Observações Fenológicas-A pag. 15 do volume II desta obra e sob o titulo «Fenologia», faz-se menção de alguns artigos referentes a êste assunto, devidos à pena do distinto botanico Carlos Azevedo de Meneses, dos quais se transcreve um deles, publicado na antiga revista Portugal Agricola, que foi julgado util para ficar trasladado nestas paginas.
«O pouco que se sabe ácerca da phenologia da Madeira deve-se ás observações do dr. Heer, realisadas em 1850 e 1851, e ás que desde 1902 vimos fazendo n'esta ilha. As observações referentes ao periodo decorrido desde septembro de 1902 a principios d'abril de 1805 foram publicadas n'uma revista botanica franceza hoje limita-se a nossa tarefa a apresentar os dados colhidos posteriormente a esta ultima data, isto com o fim de lançar mais alguma luz sobre o comportamento phenologico de varias essencias introduzidas na ilha e que se desenvolvem bem sob o nosso clima.
Das quatro especies mencionadas nas Instruções de Hoffmann-Inne, sòmente o carvalho (Quercus pedunculata) é frequente no Funchal e arredores, distinguindo-se de todas as outras essencias que temos tido ensejo de observar, pela precocidade verdadeiramente extraordinaria da sua folheação.
Dos muitos carvalhos plantados na margem esquerda da ribeira de S. João, dois desabrolharam a 3 de dezembro de 1905; a 23 do mesmo mez, dois terços d'esses carvalhos tinham folhas novas, achando-se muitos d'elles já regularmente folheados. Em fins de janeiro do anno seguinte todos os exemplares cultivados no Funchal tinham folhas, mas sómente se tornaram completamente verdes na primeira quinzena de março.
As primeiras folhas amarellas vimol-as a 16 de setembro. As folhas, depois de amarellas, persistem nas arvores e só cahem muito tarde, quando a folheação vae já adiantada.
Na freguesia do Monte, que fica na altitude de 600 metros, a folheação dos carvalhos só principiou a 15 de janeiro, isto é, 43 dias mais tarde que no Funchal.
Do castanheiro da India (A Esculus Hippocastanum), tambem mencionado nas Instrucções de Hoffmann-Ihne, só pudemos observar dois individuos plantados no Funchal. O descoramento das folhas manifestou-se a 03 de setembro e as primeiras folhas novas appareceram a 12 de março. As flôres começaram a apparecer nos primeiros oito dias d'abril.
No Platanus occidentalis, na Vitis vinifera e na M. Labrusca o descoramento das folhas manifestou-se respectivamente a 14, 15 e 21 de setembro, tendo logar o desabrolhamento a 24, 22 e 20 de fevereiro do corrente anno. A folheação dos platanos começou na freguezia do Monte a 6 de março, isto é, 12 dias mais tarde que no Funchal.
As folhas dos platanos tambem se conservavam por largo tempo nas arvores depois de amarellecerem, mas cahem sempre antes do inicio da nova folheação.
Na Robinia Pseudo acacia o descoramento das folhas começou a 15 d'outubro, na Tilia argentea a 18 do mesmo mez e na Ficus Carica a 2 de novembro; a folheação d'estas mesmas arvores começou respectivamente a 27 de janeiro, 12 de março e 24 de janeiro. Todas estas observações se referem ao Funchal; no Monte o desabrolhamento das especies mencionadas deu-se a 19 de fevereiro, 19 de março e entre 21 e 25 de fevereiro.
Nas anoneiras (Anona cherimolia) do Funchal, as primeiras folhas amarellas appareceram a 14 de fevereiro do corrente anno e as primeiras folhas novas a 9 d'abril. Nos castanheiros do Monte deu-se o desabrolhamento a 20 de abril e nas nogueiras entre 30 de abril e 5 de maio.
Não nos foi possivel colher dados precisos ácerca da epocha do descoramento das folhas das arvores nos arredores do Funchal, mas mais d'uma vez temos notado que esse descoramento é tanto mais tardio quanto mais elevado é o ponto onde estão as mesmas arvores.
