como um produto importante, poderemos
referenciar a possibilidade da sua introdução por colonos
madeirenses, que invadiram as ilhas da Terceira, Faial e S.
Miguel a partir de meados do século XVI. Saliente-se que
Guilherme da Silveira, apontado como um dos introdutores do
pastel no Faial, na sua expedição para esta ilha aportou à
Madeira, onde se deteve por algum tempo. De igual modo Jácome
de Bruges, outro flamengo relacionado com o povoamento da
Terceira, esteve na Madeira na década de 50, tendo trazido
consigo Diogo de Teive. Em síntese é legitimo concluir que o
pastel foi introduzido pelos flamengos que na Madeira estiveram
ligados ao seu comércio ou então pelos colonos madeirenses que
emigraram para os Açores, a partir da década de 50.
De acordo com Gaspar Frutuoso, os flamengos
corresponsabilizaram-se pela introdução e distribuição do pastel,
a partir do Faial, pelas ilhas de S. Jorge, Graciosa e S. Miguel,
alargando-se depois ás restantes ilhas.
A ilha de S. Miguel, pela sua extensão e disponibilidade
do solo arável, tornou-se a principal área de produção e comércio
deste produto. A aristocracia fundiária micaelense fez incidir
as suas arroteias na cultura dos cereais e desta planta
tintureira; Gaspar Frutuoso dá conta desses elementos influentes
da produção de pastel, citando em especial Jorge Botelho e
Francisco Arruda da Costa.
Os incentivos da coroa a esta cultura, bem como a elevada
valorização do seu produto no mercado têxtil europeu, conduziram
à sua rápida afirmação no solo açoriano; assim, em 1592, Gonçalo
Vaz Coutinho, governador da ilha de S. Miguel, atribuia a falta
de pão na ilha à ocupação quase exclusiva do pastel; e,
conforme referia J. H. Linschoot, em 1589, "o negócio mais
frequente destas ilhas é o pastel para uso de tinturar" de que
"os camponeses fazem seu principal mister", sendo o seu comércio
"o princiapl proveito dos insulares"; o autor holandês adianta
a predominância desta cultura na agricultura açoriana,
nomeadamente em S. Miguel e na Terceira, referindo no entanto que
a produção e comércio da primeira é muito superior à da segunda.
RECOLECÇÃO, SILVICULTURA E PESCA
Mercê da sua instalação ribeirinha, os insulares foram
exímios marinheiros e pescadores, extraíndo do mar um grande
número de recursos com valor alimentar. A actividade piscatória,
nos principais portos e ancoradouros destas ilhas, deveria
absorver grande quantidade de vizinhos, pois a costa e o mar alto
eram ricos em peixe e mariscos.
A área marítima definida pela costa ocidental africana,
entre o cabo Aguer e a entrada do golfo da Guiné, era muito
abundante em peixe, sendo frequentada pelos vizinhos das Canárias
e da Madeira e pelos pescadores algarvios e andaluzes. Não
obstante o monopólio da coroa castelhana e a sua exploração em
regime de sociedade, actuavam aí com assiduidade pescadores
portugueses, e particularmente os madeirenses e algarvios. Só em
1564 encontravam-se a sul do Cabo Branco cerca de quarenta
embarcações castelhanas e portuguesas.
Todavia, o balanço das capturas feitas pelos insulares não
se apresentava habitualmente favorável sendo insuficientes para
cobrir as necessidades do mercado local, pelo que os municípios
se viam na obrigação de regulamentar a pesca e o comércio do
pescado. Além disso estas áreas recebiam muito pescado em
salga e fumado de outras áreas piscatórias europeias ou vizinhas,
conforme veremos mais adiante.
A actividade recolectora adquiriu igual importância dos
insulares, mercê da elevada valorização no mercado europeu, dos
seus produtos, como a urzela, aparecendo esta com abundância nas
ilhas da Madeira, Porto Santo, Desertas, S. Jorge, Corvo, Flores,
Santa Maria e La Gomera. Nas Canárias, onde se encontravam também
em Gran Canaria e Tenerife, a sua colheita e comércio faziam-se
já à altura da conquista; após esta concedeu-se exclusivo da sua
apanha aos vizinhos e o do comércio aos genoveses, sendo, em Gran
Canaria, o seu promotor Francisco Lerca.
No âmbito da silvicultura sobressai o aproveitamento das
madeiras na construção de embarcações, engenhos, casas, meios de
transporte; da lenha como combustível caseiro, industrial (nos
engenhos e forjas), do pez para calafetagem de embarcações. Esta
constante solicitação das madeiras, lenhas e derivados para o
quotidiano e para o comércio externo, conduziu à rápida
desarborização do solo insular; até mesma a ilha da Madeira, que
mereceu tal epíteto pela abundância e esplendor do seu arvoredo,
não deixou de sofrer com tal situação.
As queimadas para a abertura das frentes de arroteamento,
o constante uso nas indústrias e a construção, pela destruição
que causaram no parque florestal, forçaram as autoridades
municipais a actuarem de modo rigoroso, limitando o corte de
lenhas e madeiras às necessidades locais.
COMÉRCIO
O comércio surge como resultado de todos os
circunstancialismos acabados de referir, incentivadores do
sistema de trocas e activadores das comunicações inter-insulares
e inter-continentais, e ainda motivadores do desenvolvimento das
actividades económicas.
As trocas comerciais no mercado inter-ilhas só poderão ser
entendidas mediante um correcto dimensionamento deste mercado e
do seu enquadramento num âmbito mais vasto no mercado atlântico;
e este compõe-se de uma intrincada teia de rotas comerciais que
ligam o mercado europeu ao Novo Mundo.
O desenvolvimento sócio-económico do mundo insular
articula-se de modo directo, com as solicitações de economia
europeia-atlântica. Primeiro, como região periférica do centro
de negócios europeus, ajusta o seu desenvolvimento económico às
necessidades do mercado europeu e às carências alimentares
europeias: depois, actua como mercado consumidor das manufacturas
de produção continental em condições vantajosas de troca para o
velho continente; e, finalmente, intervém como intermediário nas
ligações entre o Novo e Velho Mundo. A partir de princípios do
século XVI, 0 Mediterrâneo Atlântico define-se como o centro de
contacto e apoio ao comércio africano, índico e americano.
Partindo desta situação subalternizadora do mercado insular
é comum definir-se a economia das ilhas pelo seu carácter
periférico e posição estratégia, bases da afirmação dos
interesses hegemónicos europeus além-atlântico. Deste modo, é um
mercado sem uma identidade própria, e sem estruturas ou meios
adequados que lhe possibilitem suplantar esta posição.
Todavia, uma análise aturada dos mecanismos sócio-económicos
insulares mostra que nessas sociedades se desenvolveram
actividades económicas fora da alçada dos vectores dominadores
na economia no mercado europeu e atlântico.
A função de apoio à navegação resulta apenas do
posicionamento geográfico de algumas ilhas, influenciando nelas
o desenvolvimento económico. Para a maioria, o elo europeu será
mais forte que o americano ou asiático, dinamizando o seu
desenvolvimento económico. Para a maioria, o elo europeu será
mais forte que o americano ou asiático, dinamizando o seu
desenvolvimento sócio-económico. A tipologia das conexões do
mundo insular com a França é definida pelo carácter colonial,
imposto pelo velho continente.
A estrutura comercial dos arquipélagos esboça-se de modo
complicado, definindo-se pela sua heterogeneidade. Não existe uma
linearidade na sua definição, mas sim uma variância de áreas,
circuitos comerciais e intervenção de agentes nacionais e
estrangeiros. Será dentro deste contexto que se articulará o
comércio insular, assumindo três formas, de acordo com as
classificações e cambiantes do mundo atlântico:
1. O comércio de cabotagem inter-insular, abarcando as
comunicações e contactos comerciais no mercado
interno, ao nível local, regional e inter-regional
definido este último o contacto entre as ilhas de
cada arquipélago;
2. O comércio inter-insular, definindo as conexões do
mercado insular atlântico restrito, no nosso caso aos
arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias;
3. O comércio atlântico-europeu, abarcando ligações a
longa distância com o mercado europeu, africano e
americano.
MERCADOS E PRODUTOS INSULARES
Os interesses da burguesia e aristocracia dirigente
peninsular entrecruzam-se no processo de ocupação e valorização
económica das novas sociedades e economias insulares. Esta
componente peninsular é reforçada com a participação da burguesia
mediterrânica que acorre aos reinos da Península, atraída por
novos mercados e uma fácil e rápida expansão dos seus negócios.
Um grupo de italianos, mais ou menos ligados às grandes
sociedades comerciais mediterrânicas, participa activamente no
processo de reconhecimento, conquista e ocupação do novo espaço
atlântico. Com efeito eles interessavam-se pelo processo de
conquista do arquipélago canário, pelas expedições portuguesas
de exploração geográfica e pelo comércio ao longo da costa
ocidental africana; deste modo, a sua penetração no mundo insular
é de tal maneira fácil que eles acabarão por alcançar uma posição
muito importante na sociedade e economia insulares, nomeadamente
na Madeira e nas Canárias.
O impacto mediterrânico no mundo insular foi de tal modo
forte que certos historiadores europeus, como Fernand Braudel e
Pierre Chaunu, definiram estas ilhas como o Mediterrâneo
Atlântico, designação que reflete a penetração de técnicas e
homens mediterrânicos neste novo espaço.
O investimento de capital de origem mercantil, nacional ou
estrangeiro, só surgirá numa óptica de nova economia de mercado
europeia, salientando-se como gerador de novas riquezas capazes
de um aproveitamento comercial. Assim, o comércio será o
denominador comum para os produtos a explorar e a introduzir no
solo. Nesse processo são valorizados os produtos activadores da
nova economia de mercado, ou seja, as madeiras, a urzela, o
sangue de drago, o pastel, os cereais, a cana de açúcar e o
vinho; a valorização desses produtos resultará das solicitações
da economia de mercado e das condições mesológicas do complexo
espaço insular.
Esta aposta incial do processo de ocupação das novas áreas
atlânticas irá marcar a evolução sócio-económica da sociedade
insular nos séculos XV e XVI, comdicionando a sua posição na nova
economia de mercado atlântico-europeia. Primeiro, orientadas para
a satisfação das necessidades e solicitações do mercado europeu,
as ilhas assumem uma posição de subordinação aos interesses
hegemónicos do Velho Continente; depois com o alargamento do
mundo atlântico, irão servir de bastião para o comércio europeu
na área costeira atlântica; finalmente, estabelecida e reforçada
a posição da burguesia europeia no Novo Mundo, resta-lhes o
aproveitamento das vias abertas, tentando usufruir o máximo dos
réditos das rotas em direcção à Europa, á África, à América e à
Ásia.
A manutensão e a conservação deste movimento comercial
implicavam a criação de apoios adequados e uma reserva de capital
disponível. Tudo isso delinearam os primeiros peninsulares e
estrangeiros que iniciaram a exploração económica do solo
insular, pois em poucos anos as ilhas atlânticas inseriram-se com
a maior facilidade nos circuitos comerciais do Atlântico,
activando uma intrincada rede de rotas.
Na Madeira, desde meados do século XV, manteve-se um trato
assíduo com o reino, activado de início com as madeiras, urzela,
trigo e, depois, com o açúcar e o vinho. Esse movimento alarga-se
depois às cidades nórdicas e mediterrânicas, com o aparecimento
de estrangeiros interessados no comércio do açúcar. A evolução
é de tal modo rápida e lucrativa que em 1493 a fazenda real lança
uma imposição sobre o movimento do porto da cidade para a despesa
de construção da cerca e muros. De acordo com a dedução feita
a imposição de um vintém sobre a tonelagem renderia cem mil reais
e a de 1% sobre as mercadorias duzentos e cinquenta reais.
O açúcar deveria ser o principal responsável por tão
elevada quantia. Aliás o mesmo produto contribuiu para o arranque
decisivo da economia madeirense, e para a sua consequente
inserção na economia europeia. O acelerado ritmo de crescimento
da ilha condicionou a atracção de diversas correntes migratórias.
Tal situação é definida em 1508 pelo monarca D. Manuel ao
justificar a elevação do Funchal a cidade: "teem creçido em mui
gramde povoraçam e como nella vivem muytos fidalgos cavaleyros
e pessoaes homrradas e de gramdes fazendas pollas quaaes e pello
grande trauto da dyta ylha...".
A tendência para a monocultura condicionou a economia
madeirense, marcando-a com uma forte dependência em relação ao
mercado externo, uma vez que a ilha necessitava desse mercado
para a colocação do açúcar e para se abastecer de produtos
alimentares (carne, pescado, legumes, cereais, azeite, sal) e
artefactos (ferro, telha, barro, panos, linho, etc.).
