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História Atlântico

[Home Page Madinfo |Info | Questionário | English Version] Coordenador : Alberto Vieira

HISTORIOGRAFIA


"(...)a história é uma interrogação sempre em
mudança sobre o passado, porquanto tem de se
adaptar às necessidades do presente. A história
oferece-se como um meio de conhecimento do
homem e não como um fim em si."

F. Braudel, La Mediterranée et le monde Méditerranien
à l'epoque de Philippe II,
Paris, 1949

 
"Produire le discours historique c'est, j'en suis persuadé
dévellopper un savoir utile. Consommer le discours
historique, je le vois comme une exercice, un exercise
d'entraînement, aidant à se colleter avec le présent dans
une meilleure posture."

George Duby e Guy Carduau, Dialogue, Paris, 1980


A INVESTIGAÇÃO E DIVULGAÇÃO
DO CONHECIMENTO HISTÓRICO INSULAR

A História das ilhas atlânticas tem merecido, na presente centúria, um tratamento preferencial no âmbito da História do Atlântico. Primeiro foram os investigadores europeus como F. Braudel (1949), Pierre Chaunu (1955-1960), Frédéric Mauro (1960) e Charles Verlinden (1960) a destacar a importância do espaço insular no contexto da expansão europeia. E só depois surgiu a historiografia nacional a corroborar a ideia e a equacioná-la nas dinâmicas da expansão insular. Neste caso são pioneiros os trabalhos de Francisco Morales Padron (1955) e Vitorino de Magalhães Godinho (1963).

Tal ambiência condicionou os rumos da historiografia insular nas últimas décadas e contribuíu para a necessária abertura às novas teorias e orientações do conhecimento histórico. Neste contexto as décadas de setenta e oitenta demarcam-se como momentos importantes no progresso da investigação e saber históricos, contribuindo para tal a definição de estruturas institucionais e de iniciativas afins. Por isso neste final do século importa fazer o ponto de situações da realidade historiográfica insular no sentido de equacionar o progresso futuro e a sua adequação às novas realidades e desejos do findar deste século.

Aqui apresentamos o nosso parco contributo, rastreando esta realidade através da Historiografia, arquivos, revistas e colóquios da especialidade. Também este crescente interesse pela História Insular levou-nos a compilar um conjunto de informações indispensáveis para todos os que se dedicam ao seu estudo ou pretendem tomar conhecimento do que tem sido feito.

HISTORIOGRAFIA.

A produção historiográfica insular é desigual, dependendo o seu número da existência de literatos e de instituições capazes de incentivarem a elaboração e divulgação de estudos nos diversos domínios. A similitude do processo vivencial aliada à sua permeabilidade às prespectivas históricas peninsulares definiram uma certa unidade na forma e conteúdo da historiografia insulana. Gaspar Frutuoso, em finais do século XVI, com as Saudades da Terra, define e sintetiza essa unidade insular, aproximando os arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias. Esta ímpar situação na historiografia, só será retomada na década de quarenta do nosso século pela historigrafia europeia e no presente pela nova geração de historiadores insulares. Essa consciência histórica da unidade desta múltipla realidade arquipelágica será definida de modo preciso na expressão braudeliana de Mediterrâneo Atlântico1.

A historiografia insulana permeável às suas origens europeias surge na alvorada da revolução do conhecimento cosmológico como a expressão pioneira desta novidade e, ao mesmo tempo, como uma necessidade institucional de justificação da intervenção e soberania peninsular. Deste modo o período que medeia os séculos XV e XVI é marcado por uma produção historiográfica mais europeia que local, próxima da crónica e da literatura de viagens, onde esses ideais se expraiam. Os factos históricos e as impressões das viagens atlânticas, perpetuados nas crónicas e relatos de diversa índole terão uma utilização posterior de acordo com as exigências da época. A prosa histórica é impregnada do ideal romântico servindo-se de perspectivas e formas positivistas de justificação e fundamentação de certos meteoritos políticos que a sociedade insular contemporânea é portadora.

No culminar deste processo as exigências académicas, com a expansão do saber universitário, as solicitações do novo conhecimento histórico condicionaram tal avanço qualitativo da historiografia, a partir da década de quarenta. Assim, nas Canárias a tradição e vivência universitária propiciaram o forte arranque, enquanto nos Açores o academismo cultural e, depois, a universidade lançaram este arquipélago para uma posição similar. A Madeira, prenhe em documentos manteve-se numa posição secundária, mercê da falta de suporte institucional e académico. Todavia, as condições emanentes da dinâmica autonómica com o aparecimento de suportes institucionais definiram um futuro promissor.

A Historiografia insulana desenvolve-se por três épocas distintas, marcadas por um modo diferente de equacionar e relatar o facto histórico: nos séculos XV e XVIII, em que o discurso se formaliza na crónica; o século XIX e primeiras décadas do seguinte, marcado pela vaga romântica; por fim, o defrontar de uma nova era, a partir da década de quarenta do nosso século, que condicionou a política arquivística e a investigação universitária.

O primeiro momento é definido por uma situação ímpar no equacionar da realidade histórica insular, pela primeira vez alguém ousou encarar estas ilhas do Atlântico Oriental (Madeira, Açores, Canárias, Cabo Verde) como uma unidade indelével e afim, marcada por momentos de grande importância para o devir histórico do Atlântico nos séculos XV e XVI. Note-se que, só a partir de meados do nosso século, a Historigrafia europeia se deu conta dessa realidade, merecendo assim o trabalho de Gaspar Frutuoso - Saudades da Terra - uma posição de relevo no panorama historiográfico insular. A este texto juntam-se outros de carácter restrito em que o seu autor relata de uma forma cronista os acontecimentos que presenciou ou que teve conhecimento por intermédio de outros testemunhos. Tais testemunhos não são mais do que uma visão impressionista das primeiras abordagens ou de deslumbramento em face das novas realidades que emergem neste espaço. No primeiro caso, na Madeira, Francisco Alcoforado (1427?), Jerónimo Dias Leite (1574), para os Açores, Frei Diogo Chagas, Frei Agostinho de Montalverne e o Padre Manuel Maldonado, enquanto nas Canárias surgem Le Canarien, Frei Alonso de Espinosa e Frei Juan de Abreu y Galindo, ao segundo podemos apontar os textos de Cadamosto, Giulio Landi (1530), T. Nichols (1552-1561), Pompeo Arditi (1567), L. Torriani (1580).

De um modo geral, esta produção historiográfica está marcada pela forte presença do clero regular e secular, pois estes eram os homens das letras da época. Com o segundo momento é marcante a laicização do saber histórico com o aparecimento de destacadas figuras empenhadas no conhecimento e divulgação do saber histórico, muitas vezes, com objectivos pragmáticos. Estamos perante a afirmação do positivismo histórico que condicionou esse desmesurado apelo ao documento. Aqui são de particular importância as iniciativas de Álvaro Rodrigues de Azevedo, na Madeira, de Ernesto do Canto nos Açores e de A. Millares Torres e Gregorio Chil y Naranjo nas Canárias. Este último foi o principal impulsionador da Sociedade El Museo Canario (1879), fundamental na recolha e valorização da documentação histórica de Canárias. Com o mesmo intuito trabalhou Ernesto do Canto ao lançar em 1878 em Ponta Delgada (S. Miguel) uma publicação periódica, o Arquivo dos Açores, onde se reunia e divulgava as principais peças documentais.

O presente século é sem dúvida o momento de afirmação da Historiografia insulana. Um conjunto variado de realizações públicas, o lançamento de publicações da especialidade e a criação dos arquivos distritais ou provinciais alicerçaram a nova realidade. Na Madeira(1919-1921) e nos Açores(1932) as comemorações da respectiva descoberta associadas às efemérides nacionais de 1940 e 1960 contribuiram de modo decisivo para a afirmação e divulgação da História. Para as Canárias essa animação ficou a dever-se ao impulso dado por Elias Serra Ráfols, a partir dos anos quarenta, na Universidade de La Laguna. Esta instituição conseguiu motivar um numeroso grupo de entusiastas pela história do arquipélago, encaminhando-os para a carreira científica e para a valorização dos vestígios documentais levado a cabo com a criação dos arquivos provinciais.

As três últimas décadas foram decisivas para este salto qualitativo da Historiografia insulana, demarcando em todos os arquipélagos uma ambiência favorável à sua afirmação. Aqui, assumem particular importância as instituições culturais, as publicações periódicas e, a inovação desta época, os colóquios de História.

A História e a Geografia ensinam-nos que o Homem ao longo do multissecular processo histórico, quebrou as barreiras desse isolamento. A ilha deu-se a descobrir e descobriu o seu envolvimento insular e atlântica. Esta inequívoca realidade conduz a que a ilha, quando escalpelizada nos diversos aspectos do devir histórico deve sê-lo de acordo com esta ambiência. Assim o entendeu Gaspar Frutuoso em finais do século XVI com as célebres Saudades da Terra.

Algumas das grandes questões, com grande actualidade, definem este novo e real rumo que é a investigação insular. Em primeiro lugar podemos referir o enquadramento da Madeira, no contexto dos descobrimentos europeus, donde ressalta, para além do protagonismo sócio-económico, a posição charneira nos rumos da política expansionista. As funções de escala, e modelo projectam-na nessa realidade e conduzem a que seja parte disso e não um mundo à parte. Por outro lado, a expansão europeia foi propícia a definição das teias de subordinação e complementaridade que levaram à modelação de um mercado insular aberto e vinculado, de acordo com uma lógica de complementaridade. É isso, em certa medida, o que define o Mediterrâneo Atlântico nos séculos XV a XVII.

