HOUVE tempo em que a floresta revestia densamente as montanhas e descia, frondosa, até mergulhar as suas raízes no próprio calhau da beira-mar. Assim descreve Gaspar Frutuoso aquela ilha a que o dito capitão (Gonçalves Zarco) pôs o nome de MADEIRA, por causa do muito, espesso e grande arvoredo de que era coberta". Diz a tradição e confirmam-no os cronistas da época, entre os quais o autor das Saudades da Terra. que, não podendo domar as alterosas ondas de verdura que se lhe opunham à abertura de caminhos e ao cultivo do solo, depois de ter vencido as do temeroso Oceano, mandou Zarco atear um fogo que, durante sete anos, ardeu em diversos pontos da ilha, sem conseguir devastar completamente a sua pujante vegetação. Segundo Azurara, era tal a abundância de madeiras, formosas e rijas, na região de Machico, que, vinte anos depois da descoberta, o Infante as fazia transportar em grande quantidade para o Reino. mandando construir com elas os primeiros navios de gávea e castelo de avante e introduzindo importantes mudanças na arquitectura, assim como no sistema de edificações urbanas usado até então.
Onde estão os vestígios dessas matas exuberantes que o fogo não chegaria a destruir? Que visões nos oferecem hoje as serranias madeirenses, para alem das montanhas que enfrentam o Atlântico Como será a ilha que se não avista do mar
RABAÇAL
A fama do lugar e o próprio caminho preparam-nos para qualquer coisa excepcional. Mas quem espera beleza vulgar de cartaz turístico. pitoresca e colorida, terá uma decepção. O Rabaçal foge ao comum dos panoramas afamados: nem vastidões incomensuráveis, nem sítios românticos onde apeteça ficar. Porém, quem lá for, nunca mais se esquecerá daquelas paragens. Há uma estrada que vem da Calheta e nos leva até à casa-abrigo da Junta Geral. Mas tenta-me o antigo trilho, que dizem ser longo, áspero, e vai subindo pelo lado de cá, noutro flanco da montanha, ate embocar no Furado. Por ali seguiam, antes de se abrir a estrada, tanto vilões como excursionistas--e não pode considerar-se aventura de somenos uma excursão ao Rabaçal, no tempo em que o meio de transporte em tais caminhos era a rede e se tornava inevitável pernoitar num tosco abrigo em plena serrania. Actualmente, esse primitivo itinerário é seguido apenas pelos camponeses, mas oferece maior interesse a quem quiser fazer ideia do que seja um furado" madeirense e, sobretudo, a quem desejar conhecer todos os caminhos dos homens.
Lombo do Doutor, um pouco acima da Calheta Aqui vivem o Alhinho e a senhora Maria, que me acompanharão no velho percurso, espantados de que optasse por ele, tal como o conhecem, ermo e fatigante, mesmo para quem lhe está afeito, quanto mais para quem vem da cidade.
A habitação deste casal de vilões remediados, já com filhos casados e emigrados na Venezuela, é das melhores do sítio: dois pisos, paredes caiadas e coberta de telha. Interiormente, um característico desconforto, apesar do gosto da mulher, generalizado em toda a ilha, em alindar com bordados e rendas o seu bragal, por modestíssimo que seja. Não se trata duma excepção: para o camponês madeirense a preocupação absorvente é que o milho não falte e a terra não descanse--tudo o mais será como for .
Os utensílios da lavoura, mais o pote da graxa" (assim chamam, na região, à banha de porco com que temperam a sopa de verduras e o milho) mais um molho de cebolas, o lampião e o moinho caseiro, um banco desmantelado, cestos de feijão, pilhas de batata doce e de semilha, ainda muitos outros objectos, variadíssimos--tudo se amontoa, em desordem, na casa de entrada, atravancando a pequena divisão, térrea e escura. O reboco e a cal não passaram do lado de fora., . A comunicação com o primeiro andar faz-se por uma abertura no tecto, até onde se sobe por uma escada rudimentar, sem corrimão. Lá em cima, no quarto, a cama de ferro tem almofadões brancos, bordados, e no pequeno lavatório há uma toalha cuidadosamente dobrada--tudo assim hospitaleiramente preparado em minha honra. Também as janelas ostentam o luxo de cortinas de croché. Nas paredes, oleografias baratas, com assuntos religiosos. Sobre a cómoda, um Menino Jesus e uma jarra com flores de papel.
Este é, mais ou menos, o interior típico duma moradia rural considerada média na escala de categorias que os próprios camponeses estabelecem entre Si.
