HISTÓRIA DA CANA DE AÇÚCAR E MEIO AMBIENTE

 

Alberto Vieira

"Já afirmou alguém, com muita razão, que o cultivo da cana de açúcar se processa em regime de autofagia: a cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, dissolvendo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual a sua cultura tira toda a vida. E é a pura verdade... Donde a caracterização inconfundível das diferentes áreas geográficas açucareiras, com seu ciclo económico, com as fases de rápida ascensão, de esplendor transitório e de irremediável decadência. Ciclo este que se processa tanto mais rapidamente quanto menores os recursos de terras disponíveis. Daí a semelhança de aspectos entre áreas diferentes como o Haiti, Cuba, Porto Rico, Java e o Nordeste brasileiro".(Josué de Castro, Geografia da Fome, R. Janeiro, 1952, p.73)

 

 

Nos últimos anos a História tem sido enriquecida de novos conteúdos. A Historiografia americana tem permitido esse arejamento temático e metodológico. A história oral, que já aqui referimos, é exemplo disso. A par disso temos ainda outra recente aportação que tanto tem entusiasmado a Historiografia inglesa e norte-americana. Isto é, a História do Meio-ambiente.

O primeiro estudo que apela ao tema surge em 1847. Com o livro "Man and Nature" de George Perkins Marsh, que é considerado um dos percursores da defesa do meio-ambiente. O tema começou a ganhar interesse nos anos cinquenta, mas a actual premência actual dos problemas do meio-ambiente cativou a historiografia que fez deste um dos novos domínios de ponta do conhecimento e investigação histórica. A publicação do livro "The historical roots of our ecologic crises "(1960) de Lynn White Jr., um dos clássicos estudos sobre a História do meio-ambiente, marca o início de uma nova era para a atenção da historiografia norte-americana, que nos últimos anos entrou definitivamente nos curriculos académicos e planos editoriais. Acrescem também as revistas especializadas. Destas salienta-se Forest & Conservation History(1957), hoje Environmental History Review , que se firmou como porta-voz dos historiadores em defesa do meio-ambiente.

 

 

 

Da leitura dos clássicos e da produção recente releva-se uma situação particular que toca de novo o arquipélago da Madeira. A Madeira não se posiciona apenas nos anais da História universal como a primeira área de ocupação atlântica, pioneira na cultura e divulgação do açúcar ao Novo Mundo.

A expansão europeia não se resume apenas ao encontro e desencontro de Culturas, mas também marca o início de um processo de transformação ou degradação do meio-ambiente. O europeu carrega consigo a fauna e flora do seu convívio e com valor económico, que irão provocar profundas mudanças nos novos eco-sistemas. Com isto acontece que o espaço vivido e natureza se universalizam. Nos séculos XV e XVI foram as viagens de descobrimento, enquanto no século XVIII sucederam as de exploração e descoberta da natureza, comandadas por ingleses e franceses.

A Madeira foi o viveiro de aclimatação nos dois sentidos. Da Europa propiciou a transmigração da fauna e flora identificada com a cultura ocidental. No retorno foram as plantas do Novo Mundo que tiveram de novo passagem obrigatória pela ilha. A riqueza botânica do Funchal resulta disso.

O processo de imposição da chamada biota portátil europeia, no dizer de Alfred Crosby, foi responsável por alguns dos primeiros e mais importantes problemas ecológicos . Quem não se lembra da praga dos coelhos do Porto Santo? Que dizer do incêndio que lavrou na ilha durante sete anos ?

Estas situações são assiduamente referenciadas pela actual historiografia norte americana que se dedica ao estudo da História do meio ambiente, sendo o seu ponto de partida e alento para esta incursão temática inovadora.

Outro facto também insistentemente referido é o da própria ilha da Madeira. O nome foi o atributo para referenciar a abundância e aspecto luxuriante do seu bosque. Mas em pouco tempo, as queimadas para abrir clareiras de cultura e habitação, o debaste para fruição das lenhas e madeiras, fizeram-na desmerecer tal epíteto. Da Madeira quase só ficou o nome…!

A tradição refere que os navegadores portugueses atearam um incêndio à densa floresta para poder penetrar, mas este ganhou tais proporções que os atemorizou. Foram sete anos de chama acesa, diz a tradição. Todavia, hoje ninguém acredita nesta versão divulgada por Francisco Alcoforado e repetida em Cadamosto e outros autores da época. Hoje ninguém acredita nesta História, que a ser verdade teria reduzido a ilha a carvão…

Esta situação expressa uma realidade que pautará a expansão europeia e que só nos últimos anos tem cativado a atenção do historiador. Tudo isto tem origem num produto devorador que conquista a economia de mercado e que pautou a evolução da economia atlântica a partir do século XV. O carrasco é o açúcar. A sua disponibilidade só é possível com esse processo de degradação do meio que viu nascer os canaviais.

