Ruralismo O Mundo começou assim
Na ausência do homem, o mundo não era mundo. Sem haver quem percepcionasse esta criação de mar e terra, nem o espaço nem o tempo teriam existência. A vida em plano inferior, sem atitude pensante, ignorava o mundo. E o vazio, o nada, seria uma realidade que, afinal, não era. Não a observavam os olhos conscientes. E um mundo inútil rodava no espaço, no silêncio da noite e do dia, à espera da aparição humana e ela surge. O mundo começa.
Devia de ser assim. A imagem de tarde de Inverno nos confins da freguesia revelava o cenário físico do mundo quando principiou a ser E o tempo entra de marcar no contingente e no perecível o determinismo de tudo que está a ele sujeito.
Mas o homem ergue, irresoluto, a face, em tomo. Devia de ser assim. Lutavam com ele os elementos. Assombrado, esgazeava os olhos em volta, mas não meditava porque a natureza era sobranceira à sua pequenez e o deprimia.
Quando começou de pensar no destino da vida, tinham volvido anos sobre anos.
Na riba penugenta de ervinhas maceradas do chicote do vento, amontoavam-se pedras. E, lá em baixo, ao fundo, o mar rebramia acometendo as rochas. E a urrada das ondas espedaçando-se era sensação pertinaz dentro do ouvido. O mato de bardo resguardava as cercas das vinhas, e os tufões, ululantes, vergavam o tapume de urze. Um cheiro adstringente a maresia penetrava em todo o corpo.
Agora, vindo do largo, da superfície aborregada e movediça das águas, uma cortina de névoa desfaz-se em chuva e, outra, compacta sobe a montanha
Nem vivalma Este carreiro que não chegou a ser aberto no alto da riba é Pouco batido pelo caminhante. Mas conhece-se.
Fica entre a cabelugem da erva amarelida sinuoso, quase sumido, vestígio remanescente de passadas humanas, que de longe em longe houvessem trilhado a beiça escalavrada da penedia.
O ambiente esporeia a reflexão. Começou o mundo, que teve um principio ao haver existência, tal o do homem ao estarrecer-se com o espectáculo que deparou, da montanha e da árvore, da chuva e do vento. Ali o vejo, naquela fazendola os pés descalços metidos na terra a enxada a levantar-se e a baixar-se, os regos a encherem-se de água. Arregaçadas as mangas da camisa, a chuva a escorrer pelo rosto encorreado, tisnado e curtido da intempérie das estações, retrata-se nele o tipo físico da raça mediterrânea, produto de uma educação de carácter espartano, primitivesca; é bem o homem que arremete com a natureza, sentindo-lhe o peso, com todo seu gravame.
Cérebro com a centelha da razão, a ideia fixa do utilitário dorme com ele, mas de um utilitário avesso a pretensões que não sejam as concernentes ao seu mundo familiar.
Regresso à vida que coça. Deixo-me imergir na simpleza rústica de um tempo que já foi. O espírito retrocede.
O mundo está ali figurativo, na imagem do homem a cavar a terra absorvido na esperança da semente que há-de germinar e produzir colheita pingue.
Que lhe importa outra ideia metafísica que não a de Deus!
Nunca ouvia falar, com certeza, das obras de pensamento de Santo Agostinho. E para qué? As de que vivem seus sentidos e que constituem a realidade vegetativa, sem as quais a vida não teria o significado do múltiplo que se vai desdobrando em gerações sobre gerações, são do alvorecer do mundo porque sem elas o mundo nunca fora
E no semblante se reflecte o estigma do pecado, depois que Jeová assim falou ao seu antepassado primeiro: - "Comerás o pão com o suor de teu rosto, até que tomes à ferra de que foste feito."
Prevalecendo-se de uma experiência de hábitos ancestrais, o homem que ali revolve o solo participa de quadro bíblico.
Agoniza a tarde. Esbracejam os galhos cadaverosos de uma figueira que há-de ressuscitar quando o vento norte for mais macio.
Para trás ficaram os confins da freguesia, os confins do mundo.
O mar não se calou. Sente-se uma zoada que vem de um tempo em que não havia tempo.
Este caminho resvaladiço do lagedo, está metido entre muros de rocha arrumada a esmo, o qual a geração dos colonos de Afonso de Sanha teria dado a forma que permanece ainda nas curvas encolhidas; as paredes flaqueando as quais, de altura de metro numa parte e para além da medida, em outro, quase se tocam, de convizinhas.
Enconchou-se a gente do sitio. Enferrolhou-se na ignorância feliz de que o tempo vai corroendo as vidas. Dentro de casa ouve-se, lá fora, o redemoinho da ventania açoitando tudo que tem caule e ramos.
Não se surpreende o crepúsculo, agora, que a noite é o próprio céu a descer, a tornar igual o que era desigual na forma e na cor.
Ensandeceu vulcano. Longe, na barra marinha, constantes clarões facheiam o cinzento-escuro que prenuncia a noite a envolver o mar. O deus romano é apenas lembrança da história antiga, dos homens de há dois mil anos. A gente da aldeola encafurnada no seu casulo, atenta ao eco do trovão diz, de si para si, que o poder de Deus é grande. Sempre considera a sua insignificância perante o Ser superior que existe estranho à imaginação, outrora criadora dos muitos Vulcanos, divindades necessárias porque elas manifestavam os fenómenos naturais, mas de causa misteriosa.