A família come na cozinha--uma construção à parte, acanhada, escurecida pelo fumo, mal provida e sem alinho. Mas não foi lá que almoçamos. Para a nossa refeição a mesa foi posta cá fora, sob a latada: toalha desencardida e manjares que a terra dá. Como sobremesa saboreei as bêberas' fresquinhas e apetitosas, colhidas de manhã numa figueira da fazenda e servidas em gamelinha airosa. É mais de meio dia. O tempo entrovisca-se... Mas isso é corrente e não assusta ninguém. Voltamos costas ao mar e partimos, finalmente, a caminho do Rabaçal.
A ladeira é íngreme. No alto, a vereda que seguimos deixa de ser caminho entre pinhais, para flanquear penedias, sobranceiras a abismos, sem guarda nem qualquer ponto de apoio. Só contamos com o bordão, no caso de vertigem ou de um pé resvalar. Vou tentando regular o meu passo pelo dos meus companheiros, sem o conseguir. Têm eles que moderar o andamento, para que eu não fique, sòzinha, para trás.
O homem fala... Discorre sobre o seu viver arrastado, num tom insatisfeito mas sem lamúria. Pelo contrário, tem na voz e no olhar uma expressão de argúcia e uma vivacidade comunicativa que não condizem com a máscara vincada e o seu todo de homem idoso e gasto.
Compreendi então a diferença da impressão que em mim causaram estas duas maravilhas da Madeira: as Vinte e Cinco Fontes, espectáculo surpreendente, raro e belo, duma beleza um tanto romântica; o Risco, uma grandeza imponente e esmagadora.
Se alguém teve a veleidade de macular o cenário magestoso do Risco, deixando o sinal da sua passagem, não dei por isso, tanta é a desproporção de um traço frívolo, em relação àquela mole de basalto, gigantesca e dramática. Ali, a rocha e a água confundem-se numa expressão de força invencível.
No regresso, para encurtar distância, seguimos o itinerário dos carregadores de feiteiras, que nos fora indicado pelo guarda Manuel: subir um monte, à esquerda: descê-lo depois pela outra encosta. Lá viemos, conforme foi possível. Trepamos de gatas, que o terreno era movediço, e valeram-nos troncos e arbustos a que deitávamos a mão. O Alhinho, conquanto experimentado nestas subidas e descidas acrobáticas, não fez neste passo brilhante figura... Ganhamos meia hora, mas estivemos na iminência de descer. bom grado, mau grado, muito mais do que convinha...
Manhã inesquecível, mais intensa na sua brevidade que dias, semanas e até anos de viver asfixiado, convencional, apático. Há uma espécie de avidez no meu desejo de fixar tudo: cor, relevo, configuração do conjunto, pormenores de luz e até o que só é possível pressentir. A natureza, exuberante de viço e força, tem nesta hora calma uma expressão estática de mundo vegetal inviolado. Mas toda a sua grandeza e esplendor não anulam o sinal do homem e da sua luta na caminhada penosa e lenta para o futuro. Perante as serras do Rabaçal, recobertas de arvoredo multicentenário e fertilizadas por mananciais assombrosos, envolvo os pioneiros que primeiro aqui chegaram e planearam o aproveitamento dos caudais que se precipitam de alturas perpendiculares, abismando-se em funduras insondáveis e correndo, até então, desaproveitados para o mar. Ali estão as levadas, os aquedutos e os túneis a testemunhar o titânico labor. O plano realizado ultrapassa a evolução do homem que o executou com o seu braço, dando-lhe, não raro, a própria vida, o homem que circula hoje, igual ao que era ontem, por estes lugares--lá vão na sua faina quotidiana os carregadores de «feiteira». Mas a obra prevalece nos seus benefícios gerais e como índice do combate instintivo, sem tréguas, da Humanidade, contra o que se opõe ao direito de viver e progredir. Penso isto, numa convicção e num apelo, ao contemplar a serrania imensa, de que me aparto com pena. E a montanha, e a floresta, e a água, respondem-me: descubro uma força maior nos meus passos, no meu olhar e na minha atenção, como se um sopro de vida renovada ateasse a minha chama interior e despertasse energias que, sem eu saber, estavam em mim, ainda intactas. Revigora-se a minha confiança. E a certeza de que o destino do Homem se cumprirá em conquistas maravilhosas, pelo esforço, pela firmeza, pela consciência da dignidade humana e pelo sentido fraterno da Vida, faz circular mais ardentemente o sangue nas minhas veias.