Giulio Landi, cerca de 1530, retrata com grande acuidade
essa ambiência no burgo funchalense: "Aqui chegam frequentemente
mercadores de países muito distantes: de Itália, França,
Flandres, Inglaterra e da Península Ibérica, que para lá levam
aquelas coisas que fabricam panos da ilha e dela transportam
aquelas de que a ilha é produtora, tais como açúcar e vinho, por
lá haver em grande abundância.
O mesmo autor refere que a Madeira se abastece de cereais
nas ilhas vizinhas e que o vinho é vendido "a mercadores que o
levam à Península Ibérica e para outros países setentrionais".
Em 1567 Pompeo Arditi na passagem pelo Funchal, observa que
o comércio baseado no açúcar, conservas e vinhos era abundante,
e que a ilha tinha de assegurar a sua subsistência em cereais nas
Canárias e nos Açores.
Estas descrições de viagem, distanciadas no tempo em trinta
e sete anos, atestam que a crise açucareira da primeira metade
do século não provocou o colapso da economia madeirense. Primeiro
porque o açúcar local, não obstante a quebra sofrida, continuará
a ser mais valorizado e procurado no mercado europeu; e segundo
porque o vinho veio preencher a lacuna deixada em aberto com essa
quebra.
Todavia, o momento de esplendor de finais do século,
conforme descrições de Frutuoso e Torriani, deverá resultar
certamente do comércio do vinho que, desde a década de 70, vinha
conquistando mercados na Europa e na América. O primeiro destes
cronistas exalta a opulência madeirense do seguinte modo: "A ilha
da Madeira /.../ tão afamada e guerreira com seus ilustres e
cavaleiros capitães, e tão magnânimos, e com generosos e
grandiosos moradores; rica com seus frutos; celebrada com seu
comércio que Deus põe no mar oceano ocidental por escala,
refúgio, colheita e remédio dos navegantes que de Portugal e de
outro reynos vão, e de outros portos e navegações vêm para que
diversas partes, além dos que de força ela somente navegam,
levando-lhe mercadorias estrangeiras e muito dinheiro para se
aproveitar do retorno que dela lutam para suas terras, /.../ com
seu licor e doçura, como um néctar e ambrosio provê as Índias
ambas, a Oriental aromática e a Ocidental dourada, chegando e
adoçando seus frutos de extremo a extremo quase o mundo todo".
O segundo põe a tónica na intensa actividade comercial do
porto funchalense com a África e a Europa: "El comercio es muy
importante, y se hace navios que vienen a esta ciudad de Funchal
de todas las partes del África Cristiana, de Itália, España,
França, Alemana y Escocia, de modo que se ha apodado de "pequeña
Lisboa".
Esta piccola lixbona inseria-se de modo evidente na
economia europeia atlântica, comparticipando do trato com o Velho
e o Novo Mundo, servindo de entreposto de comércio para as suas
riquezas e das áreas vizinhas.
Não obstante Vitorino Magalhães Godinho referir, baseado
no texto de Diogo Gomes (1450), que em meados do século os Açores
apresentavam um comércio activo de cereais e gado com o reino,
parece-nos que o arranque, em termos sócio-económico do
arquipélago açoriano só se processou, com maior acuidade, a
partir o último quartel do século XV. Aliás, a Infanta D.
Beatriz, em 1474, ao confirmar a compra da capitania da ilha de
S. Miguel por Rui Gonçalves da Câmara, refere que a mesma estava
"mal aproveitada e pouco povoada", sendo necessário o "serviço
e proveitos dos seus súbditos" para a "dita ilha ser melhor
aproveitada e povoada pelas muitas mercadorias que dela poderão
vir".
As isenções fiscais (1443-1444) no comércio com o reino,
para além de surgirem como aliciante à fixação de colonos,
contribuíram igualmente para o reforço das ligações com o
continente e para a afirmação da burguesia metropolitana nessa
rota. Aliás nas cortes de Coimbra (1472) e de Évora (1481-1482)
é bem expressa essa aspiração.
Tam como na Madeira, as preocupações do sector dirigente
açoriano orientavam-se para as possibilidades abertas pelo
desenvolvimento da economia de mercado. Assim cultivaram as
culturas mais valorizadas nas trocas comerciais europeias (cana
de açúcar e pastel); apenas o pastel conseguiu adaptar-se bem ao
solo açoriano, surgindo, desde princípio do século XVI, como um
dos principais produtos do comércio dos Açores; desde 1507 que,
segundo Valentim Fernandes, a ilha de S. Miguel exportava pastel
para a Flandres e outras partes.
A exploração do pastel teve uma evolução de tal modo
favorável, que, em 1536, o monarca D. João III manifesta o seu
apoio à sua cultura por meio de um regime de defesa da sua
qualidade e da sua capacidade concorrêncial no mercado europeu;
refere que o trato do pastel "era grãde e podia ser muito
major". Na realidade, assim sucedeu, pois, a partir da década
de 60, o comércio do pastel açoriano veio a intensificar-se mercê
do apoio e da vigilância da coroa e da sua valorização no mercado
europeu do norte.
Em 1589 Linschoot refere que "o negocio mais frequente
destas ilhas é o pastel para uso da tinturaria com o qual
negoceiam os ingleses, escoceses, franceses, levando para lá
fazenda e outras mercadorias em troca"; acrescenta que o comércio
desse produto estava centralizado no porto de Ponta Delgada e
Angra, sendo aí "o principal proveito dos insulares".
No século XVI o porto de Angra apresentava-se como o
principal entreposto comercial açoriano, com uma intervenção
importante no comércio do pastel e em outros produtos do
arquipélago, e com um importante porto de escala das embarcações
das Índias Orientais e Ocidentais, Brasil, Mina, S. Tomé e Cabo
verde. Assim, em 1578, D. Sebastião não hesita em classificá-lo
como um dos mais importantes do reino. Segundo o Pe. Maldonado
este movimento do porto de Angra animava o comércio do burgo,
contribuindo para a circulação do metam amoedável e para a
riqueza dos terceirenses.
Na mesma época a cidade de Ponta Delgada anima-se, não só
com o apoio às naus das rotas atlânticas, mas também com o
comércio das riquezas da ilha: o pastel e o trigo. Gaspar
Frutuoso, cronista das ilhas, enaltece as qualidades da população
de Ponta Delgada no comércio e evidencia o elevado trato
comercial do burgo: "A nobre e populosa cidade de Ponta Delgada,
tão célebre com generosos e poderosos moradores; tão rica,
provida e abastada com diversos comércios e grossos tratos de
mercadores riquíssimos, /.../ quasi tão sempre frequentada de
navios infinita gente forasteira, /.../ finalmente nela está o
corpo dos negócios, riqueza, habitações e comunicações de todo
o trato e contratos de toda a ilha; e residem os mercadores mais
ricos/.../, que têm comércio em Portugal, Castela, ilha da
Madeira, Canárias, Flandres e outras partidas, e se negoceiam os
negócios d'esta ilha por um lado tão bem, chão e verdadeiro, que
seguro nas partes estrangeiras não há nenhuma de seu qual lhe
peça vantagem".
O arquipélago canário, tardiamente associado ao domínio
europeu, manteve desde o século XVI um comércio activo com a
Península, baseado em escravos, carnagem e plantas tintureiras
(sangue de drago, urzela). Neste tráfico intervêm penínsulares
e os italianos recém-chegados à península. Após a conquista,
castelhanos, portugueses e italianos repartem entre si o comércio
nestas ilhas; só mais tarde surgem os flamengos e ingleses, que
delinearão as rotas de ligação ao mercado nórdico.
O desenvolvimento da nova economia de mercado nas Canárias
advém da exploração dos recursos do meio e também do
posicionamento deste arquipélago em face das áreas de comércio
do litoral africano e americano; as duas situações concorreram
para o aparecimento de agentes e representantes das principais
sociedades comerciais europeias. Em relação à costa ocidental
africana, o arquipélago canário surge como um "mercado receptor
y exportador de esclavos", centralizando o comércio destes com
a América, Europa e Mundo Insular.
Múltiplas descrições, de finais do século XVI, evidenciam
a posição dominante das Ilhas de Tenerife e Gran Canaria, ao
mesmo tempo que enunciam as diversas cambiantes do mercado. Um
texto anónimo de cerca de 1585 diz que em Tenerife "es el trato
...mucho, potque ay años que se cargam más de 30 navios para
Yndias con vinos, y quando el ano es abondoso de pan /.../";
o mesmo texto refere ainda que esta ilha mantem um trato
importante com as praças de Flandres, França Inglaterra, baseado
no açúcar e vinho. Torriani, na década de 90, após referenciar
que a população canária "se dirige bajo el de los oficios y del
tráfico de mercancias", corrobora as afirmações do texto anterior
dizendo: "Es com mucho la más rica de todas en azúcar y en vinos
excelentes que se transporta a diferentes partes del mundo,
/.../. Tiene mucho comercio, porque está mais problada de que
Canaria, y dos veces más que la Palma".
Ainda na mesma época, Frutuoso refere "haver nestas
ilhas um continuo trato e comércio de diversas nações, por causa
dos bons açúcares e vinhos, breu, lãs, queijos e outros frutos
que com todas as mais delas há"; em relação às ilhas de
Tenerife e La Palma aduz que a importância da vinha na exploração
agrícola adveio da constante solicitação das naus e do comércio
da rota das Índias.
O comércio do mundo insular baseava-se, essencialmente, na
troca de produção agrícola por artefactos europeus; a produção
das ilhas deveria fornecer os produtos adequados à activação da
economia de troca, capaz de suprir as necessidades locais. A
economia insular alicerçou-se no confronto dessas solicitações
da economia de subsistência e de mercado; assim, os vectores da
primeira condicionaram a valorização dos componentes da dieta
alimentar (o vinho, os cereais), enquanto os da segunda
implicaram a inserção da economia insular na economia europeia
através da exploração de produtos, como o açúcar e o pastel. Os
produtos referenciados, pelas razões apontadas impuseram-se no
mercado insular, galvanizando todo o sistema de trocas; entre
eles o vinho, o trigo e o açúcar adquiriram uma importância vital
no comércio local externo.
Partindo desta desvalorização dos produtos de comércio do
mundo insular analisemos, de modo sumário, o mercado e comércio
de cereal, vinho e açúcar para depois definirmos as áreas e as
formas desse comércio.
Nos três arquipélagos o cereal e o vinho adquiriram, em
épocas diversas, posição dominante no comércio local e externo.
Quanto ao açúcar, ele teve um lugar de relevo na Madeira e nas
Canárias, mas foi substituído nos Açores por o equivalente, o
pastel. esta aliança entre os vectores dominantes da economia de
subsistência e mercado tem a sua mais perfeita concretização nos
Açores e nas Canárias. Na Madeira a estreiteza do espaço
arroteável impediu essa simbiose, a partir de meados do século
XV, pelo que a ilha supria essa carência com a aposta num produto
com elevado valor mercantil, capaz de fornecer ao ilhéu o açúcar
para a troca pelo cereal e manufacturas, ou para aumento dos seus
réditos.
Em condições normais de produção o mundo insular
apresentava-se como auto-suficiente, produzindo o cereal e mais
componentes da alimentação insular. Apenas em momentos de penúria
havia necessidade de recurso ao mercado europeu ou à Berberia.
As ilhas de Tenerife, La Palma, Lanzarote, Fuerteventura, S.
Miguel, Santa Maria, Flores, Graciosa produziam o cereal
suficiente para o consumo corrente, bem como elevados excedentes
para o abastecimeto das ilhas vizinhas (Gran Canaria, Terceira,
Faial, S. Jorge e Madeira) e mesmo para exportação para o litoral
penínsular e marroquino.
Esta dinâmica de interajuda definia-se por diversas
contrapartidas. Assim, a Madeira oferecia ao açoriano vinho,
açúcar e produtos de que esta carecia e ao canário algum vinho
fruta, manufacturas de importação, a troco do precioso cereal.
Nos três arquipélagos o vinho e o cereal surgem como os
principais animadores das trocas de cabotagem, inter-insular
atlântico-europeia, enquanto o açúcar apenas activará a rota
europeia.
