Que génese laboriosa, a desta ilha de florestas e de bruma ! Nada que lembre o mitológico nascimento de Afrodite quando emergiu docemente do seio das águas, coberta por alvo manto de espuma que lhe oculta a virginal nudez. A Madeira é obra de ciclopes, do desencadear brutal de forças enraivecidas e insubmissas, produto de tremendas convulsões submarinas, do pavoroso conflito do fogo com a água. Remontam a longínquas idades geológicas as grandes convulsões geocinéticas que fazem erguer das profundidades abissais uma enorme montanha, sobre cujos planaltos uma outra montanha se levantou, erguendo seus altos picos cinco mil metros acima dos fundos submarinos.
E durante milhares de milénios esta pobre ilha perdida no mar é joguete dessas forças brutais que a modelam e transformam. A custa de levantamentos e de erupções vulcânicas cresce e consolida-se o dorso montanhoso: é o primeiro e informe esboço do corpo da ilha, trabalho gigantesco depois do qual se acalma a fúria criadora. Mas o fogo não se extinguiu no ventre da montanha e irrompe mais tarde em focos vulcânicos periféricos. De novo estremece e se agita a montanha mártir, novas torrentes de lava incandescente se despenham no oceano que referve raivoso em cachões, sob colunas alterosas de vapor, como se o próprio Vulcano, na sua gigantesca fúria, temperasse o corpo candente da ilha na imensa celha do mar.
Misteriosamente findaram um dia, como misteriosamente haviam começado, as convulsões submarinas e a actividade vulcânica; extingue-se, pouco a pouco, o fogo interno, e a ilha transforma-se num corpo frio e inerte, enorme e torturado esqueleto rochoso, manchado de escórias e de cinzas, contra o qual as ondas raivosamente embatem.
Triunfara a obra ciclópica do fogo; porém, esse rochedo é um corpo estranho na imensa superfície líquida, uma mácula, um estorvo ao livre arfar das ondas. E chegou então a vez de a água tentar destruir o que o fogo construíra. Desabam com fragor as falésias corroídas na base pela abrasão; chuvas diluvianas formam torrentes de brutal violência e, como gigantesca garra, a erosão abre vales e desfiladeiros, provoca temerosos desabamentos, morde, dilacera, mutila a montanha e arrasta vitoriosamente para o mar os despojos da luta titânica.
Piedosamente, a vida vegetal surgiu um dia a revestir aquela nudez, a opor uma barreira viva à catastrófica destruição. De sorédios vindos de longe brota o líquen que fabrica as primeiras partículas de solo vegetal; colaboram com a planta os agentes meteóricos na decomposição da rocha; trazem as aves e as correntes oceânicas, em piedosa romagem, as primeiras sementes. Pouco a pouco, um manto ténue de verdura esconde as chagas da ilha desnuda. E durante milhões de anos a evolução prosseguiu até que a floresta se pôde erguer, opulenta e magnífica; e durante milhares de milénios vicejou esplendorosa, envolvida pelo seu manto de bruma.
Um dia chegou, porém, em que a barca da aventura acometeu aquele grande negrume que a ocultava, e logo a acha incendiária flamejou sinistramente para destruir em breve espaço de tempo a floresta prodigiosa que levara milénios sem fim a constituir-se. Em boa verdade, a ilha da Madeira deixou de ser a ilha das florestas no dia em que Zargo e Tristão lançaram o primeiro e cobiçoso olhar para os troncos dos arvoredos preciosos e para o solo fecundo em que a floresta vicejava.
Para mim, na fisionomia da Madeira, ficou sempre gravada a sua origem dolorosa e trágica, e talvez por isso é a Madeira agreste e selvosa, a Madeira da bruma e dos alcantilados cerros, rude, austera e triste, a Madeira que eu melhor sinto e compreendo porque só aí podemos entrever quanto trabalho e quanto sofrimento, quanto esforço houve que despender, e quantas fadigas houve que suportar o homem, para domar os elementos insubmissos, para tornar a ilha lânguida, hospitaleira, amiga, e para conseguir que brotassem da rocha os frutos e as flores, a riqueza e a abundância.
( )
Esta é a Madeira estática, cenográfica, sorridentemente hospitaleira; a ilha mundana que se esforça por atrair e cativar os viajantes. Não é para admirar, por isso, que as singularidades da flora, o exotismo dos frutos, a magnificência da paisagem, os milagres da água, o ambiente edénico apenas dêem ao turista uma impressão epidérmica da ilha.
