Ornelas de Vasconcelos (Aires de). Nasceu na freguesia da Camacha a 5 de Março de 1866 e é filho do conselheiro Agostinho de Ornelas de Vasconcelos (V. êste nome) e de
D. Maria Joaquina Saldanha da Gama. Pela ascendencia paterna pertence a uma das mais antigas e distintas familias madeirenses e pela linha materna é neto dos condes da Ponte. Estudou os preparatorios no Colegio de Campolide e tendo cursado a Escola Politecnica e a Escola do Exercito, foi despachado alferes em 1889, fazendo parte da arma do Estado Maior.
Desde logo se dedicou ao estudo de assuntos militares, começando a colaborar activamente em revistas da especialidade e fundando em 1893 a Revista do Exercito e da Armada, de que foi um dos mais assiduos redactores.
Aires de Ornelas seguiu para a Africa Oriental em 1895, revelando-se aí um distintissimo militar e alcançando sem demora um grande renome em todo o país. Tomou parte na campanha contra o Gungunhana e na preparação das colunas de Marracuene e Inhambane, sendo porém nos combates de Coolela e Marracuene, em que verdadeiramente afirmou a sua coragem, a sua competencia e o seu inexcedivel sangue frio, que mais consolidou a reputação de que já gozava de ser um dos oficiais que mais se distinguiram nas nossas guerras da Africa. Mousinho de Albuquerque, que foi o grande herói das nossas campanhas africanas na segunda metade do século XIX, não queria outro chefe de estado maior senão Aires de Ornelas, dizendo no relatorio das campanhas de 1896-1897 que «na sua arma era ele o oficial mais completo que tinha conhecido, possuindo todas as qualidades de oficial de cavalaria de campanha e de oficial de estado maior.
Consagrou-se especialmente ao estudo dos assuntos coloniais, a que a sua permanencia em Africa, a administração que fêz no distrito de Lourenço Marques e as diversas comissões militares e diplomaticas que desempenhou, deram a maior autoridade, sendo considerado no nosso país como um dos homens publicos que mais larga e profundamente conhecia as nossas questões ultramarinas, sobretudo nas suas relações com as outras potencias coloniais. Os seus conhecimentos nesta especialidade revelaram-se principalmente nos estudos publicados em diversas revistas, na direcção do Jornal das Colonias, nos capitulos Marraquene e Coolela do livro Campanha das tropas portuguesas em Lourenço Marques e Inhambane, no estudo intitulado As raças e linguas indigenas de Moçambique, e em algumas conferencias realizadas na Sociedade de Geografia e na Liga Naval.
Aires de Ornelas representou o govêrno português no Congresso Militar que se reuniu em Madrid por ocasião do centenario de Colombo, e, mais tarde, fêz parte, como delegado tecnico, da celebre conferencia da Haia. Foi também escolhido para, juntamente com o almirante Hermenegildo Capelo e o capitão de fragata Ernesto de Vasconcelos, formarem a comissão tecnica que foi discutir com os inglêses a questão dos limites de Barotze, submetida á arbitragem do rei de Italia. Tomou Aires de Ornelas uma parte muito activa nesta missão e especialmente na colaboração na memoria historica justificativa dos direitos de Portugal.
Quando o conselheiro João Franco foi em 1906 encarregado de constituir ministerio, deixando em todo o país as gloriosas tradições que ainda perduram, escolheu o capitão Aires de Ornelas para gerir a pasta da marinha e ultramar. Foi como titular desta pasta que em 1907 acompanhou o principe real D. Luís Felipe numa viagem ás nossas colonias ultramarinas da Africa ocidental e oriental.
Com a implantação da Republica, o conselheiro Aires de Ornelas pediu a sua demissão de oficial do exercito e abandonou o país, tendo residido algum tempo no estrangeiro.
Regressando á patria, tomou parte activa na organização e direcção da politica monarquica, e é hoje o lugar-tenente de D. Manuel II no nosso país (1921). Envolvido nos acontecimentos politicos das tentativas de restauração monarquica, foi prêso e durante longos meses passou encarcerado na Penitenciaria e na fortaleza de S. Julião da Barra.
Teve uma vasta colaboração em muitos jornais e revistas, havendo sido durante alguns anos o director do Diario Nacional. Além dos escritos que ficam citados, temos conhecimeuto de que publicou: Mousinho de Albuquerque e a sua acçao em Moçambique, A Espansâo de Portugal, Politica Maritima Nacional, A Marinha Portuguesa, As doutrinas politicas de Charles Maurras, Um Anno de Guerra, de 285 pag., Segundo Anno de Guerra, de 305 paginas, etc..
Foi deputado pela Madeira na sessão legislativa de 1918 e foi também eleito deputado por um dos circulos do Continente, em Janeiro de 1922.
Faleceu em Lisboa a 14 de Dezembro de 1930, sendo os seus restos
mortais trasladados para o cemiterio das Angustias do Funchal
no ano de 1934.