CALDEIRAO VERDE
O encantamento começa logo que chegamos a Santana. Primeiro, as veredas românticas, com altas sebes de buxo e «novelosa azuis, fazem-nos pensar que estamos num parque maravilhoso. Flores e mais flores por toda a parte ! Ouve-se a voz da água, ora em surdina, como um murmúrio, quanto ela vai serena por entre musgos e fetos, ora mais barulhenta, quando vem descendo íngreme ladeira ou cai de alto, fazendo rodar uma azenha. E tem-se uma sensação suave, repousante.
As montanhas lá estão ao fundo, com o seu dorso caprichoso e dominador. São as mesmas que durante a travessia da ilha, do Sul para o Norte--duas horas de automóvel, pelo menos--me encheram de pasmo. Mas Santana espraia-se com desafogo até à costa e, daquele lado, nenhum gigante se ergue a esconder o mar.
O mar... Quando, passada a Penha de Águia, a estrada recomeçou a subir e ele surgiu de novo, os meus olhos deslumbraram-se com a visão longínqua da ilha de Porto Santo--uma silhueta azulada, quase irreal, erguida na claridade do horizonte sem fim. Momento de euforia ! Como é bom viver! Na luz do dia glorioso, o mar refulgia, o recorte dos picos no céu puríssimo deixou de ser agressivo, os verdes que matizam a terra realçavam em tonalidades que nenhuma paleta pode reproduzir.
Ao fazer o reconhecimento da terra, no litoral e no interior, o capitão Zarco «mandou entrar gente por entre o arvoredo e pela ribeira acima, o que eles fizeram sem acharem coisa viva, senão aves de diversas maneiras, que tomavam às mãos porque não eram acostumadas a ver gentea--assim diz a tradição oral e escreveu Gaspar Frutuoso em Saudades da Terra. O mesmo testemunham, entre outros, Diogo Gomes e Luís de Cadamosto, em crónicas e narrativas de viagens datadas do século XV. Cita Cadamosto em especial "pavões selváticos e, entre eles, alguns brancos", assim como grande quantidade de pombos.
Tantas eram as aves de várias espécies que os primeiros povoadores da Madeira, à falta doutra carne, delas se alimentavam com abundância. Aqui findou a confiante liberdade dos alados habitantes das matas da ilha; aqui principiaram eles a saber que coisa era o homem e a temer toda a forma estranha que se lhes aproximava. Os pombos foram os mais perseguidos e sacrificados, pelo seu maior tamanho e pelo saborosíssimo manjar que constituíam.
Era rudimentar o sistema de caçar os pombos, e foi infalível enquanto as vítimas se não aperceberam dos seus efeitos: com um laço habilidosamente preparado e suspenso da extremidade duma vara fininha ou duma cana, prendia-se o animal pelo pescoço, puxando-o depois ràpidamente para o chão; como ele se não assustava ao ver o traiçoeiro engenho, tornava-se facílimo levar a bom termo o ardil. A devastação foi enorme, quase total, enquanto não vieram do reino outras aves e animais domésticos, além de diversas espécies de gado, para se reproduzirem aqui e abastecerem o arquipélago.
Entre as aves que o Infante enviou «para lançar na terra a vinha o faisão, que se adaptou perfeitamente às florestas virgens da ilha, onde viveu em liberdade e se reproduziu enquanto ali o deixaram tranquilo. Tão numerosos se tornaram que, no princípio do século XVII, ainda a caça aos faisões, bem como aos pavões, era livre na Madeira Depois, uns e outros foram escasseando, em consequência das frequentes montarias, que tanto apraziam à nobreza. Quanto aos faisões, eram também dizimados por uma terrível caçadora--a manta, a maior ave da fauna madeirense, que continua a ser inimiga mortal dos coelhos, perdizes, codornizes e de todos os pássaros que a sua voracidade cobice. Aves aristocratas, o pavão e o faisão evocam, nesta ilha, tempos antigos de esplendores e privilégios, coutadas e arte de montear, donatários e fidalgos. Hoje, apesar de várias tentativas para repovoar de pavões e faisões as serras madeirenses, não se conseguiu ainda qualquer resultado apreciável.
Pelo que respeita aos pombos, além daqueles que têm os seus pombais em vivendas ricas e pobres, na cidade e no campo, como companheiros muito apreciados da vida familiar, em toda a ilha, outras espécies existem, em estado bravio, descendentes directas dos que os povoadores aqui encontraram. Deixaram, porém, de ser confiantes: defendem-se astuciosamente de quem invade os seus domínios, longe dos sítios habitados.