A Europa parte no século XV à procura do Eden, bíblico ou descrito na literatura clássica greco-romana. Foi este um dos motivos do empenho de Colombo, mas também dos navegadores portugueses. O seu reencontro era encarado como uma conciliação com Deus, o apagar do pecado original de Adão e Eva. Esta imagem persegue quase todos os navegadores quinhentistas e deverá estar por detrás do empenho daquelas que aportaram à Madeira . Tenha-se em conta que as duas primeiras crianças nascidas na ilha, filhas de Gonçalo Aires Ferreira tiveram nomes bíblicos de Adão e Eva. Era o retorno ao Eden, que aos poucos foi sendo perdido, tal como sucedera aos primogénitos Adão e Eva. A recuperação desta imagem acontecerá mais tarde no século XVIII em que a ilha é de novo o paraíso redescoberto para o viajante ou tísico ingleses, recuperado e revelado ao cientista, seja ele inglês, alemão ou francês, através das recolhas ou da recriação através dos jardins botânicos.

 

 

2. A CANA DE AÇÚCAR E O MEIO AMBIENTE

 

"Dificilmente se encontrarão formas de utilização dos recursos dos solos que se possam rivalizar com a agro industria canavieira quanto à capacidade de condicionar um tipo de sociedade e de economia, de modelar um tipo de paisagem e de estruturar um tipo de arranjo económico do espaço".(Mário Lacerda de Melo, O Açúcar e o homem, 1975)

 

 

A cana de açúcar poderá ser considerada como a cultura agrícola mais importante da História da Humanidade, pois provocou o maior fenómeno em termos de mobilidade humana, económica, comercial e ecológica. A sua afirmação como cultura agrícola é milenar e abrange vários quadrantes do planeta. É de todas as plantas domesticadas pelo Homem aquela que acarreta maiores exigências. Ela quase que escraviza o homem, esgota o solo, devora a floresta e dessedenta os cursos de água.

A sua exploração intensiva desde o século XV gerou grandes exigências em termos de mão-de-obra, sendo responsável pela maior fenómeno migratório à escala mundial que teve por palco o Atlântico: a escravatura de milhões de africanos. Ligado a tudo isso está também um conjunto variado de manifestações culturais que vão desde a literatura à musica e à dança.

Foi o Oriente descobriu a doçura, tendo a Papua Nova Guiné como Berço. Os árabes fizeram-no chegar ao ocidente e foram os principais arautos da sua expansão. Genoveses e venezianos encarregaram-se do seu comércio e Europa. Mas é nas ilhas que ela encontrou um dos principais viveiros da sua afirmação e divulgação no Ocidente: Creta e Sicília no Mediterrâneo, Madeira, Açores, Canárias, Cabo Verde e S. Tomé no Atlântico Oriental Puerto Rico, Cuba, Jamaica, Demerara(…) nas Antilhas.

A realidade sócio-económica que serve de suporte ao açúcar diferencia-se no seu percurso do Pacífico/Índico para o Mediterrâneo/Atlântico. Assim, no primeiro caso não assume a posição dominante na economia, primando pelo carácter secundário, enquanto no segundo é patente o seu efeito dominador na economia e sociedade/associação ao escravo, que começa no Mediterrâneo e se reforça no Atlântico.

A cana, tal como afirma Josué de Castro, é autofágica. A realidade histórica dos últimos cinco séculos, em que ela assumiu um estatuto de produção em larga escala, assim o confirma. Aquilo que aconteceu na Madeira dos séculos XV e XVI, repetiu-se nas Canárias, Caraíbas e só não atingiu idênticas proporções no Brasil, porque a mata atlântica era extensa. Mesmo assim aqui os problemas, embora mais tarde, também tiveram lugar. Gilberto Freire afirma que "o canavial desvirginou todo esse mato grosso de modo mais cru pela queimada. A cultura da cana… valorizou o canavial e tornou desprezível a mata".

O processo é simples. Para plantar a cana derruba-se ou queima-se a floresta. Depois para fabricar o açúcar essa floresta faz falta para manter acesa a chama dos engenhos, ou construir estas infra-estruturas. A cana tem na floresta o seu maior amigo e inimigo. Um exemplo apenas evidencia a dimensão que assumiu este processo.