A Madeira está à afirmação da economia açucareira, a partir
de meados do século XV, evidenciou-se como o principal celeiro
atlântico, fornecedor das praças e das áreas carecidas do litoral
português. Para isso a coroa traçou uma política cerealífera,
definida pela abertura das duas rotas de escoamento: primeira,
orientada no sentido dos portos do reino (Lisboa, Porto, Lagos),
foi incentivada em 1439 por meio de isenções fiscais; a segunda
foi imposta pela coroa, em tempos de D. Afonso V, e tinha como
finalidade o abastecimento das praças do litoral africano e
guineense. Esta última solução definia-se pelo monopólio ou
direito preferencial por meio de contrato firmado com os
mercadores; assim, em 1466, todo o trigo dos direitos do infante
estava entregue a um mercador catalão, enquanto em 1473 se
estabelece um contrato com Baptista Lomelim para que "todo ho
trigo que hi houver o possa tirar para fora dela ilha".
As dificuldades sentidas, a partir de 1461, agravadas na
década seguinte, ditaram as profundas alterações da economia
madeirense que conduziriam a uma inversão do comércio do cereal.
As tentativas do Infante D. Fernando, em 1461 e 1466, para manter
a dominante cerealífera na economia madeirense e as consequentes
rotas de escoamento esbarram com a alta rentabilidade e
valorização da cultura do açúcar. Deste modo, o impulso da safra
açucareira e o aumento populacional implicaram uma insuficiência
da produção cerealífera e a necessidade de definição de um
mercado fornecedor; e desde logo o recurso aos mercados onde o
cereal se encontra disponível - na Berberia. Em 1479, os
moradores da ilha diziam que "somos este anos postos em outra
mayor que nesta ylha nam a pan para se poderem mãter meses pello
qual a nos he necessareo prover e buscar maneyras de fora do
reyno apenas triguo segundo Vosa Senñoria sabe". Esta
evidência implicava a tomada de medidas no sentido de estabelecer
uma área capaz de fornecer, com relativa regularidade, o cereal
de que a ilha carecia; assim sucedeu a partir de 1483, com a
definição das ilhas vizinhas como fornecedoras da saca do trigo
necessário ao consumo madeirense. Para atrair esse produto
estipulava-se em 1508 a isenção da dízima de entrada; desde 1527
foram mesmo custeados os encargos com a descarga, sacos e
armazenamento.
A coroa, ao mesmo tempo que procurava definir um celeiro
de abastecimento da Madeira, actuava no sentido de prencher a
lacuna deixada em aberto pela quebra da produção madeirense.
Deste modo, esse celeiro deveria cobrir as necessidades do reino,
da Madeira e das praças marroquinas. A sua concretização só se
efectuará mediante uma constante e rigorosa intervenção régia por
meio de ordenações e regimentos. Saliente-se que em 1473 e 1490
a população de Lisboa reclamara junto do monarca contra o envio
de cereal para África, no sentido de colmatar as carências do
reino; estas reclamações atestam a apreensão dos reclamantes pela
quebra da produção madeirense, ao mesmo tempo que comprovam a
importância do mercado açoriano e madeirense no fornecimento do
continente português. Aliás nessa década e na seguinte
intensificou-se o comércio do trigo açoriano com o reino; tal
nota assume maior importância no século XVI favorecida pelas
isenções fiscais nos portos importadores e pela falta de novas
áreas produtoras. O aumento do movimento de cereal para o reino
resultava, não só desse activo comércio, mas também das
transferências das rendas dos senhorios e direitos reais.
O comércio de trigo açoriano para as praças marroquinas
fazia-se, desde 1488, por meio de assentistas que em Lisboa
recebiam o contrato de fornecimento. A partir daqui preparavam
o embarque com auxílio de procuradores nas praças de Ponta
Delgada e Angra, ou deslocavam-se ao arquipélago para dar
execução ao contrato.
Em síntese o comércio do cereal alicerçou-se no provimento
do reino, da Madeira e praças marroquinas. A rota do reino surgiu
como uma necessidade decorrente da promoção do seu cultivo em
solo insular, enquanto as duas últimas foram definidas por
intervenção régia, de acordo com a política desenvolvimentista
do mundo atlântico.
É praticamente impossível contabilizar e estabelecer séries
do trigo no comércio insular, uma vez que faltam os registos das
alfândegas. Também a insuficiente informação das poucas vereações
existentes para o século XVI impossibilita uma análise
quantitativa desse tipo. Todavia, alguns dados avulsos elucidam-
nos que a exportação do cereal açoriano para as praças
marroquinas no século XVI oscilava entre os mil e quinhentos a
três mil moios, e era na sua maioria, oriundo da ilha de S.
Miguel. Para o reino o quantitativo era muito superior pois em
1524 só a cidade de Lisboa recebeu dois mil moios, e, em 1535,
apenas um mercador, António Borges, conduziu ao reino mil
oitocentos e cinquenta e nove moios e quarenta e dois alqueires
de trigo. Quanto aotrigo saído das diversas alfândegas
açorianas há apenas notícia do embarque na vila da Praia (na ilha
Terceira) em 1533 e 1562; no primeiro ano a vila exportou quatro
mil moios e, no segundo, cinco mil moios, além de setecentos
moios para Angra.
O arquipélago canário, afirmou-se desde princípios do
século XVI, como um novo celeiro do Atlântico, fornecendo o
excedente necessário ao abastecimento do litoral africano, da
costa peninsular e da ilha da Madeira. Do trigo saído no século
XVI da ilha de Tenerife, cerca de 53% destinou-se a Portugal e
à Madeira, o restante ao mercado insular canário e castelhano.
O mercado peninsular totaliza 69% desse cereal, ficando apenas
a parte sobrante para as ilhas. O cereal exportado para o litoral
peninsular orientava-se no sentido das principais praças
comerciais: Lisboa, Sevilha e Cádiz. Note-se que no caso de
Castela são as cidade gaditanas os principais consumidores do
cereal canário destinado a Espanha. Quanto ao comércio da cevada,
o maior número de moios é canalizado para Portugal, nomeadamente
para o porto de Lisboa, sendo de salientar um único embarque de
sessenta e seis moios e meio de cevada para o arquipélago
açoriano em 1511.
O problema cerealífero no mercado surge com maior acuidade
apenas na Madeira, uma vez que a ilha se apresenta a partir das
três últimas décadas do século XV, como uma área carecida de
cereal. A produção local, circunscrita às partes do fundo e ilha
do Porto Santo era muito insuficiente e dava apenas para um terço
ou metade do consumo anual; a parte em falta deveria ser
colmatada com a importação do cereal das ilhas vizinhas; mas a
constância dos problemas cerealíferos no mercado insular, em
conjunção com os impedimentos impostos a esse trato, obrigaram
os madeirenses a socorrer-se do cereal do reino, nomeadamente em
Lisboa, Setúbal e Porto e no mercado europeu, como a Bretanha,
Salónica e Jerez, a troco de açúcar.
No século XVI, definido de modo rigoroso o celeiro de
provimento nas ilhas vizinhas, a questão cerealífera atenuar-se-
á, agravando-se apenas com as crises sazonais das áreas
produtoras. A premência deste insuficiente aprovisionamento
obrigou o ilhéu a socorrer-se do velho continente, com que
manteve um comércio activo a troco do açúcar. Durante o século
em causa a Madeira recebeu 42% de cereal da Europa e 40% das
Canárias, enquanto na Europa domina o mercado flamengo com 32%.
A cultura da vinha alastrou a todo o espaço insular, mas
apenas na Madeira e nas Canárias o vinho adquiriu um lugar de
valor nas trocas externas, nomeadamente no mercado afro-
americano; os dois arquipélagos disputaram o domínio desse
mercado consumidor de vinho. Até à união das duas coroas a
madeira detinha o monopólio do comércio de vinho com os portos
afro-brasileiros, enquanto as Canárias disputavam com a Andaluzia
o mercado das Índias. A partir de 1598, com a proibição do
comércio da ilha da Madeira com o Brasil, como forma de evitar
o contrabando do açúcar brasileiro, a Madeira perde a posição
favorável que detinha neste mercado em favor da ilha de La Palma.
Desde meados do século XV exportava-se o vinho madeirense
para as diversas partes do mundo; sendo muito apreciado pelo
europeu, conjuntamente com o açúcar, chegava às principais praças
nórdicas, como Ruão, Orleans, Flandres e Londres; além disso
era fornecido ás naus da rota da Índia e Brasil e enviava-se às
praças marroquinas e às feitorias da área do Golfo da Guiné.
As Canárias surgem, entre meados do século XV e XVI, no
mercado viti-vinícola atlântico, como um importante consumidor
do vinho europeu e madeirense; mas a valorização da cultura na
economia local, nomeadamente em Tenerife e La Palma, inverteram
a situação, passando o vinho destas ilhas a afirmar-se como um
potencial concorrente ao da Madeira e ao da Andaluzia. A sua
exportação ter-se-ia iniciado na década de 40, surgindo na década
seguinte com grande abundância no mercado brasileiro e americano.
Em 1551 a ilha de La Palma exportou mil trezentas e seis pipas
de vinho para S. Domingos, Porto Rico e Nome de Deus; dezasseis
anos depois a ilha de Tenerife conduziu mil duzentas e trinta e
sete pipas para Nueva España.
Esse comércio com o Novo Mundo foi regulamentado, a partir
de 1559, com a concessão de licença para o seu embarque, ficando
todo o movimento, desde a segunda metade do século, sujeito às
autorizações temporárias da Casa da Contratação, que coordenava
todo o comércio com as Índias.
O comércio do açúcar do mercado insular, circunscrito às
ilhas de Gran Canaria, Tenerife, La Palma e Madeira, é o
principal activador das trocas com o mercado europeu. Na Madeira
ele assume uma posição dominante na produção e comércio entre
1450 e 1550, enquanto que nas restantes praças surge apenas em
princípios do século XVI, tendo assumido uma posição de vidência
a partir da terceira década.
O regime do comércio do açúcar madeirense nos séculos XV
e XVI, segundo opinião de Vitorino Magalhães Godinho, "vai
oscilar entre a liberdade fortemente restringida pela intervenção
quer da coroa quer dos poderosos grupos capitalistas, de um lado,
e o monopólio global, primeiro, posteriormente um conjunto de
monopólio cada qual em relação com uma escápula de outra
banda". Deste modo o comércio apenas se manteve em regime
livre até 1469, altura em que a baixa do preço veio condicionar
a intervenção do senhorio, que estipulou o exclusivo do seu
comércio aos mercadores de Lisboa. O madeirense, habituado a
negociar com os estrangeiros, reage veementemente contra essa
decisão, pelo que o Infante D. Fernando, restringidas as suas
possibilidades, arremata em 1471 todo o açúcar a uma companhia
formada por Vicente Gil, Álvaro Esteves, Baptista Lomelim,
Francisco Calvo e Martim Anes Boa Viagem. Dessa decisão
resultou um conflito aceso entre a vereação e os referidos
contratadores.
Passados vinte e um anos a ilha debate-se ainda com uma
conjuntura difícil no comércio açucareiro, pelo que a coroa
retoma em 1488 e 1495 a pretensão do monopólio do seu comércio,
mas apenas consegue impor um conjunto de medidas regulamentadoras
da cultura, safra e comércio, que ocorrem em 1490 e 1496. esta
política, definida no sentido da defesa do rendimento do açúcar,
irá saldar-se mais uma vez num fracasso, pelo que em 1498 é
tentada uma nova solução, com o estabelecimento de um contingente
de cento e vinte mil arrobas para exportação, distribuídas por
diversas escápulas europeias.
Estabilizada a produção e definidos os mercados de comércio
do açúcar, a economia madeirense não necessitava dessa rigorosa
regulamentação, pelo que em 1499 o monarca revoga algumas das
prerrogativas estipuladas no ano anterior, mantendo-se, no
entanto, até 1508 o regime de contrato para a sua venda; só nessa
data é revogada toda a legislação anterior, activando-se o regime
de liberdade comercial. Assim o definia o foral da capitania
do Funchal, em 1515, ao enunciar que "Os ditos açúcares se
poderão carregar para o Lavante e Poente e pera todas outras
partes que os mercadores e pessoas que os carregarem aprouver sem
lhe isso ser posto embargo algum".
O estabelecimento das escápulas em 1498 definia de modo
preciso o mercado consumidor do açúcar madeirense, que se
circunscrevia a três áreas distintas: o reino, a Europa nórdica
e a mediterrânica. As praças do Mar do Norte dominavam esse
comércio, recebendo mais de metade das referidas escápulas; entre
elas evidenciavam-se as praças circunscritas à Flandres, enquanto
no Mediterrâneo a posição é atribuída a Veneza, conjuntamente com
as três levantinas de Chios e Constantinopla.
Se compararmos as escápulas com o açúcar consignado às
diversas praças europeias no período de 1490 e 1550, verifica-se
que o roteiro não estava muito aquém da realidade; as únicas
diferenças relevantes na equivalência surgem nas Praças da
Turquia, França e Itália, sendo de salientar nesta última um
reforço acentuado na posição. Todavia esta diferença (quase 22%)
poderá resultar da actuação das cidades italianas como centros
de redistribuição no mercado levantino e francês.
