TÍTULO: DO ÉDEN À ARCA DE NOÉ. O MADEIRENSE E O QUADRO NATURAL
AUTOR: ALBERTO VIEIRA
PREÇO DE VENDA AO PÚBLICO: 2.500$00
O livro que se publica é a primeira reflexão e o partilhar de um conjunto de fontes que consideramos fundamentais para o estudo da História Agrária, da Floresta e, por fim da Eco-História. No último dia a minha intervenção primou pela brevidade mas hoje vou fugir a esta opção para que a minha brevidade não seja entendida por alguns como sinónimo de ignorância e falta de leitura do livro.
O título define de forma clara o objectivo e o conteúdo deste ambicioso projecto. Estamos perante duas expressões bíblicas, muito queridas dos ambientalistas da História e pretendem testemunhar o papel da ilha. Primeiro foi a prefiguração do Éden. Aliás, a imagem de éden é sinónimo de ilha. Depois as funções face às transmutações da bio diversidade atlântica e europeia funcionou como trampolim de divulgação das espécies da fauna e flora nos dois sentidos. Foi a barca de Zarco que trouxe à ilha o que restou da Arca de Noé!
O presente volume enquadra-se numa trilogia que corporiza um projecto de investigação sobre o mesmo tema. A documentação e textos de maior evidência antecedem a edição de dois estudos monográficos a publicar nos próximos anos: A História Ecológica da Madeira, A Madeira e a História da Ciência nos séculos XVIII e XIX.
Desde 1977 que me dedico aos estudos de História Económica da Madeira dando especial destaque como todos aos produtos dominantes e afirmando que a História da Madeira deve ser reescrita e vista de forma diversa. Para isso torna-se necessária uma nova postura por parte do historiador: em primeiro lugar uma maior atenção às fontes não oficiais que nos permitirão a viragem. A documentação oficial diz-nos apenas das intenções. As ordens do Infante ou senhores da ilha não significam o seu cumprimento, mas apenas isso. Senão como entender a repetitiva recomendação do mesmo. A isto há que juntar a intervenção no terreno. Por exemplo, a partir do século XVII pode-se acompanhar a dos corregedores através das correições municipais, onde é evidente a apatia das autoridades locais face às insistentes determinações no que concerne à floresta. De que servirão as posturas e pesadas coimas aos infractores se não há ninguém para as aplicar. Por outro lado será de esperar de alguém com interesses económicos nesta situação anómala o cumprimento contra os próprios interesses?
Subjacente à defesa da floresta e ao debate nas vereações dos diversos municípios da ilha está a divergência de interesses dos participantes. A situação torna-se evidente, por exemplo, nos municípios do Funchal e Machico. Dum lado a aristocracia terra tenente ligada à industria açucareira e tentar impor os seus interesses, do outro os semelhantes do "verde". Perante isto o debate de tudo o que se relaciona com a defesa da floresta, da arborização, de proibição das queimadas tem que ter em conta os interesses obscuros dos protagonistas.
A Eco-História é um dos possíveis caminhos para desvendar a situação. Dela recebemos o ensinamento para a valorização de fontes e informações que raras vezes merecem a atenção do historiador de História Económica. Esta mudança ocorre não só no apelo a uma diversidade de fontes (literárias, pictoricas e fotográficas) como na forma de ver e expressar a realidade económica. Deste modo são indispensáveis a reconstituição das paisagens históricas da ilha e a definição dos espaços. A partir dos testemunhos literários, cartográficos, pictóricos, toponímicos e arqueológicos é possível reconstituir a paisagem histórica de um espaço.
A Arqueologia será para nós o campo menos rico mercê da forma de ocupação intensiva e extensiva a que a ilha foi alvo nos últimos cinco séculos mas o mesmo já não se poderá dizer do inovador campo que é a toponímia, da literatura de viagens, da inúmera cartografia e gravuras feitas por uma pleiade de artistas nacionais e estrangeiros. Neste caso particular merece destaque a obra de Gaspar Frutuoso, escrita em finais do século XVI. A partir daí é possível conhecer a forma como o espaço era explorado em termos agrícolas e valorizado pelo ilhéu. A paisagem é afirmativamente uma paisagem de policultivo: searas, canaviais, vinha, árvores de fruto e a floresta exótica. Para os séculos XVII-XIX segundo momento de plena afirmação da ilha no espaço Atlântico novas fontes permitem recriar outra realidade. São os relatórios especializados dos cientistas que passaram pelo Funchal, os testemunhos da literatura de viagem, os percursos definidos nos roteiros e guias turísticos ingleses e, acima de tudo, as gravuras.
Hoje dispomos de uma rica colecção das últimas, com maior frequência para o século XIX, que permitem reconstituir a volumetria e biodiversidade dos espaços e ao mesmo tempo acompanhar a evolução até a actualidade. Aqui, mais do que noutros campos, é necessário ter em conta alguns cuidados. A leitura destas fontes deve ser cuidada e acompanhada de uma critica interna. Serão, estas representações o registo fotográfico fixado na retina do observador ou ao invés uma recriação? Em muitos casos nota-se a busca de dados isolados de outras gravuras, que circulavam com abundância na época, para compor o ambiente dando-lhe o tom pitoresco.