O «pombo negro da serras vive na solidão das montanhas e faz ninho nos recôncavos naturais de penedias escarpadas, onde é tão difícil quanto arriscado chegar. Mas desce aos vales, quando chegam os frios mais rigorosos. Ali o persegue o homem, porque a sua carne continua a ser tão saborosa como outrora. . . Não contente em fugir-lhe, quando o apercebe, o pombo negro da serra,> denuncia o caçador agitando as asas de forma especial, para que os companheiros se afastem daquele lugar e não voltem lá naquele dia, pelo menos.
A «pomba brava"--assim chama o povo ao «pombo da rocha-- vive exclusivamente nos rochedos, quer do litoral, quer do interior. Por toda a ilha há pombas bravas". que deram o nome a numerosos sítios. Por exemplo: os Pombais de Porto do Moniz.
O "pombo galego"--bastante raro-- encontra-se nas regiões mais montanhosas do interior, mas nidifica nas árvores. O seu voo é sempre alto e tão desconfiado se mostra que se torna dificílimo caçá-lo.
Os pombos têm direito a esta citação, por haverem sido, muito antes dos homens, os primeiros senhores da ilha--sem falar agora na chacina que ameaçou exterminar-lhes a espécie em benefício dos usurpadores. Mas tudo isto vem a propósito do bisbis que não chegou a saber se devia ou não confiar em mim...
O ilhéu que me acompanha contesta a minha opinião, quanto à falta de pássaros nas matas madeirenses. Pelo contrario, ele afirma que há muitos e que, se os não tenho visto, é talvez por me absorver especialmente na contemplação da paisagem. Como caçador emérito, que é, conhece a palmos os campos e serranias da sua ilha, até aos menos acessíveis recessos. E não se cansa de louvar a variedade e encanto das aves que alegram este pequeno mundo insular. Não é apenas o bisbis--na realidade o único pássaro da ilha que lhe é peculiar: é o tentilhão, que chega a conviver sem reservas com o homem; é a toutinegra, com o seu canto vibrante e variado: é o papinho--o rouxinol da Madeira--a cantar ao desafio com outros irmãos que lhe respondem de longe, em trinados maviosos que enchem de alegria o alvorecer e põem suave nostalgia no entardecer campestre; é o pintassilgo, esperto e habilidoso, todo pintalgado de cores vivas; é o melro preto,--o grande madrugador !--que acorda o próprio dia com os seus assobios prolongados. É o canário da terra, que dá os seus concertos onde quer que uma árvore lhe ofereça poleiro aprazível, seja nas serras, seja na cidade, e continua ainda a cantar por detrás das grades da gaiola, à janela da casinha mais modesta, à porta duma barraca ou em balcão requintadamente florido--o canario madeirense que tem fama em terras estrangeiras e para lá vai exportado em grande quantidade; é a lavandeira, saltitante, airosa e utilíssima caçadora de insectos; é o correcaminho, com a sua lenda bíblica, amante de terras áridas e acompanhante fiel dos que por ali passam; é também o pardal, indesejável onde houver sementeiras e searas, sempre glutão, mau camarada e granizador --e mais e mais . . .
Não são ùnicamente as espécies e sub-espécies indígenas, são também outras, trazidas pelos povoadores, e ainda as «visitantes regulares ou acidentais, pois que passam aqui muitas aves de arribação, na sua viagem para outros continentes.
ENGENHOS E SERRAS D E ÁGUA--O aproveitamento da força motriz das ribeiras para serrar a madeira de que a ilha era riquíssima, em quantidade, qualidade e variedades, foi uma das primeiras iniciativas dos colonizadores. Só assim conseguiram desenvolver o aproveitamento e exportação de tão valiosa mercadoria que o solo fertilíssimo lhes oferecia.
«Serras de água" se chamavam esses engenhos construidos nas margens das mais caudalosas ribeiras, em vários pontos da ilha Eram dum grande primitivismo, mas ainda assim utilíssimos e de grande rendimento. O Infante D. Henrique, na carta de doação da «minha ilha da Madeira» a João Gonçalves Zarco, datada de 1 de Novembro de 1450, claramente especifica o direito que lhe concede de reservar para si, não só «todos os moinhos de pão que houver na parte da dita ilha de que lhe dou o encargo», de maneira que mais ninguém ali pudesse fazer moinho senão ele ou quem lhe aprouvera, como acrescenta: Outrossim me apraz que haja (ele, João Gonçalves ) de todas as guerras de água que aí fizerem de cada uma um marco de prata em cada ano ou o seu certo valor ou duas tábuas cada semana das que costumarem serrar nas serras, segundo pagam todas as outras coisas o que serrar a dita serra e isto haja também o dito João de qualquer engenho que se aí fizer, tirando viveiros de serrarias e outros metais».