Para o Brasil no século XVIII cada kilo de açúcar equivale a 15 kg de lenha queimada, dando média anual de 210.000 toneladas. A cada hectare deverá corresponder 200 toneladas. A evolução recente da mata atlântica no Brasil, passados mais de cem anos sobre o incremento da máquina a vapor nos engenhos, continua a ser tragada por outros agentes. Assim entre 1985 a 1990 ela perdeu 5.330 km2, ficando em 83.500km2, isto cerca de 8% da floresta encontrada portugueses em 22 de Abril de 1500. Esta continuada acção devastadora é assim descrita:

"Durante quinhentos anos, a Mata Atlântica propiciou lucros fáceis: papagaios, corantes, escravos, ouro, ipecacuanha, orquídeas e madeira para o proveito de seus senhores coloniais e, queimada e devastada, uma camada imensamente fértil de cinzas que possibilitavam uma agricultura passiva, imprudente e insustentável. A população crescia cada vez mais, o capital "se acumulava", enquanto as florestas desapareciam; mais capital então "se acumulava" - em barreiras à erosão de terras de lavoura, em aquedutos, controle de fluxos e enchentes de rios, equipamentos de dragagem, terras de mata plantada e a industrialização de sucedâneos para centenas de produtos outrora apanhados de graça na floresta. Nenhuma restrição se observou durante esse meio milénio de gula, muito embora, quase desde o início, fossem entoadas intermitentes interdições solenes que, nos dias atuais, são contínuas e frenéticas."

Esta situação, não obstante a extensa mata disponível, provocou alguns problemas. Deste modo em 1660 o município de Salvador da Baía definiu um conjunto de medidas, que não foram suficientes uma vez que em 1804 no Recôncavo era evidente a falta de lenhas e madeiras. O desaparecimento da floresta próxima dos engenhos fazia aumentar os custos de fabrico do açúcar, agora onerados com os da lenha.

O processo é similar nas regiões que antecederam o boom do açúcar americano. Senão vejámos. Em Motril a primeira metade do século XVI é definida por uma situação de quebra da produção açucareira, atribuída à falta de lenhas, o que levou a uma tomada de medidas desde 1540. A situação repete-se na Madeira e Canárias, o que provoca uma reacção dos proprietários de engenho, materializada em medidas exaradas em ordens régias e posturas municipais.

As ilhas, pela limitação do seu espaço, são as primeiras a ressentir-se desta realidade. Sucede assim em ambos os lados do Atlântico, apontando-se como única excepção as ilhas de S. Tomé e Príncipe. Nas Caraíbas a situação é igual. A ilha de Santo Domingo, hoje Haiti e Rep. Dominicana, a cultura da cana teve um apogeu curto de pouco mais de cinquenta anos, pois que em 1550 a notória escassez de lenha conduziu ao abandono de muitos engenhos desde 1570. Já em Jamaica, a promoção pelos ingleses da cultura, levou à busca de soluções. Primeiro o trem jamaicano que terá sido a solução mais eficaz . Com este sistema de fornalha o aproveitamento de lenha era evidente, pois apenas com uma só fogueira se conseguia manter as três fornalhas. Concomitantemente tivemos o recurso ao bagaço como combustível. Note-se que ambas as situações difundem-se primeiro nas Antilhas inglesas a partir da década de oitenta do século XVII e só depois atingem as demais áreas açucareiras.

A generalização deste sistema aconteceu primeiro nas ilhas, carentes de lenha, e só depois chegou ao Brasil. A sua entrada definitiva na industria açucareira do Brasil é de 1806, altura em que Manuel Ferreira da Câmara, na Baía, adaptou o seu engenho a esta nova situação. Todavia nesta época a grande inovação era já a maquina a vapor, que começou a ser usada no Brasil a partir de 1815. Entretanto a Caldeira de vacum, inventada em 1830 por Norbert Rillius de New Orleans, foi a técnica que revolucionou o fabrico do açúcar e que mais contribuiu para a economia de combustível.

 

 

3. MIGRAÇÕES, ESCRAVOS E HISTÓRIA BIOLÓGICA

 

(...) gente toda de cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo sem momento de tréguas, nem de descanso; quem vir em fim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilónia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno.

(Padre António Vieira, 1633)

 

 

3. CONSCIÊNCA HISTÓRICA E ECOLÓGICA

 

A consciência ecológica do homem hodierno serve de apelo a esta viragem regressiva à História da Humanidade. O presente actua assim com expressão mediática para a descoberta desse passado que pode ter algum efeito pragmático nas actuais políticas de defesa do meio-ambiente, para que se atinja o limiar do século XIX com a melhor ambiente, preservando aquilo que os nossos antepassados nos legaram.

 

 

Obs.: o presente estudo enquadra-se num projecto de investigação em curso sobre a "Madeira de eden a Arca de Noé", que será publicado proximamente em livro.

 

 

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