Ora a Madeira é melhor do que tudo isto: é a epopeia do trabalho, a glorificação do esforço humano. Tão presente está por toda a parte a influência do homem, o fruto magnífico da sua labuta heróica, o rude afago das suas mãos calosas e ásperas, que a paisagem, por assim dizer, se embebeu dessa presença e se humanizou. Por que não admitir que a Madeira tenha uma alma e tenha um coração ? Um coração em que se fundiram os corações de todos aqueles que durante cinco séculos por amor dela lutaram e sofreram; uma alma em que se fundiram as almas de justos e de pecadores, e nobres e de vilões, de escravos e de homens livres de todos aqueles que no decorrer de meio milénio, ou com o esforço rude dos seus braços, ou com a sua inteligência, a sua coragem, a sua fé, e irmanados por um amor sem fim a este palmo de terra, escreveram a mais bela epopeia agrícola de que se pode orgulhar um povo.
A Madeira que nos comove e nos deslumbra é a Madeira heróica, campo de luta do homem contra as forças hostis da Natureza; e para a sentirmos, e para a compreendermos, não vejamos a Ilha do fim para o princípio, do sul para o norte, como é costume, mas do princípio para o fim. Antes do diamante lapidado, apreciemos a matéria bruta que consentiu tal prodígio e debrucemo-nos sobre o titã que realizou tal milagre.
( )
Neste cenário apocalíptico tudo é negro, frio, brumoso e triste. Contra as grandes escarpas basálticas, como infatigável aríete, teimosamente e raivosamente arremetem as ondas, e a orla branca da sua espuma mais faz avultar o sinistro negrume da grande mole rochosa. Nas cumeadas das serranias, quando a bruma se descerra, entrevêem-se as manchas sombrias da floresta primitiva: arvoredos estranhos, verde-negros, cujas folhas jamais amarelecem ao desmaiar do Outono, ou tombam açoutadas pelas ventanias do Inverno. Dos apertados vales de erosão, abertos na escarpa, irrompe a água em torrentes tumultuosas, como que fugida ao contacto grosseiro e agressivo dos rochedos e ansiosa por regressar ao mar natal.
Rochas e água, o eterno conflito do estático com o dinâmico que tragicamente se reflecte na orografia da ilha. A água paciente, ágil, perversa, desgasta e corrói o esqueleto rochoso, hirto, impassível, severo. Como há milhares de séculos atrás, a água móvel parece empenhada em aniquilar a montanha inerte. É a abrasão a corroer as falésias e a provocar os grandes desabamentos; é ainda a própria água do mar que, sob a forma de nuvem, vai condensar-se nas cumeadas das serranias para correr, depois, tumultuosa e devastadora pelas ribeiras. Na costa norte, dir-se-ia que se renovam a nossos olhos todos os atormentados passos da longa história da ilha.
O milagre dos madeirenses foi harmonizar esses elementos hostis, tarefa ciclópica que data de há quinhentos anos, e que hoje prossegue com a mesma coragem e o mesmo ardor.
A orografia insular, até na própria vertente sul a mais favorável aos cultivos agrícolas, claramente mostra que, depois de destruída a floresta natural, só era possível conservar ou recuperar o solo pela construção de muros de suporte que prendessem as terras, e de praticar o regadio dominando a água que corria torrencialmente pelas ribeiras, ou brotava, inútil, nas cumeadas das serranias. Para tanto, havia que lutar com a rocha e que vencer as torrentes.
E o homem, o pigmeu, atacou a montanha. Durante séculos não cessou o trabalho rude da picareta e da alavanca, e à custa de vidas, de suor e de sangue talharam-se na rocha as gigantescas escadarias, sem que o alcantilado das escarpas, a fundura dos despenhadeiros ou a vertigem dos abismos detivessem os passos do titã. Monumento este único no mundo, porque jamais em parte alguma, com tão grande amplitude, tanto esforço humano foi empregado na conquista da terra.
E o madeirense venceu a água o que era torrente perigosa e rebelde, força agressiva e destruidora, sujeitou-se à vontade do homem. E a água corre agora docemente pelas levadas; o estrépito das torrentes transformou-se em brando murmúrio, em terna melopeia de inofensivo e remansoso regato; e a água impulsiva que desgastava a rocha e sulcava a ilha de profundos vales fecundou a terra e permitiu o milagre da vegetação luxuriante e os prodígios da sua agricultura. Pouco a pouco, aqui e ali, as flores surgiram neste cenário grandioso, timidamente se entreabriram, e por fim triunfalmente desabrocharam a coroar, como uma bênção, a obra portentosa dos obscuros heróis.