A favor de tudo isto temos uma tese que vingou no seio da Historiografia americana que define o Atlântico como uma unidade de análise. Deste modo o período que decorre entre os inícios de expansão europeia, a partir do século XV, e a plena abolição da escravatura, em 1888, delimitam cronologicamente esta realidade, tal como expressa a actual historiografia norte-americana.

A dimensão assumida pela Madeira no contexto da expansão quatrocentista, quer como terra de navegadores, quer como principal centro que modelou a realidade sócio-económico deste novo espaço atlântico, é a evidência desta imprescindível dimensão atlântica da ilha.

Por tudo isto é forçoso afirmar que a ilha não se reduz à sua dimensão geográfica. À sua volta palpita um mundo que gera multiplas conexões e que não pode ser descurado sob pena de estarmos a atraiçoar o próprio devir histórico. Há que rasgar o casulo da ilha e postar-se nas torres avista-navios e vislumbrar o imenso firmamento que nos conduz a ilhas e continentes.

Os rumos definidos pela historiografia nos últimos anos pautam-se por uma grande abertura temática e de envolvimento do espaço circunvizinho, isto é, as ilhas e os continentes que marcaram o devir histórico nos últimos cinco séculos. Deste modo poder-se-á afirmar que a historiografia insular nas últimas décadas intentou sair do casulo que a envolvia, ganhando na dimensão insular e atlântica.

É chegado o momento de repensar a forma como se faz História entre nós e de repensar os últimos vinte anos de actividade para que seja possível a definição de novos rumos adequados ao protagonismo e posicionamento que assumimos na História.

Na actualidade depara-se perante nós um momento de grande valorização da História no nosso quotidiano. Dispomos de tudo o necessário para isso: publicações periódicas, colóquios e conferências e um desusado interesse do publico em geral pela temática. Falta, todavia, um adequado ajustamento arquivístico a esta nova realidade. Mas será que isso tem favorecido, em simultâneo, a afirmação da investigação e consequente avanço do conhecimento do nosso passado histórico ?

Por tudo isto há que repensar a actualidade. As perspectivas globalizantes não se compadecem com a dimensão do nosso umbigo e as limitações que a nossa condição de ilhéus por vezes nos impõe. Devemos criar mecanismos e disponibilidade para que em qualquer trabalho que seja, tomemos conhecimentos de tudo o que existe em termos bibliográficos e documentais.

A História insular carece de uma revolução temática, o chamado "território do historiador" precisa de ser alargado além dos "solos" ricos e tradicionais. A par disso, o ofício precisa de ser dignificado através da perícia no manejo dos seus instrumentos de trabalho. Tudo isto só será possível se houver disponibilidades dos diversos agentes para aceitarem e actuarem em favor desta mudança.

O futuro da historiografia insular esta no desfazer desta auréola de egocentrismo e insularização que deverão dar lugar à dimensão arquipelágica no contexto do mundo atlântico.


A HISTORIOGRAFIA AÇORIANA:

a problemática da identificação e a participação da Universidade

Avelino de Freitas de Meneses

1. A QUESTAO DO CONCEITO

A conexão dos factos do passado impede a individualização de historiografias totalmente independentes. Do mesmo modo, a influência de distintas metodologias e a identificação de divergentes propostas de reflexão dificultam a emergência de modelos historiográficos absolutos. Nestas circunstâncias, avulta até a dificuldade de estrita definição de uma historiografia portuguesa, por via da ínsita correlação com o estrangeiro e das discrepantes opções dos nossos historiadores.

Nos Açores, a vivência de cinco séculos num meio geográfico muito diferente do continental gera naturalmente perceptível individualidade. Com efeito, Vitorino Nemésio, eminente pensador das ilhas, de Portugal e do Mundo, sustenta que para os açorianos a geografia vale tanto como a história. Esta constatação constitui, porventura, o melhor contributo para a definição do indeterminado conceito de açorianidade, por vezes gerador de polémicas vãs.

A força da geografia condiciona, por conseguinte, o semblante histórico do arquipélago, que ainda assume expressões particularmente distintas. De facto, o privilegiado posicionamento geográfico no Atlântico, definido pelo determinismo de diversos agentes físicos e pelas condições técnicas da navegação, e os surtos da economia euro-ultramarina relevam a insubstituível participação dos Açores na interacção das civilizações. Por outro lado, o afastamento e a descontinuidade geográficas também motivam insuperável isolamento, que ampara a cristalização de muitas práticas e representações. Estas particularidades definem naturalmente os principais propósitos dos planos de pesquisa histórica, que relevam a contribuição insular para a construção do universo atlântico e promovem a realização de minuciosos estudos de incidência local, cuja necessidade deriva da divisão do arquipélago em nove parcelas muito desiguais. No termo do longuínquo século XVI, as Saudades da Terra do Doutor Gaspar Frutuoso cumprem já estes desígnios. Na verdade, o clérigo micaelense destaca ao mesmo tempo a especificidade açoriana, a correlação com os demais arquipélagos da Macarronésia e o envolvimento nas dinâmicas do Atlântico.

A circunspecta individualidade insular e a reconhecida tradição de pesquisa histórica justificam, no nosso entendimento, a prudente utilização da expressão historiografia açoriana. Contudo, a principal característica da nossa historiografia reside decerto na estreita correlação com as historiografias portuguesa e do circundante universo atlântico. Com efeito, os estudos de história dos Açores implicam um esforço de investigação muito plural, que obriga à consulta de relevantes núcleos documentais depositados em arquivos muito diversos. Na verdade, ao historiador dos Açores impõe-se a averiguação das fontes recolhidas na Região, no Continente e no Estrangeiro, nomeadamente na Europa e no Novo Mundo. Esta realidade contraria efectivamente a identificação de uma historiografia insular alheia às problemáticas dos universos envolventes.

2. A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA E O PAPEL DA UNIVERSIDADE

Nos Açores, individualizamos o solícito cultivo dos estudos de história desde a longuínqua era de quinhentos, que corresponde ao termo do povoamento e à concomitante organização da nova sociedade insular. Até ao século XVIII, destacamos as obras de cinco eminentes cronistas: Gaspar Frutuoso, Diogo das Chagas, Manuel Luís Maldonado, Agostinho de Montalverne e António Cordeiro. Deste conjunto, ressalta a obra frutuosiana, organizada em seis livros, sob a designação de Saudades da Terra. Esta colecção corresponde, porventura, à principal realização historiográfica dos Açores, apesar da natural averiguação de incorrecções e desajustamentos, resultantes dos consideráveis progressos da ciência histórica.

O Doutor Gaspar Frutuoso frequenta, em meados do século XVI, a célebre universidade espanhola de Salamanca, que então simboliza a nóvel cultura da Renascença, firmada na imitação dos clássicos, na revalorização do Homem e no desenvolvimento científico. Assim, o autor das Saudades da Terra manifesta o cunho enciclopédico, que caracteriza muitos vultos culturais do século XVI, e demonstra, no domínio específico da construção histórica, uma invulgar actualização temática e metodológica. Na verdade, Gaspar Frutuoso, quiçá pela primeira vez, destaca a especificidade dos arquipélagos do Atlântico oriental, reservando-lhes importante estudo, que compreensivelmente privilegia a história dos Açores. Ademais, o cronista insular utiliza uma metodologia de rigorosos contornos científicos, que se estriba na permanente busca da verdade. Assim, recorre continuamente a técnicas de pesquisa, cuja oportunidade ainda hoje reconhecemos. A comprová-lo, refira-se, por exemplo, a observação directa minuciosa, o gosto pelo documento, a selecção de fontes e testemunhas credíveis, a rudimentar experimentação e a prudência de interpretação. Desta forma, as Saudades da Terra superam a qualidade das crónicas posteriores, pois primam por maior exactidão e menor recurso às explicações miraculosas.

No século XIX, o reconhecido incremento dos estudos históricos repercute-se também nas ilhas, avultando os naturais ecos das preocupações dos liberais e do rigor positivista. Aliás, no último quartel de oitocentos, a publicação do Arquivo dos Açores, da iniciativa de Ernesto do Canto, que logra insuficiente continuidade nos alvores de novecentos, por obra de Francisco Afonso Chaves e Manuel Monteiro Velho Arruda, constitui de novo um relevante marco da produção historiográfica açoriana. Nesta miscelânea, editada em 15 volumes, os inconvenientes da perceptível desorganização não ofuscam a suprema utilidade, que decorre da fecunda recolha documental e do tratamento de específicas temáticas. Por isso, o actual Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade dos Açores prepara a publicação de uma 2ª série do Arquivo dos Açores, firmada no prosseguimento e na modernização do plano oitocentista de Ernesto do Canto. Neste particular, prevalece o intento de organização de uma colectânea documental ininterrupta e homogénea, para alicerçar a construção histórica insular.

Na presente centúria, divisamos igualmente o surgimento no arquipélago das correntes historiográficas predominantes, cuja introdução se opera sempre por via portuguesa. Assim, distinguimos a influência do nacionalismo, que nas ilhas adquire um cunho assaz peculiar, e das tendências economicistas, que emergem na dobragem da 1ª metade do século.