Entreaberta, a porta despintada, a minúscula lojinha do sapateiros, na revolta do velho caminho. não tem prateleiras com sapatos. A qual indústria, limitada ao conserto, acha-se em vias de extinguir-se quanto ao fabrico de calçado novo. Sentado na banca de til de três pés, não sabe ele explicar que nada permanece, pois que a mudança é lei dos seres e da vida. forem, a razão do progresso que mata a pequena indústria manual, não a ignora: a máquina tudo suplanta.
- Só a chuva é como a que caiu no tempo de meus bisavós. e o vento corre da mesma maneira. A gente é que envelhece.
Há um principio da Razão que é impugnado pelo raciocínio que se vai expondo: O que é,
Mas se vai envelhecendo, deixa-se de ser. logo o principio da contradição opõe-se ao que se percepciona com o decorrer do tempo.-- Mas que é das vozes humanas?
Parou de chover. Continua a azinhaga deserta. Cerrou-se a noite. A zoeira intermitente do mar no desespero inútil de tragar a terra, funde-se o zunido do vento forte desfrançando os pinheirais densos dos declives da montanha, a empinar-se em aba de chapéu. Assim começou o mundo com a imagem provinda da emoção geográfica e humana vivida nos confins da freguesia
Funchal, Março de 1966
A árvore e o Homem. Os plátanos do açougue
Sempre teve o homem familiaridade com a árvore. Ser que produz alimento e sombra; ser utilitário desde que foi simples percepção para defesa da própria vida, o homem despojou-a dos ramos e esquartejou o tronco para de ele fabricar tábuas e com aquelas construir seu tugúrio pobretana. Mas seria em primeiro lugar o interesse material que acorrentou o homem à árvore possível.. Porém, pode conjecturar-se outrossim, que não, se reflectirmos no factor religião. A qual nasceu quando os olhos se abriram para o exterior. O mistério desvendado do aparente criou o espanto no inexplicável que envolvia esse mesmo aparente. e a árvore, na pujança de seu todo, na fascinação do tronco, ramos, folhas, flores e frutos revelou-se o símbolo da força criadora, o princípio donde provém toda a existência. E o culto da árvore veio, como todo o conhecimento, de fora para dentro. A árvore é a vida, torna-se a árvore da vida.
Prova da noite dos tempos o culto da árvore sagrada. Já entre os habitantes de Creta, as jovens e as mulheres idosas ofereciam à divindade flores e frutos. Essa deusa encontrava-se em santuário campestre; no meio das árvores, adornada de flores na cabeça e segurando flores nas mãos.
Este primitivismo pagão, cingido de mistério, continha sua essência poética. Projectava o homem nos seres sem vida humana o seu psíquico, a sua vida interior. e tudo se humanizava. Não existe o ser incomunicável, isolado, mas uma unidade no contraste das formas e das substâncias.
Das árvores que eram homenageadas, o plátano ocupava uma situação de privilégio. Prestava-se-lhe o tributo correspondente à sua espécie. Depois os fiéis consagravam à deusa Réa. E as plantas jamais deixaram de associar-se às divindades através do tempo. Isto no politeísmo e no monoteismo. e da arvore excedeu o pecado do homem.
O plátano foi uma árvore sagrada. Anda a ela associado o nome de Platão. Foi quando o filósofo, no regresso da sua jornada à ilha da Sicí1ia, comprou uma casa com jardim nas cercanias de Atenas. A curta distância da residência havia um campo, que pertencera a Academos, herói da Ática. Ali se organizou um ginásio e se construiu um santuário. O discípulo de Sócrates dava então as suas lições à sombra dos plátanos que fechavam o recinto.
E esta árvore de tradição religiosa e impregnada da voz do filósofo, que profusamente se esparrama por terras mediterrâneas. E até na ilha, que é nosso habitat, o plátano viceja por toda a parte: na cidade, nas vilas e nas freguesias.
O dia da árvore comemorou-se neste Dezembro. Não foi embalde que no meu espírito se retrataram os velhos plátanos do Zargo do Açougue da Ponta Delgada. Na sua vetustez, revejo-os tais como aparece que uma cercadura deverá defender o tronco dos maus tratos da gente ingrata, ausente de sentimento estético e de afecto pela árvore que, enche de sombra o largo, nos dias candentes de Verão. Partilham do pitoresco da aldeia os velhos plátanos do açougue. Esta nota devia ficar exarada no livro que ainda não existe mas que um dia será realidade na biblioteca do Municipio: "o livro de memórias das belezas naturais do Concelho"
O dia da árvore é dia em que o pensamento anti-arboricida será a própria consciência: plantar a árvore, proteger a árvore, ver nela criação divina, necessidade da vida física e de nosso espírito que vive de sensações afectivas do mundo vegetal, dentro e fora dos povoados - a planta sempre foi objecto de culto: do religioso e do belo. O culto da árvore faz parte do instinto. Há que o despertar, ao menos uma vez por ano, para que se recalque outro instinto que é o da destruição.
Funchal, Setembro de 1970
[Horácio Bento de Gouveia, Crónicas do Norte, S. Vicente, 1994, pp.16-19, 28-30]