( )
E o vilão ataca e tritura a rocha para a transformar em solo agrícola; geme sob o peso de enormes pedras para construir um socalco; marinha pelas falésias para conquistar um palmo de terra, mesquinha gleba, pouco maior por vezes do que um ninho de águias alcandorado no pendor de uma fraga. Antes de ser agricu1tor, é cabouqueiro e arquitecto. Labuta de sol a sol e transforma o seu horto, a sua courela, num jardim. Onde a água corre, o agricultor heróico e operoso faz milagres; a levada empurra-o e ele empurra a levada. Novos poios se sobrepõem a outros poios, e assim esse trabalhador humilde, além de transportar sobre os ombros o peso da sua cruz, constrói nos degraus da montanha o seu próprio calvário. É a Madeira sobrepovoada que luta.
Este vilão madeirense, de torso hercúleo, máscara rude e austera, personificação da paisagem, figura de painel quinhentista; o homem que cinzela montanhas, escala abismos e amansa torrentes, é uma figura estranha. Não se deixou vencer pelas seduções traiçoeiras do clima deita antessala dos trópicos que despertam em nós, lusíadas indolentes, sonhadores e sensuais, o horror ao esforço paciente e metódico. A meus olhos, o vilão é um português que teve a coragem de partir a guitarra, aquela guitarra que todos nós trazemos na alma e no coração a consolar-nos, com seus acordes de plangente fatalismo, dos desencantos e dos fracassos da vida.
A luta com a Natureza rebelde fortaleceu-lhe o ânimo suportou durante séculos infortúnios e iniquidades, fomes e injustiças, sem que se alterasse a sua bondade ingénita. Não venceu a rocha apenas com a picareta e a força dos seus músculos, senão com a férrea tempera a sua indómita coragem.
Dir-se-ia que uma força espiritual poderosa o guia e ampara o amor da sua ilha, que nele palpita sempre vivo, exaltado, ardente.
Emigrante em longínquos países, luta, sofre, tem renúncias heróicas, arrosta provações e misérias para realizar o mais ardente sonho da sua vida: regressar à ilha, adquirir a peso de oiro uma parcela mesquinha daquele solo «ingrato e generoso» e fazê-lo frutificar amorosamente com os seus desvelos e o seu suor, os seus cuidados e as suas canseiras. É a conquista da Madeira pelo agricultor, que assim acrescenta a esta epopeia rústica um novo cântico
Para compreender e para amar a Madeira não basta, pois, debruçarmo-nos maravilhados, como poetas, perante a inexprimível e aliciante beleza desta ilha mitológica: rochedo de Ciclopes perdido na glauca e ondeante campina de Anfitrite, e em cujas serranias tenebrosas Flora e Pomona fizeram brotar o horto mimoso e florido, que amorosamente granjeiam, com suas mãos peregrinas, sob o afago tépido de uma perpétua Primavera.
Para compreender e para amar a Madeira, não basta vivermos, como artistas, o deslumbramento deste mundo de beleza; admirarmos a ilha acolhedora, florida, gentil, nos seus jardins magnificentes, na euforia das flores, na sedução e no milagre da paisagem. Não basta que nos detenhamos, comovidos e extasiados, perante a grandiosidade das agrestes serranias, ou a modelação torturada dos montes, e nos deixemos embeber da doce poesia da terra, do mistério da bruma, da melancolia das montanhas verde-negras que emergem das névoas para de novo nas névoas se diluírem, como que a arrastar a nossa fantasia para o irreal, o vago, o sonho. . .
Para amar e para compreender a Madeira, temos que nos debruçar sobre a ilha mártir, sobre o que ela contém de dramaticamente humano, de tenso e de comovente; ver o homem humilde. rude e simples, nas suas mudas angústias, na sua persistência heróica e na sua imensa grandeza. É preciso que o pensamento se detenha um momento sobre esta epopeia rústica, tecida de tragédia, e que nos debrucemos, enfim, num gesto caloroso de solidariedade humana, de compreensão e de enternecida simpatia, sobre a Madeira que moureja porfiadamente para ter mais terra, e para que dessa terra venha a brotar mais pão.
[J. Vieira Natividade, Madeira- a Epopeia Rural, Funchal, 1954, pp.14-17, 28-31, 39-42]