Do que fica enunciado, vê-se, pois, que a duração do repouso vegetativo no periodo a que se referem as nossas últimas observações foi de 163 dias para o platano, de 160 para a vinha, de 152 para a vinha Labrusca, de 170 para o castanheiro da India, de 78 para o carvalho, de 104 para a robinia, de 145 para a tilia, de 83 para a figueira e de 54 para a anoneira. No periodo decorrido desde 1903 a 1905, achamos os seguintes numeros medios representativos do repouso hibernal das mesmas especies: platano 168 dias, vinha 162, vinha Labrusca 156, castanheiro da India 192, carvalho 123, robinia 112, tilia 166, figueira 125 e anoneira 50.
Segundo as notas phenologicas publicadas pelo sr. Adolpho Frederico Moller no Boletim da Sociedade Broteriana, a duração média do repouso vegetativo em Coimbra, no periodo decorrido desde os fins de 1903 a principios de 1905, foi de 140 dias para o platano, de 154 para a vinha, de 136 para o castanheiro da India, de 154 para o carvalho, de 146 para a robinia e de 156 para a tilia. Cotejando estes numeros com alguns dos anteriores, chega-se á conclusão que a robinia e o carvalho repousam em Coimbra mais tempo que no Funchal, ao passo que nas outras especies se dá o caso inverso.
Poderá causar surpreza à primeira vista que certas essencias na latitude da Madeira tenham um repouso mais prolongado e por consequencia periodos mais curtos de actividade vegetativa do que em paizes mais septentrionaes, mas o caso, além de nada offerecer de anormal, explica-se facilmente, como vamos vêr.
Em primeiro logar, a distribuição das aguas meteoricas não se faz em Coimbra do mesmo modo que no Funchal; emquanto n'aquella cidade se registam em média, durante os mezes de verão, 79 milimetros de chuva, no Funchal registam-se apenas 16,9. A quantidade média da chuva accusada pelo udometro do observatorio de Coimbra no mez de julho é de 19,4 e no mez de agosto de 15,3 milimetros, emquanto no Funchal é ella respectivamente de 1,1 e 2,4 milimetros. N'aquella cidade do continente ha durante os mezes de verão 21,5 dias de chuva, no Funchal, apenas 4,2.
Sendo portanto, as estiagens prolongadas durante a estação mais quente do anno uma das caracteristicas do clima do Funchal e devendo resultar d'ahi uma suspensão antecipada na actividade vital das plantas, é claro que o descoramento das folhas se deve dar entre nós primeiro do que em Coimbra, e tanto mais cedo quanto mais sensiveis forem as arvores á acção da secca.
Eis indicada uma das causas dos longos periodos de repouso assignalados na Madeira; a outra causa está na particularidade que offerecem certas arvores cultivadas entre nós de só principiarem a desabrolhar depois de haverem recebido uma somma de temperatura bastante superior á que as faz entrar em vegetação nos paizes d'onde são originarias.
Mas não é em todas as essencias que se observa este desabrolhamento tardio, no qual A. de Candolle queria ver uma adaptação das arvores ao clima, e A. Grisebach uma sobrevivencia de habitos inveterados na especie. O carvalho, por exemplo, parece constituir uma excepção à regra, excepção tanto mais para surprehender quanto é certo que ella se dá tambem nas altitudes médias da ilha.
Convem advertir no entretanto que se o desabrolhamento do carvalho começa extraordinariamente cedo na Madeira, a folheação geral só se completa depois de decorrido um praso bastante longo, como mostrámos no principio d'este artigo. Parece indicar isto uma certa tendencia na especie, motivada por habitos hereditarios, para resistir á influencia das temperaturas normaes de folheação.
Do mez de setembro em diante é frequente apparecerem tanto nos troncos dos carvalhos como nas varas da vinha, muitos renovos antecipados. Como estes renovos não são acompanhados do intumescimento geral dos gommos, é preciso não os tomar pelo inicio da nova folheação.
Confrontando os dados colhidos desde 1903 a 1905 com os provenientes das nossas observações de 1905 a 1906, nota-se que n'este ultimo periodo muitas arvores desabrolharam no Funchal consideravelmente mais cedo, sendo a antecipação maior no carvalho que nas outras especies. Como a humidade é um dos factores da periodicidade e as precipitações atmosphericas foram abundantissimas nos ultimos mezes de 1905, ao contrario do que succedera nos annos anteriores, é de presumir que esta fosse a causa das mesmas arvores entrarem mais cedo em vegetação.»
A revista botanica a que acima se faz referencia é o «Bulletin
de l'Academie Intern. de Geogr. Botanique du Mans» n°s
189 e 190 de 1905.