Os dados disponíveis para o comércio do açúcar na Madeira,
nesse período, evidenciam a constância dos mercados flamengo e
italiano. O reino, circunscrito aos portos de Lisboa e Viana do
Castelo surge em terceiro lugar apenas com 10%. Observe-se que
o porto de Viana do Castelo adquiriu, desde 1511, grande
importância no comércio do açúcar com o reino e daí em Castela
e Europa nórdica; no período de 1581 a 1587 Viana é o único porto
do reino mencionado nas exportações de açúcar, mantendo aí uma
posição inferior a 1490-1550.
Essa função redistribuidora dos portos a norte do Douro
fica evidenciada entre 1535 e 1550, pois das cinquenta e seis
embarcações entradas no porto de Antuérpia com açúcar da Madeira,
dezasseis são do norte e apenas uma de Lisboa. Na primeira 50%
são provenientes de Vila do Conde, 31% do Porto e 19% de Viana
do Castelo; aliás em 1505 o monarca considerava que os
naturais dessa região tinham muito proveito no comércio do açúcar
da ilha. Em 1538 esse comércio era assegurado por um numeroso
grupo de grupos de mercadores dessa proveniência, entre eles
Aires Dias, Baltazar Roiz, Dioguo Alvares Moutinho e Joham de
Azevedo.
Nas transações com o mundo mediterrânico existiam
igualmente alguns entrepostos, em especial Cádiz e Barcelona.
Estas cidades surgem no período de 1493 a 1537 com os portos de
apoio ao comércio com Génova, Constantinopla, Chios e Águas
Mortas.
A ordenança de 1498 não determinava apenas o contingente
das diversas escápulas mas também a forma da sua comercialização.
A coroa, para dar maior facilidade no seu escoamento, monopoliza
as escápulas de Roma e Veneza, vinte mil arrobas das de Flandres
e três mil das de Inglaterra, num total de quarenta mil arrobas,
o equivalente a 33% do total; a este açúcar juntava-se o
quantitativo do quinto ou quarto e da dízima de exportação, que
o rei carregava por meio de contrato estabelecido com as grandes
companhias nacionais e internacionais. O rendimento dos direitos
era exportado para Flandres e Veneza, tendo estas recebido, entre
1495 e 1526, respectivamente cento e sessenta mil e vinte e seis
mil arrobas.
As escápulas, até 1504, e o produto dos direitos reais eram
canalizados para o comércio europeu, quer por carregação directa,
quer por negócio livre ou a troco de pimenta. Esse açúcar era
arrendado por mercadores ou sociedades comerciais, sediados em
Lisboa, sendo de salientar a actuação dos mercados italianos,
como João Francisco Affaitati e Lucas Salvago.
As operações comerciais em torno do açúcar, no período de
1501 e 1504, estavam centralizadas em mercadores ou sociedades
comerciais que, a partir de Lisboa, controlavam esse trato por
meio de um sistema complicado de feitores ou procuradores. A sua
intervenção, que se apresentava dominante nos três primeiros
decénios do século, sofreu um decréscimo acentuado na última
década. Esta situação atesta que os mercadores estrangeiros, em
face da instabilidade do mercado açucareiro madeirense nos
primeiros trinta anos abandonaram o seu comércio fazendo-o
substituir pelo canário ou americano.
A comunidade italiana controlava a quase totalidade do
comércio do açúcar com as principais praças europeias, seguida
da portuguesa e da castelhana. Os mercadores nórdicos, não
obstante a sua posição privilegiada, não apresentam uma posição
de relevo nestas operações, pois quedam-se por cerca de 5%. Tal
situação mostra, mais uma vez, que essa rota se mantinha sob o
controle dos portugueses, nomeadamente os oriundos do litoral
norte, e que esse comércio estava organizado pela feitoria
portuguesa da Flandres.
Nos quatro décenios em análise verifica-se que os italianos
detêm o exclusivo do comércio na primeira década e uma posição
dominante nas duas seguintes, sendo substituídos pelos
portugueses na década de trinta, e também por castelhanos e
franceses.
No grupo dos mercadores estrangeiros nota-se uma tendência
concentracionista, pois apenas os cinco principais detêm 71% do
açúcar transacionado. Além disso todos eles apresentam valores
superiores a dez mil arrobas, enquanto nos nacionais apenas um
tem mais de 1080 arrobas.
João Francisco Affaitati, mercador cremonês de família
nobre, chefe da sucursal em Lisboa da companhia Affaitati, uma
das principais dessa praça, surge no período de 1502 a 1529 como
o principal activador do comércio do açúcar madeirense, tendo
transacionado sete vezes mais açúcar que todos os portugueses.
Durante esse longo período, arrematou em 1502, as escápulas de
Águas Mortas, Liorne, Roma e Veneza. Conjuntamente com Jerónimo
Sernigi, João Jaconde e Francisco Cornivelli arrematou a venda
do açúcar dos direitos (1512-1518, 1520-1521, 1529) e actuou em
operações diversas de compra directa de açúcar e de troca deste
por pimenta ou dívidas.
Para manter esta amplitude das operações comerciais na ilha
contava com um grupo de feitores ou procuradores: Gabriel
Affaitati, Luca Antonio, Cristovão Bocollo, Matia Minardi,
Capella e Capellani, João Dias, João Gonçalves e Mafei Rogell.
Por outro lado aceitou procuração de Garcia Pimentel, Pedro
Afonso de Aguiar e João Rodrigues de Noronha. Note-se que o grupo
inicial é, na sua maioria, formado por italianos, ligados ao
comércio do açúcar, e que os segundos pertencem a algumas
famílias mais influentes da ilha.
O açúcar canário oriundo de Tenerife, Gran Canária e La
Palma, surge no mercado europeu a partir de princípios do século
XVI. A comunidade italiana, residente em Cádiz e Sevilha e com
intervenção activa no arquipélago, traçou as rotas desse comércio
com o mar do Norte e o Mediterrâneo. A activação desse trato
comercial nas primeiras décadas do século XVI condicionou a
presença de mercadores penínsulares e estrangeiros, que se
instalaram em Tenerife, Gran Canaria e La Palma.
O porto de Cádiz, importante praça comercial peninsular,
funcionava como centro de redistribuição e comércio no
Mediterrâneo. A conquista do mercado nórdico é mui posterior,
mercê do forte enraizamento desse mercado no comércio e consumo
do açúcar madeirense. A primeira carga de melaço canário enviada
a Antuérpia, em 1582, não foi do agrado dos eventuais
clientes. Sómente a partir da década de trinta o açúcar
canário consegue agradar ao gosto flamengo, beneficiando para
isso da quebra do açúcar madeirense e da presença da comunidade
flamenga no arquipélago. O trato com as praças nórdicas é
assegurado, em parte, pelos portugueses de Vila do Conde, Lisboa
e Algarve, que fazem valer a sua mestria e experiência,
adquiridas no trato do açúcar da Madeira.
Em síntese, a colónia italico-flamenga, residente ou
estante nas ilhas de Gran Canaria e Tenerife, era o principal elo
de ligação aos mercados de comércio e consumo do açúcar. Aqui,
como na Madeira, ambas as comunidades esquecem os antagonismos
religiosos para se unirem em prol duma causa comum, o comércio
do açúcar, repartindo entre si o domínio do mercado açucareiro.
O comércio do açúcar diversifica-se a partir de princípios
do século XVI. A Madeira que no século XV surgira como o único
mercado de produção, debater-se-á, a partir de finais desse
século, com a concorrência do açúcar das Canárias, de Berberia,
de S. Tomé e mais tarde do Brasil e das Antilhas. Esta
diversificação das possibilidades de escolha, por parte dos
mercadores e compradores, condicionará a evolução do comércio
açucareiro. Todavia, o açúcar madeirense manterá a sua situação
preferencial no mercado europeu (Florença, Anvers, Ruão), sendo
o mais caro. Talvez devido a esse favoritismo encontramos com
frequência referências à escala na Madeira de embarcações que
fazem o comércio do açúcar nas Canárias, Berberia e S. Tomé. Esta
situação deveria, de igual modo, explicar a venda de açúcar
madeirense em Tenerife, no ano de 1505.
O comércio açucareiro na primeira metade do século XVI era
dominado na Europa do Norte pelas ilhas e litoral do Atlântico,
nomeadamente, entre as primeiras, a Madeira, Tenerife, Gran
Canaria e La Palma. Assim, na década de 30 os navios normandos
ocupados nesse comércio dirigiam-se preferencialmente a esta
área. Convém anotar que a maioria das embarcações que rumava a
Marrocos e escalava na Madeira à ida e no regresso, o que
valorizou a Madeira no comércio com a Normandia.
A situação relevante do mercado madeirense perdurará nas
décadas seguintes, não obstante a forte concorrência da ilha de
S. Tomé que se afirmará, entre 1536 e 1550, como o principal
fornecedor de açúcar à Flandres. Todavia esta posição cimeira da
ilha de São Tomé surge só a partir de 1539.
COMÉRCIO DE CABOTAGEM
O comércio de cabotagem, nas suas variantes, define-se em
primeiro lugar, pela necessidade de escoamento dos produtos
locais para os principais centros de comércio com o exterior e,
na inversa, pela redistribuição dos produtos de importação. A
esta última função junta-se o fornecimento ou redistribuição dos
produtos locais de que carecem algumas ilhas. As assimetrias do
meio insular, evidenciadas pela estrutura dos terrenos, relevo
e clima, que condicionaram o aproveitamento desigual do solo e
a arrumação das culturas, são responsáveis pela intensificação
desta última forma de cabotagem inter-ilhas.
Na Madeira o comércio com o exterior estava centrado em
dois portos da vertente sul que dominam todo o tráfego da
capitania em que se circunscrevem: o porto do Funchal, para a
capitania do mesmo nome, dominando as melhores áreas de cultura;
e o porto de Santa Cruz, para a Capitania de Machico, área pouco
rica em termos agrícolas.
A posição dominante dos dois portos conduziu à
intensificação do comércio de cabotagem na costa sul e norte.
Todavia o porto de Funchal, bem servido de infraestruturas de
apoio e de uma forte rede de negócios, centralizará, a partir do
século XVI, todo o comércio com o exterior. Aí chegarão as caixas
de açúcar das partes do fundo, que depois serão canalizadas para
as principais praças europeias; o mesmo sucederá com o trigo
desta área, quando escasseia na praça funchalense. Os
contactos com a vertente norte faziam-se com maior assiduidade
a partir de Santa Cruz, alargando-se ao porto do Funchal para o
transporte de lenha e madeira.
A partir do Funchal delinear-se-ão novas rotas de
redistribuição dos produtos importados pela área da capitania
denominada partes do fundo. Assim, em 1521, João de Canisales,
mercador, foi à Ribeira Brava vender duas mil setecentas e
setenta e cinco peças de louça do reino.
A ilha do Porto Santo mantinha-se na dependência do Funchal
para os contactos com o exterior, não obstante as relações e
abordagens esporádicas com o exterior. por outro lado sendo esta
ilha definida por importantes áreas de cultura dos cereais,
mantém-se, em finais do século XVI, uma rota de escoamentos dos
excedentes da produção do trigo, centeio e cevada.
Nos Açores e nas Canárias, mercê da existência de um grupo
numeroso de ilhas com potencialidades diversas, o comércio de
cabotagem inter-ilhas organizar-se-á de modo diferente. Assim,
nos dois arquipélagos todo esse movimento será centralizado nas
duas ilhas mais importantes: os Açores na Terceira e S. Miguel,
nas Canárias em Tenerife e Gran Canaria.
A manutensão em cada uma destas ilhas de uma praça
comercial importante nos contactos com o exterior conduzirá à
formação de uma rede de negócios complicada em que as ilhas
vizinhas actuarão como satélites destas praças. As cidades de
Ponta Delgada, Angra, Las Palmas e Santa Cruz de Tenerife
centralizam o comércio externo de ambos os arquipélagos, actuando
como receptores dos excedentes da produção local e
redistribuidores dos produtos vindos de fora.
Gaspar Frutuoso, em finais do século XVI, dá conta dessa
situação, escrevendo, a propósito, que o porto de Angra era o
principal porto de cabotagem inter-ilhas no grupo central e
ocidental. A dominância da praça de Angra é então de tal modo
clara que o cronista açoriano não hesita em afirmar "que todas
as outras ilhas são suas escravas, pois quanto nelas se cria vem
pera ela" concluindo, que "as outras ilhas ao redor são quintas
da ilha Terceira".