O tradicional empenho dos açorianos pelo conhecimento do passado ainda não garante, entretanto, uma produção historiográfica sempre consistente e actualizada. De facto, persistem relevantes carências, que reclamam uma ponderação colectiva, porque o desenvolvimento da historiografia hodierna não decorre do mero somatório de descoordenadas iniciativas individuais. Em primeiro lugar, realçamos a necessidade de programar a redacção de uma história dos Açores, firmada em rigorosos critérios metodológicos e temáticos, mas podemos até relevar a tardia publicação das principais crónicas, que por vezes exigem meticulosas edições críticas. Com efeito, no presente, assumimos curiosamente uma posição muito similar à de diversos estudiosos açorianos do século passado, que perante as acrescidas exigências da investigação declaram com amargura a incapacidade de redigir a almejada história das ilhas.

A inventariação dos principais desafios da historiografia açoriana de hoje não invalida a obra das precedentes gerações, de notável significado no panorama dos estudos históricos portugueses. Contudo, em vez de pretexto de acomodação, a tradição historiográfica constitui obrigatoriamente estímulo de pesquisa, em obediência aos propósitos científicos de maior actualidade. Aliás, nos últimos anos, assinalamos um óbvio fomento dos estudos históricos insulares. Na génese de semelhante ensejo de avigoramento e de renovação, avulta sobretudo a criação e a actividade da Universidade dos Açores, que sustenta a indispensável formação de quadros e o acréscimo dos projectos e consequentemente das publicações. Além disso, a dinâmica universitária gera de ordinário a dinamização cultural, especialmente patente na revivescência dos institutos culturais e no empenho dos serviços regionais de cultura2.

A efervescência cultural dos últimos anos gera também alguma inquietude. No campo das publicações, por exemplo, a azáfama editorial significa ocasionalmente menor qualidade. No específico âmbito da historiografia, perdura por vezes o tradicional propósito de utilização política, embora movido por legítimas paixões, que buscam consistente justificação. Nestas circunstâncias, o imperativo da credibilidade recomenda maior rigor no planeamento das edições. Do mesmo modo, a permanente busca da verdade constitui metodologia exclusiva e suficiente para a compreensão do secular labor dos açorianos, de inquestionável utilidade para a construção do futuro.

Na actualidade, o desenvolvimento da historiografia nos Açores implica a diligente participação da Universidade, cujo projecto difere necessariamente dos antigos modelos omniscientes. De facto, os determinismos físico e demográfico motivam a eleição de áreas temáticas muito precisas. Neste capítulo, no passado, a relevância económica e principalmente a utilidade estratégica conferem às ilhas preponderante individualismo e justificam, por conseguinte, o desenvolvimento de estudos superiores de História, nas indissociáveis vertentes do ensino e da investigação. Assim, no declinar dos anos setenta, Artur Teodoro de Matos, então director do Departamento de História, define um meticuloso plano de acção, que gera estimulantes resultados, apesar de sugerir persistente continuidade. Deste programa, destacamos o roteiro e a publicação de fontes, o tratamento monográfico das diferentes ilhas e de alguns concelhos de maior relevância e ainda os estudos de especialidade sobre matérias e épocas mais singulares.

Na Universidade de hoje, após a intensiva e necessária formação de quadros, cumpre o incremento dos estudos históricos, sempre firmados nas inseparáveis tarefas de docência e principalmente de pesquisa. Deste modo, releva a manutenção de uma licenciatura, naturalmente adaptada aos novos requisitos científicos e desperta para indispensáveis soluções profissionalizantes. Nas ilhas, o plano curricular de um curso de história repousa obrigatoriamente na salvaguarda da universalidade e do equilíbrio da formação universitária, mas reclama também o prudente e eventual patrocínio das áreas disciplinares mais correlacionadas com o passado do arquipélago e do Atlântico. A responsabilidade da Universidade dos Açores no domínio da investigação determina ainda o reforço da componente metodológica, para munir os recém-licenciados da adequada formação técnica. Ademais, estes propósitos justificam a criação, recentemente aprovada, do mestrado em História Insular e Atlântica (séculos: XV-XX), que propõe a investigação das implicações do relevante papel dos Açores e das demais ilhas do Atlântico Oriental na expansão marítima de Portugal e da Europa para Ocidente. O previsível ritmo de formação de quadros e a conveniência da Universidade criar um vasto corpo de docentes e investigadores, imprescindível ao incremento da moderna historiografia, recomendam o conveniente amparo deste projecto. Por último, o inevitável comprometimento da Universidade no progresso da historiografia decorre também da óbvia conexão com as demais ciências sociais e humanas, que naturalmente se cultivam no sobrante contexto universitário.

O desenvolvimento da historiografia açoriana reclama, em primeiro lugar, a sistemática exploração dos acervos documentais de referência insular, depositados nos arquivos açorianos, portugueses e internacionais. Esta estratégia corresponde à perseverante busca da originalidade e promove o conveniente acréscimo do conhecimento histórico, que demanda prudente ponderação à luz das hodiernas metodologias e interpretações.

No arquipélago, o progresso historiográfico exige, portanto, o cumprimento de uma adequada política de arquivos. Com efeito, a irrecuperável perda de significantes núcleos documentais, por simples deterioração, pura insensibilidade e reprovável desleixo, aconselha a desvelada guarida de todos os acervos, afortunadamente ricos e abundantes. No entanto, a insuficiência das instalações, a diversidade geográfica e as divergências administrativas protelam diversas soluções. Porém, a inquietante conservação de numerosos núcleos documentais concelhios, eclesiásticos e até particulares impõe a adopção de uma política de permanente diálogo e previdência, de suprema utilidade pública.

Nos arquivos, ambicionamos sempre a inteira observância dos relevantes propósitos de defesa da documentação e facilidade de consulta. De facto, só a associação destas tarefas garante a guarda e a utilização das fontes documentais, que transportam a individualidade do passado. Contudo, apesar da individualização de comedido progresso, a incompleta inventariação complica a pesquisa e dificulta o aproveitamento de todas as possibilidades de trabalho dos ricos fundos dos arquivos açorianos. Neste capítulo, o empenho da Universidade na competente formação de técnicos constitui compreensível prioridade, que demanda a correspondente resposta das instituições, através da contratação dos quadros tidos por indispensáveis. Ademais, o desenvolvimento tecnológico fomenta a livre e incontestável circulação da cultura, que relembra o domínio público da documentação histórica, por vezes quebrado, sobretudo no passado, por perspectivas de gestão muito particulares e consequentemente perniciosas.

No arquipélago, o desenvolvimento da historiografia não constitui, entretanto, monopólio da Universidade. Aliás, curiosamente em Portugal, a materialização dos principais projectos historiográficos processsa-se à margem das Universidades até uma época muito recente. Deste modo, ambicionamos o reforço do tradicional contributo dos Institutos Culturais, que concretizam relevantes programas de publicações e reuniões científicas. De igual forma, aguardamos o contínuo empenhamento dos poderes políticos na melhoria das condições de pesquisa, necessariamente desprovido de impulsos tutelares.

A individualidade do passado insular integra os Açores nas histórias de Portugal e das conexões euro-ultramarinas. Por isso, a historiografia açoriana beneficia também de progressos externos, que relevam o papel do arquipélago nas dinâmicas políticas e geoeconómicas da expansão atlântica. Ademais, alguns historiadores de proveniência açoriana favorecem também o conhecimento do mundo exterior, ressaltando a marcante universalidade do saber.

3. ALGUMAS SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS

A elaboração de uma bibliografia muito sumária sobre história dos Açores determinada por inexoráveis imperativos editoriais e pela necessidade de iniciação dos estudiosos de distintas áreas, temáticas e cronologias impõe uma considerável diligência de selecção, que defronta a busca sempre precária de critérios de rigor. Nestas circunstâncias, ressalta o risco da inevitável omissão de muitas e até de relevantes investigações, que origina compreensível injustiça e inclusivamente a natural repulsa dos preteridos. Deste modo, a difícil composição de uma racional lista bibliográfica com condicionantes tão imperiosas determina a definição de normas de prudente restrição. Assim, optamos pela conformidade dos clássicos com as novidades, relevando sempre os estudos de maior abrangência temática e cronológica. Ademais, elegemos o demarcado domínio da história, quase excluindo os úteis contributos de distintos ramos do saber, que também se enquadram no vasto campo das ciências sociais e humanas.

Esta sugestão bibliográfica implica a consequente pesquisa, para corresponder aos naturais propósitos de aprofundamento das matérias. Neste particular, ainda propomos a consulta da Biblioteca Açoriana, importante repositório de referências insulares, organizado no termo do século XIX por Ernesto do Canto. Em relação à presente centúria, demanda especial ponderação a actividade editorial dos diversos Institutos Culturais e sobretudo, no tempo mais recente, a produção historiográfica do Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade dos Açores, normalmente resultante da prestação de provas académicas.

- AMORIM, Maria Norberta, Evolução demográfica de três paróquias do sul do Pico (1680-1980), Braga, 1992.

- ANDRADE, Luís, Os Açores, a Segunda Guerra Mundial e a NATO, Ponta Delgada, Impraçor, 1992.

- Arquipélago: Série Ciências Humanas (6 vols), 1980-84; Série História e Filosofia, (1 vol.- nos 1 e 2), 1985; Série História (3 vols.), 1986-95, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1980-95.

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- ARRUDA, Manuel Monteiro Velho, Colecção de documentos relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores, 2ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural, 1977.

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- Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago os Açores, nos 1-36, Ponta Delgada, 1945-62.

- Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vols. I-XLVIII, Angra do Heroísmo, 1943-90.(veja-se sumário dos trabalhos em Revistas)

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- CHAGAS, Frei Diogo das, Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores, direcção e prefácio de Artur Teodoro de Matos, s/l, Colecção de Fontes para a História dos Açores, 1989.

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AS ILHAS DE CABO VERDE

DE UM TEMA QUASE IGNORADO A UM PROJECTO PIONEIRO

Maria Manuel

A história de arquipélago de Cabo Verde tem sido um terreno marginal nos estudos e atenções da historiografia ultramarina portuguesa. O prestígio de áreas geográficas do império português, como a Índia, o Brasil ou mesmo o Japão ofuscou outras regiões cuja evolução foi mais discreta ainda que de igual importância para a História geral da expansão lusa. Esta realidade historiográfica reflete, na nossa opinião, a própria atitude das autoridades da metrópole relativamente às ilhas de Cabo Verde:uma região estratégica que embora não estivesse no centro dos interesses régios convinha dominar por razões de soberania marítima.

Provavelmente em consequência desta situação nunca foi publicada, até aos finais do século XIX, uma obra de vulto sobre a história destas ilhas, semelhantes às que foram elaboradas para outras zonas ultramarinas, como para os Açores a obra de Frei Diogo das Chagas, Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores (1646-1654), para o Brasil, O Tratado Descriptivo do Brasil (1587) de Gabriel Soares de Sousa ou ainda para o Japão a História de Luís Frois ( 1585-1594), isto apenas para citar três exemplos para três regiões diferentes dos muitos que poderiamos mencionar.

De facto, todas descrições de carácter histórico-geográfico-etnográfico que existem centram-se na região dos Rios da Guiné referindo as ilhas de Cabo Verde de modo sintético e marginal, e apenas na medida em que estas se relacionam com a Costa e que os moradores insulares nela intervêm e participam no comércio - vejam-se os casos de André Álvares de Almada, Tratado breve dos Rios da Guiné do Cabo Verde (...) (1594), de André Donelha, Descrição da Serra Leoa e dos Rios da Guiné do Cabo Verde (1625) ou ainda de Francisco Lemos Coelho, Descrição da Costa da Guiné e Situação de todos os Portos e Rios della (...) (1684).

Abra-se simplesmente uma excepção para um conjunto de documentação, organizada sob os títulos de "Notícias", "Memórias", "Dissertações", "Ensaios" que entre os últimos anos do século XVIII e as três primeiras décadas do século XIX foram apresentadas às instâncias oficiais; tais documentos analisavam a evolução política, social e económica das ilhas de Cabo Verde, apresentando sugestões sobre o modo de modificar ou melhorar a realidade da época.

Mas seria necessário esperar pelo final do século XIX para ver surgir a primeira grande síntese sobre a totalidade da história de Cabo Verde. Com efeito o arquipélago era unicamente mencionado e descrito no âmbito de obras gerais sobre o império colonial português ou de áreas de actuação de determinada congregação religiosa muitas vezes como uma mera adjacência da Costa da Guiné, esquecendo ou desconhecendo que num período inicial da história destas ilhas a Guiné é que funcionava como um "anexo" de Cabo Verde. Dedicava-se-lhes um simples capítulo, muitas vezes, curto e repleto de imprecisões que espelhavam a veleidade das informações recolhidas e o desinteresse pelo aprofundamento do estudo da história e das gentes deste espaço insular.

Foi assim em 1899 que Christiano José de Senna Barcelos, um capitão-tenente da armada, natural de Santiago, apresentou à Academia Real das Ciências uma memória exaustiva, composta de 6 partes, que cobria a totalidade da história de Cabo Verde, atribuindo-lhe um título sem pretensões - "Subsídios" - para uma obra de tanto vulto. Logo no início da narrativa o autor, talvez numa crítica inconsciente, demarca-se de tudo o que fora feito até aí sobre estas ilhas: "A História destas ilhas não é para nós, filho d'ellas, um estudo indiferente, de mera curiosidade, em que toquemos ao de leve". De facto, apesar de todas as limitações que este trabalho encerra, devido particularmente ao carácter factual e pouco interpretativo seguido ao longo da obra - em perfeita consonância, aliás com as correntes historiográficas da época -, tornou-se numa base fundamental para estudos subsequentes. A índole globalizante e a amplitude cronológica destes "Subsídios", o imenso manancial de informações recolhidas nas crónicas, nos arquivos e bibliotecas transmitido nas páginas de Senna Barcellos fizeram desta Memória um elemento historiográfico impossível de ignorar a quem pretenda ainda hoje pesquisar a história de Cabo Verde.

Após a publicação deste trabalho monumental, muitas décadas decorreriam até voltarem a aparecer outros estudos que contribuíssem decisivamente para algum avanço na historiografia destas ilhas. Ao longo da primeira metade do século XX manteve-se a mesma linha de publicações que haviam marcado o século XIX: artigos de carácter geral dispersos em publicações períodicas, designadamente no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, ou visões generalizantes mas vagas e imprecisas integradas em grandes obras referentes ao ultramar português. Para além destas dedicou-se uma atenção considerável a temáticas relacionadas com o descobrimento do arquipélago; com efeito, a obscuridade que envolve o evento proporcionou uma produção considerável, particularmente nas décadas de 30 e 40. . José de Oliveira Boléo, Armando Cortesão, Fontoura da Costa, Duarte Leite e Júlio Monteiro foram apenas alguns dos muitos historiadores que se envolveram nesta temática.

As décadas de 50 e 60 trouxeram, felizmente, mudanças na perspectiva de encarar a história de Cabo Verde. O Padre António Brásio iniciou a publicação da mais notável colectânea de fontes para o estudo daquela região: a Monumenta Missionária Africana, 2ª série. Numa obra cujo título sugere um enfoque religioso transcreve-se uma vasta documentação de origens várias que permite uma abordagem administrativa, económica, social e cultural da história insular e da costa da Guiné, desde o século XV a meados do XVIII. Nomeações de oficiais da fazenda real, regimentos de capitães e feitores, contratos de arrendamento de direitos reais, correspondência Cabo Verde - Lisboa, descrições das ilhas e Rios da Guiné, cartas anuais de Jesuitas são apenas alguns exemplos dos muitos documentos que foram coligidos pelo Padre Brásio.

Paralelamente a esta obra começam a surgir os trabalhos interdisciplinares história / geografia / antropologia de Orlando Ribeiro (A ilha do Fogo e suas erupções, 1954 e Primórdios da ocupação das ilhas de Cabo Verde, 1962) e de Ilídio do Amaral (Santiago de Cabo Verde: a terra e os homens, 1964) que abriam novas pistas para o estudo desta área geográfica e fomentaram o interesse por Cabo Verde expresso na execução de algumas teses de licenciatura da Faculdade de Letras de Lisboa, de Clarisse Ferreira, Sofia Neves, Josefa Viegas e Maria da Graça Nolasco, de que infelizmente apenas a última foi publicada. Estudos esparsos mas já mais centralizados no arquipélago ou nas semelhanças com a colonização efectuada nas outras ilhas atlânticas (Raquel Soeiro de Brito, Primórdios da Colonização Portuguesa no Atlântico, 1968) começaram a surgir e a modificar consideravelmente a forma de abordagem deste espaço insular, abrindo caminho ao "aparecimento" das obras de António Carreira e Avelino Teixeira da Mota, historiadores que conduziram a história de Cabo Verde à "modernidade", de acordo com as novas teorias historiográficas.

Teixeira da Mota em consonância com as directivas saídas da III Conferência sobre História e Arqueologia da África, organizada em 1961, pela School of Oriental and African Studies abriu novas prespectivas para o estudo da história de África e por arrastamento das ilhas de Cabo Verde. Procurava-se focalizar na própria África o centro de estudos sobre África e não encará-la como uma adjacência da Europa. O C.E.H.C.A. de que então era director começou por publicar uma edição trilingue de uma fonte portuguesa de grande utilidade para a costa da Guiné (Descrição da Serra Leoa e Rios da Guiné do Cabo Verde, de André Donelha), e por trabalhar outros textos similares com o mesmo objectivo. A par deste projecto iniciou-se no mesmo Centro um levantamento exaustivo da documentação existente em arquivos portugueses e espanhóis correspondendo geográficamente à região que se estende desde o Senegal até ao Benim, ilhas de Cabo Verde e São Tomé. Esses documentos pesquisados e transcritos por um competente grupo de arquivistas-paleógrafos foi, em seguida, criteriosamente sumariado e organizado, constituindo a base documental da colectânea Portugaliae Monumenta Africana que está a ser publicada neste momento pelo C.E.H.C.A..

O levantamento destas fontes possibilitou a A. Teixeira da Mota a elaboração de estudos de grande importância para a história de Cabo Verde - A primeira visita de um governador de Cabo Verde à Guiné (1968), Dois escritores quinhentistas de Cabo Verde: André Alvares de Almada e André Donelha (1971) e Alguns aspectos da colonização e comércio marítimo dos portugueses na África Ocidental (1976), entre outros estudos.

