Reis Gomes (João dos). É major de artilharia de reserva e nasceu na freguesia de São Pedro desta cidade a 5 de Janeiro de 1869, sendo filho de João Gomes Benta e de D. Maria Gertrudes Castro Gomes. Frequentou o liceu do Funchal e concluiu com altas distinções os cursos das Escolas Politécnica e do Exercito, tendo sido despachado alferes a 29 de Dezembro de 1892.
Além do serviço militar prestado em diversos pontos do Continente, foi comandante da Bateria n.° 3 de Artilharia de Guarnição desta cidade, inspector do material de guerra desta ilha, e professor do Liceu de Jaime Moniz e da Escola Industrial do Funchal.
Foi director do antigo Heraldo da Madeira e é o actual director do Diário da Madeira (1921). Além dos numerosos artigos insertos nestes jornais, tem colaborado em muitas outras publicações. Os seus escritos publicados em volume são: O Theatro e o auctor, Funchal, 1905, de XIII-214 páginas, (estudo filosófico); Historias Simples, Lisboa, 1907, de 214 páginas (contos); A Filha de Tristão das Damas, Funchal, 1909, de 302 páginas (romance); Guiomar Teixeira, Funchal, 1912, do IX-90 páginas (drama); A Musica e o Teatro, Lisboa, 1919, de XVIII-334 páginas estudo filosófico); Acustica Fusiologica. A Voz e o ouvido Musical, Lisboa, 1922, de XI- 133 páginas e Portugal-Brasil, Funchal, 1922, de 17 páginas discurso). Do livro O Theatro e o auctor se fez segunda edição em Lisboa em 1916, e também do drama Guiomar Teixeira se publicou uma nova edição no Funchal, em 1914.
O major Reis Gomes é membro da Academia das Ciências de Portugal, tem as Palmas Académicas da Academia Francesa e é comendador da ordem de São Tiago.
É, sem contestação, o mais distinto escritor e jornalista madeirense, sendo também por muitos considerado como o primeiro crítico de teatro do nosso pais. Muito seria para desejar que, de entre as centenares de criticas e apreciações teatrais saídas da sua pena, se fizesse uma selecção de algumas dezenas delas e se enfeixassem num volume, salvando-se assim dum imerecido esquecimento de verdadeiras obras primas, que incontestavelmente o são no seu género. Já em outro lugar nos referimos ligeiramente aos trabalhos do major Reis Gomes acerca da musica e do teatro, devendo aqui acrescentar-se que nos parece não ter chegado ainda a ocasião de se formar desses estudos o conceito que merecem, pondo-se em relevo o alto valor que eles encerram (1921).
Uma das feições que caracterizavam alguns dos escritos de J. dos Reis Gomes e que mais os tornaram apreciados entre nós, era a ironia e a sátira, manejadas um pouco à Ramalho e à Fialho, em que o cómico e o grotesco das pessoas e das cousas, surpreendidas em flagrante, eram apresentadas ao leitor com uma graça original e espontânea e também com rigor e justeza de critica, embora por vezes o motejo mordaz e irreverente viessem sublinhar as palavras e os conceitos...(1921).
Posteriormente a esta data, publicou o major João dos Reis Gomes mais os seguintes trabalhos: Forças Psiquicas (Ensaio Filosófico), O Belo Natural e Artístico (Memoria apresentada à Academia), Figuras de Teatro, Através da França, Suiça e Itália (Diario de Viagem), Três capitais de Espanha (Burgos, Toledo e Sevilha), O Anel do Imperador (Alemoria apresentada à Academia), Natais (Contos e Narrativas), O Vinho da Madeira (Monografia), Casas Madeirenses, O Cavaleiro de Santa Catarina (Memoria apresentada à Academia), De Bom Humor (Narrativas) e Casos de Tecnologia (Divulgação cientifica).
Temo-nos, por sistema, abstido geralmente
de quaisquer apreciações acerca dos nossos escritores
debaixo do ponto de vista estrictamente literário, mas
seja-nos permitido dizer agora que o major Reis Gomes é
dos que maior honra e lustre dão ás letras madeirenses
e que o seu nome há-de ficar na historia deste arquipélago
como o de um dos seus mais brilhantes e primorosos escritores
e jornalistas.