Ocupação da Madeira por Tropas Inglêsas. Os medianamente versados em cousas históricas madeirenses sabem que foi esta ilha duas vezes ocupada por tropas inglêsas, sendo a primeira de Julho de 1801 a Janeiro de 1802 e a segunda de Dezembro de 1807 a Outubro de 1814.
Ninguém ignora que a aliança inglêsa nos lançou nos azares das guerras napoleonicas, sem que da nossa comparticipação nas campanhas contra a França adviesse a mais insignificante vantagem para o nosso país, que nem sequer teve representação no Congresso de Viena, ao tratar-se das condições da paz. Entre os vexames que então sofremos, conta-se o da primeira ocupação da Madeira, feita a titulo de protecção e de defesa, mas que de facto correspondeu a uma verdadeira conquista, como claramente se vê dos documentos da epoca e que não deixam a menor duvida acêrca dos designios que presidiram a essa ocupação.
Na manhã do dia 24 de Julho de 1801, surgiu no pôrto do Funchal uma esquadrilha inglêsa composta da nau de linha Argo, da fragata Carrysfort, do bergantim Falcon e de mais cinco navios transportes, sendo comandada pelo comodoro Bowen e trazendo a seu bordo cêrca de 3.500 soldados e oficiais, que vinham sob o comando do coronel Henry Cliton. Desembarcaram imediatamente alguns oficiais e depois duma rapida conferencia com o consul ingles José Pringle, logo êste se dirigiu ao Governador e Capitão-General D. José Manuel da Camara, comunicando-lhe as ordens que recebera dos comandantes das forças britanicas, cuja vinda à Madeira tinha o único intuito de a proteger e defender dum suposto assalto dos navios franceses.
A surpresa do Governador não podia ser maior. Não só achava desnecessaria a chegada da esquadra e a permanencia das tropas entre nós, como ainda desconhecia por completo a sua vinda, causando o facto a maior indignação em tôda a ilha. D. José Manuel da Camara acatou no entretanto as ordens transmitidas pelo consul inglês, pois se convenceu de que a menor resistencia da sua parte implicaria o imediato bombardeamento da cidade. Tudo isso se deduz claramente da exposição feita por D. José Manuel ao govêrno central.
Não foi menor a surpreza do govêrno do Principe Regente. Deu êste ao nosso representante em Londres as necessarias instruções para protestar energicamente junto do govêrno inglês contra a ocupação da Madeira, exigindo a imediata retirada das tropas, sobretudo depois que Napoleão tomara uma atitude mais benevola a respeito dos negocios de Portugal.
Enquanto decorriam vagarosamente as negociações em Londres, foi o coronel Cliton procurando uma mais apropriada e confortavel acomodação para as suas tropas, que ao principio se espalharam pelas diversas fortalezas e depois ocuparam o colegio dos Jesuítas, então servindo de seminario diocesano, e ainda algumas casas particulares, donde foram desalojados os seus proprietarios e moradores. Não se esqueceu de interferir abusivamente no governo e administração locais, vexando os habitantes desta ilha com medidas violentas, em que revelava a verdadeira tirania dos dominadores intrusos.
Depois de assinados os preliminares da paz de Amiens, a 1 de Outubro de 1801, o nosso representante em Londres novamente e com mais energia insistiu pela evacuação das fôrças inglêsas da Madeira, mas só no começo do ano de 1802 é que o govêrno britanico ordenou ao coronel Cliton a sua retirada desta ilha, realizando-se o embarque das tropas a 25 de Janeiro de 1802.
Sete anos depois, foi esta ilha novamente ocupada por tropas britanicas, sendo desta vez mais completo e mais absoluto o dominio que aqui exerceram os ocupadores. Não pode restar duvida de que a Inglaterra procedeu á posse definitiva do arquipélago sendo bastante para admirar como a nossa habil diplomacia conseguiu com os esforços empregados em Londres e noutros centros europeus, restituir a Madeira á posse dos portugueses.