A Terceira fornecia às ilhas vizinhas os produtos de
importação, como o vinho e açúcar da Madeira, manufacturas
diversas, recebendo em troca os cereais, gado e carne, vinho
madeiras e lenha, fruta e barro.
Entre as restantes ilhas o comércio e os contactos eram
assíduos. Assim no grupo central, a ilha de S. Jorge exportava
para o Faial e Graciosa os excedentes de vinho e cereais,
enquanto o Pico comerciava as suas madeiras, gado e vinho.
Todavia a ilha de S. Jorge, que segundo informação de Frutuoso
exportava cereais em 1576, em face da crise da produção
cerealífera vê-se obrigada a importá-lo da Graciosa, Terceira e
Faial.
A Ocidente as ilhas de Flores e Corvo estão em permanente
contacto, surgindo a última como uma verdadeira quinta das
Flores. Assim o Corvo comunica com o exterior a partir das
Flores, recebendo daí os produtos de fora e canalizando até lá
as madeiras, o linho, panos e outros produtos para venda nas
ilhas do arquipélago.
No grupo Oriental o comércio estava centralizado na praça
de Ponta Delgada que recebe as produções da ilha e o barro e a
telha mariense, ao mesmo tempo que procede à redistribuição dos
produtos de importação.
A ilha de S. Miguel ao apresentar-se, no século XVI, como
o principal celeiro açoriano, condicionará uma rede de cabotagem
inter-ilhas para fornecimento das ilhas carecidas procedendo-se
o seu escoamento a partir de Vila Franca, Porto Formoso e
Lagoa. Em finais do século XVI esta ilha, conjuntamente com
a Graciosa, tem o encargo de assegurar o fornecimento de trigo
à tropa do presídio, sediada em Angra.
De igual modo nas Canárias, as ilhas maiores (Tenerife e
GRan Canaria) detêm o exclusivo do comércio das manufacturas de
importação, no mercado canário, enquanto as ilhas menores se
limitam ao comércio dos produtos básicos: madeiras, cereais,
gado.
O porto de Santa Cruz de Tenerife evidencia-se como um dos
mais importantes no comércio inter-ilhas, estabelecendo rotas
comerciais com as ilhas de Gran Canaria, Lanzarote e
Fuerteventura. A partir daí exportava-se o trigo para Gran
Canaria, La Gomera, La Palma e as madeiras e carneiros para Gran
Canaria.
As ilhas de Fuerteventura, Lanzarote e La Palma salientam-
se no comércio de cereais, gado e carne, fornecendo as principais
praças de Tenerife e Gran Canaria.
O comércio de cabotagem interna era intenso nos dois
arquipélagos (Açores, Canárias) sendo orientado para a
distribuição dos produtos estrangeiros ou das ilhas vizinhas e
da canalização da produção local para as principais praças do
comércio externo. Assim é reforçada essa situação nas ilhas de
Gran Canaria, Tenerife, S. Miguel e Terceira.
COMÉRCIO INTER-INSULAR
O comércio entre as ilhas dos três arquipélagos atlânticos
resulta não só da complementaridade da sua exploração económica,
mas também da proximidade e da assiduidade de contactos; o
intercâmbio de homens, produtos e técnicas dominou o sistema de
relações entre eles. A historiografia insulana tem ignorado esta
componente do comércio uma vez que apenas tem valorizado as
relações com o Novo e Velho Mundos.
A Madeira mercê da sua posição privilegiada entre os
arquipélagos dos Açores e das Canárias e do seu parcial
alheamento das rotas índicas e americanas, apresentava condições
favoráveis para o estabelecimento de contactos assíduos com as
ilhas vizinhas; os contactos com os Açores, em especial, resultam
da intervenção madeirense na ocupação e exploração do solo
açoriano e da necessidade de abastecimento em cereais de que o
arquipélago açoriano era um dos principais produtores.
Com as Canárias, não obstante a sua conquista e a sua
integração na coroa de Castela, os contactos são muito mais
assíduos e importantes; tal situação resulta da proximidade dos
dois arquipélagos, da atracção exercida pela terra canária nos
madeirenses e, ainda, pela hostilização açoriana ao
estabelecimento da rota do comércio de cereais.
Os contactos permanentes entre a Madeira e as Canárias,
evidenciadas por uma constante corrente emigratória marcam uma
constante da História destes dois arquipélagos e evidenciam as
afinidades existentes, consequência de um idêntico posicionamento
dos monarcas ibéricos na política expansionista. Em reforço dessa
comunhão de interesses e do necessário relacionamento está a
posição privilegiada do porto do Funchal nas ligações entre a
Europa e as Canárias, surgindo como um porto de escala dessas
rotas.
Se é certo que a maioria dos contactos entre os
arquipélagos advém da posição privilegiada da Madeira em relação
às Canárias e o Velho Continente, não é menos certo que o trato
comercial resulta de necessidades e solicitações internas, que
impelem para uma aproximação. Ela aparece, por outro lado, pela
necessidade de recurso a um novo celeiro de provimento de
cereais, mediante a recusa dos açorianos a esse fornecimento; e
por outro, pelas solicitações da comunidade portuguesa residente
nas Canárias, de que fazia parte um grupo numeroso de madeirenses
que ansiavam por contactos com os locais de origem.
O trigo foi, sem dúvida, o principal móbil do comércio
canario-madeirense. Aliás, segundo testemunho de Giulio Landi
(1530) e Pompeo Arditi (1567) os cereais actuaram como os
principais activadores e suportes do sistema de trocas entre a
Madeira e estas ilhas vizinhas, quer do arquipélago canário, quer
do açoriano. Esta rota de abastecimento de cereais é definida
em princípios do século XVI, mantendo-se com toda pujança até
meados do século seguinte. As primeiras referências ao envio de
trigo canário para a Madeira surgem em 1504 para o trigo remetido
de La Palma e, em 1506, para o de Tenerife. Quanto ao trigo
açoriano, não obstante se apontar o seu início em finais do
século XV, apenas em 1508 temos uma referência a esse comércio,
com a definição por parte da coroa dessa rota de fornecimento de
cereais à Madeira, que se estrutura de forma idêntica à rota do
comércio com as praças africanas.
A abertura e permanência desta rota dificultava a
intervenção das autoridades dos dois arquipélagos próximos, uma
vez que irá provocar acesa contestação e permanente boicote de
vizinhos e funcionários régios e locais. esta contestação aumenta
em momentos de penúria, dificultando o abastecimento de cereais
na Madeira. Nos Açores, proprietários e mercadores, com
intervenção activa nos municípios, boicotam a rota, procurando
furtar-se a esse encargo. Perante isso a coroa teve de intervir
por diversas vezes, apelando para as autoridades açorianas, a fim
de que não pusessem qualquer impedimento ao envio de cereais para
a Madeira, uma vez "que los triguos desas ylhas se gastam mays
na ylha da Madeyra que em nehua outra parte de nosos reygnos".
Em Canárias o cabildo catedral de Gran Canaria queixava-se de
receber a sua parte dos dízimos, que se escoava para a Madeira,
ordenando-se em 1532 o seu embargo. Por outro lado o conflito
antigo entre as duas coroas criava, por vezes, atropelos a esse
comércio. Todavia a rota canária impõe-se pela dominância dos
contactos assíduos entre os dois arquipélagos , não o impedindo
as crises de produção, nem as limitações impostas pelo cabildo
de Tenerife. Nos Açores, ao invés, o monarca teve de impor à
força esta rota, pois a posição dos municípios e produtores era
de constante recusa; esta situação de afrontamento dos
açorianos resultava do desinteresse da burguesia açoriana, pois
estava apostada no comércio especulativo com o reino e nos
contratos de fornecimento às praças africanas.
As dificuldades sentidas no abastecimento de cereais na
Madeira na primeira metade do século XVI, bem como a incessante
recusa dos açorianos em participar nesse comércio, levaram o
monarca a intervir, em 1521, no sentido de manter a prioridade
na exportação do cereal para a Madeira. Mediante a acção
especulativa dos grandes produtores, o rei estipula a
obrigatoriedade de todo o carregamento se fazer mediante
procuração da comarca do Funchal e com o preço estabelecido em
auto. Em todas as recomendações e ordenações o monarca
fundamenta a sua intervenção no facto de a ilha não ter "outro
pão salvo o que mandão comprar às ditas ilhas".
A Madeira de acordo com a informação de 1546, consumia
anualmente doze mil moios de pão, dos quais oito mil vinham de
fora.
A ilha, apenas poderia contar com 32% da sua produção que
chegaria apenas para três a quatro meses. O cereal de
importação provinha, de modo variado, das ilhas vizinhas e da
Europa, sendo muito importante a posição das ilhas com 49%. No
caso dos Açores o trigo entrado no porto do Funchal é na sua
maioria oriundo do Faial, Santa Maria e S. Miguel, ilhas que
dispunham de um excedente vantajoso para esse comércio. Quanto
às Canárias são as ilhas de Lanzarote e Tenerife que surgem como
os principais graneros.
A permanência desta rota de abastecimento de cereais
implicou um incentivo e um alargamento das trocas comerciais
entre os três arquipélagos; assim, ao cereal vinham juntar-se
outros produtos, como contrapartida favorável a essas trocas.
Pelo que respeita aos Açores, a Madeira tinha para oferecer o seu
afamado vinho, açúcar conservas, queijos, peles, sebo e
chacina; neste grupo destaca-se o vinho que era muito
apreciado pelos açorianos; Linschoot, em finais do século XVI,
refere que o vinho madeirense, conjuntamente com o canário era
o preferido dos "mais ricos" da terra; além disso este afamado
rubinéctar era o vinho de uso corrente na celebração
eucarística.
A fama do vinho da Madeira deveria ser tão grande na
sociedade açoriana que o seu consumo era sinónimo de importância
social; por isso os trabalhadores de soldada, em 1574, rejeitam
na jorna o vinho da terra em favor do da Madeira; e, ao mesmo
tempo, a principal nobreza do arquipélago preferia a sua oferta
nos encargos de missa por morte.
O vinho da Madeira surge assim no mercado açoriano por
imposição do gosto "apurado" da sua população e como moeda de
troca para a aquisição de cereal. Deste modo podemos dizer que
a rota do cereal trouxe consigo o comércio do vinho madeirense.
Aliás, a primeira referência ao seu comércio nos Açores surge nos
inícios do século XVI, na altura em que era vendido na Ribeira
Grande a oito reais a canada. O tabelamento do seu preço de venda
ao público pelas vereações de Angra, Ribeira Grande e Velas (S.
Jorge) atesta a importância que o vinho adquiriu no mercado
local.
Em 1574 o vinho da Madeira representava 42% do vinho
entrado no porto de Ponta Delgada, enquanto o vinho do reino
ficava apenas por 8% e o vinho da Terceira e mais ilhas em
50%.
A primeira referência ao envio de vinho Madeira para os
Açores surge tombada em 1544 no testamento do mercador Afonso
Alvarez, em que se refere ter ele enviado ao Faial seis pipas de
vinho. O Faial parece ter sido um porto importante de destino
do vinho madeirense, dedicando-se a isso alguns importantes
mercadores como Francisco João, falecido em 1620. O comércio
do vinho nesta praça tão próxima das ilhas produtoras do bom
vinho açoriano (Pico e S. Jorge) resultará, sem dúvida, da
contrapartida favorável ao comércio dos cereais.
Na praça de Angra o vinho da Madeira é transacionado com
muita frequência, quer para consumo local, quer para
redistribuição pelas ilhas vizinhas de Graciosa e S. Jorge; as
únicas notícias do seu comércio nesta cidade surgem em 1552, 1561
e 1594. Saliente-se, por outro lado, que e, 1564 António Pires
do Canto entregara a Pedro Ribeiro dezassete pipas de vinho para
vender nas ilhas de Baixo, comprometendo-se este último a
entregar ao primeiro, em troca, vinte pipas de vinho da
Madeira.
Também nas relações com as ilhas Canárias o vinho surge,
muitas vezes, aliado a outros produtos como moeda de troca dos
cereais. Assim, em 1521 o mercador Juan Pomar, vizinho da
Madeira, enviou a Juan Garcia de Lós , mercador vizinho de Gran
Canaria, algumas pipas de vinho. E em 1525 enviou uma pipa e
um quarto de vinho e um quarto de vinagre. Entretanto em 1523
sai do Funchal o navio de Lourenço Morais com vinte pipas de
vinho para o mesmo destino; e, finalmente, em 1563 o mercador
João Nunes envia ao seu cunhado, residente nas Canárias, três
pipas de vinho para que este lhe enviasse trigo.