Não tardaram a multiplicar-se as «serras de água», em todo o território da capitania doada a Gonçalves Zarco. O mesmo sucedeu na capitania que coube a Tristão Teixeira e que abrangia a parte oriental da ilha. Não se encontra na sua carta de doação qualquer referência a serras de água, mas Gaspar Frutuoso diz, em Saudades da Terra. que havia nas freguesias do Seixal, Boaventura, Santana, Faial e Machico, todas pertencentes a essa capitania, sítios com aquele nome.
Grande vantagem traziam estes engenhos, pois o seu funcionamento era simples e requeria pouco pessoal: o serrador, que o punha em movimento com um pé, e os seus ajudantes, que lhe iam chegando os troncos para serrar. Dali saiam as tábuas para as caixas onde se exportava o açúcar, em quantidade sempre crescente, além de todas as outras, de diversas grossuras e tamanhos, destinadas ao fabrico de móveis e construção de casas e embarcações, na ilha e fora dela.
A «serra de água" de maior fama e uma das mais antigas, pois já existia em 1440-- antes da doação da capitania a Gonçalves Zarco ficava no interior da ilha, na freguesia da Ribeira Brava. Tal importância assumiu, que deu o nome a uma nova freguesia, criada em 1676. Outras são mencionadas em documentos antigos, sobretudo as do Norte, que era onde mais havia.
Estes engenhos movidos a água não se destinavam exclusivamente a serração de madeiras. Muitos eram utilizados para fabricar açúcar. Uma carta de mercê, datada de 1492, menciona uma «serra de água», pertencente a «um cerrado de canaviais», na Ribeira de Santa Luzia, cerca do Funchal.
O trabalho das «serras de água» era feito, na maior parte, por escravos. Ao falar da introdução destes engenhos em S. Miguel (Açores), Gaspar Frutuoso alude a um proprietário de Ponta Delgada que comprou umas «boas casas sobre a Ribeira, junto da ponte, onde mandou fazer um engenho de «serra de água», como os da ilha da Madeira com seus escravos e um João Lourenço, seu criado, que era o mestre do dito engenho e endereçava os escravos.
AZENHAS--Outros engenhos foram montados nas margens das ribeiras, desde o tempo dos primeiros Donatários da ilha: as azenhas. Nelas se moía, pelo rudimentar processo de duas grandes pedras circulares--as mós do trigo e o milho que a terra ia produzindo. O sistema era o mesmo do Reino e ainda hoje usado pelas populações rurais mais atrasadas.
Tal como as «serras de água" e os engenhos de açúcar, as azenhas davam grande proveito aos Donatários, que tinham o direito da sua exclusiva exploração, cobrando determinada maquia pela moenda. Muitos camponeses eximiam-se a esse encargo moendo os cereais num pequeno moinho manual. Esse trabalho estava e está a cargo das mulheres, pois ainda hoje persiste em várias freguesias da ilha.
Engenhos, «serras de água" e azenhas deram às margens das ribeiras um ambiente de actividade humana que se ia intensificando à medida que o povoamento progredia e o aproveitamento das madeiras e da terra, pela agricultura, se ia desenvolvendo. Era sobretudo, e nalguns sítios exclusivamente, na Primavera, que essa actividade existia. Então a vida animava-se de novas expressões, nesses lugares que só conheciam a magestade das montanhas e, conforme as Estações, a alegria e os ímpetos da água. Muitas vezes os temporais e as enxurradas destruiam--como ainda hoje todo o trabalho do homem e o próprio homem. Mas tudo recomeçava, persistentemente, corajosamente, mal a tormenta passava e o renovo palpitava nas seivas vegetais e no coração humano.
Foi das margens das ribeiras que partiu o primeiro impulso à economia da ilha: pelas regas, embora limitadas aos palmos de terreno que lhes ficavam perto, em plano acessível; pela serração das madeiras, pelo fabrico de açúcar e pela moenda de cereais.
[Maria Lamas, Arquipélago da Madeira Maravilha Atlântica, Funchal, 1956, pp.25-26, 47-49, 56-59, 100-102]