António Carreira não sendo um homem com formação específica em História, o que por vezes se traduz na falta de uma certa metodologia, conhecia vivamente o objecto que estudava. Cabo Verde e a costa da Guiné eram terrenos que lhe eram familiares, onde tinha raízes ancestrais e que, acima de tudo, procurava compreender profundamente. Iniciando-se no final da década de 60 com pequenos estudos, nas duas décadas seguintes publica obras de maiores dimensões, fundamentais para a história de Cabo Verde. Abrangendo um âmbito cronológico que se estende desde o século XV à actualidade, versando temas tão díspares, mas sabiamente "entrosados" como demografia, linguística, etnologia, antropologia, economia, administração, etc., a obra de António Carreira tem ainda a virtualidade de nos facultar a edição e consequente divulgação de várias fontes de grande importância para a história de Cabo Verde como a Notícia corográfica e cronologica do Bispado de Cabo Verde, os Documentos para a história das ilhas de Cabo Verde e Rios da Guiné ou ainda Descrições oitoentistas das Ilhas de Cabo Verde, entre outras possíveis de citar.

A par da produção historiográfica de António Carreira, também nas próprias ilhas de Cabo Verde surgiu, após a indepêndencia, um conjunto de estudos sobre a história da ex-colónia. Muitos deles não apresentam no entanto, a isenção ideológica que deve pautar, na medida do possível, o trabalho do historiador; refletem indubitavelmente a exaltação política e social de um povo nos alvores da sua independência, em que numa atitude talvez um pouco irreflectida mas perfeitamente compreensível tende a desprezar e minimizar toda a acção da antiga metropóle. No entanto, trabalhos como os de Daniel Pereira, Marcos Cronológicos da Cidade Velha (1988), pela informação que transmitem e sua sistematização, e de Santa Rita Vieira, História da Medicina em Cabo Verde, pela exploração de um campo historiográfico interessante, são publicações a considerar por todos quantos pretenderem dedicar-se ao estudo daquelas ilhas.

Ao ler-se esta síntese da historiografia de Cabo Verde poder-se-ia afirmar que privilegiámos a produção de autores portugueses e caboverdianos esquecendo a de outros estrangeiros. Não foi contudo essa a razão da inexistência de tais referências. Sucede que a grande maioria de obras estrangeiras elegem como plano central dos seus estudos a costa da Guiné, área onde espanhois, franceses, ingleses e holandeses tiveram uma intervenção efectiva; as ilhas de Cabo Verde são para eles uma região marginal, apenas mencionável quando em relação com a Guiné. No entanto, importa conhecer e manusear colectâneas documentais, como a de John Blake (1942), histórias gerais como a de The Cambridge History of Africa ou a História Geral de África da Unesco, estudos sobre a economia atlântica e o tráfico de escravos, particularmente F. Mauro, Le Portugal, le Brésil et l'Atlântique au XVII éme siècle (1983) ou John Thornton, Africa and Africans in the making of the Atlântic World (1992), os trabalhos de Jean Boulégue, Paul Hair e Walter Rodney sobre a costa da Guiné, ou ainda os estudos comparativos sobre diversas realidades insulares de Bentley Duncan Atlantic Islands Madeira, the Azores and Cap Verd in Seventeenth Century Commerce and Navigation (1972). Na década de 80 foram igualmente publicados alguns estudos esparsos sobre diferentes vertentes da história de Cabo Verde (v.bibliografia).

A despeito da validade de todos os trabalhos que temos vindo a enumerar foram sem dúvida os trabalhos de António Carreira e A. Teixeira da Mota que, em medidas distintas, facultaram a possibilidade de "preparar o terreno" para o aparecimento de um projecto de investigação singular: a História Geral de Cabo Verde.

Este projecto, tem como objectivo central a elaboração da história deste novo país africano, colónia portuguesa até 1975, através da cooperação entre investigadores caboverdianos e portugueses, o que representa uma solução a nível humano sem precedentes na historiografia lusófona.. Orientado pelo Prof. Doutor Luís de Albuquerque (infelizmente desaparecido no fim do 1º volume) e pela Investigadora Coordenadora Maria Emília Madeira Santos (que hoje prossegue sózinha esta tarefa) o projecto tem sido executado por uma equipa mista que através do cruzamento de experiências particulares e abordagens específicas tem tentado apreender e transmitir a história de Cabo Verde na dupla vertente (europeia/africana) que a marcou indelevelmente. Assim procedeu-se a definição e delimitação das áreas de investigação, atribuindo a responsabilidade de cada uma delas a diferentes membros da equipa de acordo com formações e vocações próprias.

Esta equipa contou com um "auxílio" acumulado ao longo de 30 anos: o espólio documental existente no C.E.H.C.A. do I.I.C.T.. Este acervo, constituido a partir de pesquisa exaustiva em arquivos portugueses, espanhóis e italianos e subsequente organização e sumariação, têm sido de crucial importância para o sucesso do projecto. Deste modo, e no sentido de proporcionar a acessibilidade e divulgação das fontes a todos os interessados têm sido publicados Corpos Documentais das principais fontes de apoio da elaboração da História Geral. Opção igualmente inédita a nível da historiografia e cooperação lusofona.

Neste momento foi publicado o 1º volume que abarca o século XV e 1ª metade do século XVI, e encontra-se no prelo o 2º volume que cobrirá a centúria que decorre entre 1560 e 1650. A periodização poderá parecer à primeira vista, bizarra, mas justifica-se perfeitamente no âmbito da história das próprias ilhas. Estas tendem a ser encaradas não só como uma simples escala de apoio das carreiras portuguesas ou como um local de aclimitazação de espécies animais e vegetais, antes da respectiva passagem para outras regiões, aspectos inúmeras vezes repetidos em obras gerais mas essencialmente como um local com características específicas. Ou seja um espaço com história e importância inerentes e não um local só mencionável enquanto espaço inter-relacional com outras áreas de maior relevo.

Esta obra não pretende ser, de forma alguma, um estudo final, completo e acabado sobre a História de Cabo Verde. Ao invés, pelo seu carácter pioneiro e sem precedentes está provavelmente sujeito a críticas e erros que só no futuro poderão ser emendados, tratando-se, por isso mesmo mais de um ponto de partida para subsequentes investigações e interpretação da história de Cabo Verde.

No entanto, este trabalho solidamente alicerçado num amplo e importante núcleo documental, é actualmente o estudo mais avançado sobre história de Cabo Verde nos seus diversos campos temáticos (administração, economia, sociedade, cultura, etc.) e um projecto, infelizmente, sem paralelo para a história dos outros arquipélagos atlânticos portugueses. (Sobre o historial do projecto e seus objectivos específicos veja-se ...).

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Projecto: História Geral de Cabo Verde4

Entidades Participantes: I .N.A.C (Instituto Nacional de Cultura) de Cabo Verde / I.I.C.T. (Instituto de Investigação Cientifica Tropical) de Portugal

Composiçao Actual da Equipa: Coordenadora: Maria Emilia Madeira Santos (Portugal) António Leão Correia e Silva (Cabo Verde) Ilidio Cabral Baleno (Cabo Verde) Iva Maria Cabral (Cabo Verde) Maria João Soares (Portugal) Maria Manuel Torrão (Portugal) Zelinda Cohen (Cabo Verde)

OBJECTIVOS

    Objectivos gerais:
  • Publicação em quatro volumes da História Geral de Cabo Verde
  • Publicação de um Corpo Documental, referente a História Geral de Cabo Verde em vários volumes.

    Objectivos Imediatos:
  1. Inventariação, levantamento e identificação das fontes primarias e secundárias referentes a História de Cabo Verde existentes em diversos arquivos - portugueses, cabo-verdianos, espanhóis, italianos e eventualmente brasileiros - visando posterior publicação no Corpo Documental
  2. Publicação dos resultados parciais das pesquisas (monografias) sob a forma de artigos e ensaios em revistas e livros cabo-verdianos e portugueses; apresentação de comunicações em colóquios, conferencias e congressos.
  3. Formação dos investigadores do projecto (cabo-verdianos e portugueses), enquanto especialistas em História de Cabo Verde.

    Objectivos Mediatos:
  1. Pôr a disposição do povo Caboverdiano uma História científica e documentada, possibilitando-lhe o acesso a um conjunto de referências necessárias a reflexão sobre a sua própria identidade e as potencialidades de evolução.
  2. Fornecer "bases sólidas", para a preparação de material didactico a ser utilizado no ensino secundário e superior existente nas ilhas.
  3. Apoiar os projectos de investigação, de animação e de desenvolvimento no domínio cultural que demandem, directa ou indirectamente, conhecimentos da História de Cabo Verde. Exemplos:

    • Projecto de recuperação histórica da Cidade Velha (cidade candidata ao estatuto de Património Histórico Mundial).
    • Projecto da construção do Museu do Trafico com o apoio da U.N.E.S.C.O. (formulado durante o colóquio internacional "Encontro de dois Mundos: Africa-America", Praia, Maio de 1992).
    • Projecto da construção do Museu Nacional de Cabo Verde (I.N.A.C.).
    • Instituição de reuniões internacionais sobre História de Cabo Verde e do Atlântico, a semelhança dos que têm sido realizados nos arquipélagos dos Açores, Madeira e Canárias.
    • Exposições nacionais e internacionais.

  4. Pôr a disposição da historiografia portuguesa um conjunto de conhecimentos importantes para a compreensão do passado colonial desse pais. Ainda que Cabo Verde seja o principal beneficiário com os resultados científicos advindos, este projecto não deixa de redundando num melhor conhecimento da acção dos portugueses em Africa e no At1ântico.
  5. Põr à disposição da comunidade científica internacional elementos referenciais importantes a elaboração de Histórias entrecruzadas e de grandes espaços (Exemplo: História da colonização portuguesa no Atlântico, História da Africa Negra, História dos povos do Sahel, História das sociedades escravocratas-crioula, etc).

