JOÃO FORTUNATO DE OLIVEIRA [1828-1878]

 

 

No pico ruivo

(Excertos)

 

 

Salvé! Salvé! penhasco alteroso,

Salvé! monte de núvens c'roado,

Que contemplas ufano, orgulhoso,

Fundo abismo nas penhas cortado!

Qual madeixa, que a fronte rugosa,

Rara cinge d'altivo ancião,

Fresca rama te cerca viçosa,

De urze adusta que afronta o tufão.

Deste cimo, que se ergue gigante,

Como apraz longas vistas lançar!

Ver os raios do sol deslumbrante,

Ao surgirem, as águas doirar!

Branca núvem, qual froco de prata,

Ver libar-se na espalda do monte;

E o Oceano, que um circlo retrata

Vir a terra abraçar no horizonte

 

Sobranceiro às selvas e prados,

Sobranceiro às cristas erguidas,

Aos penhascos p'ra os céus eriçados,

As encostas de fetos vestidas.

 

Como a alma se sente abrasada,

Como se ergue o altivo pensar,

Abraçando co' a vista enlevada,

Céu, ribeiras, colinas, e mar!

Madeira! ó terra de viçoso encanto!

Que lindo manto, que verdor. que aromas!

De frescas águas que saudosas fontes!

Que altivos montes! que frondosas comas!

 

Madeira! ó terra de suave clima,

Que o céu anima com fulgor, com vida;

Que o pobre enfermo com teu ar alentas,

E Ihe acalentas uma esp'rança qu`rida!

D'homens ignaros inda hoje os erros

Contam os cerros d'escalvado pico;

Mas teus jardins e teus vergeis donosos

Dizem radiosos quanto o solo é rico!

Por onde outrora se ostentavam matas,

Hoje retratas inquieto o mar,

De loiras messes na ondulante espiga,

Próvida amiga de campónio lar!

D`estranhos climas, regiões distantes,

Contas bastantes no teu seio filhas,

Que em ti vicejam e florecem belas:

E tu com elas orgulhosa brilhas!

Madeira! ó pátria! quando além dos mares,

Longe dos ares do torrão que é meu,

Tu me apar'cias na saudade, ó fada,

Meiga, adornada de visões do céu;

 

Então da lira me inspiraste os cantos,

Por ti meus prantos eu senti correr;

Que mágoa intensa que por ti gemia,

E aos céus pedia de inda aqui volver ! . . .

 

Volvi!-e agora neste altar erguido,

Eis-me atrevido compulsando a lira:

Aceita, ó pátria, as derradeiras flores,-

Quantos amores o teu solo inspira!

 

[ Luis Marino, Musa Insular(poetas da Madeira), 1959, pp.123-124]