O comércio entre a Madeira e as Canárias remontava a meados
do século XV, altura a partir da qual a Madeira passou a receber
escravos canários, carne , queijo e sebo. Todavia esse trato não
era do agrado do Infante D. Fernando, senhorio da ilha, uma vez
que ele recusou a solicitação dos seus naturais para isenção da
dízima dos produtos que daí vinham, dizendo a propósito, "que tam
bõo trauto e das minhas ylhas dos Açores e tam bõo retorno averem
e milhor que de canaria se em elle quiserem emtrar". Não
obstante os vizinhos do Funchal teimaram em manter os seus
contactos com as Canárias; assim, em 1477, Nuno Cayado, mercador
madeirense, há mais de quinze anos ocupado nesse comércio,
recebeu um salvo conduto dos reis católicos para comerciar nessas
ilhas; e, em 1513, ao ser apresada em Gran Canaria uma
caravela portuguesa que levava a bordo um malfeitor, o regedor
local receia represálias por parte dos madeirenses.
A Madeira receberá, por intermédio dos portos do Funchal
e Santa Cruz, cereais, gado, pez, pipas vazias e em troca
fornecerá o seu vinho, canas, fruta verde, liaças de vime,
sumagre, pano de estopa, burel e liteiro.
Um dos mais importantes produtos fornecidos pelo mercado
madeirense e que tinha saída fácil nas Canárias era o sumagre,
que terá contribuído para o desenvolvimento da industria de
curtumes em Gran Canaria; uma primeira remessa é solicitada em
1569, seguindo-se, a partir de 1570, a intromissão em força da
classe mercantil neste trato; por exemplo, em 1571 Anton Solis
e Juan de Cabrejas, vizinhos de Gran Canaria, criam uma companhia
para comerciar o sumagre da Madeira; e, ainda nesta década,
surgiram outras companhias com a mesma finalidade, o que atesta
a importância deste produto no comércio com Gran Canaria.
Em síntese, as Canárias ofereciam à Madeira os produtos
alimentares de que esta carecia e em troca recebiam, para além
do vinho e sumagre, uma série de artefactos de produção local ou
de importação. A Madeira tinha neste arquipélago vizinho não só
o seu celeiro, mas também o açougue, fornecedor de gado e seus
derivados, como a carne, sebo queijo. Note-se que em 1527 Joana
Falcão veio declarar em vereação que o seu marido, Joam Novo, que
detinha o exclusivo da venda de carne no açougue municipal,
estava ausente nas ilhas Canárias, onde fora buscar carnes, como
era hábito. Esse gado e carne eram adquiridos, habitualmente,
nas ilhas de Fuerteventura e Lanzarote.
O comércio entre os Açores e as Canárias não assume a mesma
importância que apresenta na Madeira, pois a dificuldade nas
comunicações e a distância entre os dois arquipélagos, em
convergência com um diverso posicionamento destas ilhas na
economia atlântica, bloquearam o desenvolvimento e estreitamento
desses laços. Não obstante, desde muito cedo surgem referências
avulsas sobre esse comércio; em 1508 ao ser interditada a entrada
de navios em Tenerife por causa da peste, são referidos entre
muitos, homens oriundos dos Açores; e em 1511 surge em Santa Cruz
de Tenerife um Diego Afonso, mercador, vizinho da ilha do Faial,
para carregar desse porto de Garachico e outros portos da ilha
mil fanegas de cevada.
A partir da segunda metade do século XVI as trocas entre
os dois arquipélagos são mais assíduas facilitadas pela fixação
temporária ou permanente de açorianos no território canário;
estas trocas assentam ou no vinho canário e/ ou no trigo
açoriano.
O aparecimento do trigo açoriano em território canário não
é permanente, mas sim sazonal e resultado, muitas vezes, do
desvio da rota das embarcações que transportavam o cereal à
madeira; a primeira situação documenta-se em 1563 com o envio de
cereal para a ilha de La Palma, mercê da carestia que aí
havia; a segunda surge em 1535 com o trigo de Nuno Alvarez,
mercador de Guimarães, que aportou a Las Palmas, onde lhe foram
retirados trinta moios; em 1563, Gonçalo Dinis, mercador da
Ribeira Grande, transportando trigo e toucinho para a Madeira,
sofre um desvio na sua rota indo aportar a La Palma; a
situação repete-se em 1582 com duas embarcações de S. Miguel e
da Terceira.
Só em 1535 surge em Las Palmas uma companhia formada entre
Andrés Pérez Guitarte, mercador nos Açores e Jerónimo Mecia,
mercador genovês estante em Gran Canaria, para o comércio de
trigo, couros e outras mercadorias dos Açores. Esta permuta
de cereais testemunha a dinâmica de inter-ajuda dominante nestes
três arquipélagos, patente, aliás, em 1521 e 1573, com a
solicitação do ceral por parte do cabildo de Gran Canaria à
respectiva edilidade funchalense. A Madeira, que habitualmente
consumia o cereal canário, poderá, por vezes, auxiliar estes
vizinhos em momentos de penúria, socorrendo-se para isso do
cereal importado dos Açores ou da Europa.
Os açorianos recebiam das Canárias, em troca do cereal,
apenas vinho e breu. O primeiro produto, segundo Pompeo Arditi,
era conjuntamente com o da Madeira muito apreciado no mercado
açoriano; no entanto, apenas há notícia em 1565 do envio de
uma carga de cinquenta e cinco botas de vinho de Gran Canaria e,
em 1570, de quarenta pipas de vinho de Tenerife para a
Terceira.
A manutensão e estreitamento das relações entre os dois
arquipélagos portugueses com as ilhas Canárias resultam de vários
factores. Em, primeiro lugar, e quanto à Madeira, da necessidade
de abastecimento de cereais que se encontravam ali tão perto da
ilha e, em segundo, da intervenção dos portugueses avizinhados
na sociedade canária, que facilitaram e asseguraram esse
intercâmbio comercial.
COMÉRCIO ATLÂNTICO-EUROPEU
A situação periférica do mundo insular condicionou a
subjugação do comércio do Mediterrâneo Atlântico aos interesses
hegemónicos do velho continente. Foram os europeus os primeiros
cabouqueiros das ilhas, trazendo consigo produtos e sementes
lançadas nas novas culturas. E foram, igualmente, europeus os
primeiros a apreciar a qualidade dos produtos insulares e a
amealhar elevados réditos com o seu comércio.
Esta subordinação das ilhas aos interesses dominadores do
Velho Continente no Atlântico e às solicitações e necessidades
desse mercado levou a uma situação peculiar; na verdade definiu
a economia insular pelo seu carácter marcadamente colonial, isto
é, importador de manufacturas europeias a troco dos produtos
agrícolas. Esta troca, marcadamente desigual, condicionou o
desenvolvimento da vida económica das ilhas nos séculos XV e XVI,
sendo responsável pela sua constante instabilidade.
O comércio e a assiduidade de contactos entre as ilhas e
os reinos peninsulares resultam ou são impostos por essa
vinculação ou subordinação. Deste modo, as rotas comerciais que
lhe servem de suporte são definidas, desde o século XV, mantendo-
se por todo o século XVI como as mais importantes e valorizadas
da economia insular; as rotas africanas e americanas resultam
apenas de um aproveitamento vantajoso da posição geográfica das
ilhas, ou apenas de uma tentativa de extensão da sempre presente
rota europeia.
O arquipélago canário, mercê da sua posição e das condições
específicas, criadas após a conquista, foi dos três o que tirou
maior usufruto do comércio com o Novo Mundo. A sua priximidade
do continente africano, bem como o seu entroncamento nas rotas
atlânticas, permitiram-lhe a intromissão nesse trato, ainda que
constantemente regulamentado pela coroa e monopolizado pelas
cidades de Lisboa e de Sevilha.
Os Açores posicionados no traçado das rotas de regresso,
procuram igualmente valorizar a sua posição prvilegiada
intrometendo-se no comércio ilegal dos poucos produtos do Índico,
África e América, que escapavam à apertada vigilância da
Provedoria das Armadas. Todavia, esse benefício foi muito
diminuto, talvez a sua mais importante implicação tenha sido o
aparecimento de um grupo numeroso de mercadores castelhanos,
franceses e ingleses interessados no comércio transatlântico que,
por vezes, não esquecem as potencialidades económicas açorianas.
A Madeira, mercê da sua posição excêntrica alheia-se dessa
realidade, apostando no comércio com a Europa. Só muito mais
tarde os madeirenses terão uma intervenção activa no comércio do
Novo Mundo, por meio do vinho. A sua experiência, durante o
século XV, no comércio da costa africana foi fugaz, regendo-se
pelo objectivo de canalizar, do golfo da Guiné, os escravos
necessários à lavoura e à safra do açúcar.
O comércio insular com a Europa definia-se por uma
multiplicidade de produtos, agentes, rotas e mercados. A
península, mercê da sua intervenção no reconhecimento, ocupação
e valorização económica das ilhas, apresentar-se-á como o
principal mercador; será o elo de ligação entre elas e as
principais praças europeias no mar do norte e do Mediterrâneo;
assim, a partir de Lisboa, Cádiz e Sevilha activar-se-á um
assíduo comércio, secundado pelos outros portos atlânticos e
Mediterrânicos do litoral penínsular. A essas importantes praças
insulares afluiu um grupo numeroso de mercadores italianos,
franceses, flamengos e ingleses interessados no comércio,
atlântico e apostados nesta nova economia de mercado; se, numa
primeira fase, a sua intervenção estava limitada à península, num
segundo momento, facilitada a sua intervenção nas ilhas, actuam
a partir delas, onde se afirmam como os principais homens de
negócio; a partir daí estabelecem contactos e rotas directas com
as principais praças do Mediterrâneo e do Norte.
A Madeira, de todas a primeira a merecer uma ocupação
efectiva alicerçou o seu comércio nas relações com as zonas
costeiras de proveniência dos seus colonos e com as principais
praças de origem dos mercados forasteiros. Se no início os
contactos eram sazonais e se justificavam apenas pelas
necessidades do povoamento e governo da terra, num segundo
momento, vão ser feitos com assiduidade e mercê do comércio
activo com a Europa Ocidental.
Os cronistas do século XV e XVI referem com frequência a
abundância de madeira na ilha que, em face da abertura de
diversas frentes de arroteamento, condicionou um rendoso comércio
com o reino e outras partes. De acordo com a mesma informação a
exploração das madeiras fazia-se em regime industrial com o
objectivo de fabrico de embarcações, mobiliário para a exportação
e das caixas de açúcar para a embalagem do produto. O impacte da
exportação de madeiras foi de tal ordem que conduziu a alteração
na técnica de construção naval e civil do reino.
O comércio das madeiras foi, sem dúvida, a primeira
actividade que constituiu uma fonte de riqueza para os colonos
e senhores da ilha, conforme se depreende do indeferimento dado
em 1461, pelo Infante D. Fernando, ao pedido de isenção dízima
da sua exportação.
O desgaste do parque florestal madeirense, provocado por
este comércio lucrativo e pelo uso da lenha na laboração dos
engenhos, veio a condicionar os cortes de madeira e o seu
consequente comércio. Em 1503 tornava-se imperiosa a proibição
do seu comércio por naturais ou estrangeiros, restringindo-se o
seu uso ao estritamente necessário; todavia, quando havia
grande necessidade, esta medida proibitiva era esquecida; assim
sucedeu em 1508 com a saída de tabuado vinhático, paus, traves
e chaprões para a fortificação das praças portuguesas de Safim
e Mogador. Além disso o alto valor de algumas madeiras como
o cedro, condicionava a sua saída para algumas partes, como para
Ruão. Essa falta de madeiras resultante de anárquica exploração
da floresta explica, em parte, a importação da Flandres de
madeira de cedro, em 1525, para a construção da Igreja de
Machico.
Os contactos entre a Madeira e o reino, ao longo dos
séculos XV e XVI, eram constantes e faziam-se com maior
frequência com os portos de Lisboa, Viana e Caminha; os
marinheiros e mercadores dos portos do norte, nomeadamente da
região costeira e entre Douro-e-Minho, frequentavam com
assiduidade o porto do Funchal, para comerciar o açúcar a troco
de panos e carne. Aliás em 1505 o monarca, ao conceder aos
madeirenses a mercê da importação de carne dessa região, refere
que "os mercadores e pessoas dessa comarca têm e hão-de trauto
dos açúcares que na dita ilha há..." sendo um grupo bem definido
no comércio desse produto com o reino e com o Mar Norte. Note-
se que em 1523-1524 esse destino é referenciado com o merecido
relevo e, em 1581-1584, Viana é o único porto metropolitano
referenciado no comércio do açúcar.
