Ornelas de Vasconcelos (Agostinho de). Foi o conselheiro Agostinho de Ornelas de Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura um verdadeiro representante da velha e legitima fidalguia portuguesa, esmaltada e enriquecida com todos os apreciaveis requisitos da moderna civilização. Embora cioso dos seus titulos de nobreza e fidalgas tradições da sua familia ilustre, não deixou de ser um espirito eminentemente liberal uma inteligencia aberta a tôdas as manifestações do progresso e um apaixonado cultor das ciências e das letras.
São provas eloquentes destas afirmativas o sistematico desdém com que sempre desprezou titulos e honrarias, contentando-se com os pergaminhos herdados dos seus maiores e com as distinções inerentes aos altos cargos que desempenhou, e o afadigoso empenho com que, dia a dia opulentava a sua profunda cultura intelectual, seguindo diligentemente tôdas as descobertas, inovações e progressos realizados nos diversos ramos do saber humano.
O nosso biografado nasceu na freguesia da Sé desta cidade, a 14 de Março de 1836, e pertencia a uma das mais distintas familias da Madeira, contando entre os seus ascendentes alguns vultos notaveis, que deixaram nome lustre na historia do nosso país. Foram seus pais o morgado Aires de Ornelas de Vasconcelos, que entre nós exerceu o cargo de governador civil, e sua esposa D. Augusta Correia Vasques de Olival.
Concluindo com notavel distinção o curso secundario no liceu do Funchal , matriculou-se na faculdade de direito na Universidade de Coimbra, em 1852, havendo-se formado em 1857, depois duma brilhante carreira academica.
Atraido pelas fascinações da diplomacia, iniciou esta carreira aparatosa mal concluiu o seu curso universitario, sendo, por decreto de 18 de Novembro de 1857, nomeado segundo adido à legação de Washington, tomando posse do lugar em Junho do ano seguinte e ali permanecendo até o mês de Fevereiro de 1859. Aproveitou os seus ocios de jovem diplomata, percorrendo uma parte consideravel do país e visitando os seus estabelecimentos e instituições mais notaveis, do que resta um documento na importante memoria que escreveu acêrca da penitenciária de Filadelfia, que vem inserta na obra Reforma das cadeias em Portugal, devida à pena do dr. Antonio Aires de Gouveia, arcebispo de Calcedonia.
Transferido para a côrte de Berlim, ali se demorou até o ano de 1862, tendo algumas vezes servido de encarregado de negocios, na ausencia do respectivo embaixador.
Em 1862, foi promovido a primeiro adido e colocado no Rio de Janeiro e depois em S. Petersburgo, não chegando a ocupar estes lugares, por motivo de doença, sendo a 26 de Abril de 1865 nomeado secretario de legação para Viena de Austria, e, em seguida, transferido para Londres, onde permaneceu até Dezembro de 1867.
Passando á disponibilidade, esteve alguns anos afastado da carreira diplomatica, a que voltou por decreto de 27 de Setembro de 1886, que o nomeou ministro plenipotenciario para Madrid, lugar que não chegou a exercer, sendo, por decreto de 30 do mesmo mes e ano, transferido para o cargo de director da direcção politica no Ministerio dos Negocios Estrangeiros, e pelo decreto de 17 de Novembro de 1891, nomeado director geral dos negocios politicos e diplomaticos no mesmo ministerio, de que pediu a demissão, dizendo o respectivo decreto que servira com muito zêlo e muita inteligencia.
Por decreto de 6 de Setembro de 1894 foi nomeado ministro plenipotenciario para a Russia, tomando posse dêste lugar a 10 de Novembro do mesmo ano, e ali se conservou quasi até a data do seu falecimento.
Como diplomata, desempenhou algumas importantes e espinhosas comissões de serviço, que lhe mereceram especiais elogios e varias mercês honorificas, devendo mencionar-se os trabalhos da convenção relativa à contenda de Moura, pelo que foi agraciado com a grã-cruz de Carlos 3.°, de Espanha. Em 1900 foi um dos representantes do nosso país na celebre conferencia da Haia.
Na sua longa carreira como funcionario do Ministerio dos Negocios Estrangeiros, deu sempre provas eloquentes da robustez da sua inteligencia, da sua grande ilustração e das raras qualidades de diplomata que o distinguiam e o tornavam um verdadeiro homem de estado, sendo por isso considerado como um dos mais acreditados membros do corpo diplomatico português.