    HISTORIAL:

    Este projecto resultou de um acordo entre os governos Caboverdiano e português, tendo por objectivo a elaboração da História Geral de Cabo Verde, iniciativa pioneira no domínio da cooperação entre Cabo Verde e os seus parceiros. Em consequências organizou-se uma equipa mista, constituída por historiadores cabo-verdianos e portugueses, sob a coordenação do Professor Doutor Luís de Albuquerque e da Investigadora coordenadora Doutora Maria Emília Madeira Santos.

    A equipa funciona no Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga (C.E.H.C.A./I.I.C.T.) beneficiando do património documental deste centro e da experiência dos seus investigadores dedicados ao estudo da historia das Áreas tropicais.

    O projecto teve inicio em 1987, tendo os trabalhos entrado em pleno funcionamento no ano de 1988. Ate agora já foram publicados o I e II volume do corpo documental e o I volume da História propriamente dita, encontrando-se no prelo o II.

    Quanto a metodologia foi necessário encontrar soluções adequadas ao seguinte condicionalismo: a execução de uma História Geral que não dispunha de uma bibliografia de apoio suficiente, ou seja, de estudos prévios que pudessem servir de subsidio as diversas temáticas que se pretendia abordar. Face a este constrangimento, optou-se pela feitura de monografias, largamente assentes em fontes primarias (grande parte delas, inéditas), como forma de colmatar essa lacuna. Saliente-se que o Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga pôs à disposição da equipa o seu vasto acervo de fontes, composto por documentos recolhidos nos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Arquivo Histórico Ultramarino, Biblioteca da Ajuda, Arquivo Geral de Simancas, Arquivo Geral de Índias (Sevilha), etc.

    Com tal documentação e com outra ainda, que numa etapa mais avançada foi e vem sendo recolhida pelos membros do projecto da História Geral de Cabo Verde (nomeadamente, no A.H.U., no A.G.I./Sevilha e no Arquivo de Simancas) a equipa tem podido, com seus estudos e suas publicações, contribuir para um melhor conhecimento da História de Cabo Verde, quer no aprofundamento de algumas temáticas já estudadas, quer pelas revelações que impõem uma releitura de alguns dos pontos da anterior produção historiográfica.

    Publicações com origem no Projecto
    História Geral de Cabo Verde. (Coordenação de Luís de Albuquerque e Maria Emília Madeira Santos), Volume I, Lisboa, IICT/DGPCCV, 1991

    História Geral de Cabo Verde - Corpo Documental, Volume I, Lisboa, IICT/DGPCCV, 1988.

    História Geral de Cabo Verde - Corpo Documental, Volume II Lisboa, IICT/DGPCCV, 1991.

    BALENO, Ilídio -"O corso e a pirataria em Cabo Verde: seus reflexos na vida local", in Actas do III Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, Secretaria Regional do Turismo /Centro de Estudos de História do Atlanaco, 1994, pp. 675-685.

    -(e SANTOS, Maria Emília Madeira),"Litoral: linha de atracção, repulsão e compressão ( Arquipélagos e Costa Ocidental Africana)", in Actas da VII1 Reunião Internacional de Historia da Nautica e da Hidrografia no prelo.

    -"Reflexões sobre as origens étnicas do contingente africano entrado nas ilhas com o tráfico", in Magma, Mindelo, 1 990, n°ree;5/6.

    -"Subsídio para a História de Cabo Verde: a necessidade das fontes locais através dos vestígios materiais", in Actas do Congresso Internacional Bartolomeu Dias e sua Época, 5 volumes, Porto, 1991? volume 1 pp. 553555; Série Separatas Verdes, CEHCA, Lisboa 19897 n°ree; 219.

    CABRAL, Iva -"A Fazenda Real, campo de contradições entre a Coroa e os moradores de Santiago: o exemplo de Avaro Dias almoxarife da Ribeira Grande" in Magma, Mindelo 1990, n°ree;5/6 e in Stvdia CEHCA/IICT, Lisboa, 1991, n°ree;51 pp. 177-189.

    -(e TORRAO, Maria Manuel), "Ensaios de uma Feitoria Régia no Espaço Económico-social da nha de Sanhago",in Actas do Colóquio Internacional de História Atlântica (século XVI), no prelo.

    COHEN, Zelinda -" Algumas Reflexões sobre a Colonização da Ilha do Fogo", in Magma, Mindelo, 1990, n°ree;5/6.

    -"O Caso de um Preto que Virou Branco" in Semanário Tribuna, Praia, 1°ree; Dezembro de 1989.

    -"Os Contratos de Arrendamento para a Cobrança das Rendas e Direitos Reais das Ilhas de Cabo Verde (1501-1560)", in Stvdia, CEHCA/IICT, Lisboa, 1 994, n°ree; 53, pp. 317-364.

    -" O Provimento dos Oficiais da Justiça e da Fazenda para as Ilhas de Cabo Verde", in Stvdia, CEHCA/IICT, Lisboa, 1991, n°ree; 51, p. 145-178.

    SANTOS, Maria Emília Madeira -" A Defesa dos Litorais. O Caso do Arquipélago de Cabo Verde durante a Ocupação Filipina" no prelo.

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    -(e TORRAO, Mana Manuel), " Subsídios para a História Geral de Cabo Verde: a legitimidade da utilização das fontes escritas portuguesas através da análise de um documento do inicio do século XVI. (Cabo Verde, ponto de intercepção de dois circuitos comerciais)". In Actas do Colóquio Internacional sobre Bartolomeu Dias e a sua Época, 5 volumes, Porto, 1991, volume 1, pp. 527-551; Série Separatas Verdes CEHCA, Lisboa, 1989, n°ree; 218.

    -Ver BALENO, Ilídio SILVA, António Correia e -"A Formação Histórica do Espaço do Arquipélago de Cabo Verde " in Magma, Mindelo, 1990, n°ree; 5/6.

    -"Os Fundamentos do Povoamento de Cabo Verde " in Oceanos, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1991, n°ree; 5, pp. 69-77.

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    -"As Secas e as Fomes na Construção da Sociedade Pós-escravocrata em Santiago de Cabo Verde" in Stvdia, CEHCA/IICT, Lisboa, 1994, n°ree; 53, pp. 365-382

    TORRAO, Maria Manuel -"O Algodão da ilha do Fogo: uma matéria-prima de produção afro-europeia para uma manufactura africana", in Stvdia, CEHCA/IICT Lisboa, 1991, n°ree; 50, pp. 157-176: Magma, Mindelo, 1990, n°ree; 5/6.

    -A Colonização das ilhas de Cabo Verde: meios e objectivos", in Portugal no Mundo (dir. de Luís de Albuquerque), 6 volumes., Lisboa, Alfa, 1989, volume 2, pp.l50-170.

    -"Dietas Alimentares: Transferências e Adaptações nas Ilhas de Cabo Verde (1460-1540)", no prelo.

    -Ver CABPAL, Iva

    -Ver SANTOS, Maria Emília Madeira


    LA HISTORIOGRAFÍA CANARIA

    
    
    Manuel Lobo Cabrera
    
    
    Las Islas Canarias a lo largo de su devenir histórico han contado con una base historiográfica particular y diferenciada, si la comparamos con el resto de la producción nacional, y a la vez propia de unos hitos en los cuales se han visto inmersas. Sin embargo, en cuanto a la producción y publicistica relacionada con su historia, tenemos que decir que nacen en relación al mundo conocido, esto es hacia Europa, entre fines de la Edad Media y los albores del Renacimiento.

    En esa producción han intervenido desde los propios científicos hasta los eruditos, los viajeros, los cronistas y polígrafos, quienes han dado sus puntos de vista desde distintas ópticas. A la misma se le han dado diferentes enfoques que han diferenciado todo el mundo aborigen, con unas particularidades propias, del resto de la parte histórica, en especial, a partir de la incorporación de Canarias a la corona de Castilla. Incluso en este aspecto han habido diferencias y enfoques distintos, bien se tratara de las islas de señorío -Lanzarote, Fuerteventura, La Gomera y El Hierro- o de las realengas -Gran Canaria, Tenerife y La Palma-, así como lagunas que aun no han sido resueltas.

    En este contexto, en las últimas décadas y gracias al interés mostrado por distintos historiadores, entre ellos los extranjeros, quienes han ponderado el papel de las islas en la historia universal, se ha dado un nuevo empuje con el objeto de conectar el mundo insular con el continental, y observar la dinámica de las relaciones entre ambas realidades.

    Antes de analizar las distintas fases por las cuales ha pasado la historiografía canaria creemos conveniente aclarar algunas cuestiones sobre la trayectoria seguida hasta llegar a los conocimientos actuales. En primer lugar no pretendemos realizar un catalogo exhaustivo ni agotar, porque sería imposible, toda la historiografía publicada sobre Canarias, puesto que por mucho que lo intentáramos la nómina siempre quedaría incompleta, y en segundo lugar porque el objeto que perseguimos es señalar las distintas fases por las cuales ha discurrido el pasado insular en relación a la producción que habla de él a través de las distintas publicaciones. En ellas pretendemos explicar cuales han sido las tendencias más importantes y de quienes proceden, a nuestro juicio, las aportaciones más interesantes. En este contexto queremos inicialmente destacar algunas figuras que han sido vitales para el posterior desarrollo historiográfico. En el siglo XVIII contamos con el polígrafo José de Viera y Clavijo, natural de El Realejo, en la isla de Tenerife, autor de una Historia de Canarias, de quien el profesor Elías Serra Rafols dijo lo siguiente:

    "Las Islas Canarias han tenido la suerte de contar, desde fines del siglo XVIII, con una clara síntesis de su historia con categoría de clásica. Una construcción histórica armónica, a la cual todo aquel que ha pensado en el pensado de ella se ha podido referir cómodamente como base indispensable".

