Que amphiteatro, ó Deus! que paraizo!
Pomares entre as hortas regadias;
Chapadas, que saudam, num sorriso,
Os abismos dò mar! Mattas sombrias,
Valles, outeiros, picos... Catadupas
Rebentando das broncas penedias!
Uma vivenda além meio escondida,
Nas sebes festonadas de roseiras!
Os dentes d'uma escarpa denegrida
Cravando-se nas nuvens sobranceiras;
O cercial a brotar dos vãos das rochas;
A cana pelas margens das ribeiras!
Angras, baías, cabos, promontórios,
Fajãs virentes, furnas pavorozas,
Agulhas nos phantásticos zimbórios,
Penedos nus de formas monstruosas;
No cimo da montanha a neve eterna,
E sempre, aos pés, as vagas rumorosas!
Saltos d'água, caindo em catarata;
Rotos por dentro agigantados montes;
Sobre os abysmos das caudais de prata
Os arcos naturaes formando pontes;
O sol rompendo a cupula das nuvens,
E abrindo encantadores horisontes!
Que mystérios, que paz, que liberdade,
Nos hortos e vergéis, nas fontes frias
Dos umbrosos subúrbios da cidade!
Que saudosas e gratas melodias
Se alternam entre os pássaros das selvas
E as torrentes d'aquellas serranias!
Atalaias de Deus, as ermidinhas,
No viso dos outeiros! Nas quebradas
Os casais, resaindo dentre as vinhas;
Nos vales as ribeiras remansadas...
Que vida a respirar-se no ar diaphano!
Que pais para as almas namoradas!
No pequeno cerrado, defendido,
Pelos cactos e silva lanceolada,
De tempo immemorial tem conseguido
O colono, agarrado sempre à enxada,
Tornar modelo o seu torrão nativo
De fruta e de hortaliça aprimorada!
O tomateiro e a ervilha trepadeira
No coração do inverno! Sasonado
O cacho na recurva bananeira;
No alegrete o ananáz, e já corado,
Sorrindo à branca irmã, à flor das nupcias,
O pomo na viçosa laranjeira!
Não se imagina o effeito produzido
Pela névoa naquellas paizagens!
Como através, ás vezes, d'um tecido
Tenuissimo, apparecem-nos imagens
Indisíveis, translucidas, phantasticas,
E num momento apagam-se as miragens!
Aqui suspensa uma árvore nos ares,
O pico d'uma rocha! - Além um lago,
Que, súbito, no meio dos pomares,
Se formou por encanto! Ora, no vago,
Um casal, transformado numa villa,
E uns pinheiros em torres seculares!
Ao camponez esbelto, alto e robusto-
Camponês, que 'inda agora, em nossos dias,
Apelidam vilão - surge-lhe o busto
Na eminência daquelas penedias,
Por entre o raro véu, como se fora
Inda mais colossal de que um Golías!
Quando a névoa é mais densa, o alvo lençol
Forma abaixo dos visos das montanhas
Como um mar; e, batido pelo sol,
Reproduz as figuras mais extranhas-
Monstros e arcanjos, templos e castellos,
Vulcões e chama, e tintas do arrebol!
Voam cisnes co'as pennas infunadas,
Naquele oceano aéreo, e quando a vista
Se vae firmar nas scenas encantadas,
Um sopro as varre, e fogem pela crista
Das serras giganteas - convertidas,
Essas visões, em nuvens esmaltadas!
São fogo os montes, onde a flor rebenta!
Em tudo corre a vida exuberante!
Tem lume a vaga ao estoirar violenta!
Tem sangue a rosa; e espera, palpitante,
Por um beijo do sol a violeta!...
Que se dará num coração amante!
( )
Ao parque Carvalhal, leitor, cheguemos,
Como eu cheguei, no alvor da mocidade.
Referve o sol d'Agosto. Repousemos
Nas sombras e na grata amenidade
Do fresco Balancal, alta montanha
Que domina os subúrbios da cidade.
Sigamos pelas ruas empedradas
Onde as renques de hortenses primorosas
Resaem em cambiantes azuladas,
Das folhas verde-negras e viçosas.
Que formosa magnólia, alta e frondifera,
De flores rescendentes e nevadas!
As camélias são bosques, que no inverno
Se hão-de cobrir de rosas aos milhares!
Inverno? Não - direi outono eterno.
Das vertentes, dos montes, dos algares,
Em borbotões, a força das levadas
Regando sempre as hortas e os pomares.
Tudo possui o parque sumptuoso
- Traçado com fidalga bizarria
A flor selecta, o fruto delicioso;
Torrentes d'água cristalina e fria,
Que em lagos se arredondam. O arvoredo,
E o matagal na bronca penedia!
O estrídulo pavão desvanecido,
Ao sol abrindo a lúbrica plumagem;
O veado saltão e pressentido
O faisão multicor, que à leve aragem
Sacode o manto d'oiro; o passaredo
Em bando chilreador pela ramagem.
Não podemos partir sem que aceitemos
O convite do conde. O forasteiro
É velho amigo, nessa casa. Entremos.
Tudo quanto o mais fino cavalheiro
Pode ter no primor do gesto afável
Tem o conde no rosto prazenteiro!
A condessa - Matilde - a graça viva;
A distinção, a máxima elegância;
O corpo airoso de gazela esquiva;
Senhora, mas sem sombras de arrogancia:
Raro exemplar de feminis encantos,
Mimoso como a folha sensitiva!
É um dia vulgar; porém figura,
Na lauta mesa, a secular baixela.
Graciosas flores da maior frescura
Ornando a fruta, sazonada e bela,
Da Europa e Novo-Mundo. Em crystais lúcidos,
Cercial pálido e Tinta da mais pura.
Ferve o "Champagne" frio, e nos convivas
Palpita o coração, pulsa a alegria,
Que não rebenta em clamorosos vivas;
Entusiasmo que vem da simpatia,
Que nasceu improvisa, e que se expande
No faiscar de frases expressivas!
Vamos deixar a estancia encantadora.
Rompe a lua dos picos do nascente;
Vem afogueada, como o sol na aurora.
Mais alta já, diffunde brandamente
A luz pelo declivio das chapadas,
Onde a cidade vae surgindo agora.
Prateia o mar, que jaz adormecido;
Treme nas copas do pinhal fechado;
Dá nitido o perfil do monte erguido;
Bate sobre os casaes do descampado;
Beija a cruz solitaria do convento,
E o cemiterio, que lhe fica ao lado!
Que mysterios na paz da natureza!
Os homens, hoje, cegos de furor,
Deixam no campo, cota maior vileza,
Os que eram hontem seus irmãos no amor,
E a lua, á noite, triste beija os tumulos,
Como o sol n'alvorada beija a flor!
[Bulhão Pato, Paquita - poema em XVI cantos, Lisboa, 1870, Canto VII; pp.245-250, canto VIII, 264-268]