Adeus à Pátria
... adeus!... Terrível
amargo adeus é este...
Eu parto. Força é deixar-te,
Pátria minha idolatrada.
Eu vou por outra trocar-te,
Terra doutras invejada;
Mas, se partir resolvi,
Tornar-me digno de ti
Só quero, mãe adorada.
Se deixo o clima saudoso
Que possues tão criador;
O teu ar delicioso,
Perfumado, animador;
O teu céu de azul escuro.
Tão lindo sempre, o mais puro
Que deu ao mundo o Senhor:
O sol vivo e radiante
Que te desperta e dá vida;
A clara lua brilhante,
Raro em núvens envolvida
Bem como as brancas estrelas,
Que lá fulguram tão belas
Em distância desmedida:
Os montes teus magestosos,
Altivos, alevantados,
Por frescos vales viçosos
Uns dos outros separados,
Par'cendo medonhos mares
Que a tormenta ergueu aos ares
E foram petrificados;
As tuas belas campinas.
Verdejantes, esmaltadas;
As aguas tão cristalinas
De tuas fontes nevadas:
Tudo quanto a natureza
Te ofertou com mais beleza
Do que as terras mais prendadas:
E, oh céus ! como dizê-lo!
Um anjo arrebatador,
Que é o meu pensar, meu anelo,
Que me enlouquece de amor;
Anjo que em tudo diviso,
O sol deste paraíso
Que é do atlântico a flor;
Se tudo deixo e me ausento,
Se estranhas terras procuro,
Não só buscar eu intento
Porvir mais certo e seguro;
Nutro no peito outra esp'rança;
E' maior a confiança
Que ora tenho no futuro.
_
A voz que pede riqueza
Mal a ouve um coração,
Onde alto brada a pureza
De filial gratidão;
Se à pátria ser proveitoso
Eu poder, serei ditoso;
É essa a minha ambição.
Tão puro, ardente desejo,
Possa-o eu cumprido ver;
Possa sem corar de pejo
Aos lares pátrios volver!
Se for neles acolhido,
Como é sempre um filho qu'rido,
É completo o meu prazer.
Terra onde nasci
E que me geraste;
Berço que na infância
Meigo me embalaste:
Formoso jardim,
Aonde em folguedos
Passei da poerícia
Os dias tão ledos;
Teatro aprazivel,
Que ora à juventude
Me mostraste encantos,
Que fugir não pude,
E assim me prendeste
Em maga ilusão,
Escravo tornando
O meu coração:
Adeus. Sei que longa
Será minha ausência;
Se, porém, eterna,
Sabe a providência.
Mas antes que eu deixe
Teu doce regaço,
Oh! não me recuses
Um estreito abraço.
E tu, que inspiraste,
Ó virgem, meus cantos,
Recebe um adeus,
Meus ais e meus prantos
Eu parto. Força é deixar-te,
Pátria minha idolatrada.
Eu vou por outra trocar-te,
Terra de outras invejada;
Mas se partir resolvi,
Tornar-me digno de ti
Só quero, mãe adorada.
[Luis Marino, Musa Insular(poetas da Madeira), 1959, pp.126-129]