    En el siglo XIX destacan dos figuras señeras: Agustín Millares Torres y Gregorio Chil y Naranjo, ambos naturales de Gran Canaria, considerados como prototipos de nuestras historia liberal burguesa, en razón del propio contexto ideológico y científico en que vivieron. A estos, según A. Millares Cantero, les caracterizan cuatro notas diferenciadoras: aplicación de los métodos experimentales; recepción del darvinismo e idea del devenir histórico como un proceso inductivo; optimismo colectivo y creencia en un progreso indefinido y pervivencia de elementos rusonianos al exaltar al hombre primitivo de las islas.

    En el siglo XX, en el campo de la arqueología y de la prehistoria fue de vital importancia la llegada a la Universidad de La Laguna el arqueólogo Manuel Pellicer Catalán, quien con su presencia los estudios sistemáticos de la arqueología canaria adquirieron un gran desarrollo con demostración incluso de estratigrafías en los yacimientos canarios, negadas hasta esos momentos. A el hay que unir para los estudios históricos a las figuras de E. Serra Rafols y A. de Bethencourt Massieu, verdaderos animadores e impulsadores de la Historia de Canarias, desde sus respectivas cátedras de la Universidad de La Laguna. Ambos consiguieron motivar e impulsar a un numeroso grupo de entusiastas de la historia, dispuestos a valorar la fuentes con las consulta exhaustiva de documentos, tanto los conservados en el archipiélago como en los Archivos nacionales, para situar los acontecimientos en el lugar que les correspondía, con unas fuentes de primera mano para construir nuestra historia, y a la vez analizar y profundizar en las lagunas históricas que se debían cubrir. Con su impulso los estudios sistemáticos de la Historia de Canarias han adquirido un desarrollo inusitado.

    Hasta aquí podemos distinguir al menos cuatro fases, que podrían incluso ampliarse a cinco, por las cuales ha pasado el interés para conocer la realidad histórica canaria.

    Primera fase.

    Esta se inicia desde el momento en que las islas toman contacto con Europa a través de los navegantes y misioneros que arriban a ellas, y se produce lo que ha denominado el "redescubrimiento" del archipiélago, y se continua con crónicas, descripciones de viajes, relatos y primeras historias, cuya duración puede llegar hasta los inicios del siglo XIX.

    Los detalles que se aportan en los mismos, inciden más en la etapa prehispánica y en la conquista que en el resto, aunque luego en los siglos XVII y XVIII ya se van dando a conocer aspectos interesantes de la nueva colonia. Los detalles que figuran en ellos son prolijos con interpretaciones, a veces, más míticas e imaginativas que propiamente científicas, pero que han servido para penetrar en la vida del hombre prehistórico canario, interpretado y valorado siempre desde la perspectiva del vencedor, el cual acomoda instituciones, economía, sociedad y administración a su esquema mental, tergiversando, a veces, la realidad.

    En este período y por orden de aparición destacan el relato atribuido a Bocaccio y conocido como la crónica de Ciompi o de Recco, donde se da por primera vez una visión del mundo insular; las crónicas francesas de la conquista, referidas preferentemente a Lanzarote y Fuerteventura, donde a aspectos que describen las costumbres de los indígenas, se unen los comentarios sobre los pasos seguidos en el proceso de la conquista; las descripciones de Cadamosto, quien mantuvo amplias relaciones con Lanzarote; las crónicas de la conquista de Gran Canaria en sus distintas versiones "Ovetense", "Matritense", "Lacunense", además de las del licenciado López de Ulloa, la de Antonio Sedeño y la Pedro Gómez Escudero, junto con las referencias que se encuentran en las décadas de Alonso de Palencia, en el capítulo de Diego de Valera y de Andrés Bernáldez, cuyo contenido es variado.

    A esto, pasada ya la época de la conquista, se unen distintas descripciones realizadas en el siglo XVI, unas de naturales de las islas y otras de extranjeros, donde se alude a la riqueza de la tierra, a sus producciones, a sus hombres y a su gobierno. Tales son: las del tío del licenciado Valcárcel, la de Thomás Nichols, mercader inglés, el cual, sin tener el método ni la intención que se hubiesen requerido para escribir la historia de las islas tuvo la curiosidad de un historiador; la del azoreano Gaspar Frutuoso, quien a pesar de no haber estado en las islas, según nuestra opinión, es el primero que intenta hacer una historia comparada de los archipiélagos atlánticos, introduciéndose en el campo de la geografía y de la geología, aspectos que conjuga junto con los económicos y administrativos; por último tenemos dentro de este grupo la descripción del humanista e ingeniero italiano Leonardo Torriani, enviado a las islas por Felipe II con el encargo de confeccionar un plan defensivo del archipiélago, por cuyo motivo reconoció cada una de las islas y dio noticias interesantes sobre el mundo aborigen y la nueva población que se genera tras la conquista, describiendo asimismo los núcleos urbanos más importantes, aunque se trata en definitiva de una relación oficial de interés político.

    También pertenecen a esta etapa las historias de Alonso de Espinosa y de Juan Abreu y Galindo. El padre Espinosa, quien escribe en el último tercio del siglo XVI, muestra curiosidad por la historia insular; en la misma se muestra discípulo del padre Las Casas, al hacer un tipo de historia proindigenista, de tal manera que su interés por los naturales canarios es lo que lo transforma en historiador. Otro tanto podemos decir de la obra de Abreu y Galindo, quien bebió en las fuentes anteriores, y sobre todo en las crónicas, realizando un texto con criterios y categoría de historiador, con capacidad critica y con un método y claridad de exposición propios.

    Para los siglos XVII y XVIII destacan, a nivel general para todo el archipiélago, las obras de Juan Núñez de la Peña, Marín de Cubas, la del narrador Castillo y Ruiz de Vergara, y la valiosa edición de José de Viera y Clavijo. A Núñez de la Peña debemos Conquista y antigüedades de la isla de la Gran Canaria y su descripción, obra que fue criticada por Viera y Clavijo, y valorada en sus justos términos por don Lope de la Guerra, quien dice de ella "No he visto cosa que no haya reparado en sus manuscritos, a excepción de los milagros y otras cosas que parecían piedad en aquellos tiempos". De Marín de Cubas indicaron Millares Torres y D. Wölfel, que era la obra de un autor de importancia superior en muchos casos, a otros cronistas, por el mejor conocimiento de la etnología prehispánica y de la prehistoria de Canarias, siendo considerado como el último de nuestros cronistas mayores, con una concepción arcaizante de la historia. De la obra de Castillo se ha dicho que no es mera historia, sino la primera geografía canaria, porque percibe que el tiempo sin la función del espacio es algo ininteligible, y a la vez no reduce la historia a una relación de sucesos sino que coloca a las islas en un amplio horizonte, con lo cual realiza una obra de madurez y elaboración.

    Pero sin lugar a dudas, la figura más señera de la historiografía canaria de esta época, e incluso de la posterior, es Viera y Clavijo, arcediano de Fuerteventura, escritor de fina y elegante pluma, que lo convierten en el valor intelectual más importante de Canarias en el siglo XVIII. Su historia está elaborada a base de documentación original, ya consultada directamente por el ya por los distintos corresponsales que tenía distribuidos en todas las islas. Su obra ha servido de arranque a toda la historiografía canaria posterior. No ha sido superada por una visión similar de conjunto de la Historia de Canarias. Acaso debe su perdurabilidad a su calidad literaria y a su prosa culta, junto a los criterios de autoridad.

    Segunda fase

    Este período que abarca hasta la primera mitad del siglo XIX, coincide con el ambiente romántico, y convierten a esta época en estéril e inoperante para la ciencia histórica, pues la sociedad imbuida de las teorías rusonianas de la vuelta a la naturaleza y a la búsqueda del pasado, se lanza a la recopilación de restos arqueológicos y de documentos con afanes meramente coleccionistas, causando un grave perjuicio, sobre todo en los yacimientos, imposibiltando su posterior estudio.

    Tercera Fase

    Es una etapa brillante y representa el clasicismo en el campo de la arqueología, aunque también se analiza en la historia. En esta fase que comienza a mediados del siglo XIX y perdura casi un siglo el interés más manifiesto se debe al estudio de los restos humanos aborígenes, y al mismo tiempo se plantea por primera vez el problema de la antropología y de la etnología canaria, ofreciendo una primera síntesis el francés Sabin de Berthelot, con una obra de carácter enciclopédico donde la historia de los aborígenes canarios toma un nuevo impulso, en compañía de Barker Webb. Su papel fue el de un compilador de datos, tomados de las crónicas y de los hallazgos de la época, sintiendo igual preocupación por los restos históricos, los datos etnográficos y las ciencias de la naturaleza; junto a ellos R. Verneau destaca por introducir en Canarias las técnicas y los criterios más avanzados de su tiempo en los campos de la antropología física y de la prehistoria.

