ESCRAVOS

COM E SEM AÇÚCAR

NA MADEIRA


 

 

ALBERTO VIEIRA



Textos e comunicações


Textos de Divulgação




ÁFRICA: fotografia a preto e branco


alberto vieira


A verdade acerca da História africana permaneceu oculta durante muito tempo porque os europeus que a explicaram não tinham posto de parte os seus preconceitos, mas avançaram de espírito fechado, convencidos da sua superioridade natural."Basil Davidson,1978

Tudo tem um princípio: real ou lendário, não importa. A escravatura não foge à regra. De uma forma caricata (hilariante, para alguns) a escravidão foi a pena imposta por Noé ao seu filho Cam, por ter presenciado a sua nudez num momento de embriaguez. Esta justificação, conhecida como a tese camita, dominou o pensamento do Ocidente cristão a partir do século XV, sendo testemunho disso Zurara. Deste modo os descendentes de Cam e seu filho Kush, desterrados para o continente africano, irão alimentar, a partir do século XV, o maior movimento migratório forçado que a História testemunha. O mito camita será para muitos o principio que fundamenta o pecado original da Cristandade Ocidental a partir de centúria quatrocentista, a escravatura negra. E isso foi responsável pela emigração forçada de mais de 10 milhões de africanos e da morte anunciada de outros tantos.

A tudo isto acresce o facto de os africanos, ontem como hoje, serem incompreendidos. Para certa historiografia a descoberta deste continente, como todos os malefícios que daí advieram para os africanos, começou apenas com as navegações portuguesas do século XV. no esquecimento dos arquivos ficaram a civilização egípcia, a opulência de Cartago e o avanço almorávida para sul até ao Gana, a partir do século V.Mais, os impérios africanos(Gana, Meroe, Mali Songhai...), autênticos expoentes do nível civilizacional do continente africano, não ficaram para a História do mundo Ocidental.

Todos nós nos deliciamos com a descoberta da civilização egípcia, mas poucos saberão que muito desse sangue e suor, necessários para tal progresso, saíram de gente de pele negra. Aliás, alguns dos faraós, como Quéfren, Dgesu, Tutmósis III, Ramsés III e Amehenat I erram negros, como negra era também a mulher de Moisés, o profeta que libertou o povo judeu do cativeiro egípcio. Diz-se até que Osíris, um dos deuses mais destacados da mitologia egípcia, era negro ! Nada disto aparece nos manuais escolares e mesmo em alguns dos textos e egiptólogos célebres. A componente negra da civilização egípcia foi ignorada e desprezada. Para alguns africanistas ferrenhos, como Claude Wauthier(1973), Cheik Anta Diop(1955) e Du Bois, os egiptólogos europeus procuraram a todo o custo "embranquecer" o antigo Egipto. Todavia Jean Suret-Canale(1959) reafirmava uma opção de consenso, esclarecendo que "os antigos egípcios, como depois deles os árabes, ignoravam felizmente o preconceito de cor". Na verdade, dizemo-lo nós, ele é uma criação da civilização ocidental. A este propósito merece referência o episódio relatado por Cadamosto em meados do século XV. Segundo ele os negros aproximavam-se e procuravam tocar-lhe e com cuspo esfregavam-lhe a pele a ver se a tinha pintado de branco.

Foi com o intuito de apagar os vícios da visão etnocêntrica da literatura historiográfica europeia que surgiram inúmeros estudiosos, africanos ou não, com visões inovadoras, que têm contribuído para a descoberta deste mosaico racial e civilizacional que é o continente africano. Neste caso a Etnologia cumpriu um importante papel. aqui merece referência a intervenção dos missionários europeus, os primeiros que procuraram compreender o seu modo de vida para depois os levarem ao baptismo e à doutrinação cristã. Note-se que neste campo a opção da Historiografia africana é clara, tal como nos esclarece Joseph Ki Zerbo: "Durante séculos... a história dos negros foi confiscada em favor dos seus senhores europeus... O nosso desejo hoje é estudar a nossa história e reconstruir a que foi feita sem nós e contra nós." Este reencontro do africano com o seu passado é revelador de outro posicionamento das gentes africanas face ao nível civilizacional do Ocidente- se acaso é possível medir-se.

No século XIV um frade franciscano da vizinha Espanha descrevia os africanos como "homens de bom entendimento e de bom siso", referindo que eles tinham "saberes de ciência". diferente é todavia a opinião testemunhada pelos marinheiros portugueses a Zurara. Tal como o refere os africanos tinham um modo de vida "semelhante às bestas". Mas é também em Zurara que temos a visão mais pungente da partilha dos primeiros negros em Lagos e o remata final de que todos " somos filhos de Adão"; situação que mais tarde será também recordada por Duarte Pacheco Pereira. Mas os portugueses que primeiro protoganizaram esse encontro com o africano estavam esquecidos dos textos bíblicos e apegavam-se às tradições recentes, em que o negro era sinónimo de pecado e Inferno. Os primeiros contactos lançaram o mau presságio. Na perspectiva do europeu, que sulcava os oceanos, não havia lugar para a diversidade. A civilização era só uma, a europeia, e sob ela deveriam ser enquadrados todos os padrões comportamentais. Não foi a cor de pele aquilo que mais despertou a atenção do europeu, pois ele já estava habituado à sua presença, ainda que pouco reduzida, mas o seu modo de vida: a religião, a política, os hábitos alimentares. E é daqui, pensámos nós, que devemos retirar os dados mais pungentes e violentos com que o africano foi confrontado. Não foi a violência do verdugo no tronco escuro desnudo, o calor do ferro em brasa que assinalava o direito de propriedade, os grilhões dos pés e braços, a labuta diária do engenho, campo ou onde quer que fosse, que marcaram a violência da escravidão. Pior foi o afastamento do clã, das tradições culturais e cultuais. O desenraizamento civilizacional foi o preço mais caro pago pelos africanos. De um momento para outro ele viu-se vestido dos pés à cabeça, adorando um só Deus e coabitando com desconhecidos longe do seu clã e forçado a habituar-se a uma dieta alimentar estranha. O processo de adaptação não foi fácil, mas foi a única solução para estas gentes, sem outra alternativa.

Em África a penetração europeia no interior foi revelando novas realidades e o contacto com o rei do Congo veio a revelar a outra face do africano. Ademais os diversos impérios --Gana, Meroe, Mali, Songhai-- foram a imagem de outro continente, lamentavelmente dizimado com o avanço almorávida a partir do século X. Aos portugueses na costa oriental foi dado a presenciar o desmoronamento de alguns desses, sendo o momento propício para o aci catar das rivalidades guerreiras, intencionalmente utilizado para a presa de escravos.

Para muitos de nós persiste a ideia de que África foi o berço das palhotas, da feitiçaria(...). Tudo isso ficou arreigado à tradição historiográfica como indício do primitivismo civilizacional. Mas este não é o verdadeiro retrato do continente. Ele foi criado apenas pela mente do europeu. Senão vejamos: os testemunhos de alguns literatos árabes ou europeus. No último caso releva-se Leão o africano, que em 1550 fez uma descrição primorosa da África Oriental. aí a civilização do Songhai, com principal assentamento em Tombuctu, é descrita como um centro de cultura, capaz de rivalizar com as cidades europeias. Mais tard