O porto do Funchal actuava muitas vezes como intermediário
entre o porto de Lisboa, e as ilhas portuguesas do golfo da
Guiné, nomeadamente para o comércio de peles de Cabo Verde; isso
se deduz do envio em 1523 de mil e duzentas peles de Cabo Verde
para Lisboa.
A Madeira ofereceu ao mercador do reino, num primeiro
momento, as suas madeiras e o excedente de cereais; todavia, o
principal comércio com o reino foi o açúcar, solicitado desde o
início pelos mercadores nacionais, que procuravam firmar o
monopólio da rota lisboeta. A ilha recebia em troca um grupo
variado de produtos necessários a uso e consumo quotidianos, como
ferramentas, panos, tecidos, telha, louça, barro, ferro, carne,
peixe, sal, azeite; tudo isto a troco de açúcar e de
reexportação de alguns produtos, como peles, escravos, breu,
algodão.
A importação de louça fazia-se com assiduidade dos
principais portos do reino como Setúbal, Lisboa e Porto; de
igual modo, as formas para o fabrico do açúcar deveria ser
proveniente do reino, nomeadamente da região do Barreiro, tendo
em conta a escassez de barro na ilha e o fraco desenvolvimento
da olaria local.
O comércio açoriano com os portos do reino regia-se pelos
mesmos principios e solicitações que o madeirense, apenas se
alternado os produtos de troca. De facto enquanto a Madeira
oferecia o seu precioso açúcar, os Açores apresentavam um mercado
mais avantajado com os cereais, o pastel, o gado e a esperança
do contrabando com as naus das Índias de Castela e Portugal. Não
obstante a posição dominadora do porto de Lisboa, a documentação
disponível aponta para a valorização do comércio com os portos
de Entre-Douro-e-Minho, Buarcos, Aveiro e Tavira.
Entre 1508 e 1538 nas embarcações assaltadas ao largo dos
Açores surgem seis oriundas do reino, sendo três de Buarcos, duas
de vila do Conde e uma de Tavira; as primeiras transportam linho,
estopa, couro, vinho e roupa do norte do país para os portos de
Ponta Delgada e Angra, enquanto a última vinha para carregar
trigo; em 1551 outras seis embarcações oriundas de Entre-
Douro-e-Minho são apresadas por corsários franceses.
Em síntese, o comércio de Entre-Douro-e-Minho com os Açores
era muito importante, activando uma rede complicada de rotas de
fornecimento de panos e mais artefactos a troco de trigo, carne
e couros. De acordo com informação do monarca de 1517, o
comércio dos portos do norte do país assentava, fundamentalmente,
no comércio de panos, que esta área produzia e importava dos
principais centros têxteis do norte da Europa.
Sendo tal região caracterizada por uma importante produção
de linho, estopa e seda, fornecida de importantes centros
têxteis, lógico seria admitir a necessidade de activação do
comércio das plantas tintureiras de produção açoriana, mas
escasseiam as notícias acerca de tal comércio, pois ele é
referenciado apenas por duas vezes; a primeira surge no Censual
da Mitra do Porto de 1541, em que é mencionado "o pastel que
vinha das ilhas"; a outra está exarada nos registos de entrada
de navios na barra do Douro onde em 1597 se apontou o navio "S.
João", propriedade de Pero de Coresma, mercador de S. Miguel, que
aí aportou com pastel da mesma ilha.
O comércio canário com a península desenrolava-se em quatro
frentes: Andaluzia, Galiza, Catalunha e Portugal. No entanto a
área atlântica andaluza, circunscrita às praças de Cádiz e
Sevilha, dominava esse trato comercial com as ilhas de Tenerife
e Gran Canaria.
O comércio com esta áreas penínsulares incidia,
fundamentalmente, em produtos alimentares (cereais, açúcar,
queijo), matérias-primas (madeiras, couros, pez) e escravos que
os insulares trocavam por panos, azeite, carne salgada e
manufacturas diversas.
Segundo Manuel Lobo Cabrera o principal móbil do comércio
com Portugal, na primeria metade do século XVI, era o cereal.
Desde 1504 que se activou o comércio a partir de Tenerife com os
portos de Tavira, Faro, Lagos, Lisboa, Viana. Aos cereais
juntaram-se, a partir de 1569, os vinhos de Gran Canaria, que
terão importância primordial nas trocas do reino (Lisboa,
Setúbal), para a Guiné, Cabo Verde e São Tomé. A estes
produtos, que activaram as trocas entre as Canárias e Portugal,
vieram juntar-se outros como o pez, açúcar, escravos.
A contrapartida portuguesa à oferta canária baseava-se num
grupo variado de produtos e artefactos necessários ao consumo e
produção insular. Saliente-se que no século XVI, em face da
escassez de cereais nas Canárias, a ilha de Gran Canaria procurou
o seu abastecimento nos portos de Lisboa e Aveiro.
A manutensão e incentivo do comércio das Canárias em
Portugal dependeu, em grande medida, da forte presença da
comunidade portuguesa nas ilhas de Gran Canaria e Tenerife; de
um modo geral o comércio e o transporte eram assegurados por
portugueses, que surgiram nestas ilhas sob a condição de
estantes.
Se no caso das relações das ilhas com os reinos
penínsulares os laços e imperativos de soberania destes
territórios, aliados á tendência monopolizadora da burguesia
metropolitana, impuseram um estreitamento de contactos e de
comércio com a Península, no que respeita aos mercados nórdico
e mediterrânico as ilhas afirmaram-se pelos seus produtos,
impostos pela nova economia de mercado, o açúcar e o pastel. Para
além disso, as insuficiências da industria peninsular traduziam-
se numa procura de novos mercados capazes de satisfazer o gosto,
cada vez mais apurado da nova aristocracia e da nova burguesia;
se é certo que os artefactos de uso diário poderão ser
encontrados na península, outros há que escasseiam nas suas
praças, havendo necessidade de os importar de Itália, Flandres
e Inglaterra. Para esta nova classe dirigente a ostentação da
riqueza surge como uma forma de afirmação social e política,
sendo exteriorizada por meio do uso de produtos flamengos e
italianos; deste modo os panos peninsulares são preteridos em
favores dos riquíssimos tecidos de Ypres, Ruão e Londres.
Na Madeira esta ostentação tradus-se na compra de uma campa
em Flandres ou na aquisição de valiosas pinturas flamengas que
depois ornamentavam as capelas dos morgados mais importantes da
ilha. Em 1546, João Lourenço Leitão refere ter comprado o
retábulo de Nossa Senhora da Piedade do Mosteiro de S. Francisco
em Flandres por trinta e sete mil reais. E, em 1566, quando
do assalto francês à cidade do Funchal, Frutuoso refere que o
saque de valiosos móveis "porque pela maior parte, pelo trato
dali, a mais e maior riqueza daquela terra eram jóias e ricas
peças de móveis ricos, que mandavam fazer de Flandres e outras
partes pelos constantes e forasteiros, a troca de mercadorias da
terra e de suas novidades, sem estimarem nem sentirem a compra
e custo de semelhantes coisas, ainda que custosas...".
Gaspar frutuoso referindo-se a S. Miguel, dá conta que
Diogo Nunes Botelho, um dos principais proprietários da ilha,
mandava vir de Flandres, Inglaterra e Sevilha alfaias e vestidos
a troco de pastel.
Para a burguesia ou para a aristocracia insulares,
enriquecidas com o comércio do açúcar ou do pastel, os créditos
arrecadados serviam apenas para a sua ostentação e afirmação no
acanhado meio em que viviam. As restrições impostas pelo meio
geográfico impelem-nas para essa forma de investimento do
capital, pondo de parte a sua possível revalorização na
actividade de troca.
O pastel, o açúcar e o vinho atraíram os mercadores
europeus que invadiram o mercado insular com os vários artefactos
e produtos alimentares.
Nas ilhas dos arquipélagos da Madeira e Canárias as
relações com o mercado italiano e levantino surgem, desde o
século XVI, sedimentadas pelos moradores e agentes das principais
sociedades italianas, que participaram activamente no lançamento
dos fundamentos desta sociedade insular.
Desde meados do século XVI que a madeira penetrara com o
açúcar nos mercados nórdico e mediterrânico e estabelecera rotas
de comércio com as principais praças dessas áreas; o açúcar
madeirense passou, desde então, a circular com abundância no
mercado europeu, concorrendo com o da Sicília e Medina.
A importância do comércio com as praças da Eucrásia,
bruges, Flandres e Meldeburgo torna-se bem clara, já em 1485, em
face da interdição desse trato e suspensão dos privilégios aos
mercadores flamengos aí residentes. Esta era a forma de
represália mais adequada contra a guerra nestas paragens.
Para os portos nórdicos exportava-se quer açúcar, pastel
e urzela, quer algodão e escravos; em troca, a ilha recebia
os panos (Londres, Escócia, Ruão), cereais e peixe seco ou
salgado.
Nos contactos com o mundo mediterrânico distinguem-se três
áreas: as praças espanholas de Sevilha, Valência e Barcelona, as
cidades italianas (Génova, Veneza, Livorno) e o Levante. As
primeiras funcionaram como mercado de consumo do açúcar, e
centros de redistribuição deste produto no mercado levantino.
Para a última região bem como para as cidades italianas, além do
açúcar, exportavam-se escravos, tábuas de cedro e vinhático
urzela, pastel e couro, a troco de panos, trigo e objectos de
luxo. Dos portos de Barcelona e Valência recebiam-se
habitualmente os panos de Castela, que surgem com muita
frequência no mercado madeirense. Muito antes de 1497 os panos
castelhanos, de importação directa ou indirecta, vendiam-se no
mercado madeirense, pelo que o monarca definiu como forma de
represália, em face de guerra com Castela, a queima dos que
estivessem à venda. Nesta última década quatrocentista está
documentado o comércio desses panos e de cereais a partir da
costa da Catalunha, Valência, Cádiz, a troco de açúcar.
O comércio canário, baseado nos mesmos produtos que o
madeirense, será um forte concorrente na disputa dos mercados
nórdico e mediterrânico. Os produtos dos dois arquipélagos
surgem, lado a lado, nas praças de Londres, Anvers, Ruão e
Génova. A única vantagem do madeirense resultava deste
arquipélago ter sido o primeiro a penetrar com o açúcar e o vinho
no mercado europeu, ganhando a preferência de vendedores e
consumidores.
O comércio deste arquipélago com as principais praças
europeias fazia-se com assiduidade a partir das ilhas de Gran
Canaria e Tenerife; este movimento comercial terá adquirido uma
importância primordial nas trocas externas do arquipélago uma vez
que no período de 1549 a 1555 há notícia de cinquenta e oito
partidas ou chegadas de navios no percurso de Anvers às
Canárias.
Segundo A. Cioranescu o comércio da ilha de Tenerife fazia-
se com maior assiduidade com os Países baixos, sendo apenas
limitado pelas guerras e pelos conflitos religiosos; contudo o
tráfico mais importante do porto de Santa Cruz orientava-se no
sentido da Inglaterra, baseando-se na oferta de vinho e urzela;
esse comércio deveria ser resultado da abertura do porto de
Bristol ao tráfico com as Canárias, proposta em 1538 por Carlos
V.
Na ilha de Gran Canaria o comércio nórdico, nomeadamente
com a Flandres, estava em função do açúcar; no entanto os
flamengos só durgem aí a partir de 1532 e, com toda a pujança,
na década de 50; esta ilha recebia uma variedade de produtos
manufacturados de que sobressaem os tecidos de diversas
qualidades, oriundos dos mercados de Anvers, Ruão, Holanda e
Gante; estes produtos eram transacionados com dinheiro e açúcar
por mercadores genoveses e flamengos, distinguindo-se neste grupo
Bernardino Anehesi,Jerónimo Lerca, Lamberto Broque, Sébastian
Búron e Jerónimo Fránquez.
No arquipélago açoriano o comércio europeu orientava-se
fundamentalmente, para as praças nórdicas (Inglaterra, Flandres,
Holanda), com uma indústria textil importante, uma vez que este
arquipélago era um dos principais produtores de pastel de mercado
insular no século XVI.
O comércio das ilhas com o litoral africano fazia-se com
maior assiduidade a partir das Canárias do que da Madeira ou dos
Açores; mas na Madeira, no século XV, manteve uma acção muito
importante nesse comércio, quer como porto de escala, quer como
entreposto de comércio. Os madeirenses tiveram uma participação
activa nas viagens de exploração geográfica e no comércio no
litoral africano, surgindo o Funchal, nas últimas décadas do
século XV, como um importante entreposto de comércio de dentes
de elefante.