    En los estudios de etnografía canaria destaca el doctor don Gregorio Chil y Naranjo, primer impulsor hispano de los estudios canarios con talla científica, aportando abundantes y valiosos materiales, y a quien se debe la fundación del Museo Canario en 1879. Durante bastante tiempo se preocupó por recopilar cuanto se había escrito hasta su época sobre Canarias. La publicación en 1876 de sus Estudios históricos, climatológicos y patológicos de las Islas Canarias, puede considerarse un hito de primer orden en el proceso de arranque de nuestra historiografía, según los criterios científicos arraigados en Europa, además de considerarsele como el introductor del darvinismo y el progenitor de las investigaciones antropológicas, realizadas posteriormente en el Museo Canario.

    Con él y con Millares Torres, se marca una línea laica en el saber histórico, frente a la presencia del clero de los períodos anteriores. La concepción histórica de Millares está imbuida de su preocupación por una labor erudita derivada de la escuela alemana, dando un valor fundamental a las fuentes, pues fue un buscador de manuscritos y de archivos incansable, con una visión científica de la historiografía, al afirmar que la historia no es una simple enumeración de hechos, sino el producto de su interrelación con las ciencias afines. A él se deben varias obras como son su Historia General de las Islas Canarias, o la Historia de la Inquisición en Canarias.

    Hubo otros autores canarios en esta época dignos de mención como Wangëmert y Poggio y Osuna van der Heede, a quien de sede El regionalismo en las Islas Canarias

    . Desde el punto de vista bibliográfico cabe incluir en esta fase la aparición de dos revistas canarias especializadas en los temas históricos: "El Museo Canario", creada a fines del siglo XIX, y la "Revista de Historia", cuyo máximo desarrollo se conoce en la siguiente fase.

    Cuarta fase

    Arranca desde el primer tercio del presente siglo y evoluciona hasta los momentos actuales; se asiste en ella al momento de afirmación de la historiografía insular canaria. En el campo de la arqueología se asiste a su organización y en la antropología se da un gran paso en el estudio de los restos de los primitivos canarios, lo mismo que en la lingüística, aunque no cabe duda que el mayor avance en este campo se produce con la creación del Departamento de Arqueología, Prehistoria y Etnología de la Universidad de La Laguna, bajo la dirección de los profesores Pellicer y Acosta, momento en que se inicia la elaboración de la carta arqueológica del archipiélago.

    En el campo de la historia propiamente dicha surgen nuevas escuelas y se relanzan las publicaciones, tanto desde las propias revistas especializadas como desde las instituciones, con la aparición de novedosas monografías.

    Tres figuras singulares destacan en esta época: A. Millares Carlo, E. Serra Rafols y A. Rumeu de Armas. El primero ligado a la Revista "El Museo Canario", pues en 1933 inició la tercera etapa y la más fecunda, de acuerdo a las técnicas y tendencias historiográficas en boga, abrió nuevos cauces a la investigación histórica canaria. Aunque parte de su vida la hizo fuera de las islas, incidió directamente sobre ellas promoviendo y apoyando vocaciones históricas. El profesor Serra Rafols, unido a la Revista de Historia y al Instituto de Estudios Canarios, desde su cátedra de Historia de la Universidad de la Laguna inició una ardua labor, pues adquirió conciencia de que era imposible escribir una historia insular mientras las fuentes históricas permanecieran inéditas, de ahí que comenzara con la edición de las mismas, recogidas en la colección Fontes Rerum Canariarum, en colaboración con sus discípulos, que han sido dignos seguidores de su labor como L. de la Rosa Olivera y M. Marrero. De él se ha dicho que luchó, denonadamente, a lo largo de su vida, contra los tres enemigos mortales del verdadero historiador: los que engañan, los que destruyen y los que ocultan. Esto le llevó a hacer un replanteamiento nuevo, una reconstrucción de la Historia de Canarias, desprovista de la anécdota y encarrilada por los cauces de la historiografía moderna.

    Las décadas siguientes han sido decisivas parta dar el salto cualitativo de la historiografía canaria, y aquí entra en escena el profesor Antonio Rumeu de Armas. Con más de 150 títulos a sus espaldas, muchos de ellos referidos a cuestiones insulares, nos ha enseñado que la historia de Canarias no puede ser realizada solo desde el archipiélago, sino que por el contrario es necesario consultar y confrontar los archivos nacionales y extranjeros, dándonos prueba de ello en su magna obra Piraterías y ataques navales contra las Islas Canarias; es ésta quizá una de las más importantes de su producción, en referencia a Canarias, sin menoscabo de otras que abarcan tanto aspectos de la etapa medieval como aquellos otras que analizan parte del fin del Antiguo Régimen. La misma va más allá del título, realizando un profundo estudio de todos aquellos aspectos en los cuales incidía la piratería: población, economía, administración, fortificaciones y sociedad.

    Junto a su labor personal, bastante valiosa, donde se nos ha enseñado a todos los que nos preocupamos por la Historia de Canarias, abre ese magisterio hacia el exterior a través del "Anuario de Estudios Atlánticos", bajo cuya dirección se encuentra desde 1955 y que va ya por el número 40, por su continuidad, por los temas tratados, por la calidad, por la nómina de los colaboradores y por la abundancia de trabajos en el editados, convirtiéndose en la más completa publicación periódica del archipiélago.

    Junto a estos tres grandes maestros de la Historia Canarias, habría que incluir toda una pléyade de historiadores que tanto dentro como fuera de las islas se han preocupado de enfocar los temas canarios desde todas las ópticas posibles, tal como han hecho los profesores Peraza de Ayala y Morales Padrón; este último, en especial, en lo que toca a la dimensión atlántica del archipiélago en conexión con el Nuevo Mundo durante la etapa colonial, pero ambos con obra sobre el comercio canario-americano. El profesor Morales Padrón ha impulsado también en las islas los estudios canario americanos con la dirección y edición de los "Coloquios de Historia Canario-Americana", que van ya por su onceava edición, en donde han participado un elenco importante de historiadores tanto insulares como foráneos.

    En estas últimas décadas es cuando se ha operado el salto cualitativo de la historiografía canaria, con el apoyo institucional prestado al conocimiento histórico, tanto desde el Cabildo Insular de Gran Canaria como de la Universidad de La Laguna primero y luego de la de Las Palmas de Gran Canaria, como viveros de especialistas en sus distintos departamentos. La Universidad de La Laguna, una vez que se crea la división de Geografía e Historia, abre un campo amplio para la formación de investigadores, donde se han elaborado infinidad de estudios con nuevas orientaciones metodológicas. Aquí es de reseñar la labor y el empuje decidido a la investigación del profesor Antonio de Bethencourt Massieu, desde que se incorporó a la cátedra de Historia Moderna de la citada universidad, dirigiendo la Revista de Historia, como orientando tesinas y tesis doctorales.

    El papel del profesor Bethencourt en la historiografía canaria de las dos últimas décadas es vital, en especial en las áreas de Historia Moderna y Contemporánea. Sus propias investigaciones y los trabajos por él dirigidos más las aportaciones de sus alumnos han permitido roturar y conocer amplias parcelas de la historia. Desde su llegada a la Universidad de La Laguna tuvo como norte la formación de un grupo de historiadores que aunaran esfuerzos para desentrañar la historia regional, pero con una preocupación clara que puso de manifiesto cuando se expresaba en los siguientes términos " no quisiéramos en el futuro dar una muestra estrecha, exclusivamente limitada al horizonte de nuestras islas, sino otro bastante más amplio, como pueden ser el de las interrelaciones de las mismas con su mar circundante y los continentes". En esta línea fue consciente de que era necesario primar estudios y monografías de ámbito local y comarcal, de acuerdo con la nueva metodología, para al cabo del tiempo llegar a consideraciones generales y a conseguir conclusiones de largo alcance.

    Con elementos humanos y materiales, se comenzó a roturar el pasado insular, dirigido en dos direcciones: Historia Moderna e Historia Contemporánea. Así fue como formó una generación de investigadores, que amen de las áreas citadas se dedicaron también a las áreas de Historia de América y a la Historia Económica. Todos ellos, pues, profesionales de la Historia que desde los distintos departamentos de las universidades canarias han continuado dicha labor ampliando la historiografía canaria, entre los que cabe citar a A. Macías Hernández, V. Suárez Grimón, E. Torres Santana, M. Lobo Cabrera, A. Sánchez Enciso, T. Noreña Salto, A. Millares Cantero, O. Brito, J. Hernández y M. de Paz, todos ellos con obra publicada.

    Igualmente han de tenerse en cuenta en esta fase la labor desarrollada en el área de Historia Medieval por los profesores Ladero Quesada, E. Aznar Vallejo y M. Marrero.

    En este sentido en estas últimas décadas la historiografía regional canaria ha avanzado con una renovación y una mayor riqueza de planteamientos, no solo por abordar nueva temática, sino por la preocupación metodológica iniciada por sus autores, que han abierto vías para esclarecer los grandes aspectos del desarrollo histórico.

    BIBLIOGRAFÍA

    Quisiéramos advertir que seleccionar una bibliografía sobre Canarias entraña un riesgo ineludible, pues siempre quedarán autores por citar y obras por reseñar. Por ello sólo citamos a nuestro juicio las obras más relevantes, entendiendo que en las revistas citadas en el texto existen trabajos de primera línea en importancia, pero creemos que ello va incluido en el índice general de las revistas insulares.

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