No dia 24 de Dezembro de 1807, ancorou no pôrto do Funchal uma esquadra inglêsa, composta de quatro naus, quatro fragatas e dezasseis navios transportes, sob o comando do almirante Samuel Hood, conduzindo dois regimentos de infantaria de mil soldados cada um e duas companhias de artilharia, vindo as tropas comandadas pelo major-general Guilherme Carr Beresford.
Efectuado o desembarque das fôrças militares, logo o general britanico se apressou a comunicar ao governador e capitão-general da Madeira, Pedro Fagundes Bacelar de Antas e Meneses, que fizesse a imediata entrega dêste arquipelago, ao que o mesmo governador prontamente acedeu, na impossibilidade de qualquer resistencia, tratando-se sem demora da capitulação, que no seu primeiro artigo consignava a cláusula de que «a ilha da Madeira e suas dependencias serão entregues aos comandantes das fôrças de sua magestade britanica para serem conservadas e governadas por sua dita magestade com os mesmos direitos, privilégios e jurisdições com que até agora as gozou a coroa de Portugal.» Este auto de capitulação, que se compõe de 7 artigos, foi assinado no dia 26 de Dezembro por Pedro Fagundes e Beresford, tendo êste ultimo no dia 30 do mesmo mês dirigido uma proclamação aos habitantes desta ilha, que vem transcrita nas Saudades da Terra e que é por muitos titulos um documento interessantissimo.
A ocupação foi desta vez mais completa e absoluta do que a primeira, e causou no Rio de Janeiro, para onde a corte se havia transferido pouco antes, e na nossa legação em Londres, uma grande e dolorosa surpreza, tratando-se logo pelos meios diplomaticos de obter uma possivel reparação dos males que á Madeira causara aquela ocupação. Domingos Antonio de Sousa Coutinho, depois conde do Funchal e nosso representante em Londres, homem de talento e de energia, empregou os mais diligentes esforços para a reentrega desta ilha e, depois duma luta porfiosa, conseguiu que tôda a administração civil voltasse a ser exercida pelo govêrno português e que o major-general Beresford ficasse com a superintendencia em todos os assuntos militares ou que com êles directamente se relacionassem.
O governador Pedro Fagundes retomou o seu cargo de governador em fins de Abril de 1808 e ocupou de novo o palacio de S. Lourenço, de que havia sido despojado, mas de facto continuou a ocupação inglêsa, embora atenuada pelas negociações diplomaticas realizadas pelo distinto representante de Portugal em Londres e consignadas na convenção de 16 de Março de 1808.
A 17 de Agôsto de 1808, saíu para Lisboa, comandada por Beresford, metade das tropas inglêsas aqui estacionadas, isto é um batalhão de infantaria e uma companhia de artilharia, vindo o coronel Mead comandar as fôrças britanicas que continuaram a permanecer no Funchal. Em Julho de 1812, foi o coronel Mead substituido pelo major-general Gordon, que aqui permaneceu no comando das forças britanicas até que estas sairam da Madeira no dia 3 de Outubro de 1814.
Durante estes sete anos de ocupação estrangeira, deram-se vários conflitos entre as autoridades superiores do arquipélago e os comandantes das fôrças inglêsas, determinados pela invasão que estes faziam das atribuições que exclusivamente pertenciam aos governadores e capitães-generais. Entre êsses conflitos, destaca-se o que foi provocado pela manifesta violação do nosso direito de soberania, em que o general Bereford fêz enforcar nos limites do nosso territorio um soldado inglês que matara um seu compatriota.
Ainda depois de terminada a guerra europeia, continuaram na Madeira as tropas inglêsas, contra a letra expressa dos tratados e das promessas solenemente feitas ao nosso embaixador em Londres, até que á fôrça de reiteradas instancias do govêrno português, embarcaram elas no Funchal, no dia 3 de Outubro de 1814, com destino a Inglaterra, sob o comando do major general Gordon, como acima fica referido.
Como devida homenagem à memoria dêste ilustre diplomata, foi dado o seu nome a uma das novas ruas da cidade do Funchal.
Vid. Funchal (Marques do).