Ornelas de Vasconcelos (D. Aires de). D. Aires de Ornelas de Vasconcelos, que pertencia a uma das mais antigas e nobres familias desta ilha, nasceu no Funchal a 18 de Setembro de 1837, sendo filho do morgado Aires de Ornelas de Vasconcelas e de D. Augusta Correia Vasques de Olival.
Tendo cursado nesta cidade as aulas secundárias, em que fôra um aluno distintissimo, matriculou-se em 1854 na faculdade de teologia da Universidade de Coimbra e ali concluiu a formatura em 1859, obtendo o primeiro premio em todos os anos do seu curso. Em 1860, defendeu conclusões magnas, tendo recebido o capelo e o grau de doutor a 29 de Julho do mesmo ano. A sua dissertação inaugural intitula-se De Christianae Religionis Origine, escrita na lingua latina e que foi publicada em volume. Convidado para lente da sua faculdade, resolveu seguir a carreira universitaria, mas desistiu depois dêsse intento, por motivos que desconhecemos.
Regressando á Madeira já ordenado de presbitero, foi sucessivamente nomeado professor do Seminario, conego, examinador sinodal, deão, vigario geral e presidente da junta governativa do bispado. No desempenho de todos estes cargos se mostrou sempre de uma irrepreensivel conduta e de uma encantadora simplicidade, e especialmente como professor revelou profundos conhecimentos das ciencias teologicas, o que, a par da maneira como tratava os alunos, fazia de cada discipulo um admirador e um amigo.
Ao voltar de uma visita que fizera a Roma, depois de assistir ás sessões do concilio do Vaticano, foi pelo prelado desta diocese D. Patricio Xavier de Moura, proposto para seu coadjutor e futuro sucessor, sendo confirmado bispo titular de Gerasa no consistorio de 6 de Março de 1871 e tendo recebido a sagração episcopal em Lisboa, a 7 de Maio do mesmo ano.
Assumiu a direcção interina desta diocese a 17 de Maio de 1871, a qual só definitivamente começou a governar a 27 de Outubro de 1872, depois do falecimento do bispo efectivo. Durou apenas três anos o seu episcopado, que não foi isento de graves dificuldades, em boa parte criadas por alguns membros turbulentos do corpo capitular da Catedral. Apesar da sua grande austeridade de caracter, do seu zêlo pela observancia da disciplina eclesiastica, das mais rectas intenções que o animavam no exercicio do cargo e ainda do seu rarissimo talento e profunda ilustração, não conseguiu, na sua terra natal, mostrar o que valiam todos êsses invejaveis predicados como nas longinguas regiões do Industão, onde tão brilhantemente manifestou as suas notaveis qualidades de intrépido apostolo, de espirito reformador, de homem de acção, de uma inteligencia cultissima, impondo-se ao respeito e admiração de milhões de individuos espalhados pelas vastas dioceses de que era o metropolita.
Por carta régia de 23 de Julho de 1874, foi D. Aires de Ornelas apresentado arcebispo de Goa e Primás do Oriente, havendo sido confirmado pelo papa Pio IX no consistório de 19 de Novembro do referido ano. Saíu da Madeira a 25 de Janeiro de 1875, tendo a mais imponente e afectuosa despedida de que há memoria entre nós. A 27 de Dezembro do mesmo ano, chegou a Goa, assumindo a direcção da sua vasta arquidiocese.
Longe iriamos se quisessemos entrar em detalhes acêrca da sua administração episcopal no Oriente. Pouco mais de três anos durou o seu episcopado e em tão curto lapso de tempo impossivel seria desenvolver maior actividade e maior zêlo no exercicio do seu arduo apostolado. A reforma do Seminario, a administração das fabricas das igrejas, as dissenções religiosas entre as diversas castas indianas, a direcção de varios estabelecimentos pios, a observancia da disciplina eclesiastica, o ressurgimento do espirito religioso, etc. etc., mereceram-lhe os seus especiais cuidados e a essas multiplas questões consagrou o melhor do seu acendrado zêlo e da sua dedicação sem limites. O seu govêrno na arquidiocese goense assinalou-se de modo particular pela visita pastoral que realizou a tão remotas regiões do padroado portugues no Oriente e pela exposição do corpo de São Francisco Xavier, o grande apostolo das Indias. Essa visita, feita através de países estrangeiros e por meio de povos tão heterogéneos em religiões, usos e costumes, foi um triunfo para o arcebispo, e, mais ainda, concorreu notavelmente para consolidar o prestígio do nome português nas vastas regiões que êle percorreu.
A exposição de S. Francisco Xavier foi um acontecimento para tôda a India. À velha cidade de Goa, tão solitaria e tão abandonada, acorreram milhares e milhares de forasteiros vindos de países muito distantes, que deram á capital do antigo imperio português no Oriente um movimento e uma animação que ela nunca presenciara. Foi nessa ocasião que o arcebispo recebeu varios bispos, seus sufragâneos, e vigarios apostolicos, e os reuniu em sínodo provincial, revelando então a êsses membros do alto clero, alguns deles de alta envergadura intelectual, os dotes da sua inteligencia e da sua ilustração, para o que muito concorreu o seu conhecimento da ciencia teologica e das linguas latina, francesa e inglêsa, que escrevia e falava correctamente.
Os escritos do ilustre arcebispo-pastorais, sermões, discursos e relatorios-mostram o pastor cheio de zêlo e abnegação pelo seu rebanho e são também modêlo da mais vernácula e castiça linguagem, com um acentuado sabor classico, cuja leitura instrui e seduz.
Foi no seu afanoso apostelado da India e especialmente nas suas penosas e fatigantes visitas pastorais, que contraíu a grave doença que o obrigou a deixar a sua arquidiocese. Regressou á terra natal, onde chegou a 22 de Maio de 1879, tendo talvez tido a mais afectuosa e entusiastica recepção que nesta ilha se haja preparado aos seus visitantes. Depois de alguns meses de repouso, seguiu para França a consultar especialistas sôbre o mal que o atormentava e que pouco a pouco se foi agravando, até que a 28 de Novembro de 1880 faleceu em Lisboa, em casa de seu irmão o ilustre madeirense, conselheiro Agostinho de Ornelas de Vasconcelos.
Os seus restos mortais foram trasladados no ano de 1903 para
a capela de S. Antonio da Sé Catedral, antigo jazigo da
familia Ornelas. (V. Obras de D. Aires de Ornelas e Vasconcelos,
Porto, 1881, de 358 paginas).