A par das gravuras é de assinar o aparecimento da fotografia que tem na Madeira uma história muito antiga Aqui o registo fotográfico de paisagem é também de grande utilidade, só suplantado pelo postal ilustrado. Ele define uma forma de ver e valorizar o quadro natural que tende a universalizar-se mercê da elevada circulação. O postal ilustrado padroniza as visões do quadro natural, estabelecendo diversas leituras: as árvores milenares, as vistas panorâmicas dominadas pelo agreste ou firme presença da marca do homem, os produtos agrícolas a simbolizar a riqueza variada. A charola é a evidencia deste mundo tão rico e variado. O bilhete postal, tal como antes sucedera com a gravura, tem o condão de definir de forma quase estanque uma geografia do lazer, contemplação e de apropriação económica do espaço natural.
O método a seguir será a reconstituição das diversas paisagens históricas da ilha a partir do século XV. A paisagem é também documento histórico. A descoberta faz-se a partir da observação directa, da imagem, seja fotográfica ou gravura, das descrições de viagem, da toponímia. A paisagem é sem dúvida um desafio às capacidades do homem na incessante iniciativa empreendedora de fazer corresponder o espaço às exigências da pressão demográfica e do mercado envolvente da ilha, seja a Europa ou o novo mundo. A paisagem de princípios do século XV é da floresta mas, a ferro e fogo, foi paulatinamente desaparecendo para dar lugar à hegemonia do Homem. Em meados da centúria deu lugar à hegemonia e contraste do verde dos canaviais e ocre da terra.
A sinfonia da cor, ou o arco-íris recriado surge apenas a partir do século XVII com a vinha. A paisagem deixa de ser igual ao longo do ano estando sujeita às transformações provocadas pelo ciclo vegetativo da videira. O verde do Verão dá lugar ao vermelho do Outono que depois se transforma no melancólico colorido da terra e dos troncos das parreiras. Esta paisagem perdura a monotonia do ciclo evolutivo e ganha nova vida e variadas formas e cor. A vinha é companheira de outras culturas agrícolas alimentares (leguminosas, tubérculos) e algumas árvores de fruto, como a bananeira, que eram apenas ornamento de jardim passar a reafirmar a monotonia do verde.
Os séculos XVIII e XIX são os momentos privilegiados de descoberta do quadro natural. A partir de então a floresta ganhou uma nova dimensão na sociedade e economia da ilha. E, a pouco e pouco, o homem que até então dominava a floresta deixa-se dominar e fascinar por esta. A floresta será então um espaço económico, lúdico e científico. O confronto fruto da divergência de interesses fruto destas três realidades torna-se evidente. Aos criadores de gado e carvoeiros opor-se-ão os cientistas e ilustres visitantes. Paulatinamente os primeiros perdem o domínio da floresta. A construção das casas de abrigo com o governador José Silvestres Ribeiro, o delinear dos circuitos pedestres e a cavalo são as evidências da mudança. Ao mesmo tempo descobre-se a encosta norte e a imagem que fica da ilha é a dela agora apropriada pelo homem como espaço de contemplação. As gravuras relevam-nos esta realidade. Nas panorâmicas da ilha prefigura-se quase sempre dois tipos de atitude enquanto o vilão madeirense descansa depois de uma dura caminhada, transportando em rede o visitante, este por sua vez extasia-se com a paisagem, surgindo de pé em posição contemplativa.
A partir do século XIX fica bem definida a cartografia dos espaços: o espaço económico, o espaço de lazer e contemplação. Os testemunhos literários, nomeadamente as impressões de viagens, são denunciadores disso e dum conflito de interesses entre os protagonistas. O cientista e visitante declara guerra ao criador de gado e carvoeiro, sendo secundado pelas autoridades locais. Os espaços de lazer e contemplação tornam-se incompatíveis com os económicos.
Também o contraste entre a hegemonia do verde da encosta norte com o deserto das encostas sobranceiras à cidade começa a perder sentido com os planos de arborização ou as tentativas de recriação da harmonia do mundo vegetal com o humano. A quinta, uma criação madeirense apropriada pelos ingleses a partir do século XVIII para morada e acolhimento de compatrícios, é a expressão disso. Aqui a monotonia das espécies arbóreas indígenas é quebrada pela variedade e colorido das espécies exóticas. Os jardins passam a dominar o recinto em volta da casa de habitação, fazendo convergir parte do imprescindível convívio com o mundo vegetal. É um novo desafio lançado pela cultura do lazer e da ciência que acaba por fazer com que a paisagem humanizada seja mais harmónica.
O mundo vegetal deixa de ser considerado apenas como fonte de meio apropriação económica para se transformar também em espaço de deleite. As casas de abrigo e as quintas são a emblemática expressão. No primeiro caso releva-se o universo indigena, enquanto no segundo prima-se pela diversidade e exuberância do colorido das flores.
A apropriação da ilha como espaço económico é inegavelmente portuguesa, mas a descoberta da biodiversidade é estrangeira e de modo especial britânica. Este desde muito cedo descobriu-a para deleite e estudo, deixando o vilão absorvido no esforço hercúleo de domar a bravura e violência das encostas. A fruição pelos indígenas desta realidade é lamentavelmente muito tardia.
Tudo isto demonstra que, ontem como hoje, a ilha é um permanente desafio, por vezes divergente, entre os interesses económicos de apropriação do quadro natural e o deleite ou contemplação. No passado foram as exigências da subsistência das populações e solicitações do mercado externo que rivalizaram com o lazer e ciência. Hoje é o próprio turismo a encarnar esta explosiva dicotomia. Encontrar resposta para tudo isto eis princípio que orientou a definição do nosso projecto de investigação de que agora se apresentam os primeiros resultados.