Ocupaçao da Madeira pelas Tropas Miguelistas. Como se sabe, D. Miguel, regente do reino, dissolveu as cortes e reuniu os três estados a 3 de Maio de 1828, proclamando-se rei absoluto. A 12 do mesmo mês, chegou á Madeira a noticia dêstes acontecimentos e logo o governador e capitão-general José Lucio Travassos Valdês se preparou para a resistencia e para conservar-se fiel aos principios consignados na Carta Constitucional, doada por D. Pedro IV.

No dia 25 de Junho de 1828, apareceu em frente do nosso pôrto a fragata portuguesa Principe Real, trazendo o novo governador miguelista José Maria Monteiro e um corregedor para esta comarca, munidos de poderes discricionários. A bordo da fragata achava-se o vice-almirante Prego, que se dirigia para os Açôres como governador e capitão-general daquelas ilhas.

José Lucio Travassos Valdês enviou um emissário ao comandante do navio de guerra miguelista, dando-lhe conhecimento do estado dos espiritos neste arquipélago e da resistencia que oporia ao desembarque do novo governador, e intimidando-lhe ao mesmo tempo a saida imediata das aguas da Madeira.

No dia 27 desapareceu a fragata, mas no dia 28 surgiram na nossa baía uma corveta e um brigue, do govêrno usurpador, e, pela comunicação feita ao consul ingles Henrique Veitch, se soube que os absolutistas estavam no propósito de manter o bloqueio em todo o arquipélago, contra o que o consul imediatamente protestou em nome do seu govêrno.

A atitude energica e resoluta do governador e capitão-general Travassos Valdês obstou ao desembarque das fôrças miguelistas, tendo a esquadra abandonado as aguas da Madeira, sem ter realizado os intuitos de conquista que animavam o seu comandante.

A 16 de Agôsto de 1828, apareceu de novo em frente da baía do Funchal a esquadra realista, que se compunha de uma nau, duas fragatas, duas corvetas, dois brigues e duas charruas. Vinha comandada pelo vice-almirante Henrique da Fonseca Prego e trazia a seu bordo, além das equipagens, cerca de mil homens comandados pelo coronel José Antonio de Azevedo e Lemos.

Ao alvorecer do dia 22 de Agôsto, tomava a esquadra o rumo da baía de Machico, e às 11 horas da manhã o brigue Infante D. Sebastião rompia o fogo contra o forte do Ancoradouro, e em seguida contra a bataria do Amparo, que ofereceram uma fraca e pouco demorada resistencia, tendo as respectivas guarnições fugido desordenadamente quasi aos primeiros tiros dados pela esquadra inimiga. Realizou-se em seguida o desembarque das tropas miguelistas «sem a menor resistencia e com toda a comodidade», segundo o insuspeito testemunho dum contemporaneo dos acontecimentos.

José Lucio Travassos Valdês, que era sem duvida um bravo e tinha qualidades de estrategico, de que deu tão eloquentes provas nas campanhas da liberdade, tinha preparado a defesa da Madeira, mas dispunha de fracos elementos para isso, não só pelo numero e aptidões dos oficiais mas ainda pelos mal disciplinados e bisonhos soldados milicianos que compunham a guarnição do arquipélago. É certo que poucos dias antes tinham vindo de Inglaterra alguns oficiais nossos compatriotas, mas chegaram já tarde e só se podia contar com o seu valor e competencia militar, o que não bastava para a organização duma defesa que tinha de ser energica e talvez demorada, em atenção ao numero e qualidade dos atacantes. Travassos Valdês organizou alguns nucleos de resistencia desde Machico até ao Funchal, especialmente no Seixo, em Santa Cruz, no Pôrto Novo e Palheiro do Ferreiro, que tinham como comandante o tenente-coronel Schwalback. No Seixo, estavam 200 homens comandados pelo capitão Brito, que, ao aproximar-se o inimigo foi o primeiro a fugir, seguindo-lhe o exemplo tôda a fôrça militar que ali se encontrava. Schwalback, á vista dêstes sucessivos desastres e reconhecendo a inutilidade da resistencia que preparara em Santa Cruz, resolveu concentrar as suas fôrças no forte do Pôrto Novo que estava bem artilhado, e aí, dominando as íngremes ladeiras que o inimigo forçosamente teria que subir, poderia causar grandes perdas nas tropas realistas e obrigá-las até a retroceder.

Quando Schwalback ordenava naquele excelente ponto estratégico os elementos de resistencia que tinha á sua disposição e de outros que vinham chegando do Funchal, deu-se uma explosão nas munições, de que resultou ficar gravemente ferido aquêle oficial e outras praças da guarnição. Os soldados abandonaram então o forte em precipitada fuga e Schwalback dificilmente conseguiu reunir alguns homens que o conduzissem ao Funchal.

Travassos Valdês saindo da cidade em reforço da guarnição do Pôrto Novo, encontrou Schwalbach na estrada do Caniço, ferido e em direcção ao Funchal, e pôde então reconhecer que tudo estava perdido, sendo inutil qualquer resistencia e restando apenas poupar a vida aos seus soldados e subtrair a população ás represalias das tropas miguelistas.

O governador e capitão-general José Lúcio Travassos Valdês, que tanto se distinguiu nas lutas da liberdade e também na politica, com o nome de Conde de Bonfim, acolheu-se á protecção da Inglaterra, refugiando-se a bordo da corveta de guerra Alligator (V. êste nome, vol. I, pag. 46) na tarde do dia 22 de Agôsto, e seguindo poucos dias depois para Londres com outros emigrados.

As tropas realistas, pela manhã do dia 23 de Agôsto, sairam de Santa Cruz em direcção ao Funchal, não encontrando a mais pequena resistencia, e entraram na cidade na tarde daquele mesmo dia.

José Maria Monteiro (V. êste nome, vol. II, pag. 390), o novo governador miguelista, desembarcou no dia 24 de Agôsto e nesse dia tomou posse do seu novo cargo.