JOÃO DA CÂMARA LEME HOMEM DE VASCONCELOS(JOÃO DA CÂMARA LEME)[1829-1902]

 

 

Adeus à Pátria

... adeus!... Terrível

amargo adeus é este...

Eu parto. Força é deixar-te,

Pátria minha idolatrada.

Eu vou por outra trocar-te,

Terra doutras invejada;

Mas, se partir resolvi,

Tornar-me digno de ti

Só quero, mãe adorada.

 

Se deixo o clima saudoso

Que possues tão criador;

O teu ar delicioso,

Perfumado, animador;

O teu céu de azul escuro.

Tão lindo sempre, o mais puro

Que deu ao mundo o Senhor:

O sol vivo e radiante

Que te desperta e dá vida;

A clara lua brilhante,

Raro em núvens envolvida

Bem como as brancas estrelas,

Que lá fulguram tão belas

Em distância desmedida:

 

Os montes teus magestosos,

Altivos, alevantados,

Por frescos vales viçosos

Uns dos outros separados,

Par'cendo medonhos mares

Que a tormenta ergueu aos ares

E foram petrificados;

 

As tuas belas campinas.

Verdejantes, esmaltadas;

As aguas tão cristalinas

De tuas fontes nevadas:

Tudo quanto a natureza

Te ofertou com mais beleza

Do que as terras mais prendadas:

 

E, oh céus ! como dizê-lo!

Um anjo arrebatador,

Que é o meu pensar, meu anelo,

Que me enlouquece de amor;

Anjo que em tudo diviso,

O sol deste paraíso

Que é do atlântico a flor;

 

Se tudo deixo e me ausento,

Se estranhas terras procuro,

Não só buscar eu intento

Porvir mais certo e seguro;

Nutro no peito outra esp'rança;

E' maior a confiança

Que ora tenho no futuro.

_

A voz que pede riqueza

Mal a ouve um coração,

Onde alto brada a pureza

De filial gratidão;

Se à pátria ser proveitoso

Eu poder, serei ditoso;

É essa a minha ambição.

 

Tão puro, ardente desejo,

Possa-o eu cumprido ver;

Possa sem corar de pejo

Aos lares pátrios volver!

Se for neles acolhido,

Como é sempre um filho qu'rido,

É completo o meu prazer.

 

Terra onde nasci

E que me geraste;

Berço que na infância

Meigo me embalaste:

Formoso jardim,

Aonde em folguedos

Passei da poerícia

Os dias tão ledos;

Teatro aprazivel,

Que ora à juventude

Me mostraste encantos,

Que fugir não pude,

E assim me prendeste

Em maga ilusão,

Escravo tornando

O meu coração:

Adeus. Sei que longa

Será minha ausência;

Se, porém, eterna,

Sabe a providência.

Mas antes que eu deixe

Teu doce regaço,

Oh! não me recuses

Um estreito abraço.

E tu, que inspiraste,

Ó virgem, meus cantos,

Recebe um adeus,

Meus ais e meus prantos

 

Eu parto. Força é deixar-te,

Pátria minha idolatrada.

Eu vou por outra trocar-te,

Terra de outras invejada;

Mas se partir resolvi,

Tornar-me digno de ti

Só quero, mãe adorada.

[Luis Marino, Musa Insular(poetas da Madeira), 1959, pp.126-129]