Também trilhou as tortuosas veredas da politica portuguesa. Saiu, porém, incólume e sem mancha dêsse tremedal, em que tantos chafurdam a pureza das suas convicções e até a propria dignidade. Foi eleito deputado pela Madeira para as legislaturas de 1868 a 1869, 1869 a 1870, 1870 a 1871 e 1871 a 1874, sendo por carta regia de 16 de Maio dêste ultimo ano nomeado par do reino. Distinguiu-se em ambas as camaras como parlamentar de grandes meritos, assinalando-se sempre nos seus discursos pela mais perfeita urbanidade, de par com uma notavel correcção de forma. Não era, sem duvida, um tribuno que arrebatasse os ouvintes em catadupas de eloquencia, mas um orador fluente, correcto e conhecedor dos assuntos que discutia, sendo a sua palavra sempre escutada com a maior atenção por tôda a camara. Entre os discursos que proferiu em ambas as casas do parlamento, alguns se contam como notaveis, devendo especializar-se os que pronunciou acerca do padroado da India e missões ultramarinas.
Foi, como dissemos, um apaixonado cultor das ciencias e das letras, sendo na verdade o seu mais constante empenho enriquecer o seu espirito com novos conhecimentos, hauridos quotidianamente em largos estudos e demoradas leituras. Tendo uma brilhante inteligencia, servida por uma assombrosa memoria, possuía uma não vulgar erudição sôbre todos os ramos do saber humano, para o que não pouco contribuia o conhecimento de varias linguas em que era versado, incluindo a propria lingua latina.
Deu-nos, como literato, provas incontestaveis do seu valor nos escritos que deixou, mostrando que poderia ter alcançado um nome honroso na historia do seu país, se de todo se houvera dedicado á carreira das letras.
A obra prima de Goethe, a famosa tragedia o Fausto, era pouco menos do que desconhecida entre nós. O conselheiro Agostinho de Ornelas abalançara-se á arriscada emprêsa de trasladar em vernaculo o mais admiravel produto da literatura alemã. Arduo e dificil trabalho era esse para o nosso ilustre biografado, que, não sendo um poeta, quis traduzir em verso português a obra genial do maior poeta da Alemanha. A versão ressentiu-se dessa circunstancia, e força é confessar que a forma poetica nem sempre saíu isenta de imperfeições. Muitas vezes essas imperfeições obedecem ao desejo, elevado até ao mais apurado escrupulo, de traduzir fielmente o pensamento de Goethe, embora com evidente sacrificio da forma. A tradução de Antonio Feliciano de Castilho, que apareceu mais tarde, é sem duvida correctissima e ornada de verdadeiras galas poeticas, mas feita sobre uma imperfeita versão francesa e com os arrojos e liberdades do seu estro de primorosissimo poeta, distancia-se com alguma frequencia do original alemão, parecendo, ás vezes, antes uma paráfrase do que uma verdadeira tradução. Não faltam criticos que prefiram a versão do conselheiro Ornelas á de Castilho, por ser feita sôbre o original alemão e com um inexcedivel escrupulo de fidelidade. E' sem duvida, e apesar dos seus defeitos, um trabalho de valor, que muito abona os seus meritos literarios.
Em 1884, publicou-se no Pôrto um grosso volume intitulado Obras de D. Ayres de Ornelas de Vasconcellos, que contém os diversos escritos do antigo e inolvidavel bispo desta diocese, que era irmão do conselheiro Agostinho de Ornelas. Esses belos escritos vêm precedidos de uma larga e primorosa biografia do ilustre prelado, que ocupa perto de 200 paginas do livro, e que, no dizer dum distinto escritor e abalizado lente da Universidade, foi escrita com pena de ouro. Traçou essa biografia, verdadeiro modêlo de linguagem e que tem um acentuado sabor classico, o conselheiro Agostinho de Ornelas.
Em 1892, por ocasião do centenario de Colombo, publicou uma interessante Memoria sobre a residencia de Christovam Colombo na Ilha da Madeira, que foi incluída no volume Memorias, que a Academia Real das Ciencias de Lisboa fêz publicar para celebrar aquêle centenario.
Por todos êsses titulos, foi eleito membro daquela Academia, tendo sido um dos socios por ela nomeados para organizar a publicação das citadas Memorias.
Era também membro de outras sociedades cientificas e literarias, tanto nacionais como estrangeiras.
Desempenhou distintamente diversas comissões de serviço publico de alta importancia, como a de representar Portugal nas festas do centenario de Colombo em Madrid, e de delegado do nosso país na celebre conferencia da Haia, realizada em 1898.
Tinha, entre outras, as seguintes condecorações: as grã-cruzes de Carlos 3.°, de Espanha, de S. Gregório Magno, de Roma, da Coroa e de S. Estanislau, da Prussia, grande oficial da Legião de Honra, comendador e cavaleiro de S. Tiago, comendador da ordem de Alberto o Valoroso, da Saxonia, da Aguia Vermelha, da Prussia, da Imperial Ordem da Rosa, do Brasil, etc..
Morreu a 6 de Setembro de 1901 em Niedervalluf, Alemanha, quando
exercia o importante cargo de ministro plenipotenciario de Portugal
na Russia.