As facilidades concedidas pela coroa portuguesa ao comércio
com as praças marroquinas e do golfo da Guiné conduziram à
intensificação do comércio madeirense no litoral africano;
tornava-se necessária a abertura do comércio naquele golfo da
Guiné como forma da Madeira adquirir a mão-de-obra escrava
necessária à laboração do açúcar. Saliente-se que na segunda
metade do século XVI a crise açucareira é atribuída pelos
madeirenses à falta de escravos africanos, pelo que em 1562 a
coroa autoriza os produtores de açúcar a enviarem, por prazo de
dois anos, duas embarcações para os adquirir à Guiné e Cabo
Verde. Cinco anos volvidos nova autorização faculta a
aquisição de escravos, anualmente, em Cabo Verde ou outras
partes.
Em resumo, o comércio madeirense na costa ocidental
africana desenrolava-se em mais de uma frente: praças
marroquinas, Cabo Verde e Golfo das Guiné. Para a primeira ilha
fornecia vinho, vinagre, trigo a troco de gado vacum e miúdo;
na segunda e na terceira trocava o vinho por couros finos, peixe
salgado, chacina e escravos. O açoriano alheara-se, quase por
completo, do comércio com o litoral africano, pois o seu
distanciamento em relação a esta área, e a sua forma de
exploração económica, não o favoreciam; os contactos e a
permuta, que se restringiam à costa marroquina, estabeleceram-se
por imposição régia, tendo como finalidade o abastecimento em
cereal das praças portuguesas; tal comércio ter-se-ia iniciado
no terceiro quartel do século XV, altura em que a Madeira se
achava impossibilitada de o fazer, não obstante a referência do
primeiro envio de cereal surgir em 1516; a rota de abastecimento
orientava-se na direcção das praças do sul (Azamor, Mazagão,
Santa Cruz, Safim). A partir do século XVI a coroa coloca nela
o seu empenho, definindo-a como prioritária no escoamento do
cereal açoriano; a sua arrecadação e envio fazia-se por meio de
regimento real, entregue aos contratadores de Lisboa que tinham
nas praças de Angra e Ponta Delgada os seus representantes. Deste
modo esta rota, para além de ser imposta pela coroa, tinha o seu
posto de origem em Lisboa e nos Açores apenas a escala de carga
(nos portos de Ponta Delgada e Angra); por vezes o porto do
Funchal servia-lhe de escala de apoio ou de redistribuição do
cereal para as praças marroquinas.
O comércio canário na costa africana era muito activo,
actuando os vizinhos deste arquipélago, quer na Berberia, quer
na Guiné e em Cabo Verde; na primeira área todo o movimento
comercial girava em torno da Torre de Santa Cruz de Mar Pequena,
tendo como objectivo fundamental o comércio de escravos
negros. A intervenção canária assumia o triplo aspecto de
comércio, assalto e resgate.
O tráfico com as praças portuguesas baseava-se no
abastecimento de cereais sendo o arquipélago utilizado apenas
como escala para as embarcações que partiam de Lisboa ou
Sevilha.
Segundo Teixeira da Mota "as Canárias constituíam o
principal foco das navegações clandestinas dos castelhanos para
a Guiné", envolvendo nesse tráfico ilegal pilotos portugueses ao
serviço dos mercadores castelhanos ou nacionais. O principal
móbil dessa rota era o comércio de escravos, que se intensifica
a partir de meados do século XVI. O porto de Las Palmas surge
nesse contexto não só como importante mercado de comércio de
escravos com a Europa, mas também como centro de despacho de
escravos para as Índias ou de expedições a Cabo Verde e à Guiné,
com a finalidade de transportar escravos ao litoral americano.
Este comércio organizado a partir das Canárias ou de Cádiz,
era de um modo geral ilegal, sendo feito à margem da casa da
Guiné. Perante isso o monarca português reclama em 1516, junto
da coroa castelhana, contra os assaltos canários em Arxiel e
Guiné, ao mesmo tempo que, em 1549, envia Aires Cardoso a residir
nas Canárias com a dupla finalidade de adquirir vinho para as
armadas da India e "de vigiar e olhar os que daly armao muytas
pesoas para a Mina e Costa da Guiné e levam mercadorias defesas
com que tratam".
O comércio canário-americano no século XVI aparece como uma
grande esperança de fonte de riqueza para a população penínsular
avizinhada no arquipélago. A implementação desta rota de comércio
transatlântico resulta de uma multiplicidade de factores que a
favorecem e intensificam; ao factor geográfico alia-se o
económico e o político, pois a manutensão da rota não resulta
exclusivamente da posição do arquipélago no traçado das linhas
marítimas que ligam Sevilha à América, mas também porque uma
série de condicionantes favorece esses laços; nela, são de
realçar a disponibilidade de recursos humanos, técnicos,
materiais e a relativa liberdade comercial até 1564.
A criação da Casa de la Contractación em Sevilha (1503)
veio dificultar o comércio das Canárias, fazendo-o depender de
um regime de licenças anuais. Todavia os canários escapavam-se
com facilidade ao olhar atento do juíz oficial, pelo que a coroa,
penalizada nos seus interesses e monopólio, procurou coibir os
insulares dessa prática, criando, a partir de 1564, juízes de
registo para ilhas, nomeadamente em La Palma, Tenerife e Gran
Canaria. Esta necessidade de regulamentação rigorosa do trato
comercial resultava do intenso contrabando feito a partir das
ilhas, por castelhanos e portugueses aí residentes ou estantes.
O principal móbil de tal comércio era, sem dúvida, o vinho
canário, as manufacturas europeias e os escravos; estes eram
transaccionados por portugueses e castelhanos, num circuito de
triangulação que envolvia as Canárias, Cabo Verde e o litoral
americano.
Para a Madeira e os Açores o destino e mercado americano
surgia de modo muito diferente; não há referência a um comércio
assíduo com ele; os vizinhos de ambos os arquipélagos situam-se
numa posição excêntrica e só muito mais tarde se aperceberam das
possibilidades da troca nesses domínios; de facto apenas a partir
de finais do século XVI açorianos e madeirenses penetrarão em
força com o seu vinho no mercado americano; até lá restava-lhes
aguardar a chegada das naus da Índia e Índias e aspirar por um
lucro fácil com o contrabando; mas os monarcas penínsulares
fizeram gorar essas aspirações por meio de um apertado sistema
de vigilância às naus das rotas, a partir das ilhas das Flores
e Corvo.
O porto do Funchal, não obstante a sua posição marginal em
relação ao traçado dos rotas de retorno, manteve uma acção
importante nesse comércio ilegal. Em 1520 o monarca português
recomendava à Fazenda Real na ilha o maior cuidado no envio ao
reino de mercadoria da nau de D. Diogo de Lima, que aportara ao
Funchal com mercadoria da Índia; e em 1581, Filipe I de
Portugal solicitava o maior zelo e ligeireza na descarga de uma
nau que aí chegara com ouro, prata e mercadorias das Índias.
Em face destas eventualidades, Filipe I proibiu
terminantemente qualquer aportagem e descarga das naus oriundas
das Índias no porto do Funchal, mandando proceder contra os
transgressores; segundo diz, era usual "alguns navios, caravelas,
cabreas, urcas e patachos derrotados e em outra maneira, de
alguns puertos e partes de las Índias del Mar Oceano com oro,
plata, mercadorias y todas cosas contra las ordenanças de la dita
casa de la contratación da ciudad de Sevilha".
As ligações entre a Madeira e o litoral americano
incentivaram-se, após a quebra de produção açucareira, com o
crescimento do comércio do vinho madeirense e a sua incessante
procura levou os mercadores, ligados ao seu tráfico nesta praça,
a especular com o açúcar brasileiro, fazendo-o passar como da
Madeira; em 1596, por exemplo, João Gomes de Castro, fidalgo, e
António Francisco , mercador, fretam um navio para transportar
do Brasil quinhentas arrobas de açúcar a fim de ser baldeado numa
nau francesa de Gran Canaria com destino a Sevilha ou San
Lúcar.
Conhecido esse comércio fraudulento o monarca exarou a sua
proibição em 1591. No entanto os mercadores naturais ou
estantes na ilha teimavam em manter esse comércio especulativo
com o açúcar brasileiro, pelo que os vereadores e procurador do
concelho reclamam junto da coroa, referindo o prejuízo causado
por essa prática aos lavradores de açúcar e à Fazenda Real;
em resposta, Filipe I dá força à provisão de 1591, ordenando "que
nenhum navjo que vier asuquares ou quoaisquer outras faezmdas das
partes do Brazil... não possa descarregar em outro allgum senão
nos portos deste rejno onde presentarão certidam dos portos domde
partirem... não possam yr descarregar aos portos da dita ilha da
Madeira...".
CONCLUSÃO
Nesta análise comparativa dos três arquipélagos atlânticos
(Canárias, Madeira e Açores) evidenciamos a similitude do
processo de desenvolvimento sócio-económico, diferenciado apenas
nas assimetrias naturais e na diversa política das coroas
peninsulares. Tal circunstancialismo salientou-se como um
mecanismo propiciador de uma constante aproximação destas dezoito
ilhas, sendo concordante com o epíteto comum de Mediterrâneo
Atlântico, criado e consagrado pela historiografia ocidental.
Este Novo Mundo insular, colocado às portas do Atlântico
Sul, não foi apenas ponto de lançamento para a afirmação da
hegemonia peninsular no Atlântico. Mais do que isso, evidencia-se
nestes dois séculos como uma área adequada às necessidades e
solicitações da nova economia de mercado. As palpitações do ilhéu
surgem nesse rumo, que traçou uma selecção criteriosa dos
produtos e técnicas. As coroas e as gentes peninsulares intervêm
constantemente neste mercado, que criaram e lançaram nas praças
europeias.
À permanente e sempre actuante comunidade peninsular
asociam-se desde o início os elementos mais proeminentes do
tráfico internacional nórdico e mediterrânico. Na Madeira e nas
Canárias as colónias italiana e flamenga, esquecem os conflitos
religiosos e unem-se em prol de uma causa comum: o comércio.
italianos e flamengos aparecem nesses arquipélagos atraídos pelo
comércio do açúcar, tal como os ingleses aparecem nos Açores
impelidos pelo trato do pastel.
As rotas de ligação do mundo insular às suas origens
europeias foram, sem dúvida, as mais importantes do comércio
externo das ilhas nos séculos XV e XVI. A sua manutensão e
intensificação resultaram da existência de produtos e mercados
adequados às trocas europeias. Ao europeu as ilhas surgem, como
um novo mercado capaz de suprir as suas necessidades ou
solicitações e, ao mesmo tempo, de consumir os seus artefactos.
A situação salienta-se pela troca desigual, em muito favorável
ao europeu, e pela excessiva dependência do mercado insular ao
Velho Mundo.
O desmesurado peso da acção europeia, africana e americana
condicionou uma acentuada desvalorização das não menos
importantes formas de contacto e comércio no mercado insular. As
trocas e relações inter-insulares, porque fora desse âmbito
tradicional ou pela sua propalada pouca importância, não mereciam
aí qualquer referência de relevo. No entanto, como tivemos
oportunidade de afirmar, essas conexões insulares marcaram
profundamente a vivência da sociedade e da economia insulares.
A vizinhança, as facilidades, aliadas à complementaridade e
similar nível de desenvolvimento do processo sócio-económico dos
três arquipélagos, sedimentaram uma rede de inter-ligações; nela
a Madeira, mercê da sua posição charneira entre os dois
arquipélagos do extremo ocidental e oriental, deteve uma acção
importantíssima, sendo um elo significativo para a manutensão
desses contactos.
O Novo Mundo atlântico dominado pelo litoral americano,
surge para os insulares mais como o sonho do que como uma
realidade; ou, se quisermos: uma esperança, cuja concretização
é travada pela hegemonia e monopólio das principais praças
peninsulares. e a sua realização, quando surge, não é uniforme
nos três arquipélagos, antes se afirma de modo desigual, de
acordo com o posicionamento de cada grupo de ilhas no traçado das
rotas transatlânticas.
Alguns dos objectivos, inicialmente definidos, não puderam
ter neste livro desenvolvimento, em consequência da falta de
documentação disponível para o período em estudo. Assim , por
exemplo, a análise do comércio inter-insular, não mereceu o
ambicionado desenvolvimento por falta de seriações exaustivas de
documentação nos três arquipélagos. Por outro lado essas lacunas
impossibilitaram-nos de proceder a uma indagação alargada da
componente social; apenas nos foi possível fazer uma
quantificação aproximada dos principais grupos de agentes e das
comunidades locais ou forasteiras que os formam. Esperamos que
as maiores disponibilidades documentais do século XVII nos
permitam, num futuro muito próximo, colmatar essas lacunas e
aprofundar os domínios aqui abordados.