Vidoeiro. Como ampliação ao que fica exposto em vários lugares desta obra acerca do revestimento florestal da Madeira e em especial da arborização da vizinha ilha do Porto Santo (III-120), transcrevemos alguns trechos dum artigo do ilustre botânico Carlos de Meneses publicado no antigo «Diário do Comercio», que oferece particular interesse a esse tão debatido e sempre momentoso assunto. «Em 1910, foram remetidos para o Porto Santo, afim de serem ali plantados, diversos exemplares de vidoeiros offerecidos por um estrangeiro que toma bastante interesse pela rearborisação d'aquella ilha. O Porto Santo, no entender dos technicos, deve ser arborisado com essências madeirenses ou da região mediterrânea, e nunca com espécies da Europa média ou boreal, as quaes teem exigências climatéricas a que o paiz não pode satisfazer, já pela sua posição geographica, já pela pequena altitude dos seus montes. Mesmo no tocante ás essências madeirenses, parece-nos que ha selecções a fazer, pois não é crível que se adaptem aos terrenos extremamente seccos e pouco elevados do Porto Santo certas espécies que só prosperam entre nós nos vales e ravinas do interior, ou então nos pontos elevados e húmidos das encostas meridional e septentrional da nossa ilha. O vinhatico, por exemplo, é uma espécie imprópria para o revestimento florestal do Porto Santo, e, se por enquanto, apresentam bom aspecto os exemplares que alli foram introduzidos, mercê das irrigações a que teem estado subjeitos, tempo virá em que hão de definhar, e morrer finalmente, por não encontrarem nos terrenos e na atmosphera as condições necessárias á sua existencia. A falta de chuvas e o calor intenso com médias hibernaes pouco baixas, dão o cunho climatérico da visinha ilha, em cujos montes só podem cultivar-se com vantagem certas essencias que se encontram na zona inferior da Madeira, como o loureiro, o til e o barbusano, e não o vinhatico, que só começa a apparecer com uma certa frequência acima de 400 ou 500 metros, e que carece de humidade para desenvolver-se. Ora, se o vinhatico, espécie madeirense, é impróprio para a arborização do Porto Santo, ainda o é mais o vidoeiro, árvore que, como é sabido, tem o seu limite meridional no Alto Minho, no Gerez, no Marão e na Serra da Estrella, e que só constitue massiços importantes nas regiões septentrionaes e na Europa média, onde os frios são intensissimos durante o inverno, e a estação quente dura pouco tempo. Quando o vidoeiro fosse espécie mediterrânea adequada a ser cultivada no Porto Santo, ainda assim excluil-a-hiamos do revestimento florestal da ilha, por isso que as árvores de folhagem caduca não são muito próprias para a arborização dos paizes de climas quentes. Do que se carece na vizinha ilha é de árvores sempre verdes, como são em regra as da Madeira, afim de proteger tanto quanto possível o solo contra a evaporação, e favorecer assim o apparecimento das fontes. Com um revestimento constituído por essências de folhagem caduca, pouco melhoraria a situação das terras, visto não poder deixar de ser muito restricta a influencia desse revestimento num paiz de médias hibernaes pouco baixas, como é aquelle de que estamos fallando.»